Marco Tulio Resende (Belo Horizonte, MG, 1950) é um pintor, desenhista e professor.
Biografia Itaú Cultural
Estuda artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte, entre 1971 e 1974, onde convive com Amilcar de Castro (1920 - 2002), Sara Ávila (1932) e Lotus Lobo (1943). Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo em 1973. Dois anos depois, faz sua primeira exposição individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, em Belo Horizonte. Entre 1975 e 1979, faz mestrado na School of the Art Institute of Chicago - Artic, Estados Unidos, como bolsista da Fulbright Commission. Ganha o prêmio de desenho no 9° Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, em 1977, e menção honrosa do Fellowship Contest, promovido pelo Artic em 1978. De volta a Belo Horizonte, em 1979, retorna à Escola Guignard como professor. Recebe bolsa do Goethe Institut para estudar na Alemanha em 1990. Em 1998, é convidado a participar como artista visitante da Sheffield Hallam University, Sheffield, Inglaterra.
Análise
Marco Tulio Resende tem uma produção diversificada, trabalha com pintura, desenho, gravura, objetos, instalações e livros-objeto. Sua obra é marcada por um caráter intimista que, segundo o próprio artista, provém da tentativa de se ver no mundo, de se espelhar e se reconhecer nele.
O artista cria livros-objeto, construídos por pinturas e desenhos. Para o artista plástico e crítico de arte Márcio Sampaio (1941), nessas obras Resende escreve também sua própria história: seu trabalho requer do espectador uma grande concentração, para seguir cada um dos momentos de sua vida ali apresentados e para prosseguir em sua leitura. Para Sampaio, as formas que realiza, como osso, martelo, torre, mão, cravo ou flor, aludem a sentimentos vivenciados pelo artista, como perdas, medos, desejos e desistências.
Resende cria obras a partir de materiais do cotidiano, como madeira, tecido, terra, cristais e pedaços de ferro. Segundo a historiadora da arte Aracy Amaral, em Carro, 1999, o artista alude ao meio de transporte por meio de uma construção com madeira e barro, recriado-o assim de maneira precária. Já em Ilha, 1999, apresenta um cesto de madeira fechado por cintas de metal, em cujo interior coloca pedras. Em Jardim, 1999, constrói montes de barro de formato similar sobre uma base de madeira. Os trabalhos geram um certo desconcerto no observador. São imagens não usuais, compostas por objetos com os quais o artista se depara em seu dia-a-dia e que podem alcançar significados diversos. Representam também fragmentos de sua memória pessoal, recuperados em seus trabalhos.
Para o historiador da arte Tadeu Chiarelli, em suas obras sobre papel o artista cria um campo exploratório especifico para a formulação de seu próprio imaginário. Nesses trabalhos, formas amputadas do corpo humano transformam-se em elementos modulares, dotados de forte concentração dramática.
Críticas
"Através de pesquisa contínua, Marco Túlio Resende trava, com a natureza, com as coisas e com os seres, um misterioso diálogo, mediante o qual se efetua uma constante permutação e se estabelece o seu vocabulário, seu monólogo interior denso e severo. Lançando mão de objetos banais, Marco Túlio não pretende dotá-los de nova categoria estética nem nada alterar em sua condição. Não. O artista pretende descobrir a magia das coisas, o rito escondido atrás da máscara, e reinventar o gesto e o olhar. É este o sentido de seu trabalho: dar uma visão nova de coisas que nem enxergamos mais ou ainda: recuperar a mágica das formas relegadas e patenteá-las aos nossos olhos. Esta, talvez, a missão por excelência do artista: não a de alterar categorias estéticas existentes, mas, iluminá-las; não a de criar novas categorias, mas, redescobri-las. Seus trabalhos exprimem bem essa postura: através da síntese e não da análise das formas trabalhadas, o artista realiza o seu jogo, sua razão e sua visão. Cumpre-nos acompanhá-lo em suas ordenações que não pretendem modificar a ordem existente, senão percebê-la, apreendê-la e comunicarmos seu sentido mais secreto. Com suas sugestões de relíquias, de estranhos elementos encantatórios e suas alusões totêmicas, estes trabalhos não se impõem aos olhos do espectador. Eles antes convidam-nos a percorrer um itinerário desconhecido, incerto, mas sempre repleto daquilo que é tão caro ao homem: a descoberta do imponderável, do mistério cuja chave às vezes perdemos mas que sempre almejamos reencontrar".
Affonso Renault (DEZ artistas mineiros. São Paulo: MAC/USP, 1984.)
Acervos e Coleções
Museu de Arte de Belo Horizonte
IBM do Brasil
Sociedade Amigas da Cultura de Belo Horizonte
Fundação Clóvis Salgado
Aeroporto Internacional de Confins
Rede Globo - Minas Gerais
Associação Cristã de Moços - Minas Gerais
Banco Lar Brasileiro
Jornal do Brasil
Banco Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG
Rede Manchete - setor Belo Horizonte
FUNARTE - Rio de Janeiro
Centro Cultural Cândido Mendes - Rio de Janeiro/RJ
Banco Agrimisa
Coleção João Satamini
Coleção Gilberto Chateaubriand.
Prêmios
1971 - Prêmio Aquisitivo - Salão da ACM - Associação Cristã de Moços - BH
1972 - Menção Honrosa - Salão de Arte de Juiz de Fora
1973 - Prêmio Aquisitivo - V Salão de Verão do Jornal do Brasil - RJ
1973 - Prêmio de Proposta - Salão Comemorativo do Centenário de Santos Dumont - Palácio das Artes - Belo Horizonte
1974 - Prêmio de Desenho - IV Salão da Prefeitura de Belo Horizonte
1978 - Menção Honrosa - Fellowship Contest - School of the Art Institute of Chicago - USA
1980 - Prêmio de Desenho - 37o Salão Paranaense - Curitiba/PR
1980 - Grande Prêmio - XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1981- Prêmio de Desenho - III Mostra de Desenho Brasileiro - Curitiba/PR
1984 - Prêmio Fundação Clóvis Salgado - I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
1987 - III Prêmio - I Mostra de Arte Patrícia Maranhão - Belo Horizonte
1987 - Prêmio Aquisitivo no XVIII Salão Nacional da Prefeitura de Belo Horizonte (menção especial do juri)
1988 - Concorrência FIAT - Patrocínio para a exposição coletiva “Um Espelho no Escuro” - Palácio das Artes e Espaço Mascarenhas - Belo Horizonte e Juiz de Fora/MG.
1988 - Prêmios Viagem - Brasil no X Salão Nacional (Funarte/Rio)
Exposições Individuais
1975 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1979 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1982 - Belo Horizonte MG - Individual, na Grande Galeria do Palácio das Artes
1982 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Macunaíma
1984 - Belo Horizonte MG - Individual, no IAB/BH
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, na Gesto Gráfico Galeria de Arte
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaugaleria
1987 - Basília DF - Individual, na Galeria Oscar Seraphico
1987 - Vitória ES - Individual, na Itaugaleria
1988 - Belo Horizonte MG - Marco Tulio Resende: pinturas, na Manoel Macedo Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCCM
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1989 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria Corpo
1991 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaú Cultural
1992 - Vitória ES - Individual, na Galeria de Arte e Pesquisa do Centro de Artes/UFES
1993 - Belo Horizonte MG - Individual, na Kolams Galeria de Arte
1993 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1994 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
1996 - Brasília DF - Individual, na Fundação Athos Bulcão
1996 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Marília Razuk
2001 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
2010 - "Ecce Homo" - galeria da FAOP - Ouro Preto/MG
2011 - Ex-Libris - Galeria Com Arte – Belo Horizonte/MG
2015 - CÓDICE - Do risco ao risco - Museu da Vale - Vila Velha/ES
2016 - AXIS - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - AXIS - Centro Cultural SESIMINAS Ouro Preto/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - OLHO NU - Centro Cultural UFMG - Belo Horizonte/MG
Exposições Coletivas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1975 - São Paulo SP - Coletiva Novas Tendências, no Paço das Artes
1977 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1978 - Chicago (Estados Unidos) - Fellowship Contest da School of the Art Institute of Chicago - menção honrosa
1979 - Rio de Janeiro RJ - 2º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1980 - Belo Horizonte MG - 12º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1981 - Belo Horizonte MG - 8º Salão Global de Inverno, na Fundação Palácio das Artes
1981 - Curitiba PR - 3ª Mostra do Desenho Brasileiro - premiado
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco
1981 - Rio de Janeiro RJ - 4º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1981 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Global de Inverno, no MAM/RJ
1981 - São Paulo SP - 8º Salão Global de Inverno, no Masp
1982 - Belo Horizonte MG - 14º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1982 - Penápolis SP - 5º Salão de Artes Plásticas da Noroeste, na Fundação Educacional de Penápolis. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Penápolis
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Brasília DF - 4 Artistas Mineiros, Itaugaleria
1983 - Campo Grande MS - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1983 - Londres (Inglaterra) - 6 Artists from Brazil, na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London
1983 - São Paulo SP - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1984 - Belo Horizonte MG - 1º Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1984 - Curitiba PR - 6ª Mostra do Desenho Brasileiro
1984 - São Paulo SP - 10 Artistas Mineiros, no MAC/USP
1985 - Belo Horizonte MG - 17º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio aquisição
1985 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Rio de Janeiro RJ - Velha Mania: desenho brasileiro, na EAV/Parque Lage
1986 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Artes Plásticas: sudeste, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - São Paulo SP - 17º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1986 - São Paulo SP - 4º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Fundação Bienal
1987 - Belo Horizonte MG - 19º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1987 - São Paulo SP - 5º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Pinacoteca do Estado
1988 - Belo Horizonte MG - Um Espelho no Escuro, no Palácio das Artes
1988 - Juiz de Fora MG - Um Espelho no Escuro, no Espaço Mascarenhas
1988 - Rio de Janeiro RJ - 10º Salão Nacional de Artes Plásticas, na Funarte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Salão Nacional de Artes Plásticas - prêmio de viagem pelo país
1989 - Bonn (Alemanha) - 6 Artistas Brasileiros, na Galeria Rave
1989 - França - Mostra itinerante Estandartes da Liberdade - Bicentenário da Revolução Francesa
1989 - Recife PE - Minas em Traços Gerais, no Museu de Arte do Recife
1990 - Belo Horizonte MG - Da Forma à Forma - Notícias da Terra 10 Anos Depois, no Palácio das Artes
1990 - Freiburg (Alemanha) - Aspectos da Arte Latino-Americana, na Ruta Correa Galerie
1990 - São Paulo SP - 21º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1991 - Belo Horizonte MG - BR/80: pintura Brasil década 80, no Núcleo de Informática e Cultura Belo Horizonte
1992 - Belo Horizonte MG - Utopias Contemporâneas, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1994 - Belo Horizonte MG - Cor e Luz, na Cemig Galeria de Arte
1994 - Belo Horizonte MG - Guignard: 50 anos de uma escola de arte, na Galeria Vidyã
1995 - São Paulo SP - Minerações, no LR Escritório de Arte
1996 - Freiburg (Alemanha) - Coletiva, na Ruta Correa Galerie
1998 - Belo Horizonte MG - Terra e Mar a Vista, no Itaú Cultural
1998 - Brasília DF - Cien Recuerdos para Garcia Lorca, no Espaço Cultural 508 Sul
1998 - Brasília DF - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - Penápolis SP - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - São Paulo SP - Viagens, no Itaú Cultural
1999 - São Paulo SP - Arte Brasileira sobre Papel na Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - São Paulo SP - Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Marco Tulio Resende, na Marília Razuk Galeria de Arte
2000 - Belo Horizonte MG - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Fundação Clóvis Salgado. Companhia de Dança de Minas Gerais
2000 - Belo Horizonte MG - Presente de Reis, na Kolams Galeria de Arte
2000 - Leiria (Portugal) - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Galeria57 - arte contemporânea
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Niterói RJ - Diálogo, Antagonismo e Replicação na Coleção Sattamini, no MAC/Niterói
2002 - São Paulo SP - 10 Anos Marília Razuk, na Marília Razuk Galeria de Arte
2003 - Rio de Janeiro RJ - Projeto Brazilianart, na Almacén Galeria de Arte
2003 - São Paulo SP - Coletiva Marília Razuk Galeria de Arte, na Marília Razuk Galeria de Arte
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria Lemos de Sá – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Capolavoro – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva “Quadrantes” – Galeria de Arte Casa da Cultura Estácio de Sá – Belo Horizonte/MG
2010 - "Quando a argila fala" – Galeria do BDMG Cultural – Belo Horizonte/MG
2011 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria da FIEMG – Ouro Preto/MG
2011 - Encontros Cerâmica - Galeria do Centro Cultural de Contagem - Contagem/MG
2012 - Galeria de Arte da Cemig - “60 x 20” – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Noite da Cerâmica – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Livros de Artista– BH
2013 - Mac – Museu de Arte Contemporânea do Paraná – “Cor, Cordis”, mostra do acervo – Curitiba – PR
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - “Não Há Estagnação - Apenas Movimentos Tempestuosos” - MUSEU MINEIRO BH/MG
Fonte: MARCO Tulio Resende. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: >. Acesso Itaú Cultural: 16 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Histórico - Site oficial Marco Tulio Resende
Formado pela Escola Guignard - UEMG (1971/74), fez mestrado na School of the Art Institute - Chicago (1975/78) como bolsista da Fulbright Comission. Professor da Escola Guignard - UEMG a partir de 1979. Artista visitante na UFMG e na Sheffield Hallam University - Inglaterra (British Council). Bolsa Goethe Institut – Alemanha (1994). Proferiu palestras e oficinas em vários festivais de arte, UFMG - Minas Gerais, UFES - Espírito Santo, SESC - São Paulo. Participou da Bienal de São Paulo - 1973 e Panorama das Artes - São Paulo -1986 e do projeto / residência Faxinal das Artes- Paraná 2003. Obteve vários prêmios, entre outros, o grande prêmio do Salão da Prefeitura de Belo Horizonte - 1981 e prêmio de viagem no Salão Nacional - FUNARTE - 1988. Expõe regularmente desde 1978, individual e coletivamente, tendo realizado mostras em espaços institucionais como Palácio das Artes, MAP - Belo Horizonte, Centro Cultural Light - Rio de Janeiro, Paço das Artes, MAM e Itaú Cultural - São Paulo, Santander Cultural - Porto Alegre e em galerias como Ana Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, Marília Razuk - São Paulo, Ruta Correa – Freiburg / Alemanha, Manoel Macedo, galeria Gesto Gráfico, galeria kolams - Belo Horizonte, entre outras. Participou do projeto “Ano do Brasil na França” 2005 - Brasil herança africana - Museu Dapper - França/Paris.
Cronologia
1950 - 1979:
Formou-se em artes plásticas pela Escola Guignard da Universidade de Minas Gerais (UEMG) em 1974, onde estudou com vários artistas, entre eles, Amilcar de Castro, Sara Ávila e Lotus Lobo. Quando estudava na Escola Guignard participou do III Salão Nacional de Arte do Museu de Arte da Pampulha e foi premiado no Salão da Associação Cristã de Moços, em Belo Horizonte (1971). Ainda como estudante universitário toma parte, nos anos seguintes, do IV e VI Salão Nacional de Arte Universitária da UFMG, realizados em Belo Horizonte.
Em 1973 participa da XII Bienal Internacional de São Paulo e é premiado no V Salão de Verão do Jornal do Brasil, realizado no MAM do Rio de Janeiro. Em 1975 integra a coletiva NOVAS TENDÊNCIAS, organizada no Paço das Artes, em São Paulo e realiza sua primeira individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos de Belo Horizonte, onde mostrou uma série de desenhos. Fez o Curso de Mestrado na School of The Art Institute of Chicago como bolsista da Fulbright Comission (1975-1979), quando teve a oportunidade de conhecer o Prof. Dr. Bob Loescher, especialista em Arte Ibérica e Latino-Americana, que foi de grande importância em sua formação. Como orientador de Mestrado, Bob Loescher ajudou o artista a melhor perceber a dimensão da arte contemporânea, assim como aprofundar a visão de suas raízes e de sua cultura no contexto da Arte Brasileira. Marco Tulio desenvolveu reflexões sobre seu trabalho e uma série de desenhos, intitulados TORDESILHAS, buscando integrar a teoria e a prática artística. Durante esta época recebe o Prêmio de Desenho no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e a Menção Honrosa do Felowship Contest – School of the Arte Institute of Chicago, nos Estados Unidos (1978). Retornando à Belo Horizonte, em 1979, realiza duas exposições individuais: na Galeria do ICBEU, onde apresentou a série TORDESILHAS e na Galeria da Biblioteca Pública, em que mostrou trabalhos experimentais com intervenções fotográficas.
1980 - 1989
A década de 80 marca o encontro de Marco Túlio com sua geração e a participação em várias coletivas com os artistas: Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Humberto Guimarães, entre outros. Em 1980 participa da coletiva NOTÍCIAS DA TERRA, quando apresentou sua nova fase de objetos voltada para as referências urbanas. A exposição teve a curadoria do artista e crítico Márcio Sampaio, Diretor de Artes Plásticas da Fundação Clóvis Salgado e catalisador dos jovens artistas de Belo Horizonte. Neste ano, participa do Salão Nacional do Rio de Janeiro e recebe o Primeiro Prêmio no XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte com uma série de desenhos e objetos denominada URBANÁLIA. Esta série, revelando a ritualização da precariedade urbana, sinalizou o tom de sua poética.
Em 1981 integra a coletiva no Centro Cultural em Brasília, participa do Salão Nacional no Rio de Janeiro e recebe o Prêmio de Desenho na III mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba. Em 1982 realiza exposições individuais na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro; e na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde mostrou pinturas e objetos, desdobramentos da série URBANÁLIA. Neste ano é artista convidado para integrar o V Salão de Artes Plásticas do Noroeste, realizado em Penápolis, e participa do XIV Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
Em 1983 é convidado a participar do Arte Global (vídeo-expo), realizado na Fundação Clóvis Salgado, com o patrocínio da Rede Globo, e da coletiva 6 ARTISTS FROM BRAZIL, com artistas professores da Escola Guignard, realizada na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London, na Inglaterra. Participa da coletiva DEZ ARTISTAS DE MINAS, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, com curadoria de Mário Sampaio e da VI Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba, ambas em 1984. Ainda este ano, recebe o Prêmio de Pintura no Salão de Arte, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Realiza, também, exposição individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em Belo Horizonte, onde apresentou pinturas em grandes formatos.Participa de significativas exposições coletivas: VELHA MANIA, organizada por Marcus Lontra, no Parque Lage, Rio de Janeiro (1985); 08 ou 80 na Universidade Fluminense, em Niterói (1985); BRASIL/PINTURA/HOJE, na Galeria Oscar Seraphico, em Brasília (1986/87); e PANORAMA DA PINTURA BRASILEIRA, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (1986).
Em 1986, realiza várias individuais, em Belo Horizonte, na Galeria Gesto Gráfico, onde apresentou uma nova série com seus primeiros recortes, intermediários entre a pintura e o objeto; na Sala Corpo de Exposição e na Itaú Galeria de Arte, ocasião em que apresentou a série de DIÁRIOS, registros resultantes de suas pesquisas e vivências.Com os DIÁRIOS recebe o Prêmio Aquisitivo no XVII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1987) e o Prêmio Viagem ao Brasil no X Salão Nacional da FUNARTE, no Rio de Janeiro (1988). Participa, ainda, do V Salão Paulista (1987) e da exposição coletiva UM ESPELHO NO ESCURO, projeto premiado pela FIAT Automóveis.Em 1988, realiza individuais nas galerias Anna Maria Niemeyer e Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ) e na Manoel Macedo Galeria de Arte, em Belo Horizonte.1989: marca sua participação em importantes coletivas: ESTANDARTES DA LIBERDADE, exposição itinerante pela França, organizada pela Aliança Francesa, em homenagem ao Bicentenário da Revolução Francesa; CADA CABEÇA UMA SENTENÇA, mostra itinerante pelo Brasil, coordenada por José Alberto Pinho Neves e Arlindo Daibert; MINAS EM TRAÇOS GERAIS, apresentada no Museu de Arte de Olinda - PE, SEIS ARTISTAS BRASILEIROS, com a participação de Karen Lambrecht e Marco Gianotti, realizada na Galeria Raue, em Bonn, na Alemanha.
1990 - 1999
Marco Tulio inaugura os anos 90 com uma mostra individual na Galeria Corpo, em Belo Horizonte e da exposição coletiva DA FORMA À FORMA (Notícias da terra 10 anos depois), realizada na Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte, com a curadoria de José Alberto Nemer, onde apresentou o resultado de dez anos de pesquisa e experimentação com pinturas e recortes em grandes formatos. Recebe Bolsa do Goethe Institut, para estudar na Alemanha, ocasião em que participou da coletiva ASPECTOS DA ARTE LATINO AMERICANA, realizada na Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1990).
Em 1991 participa da coletiva ABSTRAKT, na Galeria Ruta Correa, em Freiburg. Toma parte no Projeto BR 80, que consistiu em workshop e mostra, referentes à pintura brasileira na década de 80. O projeto foi organizado pelo Instituto Itaú Cultural, com a curadoria de Frederico Morais e Márcio Sampaio, e a participação de vários artistas brasileiros.Na década de 90 consolida sua carreira artística com várias individuais: Galeria Manoel Macedo, em Belo Horizonte (1991); Galeria da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória (1992); Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio de Janeiro (1993); Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1993/99); Galeria Marília Razuk, em São Paulo (1993/96); Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1996); Galeria Corpo, em Belo Horizonte (1997); e Galeria Referência, em Brasília (1998).Participa também de diversas coletivas: MINERAÇÕES, no LR Escritório de Arte, em São Paulo (1995); artista convidado para participar do Projeto FACHADAS IMAGINÁRIAS, realizado no Rio de Janeiro e São Paulo, com a participação de 100 artistas internacionais, curadoria de Fhilippe Mouillon (1996); PEDRA SABÃO, organizada pela Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1997); A FORMAÇÃO DA ARTE CONTEMPORÂNEA, realizada no Museu de Arte da Pampulha, com a curadoria de Marília Andrés Ribeiro, em comemoração ao centenário de Belo Horizonte (1997); TERRA E MAR À VISTA, promovida pelo Projeto Viagens do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, com a curadoria de Agnaldo Farias (1998); Projeto ARTE EM MOVIMENTO, realizada no SESC Pompéia, em São Paulo, também com a curadoria de Agnaldo Farias e participação de Nelson Leirner, Iole de Freitas, Paulo Pasta, Carlos Fajardo e Gil Vicente (1998); Centro Cultural UFMG - 10 anos, coordenada por Fernando Pedro e Marília Andrés (1999) e Objetos, Galeria Marília Razuk, São Paulo (1999).Toma parte no programa Artista Visitante, da Escola de Belas Artes da UFMG, compartilhando a oficina com Humberto Guimarães e Orlando Castaño (1996/1997).Em 1998 é convidado a participar, como artista visitante, da Sheffield Hallam University, integrando o programa de intercâmbio entre a Escola Guignard e a Universidade Inglesa, promovido pelo Conselho Britânico.
2000 - 2014
Marco Túlio participa de importantes coletivas: Galeria 57, Leiria - Portugal (2000); DIÁLOGO, com Manfredo Souzanetto, Centro Cultural Light, Rio de Janeiro (2001); Galeria Manoel Macedo, Belo Horizonte (2001); DIÁLOGOS, TANGENCIANDO AMILCAR, no Santander Cultural, Porto Alegre (2002), com curadoria do crítico Tadeu Chiarelli; Galeria Marília Razuk, São Paulo (2003). Nesse ano participa também do Projeto Residência Faxinal das Artes, no Paraná. Em 2005 é convidado para participar da exposição BRÉSIL, I’ HÉRITAGE AFRICAIN do projeto França-Brasil no Musée Dapper, Paris. No ano seguinte na Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte – MG, participa da exposição MURILIANA: Murilo Rubião 90 anos e da exposição PICTÓRICA. Em São Paulo no Instituto Tomie Ohtake no ano de 2007, integra a exposição 80 90 MODERNOS PÓS MODERNOS ETC; neste mesmo ano na Fundação Clóvis Salgado, exposição IMPRESSÕES DIVERSAS, coordenada pela artista gravadora Thaïs Helt. Individuais: Galeria de Arte da CEMIG, exposição ETCOETERA, Belo Horizonte - MG (2008); Galeria de Arte Nello Nuno, exposição ECCE-HOMO, Ouro Preto-MG (2010) e Galeria LivroBjeto, exposição EX-LIBRIS, Belo Horizonte - MG (2011). Participou da Feira ArteBA em Buenos Aires – Argentina, Galeria Lemos de Sá (2011). Em 2012 participou da exposição LIVROS DE ARTISTA na Galeria LivroBjeto em Belo Horizonte e foi convidado pela TV Assembléia/MG para prestar um depoimento sobre sua trajetória artística, exibido no programa "Memória e Poder".
