Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15 de outubro de 1900), também conhecido como Nicola Antonio Facchinetti ou apenas N. Facchinetti, foi um cenógrafo, desenhista, pintor e professor de artes plásticas italo-brasileiro. Especula-se que Facchinetti cursou na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos para a Academia de Veneza. Foi premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente teve contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849 muda-se para o Brasil, onde passou a produzir, principalmente, retratos e ao mesmo tempo dedicou-se ao ensino de desenho e ao trabalho como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Pintor das paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo, o artista participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865.
Biografia — Itaú Cultural
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1900). Pintor, desenhista, cenógrafo e professor. Segundo alguns estudiosos, teria feito curso na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos na Academia de Veneza. É premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente tem contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849, mudou-se para o Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro. Produz principalmente retratos e ao mesmo tempo dedica-se ao ensino de desenho e atua como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. A partir da metade da década de 1860, faz paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo. O artista viaja para estudar as características da região e realiza desenhos em papel, que transpõe posteriormente para a tela. Participa de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865. Sua produção é objeto de estudo do historiador Donato Mello Júnior, que publicou um livro sobre o artista em 1982. Em 2004, é realizada a exposição Nicolau Facchinetti: 1824-1900, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio de Janeiro, com curadoria do museólogo e artista plástico Carlos Martins e da historiadora Valéria Piccoli.
Análise
O pintor italiano Facchinetti vem para o Brasil em 1849 e dedica-se inicialmente à realização de retratos e à cenografia, para voltar depois à pintura de paisagens, gênero no qual se consagra como um dos mais importantes artistas de sua geração.
O artista realiza vastos panoramas da cidade do Rio de Janeiro e de seus arredores, contrapondo a visão dos casarios novos à da natureza exuberante do entorno. Executa ainda vistas de Petrópolis e Teresópolis, Rio de Janeiro, da zona rural do Vale do Paraíba e de algumas regiões de Minas Gerais.
Há em suas obras um senso de grandeza da paisagem, a apresentação ampla da topografia, em perspectiva aérea, que por vezes, contrasta com as pequenas figuras e construções. Na tela Panorama de São Tomé das Letras (ca.1876), por exemplo, o artista se retrata, a pintar, em uma minúscula cabana com teto de palha. Já nas diversas telas que têm como cenário a baía da Guanabara, preocupa-se em registrar detalhes da paisagem. Em geral, suas pinturas são quase despovoadas.
Facchinetti manifesta a preferência por captar a natureza em certas horas do dia, como no alvorecer ou no entardecer, explorando os efeitos da luminosidade. Segundo o crítico de arte Gonzaga Duque (1863 - 1911), antes de pintar, o artista viaja ao local para estudar as características da região e traceja o motivo em um papel, para posteriormente transpô-lo na tela.
Críticas
"Nicolau Facchinetti deve ter acompanhado a evolução da nossa paisagem principalmente pelas Exposições Gerais e pelo relacionamento com alguns profissionais. Na segunda metade do século XIX a paisagem tende a ser estudada e, mesmo feita fora do ateliê, segundo as novas idéias de amor à natureza e as concepções do naturalismo e, no último terço do mesmo, do impressionismo, nascido na França, preocupado com os problemas da luz e seus efeitos. Em face do ensino acadêmico, predominavam as escolas romântica e neoclássica idealista. Só lentamente o realismo e o impressionismo chegam à Academia na década de 1880, com o ensino de Grimm (...) Facchinetti deve ter acompanhado esta evolução de pintura de ateliê para a de ar livre, de caráter verista, que foi a empregada por um novo grupo de artistas encabeçado pelo pintor alemão Johann Georg Grimm (...)" — Donato Mello Júnior (MELLO JÚNIOR, Donato. Facchinetti. São Paulo: Art: Record, 1982).
"Mas parece mais importante chamar a atenção para a concepção, por assim dizer, 'cinemascópica' do espaço em Facchinetti, que busca claramente dilatar ao máximo as possibilidades de expressão da grandeza, do infinito espacial. Não é certo por acaso que um número impressionante de paisagens suas têm o formato de uma projeção em cinemascope, como se ao apelo à dilatação do espaço devesse corresponder uma ruptura e uma redemarcação dos limites físicos, convencionais, da representação (...) ambição insensata de Facchinetti de forçar a tessitura de sua visão, recusar toda seleção ótica das ordens de grandeza, apresentar ao espectador um mundo no qual esteja presente a tensão entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande" — Luiz Marques (O BRASIL pintado por mestres nacionais e estrangeiros: séculos XVII-XX. São Paulo: MASP, 1987).