Textos críticos
"A prolífica obra de Marco Túlio Resende é proveniente de sua obsessão em registrar tudo o que acontece, tudo com o que ele se depara em seu cotidiano como também fragmentos daquilo com que já se deparou e que, no entanto, por resistir a desaparecer, ainda sobrevive incólume na memória; algo que eventualmente será reanimado pelo que está sendo contemplado agora e que a ele irá se juntar, sobrepor-se, alterando-a inevitável e definitivamente.
As coisas afinal, não existem a não ser por nós, o que é o mesmo que dizer que vivem comprimidas entre o nosso passado e o nosso futuro. Trata-se de um projeto destinado à incompletude, sentimento que de resto atravessa todas as nossas vidas com sua sucessão de acidentes e atitudes cuja a finalidade não logramos alcançar. Marco Túlio desenha, registra em traços rápidos, executados em linhas grossas, o que lhe vai na lembrança ou mesmo o que agora está passando no meio da procissão que o cotidiano despeja sobre suas retinas. O problema pode ser formulado da seguinte maneira: afinal o que sobra de tudo? Como reter e o que reter das coisas? Como obter das coisas um pouco de quietude, dado que elas não cessam de se movimentar? O apego a tudo reveste-se de um desejo de conhecimento. Desenhar, como se sabe, é reduzir a coisa ao seu esquema, seu nervo: sua estrutura, os ossos que esteiam a construção e a superfície que lhe garante os limites.
E porque tudo interessa e porque de tudo só se pode reter fragmentos é que sua obra trata de bocados, resíduos e frações de imagens, resíduos e frações das coisas. Para tanto o artista se vale de uma surpreendente quantidade de instrumentos e processos, posto que para falar de algo tanto vale o que resulta de um gesto quanto a ferrugem que espontaneamente vai aflorando na superfície de pedaço de ferro, parte de algo que não se pode mais identificar mas, que devidamente contextualizado, presta-se a ser carregado de mistério e sentido. Identificar e oferecer utilidade às coisas equivale a salvá-las do esquecimento a que estão condenadas.
Nesse sentido, o tempo é uma dimensão inelutável. Nossas experiências vão sendo – mal – acondicionadas até o momento em que toda memória é uma barafunda, em que tudo se mistura e cuja ordenação dá margem, como um dia disse Pedro Nava puxando por Proust, a um mosaico fraturado e desconexo, onde as coisas que outrora incompatíveis no tempo e no espaço comparecem alinhavadas umas às outras, deixando aqui e ali, nos seus interstícios, vastos vazios lacunares. O extraordinário, diz Marco Túlio, é que enfrentamos o agora precariamente armados com a memória. E aquilo que agora vai fugindo, que me escorre por entre os dedos é ainda assediado por lembranças de outras coisas.
A nostalgia – afinal, por que não esquecemos de tudo? – se interpõe entre mim e as coisas, o que equivale a dizer que eu mesmo me interponho entre as coisas. Fernando Pessoa não se perguntava sobre quem era aquele que respeitava por seus olhos? Marco Túlio Resende faz pinturas, desenhos, gravuras, objetos, instalações, livros...Tudo interessa, tudo “provém da tentativa de me ver no mundo, de me espelhar e reconhecer através da pegada, do rastro da passagem e sucessão de momentos” O artista comporta-se como um expedicionário cuja ambição é não deixar nada de fora e que para tanto confecciona um diário polimórfico. Uma coleção insuspeita de meios e estratégias dado que do mesmo modo que as coisas são irredutíveis entre si, nenhuma forma pode substituir a outra."
— Agnaldo Farias (O Diário do Diverso)
"Inventário do abandono é o nome da obra (será mesmo uma obra?) em processo, uma combinação de armários e estantes desiguais, que preenche praticamente toda a parede da esquerda do atelier de Marco Tulio Resende, melhor dizendo, aparede do fundo, considerando-se que ela fica no extremo oposto da entrada do salão largo e pouco profundoque ele transformou em oficina, depósito, escritório, sala de estar e até mesmo confortável dormitório. Situado sob um pequeno conjunto de lojas num aprazível bairro de Belo Horizonte, construídoa beira de um terreno íngreme, o ateliê de agora resultou de um espaço perdido, abaixo do piso das lojas, invisível aos olhos dos passantes e moradores, que o artista comprou, reformou, transformando-o nos vários espaçosmencionados, além de um belvedere privilegiado cuja vista dá para o casario entorno, esparramado pelas laterais de umadas montanhas onde a capital mineira foi implantada.
Inventário do abandono nasceu como que por acaso e aos poucos. Foi sendo produzida despretensiosamente, sem que o artista soubesse no que ia dar, sem projeto e planejamento, sem propriamente uma intenção. Um depósito resultante do acúmulo de coisas disparatadas que ele, movido por fascínio e afeição a manifestações singelas e incomuns, binômio que com esse ajuntamento termina por provar que se trata de uma particularidade de quase todos os objetos existentes, foi catando aqui e ali ao longo dos anos, juntando ao núcleo inicial que possivelmente reteve de sua própria infância, daquilo que, mais crescido, foi resgatando de sua família, da casa dos pais e irmãos, de amigos, e que foi se somando ao colhido em suas inúmeras viagens, das internacionais as domésticas, das frequentes incursões pelo interior de Minas, pelas serras, roças, pela imensa Minas histórica, como também pelas vilegiaturas em BH, as caminhadas ociosas, as saídas cotidianas para as compras caseiras em supermercados, padarias, postos de gasolina, outros locais que mecânica, diária e desatentamente atravessamos, mas não ele, pois é evidente que sua atenção nunca baixa a guarda, movido pela nítida certeza de que a alegria e a surpresa podem acontecer agora. Marco Tulio deixa-se atrair por tudo quanto é coisa, variada quanto a forma e finalidade, sobretudo por aquilo que displicentementese acomoda nas lojas de artesanato, armarinhos, armazéns de secos e molhados, mercados, bancas de jornais, de camelôs, na qualidade de subproduto, de escolho, detritos que a grande máquina industrial vai deixando a margem enquanto roda pesadamente.
Apesar da aparente barafunda das prateleiras, passando-se os olhos nota-se que tudo está relativamente organizado em filas e agrupamentos, e que há uma evidente predominância de bichos sob a forma de enfeites, miniaturas, brinquedos e, em número maior ainda,representações humanas. Uma multidão de bonecos, fetiches religiosos, relicários, estatuetas, ex-votos, cabeças e bustos de manequins, homenzinhos e super-heróis em miniaturas, realizados em madeira, barro, metal e plástico, acotovelam-se entrefotografias variadas, de si, da família, de obras do próprio artista, cartões postais, além de objetos de uso direto – peças de roupas variadas, adereços como colares e faixas-, utensílios e artefatos -instrumentos musicais, máquina de escrever, chaves-, entre tantos outros passíveis de serem manipulados.
O importante é abrir-se ao mundo, diz-nos as estantes superlotadas que perfazem esse Inventário de Marco Tulio, que se religam ao passado através dos objetos que um dia, o artista ou qualquer um de nós que compartilha o mesmo universo imaginário, admirou-se deles, ingenuamente cultuou-os ou apenas os utilizou. Olhar para esses objetos, reconhecer sua procedência ou simplesmente sua identidade, significa religar-se a eles no momento em que se os vê, no presente, posto que estão ali, à mão. A comunicação com essa sorte de objetos leva ainda, claro que mais ainda ao artista, responsável pela reunião sistemática e incansável daquilo tudo, uma comunhão comseus desconhecidos autores, uma tentativa de compreensão, um elo com aqueles que, produzindo-os, tiveram a intenção, mesmo que desajeitada, de agradar, entreter, insistir em lembrar a existência de um mundo ao lado deste em que vivemos, voltado ao encantamento, a brincadeira e também à uma dimensão mágica. Uma realidade paralela ou camada imaginativa abaixo do chão cotidiano, cujo acesso só acontece quando nos abandonamos a contemplação ou eventual manipulação desses objetos, e por força da potência que deles emana."
— Agnaldo Farias (Inventário do Abandono)
"Mergulhada na penumbra, ao fundo do atelier, uma extensa prateleira transborda. Objetos, materiais semi-destruidos, fragmentos e detritos de coisas que, de tantas perdas, perderam também sua identidade, de tanto se conjugarem, criaram novos sentidos. Acomodaram-se em seus lugares, imunes à saturação exterior, para cumprir, em silêncio e aparente imobilidade, seu compulsório destino. Res antiquissimae, que a atenção do artista – mais afetiva do que seletiva – foi reunindo ao longo dos anos, ali se transformaram em símbolos e arquétipos, e agora, nas linhas da estante, constroem em texto, uma história.
São testemunhos e substância dos dias que se contavam vagarosamente; as coisas que, acumulando a poeira do perdido, fazem ressoar, do fundo da memória, aqueles outros dias interiores, consumidos, que a este iluminam em obra de prestidigitação. Saber sua presença, já é experimentar a vida continuum, é capitalizar a riqueza interior com que construímos nossos aparelhos de percepção do mundo. Lá, naquele território densamente ocupado, as coisas na verdade estão vivas. E pulsam, em espera tensa, como que “conscientes”, anunciando outros sentidos delas vagarosamente porejam e se derramam pelo espaço da memória.
Na linha fronteiriça entre as coisas reais e as imaginadas, o desenho e a pintura de Marco Túlio Resende definem esse outro espaço, o lugar onde tudo é premência e iminência, lugar da lucidez e do desejo (da paixão), onde o artista grava sua poética iluminada experiência antecipada do futuro, que lhe permite detonar e pulverizar o sentimento de catástrofe que hoje imanta o mundo.Hábeas Corpus – declara Marco Túlio, no título de um de seus livros-objetos. “Tens o corpo”, e todas as sanções que lhe infringe a autoconsciência, a consciência desventurada, devem ser denunciadas e comutadas. A consciência que desenha o limite das suas faltas, impulsiona o artista para a experiência mais profunda, que o faz descartar a simples exibição de seu saber, para, com esse domínio do oficio, buscar um sentido, não do fazer, mas do ser.
Desde há muito, a obra de Marco Túlio se dispõe como texto progressivo, sempre a somar – com extratos da memória – sua história feita de intuições, que se enredam numa intrincada malha de acasos provocados. A principio, sua atenção concentrava-se nos relevos do cotidiano, na constelação de objetos e materiais que crispavam nosso olhar urbano. Refugados e humilhados, os resíduos descartados de seu uso natural, que o artista transformava em signos, para compor – por uma articulação precisa de cor, matéria, forma – um signódromo, depósito de sinais que conduziriam em suspensão pelas vias ásperas da rotina, ajudando-nos a redimir-nos do sentimento da perda produzido pela evidência dessas inutilidades que se acumulam, como cerco cruel, em torno de nós.No texto atual, construído com outros signos que são pré-figurações das coisas, projetadas desde o passado, - lá onde se gestam os mitos – fluem outras imagens, ora precisas, ora veladas; umas como substância da forma, outras, o vazio, a sua falta e sua sombra.
O corpo que temos, feitos de soma e subtrações: escultura; lapidação, corrosão, ou a construção; contração, concentração, expansão e dispersão; densidade e transparência. Espantado diálogo entre o sim e o não: porém, sempre se gravará em um, a tatuagem do outro.Nos livros-objetos, construídos com pinturas e desenhos, cada página que se passa é reiteração desse sentimento do tempo promulgado – e o gesto que de passa-las lentamente constitui uma aventura profundamente dolorosa e ao mesmo tempo venturosa. Porque Marco Túlio vai escrevendo sua própria história, e a dos dias e sua substância trágica e magnífica. É preciso uma concentração enorme para seguir cada uma das suas horas ali gravadas e prosseguir na sua lenta leitura. Se vemos desenhados na superfície das páginas, osso, martelo, torre, mão, cravo, flor, a tinta que tinha ressalta essas formas, diz terra, labor, sangue, desejo, desistência, e mais a diante, afirma seiva, fruto, divino, luz. Essa amorosa combinação que extrai a cada tempo, descortina paisagens, vivências; anuncia perdas, medos, e ao fim assina nosso compulsório duplo contrato com Deus e Mefistófeles, do qual resultará uma juventude retomada e que, provada na maturidade, desejamos a todo custo preservar.
É desse corpo do Humano anunciado nas páginas dos livros, que se projetam nas grandes telas as imagens feitas objetos, mas estes apenas se enunciam como sombras, longínquas sobras repetidas, recorrentes. Pois não são, senão, figuras divisadas na terceira face do espelho, onde tudo ao se dispersar mais se concentra? Nesse lugar que se chama Arte, onde as coisas, todas as coisas, recortadas e dadas pelo coração, se fazem em acordo na fundação de tudo que se persiste em nós, como ponto e estame de religação com o divino, construindo a possibilidade de explicação do inexplicável. Essas coisas que, de tão existidas, desistem e se desfazem, para permitir ao artista, na maturidade, recompor o sentido de sua presença – em última instância estão ali como confirmação de nossa permanência mais além do porto transitório da História.
— Márcio Sampaio (Os Termos do Corpo e das Coisas )
"Nada é humano no universo ininteligível fora dos rostos nus que são as únicas janelas abertas ao caos de aparências estranhas ou hostis. O homem só sai da solidão insuportável, no momento em que o rosto de um de seus semelhantes emerge do vazio de todo o resto. Mas a máscara o devolve a uma solidão mais terrível. (...) Ora a máscara possui ainda a força de aparecer no limiar desse mundo calmo e sossegado do tédio como uma obscura incarnação do caos (...) Pois a máscara é o caos feito carne.
Coleção de cabeças esculpidas em cerâmica. Cabeças como máscaras. Elemento religioso presente entre os ex-votos e as esculturas africanas. A cabeça esculpida parece catalogar figuras cujas formas fazem transparecer pela matéria o lado oculto e obscuro das almas. Antropopoética visual, onde o humano é representado num conjunto de multiplicidades possíveis em suas máscaras.
Cabeças concebidas como iguais, mas antropomorficamente diferentes. O artista faz laço ontológico entre a dimensão da forma e a do sensível, ou ainda, entre o mundo mítico e o mundo dos homens. Totens esculpidos contemporaneamente.
Prova do dilaceramento, essas cabeças nos remetem ao inicio do século 20. Ao acéfalo, o homem decapitado que Georges Bataille e André Masson nos mostraram em 1936, na revista que tem o mesmo nome. (Monstro arcaico encontrado em mitologias e em bestiários.) Não só no imaginário modernista e pós-modernista encontramos a decomposição da figura humana. As metamorfoses da forma humana são exploradas d e diferentes modos. Marco Tulio Resende nos remete à consciência da impossibilidade de fixar figuras humanas ainda hoje, pois o humano continua sob ameaças violentas.
As cabeças do artista são profundamente inquietantes. Elas são marcadas pela violência de épocas variadas, Perderam narizes, bocas... desfiguraram-se. São partes dos restos do homem.
É nesse mélange onde os volumes exprimem formas que Marco Tulio Resende repete diferençando e contratando na cerâmica os voti de cera dos ex-votos. Por outro lado, essas cabeças vão além do simbólico. Elas apresentam um a mais de sentido, um surplus de forma. Impressões de violência ou de dor dramaticamente despertada pela presença de pregos, pontas..."
— Vera Casa nova (Cabeças, cabeças, cabeças, faces, faces, faces, máscaras, máscaras, máscaras)
"O Instituto Itaú Cultural abriu em São Paulo a exposição “Terra e Mar à Vista”, resultado de projeto especial que reúne 11 artistas, entre os quais o mineiro Marco Túlio Resende, pintor e professor da Escola Guignard. Contando com o patrocínio do Instituto Itaú, a primeira etapa do programa, em janeiro, compreendeu uma viagem do grupo à Serra do Mar. Ali, os artistas conheceram a Estrada Velha de Santos, antigo Caminho do Mar, também chamado de Calçada de Lorena nos primórdio do Brasil e complexo industrial de Cubatão, uma das regiões mais poluídas do País.
Os escultores Artur Lescher e Anarrê Smith, os desenhistas Alexandre Nóbrega e Maria Teresa Louro, o Fotógrafo Nelson Kon e os pintores Dudi Maia Rosa, Fábio Cardoso d Almeida, José Spaniol e Marco Giannoti, todos de São Paulo, o desenhista Alexandre Nóbrega, de Recife, o fotógrafo Luiz Braga, de Belém do Pará, e Marco Túlio Resende, sob a coordenação do curador Agnaldo Farias apresentam, agora, o resultado da viagem ao Caminho do Mar, revelando diferentes visões e abordagens.
O quinto centenário do achamento do Brasil pelos portugueses suscita essa retomada ou reconstituição de itinerários, e foi este, exatamente, o sentimento do pintor mineiro ao conceituar sua proposta de trabalho. Marco Túlio Resende lembrou-se das expressões latinas “terra incógnita” e “finis terrae” escritas em antiqüíssimos documentos cartográficos, indicando nos primeiros mapas do Brasil, territórios ainda desconhecidos e inexplorados como o que iria palmilhar, ao descer a Serra do Mar entre as lembranças das peripécias de jesuítas, donatários e índios aguerridos e o impacto da poluição em que se chafurda miseravelmente a zona de Cubatão.
O artista entra em confronto direto com as contradições do País, escancaradas naquela viagem breve. De um lado a calçada por sobre a trilha quinhentista que galga a muralha da Serra do Mar foi a primeira porta do Brasil. Deu passagem à civilização euro-cristã recém-desembarcada rumo aos sertões para além do horizonte alado. Abriu caminho para o ouro, atrás do Paraíba e da Mantiqueira, para as Minas além do som Minas Gerais (Carlos Drumond de Andrade). De outra parte, o inferno poluído de Cubatão, que ali vomita fogo e fumaça, é cloaca e emblema dessa civilização que se chama Brasil. Legiões de miseráveis se abrigam em barracos na ravina, ao largo dos monumentais tanques cilíndricos e das chaminés desesperadas. Junto ao velho Caminho do Mar, gigantescos tubulões de uma antiga usina hidrelétrica geometrizam a paisagem. Natureza e construção, vida e caos.
Em três telas grandes dimensões, Marco Túlio Resende demarca um território de questionamento essencialmente plástico, em que suas emoções diante dos desafios se expressam através de texturas e veladuras, formas rarefeitas e signos raros pontuando a pura matéria pictórica. O tríptico se projeta no imenso livro pousado sobre uma mesa. Na capa pesada, evocação de livros imemoriais, as palavras Finis Terra.
O livro é feito de páginas de tela, nas quais o pintor-viajante narra o périplo com depuração e sutileza. Não se trata do registro óbvio ou mesmo referencial, mas de uma sucessão fascinante de imagens em que se vê, o pintor monta um diário e nele imprime sua linguagem ágrafa, sua escrita de manchas e aguadas, e nos transmite a inquietude dramática daqueles cenários devastados e de uma história de fim de mundos.
Marco Túlio Resende encontra a grande pintura no Caminho do Mar. Esta é a sua sesmaria na “terra brasiliae”, no “finis terrae” ignoto a ser desbravado. É a sua lavoura, sua mineração. E é bom ver que, entre tantos desastres, a civilização do Brasil continua a gerar artistas sensíveis e atentos às tragédias de que somos feitos, plantando no carrascal a semente da cultura que sobrevive e vinga."
— Ângelo Oswaldo (Um pintor no fim de mundos)
Fonte: Site oficial Marco Túlio Resende, consultado pela última vez em 26 de abril de 2020.
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Marco Tulio Resende resume em livro 35 anos de intenso trabalho criativo
O artista plástico e professor questiona temas como vida e morte e a percepção do mundo
Marco Tulio Resende dedicou 35 de seus 64 anos ao ofício da arte. Essa trajetória está registrada no livro que leva simplesmente seu nome, organizado por ele, Renato Morcatti e Márcia Larica e lançado recentemente pela editora mineira C/Arte ( 206 páginas, R$ 60). A publicação apresenta um panorama do processo de criação do artista mineiro, cuja obra reúne pintura, instalação, desenho e objeto. Marco Tulio revela que faz, desfaz e refaz suas peças jogando com erros, acidentes e acertos surgidos nessa jornada. “Talvez tudo seja um grande diário, construído quase como instinto de sobrevivência”, suspeita. “Minha arte está ligada à memória, mas não só a memória afetiva.”
A matriz é o desenho, que pode gerar pinturas, peças gráficas ou objetos. As obras de Marco Tulio trazem a interpelação de situações e temas ligados à vida e à morte, além de questões alusivas ao tempo e à percepção do mundo. ”Somos o que somos devido ao que vivenciamos e guardamos ao longo da vida”, afirma. “Certa vez, li que o homem tem medo do objeto que não tem nome. Concordo. O que faço é nomear, renomear e ressignificar as coisas.” Para ele, pouco importa se isso se dá com abstrações ou figurações, de modo mais subjetivo ou objetivo.
Marco Tulio explica que suas evocações a signos, letras e textos são uma tática para criar estranhamentos a partir da briga da palavra com a forma. O processo de criação, resume, ”é experiência o tempo inteiro”. Vera Casa Nova, pesquisadora em poéticas visuais e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o crítico de arte e curador Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), assinam os textos do livro.
Exercitando o olhar
Professor de desenho da Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), onde ele próprio estudou, Marco Tulio Resende nasceu em Belo Horizonte em 1950. Iniciou suas atividades no fim da década de 1970. “Diferentemente da geração anterior à minha, cujo trabalho era mais conceitual, eu e meus colegas retomamos questões que haviam ficado à margem. É o caso do objeto – não como experimentação, mas como construção específica. Exercitamos o olhar para coisas meio largadas no mundo”, explica.
Marco Tulio prefere não enquadrar sua obra em categorias. “Pertenço a um tempo e procuro olhar para as questões postas por ele. Até porque esse tempo é aquele que, de fato, tenho para fazer arte”, argumenta.
Os professores foram decisivos para a formação do artista plástico. Sara Ávila (1933–2013) despertou-lhe a atenção para os aspectos simbólicos. Já Amilcar de Castro (1920–2002) ensinou-lhe o vocabulário visual artístico. “Ponto, linha, espaço e textura”, resume Resende, referindo-se aos ensinamentos do escultor.
Outra contribuição importante veio do norte-americano Bob Loescher, orientador de seu mestrado no Instituto de Arte de Chicago (EUA). “Muito jovem e deslumbrado com o que encontrei nos Estados Unidos, vi-me solicitado por ele a cuidar do 'eu cultural', a observar o Brasil e a nossa cultura. Passei, então, a valorizar mestiçagem, com sua estética precária e o sentimento telúrico, que é nosso”, conta.
REFERÊNCIAS Nos últimos anos, o ambiente cultural de Belo Horizonte melhorou, constata Marco Tulio, citando o aumento do número de instituições em atividade. Para ele, é inestimável a cidade contar “com duas escolas de referência”: a Guignard, da UEMG, e a Belas-Artes, da UFMG. “Porém, quando pensamos no Brasil não só a partir do Sudeste, percebemos que, assim como há desigualdade social, há desigualdade educacional”, adverte o professor.
Para ele, é positivo o cenário do mercado de arte local, criado paralelamente à atuação de sua geração. “Mas sou crítico das visões que consideram arte só como mercado. Arte é também questionamento, visão de mundo, espelho sensível do ser humano”, afirma.
Os 35 anos de ofício não significam que as coisas ficaram mais fáceis para Marco Tulio. “É como estar em um carro que entra no túnel escuro com os faróis voltados para trás. Você enxerga o que fez, mas o que está à frente é recomeçar do zero”, argumenta, valendo-se da frase do escritor Pedro Nava
Fonte: Uai, por Walter Sebastião em 30 de março de 2015.
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Marco Tulio Resende (Belo Horizonte, MG, 1950) é um pintor, desenhista e professor.
Biografia Itaú Cultural
Estuda artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte, entre 1971 e 1974, onde convive com Amilcar de Castro (1920 - 2002), Sara Ávila (1932) e Lotus Lobo (1943). Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo em 1973. Dois anos depois, faz sua primeira exposição individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, em Belo Horizonte. Entre 1975 e 1979, faz mestrado na School of the Art Institute of Chicago - Artic, Estados Unidos, como bolsista da Fulbright Commission. Ganha o prêmio de desenho no 9° Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, em 1977, e menção honrosa do Fellowship Contest, promovido pelo Artic em 1978. De volta a Belo Horizonte, em 1979, retorna à Escola Guignard como professor. Recebe bolsa do Goethe Institut para estudar na Alemanha em 1990. Em 1998, é convidado a participar como artista visitante da Sheffield Hallam University, Sheffield, Inglaterra.
Análise
Marco Tulio Resende tem uma produção diversificada, trabalha com pintura, desenho, gravura, objetos, instalações e livros-objeto. Sua obra é marcada por um caráter intimista que, segundo o próprio artista, provém da tentativa de se ver no mundo, de se espelhar e se reconhecer nele.
O artista cria livros-objeto, construídos por pinturas e desenhos. Para o artista plástico e crítico de arte Márcio Sampaio (1941), nessas obras Resende escreve também sua própria história: seu trabalho requer do espectador uma grande concentração, para seguir cada um dos momentos de sua vida ali apresentados e para prosseguir em sua leitura. Para Sampaio, as formas que realiza, como osso, martelo, torre, mão, cravo ou flor, aludem a sentimentos vivenciados pelo artista, como perdas, medos, desejos e desistências.
Resende cria obras a partir de materiais do cotidiano, como madeira, tecido, terra, cristais e pedaços de ferro. Segundo a historiadora da arte Aracy Amaral, em Carro, 1999, o artista alude ao meio de transporte por meio de uma construção com madeira e barro, recriado-o assim de maneira precária. Já em Ilha, 1999, apresenta um cesto de madeira fechado por cintas de metal, em cujo interior coloca pedras. Em Jardim, 1999, constrói montes de barro de formato similar sobre uma base de madeira. Os trabalhos geram um certo desconcerto no observador. São imagens não usuais, compostas por objetos com os quais o artista se depara em seu dia-a-dia e que podem alcançar significados diversos. Representam também fragmentos de sua memória pessoal, recuperados em seus trabalhos.
Para o historiador da arte Tadeu Chiarelli, em suas obras sobre papel o artista cria um campo exploratório especifico para a formulação de seu próprio imaginário. Nesses trabalhos, formas amputadas do corpo humano transformam-se em elementos modulares, dotados de forte concentração dramática.
Críticas
"Através de pesquisa contínua, Marco Túlio Resende trava, com a natureza, com as coisas e com os seres, um misterioso diálogo, mediante o qual se efetua uma constante permutação e se estabelece o seu vocabulário, seu monólogo interior denso e severo. Lançando mão de objetos banais, Marco Túlio não pretende dotá-los de nova categoria estética nem nada alterar em sua condição. Não. O artista pretende descobrir a magia das coisas, o rito escondido atrás da máscara, e reinventar o gesto e o olhar. É este o sentido de seu trabalho: dar uma visão nova de coisas que nem enxergamos mais ou ainda: recuperar a mágica das formas relegadas e patenteá-las aos nossos olhos. Esta, talvez, a missão por excelência do artista: não a de alterar categorias estéticas existentes, mas, iluminá-las; não a de criar novas categorias, mas, redescobri-las. Seus trabalhos exprimem bem essa postura: através da síntese e não da análise das formas trabalhadas, o artista realiza o seu jogo, sua razão e sua visão. Cumpre-nos acompanhá-lo em suas ordenações que não pretendem modificar a ordem existente, senão percebê-la, apreendê-la e comunicarmos seu sentido mais secreto. Com suas sugestões de relíquias, de estranhos elementos encantatórios e suas alusões totêmicas, estes trabalhos não se impõem aos olhos do espectador. Eles antes convidam-nos a percorrer um itinerário desconhecido, incerto, mas sempre repleto daquilo que é tão caro ao homem: a descoberta do imponderável, do mistério cuja chave às vezes perdemos mas que sempre almejamos reencontrar".
Affonso Renault (DEZ artistas mineiros. São Paulo: MAC/USP, 1984.)
Acervos e Coleções
Museu de Arte de Belo Horizonte
IBM do Brasil
Sociedade Amigas da Cultura de Belo Horizonte
Fundação Clóvis Salgado
Aeroporto Internacional de Confins
Rede Globo - Minas Gerais
Associação Cristã de Moços - Minas Gerais
Banco Lar Brasileiro
Jornal do Brasil
Banco Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG
Rede Manchete - setor Belo Horizonte
FUNARTE - Rio de Janeiro
Centro Cultural Cândido Mendes - Rio de Janeiro/RJ
Banco Agrimisa
Coleção João Satamini
Coleção Gilberto Chateaubriand.
Prêmios
1971 - Prêmio Aquisitivo - Salão da ACM - Associação Cristã de Moços - BH
1972 - Menção Honrosa - Salão de Arte de Juiz de Fora
1973 - Prêmio Aquisitivo - V Salão de Verão do Jornal do Brasil - RJ
1973 - Prêmio de Proposta - Salão Comemorativo do Centenário de Santos Dumont - Palácio das Artes - Belo Horizonte
1974 - Prêmio de Desenho - IV Salão da Prefeitura de Belo Horizonte
1978 - Menção Honrosa - Fellowship Contest - School of the Art Institute of Chicago - USA
1980 - Prêmio de Desenho - 37o Salão Paranaense - Curitiba/PR
1980 - Grande Prêmio - XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1981- Prêmio de Desenho - III Mostra de Desenho Brasileiro - Curitiba/PR
1984 - Prêmio Fundação Clóvis Salgado - I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
1987 - III Prêmio - I Mostra de Arte Patrícia Maranhão - Belo Horizonte
1987 - Prêmio Aquisitivo no XVIII Salão Nacional da Prefeitura de Belo Horizonte (menção especial do juri)
1988 - Concorrência FIAT - Patrocínio para a exposição coletiva “Um Espelho no Escuro” - Palácio das Artes e Espaço Mascarenhas - Belo Horizonte e Juiz de Fora/MG.
1988 - Prêmios Viagem - Brasil no X Salão Nacional (Funarte/Rio)
Exposições Individuais
1975 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1979 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1982 - Belo Horizonte MG - Individual, na Grande Galeria do Palácio das Artes
1982 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Macunaíma
1984 - Belo Horizonte MG - Individual, no IAB/BH
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, na Gesto Gráfico Galeria de Arte
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaugaleria
1987 - Basília DF - Individual, na Galeria Oscar Seraphico
1987 - Vitória ES - Individual, na Itaugaleria
1988 - Belo Horizonte MG - Marco Tulio Resende: pinturas, na Manoel Macedo Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCCM
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1989 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria Corpo
1991 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaú Cultural
1992 - Vitória ES - Individual, na Galeria de Arte e Pesquisa do Centro de Artes/UFES
1993 - Belo Horizonte MG - Individual, na Kolams Galeria de Arte
1993 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1994 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
1996 - Brasília DF - Individual, na Fundação Athos Bulcão
1996 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Marília Razuk
2001 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
2010 - "Ecce Homo" - galeria da FAOP - Ouro Preto/MG
2011 - Ex-Libris - Galeria Com Arte – Belo Horizonte/MG
2015 - CÓDICE - Do risco ao risco - Museu da Vale - Vila Velha/ES
2016 - AXIS - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - AXIS - Centro Cultural SESIMINAS Ouro Preto/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - OLHO NU - Centro Cultural UFMG - Belo Horizonte/MG
Exposições Coletivas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1975 - São Paulo SP - Coletiva Novas Tendências, no Paço das Artes
1977 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1978 - Chicago (Estados Unidos) - Fellowship Contest da School of the Art Institute of Chicago - menção honrosa
1979 - Rio de Janeiro RJ - 2º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1980 - Belo Horizonte MG - 12º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1981 - Belo Horizonte MG - 8º Salão Global de Inverno, na Fundação Palácio das Artes
1981 - Curitiba PR - 3ª Mostra do Desenho Brasileiro - premiado
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco
1981 - Rio de Janeiro RJ - 4º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1981 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Global de Inverno, no MAM/RJ
1981 - São Paulo SP - 8º Salão Global de Inverno, no Masp
1982 - Belo Horizonte MG - 14º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1982 - Penápolis SP - 5º Salão de Artes Plásticas da Noroeste, na Fundação Educacional de Penápolis. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Penápolis
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Brasília DF - 4 Artistas Mineiros, Itaugaleria
1983 - Campo Grande MS - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1983 - Londres (Inglaterra) - 6 Artists from Brazil, na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London
1983 - São Paulo SP - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1984 - Belo Horizonte MG - 1º Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1984 - Curitiba PR - 6ª Mostra do Desenho Brasileiro
1984 - São Paulo SP - 10 Artistas Mineiros, no MAC/USP
1985 - Belo Horizonte MG - 17º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio aquisição
1985 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Rio de Janeiro RJ - Velha Mania: desenho brasileiro, na EAV/Parque Lage
1986 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Artes Plásticas: sudeste, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - São Paulo SP - 17º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1986 - São Paulo SP - 4º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Fundação Bienal
1987 - Belo Horizonte MG - 19º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1987 - São Paulo SP - 5º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Pinacoteca do Estado
1988 - Belo Horizonte MG - Um Espelho no Escuro, no Palácio das Artes
1988 - Juiz de Fora MG - Um Espelho no Escuro, no Espaço Mascarenhas
1988 - Rio de Janeiro RJ - 10º Salão Nacional de Artes Plásticas, na Funarte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Salão Nacional de Artes Plásticas - prêmio de viagem pelo país
1989 - Bonn (Alemanha) - 6 Artistas Brasileiros, na Galeria Rave
1989 - França - Mostra itinerante Estandartes da Liberdade - Bicentenário da Revolução Francesa
1989 - Recife PE - Minas em Traços Gerais, no Museu de Arte do Recife
1990 - Belo Horizonte MG - Da Forma à Forma - Notícias da Terra 10 Anos Depois, no Palácio das Artes
1990 - Freiburg (Alemanha) - Aspectos da Arte Latino-Americana, na Ruta Correa Galerie
1990 - São Paulo SP - 21º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1991 - Belo Horizonte MG - BR/80: pintura Brasil década 80, no Núcleo de Informática e Cultura Belo Horizonte
1992 - Belo Horizonte MG - Utopias Contemporâneas, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1994 - Belo Horizonte MG - Cor e Luz, na Cemig Galeria de Arte
1994 - Belo Horizonte MG - Guignard: 50 anos de uma escola de arte, na Galeria Vidyã
1995 - São Paulo SP - Minerações, no LR Escritório de Arte
1996 - Freiburg (Alemanha) - Coletiva, na Ruta Correa Galerie
1998 - Belo Horizonte MG - Terra e Mar a Vista, no Itaú Cultural
1998 - Brasília DF - Cien Recuerdos para Garcia Lorca, no Espaço Cultural 508 Sul
1998 - Brasília DF - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - Penápolis SP - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - São Paulo SP - Viagens, no Itaú Cultural
1999 - São Paulo SP - Arte Brasileira sobre Papel na Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - São Paulo SP - Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Marco Tulio Resende, na Marília Razuk Galeria de Arte
2000 - Belo Horizonte MG - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Fundação Clóvis Salgado. Companhia de Dança de Minas Gerais
2000 - Belo Horizonte MG - Presente de Reis, na Kolams Galeria de Arte
2000 - Leiria (Portugal) - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Galeria57 - arte contemporânea
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Niterói RJ - Diálogo, Antagonismo e Replicação na Coleção Sattamini, no MAC/Niterói
2002 - São Paulo SP - 10 Anos Marília Razuk, na Marília Razuk Galeria de Arte
2003 - Rio de Janeiro RJ - Projeto Brazilianart, na Almacén Galeria de Arte
2003 - São Paulo SP - Coletiva Marília Razuk Galeria de Arte, na Marília Razuk Galeria de Arte
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria Lemos de Sá – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Capolavoro – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva “Quadrantes” – Galeria de Arte Casa da Cultura Estácio de Sá – Belo Horizonte/MG
2010 - "Quando a argila fala" – Galeria do BDMG Cultural – Belo Horizonte/MG
2011 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria da FIEMG – Ouro Preto/MG
2011 - Encontros Cerâmica - Galeria do Centro Cultural de Contagem - Contagem/MG
2012 - Galeria de Arte da Cemig - “60 x 20” – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Noite da Cerâmica – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Livros de Artista– BH
2013 - Mac – Museu de Arte Contemporânea do Paraná – “Cor, Cordis”, mostra do acervo – Curitiba – PR
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - “Não Há Estagnação - Apenas Movimentos Tempestuosos” - MUSEU MINEIRO BH/MG
Fonte: MARCO Tulio Resende. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: >. Acesso Itaú Cultural: 16 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Histórico - Site oficial Marco Tulio Resende
Formado pela Escola Guignard - UEMG (1971/74), fez mestrado na School of the Art Institute - Chicago (1975/78) como bolsista da Fulbright Comission. Professor da Escola Guignard - UEMG a partir de 1979. Artista visitante na UFMG e na Sheffield Hallam University - Inglaterra (British Council). Bolsa Goethe Institut – Alemanha (1994). Proferiu palestras e oficinas em vários festivais de arte, UFMG - Minas Gerais, UFES - Espírito Santo, SESC - São Paulo. Participou da Bienal de São Paulo - 1973 e Panorama das Artes - São Paulo -1986 e do projeto / residência Faxinal das Artes- Paraná 2003. Obteve vários prêmios, entre outros, o grande prêmio do Salão da Prefeitura de Belo Horizonte - 1981 e prêmio de viagem no Salão Nacional - FUNARTE - 1988. Expõe regularmente desde 1978, individual e coletivamente, tendo realizado mostras em espaços institucionais como Palácio das Artes, MAP - Belo Horizonte, Centro Cultural Light - Rio de Janeiro, Paço das Artes, MAM e Itaú Cultural - São Paulo, Santander Cultural - Porto Alegre e em galerias como Ana Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, Marília Razuk - São Paulo, Ruta Correa – Freiburg / Alemanha, Manoel Macedo, galeria Gesto Gráfico, galeria kolams - Belo Horizonte, entre outras. Participou do projeto “Ano do Brasil na França” 2005 - Brasil herança africana - Museu Dapper - França/Paris.
Cronologia
1950 - 1979:
Formou-se em artes plásticas pela Escola Guignard da Universidade de Minas Gerais (UEMG) em 1974, onde estudou com vários artistas, entre eles, Amilcar de Castro, Sara Ávila e Lotus Lobo. Quando estudava na Escola Guignard participou do III Salão Nacional de Arte do Museu de Arte da Pampulha e foi premiado no Salão da Associação Cristã de Moços, em Belo Horizonte (1971). Ainda como estudante universitário toma parte, nos anos seguintes, do IV e VI Salão Nacional de Arte Universitária da UFMG, realizados em Belo Horizonte.
Em 1973 participa da XII Bienal Internacional de São Paulo e é premiado no V Salão de Verão do Jornal do Brasil, realizado no MAM do Rio de Janeiro. Em 1975 integra a coletiva NOVAS TENDÊNCIAS, organizada no Paço das Artes, em São Paulo e realiza sua primeira individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos de Belo Horizonte, onde mostrou uma série de desenhos. Fez o Curso de Mestrado na School of The Art Institute of Chicago como bolsista da Fulbright Comission (1975-1979), quando teve a oportunidade de conhecer o Prof. Dr. Bob Loescher, especialista em Arte Ibérica e Latino-Americana, que foi de grande importância em sua formação. Como orientador de Mestrado, Bob Loescher ajudou o artista a melhor perceber a dimensão da arte contemporânea, assim como aprofundar a visão de suas raízes e de sua cultura no contexto da Arte Brasileira. Marco Tulio desenvolveu reflexões sobre seu trabalho e uma série de desenhos, intitulados TORDESILHAS, buscando integrar a teoria e a prática artística. Durante esta época recebe o Prêmio de Desenho no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e a Menção Honrosa do Felowship Contest – School of the Arte Institute of Chicago, nos Estados Unidos (1978). Retornando à Belo Horizonte, em 1979, realiza duas exposições individuais: na Galeria do ICBEU, onde apresentou a série TORDESILHAS e na Galeria da Biblioteca Pública, em que mostrou trabalhos experimentais com intervenções fotográficas.
1980 - 1989
A década de 80 marca o encontro de Marco Túlio com sua geração e a participação em várias coletivas com os artistas: Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Humberto Guimarães, entre outros. Em 1980 participa da coletiva NOTÍCIAS DA TERRA, quando apresentou sua nova fase de objetos voltada para as referências urbanas. A exposição teve a curadoria do artista e crítico Márcio Sampaio, Diretor de Artes Plásticas da Fundação Clóvis Salgado e catalisador dos jovens artistas de Belo Horizonte. Neste ano, participa do Salão Nacional do Rio de Janeiro e recebe o Primeiro Prêmio no XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte com uma série de desenhos e objetos denominada URBANÁLIA. Esta série, revelando a ritualização da precariedade urbana, sinalizou o tom de sua poética.
Em 1981 integra a coletiva no Centro Cultural em Brasília, participa do Salão Nacional no Rio de Janeiro e recebe o Prêmio de Desenho na III mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba. Em 1982 realiza exposições individuais na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro; e na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde mostrou pinturas e objetos, desdobramentos da série URBANÁLIA. Neste ano é artista convidado para integrar o V Salão de Artes Plásticas do Noroeste, realizado em Penápolis, e participa do XIV Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
Em 1983 é convidado a participar do Arte Global (vídeo-expo), realizado na Fundação Clóvis Salgado, com o patrocínio da Rede Globo, e da coletiva 6 ARTISTS FROM BRAZIL, com artistas professores da Escola Guignard, realizada na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London, na Inglaterra. Participa da coletiva DEZ ARTISTAS DE MINAS, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, com curadoria de Mário Sampaio e da VI Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba, ambas em 1984. Ainda este ano, recebe o Prêmio de Pintura no Salão de Arte, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Realiza, também, exposição individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em Belo Horizonte, onde apresentou pinturas em grandes formatos.Participa de significativas exposições coletivas: VELHA MANIA, organizada por Marcus Lontra, no Parque Lage, Rio de Janeiro (1985); 08 ou 80 na Universidade Fluminense, em Niterói (1985); BRASIL/PINTURA/HOJE, na Galeria Oscar Seraphico, em Brasília (1986/87); e PANORAMA DA PINTURA BRASILEIRA, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (1986).
Em 1986, realiza várias individuais, em Belo Horizonte, na Galeria Gesto Gráfico, onde apresentou uma nova série com seus primeiros recortes, intermediários entre a pintura e o objeto; na Sala Corpo de Exposição e na Itaú Galeria de Arte, ocasião em que apresentou a série de DIÁRIOS, registros resultantes de suas pesquisas e vivências.Com os DIÁRIOS recebe o Prêmio Aquisitivo no XVII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1987) e o Prêmio Viagem ao Brasil no X Salão Nacional da FUNARTE, no Rio de Janeiro (1988). Participa, ainda, do V Salão Paulista (1987) e da exposição coletiva UM ESPELHO NO ESCURO, projeto premiado pela FIAT Automóveis.Em 1988, realiza individuais nas galerias Anna Maria Niemeyer e Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ) e na Manoel Macedo Galeria de Arte, em Belo Horizonte.1989: marca sua participação em importantes coletivas: ESTANDARTES DA LIBERDADE, exposição itinerante pela França, organizada pela Aliança Francesa, em homenagem ao Bicentenário da Revolução Francesa; CADA CABEÇA UMA SENTENÇA, mostra itinerante pelo Brasil, coordenada por José Alberto Pinho Neves e Arlindo Daibert; MINAS EM TRAÇOS GERAIS, apresentada no Museu de Arte de Olinda - PE, SEIS ARTISTAS BRASILEIROS, com a participação de Karen Lambrecht e Marco Gianotti, realizada na Galeria Raue, em Bonn, na Alemanha.
1990 - 1999
Marco Tulio inaugura os anos 90 com uma mostra individual na Galeria Corpo, em Belo Horizonte e da exposição coletiva DA FORMA À FORMA (Notícias da terra 10 anos depois), realizada na Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte, com a curadoria de José Alberto Nemer, onde apresentou o resultado de dez anos de pesquisa e experimentação com pinturas e recortes em grandes formatos. Recebe Bolsa do Goethe Institut, para estudar na Alemanha, ocasião em que participou da coletiva ASPECTOS DA ARTE LATINO AMERICANA, realizada na Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1990).
Em 1991 participa da coletiva ABSTRAKT, na Galeria Ruta Correa, em Freiburg. Toma parte no Projeto BR 80, que consistiu em workshop e mostra, referentes à pintura brasileira na década de 80. O projeto foi organizado pelo Instituto Itaú Cultural, com a curadoria de Frederico Morais e Márcio Sampaio, e a participação de vários artistas brasileiros.Na década de 90 consolida sua carreira artística com várias individuais: Galeria Manoel Macedo, em Belo Horizonte (1991); Galeria da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória (1992); Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio de Janeiro (1993); Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1993/99); Galeria Marília Razuk, em São Paulo (1993/96); Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1996); Galeria Corpo, em Belo Horizonte (1997); e Galeria Referência, em Brasília (1998).Participa também de diversas coletivas: MINERAÇÕES, no LR Escritório de Arte, em São Paulo (1995); artista convidado para participar do Projeto FACHADAS IMAGINÁRIAS, realizado no Rio de Janeiro e São Paulo, com a participação de 100 artistas internacionais, curadoria de Fhilippe Mouillon (1996); PEDRA SABÃO, organizada pela Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1997); A FORMAÇÃO DA ARTE CONTEMPORÂNEA, realizada no Museu de Arte da Pampulha, com a curadoria de Marília Andrés Ribeiro, em comemoração ao centenário de Belo Horizonte (1997); TERRA E MAR À VISTA, promovida pelo Projeto Viagens do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, com a curadoria de Agnaldo Farias (1998); Projeto ARTE EM MOVIMENTO, realizada no SESC Pompéia, em São Paulo, também com a curadoria de Agnaldo Farias e participação de Nelson Leirner, Iole de Freitas, Paulo Pasta, Carlos Fajardo e Gil Vicente (1998); Centro Cultural UFMG - 10 anos, coordenada por Fernando Pedro e Marília Andrés (1999) e Objetos, Galeria Marília Razuk, São Paulo (1999).Toma parte no programa Artista Visitante, da Escola de Belas Artes da UFMG, compartilhando a oficina com Humberto Guimarães e Orlando Castaño (1996/1997).Em 1998 é convidado a participar, como artista visitante, da Sheffield Hallam University, integrando o programa de intercâmbio entre a Escola Guignard e a Universidade Inglesa, promovido pelo Conselho Britânico.
2000 - 2014
Marco Túlio participa de importantes coletivas: Galeria 57, Leiria - Portugal (2000); DIÁLOGO, com Manfredo Souzanetto, Centro Cultural Light, Rio de Janeiro (2001); Galeria Manoel Macedo, Belo Horizonte (2001); DIÁLOGOS, TANGENCIANDO AMILCAR, no Santander Cultural, Porto Alegre (2002), com curadoria do crítico Tadeu Chiarelli; Galeria Marília Razuk, São Paulo (2003). Nesse ano participa também do Projeto Residência Faxinal das Artes, no Paraná. Em 2005 é convidado para participar da exposição BRÉSIL, I’ HÉRITAGE AFRICAIN do projeto França-Brasil no Musée Dapper, Paris. No ano seguinte na Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte – MG, participa da exposição MURILIANA: Murilo Rubião 90 anos e da exposição PICTÓRICA. Em São Paulo no Instituto Tomie Ohtake no ano de 2007, integra a exposição 80 90 MODERNOS PÓS MODERNOS ETC; neste mesmo ano na Fundação Clóvis Salgado, exposição IMPRESSÕES DIVERSAS, coordenada pela artista gravadora Thaïs Helt. Individuais: Galeria de Arte da CEMIG, exposição ETCOETERA, Belo Horizonte - MG (2008); Galeria de Arte Nello Nuno, exposição ECCE-HOMO, Ouro Preto-MG (2010) e Galeria LivroBjeto, exposição EX-LIBRIS, Belo Horizonte - MG (2011). Participou da Feira ArteBA em Buenos Aires – Argentina, Galeria Lemos de Sá (2011). Em 2012 participou da exposição LIVROS DE ARTISTA na Galeria LivroBjeto em Belo Horizonte e foi convidado pela TV Assembléia/MG para prestar um depoimento sobre sua trajetória artística, exibido no programa "Memória e Poder".