"No gênero a que se dedicou, a miniatura, não tem, atualmente, quem possa confundi-lo e empanar-lhe o brilho do nome. Os seus quadros são pintados com um característico e paciente cuidado, colorido com esplendor fora do vulgar, desenhados com um escrúpulo extraordinário, quase fatigante.
Reconhece-se, ao mais ligeiro golpe de vista, um grande artifício empregado pelo pintor para vencer tudo quanto escapou à sua faculdade de coordenação; e o trabalho que, a pouco e pouco, vai-se-nos afigurando melhor, pela habilidade da sua técnica, pelo calor do seu colorido, é, na sua complexidade, mais uma obra de paciência, mais uma prova de infatigável cuidado, do que uma simples obra de arte.
(...) os quadros de Facchinetti merecem, longe de complacência ou de hipocrisia, sinceros elogios. No gênero em que são feitos, constituem obras perfeitamente acabadas. (...)
A cor é quente, quase sempre exata, bem observada; o desenho minucioso em todos os detalhes, as perspectivas felizmente desenvolvidas, em suma, as suas obras são concluídas com o máximo rigor.
Para vencer todas as dificuldades, para obter a forma e o tom exato das cousas mais insignificantes e mais afastadas do ponto de observação, lança mão de lentes de aumento, pois é inteiramente impossível que seu órgão visual abranja, desarmado, as extensões que em seus quadros nitidamente observamos. Daí certo prejuízo para a tonalidade do quadro, que, se escapasse ao artista perfeito conhecimento do claro-escuro, aparecer-nos-ia sem perspectiva aérea e planimetria. Mas Facchinetti é um verdadeiro artista, conhece todos os segredos do desenho e da cor, e, sem pecha para importância de suas pequeninas telas, substitui a espontaneidade pela fidelidade. Não sou simpático à miniatura aplicada à paisagem, e isso por causa não só da impressão como da personalidade do artista, mas sou obrigado a ver nos trabalhos de Nicolau Facchinetti um mérito relativo, porém firme e inquestionável" — Gonzaga-Duque (DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Introdução Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p. 132-134).
Acervos
Museu Imperial - Petrópolis RJ
Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Museu Nacional de Belas Artes - MNBA - Rio de Janeiro RJ
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG
Museu de Arte de São Paulo - MASP - São Paulo SP
Museu Castro Maya - Rio de Janeiro RJ
Instituto Ricardo Brennand - Recife PE
Coleção Brasiliana / Fundação Estudar - São Paulo SP
Exposições Individuais
1898 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Ladeira da Glória, 15
Exposições Coletivas
1849 - Rio de Janeiro RJ - 10ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1850 - Rio de Janeiro RJ - 11ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1864 - Rio de Janeiro RJ - 16ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - menção honrosa
1865 - Rio de Janeiro RJ - 17ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - medalha de prata
1867 - Rio de Janeiro RJ - 19ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1870 - Rio de Janeiro RJ - 21ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1872 - Rio de Janeiro RJ - 22ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1875 - Rio de Janeiro RJ - 23ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1884 - Rio de Janeiro RJ - 26ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1886 - Rio de Janeiro RJ - Nicolau Facchinetti e Henrique Bernardelli, na Imprensa Nacional
1890 - Rio de Janeiro RJ - Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1894 - Rio de Janeiro RJ - 1ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1895 - Rio de Janeiro RJ - 2ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1900 - Rio de Janeiro RJ - 7ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
Exposições Póstumas
1944 - Rio de Janeiro RJ - Paisagem Brasileira, no MNBA
1948 - Rio de Janeiro RJ - Retrospectiva da Pintura no Brasil, no MNBA
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão dos Estados
1956 - São Paulo SP - 50 Anos de Paisagem Brasileira, no MAM/SP
1959 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas, no MNBA
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Rio na Pintura Brasileira, na Biblioteca Estadual da Guanabara
1965 - Rio de Janeiro RJ - Aspectos do Rio, no MNBA
1977 - Rio de Janeiro RJ - Aspecto da Paisagem Brasileira 1816-1916, no MNBA
1980 - São Paulo SP - A Paisagem Brasileira: 1650-1976, no Paço das Artes
1982 - São Paulo SP - Pintores Italianos no Brasil, no MAM/SP
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - O Brasil Pintado por Mestres Nacionais e Estrangeiros: séculos XVIII - XX, no Masp
1989 - Rio de Janeiro RJ - O Rio de Janeiro de Machado de Assis, no CCBB