Textos críticos
"A prolífica obra de Marco Túlio Resende é proveniente de sua obsessão em registrar tudo o que acontece, tudo com o que ele se depara em seu cotidiano como também fragmentos daquilo com que já se deparou e que, no entanto, por resistir a desaparecer, ainda sobrevive incólume na memória; algo que eventualmente será reanimado pelo que está sendo contemplado agora e que a ele irá se juntar, sobrepor-se, alterando-a inevitável e definitivamente.
As coisas afinal, não existem a não ser por nós, o que é o mesmo que dizer que vivem comprimidas entre o nosso passado e o nosso futuro. Trata-se de um projeto destinado à incompletude, sentimento que de resto atravessa todas as nossas vidas com sua sucessão de acidentes e atitudes cuja a finalidade não logramos alcançar. Marco Túlio desenha, registra em traços rápidos, executados em linhas grossas, o que lhe vai na lembrança ou mesmo o que agora está passando no meio da procissão que o cotidiano despeja sobre suas retinas. O problema pode ser formulado da seguinte maneira: afinal o que sobra de tudo? Como reter e o que reter das coisas? Como obter das coisas um pouco de quietude, dado que elas não cessam de se movimentar? O apego a tudo reveste-se de um desejo de conhecimento. Desenhar, como se sabe, é reduzir a coisa ao seu esquema, seu nervo: sua estrutura, os ossos que esteiam a construção e a superfície que lhe garante os limites.
E porque tudo interessa e porque de tudo só se pode reter fragmentos é que sua obra trata de bocados, resíduos e frações de imagens, resíduos e frações das coisas. Para tanto o artista se vale de uma surpreendente quantidade de instrumentos e processos, posto que para falar de algo tanto vale o que resulta de um gesto quanto a ferrugem que espontaneamente vai aflorando na superfície de pedaço de ferro, parte de algo que não se pode mais identificar mas, que devidamente contextualizado, presta-se a ser carregado de mistério e sentido. Identificar e oferecer utilidade às coisas equivale a salvá-las do esquecimento a que estão condenadas.
Nesse sentido, o tempo é uma dimensão inelutável. Nossas experiências vão sendo – mal – acondicionadas até o momento em que toda memória é uma barafunda, em que tudo se mistura e cuja ordenação dá margem, como um dia disse Pedro Nava puxando por Proust, a um mosaico fraturado e desconexo, onde as coisas que outrora incompatíveis no tempo e no espaço comparecem alinhavadas umas às outras, deixando aqui e ali, nos seus interstícios, vastos vazios lacunares. O extraordinário, diz Marco Túlio, é que enfrentamos o agora precariamente armados com a memória. E aquilo que agora vai fugindo, que me escorre por entre os dedos é ainda assediado por lembranças de outras coisas.
A nostalgia – afinal, por que não esquecemos de tudo? – se interpõe entre mim e as coisas, o que equivale a dizer que eu mesmo me interponho entre as coisas. Fernando Pessoa não se perguntava sobre quem era aquele que respeitava por seus olhos? Marco Túlio Resende faz pinturas, desenhos, gravuras, objetos, instalações, livros...Tudo interessa, tudo “provém da tentativa de me ver no mundo, de me espelhar e reconhecer através da pegada, do rastro da passagem e sucessão de momentos” O artista comporta-se como um expedicionário cuja ambição é não deixar nada de fora e que para tanto confecciona um diário polimórfico. Uma coleção insuspeita de meios e estratégias dado que do mesmo modo que as coisas são irredutíveis entre si, nenhuma forma pode substituir a outra."
— Agnaldo Farias (O Diário do Diverso)
"Inventário do abandono é o nome da obra (será mesmo uma obra?) em processo, uma combinação de armários e estantes desiguais, que preenche praticamente toda a parede da esquerda do atelier de Marco Tulio Resende, melhor dizendo, aparede do fundo, considerando-se que ela fica no extremo oposto da entrada do salão largo e pouco profundoque ele transformou em oficina, depósito, escritório, sala de estar e até mesmo confortável dormitório. Situado sob um pequeno conjunto de lojas num aprazível bairro de Belo Horizonte, construídoa beira de um terreno íngreme, o ateliê de agora resultou de um espaço perdido, abaixo do piso das lojas, invisível aos olhos dos passantes e moradores, que o artista comprou, reformou, transformando-o nos vários espaçosmencionados, além de um belvedere privilegiado cuja vista dá para o casario entorno, esparramado pelas laterais de umadas montanhas onde a capital mineira foi implantada.
Inventário do abandono nasceu como que por acaso e aos poucos. Foi sendo produzida despretensiosamente, sem que o artista soubesse no que ia dar, sem projeto e planejamento, sem propriamente uma intenção. Um depósito resultante do acúmulo de coisas disparatadas que ele, movido por fascínio e afeição a manifestações singelas e incomuns, binômio que com esse ajuntamento termina por provar que se trata de uma particularidade de quase todos os objetos existentes, foi catando aqui e ali ao longo dos anos, juntando ao núcleo inicial que possivelmente reteve de sua própria infância, daquilo que, mais crescido, foi resgatando de sua família, da casa dos pais e irmãos, de amigos, e que foi se somando ao colhido em suas inúmeras viagens, das internacionais as domésticas, das frequentes incursões pelo interior de Minas, pelas serras, roças, pela imensa Minas histórica, como também pelas vilegiaturas em BH, as caminhadas ociosas, as saídas cotidianas para as compras caseiras em supermercados, padarias, postos de gasolina, outros locais que mecânica, diária e desatentamente atravessamos, mas não ele, pois é evidente que sua atenção nunca baixa a guarda, movido pela nítida certeza de que a alegria e a surpresa podem acontecer agora. Marco Tulio deixa-se atrair por tudo quanto é coisa, variada quanto a forma e finalidade, sobretudo por aquilo que displicentementese acomoda nas lojas de artesanato, armarinhos, armazéns de secos e molhados, mercados, bancas de jornais, de camelôs, na qualidade de subproduto, de escolho, detritos que a grande máquina industrial vai deixando a margem enquanto roda pesadamente.
Apesar da aparente barafunda das prateleiras, passando-se os olhos nota-se que tudo está relativamente organizado em filas e agrupamentos, e que há uma evidente predominância de bichos sob a forma de enfeites, miniaturas, brinquedos e, em número maior ainda,representações humanas. Uma multidão de bonecos, fetiches religiosos, relicários, estatuetas, ex-votos, cabeças e bustos de manequins, homenzinhos e super-heróis em miniaturas, realizados em madeira, barro, metal e plástico, acotovelam-se entrefotografias variadas, de si, da família, de obras do próprio artista, cartões postais, além de objetos de uso direto – peças de roupas variadas, adereços como colares e faixas-, utensílios e artefatos -instrumentos musicais, máquina de escrever, chaves-, entre tantos outros passíveis de serem manipulados.
O importante é abrir-se ao mundo, diz-nos as estantes superlotadas que perfazem esse Inventário de Marco Tulio, que se religam ao passado através dos objetos que um dia, o artista ou qualquer um de nós que compartilha o mesmo universo imaginário, admirou-se deles, ingenuamente cultuou-os ou apenas os utilizou. Olhar para esses objetos, reconhecer sua procedência ou simplesmente sua identidade, significa religar-se a eles no momento em que se os vê, no presente, posto que estão ali, à mão. A comunicação com essa sorte de objetos leva ainda, claro que mais ainda ao artista, responsável pela reunião sistemática e incansável daquilo tudo, uma comunhão comseus desconhecidos autores, uma tentativa de compreensão, um elo com aqueles que, produzindo-os, tiveram a intenção, mesmo que desajeitada, de agradar, entreter, insistir em lembrar a existência de um mundo ao lado deste em que vivemos, voltado ao encantamento, a brincadeira e também à uma dimensão mágica. Uma realidade paralela ou camada imaginativa abaixo do chão cotidiano, cujo acesso só acontece quando nos abandonamos a contemplação ou eventual manipulação desses objetos, e por força da potência que deles emana."
— Agnaldo Farias (Inventário do Abandono)
"Mergulhada na penumbra, ao fundo do atelier, uma extensa prateleira transborda. Objetos, materiais semi-destruidos, fragmentos e detritos de coisas que, de tantas perdas, perderam também sua identidade, de tanto se conjugarem, criaram novos sentidos. Acomodaram-se em seus lugares, imunes à saturação exterior, para cumprir, em silêncio e aparente imobilidade, seu compulsório destino. Res antiquissimae, que a atenção do artista – mais afetiva do que seletiva – foi reunindo ao longo dos anos, ali se transformaram em símbolos e arquétipos, e agora, nas linhas da estante, constroem em texto, uma história.
São testemunhos e substância dos dias que se contavam vagarosamente; as coisas que, acumulando a poeira do perdido, fazem ressoar, do fundo da memória, aqueles outros dias interiores, consumidos, que a este iluminam em obra de prestidigitação. Saber sua presença, já é experimentar a vida continuum, é capitalizar a riqueza interior com que construímos nossos aparelhos de percepção do mundo. Lá, naquele território densamente ocupado, as coisas na verdade estão vivas. E pulsam, em espera tensa, como que “conscientes”, anunciando outros sentidos delas vagarosamente porejam e se derramam pelo espaço da memória.
Na linha fronteiriça entre as coisas reais e as imaginadas, o desenho e a pintura de Marco Túlio Resende definem esse outro espaço, o lugar onde tudo é premência e iminência, lugar da lucidez e do desejo (da paixão), onde o artista grava sua poética iluminada experiência antecipada do futuro, que lhe permite detonar e pulverizar o sentimento de catástrofe que hoje imanta o mundo.Hábeas Corpus – declara Marco Túlio, no título de um de seus livros-objetos. “Tens o corpo”, e todas as sanções que lhe infringe a autoconsciência, a consciência desventurada, devem ser denunciadas e comutadas. A consciência que desenha o limite das suas faltas, impulsiona o artista para a experiência mais profunda, que o faz descartar a simples exibição de seu saber, para, com esse domínio do oficio, buscar um sentido, não do fazer, mas do ser.
Desde há muito, a obra de Marco Túlio se dispõe como texto progressivo, sempre a somar – com extratos da memória – sua história feita de intuições, que se enredam numa intrincada malha de acasos provocados. A principio, sua atenção concentrava-se nos relevos do cotidiano, na constelação de objetos e materiais que crispavam nosso olhar urbano. Refugados e humilhados, os resíduos descartados de seu uso natural, que o artista transformava em signos, para compor – por uma articulação precisa de cor, matéria, forma – um signódromo, depósito de sinais que conduziriam em suspensão pelas vias ásperas da rotina, ajudando-nos a redimir-nos do sentimento da perda produzido pela evidência dessas inutilidades que se acumulam, como cerco cruel, em torno de nós.No texto atual, construído com outros signos que são pré-figurações das coisas, projetadas desde o passado, - lá onde se gestam os mitos – fluem outras imagens, ora precisas, ora veladas; umas como substância da forma, outras, o vazio, a sua falta e sua sombra.
O corpo que temos, feitos de soma e subtrações: escultura; lapidação, corrosão, ou a construção; contração, concentração, expansão e dispersão; densidade e transparência. Espantado diálogo entre o sim e o não: porém, sempre se gravará em um, a tatuagem do outro.Nos livros-objetos, construídos com pinturas e desenhos, cada página que se passa é reiteração desse sentimento do tempo promulgado – e o gesto que de passa-las lentamente constitui uma aventura profundamente dolorosa e ao mesmo tempo venturosa. Porque Marco Túlio vai escrevendo sua própria história, e a dos dias e sua substância trágica e magnífica. É preciso uma concentração enorme para seguir cada uma das suas horas ali gravadas e prosseguir na sua lenta leitura. Se vemos desenhados na superfície das páginas, osso, martelo, torre, mão, cravo, flor, a tinta que tinha ressalta essas formas, diz terra, labor, sangue, desejo, desistência, e mais a diante, afirma seiva, fruto, divino, luz. Essa amorosa combinação que extrai a cada tempo, descortina paisagens, vivências; anuncia perdas, medos, e ao fim assina nosso compulsório duplo contrato com Deus e Mefistófeles, do qual resultará uma juventude retomada e que, provada na maturidade, desejamos a todo custo preservar.
É desse corpo do Humano anunciado nas páginas dos livros, que se projetam nas grandes telas as imagens feitas objetos, mas estes apenas se enunciam como sombras, longínquas sobras repetidas, recorrentes. Pois não são, senão, figuras divisadas na terceira face do espelho, onde tudo ao se dispersar mais se concentra? Nesse lugar que se chama Arte, onde as coisas, todas as coisas, recortadas e dadas pelo coração, se fazem em acordo na fundação de tudo que se persiste em nós, como ponto e estame de religação com o divino, construindo a possibilidade de explicação do inexplicável. Essas coisas que, de tão existidas, desistem e se desfazem, para permitir ao artista, na maturidade, recompor o sentido de sua presença – em última instância estão ali como confirmação de nossa permanência mais além do porto transitório da História.
— Márcio Sampaio (Os Termos do Corpo e das Coisas )
"Nada é humano no universo ininteligível fora dos rostos nus que são as únicas janelas abertas ao caos de aparências estranhas ou hostis. O homem só sai da solidão insuportável, no momento em que o rosto de um de seus semelhantes emerge do vazio de todo o resto. Mas a máscara o devolve a uma solidão mais terrível. (...) Ora a máscara possui ainda a força de aparecer no limiar desse mundo calmo e sossegado do tédio como uma obscura incarnação do caos (...) Pois a máscara é o caos feito carne.
Coleção de cabeças esculpidas em cerâmica. Cabeças como máscaras. Elemento religioso presente entre os ex-votos e as esculturas africanas. A cabeça esculpida parece catalogar figuras cujas formas fazem transparecer pela matéria o lado oculto e obscuro das almas. Antropopoética visual, onde o humano é representado num conjunto de multiplicidades possíveis em suas máscaras.
Cabeças concebidas como iguais, mas antropomorficamente diferentes. O artista faz laço ontológico entre a dimensão da forma e a do sensível, ou ainda, entre o mundo mítico e o mundo dos homens. Totens esculpidos contemporaneamente.
Prova do dilaceramento, essas cabeças nos remetem ao inicio do século 20. Ao acéfalo, o homem decapitado que Georges Bataille e André Masson nos mostraram em 1936, na revista que tem o mesmo nome. (Monstro arcaico encontrado em mitologias e em bestiários.) Não só no imaginário modernista e pós-modernista encontramos a decomposição da figura humana. As metamorfoses da forma humana são exploradas d e diferentes modos. Marco Tulio Resende nos remete à consciência da impossibilidade de fixar figuras humanas ainda hoje, pois o humano continua sob ameaças violentas.
As cabeças do artista são profundamente inquietantes. Elas são marcadas pela violência de épocas variadas, Perderam narizes, bocas... desfiguraram-se. São partes dos restos do homem.
É nesse mélange onde os volumes exprimem formas que Marco Tulio Resende repete diferençando e contratando na cerâmica os voti de cera dos ex-votos. Por outro lado, essas cabeças vão além do simbólico. Elas apresentam um a mais de sentido, um surplus de forma. Impressões de violência ou de dor dramaticamente despertada pela presença de pregos, pontas..."
— Vera Casa nova (Cabeças, cabeças, cabeças, faces, faces, faces, máscaras, máscaras, máscaras)
"O Instituto Itaú Cultural abriu em São Paulo a exposição “Terra e Mar à Vista”, resultado de projeto especial que reúne 11 artistas, entre os quais o mineiro Marco Túlio Resende, pintor e professor da Escola Guignard. Contando com o patrocínio do Instituto Itaú, a primeira etapa do programa, em janeiro, compreendeu uma viagem do grupo à Serra do Mar. Ali, os artistas conheceram a Estrada Velha de Santos, antigo Caminho do Mar, também chamado de Calçada de Lorena nos primórdio do Brasil e complexo industrial de Cubatão, uma das regiões mais poluídas do País.
Os escultores Artur Lescher e Anarrê Smith, os desenhistas Alexandre Nóbrega e Maria Teresa Louro, o Fotógrafo Nelson Kon e os pintores Dudi Maia Rosa, Fábio Cardoso d Almeida, José Spaniol e Marco Giannoti, todos de São Paulo, o desenhista Alexandre Nóbrega, de Recife, o fotógrafo Luiz Braga, de Belém do Pará, e Marco Túlio Resende, sob a coordenação do curador Agnaldo Farias apresentam, agora, o resultado da viagem ao Caminho do Mar, revelando diferentes visões e abordagens.
O quinto centenário do achamento do Brasil pelos portugueses suscita essa retomada ou reconstituição de itinerários, e foi este, exatamente, o sentimento do pintor mineiro ao conceituar sua proposta de trabalho. Marco Túlio Resende lembrou-se das expressões latinas “terra incógnita” e “finis terrae” escritas em antiqüíssimos documentos cartográficos, indicando nos primeiros mapas do Brasil, territórios ainda desconhecidos e inexplorados como o que iria palmilhar, ao descer a Serra do Mar entre as lembranças das peripécias de jesuítas, donatários e índios aguerridos e o impacto da poluição em que se chafurda miseravelmente a zona de Cubatão.
O artista entra em confronto direto com as contradições do País, escancaradas naquela viagem breve. De um lado a calçada por sobre a trilha quinhentista que galga a muralha da Serra do Mar foi a primeira porta do Brasil. Deu passagem à civilização euro-cristã recém-desembarcada rumo aos sertões para além do horizonte alado. Abriu caminho para o ouro, atrás do Paraíba e da Mantiqueira, para as Minas além do som Minas Gerais (Carlos Drumond de Andrade). De outra parte, o inferno poluído de Cubatão, que ali vomita fogo e fumaça, é cloaca e emblema dessa civilização que se chama Brasil. Legiões de miseráveis se abrigam em barracos na ravina, ao largo dos monumentais tanques cilíndricos e das chaminés desesperadas. Junto ao velho Caminho do Mar, gigantescos tubulões de uma antiga usina hidrelétrica geometrizam a paisagem. Natureza e construção, vida e caos.
Em três telas grandes dimensões, Marco Túlio Resende demarca um território de questionamento essencialmente plástico, em que suas emoções diante dos desafios se expressam através de texturas e veladuras, formas rarefeitas e signos raros pontuando a pura matéria pictórica. O tríptico se projeta no imenso livro pousado sobre uma mesa. Na capa pesada, evocação de livros imemoriais, as palavras Finis Terra.
O livro é feito de páginas de tela, nas quais o pintor-viajante narra o périplo com depuração e sutileza. Não se trata do registro óbvio ou mesmo referencial, mas de uma sucessão fascinante de imagens em que se vê, o pintor monta um diário e nele imprime sua linguagem ágrafa, sua escrita de manchas e aguadas, e nos transmite a inquietude dramática daqueles cenários devastados e de uma história de fim de mundos.
Marco Túlio Resende encontra a grande pintura no Caminho do Mar. Esta é a sua sesmaria na “terra brasiliae”, no “finis terrae” ignoto a ser desbravado. É a sua lavoura, sua mineração. E é bom ver que, entre tantos desastres, a civilização do Brasil continua a gerar artistas sensíveis e atentos às tragédias de que somos feitos, plantando no carrascal a semente da cultura que sobrevive e vinga."
— Ângelo Oswaldo (Um pintor no fim de mundos)
Fonte: Site oficial Marco Túlio Resende, consultado pela última vez em 26 de abril de 2020.
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Marco Tulio Resende resume em livro 35 anos de intenso trabalho criativo
O artista plástico e professor questiona temas como vida e morte e a percepção do mundo
Marco Tulio Resende dedicou 35 de seus 64 anos ao ofício da arte. Essa trajetória está registrada no livro que leva simplesmente seu nome, organizado por ele, Renato Morcatti e Márcia Larica e lançado recentemente pela editora mineira C/Arte ( 206 páginas, R$ 60). A publicação apresenta um panorama do processo de criação do artista mineiro, cuja obra reúne pintura, instalação, desenho e objeto. Marco Tulio revela que faz, desfaz e refaz suas peças jogando com erros, acidentes e acertos surgidos nessa jornada. “Talvez tudo seja um grande diário, construído quase como instinto de sobrevivência”, suspeita. “Minha arte está ligada à memória, mas não só a memória afetiva.”
A matriz é o desenho, que pode gerar pinturas, peças gráficas ou objetos. As obras de Marco Tulio trazem a interpelação de situações e temas ligados à vida e à morte, além de questões alusivas ao tempo e à percepção do mundo. ”Somos o que somos devido ao que vivenciamos e guardamos ao longo da vida”, afirma. “Certa vez, li que o homem tem medo do objeto que não tem nome. Concordo. O que faço é nomear, renomear e ressignificar as coisas.” Para ele, pouco importa se isso se dá com abstrações ou figurações, de modo mais subjetivo ou objetivo.
Marco Tulio explica que suas evocações a signos, letras e textos são uma tática para criar estranhamentos a partir da briga da palavra com a forma. O processo de criação, resume, ”é experiência o tempo inteiro”. Vera Casa Nova, pesquisadora em poéticas visuais e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o crítico de arte e curador Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), assinam os textos do livro.
Exercitando o olhar
Professor de desenho da Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), onde ele próprio estudou, Marco Tulio Resende nasceu em Belo Horizonte em 1950. Iniciou suas atividades no fim da década de 1970. “Diferentemente da geração anterior à minha, cujo trabalho era mais conceitual, eu e meus colegas retomamos questões que haviam ficado à margem. É o caso do objeto – não como experimentação, mas como construção específica. Exercitamos o olhar para coisas meio largadas no mundo”, explica.
Marco Tulio prefere não enquadrar sua obra em categorias. “Pertenço a um tempo e procuro olhar para as questões postas por ele. Até porque esse tempo é aquele que, de fato, tenho para fazer arte”, argumenta.
Os professores foram decisivos para a formação do artista plástico. Sara Ávila (1933–2013) despertou-lhe a atenção para os aspectos simbólicos. Já Amilcar de Castro (1920–2002) ensinou-lhe o vocabulário visual artístico. “Ponto, linha, espaço e textura”, resume Resende, referindo-se aos ensinamentos do escultor.
Outra contribuição importante veio do norte-americano Bob Loescher, orientador de seu mestrado no Instituto de Arte de Chicago (EUA). “Muito jovem e deslumbrado com o que encontrei nos Estados Unidos, vi-me solicitado por ele a cuidar do 'eu cultural', a observar o Brasil e a nossa cultura. Passei, então, a valorizar mestiçagem, com sua estética precária e o sentimento telúrico, que é nosso”, conta.
REFERÊNCIAS Nos últimos anos, o ambiente cultural de Belo Horizonte melhorou, constata Marco Tulio, citando o aumento do número de instituições em atividade. Para ele, é inestimável a cidade contar “com duas escolas de referência”: a Guignard, da UEMG, e a Belas-Artes, da UFMG. “Porém, quando pensamos no Brasil não só a partir do Sudeste, percebemos que, assim como há desigualdade social, há desigualdade educacional”, adverte o professor.
Para ele, é positivo o cenário do mercado de arte local, criado paralelamente à atuação de sua geração. “Mas sou crítico das visões que consideram arte só como mercado. Arte é também questionamento, visão de mundo, espelho sensível do ser humano”, afirma.
Os 35 anos de ofício não significam que as coisas ficaram mais fáceis para Marco Tulio. “É como estar em um carro que entra no túnel escuro com os faróis voltados para trás. Você enxerga o que fez, mas o que está à frente é recomeçar do zero”, argumenta, valendo-se da frase do escritor Pedro Nava
Fonte: Uai, por Walter Sebastião em 30 de março de 2015.
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Links
Marco Tulio Resende (Belo Horizonte, MG, 1950) é um pintor, desenhista e professor.
Biografia Itaú Cultural
Estuda artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte, entre 1971 e 1974, onde convive com Amilcar de Castro (1920 - 2002), Sara Ávila (1932) e Lotus Lobo (1943). Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo em 1973. Dois anos depois, faz sua primeira exposição individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, em Belo Horizonte. Entre 1975 e 1979, faz mestrado na School of the Art Institute of Chicago - Artic, Estados Unidos, como bolsista da Fulbright Commission. Ganha o prêmio de desenho no 9° Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, em 1977, e menção honrosa do Fellowship Contest, promovido pelo Artic em 1978. De volta a Belo Horizonte, em 1979, retorna à Escola Guignard como professor. Recebe bolsa do Goethe Institut para estudar na Alemanha em 1990. Em 1998, é convidado a participar como artista visitante da Sheffield Hallam University, Sheffield, Inglaterra.