1992 - Rio de Janeiro RJ - Natureza: quatro séculos de arte no Brasil, no CCBB
1993 - Rio de Janeiro RJ - Paisagens Brasileiras pelos Artistas Estrangeiros, na Galeria de Arte Sesc Tijuca
1994 - São Paulo SP - Um Olhar Crítico sobre o Acervo do Século XIX, na Pinacoteca do Estado
1994 - São Paulo SP - O Brasil dos Viajantes, no Museu de Arte de São Paulo
1995 - Lisboa (Portugal) - O Brasil dos Viajantes, no Centro Cultural de Belém
1996 - Londres - Brazil Through European Eyes, na Christie's
1998 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas em Grandes Coleções Paulistas, no Museu Naval
1998 - São Paulo SP - Brasil Século XIX: uma exuberante natureza, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Brasil Redescoberto, no Paço Imperial
2000 - Porto Alegre RS - De Frans Post a Eliseu Visconti: acervo Museu Nacional de Belas Artes RJ, no Margs
2000 - Rio de Janeiro RJ - Visões do Rio na Coleção Geyer, no CCBB
2000 - Roma - Viajantes e Naturalistas Italianos: Imagens do Brasil nos Séculos XVIII e XIX, no Palazzo Santacrote
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento: Arte do Século XIX, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Brasil Sobre Papel: matizes e vivências, no Espaço de Artes Unicid
2000 - São Paulo SP - Coleção Brasiliana, na Pinacoteca do Estado
2001 - São Paulo SP - 30 Mestres da Pintura no Brasil, no Masp
2001 - São Paulo SP - Trajetória da Luz na Arte Brasileira, no Itaú Cultural
2002 - São Paulo SP - Imagem e Identidade: um olhar sobre a história na coleção do Museu de Belas Artes, no Instituto Cultural Banco Santos
2004 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCBB
2005 - Fortaleza CE - Arte Brasileira: nas coleções públicas e privadas do Ceará, no Espaço Cultural Unifor
2005 - Rio de Janeiro RJ - Obras-primas da Arte Brasileira, no Centro de Exposições do Rio Design Barra
2009 - São Paulo SP - Paisagem e Panoramas, na Pinacoteca do Estado
2010 - São Paulo SP - 6ª sp-arte, na Fundação Bienal
Fonte: NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Acesso em: 13 de dezembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Para certos artistas e suas obras, a admiração cresce proporcional ao nosso envolvimento com o que produziram e pelos fatos que relatam como foram suas vidas. Não me era muito familiar, até pouco tempo atrás, a referência de Facchinetti na história da pintura brasileira. Já havia visto alguns poucos trabalhos dele, mas, a curiosidade me foi despertada pela insistência do Paulo de Carvalho, artista carioca que tem o Facchinetti como cartilha de cabeceira.
Comecei então a procurar e pesquisar algo mais sobre esse artista italiano, nascido na cidade de Treviso, a 7 de setembro de 1824. A sua história se mostrou tão rica quanto as suas obras, das quais consegui algumas imagens para compartilhar.
Facchinetti não veio para o Brasil pelo melhor dos motivos. Desavenças com políticos de sua terra natal aceleraram a sua vinda. Pouco se sabe, ou quase nada, de sua formação artística. Certeza mesmo, é que essa não era a sua maior vocação. Como precisava se manter de alguma forma, na nova terra que seria sua nova casa, tornou-se assim que chegou, instrutor de italiano e desenho. A carreira, por vias das circunstâncias, acabou evoluindo para cenógrafo e finalmente retratista. Mesmo que ele fosse preparado tecnicamente para enfrentar as dificuldades do retrato, a concorrência com outros artistas bem mais conceituados, no cenário carioca daquela época, não lhe deixava em boas condições, pois para tal atividade não era mais que um dedicado amador.
Sem muitas alternativas, a paisagem entrou no tema de suas composições quase que intuitivamente. Natural da região do Vêneto, na Itália, é até fácil de entender porque o realismo que tanto perseguia em suas obras, logo se tornou a marca registrada de seu trabalho. Mesmo sendo, na segunda metade do século XIX, a paisagem considerada um gênero inferior de representação artística, Facchinetti não se abateu diante de sua escolha. O lirismo realista de toda atmosfera brasileira que exalava de seus trabalhos, feitos aliás com muita habilidade e até um certo preciosismo, foi naquele momento, o cartão de visitas para ser assediado, em pouco tempo, pela alta sociedade fluminense. Não tardou e o reconhecimento veio logo pela família imperial, que o congratulou mais posteriormente, com o título de pintor oficial da família imperial.
O domínio técnico a que chegara, dava a seus trabalhos um diferencial que não era visto em nenhum outro pintor de sua época. Pela força das circunstâncias, Facchinetti inaugura assim, um estilo que por muito tempo, parecia só seu. É nas ocasiões de extrema necessidade, que a originalidade se manifesta como a maior das virtudes.
Certas habilidades nascem quase sempre de rigorosos métodos, Facchinetti cultivou os seus por toda a sua vida. Um minucioso processo de concepção de todas as suas obras, demandava um bom tempo para a execução das mesmas. Na procura pelo melhor ângulo da cena a ser representada, ele superava os maiores desafios. Em momento algum, hesitava em correr riscos pelos ângulos obtidos de pontos perigosos, pois estava sempre à procura da visão perfeita, aquela que viesse a se transformar na sua cena ideal. Ali esboçava à lápis, o que seria posteriormente ampliado em carvão e fixado à tela. Não abria mão desses recursos feitos “ao natural”. Essa prática, de buscar a inspiração para as suas obras, diretamente da natureza, se tornaria mais tarde, atividade também praticada por artistas guiados por Georg Grimm, entre eles, os renomados Castagnetto, Antônio Parreiras, Domingo Garcia y Vasquez, Hipólito Caron e muitos outros paisagistas do final daquele século. Porém, a diferença fundamental entre Facchinetti e Grimm e sua turma, é que o primeiro não pintava ao ar livre, apenas utilizava seus fartos esboços para compor a cena em ateliê. Já Grimm, incentivou todos os seus a captarem a cor in locco, numa atitude bem parecida com a Escola de Barbizon.
Gonzaga Duque, contemporâneo de Facchinetti, deixa o importante relato:
“Antes de pintar, ele ia ao local, estudava o ponto, esquadrinhando todos os detalhes. Depois tracejava o motivo em separado, numa página de álbum, numa folha de papel, que lentamente completava.
Preparado com esse exato desenho, decalcava-o na tela, a carvão, cobria-o com grafite e terminava fixando-o com tinta comum, por meio de aguda pena de aço.
Uma ocasião, estranhando-lhe eu todo esse lento, meticuloso processo, que anulava a emoção, respondeu-me que o seu interesse era a verdade, quanto mais exata, mais acabada fosse a cópia, tanto maior seria o mérito do seu trabalho...”
O efeito quase fotográfico de seu trabalho, restringiu um pouco a dimensão de suas obras. Quase todas em pequenos formatos, conservam todas elas o minucioso cuidado com todas as proporções, formas e cores, chegando a exagerar um pouco a tonalidade, em algumas obras. Os trabalhos eram quase sempre encomendas dos Barões do Café, membros da alta sociedade do Rio de Janeiro, e todos muito ligados à corte imperial. O destino de grande parte de sua obra era a ornamentação de salas e gabinetes, ou como sofisticados souveniers, oferecidos como presentes entre os grandes nobres.
Facchinetti teve o privilégio de viver no Brasil numa época prolífica. Grande parte das revoltas armadas contra o governo, em diversos pontos do território nacional, já havia sido sanada. Esse fato, que dava ao governo uma consolidação de poder, gerou para os próximos anos, um período de abonança de recursos, o que favoreceu o crescimento do mercado interno da arte. Com todas as benfeitorias centralizadas na então sede da corte, é bem natural que o Rio de Janeiro fosse o centro do país por onde a arte se solidificava e produziu vários artistas. É nesse ambiente, imensamente acolhedor do produto de seus artistas, que Facchinetti atendia uma clientela abonada e sedenta por obras. Produziu quase todas as suas obras por encomenda, fato comprovado no verso de todos os trabalhos solicitados. Muito raramente se dava ao luxo de produzir um trabalho sem destino prévio.
“Segundo Gonzaga Duque, Facchinetti superou barreiras e a ausência de recursos técnicos para conceber suas obras. Facchinetti escapa à perícia da fatura, era teimoso, persistente, rebuscado. Pela ausência de recursos técnicos, que só a tenacidade do querer, a constância do desejo, o amor à profissão, poderiam recompensar. E tais méritos lhe sobravam. Um organismo menos dotado de vigor teria sucumbido pelo esfacelamento. Não obstante, ele triunfou desse penoso trabalho, coadjuvando por seu bom senso, ainda provado com a escolha dos motivos, que eram paisagens panorâmicas. O panorama em quadro, ou mais em vulgata, para melhor compreensão, a vista, como ele fazia, será materialmente trabalhosa, mas oferece vantagens: sobre o acordo com a maneira comum de sentir, tem a dos planos bem detalhados e da perspectiva aérea. A paisagem representava para Facchinetti não só motivo para inspiração, mas também servia para seu deleite pessoal, ao entrar em contato com a natureza o pintor não só reproduzia suas sensações, como era tomado por elas diante da magnitude da paisagem. Facchinetti em suas telas representava o amor e o idealismo pelas cores do Brasil.”
(Trecho extraído do site www.Dezenovevinte.net)
Assim como muitos outros artistas de terras distantes, que fizeram daqui sua morada, Facchinetti não só contribui para o importante registro iconográfico de uma época, mas também faz, como todos aqueles artistas, um declarado amor à sua nova casa. Muito do que sabemos de um período já distante de nossa época, deve diretamente a todos aqueles que não mediram esforços para que as notícias de seu momento, chegassem o mais longe possível, no tempo e no espaço.