Análise
Marco Tulio Resende tem uma produção diversificada, trabalha com pintura, desenho, gravura, objetos, instalações e livros-objeto. Sua obra é marcada por um caráter intimista que, segundo o próprio artista, provém da tentativa de se ver no mundo, de se espelhar e se reconhecer nele.
O artista cria livros-objeto, construídos por pinturas e desenhos. Para o artista plástico e crítico de arte Márcio Sampaio (1941), nessas obras Resende escreve também sua própria história: seu trabalho requer do espectador uma grande concentração, para seguir cada um dos momentos de sua vida ali apresentados e para prosseguir em sua leitura. Para Sampaio, as formas que realiza, como osso, martelo, torre, mão, cravo ou flor, aludem a sentimentos vivenciados pelo artista, como perdas, medos, desejos e desistências.
Resende cria obras a partir de materiais do cotidiano, como madeira, tecido, terra, cristais e pedaços de ferro. Segundo a historiadora da arte Aracy Amaral, em Carro, 1999, o artista alude ao meio de transporte por meio de uma construção com madeira e barro, recriado-o assim de maneira precária. Já em Ilha, 1999, apresenta um cesto de madeira fechado por cintas de metal, em cujo interior coloca pedras. Em Jardim, 1999, constrói montes de barro de formato similar sobre uma base de madeira. Os trabalhos geram um certo desconcerto no observador. São imagens não usuais, compostas por objetos com os quais o artista se depara em seu dia-a-dia e que podem alcançar significados diversos. Representam também fragmentos de sua memória pessoal, recuperados em seus trabalhos.
Para o historiador da arte Tadeu Chiarelli, em suas obras sobre papel o artista cria um campo exploratório especifico para a formulação de seu próprio imaginário. Nesses trabalhos, formas amputadas do corpo humano transformam-se em elementos modulares, dotados de forte concentração dramática.
Críticas
"Através de pesquisa contínua, Marco Túlio Resende trava, com a natureza, com as coisas e com os seres, um misterioso diálogo, mediante o qual se efetua uma constante permutação e se estabelece o seu vocabulário, seu monólogo interior denso e severo. Lançando mão de objetos banais, Marco Túlio não pretende dotá-los de nova categoria estética nem nada alterar em sua condição. Não. O artista pretende descobrir a magia das coisas, o rito escondido atrás da máscara, e reinventar o gesto e o olhar. É este o sentido de seu trabalho: dar uma visão nova de coisas que nem enxergamos mais ou ainda: recuperar a mágica das formas relegadas e patenteá-las aos nossos olhos. Esta, talvez, a missão por excelência do artista: não a de alterar categorias estéticas existentes, mas, iluminá-las; não a de criar novas categorias, mas, redescobri-las. Seus trabalhos exprimem bem essa postura: através da síntese e não da análise das formas trabalhadas, o artista realiza o seu jogo, sua razão e sua visão. Cumpre-nos acompanhá-lo em suas ordenações que não pretendem modificar a ordem existente, senão percebê-la, apreendê-la e comunicarmos seu sentido mais secreto. Com suas sugestões de relíquias, de estranhos elementos encantatórios e suas alusões totêmicas, estes trabalhos não se impõem aos olhos do espectador. Eles antes convidam-nos a percorrer um itinerário desconhecido, incerto, mas sempre repleto daquilo que é tão caro ao homem: a descoberta do imponderável, do mistério cuja chave às vezes perdemos mas que sempre almejamos reencontrar".
Affonso Renault (DEZ artistas mineiros. São Paulo: MAC/USP, 1984.)
Acervos e Coleções
Museu de Arte de Belo Horizonte
IBM do Brasil
Sociedade Amigas da Cultura de Belo Horizonte
Fundação Clóvis Salgado
Aeroporto Internacional de Confins
Rede Globo - Minas Gerais
Associação Cristã de Moços - Minas Gerais
Banco Lar Brasileiro
Jornal do Brasil
Banco Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG
Rede Manchete - setor Belo Horizonte
FUNARTE - Rio de Janeiro
Centro Cultural Cândido Mendes - Rio de Janeiro/RJ
Banco Agrimisa
Coleção João Satamini
Coleção Gilberto Chateaubriand.
Prêmios
1971 - Prêmio Aquisitivo - Salão da ACM - Associação Cristã de Moços - BH
1972 - Menção Honrosa - Salão de Arte de Juiz de Fora
1973 - Prêmio Aquisitivo - V Salão de Verão do Jornal do Brasil - RJ
1973 - Prêmio de Proposta - Salão Comemorativo do Centenário de Santos Dumont - Palácio das Artes - Belo Horizonte
1974 - Prêmio de Desenho - IV Salão da Prefeitura de Belo Horizonte
1978 - Menção Honrosa - Fellowship Contest - School of the Art Institute of Chicago - USA
1980 - Prêmio de Desenho - 37o Salão Paranaense - Curitiba/PR
1980 - Grande Prêmio - XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1981- Prêmio de Desenho - III Mostra de Desenho Brasileiro - Curitiba/PR
1984 - Prêmio Fundação Clóvis Salgado - I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
1987 - III Prêmio - I Mostra de Arte Patrícia Maranhão - Belo Horizonte
1987 - Prêmio Aquisitivo no XVIII Salão Nacional da Prefeitura de Belo Horizonte (menção especial do juri)
1988 - Concorrência FIAT - Patrocínio para a exposição coletiva “Um Espelho no Escuro” - Palácio das Artes e Espaço Mascarenhas - Belo Horizonte e Juiz de Fora/MG.
1988 - Prêmios Viagem - Brasil no X Salão Nacional (Funarte/Rio)
Exposições Individuais
1975 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1979 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1982 - Belo Horizonte MG - Individual, na Grande Galeria do Palácio das Artes
1982 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Macunaíma
1984 - Belo Horizonte MG - Individual, no IAB/BH
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, na Gesto Gráfico Galeria de Arte
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaugaleria
1987 - Basília DF - Individual, na Galeria Oscar Seraphico
1987 - Vitória ES - Individual, na Itaugaleria
1988 - Belo Horizonte MG - Marco Tulio Resende: pinturas, na Manoel Macedo Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCCM
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1989 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria Corpo
1991 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaú Cultural
1992 - Vitória ES - Individual, na Galeria de Arte e Pesquisa do Centro de Artes/UFES
1993 - Belo Horizonte MG - Individual, na Kolams Galeria de Arte
1993 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1994 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
1996 - Brasília DF - Individual, na Fundação Athos Bulcão
1996 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Marília Razuk
2001 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
2010 - "Ecce Homo" - galeria da FAOP - Ouro Preto/MG
2011 - Ex-Libris - Galeria Com Arte – Belo Horizonte/MG
2015 - CÓDICE - Do risco ao risco - Museu da Vale - Vila Velha/ES
2016 - AXIS - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - AXIS - Centro Cultural SESIMINAS Ouro Preto/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - OLHO NU - Centro Cultural UFMG - Belo Horizonte/MG
Exposições Coletivas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1975 - São Paulo SP - Coletiva Novas Tendências, no Paço das Artes
1977 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1978 - Chicago (Estados Unidos) - Fellowship Contest da School of the Art Institute of Chicago - menção honrosa
1979 - Rio de Janeiro RJ - 2º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1980 - Belo Horizonte MG - 12º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1981 - Belo Horizonte MG - 8º Salão Global de Inverno, na Fundação Palácio das Artes
1981 - Curitiba PR - 3ª Mostra do Desenho Brasileiro - premiado
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco
1981 - Rio de Janeiro RJ - 4º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1981 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Global de Inverno, no MAM/RJ
1981 - São Paulo SP - 8º Salão Global de Inverno, no Masp
1982 - Belo Horizonte MG - 14º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1982 - Penápolis SP - 5º Salão de Artes Plásticas da Noroeste, na Fundação Educacional de Penápolis. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Penápolis
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Brasília DF - 4 Artistas Mineiros, Itaugaleria
1983 - Campo Grande MS - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1983 - Londres (Inglaterra) - 6 Artists from Brazil, na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London
1983 - São Paulo SP - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1984 - Belo Horizonte MG - 1º Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1984 - Curitiba PR - 6ª Mostra do Desenho Brasileiro
1984 - São Paulo SP - 10 Artistas Mineiros, no MAC/USP
1985 - Belo Horizonte MG - 17º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio aquisição
1985 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Rio de Janeiro RJ - Velha Mania: desenho brasileiro, na EAV/Parque Lage
1986 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Artes Plásticas: sudeste, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - São Paulo SP - 17º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1986 - São Paulo SP - 4º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Fundação Bienal
1987 - Belo Horizonte MG - 19º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1987 - São Paulo SP - 5º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Pinacoteca do Estado
1988 - Belo Horizonte MG - Um Espelho no Escuro, no Palácio das Artes
1988 - Juiz de Fora MG - Um Espelho no Escuro, no Espaço Mascarenhas
1988 - Rio de Janeiro RJ - 10º Salão Nacional de Artes Plásticas, na Funarte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Salão Nacional de Artes Plásticas - prêmio de viagem pelo país
1989 - Bonn (Alemanha) - 6 Artistas Brasileiros, na Galeria Rave
1989 - França - Mostra itinerante Estandartes da Liberdade - Bicentenário da Revolução Francesa
1989 - Recife PE - Minas em Traços Gerais, no Museu de Arte do Recife
1990 - Belo Horizonte MG - Da Forma à Forma - Notícias da Terra 10 Anos Depois, no Palácio das Artes
1990 - Freiburg (Alemanha) - Aspectos da Arte Latino-Americana, na Ruta Correa Galerie
1990 - São Paulo SP - 21º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1991 - Belo Horizonte MG - BR/80: pintura Brasil década 80, no Núcleo de Informática e Cultura Belo Horizonte
1992 - Belo Horizonte MG - Utopias Contemporâneas, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1994 - Belo Horizonte MG - Cor e Luz, na Cemig Galeria de Arte
1994 - Belo Horizonte MG - Guignard: 50 anos de uma escola de arte, na Galeria Vidyã
1995 - São Paulo SP - Minerações, no LR Escritório de Arte
1996 - Freiburg (Alemanha) - Coletiva, na Ruta Correa Galerie
1998 - Belo Horizonte MG - Terra e Mar a Vista, no Itaú Cultural
1998 - Brasília DF - Cien Recuerdos para Garcia Lorca, no Espaço Cultural 508 Sul
1998 - Brasília DF - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - Penápolis SP - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - São Paulo SP - Viagens, no Itaú Cultural
1999 - São Paulo SP - Arte Brasileira sobre Papel na Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - São Paulo SP - Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Marco Tulio Resende, na Marília Razuk Galeria de Arte
2000 - Belo Horizonte MG - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Fundação Clóvis Salgado. Companhia de Dança de Minas Gerais
2000 - Belo Horizonte MG - Presente de Reis, na Kolams Galeria de Arte
2000 - Leiria (Portugal) - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Galeria57 - arte contemporânea
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Niterói RJ - Diálogo, Antagonismo e Replicação na Coleção Sattamini, no MAC/Niterói
2002 - São Paulo SP - 10 Anos Marília Razuk, na Marília Razuk Galeria de Arte
2003 - Rio de Janeiro RJ - Projeto Brazilianart, na Almacén Galeria de Arte
2003 - São Paulo SP - Coletiva Marília Razuk Galeria de Arte, na Marília Razuk Galeria de Arte
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria Lemos de Sá – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Capolavoro – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva “Quadrantes” – Galeria de Arte Casa da Cultura Estácio de Sá – Belo Horizonte/MG
2010 - "Quando a argila fala" – Galeria do BDMG Cultural – Belo Horizonte/MG
2011 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria da FIEMG – Ouro Preto/MG
2011 - Encontros Cerâmica - Galeria do Centro Cultural de Contagem - Contagem/MG
2012 - Galeria de Arte da Cemig - “60 x 20” – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Noite da Cerâmica – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Livros de Artista– BH
2013 - Mac – Museu de Arte Contemporânea do Paraná – “Cor, Cordis”, mostra do acervo – Curitiba – PR
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - “Não Há Estagnação - Apenas Movimentos Tempestuosos” - MUSEU MINEIRO BH/MG
Fonte: MARCO Tulio Resende. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: >. Acesso Itaú Cultural: 16 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Histórico - Site oficial Marco Tulio Resende
Formado pela Escola Guignard - UEMG (1971/74), fez mestrado na School of the Art Institute - Chicago (1975/78) como bolsista da Fulbright Comission. Professor da Escola Guignard - UEMG a partir de 1979. Artista visitante na UFMG e na Sheffield Hallam University - Inglaterra (British Council). Bolsa Goethe Institut – Alemanha (1994). Proferiu palestras e oficinas em vários festivais de arte, UFMG - Minas Gerais, UFES - Espírito Santo, SESC - São Paulo. Participou da Bienal de São Paulo - 1973 e Panorama das Artes - São Paulo -1986 e do projeto / residência Faxinal das Artes- Paraná 2003. Obteve vários prêmios, entre outros, o grande prêmio do Salão da Prefeitura de Belo Horizonte - 1981 e prêmio de viagem no Salão Nacional - FUNARTE - 1988. Expõe regularmente desde 1978, individual e coletivamente, tendo realizado mostras em espaços institucionais como Palácio das Artes, MAP - Belo Horizonte, Centro Cultural Light - Rio de Janeiro, Paço das Artes, MAM e Itaú Cultural - São Paulo, Santander Cultural - Porto Alegre e em galerias como Ana Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, Marília Razuk - São Paulo, Ruta Correa – Freiburg / Alemanha, Manoel Macedo, galeria Gesto Gráfico, galeria kolams - Belo Horizonte, entre outras. Participou do projeto “Ano do Brasil na França” 2005 - Brasil herança africana - Museu Dapper - França/Paris.
Cronologia
1950 - 1979:
Formou-se em artes plásticas pela Escola Guignard da Universidade de Minas Gerais (UEMG) em 1974, onde estudou com vários artistas, entre eles, Amilcar de Castro, Sara Ávila e Lotus Lobo. Quando estudava na Escola Guignard participou do III Salão Nacional de Arte do Museu de Arte da Pampulha e foi premiado no Salão da Associação Cristã de Moços, em Belo Horizonte (1971). Ainda como estudante universitário toma parte, nos anos seguintes, do IV e VI Salão Nacional de Arte Universitária da UFMG, realizados em Belo Horizonte.
Em 1973 participa da XII Bienal Internacional de São Paulo e é premiado no V Salão de Verão do Jornal do Brasil, realizado no MAM do Rio de Janeiro. Em 1975 integra a coletiva NOVAS TENDÊNCIAS, organizada no Paço das Artes, em São Paulo e realiza sua primeira individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos de Belo Horizonte, onde mostrou uma série de desenhos. Fez o Curso de Mestrado na School of The Art Institute of Chicago como bolsista da Fulbright Comission (1975-1979), quando teve a oportunidade de conhecer o Prof. Dr. Bob Loescher, especialista em Arte Ibérica e Latino-Americana, que foi de grande importância em sua formação. Como orientador de Mestrado, Bob Loescher ajudou o artista a melhor perceber a dimensão da arte contemporânea, assim como aprofundar a visão de suas raízes e de sua cultura no contexto da Arte Brasileira. Marco Tulio desenvolveu reflexões sobre seu trabalho e uma série de desenhos, intitulados TORDESILHAS, buscando integrar a teoria e a prática artística. Durante esta época recebe o Prêmio de Desenho no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e a Menção Honrosa do Felowship Contest – School of the Arte Institute of Chicago, nos Estados Unidos (1978). Retornando à Belo Horizonte, em 1979, realiza duas exposições individuais: na Galeria do ICBEU, onde apresentou a série TORDESILHAS e na Galeria da Biblioteca Pública, em que mostrou trabalhos experimentais com intervenções fotográficas.
1980 - 1989
A década de 80 marca o encontro de Marco Túlio com sua geração e a participação em várias coletivas com os artistas: Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Humberto Guimarães, entre outros. Em 1980 participa da coletiva NOTÍCIAS DA TERRA, quando apresentou sua nova fase de objetos voltada para as referências urbanas. A exposição teve a curadoria do artista e crítico Márcio Sampaio, Diretor de Artes Plásticas da Fundação Clóvis Salgado e catalisador dos jovens artistas de Belo Horizonte. Neste ano, participa do Salão Nacional do Rio de Janeiro e recebe o Primeiro Prêmio no XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte com uma série de desenhos e objetos denominada URBANÁLIA. Esta série, revelando a ritualização da precariedade urbana, sinalizou o tom de sua poética.
Em 1981 integra a coletiva no Centro Cultural em Brasília, participa do Salão Nacional no Rio de Janeiro e recebe o Prêmio de Desenho na III mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba. Em 1982 realiza exposições individuais na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro; e na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde mostrou pinturas e objetos, desdobramentos da série URBANÁLIA. Neste ano é artista convidado para integrar o V Salão de Artes Plásticas do Noroeste, realizado em Penápolis, e participa do XIV Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
Em 1983 é convidado a participar do Arte Global (vídeo-expo), realizado na Fundação Clóvis Salgado, com o patrocínio da Rede Globo, e da coletiva 6 ARTISTS FROM BRAZIL, com artistas professores da Escola Guignard, realizada na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London, na Inglaterra. Participa da coletiva DEZ ARTISTAS DE MINAS, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, com curadoria de Mário Sampaio e da VI Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba, ambas em 1984. Ainda este ano, recebe o Prêmio de Pintura no Salão de Arte, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Realiza, também, exposição individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em Belo Horizonte, onde apresentou pinturas em grandes formatos.Participa de significativas exposições coletivas: VELHA MANIA, organizada por Marcus Lontra, no Parque Lage, Rio de Janeiro (1985); 08 ou 80 na Universidade Fluminense, em Niterói (1985); BRASIL/PINTURA/HOJE, na Galeria Oscar Seraphico, em Brasília (1986/87); e PANORAMA DA PINTURA BRASILEIRA, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (1986).
Em 1986, realiza várias individuais, em Belo Horizonte, na Galeria Gesto Gráfico, onde apresentou uma nova série com seus primeiros recortes, intermediários entre a pintura e o objeto; na Sala Corpo de Exposição e na Itaú Galeria de Arte, ocasião em que apresentou a série de DIÁRIOS, registros resultantes de suas pesquisas e vivências.Com os DIÁRIOS recebe o Prêmio Aquisitivo no XVII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1987) e o Prêmio Viagem ao Brasil no X Salão Nacional da FUNARTE, no Rio de Janeiro (1988). Participa, ainda, do V Salão Paulista (1987) e da exposição coletiva UM ESPELHO NO ESCURO, projeto premiado pela FIAT Automóveis.Em 1988, realiza individuais nas galerias Anna Maria Niemeyer e Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ) e na Manoel Macedo Galeria de Arte, em Belo Horizonte.1989: marca sua participação em importantes coletivas: ESTANDARTES DA LIBERDADE, exposição itinerante pela França, organizada pela Aliança Francesa, em homenagem ao Bicentenário da Revolução Francesa; CADA CABEÇA UMA SENTENÇA, mostra itinerante pelo Brasil, coordenada por José Alberto Pinho Neves e Arlindo Daibert; MINAS EM TRAÇOS GERAIS, apresentada no Museu de Arte de Olinda - PE, SEIS ARTISTAS BRASILEIROS, com a participação de Karen Lambrecht e Marco Gianotti, realizada na Galeria Raue, em Bonn, na Alemanha.
1990 - 1999
Marco Tulio inaugura os anos 90 com uma mostra individual na Galeria Corpo, em Belo Horizonte e da exposição coletiva DA FORMA À FORMA (Notícias da terra 10 anos depois), realizada na Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte, com a curadoria de José Alberto Nemer, onde apresentou o resultado de dez anos de pesquisa e experimentação com pinturas e recortes em grandes formatos. Recebe Bolsa do Goethe Institut, para estudar na Alemanha, ocasião em que participou da coletiva ASPECTOS DA ARTE LATINO AMERICANA, realizada na Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1990).
Em 1991 participa da coletiva ABSTRAKT, na Galeria Ruta Correa, em Freiburg. Toma parte no Projeto BR 80, que consistiu em workshop e mostra, referentes à pintura brasileira na década de 80. O projeto foi organizado pelo Instituto Itaú Cultural, com a curadoria de Frederico Morais e Márcio Sampaio, e a participação de vários artistas brasileiros.Na década de 90 consolida sua carreira artística com várias individuais: Galeria Manoel Macedo, em Belo Horizonte (1991); Galeria da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória (1992); Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio de Janeiro (1993); Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1993/99); Galeria Marília Razuk, em São Paulo (1993/96); Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1996); Galeria Corpo, em Belo Horizonte (1997); e Galeria Referência, em Brasília (1998).Participa também de diversas coletivas: MINERAÇÕES, no LR Escritório de Arte, em São Paulo (1995); artista convidado para participar do Projeto FACHADAS IMAGINÁRIAS, realizado no Rio de Janeiro e São Paulo, com a participação de 100 artistas internacionais, curadoria de Fhilippe Mouillon (1996); PEDRA SABÃO, organizada pela Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1997); A FORMAÇÃO DA ARTE CONTEMPORÂNEA, realizada no Museu de Arte da Pampulha, com a curadoria de Marília Andrés Ribeiro, em comemoração ao centenário de Belo Horizonte (1997); TERRA E MAR À VISTA, promovida pelo Projeto Viagens do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, com a curadoria de Agnaldo Farias (1998); Projeto ARTE EM MOVIMENTO, realizada no SESC Pompéia, em São Paulo, também com a curadoria de Agnaldo Farias e participação de Nelson Leirner, Iole de Freitas, Paulo Pasta, Carlos Fajardo e Gil Vicente (1998); Centro Cultural UFMG - 10 anos, coordenada por Fernando Pedro e Marília Andrés (1999) e Objetos, Galeria Marília Razuk, São Paulo (1999).Toma parte no programa Artista Visitante, da Escola de Belas Artes da UFMG, compartilhando a oficina com Humberto Guimarães e Orlando Castaño (1996/1997).Em 1998 é convidado a participar, como artista visitante, da Sheffield Hallam University, integrando o programa de intercâmbio entre a Escola Guignard e a Universidade Inglesa, promovido pelo Conselho Britânico.
2000 - 2014
Marco Túlio participa de importantes coletivas: Galeria 57, Leiria - Portugal (2000); DIÁLOGO, com Manfredo Souzanetto, Centro Cultural Light, Rio de Janeiro (2001); Galeria Manoel Macedo, Belo Horizonte (2001); DIÁLOGOS, TANGENCIANDO AMILCAR, no Santander Cultural, Porto Alegre (2002), com curadoria do crítico Tadeu Chiarelli; Galeria Marília Razuk, São Paulo (2003). Nesse ano participa também do Projeto Residência Faxinal das Artes, no Paraná. Em 2005 é convidado para participar da exposição BRÉSIL, I’ HÉRITAGE AFRICAIN do projeto França-Brasil no Musée Dapper, Paris. No ano seguinte na Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte – MG, participa da exposição MURILIANA: Murilo Rubião 90 anos e da exposição PICTÓRICA. Em São Paulo no Instituto Tomie Ohtake no ano de 2007, integra a exposição 80 90 MODERNOS PÓS MODERNOS ETC; neste mesmo ano na Fundação Clóvis Salgado, exposição IMPRESSÕES DIVERSAS, coordenada pela artista gravadora Thaïs Helt. Individuais: Galeria de Arte da CEMIG, exposição ETCOETERA, Belo Horizonte - MG (2008); Galeria de Arte Nello Nuno, exposição ECCE-HOMO, Ouro Preto-MG (2010) e Galeria LivroBjeto, exposição EX-LIBRIS, Belo Horizonte - MG (2011). Participou da Feira ArteBA em Buenos Aires – Argentina, Galeria Lemos de Sá (2011). Em 2012 participou da exposição LIVROS DE ARTISTA na Galeria LivroBjeto em Belo Horizonte e foi convidado pela TV Assembléia/MG para prestar um depoimento sobre sua trajetória artística, exibido no programa "Memória e Poder".
Textos críticos
"A prolífica obra de Marco Túlio Resende é proveniente de sua obsessão em registrar tudo o que acontece, tudo com o que ele se depara em seu cotidiano como também fragmentos daquilo com que já se deparou e que, no entanto, por resistir a desaparecer, ainda sobrevive incólume na memória; algo que eventualmente será reanimado pelo que está sendo contemplado agora e que a ele irá se juntar, sobrepor-se, alterando-a inevitável e definitivamente.