Fonte: Arte em Foco - José Rosário, publicado em 15 de junho de 2011 por José Rosário.
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Crédito fotográfico: Wikipédia. Consultado pela última vez em 13 de dezembro de 2022.
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15 de outubro de 1900), também conhecido como Nicola Antonio Facchinetti ou apenas N. Facchinetti, foi um cenógrafo, desenhista, pintor e professor de artes plásticas italo-brasileiro. Especula-se que Facchinetti cursou na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos para a Academia de Veneza. Foi premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente teve contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849 muda-se para o Brasil, onde passou a produzir, principalmente, retratos e ao mesmo tempo dedicou-se ao ensino de desenho e ao trabalho como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Pintor das paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo, o artista participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865.
Biografia — Itaú Cultural
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1900). Pintor, desenhista, cenógrafo e professor. Segundo alguns estudiosos, teria feito curso na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos na Academia de Veneza. É premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente tem contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849, mudou-se para o Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro. Produz principalmente retratos e ao mesmo tempo dedica-se ao ensino de desenho e atua como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. A partir da metade da década de 1860, faz paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo. O artista viaja para estudar as características da região e realiza desenhos em papel, que transpõe posteriormente para a tela. Participa de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865. Sua produção é objeto de estudo do historiador Donato Mello Júnior, que publicou um livro sobre o artista em 1982. Em 2004, é realizada a exposição Nicolau Facchinetti: 1824-1900, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio de Janeiro, com curadoria do museólogo e artista plástico Carlos Martins e da historiadora Valéria Piccoli.
Análise
O pintor italiano Facchinetti vem para o Brasil em 1849 e dedica-se inicialmente à realização de retratos e à cenografia, para voltar depois à pintura de paisagens, gênero no qual se consagra como um dos mais importantes artistas de sua geração.
O artista realiza vastos panoramas da cidade do Rio de Janeiro e de seus arredores, contrapondo a visão dos casarios novos à da natureza exuberante do entorno. Executa ainda vistas de Petrópolis e Teresópolis, Rio de Janeiro, da zona rural do Vale do Paraíba e de algumas regiões de Minas Gerais.
Há em suas obras um senso de grandeza da paisagem, a apresentação ampla da topografia, em perspectiva aérea, que por vezes, contrasta com as pequenas figuras e construções. Na tela Panorama de São Tomé das Letras (ca.1876), por exemplo, o artista se retrata, a pintar, em uma minúscula cabana com teto de palha. Já nas diversas telas que têm como cenário a baía da Guanabara, preocupa-se em registrar detalhes da paisagem. Em geral, suas pinturas são quase despovoadas.
Facchinetti manifesta a preferência por captar a natureza em certas horas do dia, como no alvorecer ou no entardecer, explorando os efeitos da luminosidade. Segundo o crítico de arte Gonzaga Duque (1863 - 1911), antes de pintar, o artista viaja ao local para estudar as características da região e traceja o motivo em um papel, para posteriormente transpô-lo na tela.
Críticas
"Nicolau Facchinetti deve ter acompanhado a evolução da nossa paisagem principalmente pelas Exposições Gerais e pelo relacionamento com alguns profissionais. Na segunda metade do século XIX a paisagem tende a ser estudada e, mesmo feita fora do ateliê, segundo as novas idéias de amor à natureza e as concepções do naturalismo e, no último terço do mesmo, do impressionismo, nascido na França, preocupado com os problemas da luz e seus efeitos. Em face do ensino acadêmico, predominavam as escolas romântica e neoclássica idealista. Só lentamente o realismo e o impressionismo chegam à Academia na década de 1880, com o ensino de Grimm (...) Facchinetti deve ter acompanhado esta evolução de pintura de ateliê para a de ar livre, de caráter verista, que foi a empregada por um novo grupo de artistas encabeçado pelo pintor alemão Johann Georg Grimm (...)" — Donato Mello Júnior (MELLO JÚNIOR, Donato. Facchinetti. São Paulo: Art: Record, 1982).
"Mas parece mais importante chamar a atenção para a concepção, por assim dizer, 'cinemascópica' do espaço em Facchinetti, que busca claramente dilatar ao máximo as possibilidades de expressão da grandeza, do infinito espacial. Não é certo por acaso que um número impressionante de paisagens suas têm o formato de uma projeção em cinemascope, como se ao apelo à dilatação do espaço devesse corresponder uma ruptura e uma redemarcação dos limites físicos, convencionais, da representação (...) ambição insensata de Facchinetti de forçar a tessitura de sua visão, recusar toda seleção ótica das ordens de grandeza, apresentar ao espectador um mundo no qual esteja presente a tensão entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande" — Luiz Marques (O BRASIL pintado por mestres nacionais e estrangeiros: séculos XVII-XX. São Paulo: MASP, 1987).
"No gênero a que se dedicou, a miniatura, não tem, atualmente, quem possa confundi-lo e empanar-lhe o brilho do nome. Os seus quadros são pintados com um característico e paciente cuidado, colorido com esplendor fora do vulgar, desenhados com um escrúpulo extraordinário, quase fatigante.
Reconhece-se, ao mais ligeiro golpe de vista, um grande artifício empregado pelo pintor para vencer tudo quanto escapou à sua faculdade de coordenação; e o trabalho que, a pouco e pouco, vai-se-nos afigurando melhor, pela habilidade da sua técnica, pelo calor do seu colorido, é, na sua complexidade, mais uma obra de paciência, mais uma prova de infatigável cuidado, do que uma simples obra de arte.
(...) os quadros de Facchinetti merecem, longe de complacência ou de hipocrisia, sinceros elogios. No gênero em que são feitos, constituem obras perfeitamente acabadas. (...)
A cor é quente, quase sempre exata, bem observada; o desenho minucioso em todos os detalhes, as perspectivas felizmente desenvolvidas, em suma, as suas obras são concluídas com o máximo rigor.
Para vencer todas as dificuldades, para obter a forma e o tom exato das cousas mais insignificantes e mais afastadas do ponto de observação, lança mão de lentes de aumento, pois é inteiramente impossível que seu órgão visual abranja, desarmado, as extensões que em seus quadros nitidamente observamos. Daí certo prejuízo para a tonalidade do quadro, que, se escapasse ao artista perfeito conhecimento do claro-escuro, aparecer-nos-ia sem perspectiva aérea e planimetria. Mas Facchinetti é um verdadeiro artista, conhece todos os segredos do desenho e da cor, e, sem pecha para importância de suas pequeninas telas, substitui a espontaneidade pela fidelidade. Não sou simpático à miniatura aplicada à paisagem, e isso por causa não só da impressão como da personalidade do artista, mas sou obrigado a ver nos trabalhos de Nicolau Facchinetti um mérito relativo, porém firme e inquestionável" — Gonzaga-Duque (DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Introdução Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p. 132-134).
Acervos
Museu Imperial - Petrópolis RJ
Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Museu Nacional de Belas Artes - MNBA - Rio de Janeiro RJ
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG
Museu de Arte de São Paulo - MASP - São Paulo SP
Museu Castro Maya - Rio de Janeiro RJ
Instituto Ricardo Brennand - Recife PE
Coleção Brasiliana / Fundação Estudar - São Paulo SP
Exposições Individuais
1898 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Ladeira da Glória, 15
Exposições Coletivas
1849 - Rio de Janeiro RJ - 10ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1850 - Rio de Janeiro RJ - 11ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1864 - Rio de Janeiro RJ - 16ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - menção honrosa
1865 - Rio de Janeiro RJ - 17ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - medalha de prata
1867 - Rio de Janeiro RJ - 19ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1870 - Rio de Janeiro RJ - 21ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1872 - Rio de Janeiro RJ - 22ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1875 - Rio de Janeiro RJ - 23ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1884 - Rio de Janeiro RJ - 26ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1886 - Rio de Janeiro RJ - Nicolau Facchinetti e Henrique Bernardelli, na Imprensa Nacional
1890 - Rio de Janeiro RJ - Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1894 - Rio de Janeiro RJ - 1ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1895 - Rio de Janeiro RJ - 2ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1900 - Rio de Janeiro RJ - 7ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
Exposições Póstumas
1944 - Rio de Janeiro RJ - Paisagem Brasileira, no MNBA
1948 - Rio de Janeiro RJ - Retrospectiva da Pintura no Brasil, no MNBA
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão dos Estados
1956 - São Paulo SP - 50 Anos de Paisagem Brasileira, no MAM/SP
1959 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas, no MNBA
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Rio na Pintura Brasileira, na Biblioteca Estadual da Guanabara
1965 - Rio de Janeiro RJ - Aspectos do Rio, no MNBA
1977 - Rio de Janeiro RJ - Aspecto da Paisagem Brasileira 1816-1916, no MNBA
1980 - São Paulo SP - A Paisagem Brasileira: 1650-1976, no Paço das Artes
1982 - São Paulo SP - Pintores Italianos no Brasil, no MAM/SP
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - O Brasil Pintado por Mestres Nacionais e Estrangeiros: séculos XVIII - XX, no Masp
1989 - Rio de Janeiro RJ - O Rio de Janeiro de Machado de Assis, no CCBB