As coisas afinal, não existem a não ser por nós, o que é o mesmo que dizer que vivem comprimidas entre o nosso passado e o nosso futuro. Trata-se de um projeto destinado à incompletude, sentimento que de resto atravessa todas as nossas vidas com sua sucessão de acidentes e atitudes cuja a finalidade não logramos alcançar. Marco Túlio desenha, registra em traços rápidos, executados em linhas grossas, o que lhe vai na lembrança ou mesmo o que agora está passando no meio da procissão que o cotidiano despeja sobre suas retinas. O problema pode ser formulado da seguinte maneira: afinal o que sobra de tudo? Como reter e o que reter das coisas? Como obter das coisas um pouco de quietude, dado que elas não cessam de se movimentar? O apego a tudo reveste-se de um desejo de conhecimento. Desenhar, como se sabe, é reduzir a coisa ao seu esquema, seu nervo: sua estrutura, os ossos que esteiam a construção e a superfície que lhe garante os limites.
E porque tudo interessa e porque de tudo só se pode reter fragmentos é que sua obra trata de bocados, resíduos e frações de imagens, resíduos e frações das coisas. Para tanto o artista se vale de uma surpreendente quantidade de instrumentos e processos, posto que para falar de algo tanto vale o que resulta de um gesto quanto a ferrugem que espontaneamente vai aflorando na superfície de pedaço de ferro, parte de algo que não se pode mais identificar mas, que devidamente contextualizado, presta-se a ser carregado de mistério e sentido. Identificar e oferecer utilidade às coisas equivale a salvá-las do esquecimento a que estão condenadas.
Nesse sentido, o tempo é uma dimensão inelutável. Nossas experiências vão sendo – mal – acondicionadas até o momento em que toda memória é uma barafunda, em que tudo se mistura e cuja ordenação dá margem, como um dia disse Pedro Nava puxando por Proust, a um mosaico fraturado e desconexo, onde as coisas que outrora incompatíveis no tempo e no espaço comparecem alinhavadas umas às outras, deixando aqui e ali, nos seus interstícios, vastos vazios lacunares. O extraordinário, diz Marco Túlio, é que enfrentamos o agora precariamente armados com a memória. E aquilo que agora vai fugindo, que me escorre por entre os dedos é ainda assediado por lembranças de outras coisas.
A nostalgia – afinal, por que não esquecemos de tudo? – se interpõe entre mim e as coisas, o que equivale a dizer que eu mesmo me interponho entre as coisas. Fernando Pessoa não se perguntava sobre quem era aquele que respeitava por seus olhos? Marco Túlio Resende faz pinturas, desenhos, gravuras, objetos, instalações, livros...Tudo interessa, tudo “provém da tentativa de me ver no mundo, de me espelhar e reconhecer através da pegada, do rastro da passagem e sucessão de momentos” O artista comporta-se como um expedicionário cuja ambição é não deixar nada de fora e que para tanto confecciona um diário polimórfico. Uma coleção insuspeita de meios e estratégias dado que do mesmo modo que as coisas são irredutíveis entre si, nenhuma forma pode substituir a outra."
— Agnaldo Farias (O Diário do Diverso)
"Inventário do abandono é o nome da obra (será mesmo uma obra?) em processo, uma combinação de armários e estantes desiguais, que preenche praticamente toda a parede da esquerda do atelier de Marco Tulio Resende, melhor dizendo, aparede do fundo, considerando-se que ela fica no extremo oposto da entrada do salão largo e pouco profundoque ele transformou em oficina, depósito, escritório, sala de estar e até mesmo confortável dormitório. Situado sob um pequeno conjunto de lojas num aprazível bairro de Belo Horizonte, construídoa beira de um terreno íngreme, o ateliê de agora resultou de um espaço perdido, abaixo do piso das lojas, invisível aos olhos dos passantes e moradores, que o artista comprou, reformou, transformando-o nos vários espaçosmencionados, além de um belvedere privilegiado cuja vista dá para o casario entorno, esparramado pelas laterais de umadas montanhas onde a capital mineira foi implantada.
Inventário do abandono nasceu como que por acaso e aos poucos. Foi sendo produzida despretensiosamente, sem que o artista soubesse no que ia dar, sem projeto e planejamento, sem propriamente uma intenção. Um depósito resultante do acúmulo de coisas disparatadas que ele, movido por fascínio e afeição a manifestações singelas e incomuns, binômio que com esse ajuntamento termina por provar que se trata de uma particularidade de quase todos os objetos existentes, foi catando aqui e ali ao longo dos anos, juntando ao núcleo inicial que possivelmente reteve de sua própria infância, daquilo que, mais crescido, foi resgatando de sua família, da casa dos pais e irmãos, de amigos, e que foi se somando ao colhido em suas inúmeras viagens, das internacionais as domésticas, das frequentes incursões pelo interior de Minas, pelas serras, roças, pela imensa Minas histórica, como também pelas vilegiaturas em BH, as caminhadas ociosas, as saídas cotidianas para as compras caseiras em supermercados, padarias, postos de gasolina, outros locais que mecânica, diária e desatentamente atravessamos, mas não ele, pois é evidente que sua atenção nunca baixa a guarda, movido pela nítida certeza de que a alegria e a surpresa podem acontecer agora. Marco Tulio deixa-se atrair por tudo quanto é coisa, variada quanto a forma e finalidade, sobretudo por aquilo que displicentementese acomoda nas lojas de artesanato, armarinhos, armazéns de secos e molhados, mercados, bancas de jornais, de camelôs, na qualidade de subproduto, de escolho, detritos que a grande máquina industrial vai deixando a margem enquanto roda pesadamente.
Apesar da aparente barafunda das prateleiras, passando-se os olhos nota-se que tudo está relativamente organizado em filas e agrupamentos, e que há uma evidente predominância de bichos sob a forma de enfeites, miniaturas, brinquedos e, em número maior ainda,representações humanas. Uma multidão de bonecos, fetiches religiosos, relicários, estatuetas, ex-votos, cabeças e bustos de manequins, homenzinhos e super-heróis em miniaturas, realizados em madeira, barro, metal e plástico, acotovelam-se entrefotografias variadas, de si, da família, de obras do próprio artista, cartões postais, além de objetos de uso direto – peças de roupas variadas, adereços como colares e faixas-, utensílios e artefatos -instrumentos musicais, máquina de escrever, chaves-, entre tantos outros passíveis de serem manipulados.
O importante é abrir-se ao mundo, diz-nos as estantes superlotadas que perfazem esse Inventário de Marco Tulio, que se religam ao passado através dos objetos que um dia, o artista ou qualquer um de nós que compartilha o mesmo universo imaginário, admirou-se deles, ingenuamente cultuou-os ou apenas os utilizou. Olhar para esses objetos, reconhecer sua procedência ou simplesmente sua identidade, significa religar-se a eles no momento em que se os vê, no presente, posto que estão ali, à mão. A comunicação com essa sorte de objetos leva ainda, claro que mais ainda ao artista, responsável pela reunião sistemática e incansável daquilo tudo, uma comunhão comseus desconhecidos autores, uma tentativa de compreensão, um elo com aqueles que, produzindo-os, tiveram a intenção, mesmo que desajeitada, de agradar, entreter, insistir em lembrar a existência de um mundo ao lado deste em que vivemos, voltado ao encantamento, a brincadeira e também à uma dimensão mágica. Uma realidade paralela ou camada imaginativa abaixo do chão cotidiano, cujo acesso só acontece quando nos abandonamos a contemplação ou eventual manipulação desses objetos, e por força da potência que deles emana."
— Agnaldo Farias (Inventário do Abandono)
"Mergulhada na penumbra, ao fundo do atelier, uma extensa prateleira transborda. Objetos, materiais semi-destruidos, fragmentos e detritos de coisas que, de tantas perdas, perderam também sua identidade, de tanto se conjugarem, criaram novos sentidos. Acomodaram-se em seus lugares, imunes à saturação exterior, para cumprir, em silêncio e aparente imobilidade, seu compulsório destino. Res antiquissimae, que a atenção do artista – mais afetiva do que seletiva – foi reunindo ao longo dos anos, ali se transformaram em símbolos e arquétipos, e agora, nas linhas da estante, constroem em texto, uma história.
São testemunhos e substância dos dias que se contavam vagarosamente; as coisas que, acumulando a poeira do perdido, fazem ressoar, do fundo da memória, aqueles outros dias interiores, consumidos, que a este iluminam em obra de prestidigitação. Saber sua presença, já é experimentar a vida continuum, é capitalizar a riqueza interior com que construímos nossos aparelhos de percepção do mundo. Lá, naquele território densamente ocupado, as coisas na verdade estão vivas. E pulsam, em espera tensa, como que “conscientes”, anunciando outros sentidos delas vagarosamente porejam e se derramam pelo espaço da memória.
Na linha fronteiriça entre as coisas reais e as imaginadas, o desenho e a pintura de Marco Túlio Resende definem esse outro espaço, o lugar onde tudo é premência e iminência, lugar da lucidez e do desejo (da paixão), onde o artista grava sua poética iluminada experiência antecipada do futuro, que lhe permite detonar e pulverizar o sentimento de catástrofe que hoje imanta o mundo.Hábeas Corpus – declara Marco Túlio, no título de um de seus livros-objetos. “Tens o corpo”, e todas as sanções que lhe infringe a autoconsciência, a consciência desventurada, devem ser denunciadas e comutadas. A consciência que desenha o limite das suas faltas, impulsiona o artista para a experiência mais profunda, que o faz descartar a simples exibição de seu saber, para, com esse domínio do oficio, buscar um sentido, não do fazer, mas do ser.
Desde há muito, a obra de Marco Túlio se dispõe como texto progressivo, sempre a somar – com extratos da memória – sua história feita de intuições, que se enredam numa intrincada malha de acasos provocados. A principio, sua atenção concentrava-se nos relevos do cotidiano, na constelação de objetos e materiais que crispavam nosso olhar urbano. Refugados e humilhados, os resíduos descartados de seu uso natural, que o artista transformava em signos, para compor – por uma articulação precisa de cor, matéria, forma – um signódromo, depósito de sinais que conduziriam em suspensão pelas vias ásperas da rotina, ajudando-nos a redimir-nos do sentimento da perda produzido pela evidência dessas inutilidades que se acumulam, como cerco cruel, em torno de nós.No texto atual, construído com outros signos que são pré-figurações das coisas, projetadas desde o passado, - lá onde se gestam os mitos – fluem outras imagens, ora precisas, ora veladas; umas como substância da forma, outras, o vazio, a sua falta e sua sombra.
O corpo que temos, feitos de soma e subtrações: escultura; lapidação, corrosão, ou a construção; contração, concentração, expansão e dispersão; densidade e transparência. Espantado diálogo entre o sim e o não: porém, sempre se gravará em um, a tatuagem do outro.Nos livros-objetos, construídos com pinturas e desenhos, cada página que se passa é reiteração desse sentimento do tempo promulgado – e o gesto que de passa-las lentamente constitui uma aventura profundamente dolorosa e ao mesmo tempo venturosa. Porque Marco Túlio vai escrevendo sua própria história, e a dos dias e sua substância trágica e magnífica. É preciso uma concentração enorme para seguir cada uma das suas horas ali gravadas e prosseguir na sua lenta leitura. Se vemos desenhados na superfície das páginas, osso, martelo, torre, mão, cravo, flor, a tinta que tinha ressalta essas formas, diz terra, labor, sangue, desejo, desistência, e mais a diante, afirma seiva, fruto, divino, luz. Essa amorosa combinação que extrai a cada tempo, descortina paisagens, vivências; anuncia perdas, medos, e ao fim assina nosso compulsório duplo contrato com Deus e Mefistófeles, do qual resultará uma juventude retomada e que, provada na maturidade, desejamos a todo custo preservar.
É desse corpo do Humano anunciado nas páginas dos livros, que se projetam nas grandes telas as imagens feitas objetos, mas estes apenas se enunciam como sombras, longínquas sobras repetidas, recorrentes. Pois não são, senão, figuras divisadas na terceira face do espelho, onde tudo ao se dispersar mais se concentra? Nesse lugar que se chama Arte, onde as coisas, todas as coisas, recortadas e dadas pelo coração, se fazem em acordo na fundação de tudo que se persiste em nós, como ponto e estame de religação com o divino, construindo a possibilidade de explicação do inexplicável. Essas coisas que, de tão existidas, desistem e se desfazem, para permitir ao artista, na maturidade, recompor o sentido de sua presença – em última instância estão ali como confirmação de nossa permanência mais além do porto transitório da História.
— Márcio Sampaio (Os Termos do Corpo e das Coisas )
"Nada é humano no universo ininteligível fora dos rostos nus que são as únicas janelas abertas ao caos de aparências estranhas ou hostis. O homem só sai da solidão insuportável, no momento em que o rosto de um de seus semelhantes emerge do vazio de todo o resto. Mas a máscara o devolve a uma solidão mais terrível. (...) Ora a máscara possui ainda a força de aparecer no limiar desse mundo calmo e sossegado do tédio como uma obscura incarnação do caos (...) Pois a máscara é o caos feito carne.
Coleção de cabeças esculpidas em cerâmica. Cabeças como máscaras. Elemento religioso presente entre os ex-votos e as esculturas africanas. A cabeça esculpida parece catalogar figuras cujas formas fazem transparecer pela matéria o lado oculto e obscuro das almas. Antropopoética visual, onde o humano é representado num conjunto de multiplicidades possíveis em suas máscaras.
Cabeças concebidas como iguais, mas antropomorficamente diferentes. O artista faz laço ontológico entre a dimensão da forma e a do sensível, ou ainda, entre o mundo mítico e o mundo dos homens. Totens esculpidos contemporaneamente.
Prova do dilaceramento, essas cabeças nos remetem ao inicio do século 20. Ao acéfalo, o homem decapitado que Georges Bataille e André Masson nos mostraram em 1936, na revista que tem o mesmo nome. (Monstro arcaico encontrado em mitologias e em bestiários.) Não só no imaginário modernista e pós-modernista encontramos a decomposição da figura humana. As metamorfoses da forma humana são exploradas d e diferentes modos. Marco Tulio Resende nos remete à consciência da impossibilidade de fixar figuras humanas ainda hoje, pois o humano continua sob ameaças violentas.
As cabeças do artista são profundamente inquietantes. Elas são marcadas pela violência de épocas variadas, Perderam narizes, bocas... desfiguraram-se. São partes dos restos do homem.
É nesse mélange onde os volumes exprimem formas que Marco Tulio Resende repete diferençando e contratando na cerâmica os voti de cera dos ex-votos. Por outro lado, essas cabeças vão além do simbólico. Elas apresentam um a mais de sentido, um surplus de forma. Impressões de violência ou de dor dramaticamente despertada pela presença de pregos, pontas..."
— Vera Casa nova (Cabeças, cabeças, cabeças, faces, faces, faces, máscaras, máscaras, máscaras)
"O Instituto Itaú Cultural abriu em São Paulo a exposição “Terra e Mar à Vista”, resultado de projeto especial que reúne 11 artistas, entre os quais o mineiro Marco Túlio Resende, pintor e professor da Escola Guignard. Contando com o patrocínio do Instituto Itaú, a primeira etapa do programa, em janeiro, compreendeu uma viagem do grupo à Serra do Mar. Ali, os artistas conheceram a Estrada Velha de Santos, antigo Caminho do Mar, também chamado de Calçada de Lorena nos primórdio do Brasil e complexo industrial de Cubatão, uma das regiões mais poluídas do País.
Os escultores Artur Lescher e Anarrê Smith, os desenhistas Alexandre Nóbrega e Maria Teresa Louro, o Fotógrafo Nelson Kon e os pintores Dudi Maia Rosa, Fábio Cardoso d Almeida, José Spaniol e Marco Giannoti, todos de São Paulo, o desenhista Alexandre Nóbrega, de Recife, o fotógrafo Luiz Braga, de Belém do Pará, e Marco Túlio Resende, sob a coordenação do curador Agnaldo Farias apresentam, agora, o resultado da viagem ao Caminho do Mar, revelando diferentes visões e abordagens.
O quinto centenário do achamento do Brasil pelos portugueses suscita essa retomada ou reconstituição de itinerários, e foi este, exatamente, o sentimento do pintor mineiro ao conceituar sua proposta de trabalho. Marco Túlio Resende lembrou-se das expressões latinas “terra incógnita” e “finis terrae” escritas em antiqüíssimos documentos cartográficos, indicando nos primeiros mapas do Brasil, territórios ainda desconhecidos e inexplorados como o que iria palmilhar, ao descer a Serra do Mar entre as lembranças das peripécias de jesuítas, donatários e índios aguerridos e o impacto da poluição em que se chafurda miseravelmente a zona de Cubatão.
O artista entra em confronto direto com as contradições do País, escancaradas naquela viagem breve. De um lado a calçada por sobre a trilha quinhentista que galga a muralha da Serra do Mar foi a primeira porta do Brasil. Deu passagem à civilização euro-cristã recém-desembarcada rumo aos sertões para além do horizonte alado. Abriu caminho para o ouro, atrás do Paraíba e da Mantiqueira, para as Minas além do som Minas Gerais (Carlos Drumond de Andrade). De outra parte, o inferno poluído de Cubatão, que ali vomita fogo e fumaça, é cloaca e emblema dessa civilização que se chama Brasil. Legiões de miseráveis se abrigam em barracos na ravina, ao largo dos monumentais tanques cilíndricos e das chaminés desesperadas. Junto ao velho Caminho do Mar, gigantescos tubulões de uma antiga usina hidrelétrica geometrizam a paisagem. Natureza e construção, vida e caos.
Em três telas grandes dimensões, Marco Túlio Resende demarca um território de questionamento essencialmente plástico, em que suas emoções diante dos desafios se expressam através de texturas e veladuras, formas rarefeitas e signos raros pontuando a pura matéria pictórica. O tríptico se projeta no imenso livro pousado sobre uma mesa. Na capa pesada, evocação de livros imemoriais, as palavras Finis Terra.
O livro é feito de páginas de tela, nas quais o pintor-viajante narra o périplo com depuração e sutileza. Não se trata do registro óbvio ou mesmo referencial, mas de uma sucessão fascinante de imagens em que se vê, o pintor monta um diário e nele imprime sua linguagem ágrafa, sua escrita de manchas e aguadas, e nos transmite a inquietude dramática daqueles cenários devastados e de uma história de fim de mundos.
Marco Túlio Resende encontra a grande pintura no Caminho do Mar. Esta é a sua sesmaria na “terra brasiliae”, no “finis terrae” ignoto a ser desbravado. É a sua lavoura, sua mineração. E é bom ver que, entre tantos desastres, a civilização do Brasil continua a gerar artistas sensíveis e atentos às tragédias de que somos feitos, plantando no carrascal a semente da cultura que sobrevive e vinga."
— Ângelo Oswaldo (Um pintor no fim de mundos)
Fonte: Site oficial Marco Túlio Resende, consultado pela última vez em 26 de abril de 2020.
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Marco Tulio Resende resume em livro 35 anos de intenso trabalho criativo
O artista plástico e professor questiona temas como vida e morte e a percepção do mundo
Marco Tulio Resende dedicou 35 de seus 64 anos ao ofício da arte. Essa trajetória está registrada no livro que leva simplesmente seu nome, organizado por ele, Renato Morcatti e Márcia Larica e lançado recentemente pela editora mineira C/Arte ( 206 páginas, R$ 60). A publicação apresenta um panorama do processo de criação do artista mineiro, cuja obra reúne pintura, instalação, desenho e objeto. Marco Tulio revela que faz, desfaz e refaz suas peças jogando com erros, acidentes e acertos surgidos nessa jornada. “Talvez tudo seja um grande diário, construído quase como instinto de sobrevivência”, suspeita. “Minha arte está ligada à memória, mas não só a memória afetiva.”
A matriz é o desenho, que pode gerar pinturas, peças gráficas ou objetos. As obras de Marco Tulio trazem a interpelação de situações e temas ligados à vida e à morte, além de questões alusivas ao tempo e à percepção do mundo. ”Somos o que somos devido ao que vivenciamos e guardamos ao longo da vida”, afirma. “Certa vez, li que o homem tem medo do objeto que não tem nome. Concordo. O que faço é nomear, renomear e ressignificar as coisas.” Para ele, pouco importa se isso se dá com abstrações ou figurações, de modo mais subjetivo ou objetivo.
Marco Tulio explica que suas evocações a signos, letras e textos são uma tática para criar estranhamentos a partir da briga da palavra com a forma. O processo de criação, resume, ”é experiência o tempo inteiro”. Vera Casa Nova, pesquisadora em poéticas visuais e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o crítico de arte e curador Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), assinam os textos do livro.
Exercitando o olhar
Professor de desenho da Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), onde ele próprio estudou, Marco Tulio Resende nasceu em Belo Horizonte em 1950. Iniciou suas atividades no fim da década de 1970. “Diferentemente da geração anterior à minha, cujo trabalho era mais conceitual, eu e meus colegas retomamos questões que haviam ficado à margem. É o caso do objeto – não como experimentação, mas como construção específica. Exercitamos o olhar para coisas meio largadas no mundo”, explica.
Marco Tulio prefere não enquadrar sua obra em categorias. “Pertenço a um tempo e procuro olhar para as questões postas por ele. Até porque esse tempo é aquele que, de fato, tenho para fazer arte”, argumenta.
Os professores foram decisivos para a formação do artista plástico. Sara Ávila (1933–2013) despertou-lhe a atenção para os aspectos simbólicos. Já Amilcar de Castro (1920–2002) ensinou-lhe o vocabulário visual artístico. “Ponto, linha, espaço e textura”, resume Resende, referindo-se aos ensinamentos do escultor.
Outra contribuição importante veio do norte-americano Bob Loescher, orientador de seu mestrado no Instituto de Arte de Chicago (EUA). “Muito jovem e deslumbrado com o que encontrei nos Estados Unidos, vi-me solicitado por ele a cuidar do 'eu cultural', a observar o Brasil e a nossa cultura. Passei, então, a valorizar mestiçagem, com sua estética precária e o sentimento telúrico, que é nosso”, conta.
REFERÊNCIAS Nos últimos anos, o ambiente cultural de Belo Horizonte melhorou, constata Marco Tulio, citando o aumento do número de instituições em atividade. Para ele, é inestimável a cidade contar “com duas escolas de referência”: a Guignard, da UEMG, e a Belas-Artes, da UFMG. “Porém, quando pensamos no Brasil não só a partir do Sudeste, percebemos que, assim como há desigualdade social, há desigualdade educacional”, adverte o professor.
Para ele, é positivo o cenário do mercado de arte local, criado paralelamente à atuação de sua geração. “Mas sou crítico das visões que consideram arte só como mercado. Arte é também questionamento, visão de mundo, espelho sensível do ser humano”, afirma.
Os 35 anos de ofício não significam que as coisas ficaram mais fáceis para Marco Tulio. “É como estar em um carro que entra no túnel escuro com os faróis voltados para trás. Você enxerga o que fez, mas o que está à frente é recomeçar do zero”, argumenta, valendo-se da frase do escritor Pedro Nava
Fonte: Uai, por Walter Sebastião em 30 de março de 2015.
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Links
Marco Tulio Resende (Belo Horizonte, MG, 1950) é um pintor, desenhista e professor.
Biografia Itaú Cultural
Estuda artes plásticas na Escola Guignard, em Belo Horizonte, entre 1971 e 1974, onde convive com Amilcar de Castro (1920 - 2002), Sara Ávila (1932) e Lotus Lobo (1943). Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo em 1973. Dois anos depois, faz sua primeira exposição individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, em Belo Horizonte. Entre 1975 e 1979, faz mestrado na School of the Art Institute of Chicago - Artic, Estados Unidos, como bolsista da Fulbright Commission. Ganha o prêmio de desenho no 9° Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, em 1977, e menção honrosa do Fellowship Contest, promovido pelo Artic em 1978. De volta a Belo Horizonte, em 1979, retorna à Escola Guignard como professor. Recebe bolsa do Goethe Institut para estudar na Alemanha em 1990. Em 1998, é convidado a participar como artista visitante da Sheffield Hallam University, Sheffield, Inglaterra.
Análise
Marco Tulio Resende tem uma produção diversificada, trabalha com pintura, desenho, gravura, objetos, instalações e livros-objeto. Sua obra é marcada por um caráter intimista que, segundo o próprio artista, provém da tentativa de se ver no mundo, de se espelhar e se reconhecer nele.