1992 - Rio de Janeiro RJ - Natureza: quatro séculos de arte no Brasil, no CCBB
1993 - Rio de Janeiro RJ - Paisagens Brasileiras pelos Artistas Estrangeiros, na Galeria de Arte Sesc Tijuca
1994 - São Paulo SP - Um Olhar Crítico sobre o Acervo do Século XIX, na Pinacoteca do Estado
1994 - São Paulo SP - O Brasil dos Viajantes, no Museu de Arte de São Paulo
1995 - Lisboa (Portugal) - O Brasil dos Viajantes, no Centro Cultural de Belém
1996 - Londres - Brazil Through European Eyes, na Christie's
1998 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas em Grandes Coleções Paulistas, no Museu Naval
1998 - São Paulo SP - Brasil Século XIX: uma exuberante natureza, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Brasil Redescoberto, no Paço Imperial
2000 - Porto Alegre RS - De Frans Post a Eliseu Visconti: acervo Museu Nacional de Belas Artes RJ, no Margs
2000 - Rio de Janeiro RJ - Visões do Rio na Coleção Geyer, no CCBB
2000 - Roma - Viajantes e Naturalistas Italianos: Imagens do Brasil nos Séculos XVIII e XIX, no Palazzo Santacrote
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento: Arte do Século XIX, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Brasil Sobre Papel: matizes e vivências, no Espaço de Artes Unicid
2000 - São Paulo SP - Coleção Brasiliana, na Pinacoteca do Estado
2001 - São Paulo SP - 30 Mestres da Pintura no Brasil, no Masp
2001 - São Paulo SP - Trajetória da Luz na Arte Brasileira, no Itaú Cultural
2002 - São Paulo SP - Imagem e Identidade: um olhar sobre a história na coleção do Museu de Belas Artes, no Instituto Cultural Banco Santos
2004 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCBB
2005 - Fortaleza CE - Arte Brasileira: nas coleções públicas e privadas do Ceará, no Espaço Cultural Unifor
2005 - Rio de Janeiro RJ - Obras-primas da Arte Brasileira, no Centro de Exposições do Rio Design Barra
2009 - São Paulo SP - Paisagem e Panoramas, na Pinacoteca do Estado
2010 - São Paulo SP - 6ª sp-arte, na Fundação Bienal
Fonte: NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Acesso em: 13 de dezembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Para certos artistas e suas obras, a admiração cresce proporcional ao nosso envolvimento com o que produziram e pelos fatos que relatam como foram suas vidas. Não me era muito familiar, até pouco tempo atrás, a referência de Facchinetti na história da pintura brasileira. Já havia visto alguns poucos trabalhos dele, mas, a curiosidade me foi despertada pela insistência do Paulo de Carvalho, artista carioca que tem o Facchinetti como cartilha de cabeceira.
Comecei então a procurar e pesquisar algo mais sobre esse artista italiano, nascido na cidade de Treviso, a 7 de setembro de 1824. A sua história se mostrou tão rica quanto as suas obras, das quais consegui algumas imagens para compartilhar.
Facchinetti não veio para o Brasil pelo melhor dos motivos. Desavenças com políticos de sua terra natal aceleraram a sua vinda. Pouco se sabe, ou quase nada, de sua formação artística. Certeza mesmo, é que essa não era a sua maior vocação. Como precisava se manter de alguma forma, na nova terra que seria sua nova casa, tornou-se assim que chegou, instrutor de italiano e desenho. A carreira, por vias das circunstâncias, acabou evoluindo para cenógrafo e finalmente retratista. Mesmo que ele fosse preparado tecnicamente para enfrentar as dificuldades do retrato, a concorrência com outros artistas bem mais conceituados, no cenário carioca daquela época, não lhe deixava em boas condições, pois para tal atividade não era mais que um dedicado amador.
Sem muitas alternativas, a paisagem entrou no tema de suas composições quase que intuitivamente. Natural da região do Vêneto, na Itália, é até fácil de entender porque o realismo que tanto perseguia em suas obras, logo se tornou a marca registrada de seu trabalho. Mesmo sendo, na segunda metade do século XIX, a paisagem considerada um gênero inferior de representação artística, Facchinetti não se abateu diante de sua escolha. O lirismo realista de toda atmosfera brasileira que exalava de seus trabalhos, feitos aliás com muita habilidade e até um certo preciosismo, foi naquele momento, o cartão de visitas para ser assediado, em pouco tempo, pela alta sociedade fluminense. Não tardou e o reconhecimento veio logo pela família imperial, que o congratulou mais posteriormente, com o título de pintor oficial da família imperial.
O domínio técnico a que chegara, dava a seus trabalhos um diferencial que não era visto em nenhum outro pintor de sua época. Pela força das circunstâncias, Facchinetti inaugura assim, um estilo que por muito tempo, parecia só seu. É nas ocasiões de extrema necessidade, que a originalidade se manifesta como a maior das virtudes.