O artista cria livros-objeto, construídos por pinturas e desenhos. Para o artista plástico e crítico de arte Márcio Sampaio (1941), nessas obras Resende escreve também sua própria história: seu trabalho requer do espectador uma grande concentração, para seguir cada um dos momentos de sua vida ali apresentados e para prosseguir em sua leitura. Para Sampaio, as formas que realiza, como osso, martelo, torre, mão, cravo ou flor, aludem a sentimentos vivenciados pelo artista, como perdas, medos, desejos e desistências.
Resende cria obras a partir de materiais do cotidiano, como madeira, tecido, terra, cristais e pedaços de ferro. Segundo a historiadora da arte Aracy Amaral, em Carro, 1999, o artista alude ao meio de transporte por meio de uma construção com madeira e barro, recriado-o assim de maneira precária. Já em Ilha, 1999, apresenta um cesto de madeira fechado por cintas de metal, em cujo interior coloca pedras. Em Jardim, 1999, constrói montes de barro de formato similar sobre uma base de madeira. Os trabalhos geram um certo desconcerto no observador. São imagens não usuais, compostas por objetos com os quais o artista se depara em seu dia-a-dia e que podem alcançar significados diversos. Representam também fragmentos de sua memória pessoal, recuperados em seus trabalhos.
Para o historiador da arte Tadeu Chiarelli, em suas obras sobre papel o artista cria um campo exploratório especifico para a formulação de seu próprio imaginário. Nesses trabalhos, formas amputadas do corpo humano transformam-se em elementos modulares, dotados de forte concentração dramática.
Críticas
"Através de pesquisa contínua, Marco Túlio Resende trava, com a natureza, com as coisas e com os seres, um misterioso diálogo, mediante o qual se efetua uma constante permutação e se estabelece o seu vocabulário, seu monólogo interior denso e severo. Lançando mão de objetos banais, Marco Túlio não pretende dotá-los de nova categoria estética nem nada alterar em sua condição. Não. O artista pretende descobrir a magia das coisas, o rito escondido atrás da máscara, e reinventar o gesto e o olhar. É este o sentido de seu trabalho: dar uma visão nova de coisas que nem enxergamos mais ou ainda: recuperar a mágica das formas relegadas e patenteá-las aos nossos olhos. Esta, talvez, a missão por excelência do artista: não a de alterar categorias estéticas existentes, mas, iluminá-las; não a de criar novas categorias, mas, redescobri-las. Seus trabalhos exprimem bem essa postura: através da síntese e não da análise das formas trabalhadas, o artista realiza o seu jogo, sua razão e sua visão. Cumpre-nos acompanhá-lo em suas ordenações que não pretendem modificar a ordem existente, senão percebê-la, apreendê-la e comunicarmos seu sentido mais secreto. Com suas sugestões de relíquias, de estranhos elementos encantatórios e suas alusões totêmicas, estes trabalhos não se impõem aos olhos do espectador. Eles antes convidam-nos a percorrer um itinerário desconhecido, incerto, mas sempre repleto daquilo que é tão caro ao homem: a descoberta do imponderável, do mistério cuja chave às vezes perdemos mas que sempre almejamos reencontrar".
Affonso Renault (DEZ artistas mineiros. São Paulo: MAC/USP, 1984.)
Acervos e Coleções
Museu de Arte de Belo Horizonte
IBM do Brasil
Sociedade Amigas da Cultura de Belo Horizonte
Fundação Clóvis Salgado
Aeroporto Internacional de Confins
Rede Globo - Minas Gerais
Associação Cristã de Moços - Minas Gerais
Banco Lar Brasileiro
Jornal do Brasil
Banco Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG
Rede Manchete - setor Belo Horizonte
FUNARTE - Rio de Janeiro
Centro Cultural Cândido Mendes - Rio de Janeiro/RJ
Banco Agrimisa
Coleção João Satamini
Coleção Gilberto Chateaubriand.
Prêmios
1971 - Prêmio Aquisitivo - Salão da ACM - Associação Cristã de Moços - BH
1972 - Menção Honrosa - Salão de Arte de Juiz de Fora
1973 - Prêmio Aquisitivo - V Salão de Verão do Jornal do Brasil - RJ
1973 - Prêmio de Proposta - Salão Comemorativo do Centenário de Santos Dumont - Palácio das Artes - Belo Horizonte
1974 - Prêmio de Desenho - IV Salão da Prefeitura de Belo Horizonte
1978 - Menção Honrosa - Fellowship Contest - School of the Art Institute of Chicago - USA
1980 - Prêmio de Desenho - 37o Salão Paranaense - Curitiba/PR
1980 - Grande Prêmio - XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1981- Prêmio de Desenho - III Mostra de Desenho Brasileiro - Curitiba/PR
1984 - Prêmio Fundação Clóvis Salgado - I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
1987 - III Prêmio - I Mostra de Arte Patrícia Maranhão - Belo Horizonte
1987 - Prêmio Aquisitivo no XVIII Salão Nacional da Prefeitura de Belo Horizonte (menção especial do juri)
1988 - Concorrência FIAT - Patrocínio para a exposição coletiva “Um Espelho no Escuro” - Palácio das Artes e Espaço Mascarenhas - Belo Horizonte e Juiz de Fora/MG.
1988 - Prêmios Viagem - Brasil no X Salão Nacional (Funarte/Rio)
Exposições Individuais
1975 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1979 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria do Ibeu
1982 - Belo Horizonte MG - Individual, na Grande Galeria do Palácio das Artes
1982 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Macunaíma
1984 - Belo Horizonte MG - Individual, no IAB/BH
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, na Gesto Gráfico Galeria de Arte
1986 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaugaleria
1987 - Basília DF - Individual, na Galeria Oscar Seraphico
1987 - Vitória ES - Individual, na Itaugaleria
1988 - Belo Horizonte MG - Marco Tulio Resende: pinturas, na Manoel Macedo Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCCM
1988 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1989 - Belo Horizonte MG - Individual, na Galeria Corpo
1991 - Belo Horizonte MG - Individual, no Itaú Cultural
1992 - Vitória ES - Individual, na Galeria de Arte e Pesquisa do Centro de Artes/UFES
1993 - Belo Horizonte MG - Individual, na Kolams Galeria de Arte
1993 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Galeria Anna Maria Niemeyer
1994 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
1996 - Brasília DF - Individual, na Fundação Athos Bulcão
1996 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Marília Razuk
2001 - São Paulo SP - Individual, na Marília Razuk Galeria de Arte
2010 - "Ecce Homo" - galeria da FAOP - Ouro Preto/MG
2011 - Ex-Libris - Galeria Com Arte – Belo Horizonte/MG
2015 - CÓDICE - Do risco ao risco - Museu da Vale - Vila Velha/ES
2016 - AXIS - Palácio das Artes - Belo Horizonte/MG
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - AXIS - Centro Cultural SESIMINAS Ouro Preto/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - OLHO NU - Centro Cultural UFMG - Belo Horizonte/MG
Exposições Coletivas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1975 - São Paulo SP - Coletiva Novas Tendências, no Paço das Artes
1977 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1978 - Chicago (Estados Unidos) - Fellowship Contest da School of the Art Institute of Chicago - menção honrosa
1979 - Rio de Janeiro RJ - 2º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1980 - Belo Horizonte MG - 12º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio em desenho
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1981 - Belo Horizonte MG - 8º Salão Global de Inverno, na Fundação Palácio das Artes
1981 - Curitiba PR - 3ª Mostra do Desenho Brasileiro - premiado
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco
1981 - Rio de Janeiro RJ - 4º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1981 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Global de Inverno, no MAM/RJ
1981 - São Paulo SP - 8º Salão Global de Inverno, no Masp
1982 - Belo Horizonte MG - 14º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1982 - Penápolis SP - 5º Salão de Artes Plásticas da Noroeste, na Fundação Educacional de Penápolis. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Penápolis
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Brasília DF - 4 Artistas Mineiros, Itaugaleria
1983 - Campo Grande MS - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1983 - Londres (Inglaterra) - 6 Artists from Brazil, na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London
1983 - São Paulo SP - 4 Artistas Mineiros, na Itaugaleria
1984 - Belo Horizonte MG - 1º Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1984 - Curitiba PR - 6ª Mostra do Desenho Brasileiro
1984 - São Paulo SP - 10 Artistas Mineiros, no MAC/USP
1985 - Belo Horizonte MG - 17º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP - prêmio aquisição
1985 - Rio de Janeiro RJ - 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Rio de Janeiro RJ - Velha Mania: desenho brasileiro, na EAV/Parque Lage
1986 - Belo Horizonte MG - 9º Salão Nacional de Artes Plásticas: sudeste, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - São Paulo SP - 17º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1986 - São Paulo SP - 4º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Fundação Bienal
1987 - Belo Horizonte MG - 19º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Belo Horizonte, no MAP
1987 - São Paulo SP - 5º Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Pinacoteca do Estado
1988 - Belo Horizonte MG - Um Espelho no Escuro, no Palácio das Artes
1988 - Juiz de Fora MG - Um Espelho no Escuro, no Espaço Mascarenhas
1988 - Rio de Janeiro RJ - 10º Salão Nacional de Artes Plásticas, na Funarte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Salão Nacional de Artes Plásticas - prêmio de viagem pelo país
1989 - Bonn (Alemanha) - 6 Artistas Brasileiros, na Galeria Rave
1989 - França - Mostra itinerante Estandartes da Liberdade - Bicentenário da Revolução Francesa
1989 - Recife PE - Minas em Traços Gerais, no Museu de Arte do Recife
1990 - Belo Horizonte MG - Da Forma à Forma - Notícias da Terra 10 Anos Depois, no Palácio das Artes
1990 - Freiburg (Alemanha) - Aspectos da Arte Latino-Americana, na Ruta Correa Galerie
1990 - São Paulo SP - 21º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1991 - Belo Horizonte MG - BR/80: pintura Brasil década 80, no Núcleo de Informática e Cultura Belo Horizonte
1992 - Belo Horizonte MG - Utopias Contemporâneas, na Fundação Clóvis Salgado. Palácio das Artes
1994 - Belo Horizonte MG - Cor e Luz, na Cemig Galeria de Arte
1994 - Belo Horizonte MG - Guignard: 50 anos de uma escola de arte, na Galeria Vidyã
1995 - São Paulo SP - Minerações, no LR Escritório de Arte
1996 - Freiburg (Alemanha) - Coletiva, na Ruta Correa Galerie
1998 - Belo Horizonte MG - Terra e Mar a Vista, no Itaú Cultural
1998 - Brasília DF - Cien Recuerdos para Garcia Lorca, no Espaço Cultural 508 Sul
1998 - Brasília DF - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - Penápolis SP - Terra e Mar a Vista, na Galeria Itaú Cultural
1998 - São Paulo SP - Viagens, no Itaú Cultural
1999 - São Paulo SP - Arte Brasileira sobre Papel na Coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - São Paulo SP - Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Marco Tulio Resende, na Marília Razuk Galeria de Arte
2000 - Belo Horizonte MG - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Fundação Clóvis Salgado. Companhia de Dança de Minas Gerais
2000 - Belo Horizonte MG - Presente de Reis, na Kolams Galeria de Arte
2000 - Leiria (Portugal) - Belo Horizonte-Leiria: um encontro de culturas, na Galeria57 - arte contemporânea
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Niterói RJ - Diálogo, Antagonismo e Replicação na Coleção Sattamini, no MAC/Niterói
2002 - São Paulo SP - 10 Anos Marília Razuk, na Marília Razuk Galeria de Arte
2003 - Rio de Janeiro RJ - Projeto Brazilianart, na Almacén Galeria de Arte
2003 - São Paulo SP - Coletiva Marília Razuk Galeria de Arte, na Marília Razuk Galeria de Arte
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria Lemos de Sá – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Capolavoro – Belo Horizonte/MG
2004 - Exposição Coletiva “Quadrantes” – Galeria de Arte Casa da Cultura Estácio de Sá – Belo Horizonte/MG
2010 - "Quando a argila fala" – Galeria do BDMG Cultural – Belo Horizonte/MG
2011 - Exposição Coletiva de Cerâmicas – Galeria da FIEMG – Ouro Preto/MG
2011 - Encontros Cerâmica - Galeria do Centro Cultural de Contagem - Contagem/MG
2012 - Galeria de Arte da Cemig - “60 x 20” – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Noite da Cerâmica – BH – MG
2012 - Galeria Livrobjeto – C/Arte – Livros de Artista– BH
2013 - Mac – Museu de Arte Contemporânea do Paraná – “Cor, Cordis”, mostra do acervo – Curitiba – PR
2016 - Útero do Mundo - MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo - SP
2016 - Cantata - Centro Cultural Minas Tênis Clube - BH/MG
2017 - Exposição Desconstrução do Esquecimento. Golpe / Anistia / Justiça de Transição - Centro Cultural UFMG - BH/MG
2017 - Sobre O Que Se Desenha” - Museu de Arte da Pampulha - BH/MG
2018 - PINTURA MINEIRA - Cine Theatro Brasil Vallourec - BH/MG
2018 - Projeto Parede | MAM 70 - Museu de Arte Moderna -SP/SP
2019 - “Não Há Estagnação - Apenas Movimentos Tempestuosos” - MUSEU MINEIRO BH/MG
Fonte: MARCO Tulio Resende. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: >. Acesso Itaú Cultural: 16 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Histórico - Site oficial Marco Tulio Resende
Formado pela Escola Guignard - UEMG (1971/74), fez mestrado na School of the Art Institute - Chicago (1975/78) como bolsista da Fulbright Comission. Professor da Escola Guignard - UEMG a partir de 1979. Artista visitante na UFMG e na Sheffield Hallam University - Inglaterra (British Council). Bolsa Goethe Institut – Alemanha (1994). Proferiu palestras e oficinas em vários festivais de arte, UFMG - Minas Gerais, UFES - Espírito Santo, SESC - São Paulo. Participou da Bienal de São Paulo - 1973 e Panorama das Artes - São Paulo -1986 e do projeto / residência Faxinal das Artes- Paraná 2003. Obteve vários prêmios, entre outros, o grande prêmio do Salão da Prefeitura de Belo Horizonte - 1981 e prêmio de viagem no Salão Nacional - FUNARTE - 1988. Expõe regularmente desde 1978, individual e coletivamente, tendo realizado mostras em espaços institucionais como Palácio das Artes, MAP - Belo Horizonte, Centro Cultural Light - Rio de Janeiro, Paço das Artes, MAM e Itaú Cultural - São Paulo, Santander Cultural - Porto Alegre e em galerias como Ana Maria Niemeyer - Rio de Janeiro, Marília Razuk - São Paulo, Ruta Correa – Freiburg / Alemanha, Manoel Macedo, galeria Gesto Gráfico, galeria kolams - Belo Horizonte, entre outras. Participou do projeto “Ano do Brasil na França” 2005 - Brasil herança africana - Museu Dapper - França/Paris.
Cronologia
1950 - 1979:
Formou-se em artes plásticas pela Escola Guignard da Universidade de Minas Gerais (UEMG) em 1974, onde estudou com vários artistas, entre eles, Amilcar de Castro, Sara Ávila e Lotus Lobo. Quando estudava na Escola Guignard participou do III Salão Nacional de Arte do Museu de Arte da Pampulha e foi premiado no Salão da Associação Cristã de Moços, em Belo Horizonte (1971). Ainda como estudante universitário toma parte, nos anos seguintes, do IV e VI Salão Nacional de Arte Universitária da UFMG, realizados em Belo Horizonte.
Em 1973 participa da XII Bienal Internacional de São Paulo e é premiado no V Salão de Verão do Jornal do Brasil, realizado no MAM do Rio de Janeiro. Em 1975 integra a coletiva NOVAS TENDÊNCIAS, organizada no Paço das Artes, em São Paulo e realiza sua primeira individual na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos de Belo Horizonte, onde mostrou uma série de desenhos. Fez o Curso de Mestrado na School of The Art Institute of Chicago como bolsista da Fulbright Comission (1975-1979), quando teve a oportunidade de conhecer o Prof. Dr. Bob Loescher, especialista em Arte Ibérica e Latino-Americana, que foi de grande importância em sua formação. Como orientador de Mestrado, Bob Loescher ajudou o artista a melhor perceber a dimensão da arte contemporânea, assim como aprofundar a visão de suas raízes e de sua cultura no contexto da Arte Brasileira. Marco Tulio desenvolveu reflexões sobre seu trabalho e uma série de desenhos, intitulados TORDESILHAS, buscando integrar a teoria e a prática artística. Durante esta época recebe o Prêmio de Desenho no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e a Menção Honrosa do Felowship Contest – School of the Arte Institute of Chicago, nos Estados Unidos (1978). Retornando à Belo Horizonte, em 1979, realiza duas exposições individuais: na Galeria do ICBEU, onde apresentou a série TORDESILHAS e na Galeria da Biblioteca Pública, em que mostrou trabalhos experimentais com intervenções fotográficas.
1980 - 1989
A década de 80 marca o encontro de Marco Túlio com sua geração e a participação em várias coletivas com os artistas: Marcos Benjamim, Fernando Lucchesi, Humberto Guimarães, entre outros. Em 1980 participa da coletiva NOTÍCIAS DA TERRA, quando apresentou sua nova fase de objetos voltada para as referências urbanas. A exposição teve a curadoria do artista e crítico Márcio Sampaio, Diretor de Artes Plásticas da Fundação Clóvis Salgado e catalisador dos jovens artistas de Belo Horizonte. Neste ano, participa do Salão Nacional do Rio de Janeiro e recebe o Primeiro Prêmio no XII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte com uma série de desenhos e objetos denominada URBANÁLIA. Esta série, revelando a ritualização da precariedade urbana, sinalizou o tom de sua poética.
Em 1981 integra a coletiva no Centro Cultural em Brasília, participa do Salão Nacional no Rio de Janeiro e recebe o Prêmio de Desenho na III mostra do Desenho Brasileiro em Curitiba. Em 1982 realiza exposições individuais na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro; e na Grande Galeria do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, onde mostrou pinturas e objetos, desdobramentos da série URBANÁLIA. Neste ano é artista convidado para integrar o V Salão de Artes Plásticas do Noroeste, realizado em Penápolis, e participa do XIV Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.
Em 1983 é convidado a participar do Arte Global (vídeo-expo), realizado na Fundação Clóvis Salgado, com o patrocínio da Rede Globo, e da coletiva 6 ARTISTS FROM BRAZIL, com artistas professores da Escola Guignard, realizada na Dixon Gallery of the Institute of Education at the University of London, na Inglaterra. Participa da coletiva DEZ ARTISTAS DE MINAS, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, com curadoria de Mário Sampaio e da VI Mostra de Desenho Brasileiro, em Curitiba, ambas em 1984. Ainda este ano, recebe o Prêmio de Pintura no Salão de Arte, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais. Realiza, também, exposição individual no Instituto dos Arquitetos do Brasil, em Belo Horizonte, onde apresentou pinturas em grandes formatos.Participa de significativas exposições coletivas: VELHA MANIA, organizada por Marcus Lontra, no Parque Lage, Rio de Janeiro (1985); 08 ou 80 na Universidade Fluminense, em Niterói (1985); BRASIL/PINTURA/HOJE, na Galeria Oscar Seraphico, em Brasília (1986/87); e PANORAMA DA PINTURA BRASILEIRA, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (1986).
Em 1986, realiza várias individuais, em Belo Horizonte, na Galeria Gesto Gráfico, onde apresentou uma nova série com seus primeiros recortes, intermediários entre a pintura e o objeto; na Sala Corpo de Exposição e na Itaú Galeria de Arte, ocasião em que apresentou a série de DIÁRIOS, registros resultantes de suas pesquisas e vivências.Com os DIÁRIOS recebe o Prêmio Aquisitivo no XVII Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1987) e o Prêmio Viagem ao Brasil no X Salão Nacional da FUNARTE, no Rio de Janeiro (1988). Participa, ainda, do V Salão Paulista (1987) e da exposição coletiva UM ESPELHO NO ESCURO, projeto premiado pela FIAT Automóveis.Em 1988, realiza individuais nas galerias Anna Maria Niemeyer e Centro Cultural Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ) e na Manoel Macedo Galeria de Arte, em Belo Horizonte.1989: marca sua participação em importantes coletivas: ESTANDARTES DA LIBERDADE, exposição itinerante pela França, organizada pela Aliança Francesa, em homenagem ao Bicentenário da Revolução Francesa; CADA CABEÇA UMA SENTENÇA, mostra itinerante pelo Brasil, coordenada por José Alberto Pinho Neves e Arlindo Daibert; MINAS EM TRAÇOS GERAIS, apresentada no Museu de Arte de Olinda - PE, SEIS ARTISTAS BRASILEIROS, com a participação de Karen Lambrecht e Marco Gianotti, realizada na Galeria Raue, em Bonn, na Alemanha.
1990 - 1999
Marco Tulio inaugura os anos 90 com uma mostra individual na Galeria Corpo, em Belo Horizonte e da exposição coletiva DA FORMA À FORMA (Notícias da terra 10 anos depois), realizada na Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte, com a curadoria de José Alberto Nemer, onde apresentou o resultado de dez anos de pesquisa e experimentação com pinturas e recortes em grandes formatos. Recebe Bolsa do Goethe Institut, para estudar na Alemanha, ocasião em que participou da coletiva ASPECTOS DA ARTE LATINO AMERICANA, realizada na Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1990).
Em 1991 participa da coletiva ABSTRAKT, na Galeria Ruta Correa, em Freiburg. Toma parte no Projeto BR 80, que consistiu em workshop e mostra, referentes à pintura brasileira na década de 80. O projeto foi organizado pelo Instituto Itaú Cultural, com a curadoria de Frederico Morais e Márcio Sampaio, e a participação de vários artistas brasileiros.Na década de 90 consolida sua carreira artística com várias individuais: Galeria Manoel Macedo, em Belo Horizonte (1991); Galeria da Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória (1992); Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio de Janeiro (1993); Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1993/99); Galeria Marília Razuk, em São Paulo (1993/96); Galeria Ruta Correa, em Freiburg (1996); Galeria Corpo, em Belo Horizonte (1997); e Galeria Referência, em Brasília (1998).Participa também de diversas coletivas: MINERAÇÕES, no LR Escritório de Arte, em São Paulo (1995); artista convidado para participar do Projeto FACHADAS IMAGINÁRIAS, realizado no Rio de Janeiro e São Paulo, com a participação de 100 artistas internacionais, curadoria de Fhilippe Mouillon (1996); PEDRA SABÃO, organizada pela Galeria Kolams, em Belo Horizonte (1997); A FORMAÇÃO DA ARTE CONTEMPORÂNEA, realizada no Museu de Arte da Pampulha, com a curadoria de Marília Andrés Ribeiro, em comemoração ao centenário de Belo Horizonte (1997); TERRA E MAR À VISTA, promovida pelo Projeto Viagens do Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, com a curadoria de Agnaldo Farias (1998); Projeto ARTE EM MOVIMENTO, realizada no SESC Pompéia, em São Paulo, também com a curadoria de Agnaldo Farias e participação de Nelson Leirner, Iole de Freitas, Paulo Pasta, Carlos Fajardo e Gil Vicente (1998); Centro Cultural UFMG - 10 anos, coordenada por Fernando Pedro e Marília Andrés (1999) e Objetos, Galeria Marília Razuk, São Paulo (1999).Toma parte no programa Artista Visitante, da Escola de Belas Artes da UFMG, compartilhando a oficina com Humberto Guimarães e Orlando Castaño (1996/1997).Em 1998 é convidado a participar, como artista visitante, da Sheffield Hallam University, integrando o programa de intercâmbio entre a Escola Guignard e a Universidade Inglesa, promovido pelo Conselho Britânico.
2000 - 2014
Marco Túlio participa de importantes coletivas: Galeria 57, Leiria - Portugal (2000); DIÁLOGO, com Manfredo Souzanetto, Centro Cultural Light, Rio de Janeiro (2001); Galeria Manoel Macedo, Belo Horizonte (2001); DIÁLOGOS, TANGENCIANDO AMILCAR, no Santander Cultural, Porto Alegre (2002), com curadoria do crítico Tadeu Chiarelli; Galeria Marília Razuk, São Paulo (2003). Nesse ano participa também do Projeto Residência Faxinal das Artes, no Paraná. Em 2005 é convidado para participar da exposição BRÉSIL, I’ HÉRITAGE AFRICAIN do projeto França-Brasil no Musée Dapper, Paris. No ano seguinte na Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte – MG, participa da exposição MURILIANA: Murilo Rubião 90 anos e da exposição PICTÓRICA. Em São Paulo no Instituto Tomie Ohtake no ano de 2007, integra a exposição 80 90 MODERNOS PÓS MODERNOS ETC; neste mesmo ano na Fundação Clóvis Salgado, exposição IMPRESSÕES DIVERSAS, coordenada pela artista gravadora Thaïs Helt. Individuais: Galeria de Arte da CEMIG, exposição ETCOETERA, Belo Horizonte - MG (2008); Galeria de Arte Nello Nuno, exposição ECCE-HOMO, Ouro Preto-MG (2010) e Galeria LivroBjeto, exposição EX-LIBRIS, Belo Horizonte - MG (2011). Participou da Feira ArteBA em Buenos Aires – Argentina, Galeria Lemos de Sá (2011). Em 2012 participou da exposição LIVROS DE ARTISTA na Galeria LivroBjeto em Belo Horizonte e foi convidado pela TV Assembléia/MG para prestar um depoimento sobre sua trajetória artística, exibido no programa "Memória e Poder".
Textos críticos
"A prolífica obra de Marco Túlio Resende é proveniente de sua obsessão em registrar tudo o que acontece, tudo com o que ele se depara em seu cotidiano como também fragmentos daquilo com que já se deparou e que, no entanto, por resistir a desaparecer, ainda sobrevive incólume na memória; algo que eventualmente será reanimado pelo que está sendo contemplado agora e que a ele irá se juntar, sobrepor-se, alterando-a inevitável e definitivamente.
As coisas afinal, não existem a não ser por nós, o que é o mesmo que dizer que vivem comprimidas entre o nosso passado e o nosso futuro. Trata-se de um projeto destinado à incompletude, sentimento que de resto atravessa todas as nossas vidas com sua sucessão de acidentes e atitudes cuja a finalidade não logramos alcançar. Marco Túlio desenha, registra em traços rápidos, executados em linhas grossas, o que lhe vai na lembrança ou mesmo o que agora está passando no meio da procissão que o cotidiano despeja sobre suas retinas. O problema pode ser formulado da seguinte maneira: afinal o que sobra de tudo? Como reter e o que reter das coisas? Como obter das coisas um pouco de quietude, dado que elas não cessam de se movimentar? O apego a tudo reveste-se de um desejo de conhecimento. Desenhar, como se sabe, é reduzir a coisa ao seu esquema, seu nervo: sua estrutura, os ossos que esteiam a construção e a superfície que lhe garante os limites.
E porque tudo interessa e porque de tudo só se pode reter fragmentos é que sua obra trata de bocados, resíduos e frações de imagens, resíduos e frações das coisas. Para tanto o artista se vale de uma surpreendente quantidade de instrumentos e processos, posto que para falar de algo tanto vale o que resulta de um gesto quanto a ferrugem que espontaneamente vai aflorando na superfície de pedaço de ferro, parte de algo que não se pode mais identificar mas, que devidamente contextualizado, presta-se a ser carregado de mistério e sentido. Identificar e oferecer utilidade às coisas equivale a salvá-las do esquecimento a que estão condenadas.
Nesse sentido, o tempo é uma dimensão inelutável. Nossas experiências vão sendo – mal – acondicionadas até o momento em que toda memória é uma barafunda, em que tudo se mistura e cuja ordenação dá margem, como um dia disse Pedro Nava puxando por Proust, a um mosaico fraturado e desconexo, onde as coisas que outrora incompatíveis no tempo e no espaço comparecem alinhavadas umas às outras, deixando aqui e ali, nos seus interstícios, vastos vazios lacunares. O extraordinário, diz Marco Túlio, é que enfrentamos o agora precariamente armados com a memória. E aquilo que agora vai fugindo, que me escorre por entre os dedos é ainda assediado por lembranças de outras coisas.
A nostalgia – afinal, por que não esquecemos de tudo? – se interpõe entre mim e as coisas, o que equivale a dizer que eu mesmo me interponho entre as coisas. Fernando Pessoa não se perguntava sobre quem era aquele que respeitava por seus olhos? Marco Túlio Resende faz pinturas, desenhos, gravuras, objetos, instalações, livros...Tudo interessa, tudo “provém da tentativa de me ver no mundo, de me espelhar e reconhecer através da pegada, do rastro da passagem e sucessão de momentos” O artista comporta-se como um expedicionário cuja ambição é não deixar nada de fora e que para tanto confecciona um diário polimórfico. Uma coleção insuspeita de meios e estratégias dado que do mesmo modo que as coisas são irredutíveis entre si, nenhuma forma pode substituir a outra."
— Agnaldo Farias (O Diário do Diverso)
"Inventário do abandono é o nome da obra (será mesmo uma obra?) em processo, uma combinação de armários e estantes desiguais, que preenche praticamente toda a parede da esquerda do atelier de Marco Tulio Resende, melhor dizendo, aparede do fundo, considerando-se que ela fica no extremo oposto da entrada do salão largo e pouco profundoque ele transformou em oficina, depósito, escritório, sala de estar e até mesmo confortável dormitório. Situado sob um pequeno conjunto de lojas num aprazível bairro de Belo Horizonte, construídoa beira de um terreno íngreme, o ateliê de agora resultou de um espaço perdido, abaixo do piso das lojas, invisível aos olhos dos passantes e moradores, que o artista comprou, reformou, transformando-o nos vários espaçosmencionados, além de um belvedere privilegiado cuja vista dá para o casario entorno, esparramado pelas laterais de umadas montanhas onde a capital mineira foi implantada.
Inventário do abandono nasceu como que por acaso e aos poucos. Foi sendo produzida despretensiosamente, sem que o artista soubesse no que ia dar, sem projeto e planejamento, sem propriamente uma intenção. Um depósito resultante do acúmulo de coisas disparatadas que ele, movido por fascínio e afeição a manifestações singelas e incomuns, binômio que com esse ajuntamento termina por provar que se trata de uma particularidade de quase todos os objetos existentes, foi catando aqui e ali ao longo dos anos, juntando ao núcleo inicial que possivelmente reteve de sua própria infância, daquilo que, mais crescido, foi resgatando de sua família, da casa dos pais e irmãos, de amigos, e que foi se somando ao colhido em suas inúmeras viagens, das internacionais as domésticas, das frequentes incursões pelo interior de Minas, pelas serras, roças, pela imensa Minas histórica, como também pelas vilegiaturas em BH, as caminhadas ociosas, as saídas cotidianas para as compras caseiras em supermercados, padarias, postos de gasolina, outros locais que mecânica, diária e desatentamente atravessamos, mas não ele, pois é evidente que sua atenção nunca baixa a guarda, movido pela nítida certeza de que a alegria e a surpresa podem acontecer agora. Marco Tulio deixa-se atrair por tudo quanto é coisa, variada quanto a forma e finalidade, sobretudo por aquilo que displicentementese acomoda nas lojas de artesanato, armarinhos, armazéns de secos e molhados, mercados, bancas de jornais, de camelôs, na qualidade de subproduto, de escolho, detritos que a grande máquina industrial vai deixando a margem enquanto roda pesadamente.
Apesar da aparente barafunda das prateleiras, passando-se os olhos nota-se que tudo está relativamente organizado em filas e agrupamentos, e que há uma evidente predominância de bichos sob a forma de enfeites, miniaturas, brinquedos e, em número maior ainda,representações humanas. Uma multidão de bonecos, fetiches religiosos, relicários, estatuetas, ex-votos, cabeças e bustos de manequins, homenzinhos e super-heróis em miniaturas, realizados em madeira, barro, metal e plástico, acotovelam-se entrefotografias variadas, de si, da família, de obras do próprio artista, cartões postais, além de objetos de uso direto – peças de roupas variadas, adereços como colares e faixas-, utensílios e artefatos -instrumentos musicais, máquina de escrever, chaves-, entre tantos outros passíveis de serem manipulados.
O importante é abrir-se ao mundo, diz-nos as estantes superlotadas que perfazem esse Inventário de Marco Tulio, que se religam ao passado através dos objetos que um dia, o artista ou qualquer um de nós que compartilha o mesmo universo imaginário, admirou-se deles, ingenuamente cultuou-os ou apenas os utilizou. Olhar para esses objetos, reconhecer sua procedência ou simplesmente sua identidade, significa religar-se a eles no momento em que se os vê, no presente, posto que estão ali, à mão. A comunicação com essa sorte de objetos leva ainda, claro que mais ainda ao artista, responsável pela reunião sistemática e incansável daquilo tudo, uma comunhão comseus desconhecidos autores, uma tentativa de compreensão, um elo com aqueles que, produzindo-os, tiveram a intenção, mesmo que desajeitada, de agradar, entreter, insistir em lembrar a existência de um mundo ao lado deste em que vivemos, voltado ao encantamento, a brincadeira e também à uma dimensão mágica. Uma realidade paralela ou camada imaginativa abaixo do chão cotidiano, cujo acesso só acontece quando nos abandonamos a contemplação ou eventual manipulação desses objetos, e por força da potência que deles emana."
— Agnaldo Farias (Inventário do Abandono)
"Mergulhada na penumbra, ao fundo do atelier, uma extensa prateleira transborda. Objetos, materiais semi-destruidos, fragmentos e detritos de coisas que, de tantas perdas, perderam também sua identidade, de tanto se conjugarem, criaram novos sentidos. Acomodaram-se em seus lugares, imunes à saturação exterior, para cumprir, em silêncio e aparente imobilidade, seu compulsório destino. Res antiquissimae, que a atenção do artista – mais afetiva do que seletiva – foi reunindo ao longo dos anos, ali se transformaram em símbolos e arquétipos, e agora, nas linhas da estante, constroem em texto, uma história.
São testemunhos e substância dos dias que se contavam vagarosamente; as coisas que, acumulando a poeira do perdido, fazem ressoar, do fundo da memória, aqueles outros dias interiores, consumidos, que a este iluminam em obra de prestidigitação. Saber sua presença, já é experimentar a vida continuum, é capitalizar a riqueza interior com que construímos nossos aparelhos de percepção do mundo. Lá, naquele território densamente ocupado, as coisas na verdade estão vivas. E pulsam, em espera tensa, como que “conscientes”, anunciando outros sentidos delas vagarosamente porejam e se derramam pelo espaço da memória.
Na linha fronteiriça entre as coisas reais e as imaginadas, o desenho e a pintura de Marco Túlio Resende definem esse outro espaço, o lugar onde tudo é premência e iminência, lugar da lucidez e do desejo (da paixão), onde o artista grava sua poética iluminada experiência antecipada do futuro, que lhe permite detonar e pulverizar o sentimento de catástrofe que hoje imanta o mundo.Hábeas Corpus – declara Marco Túlio, no título de um de seus livros-objetos. “Tens o corpo”, e todas as sanções que lhe infringe a autoconsciência, a consciência desventurada, devem ser denunciadas e comutadas. A consciência que desenha o limite das suas faltas, impulsiona o artista para a experiência mais profunda, que o faz descartar a simples exibição de seu saber, para, com esse domínio do oficio, buscar um sentido, não do fazer, mas do ser.
Desde há muito, a obra de Marco Túlio se dispõe como texto progressivo, sempre a somar – com extratos da memória – sua história feita de intuições, que se enredam numa intrincada malha de acasos provocados. A principio, sua atenção concentrava-se nos relevos do cotidiano, na constelação de objetos e materiais que crispavam nosso olhar urbano. Refugados e humilhados, os resíduos descartados de seu uso natural, que o artista transformava em signos, para compor – por uma articulação precisa de cor, matéria, forma – um signódromo, depósito de sinais que conduziriam em suspensão pelas vias ásperas da rotina, ajudando-nos a redimir-nos do sentimento da perda produzido pela evidência dessas inutilidades que se acumulam, como cerco cruel, em torno de nós.No texto atual, construído com outros signos que são pré-figurações das coisas, projetadas desde o passado, - lá onde se gestam os mitos – fluem outras imagens, ora precisas, ora veladas; umas como substância da forma, outras, o vazio, a sua falta e sua sombra.
O corpo que temos, feitos de soma e subtrações: escultura; lapidação, corrosão, ou a construção; contração, concentração, expansão e dispersão; densidade e transparência. Espantado diálogo entre o sim e o não: porém, sempre se gravará em um, a tatuagem do outro.Nos livros-objetos, construídos com pinturas e desenhos, cada página que se passa é reiteração desse sentimento do tempo promulgado – e o gesto que de passa-las lentamente constitui uma aventura profundamente dolorosa e ao mesmo tempo venturosa. Porque Marco Túlio vai escrevendo sua própria história, e a dos dias e sua substância trágica e magnífica. É preciso uma concentração enorme para seguir cada uma das suas horas ali gravadas e prosseguir na sua lenta leitura. Se vemos desenhados na superfície das páginas, osso, martelo, torre, mão, cravo, flor, a tinta que tinha ressalta essas formas, diz terra, labor, sangue, desejo, desistência, e mais a diante, afirma seiva, fruto, divino, luz. Essa amorosa combinação que extrai a cada tempo, descortina paisagens, vivências; anuncia perdas, medos, e ao fim assina nosso compulsório duplo contrato com Deus e Mefistófeles, do qual resultará uma juventude retomada e que, provada na maturidade, desejamos a todo custo preservar.
É desse corpo do Humano anunciado nas páginas dos livros, que se projetam nas grandes telas as imagens feitas objetos, mas estes apenas se enunciam como sombras, longínquas sobras repetidas, recorrentes. Pois não são, senão, figuras divisadas na terceira face do espelho, onde tudo ao se dispersar mais se concentra? Nesse lugar que se chama Arte, onde as coisas, todas as coisas, recortadas e dadas pelo coração, se fazem em acordo na fundação de tudo que se persiste em nós, como ponto e estame de religação com o divino, construindo a possibilidade de explicação do inexplicável. Essas coisas que, de tão existidas, desistem e se desfazem, para permitir ao artista, na maturidade, recompor o sentido de sua presença – em última instância estão ali como confirmação de nossa permanência mais além do porto transitório da História.
— Márcio Sampaio (Os Termos do Corpo e das Coisas )
"Nada é humano no universo ininteligível fora dos rostos nus que são as únicas janelas abertas ao caos de aparências estranhas ou hostis. O homem só sai da solidão insuportável, no momento em que o rosto de um de seus semelhantes emerge do vazio de todo o resto. Mas a máscara o devolve a uma solidão mais terrível. (...) Ora a máscara possui ainda a força de aparecer no limiar desse mundo calmo e sossegado do tédio como uma obscura incarnação do caos (...) Pois a máscara é o caos feito carne.
Coleção de cabeças esculpidas em cerâmica. Cabeças como máscaras. Elemento religioso presente entre os ex-votos e as esculturas africanas. A cabeça esculpida parece catalogar figuras cujas formas fazem transparecer pela matéria o lado oculto e obscuro das almas. Antropopoética visual, onde o humano é representado num conjunto de multiplicidades possíveis em suas máscaras.
Cabeças concebidas como iguais, mas antropomorficamente diferentes. O artista faz laço ontológico entre a dimensão da forma e a do sensível, ou ainda, entre o mundo mítico e o mundo dos homens. Totens esculpidos contemporaneamente.
Prova do dilaceramento, essas cabeças nos remetem ao inicio do século 20. Ao acéfalo, o homem decapitado que Georges Bataille e André Masson nos mostraram em 1936, na revista que tem o mesmo nome. (Monstro arcaico encontrado em mitologias e em bestiários.) Não só no imaginário modernista e pós-modernista encontramos a decomposição da figura humana. As metamorfoses da forma humana são exploradas d e diferentes modos. Marco Tulio Resende nos remete à consciência da impossibilidade de fixar figuras humanas ainda hoje, pois o humano continua sob ameaças violentas.
As cabeças do artista são profundamente inquietantes. Elas são marcadas pela violência de épocas variadas, Perderam narizes, bocas... desfiguraram-se. São partes dos restos do homem.
É nesse mélange onde os volumes exprimem formas que Marco Tulio Resende repete diferençando e contratando na cerâmica os voti de cera dos ex-votos. Por outro lado, essas cabeças vão além do simbólico. Elas apresentam um a mais de sentido, um surplus de forma. Impressões de violência ou de dor dramaticamente despertada pela presença de pregos, pontas..."
— Vera Casa nova (Cabeças, cabeças, cabeças, faces, faces, faces, máscaras, máscaras, máscaras)
"O Instituto Itaú Cultural abriu em São Paulo a exposição “Terra e Mar à Vista”, resultado de projeto especial que reúne 11 artistas, entre os quais o mineiro Marco Túlio Resende, pintor e professor da Escola Guignard. Contando com o patrocínio do Instituto Itaú, a primeira etapa do programa, em janeiro, compreendeu uma viagem do grupo à Serra do Mar. Ali, os artistas conheceram a Estrada Velha de Santos, antigo Caminho do Mar, também chamado de Calçada de Lorena nos primórdio do Brasil e complexo industrial de Cubatão, uma das regiões mais poluídas do País.
Os escultores Artur Lescher e Anarrê Smith, os desenhistas Alexandre Nóbrega e Maria Teresa Louro, o Fotógrafo Nelson Kon e os pintores Dudi Maia Rosa, Fábio Cardoso d Almeida, José Spaniol e Marco Giannoti, todos de São Paulo, o desenhista Alexandre Nóbrega, de Recife, o fotógrafo Luiz Braga, de Belém do Pará, e Marco Túlio Resende, sob a coordenação do curador Agnaldo Farias apresentam, agora, o resultado da viagem ao Caminho do Mar, revelando diferentes visões e abordagens.
O quinto centenário do achamento do Brasil pelos portugueses suscita essa retomada ou reconstituição de itinerários, e foi este, exatamente, o sentimento do pintor mineiro ao conceituar sua proposta de trabalho. Marco Túlio Resende lembrou-se das expressões latinas “terra incógnita” e “finis terrae” escritas em antiqüíssimos documentos cartográficos, indicando nos primeiros mapas do Brasil, territórios ainda desconhecidos e inexplorados como o que iria palmilhar, ao descer a Serra do Mar entre as lembranças das peripécias de jesuítas, donatários e índios aguerridos e o impacto da poluição em que se chafurda miseravelmente a zona de Cubatão.
O artista entra em confronto direto com as contradições do País, escancaradas naquela viagem breve. De um lado a calçada por sobre a trilha quinhentista que galga a muralha da Serra do Mar foi a primeira porta do Brasil. Deu passagem à civilização euro-cristã recém-desembarcada rumo aos sertões para além do horizonte alado. Abriu caminho para o ouro, atrás do Paraíba e da Mantiqueira, para as Minas além do som Minas Gerais (Carlos Drumond de Andrade). De outra parte, o inferno poluído de Cubatão, que ali vomita fogo e fumaça, é cloaca e emblema dessa civilização que se chama Brasil. Legiões de miseráveis se abrigam em barracos na ravina, ao largo dos monumentais tanques cilíndricos e das chaminés desesperadas. Junto ao velho Caminho do Mar, gigantescos tubulões de uma antiga usina hidrelétrica geometrizam a paisagem. Natureza e construção, vida e caos.
Em três telas grandes dimensões, Marco Túlio Resende demarca um território de questionamento essencialmente plástico, em que suas emoções diante dos desafios se expressam através de texturas e veladuras, formas rarefeitas e signos raros pontuando a pura matéria pictórica. O tríptico se projeta no imenso livro pousado sobre uma mesa. Na capa pesada, evocação de livros imemoriais, as palavras Finis Terra.
O livro é feito de páginas de tela, nas quais o pintor-viajante narra o périplo com depuração e sutileza. Não se trata do registro óbvio ou mesmo referencial, mas de uma sucessão fascinante de imagens em que se vê, o pintor monta um diário e nele imprime sua linguagem ágrafa, sua escrita de manchas e aguadas, e nos transmite a inquietude dramática daqueles cenários devastados e de uma história de fim de mundos.
Marco Túlio Resende encontra a grande pintura no Caminho do Mar. Esta é a sua sesmaria na “terra brasiliae”, no “finis terrae” ignoto a ser desbravado. É a sua lavoura, sua mineração. E é bom ver que, entre tantos desastres, a civilização do Brasil continua a gerar artistas sensíveis e atentos às tragédias de que somos feitos, plantando no carrascal a semente da cultura que sobrevive e vinga."
— Ângelo Oswaldo (Um pintor no fim de mundos)
Fonte: Site oficial Marco Túlio Resende, consultado pela última vez em 26 de abril de 2020.
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Marco Tulio Resende resume em livro 35 anos de intenso trabalho criativo
O artista plástico e professor questiona temas como vida e morte e a percepção do mundo
Marco Tulio Resende dedicou 35 de seus 64 anos ao ofício da arte. Essa trajetória está registrada no livro que leva simplesmente seu nome, organizado por ele, Renato Morcatti e Márcia Larica e lançado recentemente pela editora mineira C/Arte ( 206 páginas, R$ 60). A publicação apresenta um panorama do processo de criação do artista mineiro, cuja obra reúne pintura, instalação, desenho e objeto. Marco Tulio revela que faz, desfaz e refaz suas peças jogando com erros, acidentes e acertos surgidos nessa jornada. “Talvez tudo seja um grande diário, construído quase como instinto de sobrevivência”, suspeita. “Minha arte está ligada à memória, mas não só a memória afetiva.”
A matriz é o desenho, que pode gerar pinturas, peças gráficas ou objetos. As obras de Marco Tulio trazem a interpelação de situações e temas ligados à vida e à morte, além de questões alusivas ao tempo e à percepção do mundo. ”Somos o que somos devido ao que vivenciamos e guardamos ao longo da vida”, afirma. “Certa vez, li que o homem tem medo do objeto que não tem nome. Concordo. O que faço é nomear, renomear e ressignificar as coisas.” Para ele, pouco importa se isso se dá com abstrações ou figurações, de modo mais subjetivo ou objetivo.
Marco Tulio explica que suas evocações a signos, letras e textos são uma tática para criar estranhamentos a partir da briga da palavra com a forma. O processo de criação, resume, ”é experiência o tempo inteiro”. Vera Casa Nova, pesquisadora em poéticas visuais e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o crítico de arte e curador Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), assinam os textos do livro.
Exercitando o olhar
Professor de desenho da Escola Guignard, da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), onde ele próprio estudou, Marco Tulio Resende nasceu em Belo Horizonte em 1950. Iniciou suas atividades no fim da década de 1970. “Diferentemente da geração anterior à minha, cujo trabalho era mais conceitual, eu e meus colegas retomamos questões que haviam ficado à margem. É o caso do objeto – não como experimentação, mas como construção específica. Exercitamos o olhar para coisas meio largadas no mundo”, explica.
Marco Tulio prefere não enquadrar sua obra em categorias. “Pertenço a um tempo e procuro olhar para as questões postas por ele. Até porque esse tempo é aquele que, de fato, tenho para fazer arte”, argumenta.
Os professores foram decisivos para a formação do artista plástico. Sara Ávila (1933–2013) despertou-lhe a atenção para os aspectos simbólicos. Já Amilcar de Castro (1920–2002) ensinou-lhe o vocabulário visual artístico. “Ponto, linha, espaço e textura”, resume Resende, referindo-se aos ensinamentos do escultor.
Outra contribuição importante veio do norte-americano Bob Loescher, orientador de seu mestrado no Instituto de Arte de Chicago (EUA). “Muito jovem e deslumbrado com o que encontrei nos Estados Unidos, vi-me solicitado por ele a cuidar do 'eu cultural', a observar o Brasil e a nossa cultura. Passei, então, a valorizar mestiçagem, com sua estética precária e o sentimento telúrico, que é nosso”, conta.
REFERÊNCIAS Nos últimos anos, o ambiente cultural de Belo Horizonte melhorou, constata Marco Tulio, citando o aumento do número de instituições em atividade. Para ele, é inestimável a cidade contar “com duas escolas de referência”: a Guignard, da UEMG, e a Belas-Artes, da UFMG. “Porém, quando pensamos no Brasil não só a partir do Sudeste, percebemos que, assim como há desigualdade social, há desigualdade educacional”, adverte o professor.
Para ele, é positivo o cenário do mercado de arte local, criado paralelamente à atuação de sua geração. “Mas sou crítico das visões que consideram arte só como mercado. Arte é também questionamento, visão de mundo, espelho sensível do ser humano”, afirma.
Os 35 anos de ofício não significam que as coisas ficaram mais fáceis para Marco Tulio. “É como estar em um carro que entra no túnel escuro com os faróis voltados para trás. Você enxerga o que fez, mas o que está à frente é recomeçar do zero”, argumenta, valendo-se da frase do escritor Pedro Nava
Fonte: Uai, por Walter Sebastião em 30 de março de 2015.
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