Certas habilidades nascem quase sempre de rigorosos métodos, Facchinetti cultivou os seus por toda a sua vida. Um minucioso processo de concepção de todas as suas obras, demandava um bom tempo para a execução das mesmas. Na procura pelo melhor ângulo da cena a ser representada, ele superava os maiores desafios. Em momento algum, hesitava em correr riscos pelos ângulos obtidos de pontos perigosos, pois estava sempre à procura da visão perfeita, aquela que viesse a se transformar na sua cena ideal. Ali esboçava à lápis, o que seria posteriormente ampliado em carvão e fixado à tela. Não abria mão desses recursos feitos “ao natural”. Essa prática, de buscar a inspiração para as suas obras, diretamente da natureza, se tornaria mais tarde, atividade também praticada por artistas guiados por Georg Grimm, entre eles, os renomados Castagnetto, Antônio Parreiras, Domingo Garcia y Vasquez, Hipólito Caron e muitos outros paisagistas do final daquele século. Porém, a diferença fundamental entre Facchinetti e Grimm e sua turma, é que o primeiro não pintava ao ar livre, apenas utilizava seus fartos esboços para compor a cena em ateliê. Já Grimm, incentivou todos os seus a captarem a cor in locco, numa atitude bem parecida com a Escola de Barbizon.
Gonzaga Duque, contemporâneo de Facchinetti, deixa o importante relato:
“Antes de pintar, ele ia ao local, estudava o ponto, esquadrinhando todos os detalhes. Depois tracejava o motivo em separado, numa página de álbum, numa folha de papel, que lentamente completava.
Preparado com esse exato desenho, decalcava-o na tela, a carvão, cobria-o com grafite e terminava fixando-o com tinta comum, por meio de aguda pena de aço.
Uma ocasião, estranhando-lhe eu todo esse lento, meticuloso processo, que anulava a emoção, respondeu-me que o seu interesse era a verdade, quanto mais exata, mais acabada fosse a cópia, tanto maior seria o mérito do seu trabalho...”
O efeito quase fotográfico de seu trabalho, restringiu um pouco a dimensão de suas obras. Quase todas em pequenos formatos, conservam todas elas o minucioso cuidado com todas as proporções, formas e cores, chegando a exagerar um pouco a tonalidade, em algumas obras. Os trabalhos eram quase sempre encomendas dos Barões do Café, membros da alta sociedade do Rio de Janeiro, e todos muito ligados à corte imperial. O destino de grande parte de sua obra era a ornamentação de salas e gabinetes, ou como sofisticados souveniers, oferecidos como presentes entre os grandes nobres.
Facchinetti teve o privilégio de viver no Brasil numa época prolífica. Grande parte das revoltas armadas contra o governo, em diversos pontos do território nacional, já havia sido sanada. Esse fato, que dava ao governo uma consolidação de poder, gerou para os próximos anos, um período de abonança de recursos, o que favoreceu o crescimento do mercado interno da arte. Com todas as benfeitorias centralizadas na então sede da corte, é bem natural que o Rio de Janeiro fosse o centro do país por onde a arte se solidificava e produziu vários artistas. É nesse ambiente, imensamente acolhedor do produto de seus artistas, que Facchinetti atendia uma clientela abonada e sedenta por obras. Produziu quase todas as suas obras por encomenda, fato comprovado no verso de todos os trabalhos solicitados. Muito raramente se dava ao luxo de produzir um trabalho sem destino prévio.
“Segundo Gonzaga Duque, Facchinetti superou barreiras e a ausência de recursos técnicos para conceber suas obras. Facchinetti escapa à perícia da fatura, era teimoso, persistente, rebuscado. Pela ausência de recursos técnicos, que só a tenacidade do querer, a constância do desejo, o amor à profissão, poderiam recompensar. E tais méritos lhe sobravam. Um organismo menos dotado de vigor teria sucumbido pelo esfacelamento. Não obstante, ele triunfou desse penoso trabalho, coadjuvando por seu bom senso, ainda provado com a escolha dos motivos, que eram paisagens panorâmicas. O panorama em quadro, ou mais em vulgata, para melhor compreensão, a vista, como ele fazia, será materialmente trabalhosa, mas oferece vantagens: sobre o acordo com a maneira comum de sentir, tem a dos planos bem detalhados e da perspectiva aérea. A paisagem representava para Facchinetti não só motivo para inspiração, mas também servia para seu deleite pessoal, ao entrar em contato com a natureza o pintor não só reproduzia suas sensações, como era tomado por elas diante da magnitude da paisagem. Facchinetti em suas telas representava o amor e o idealismo pelas cores do Brasil.”
(Trecho extraído do site www.Dezenovevinte.net)
Assim como muitos outros artistas de terras distantes, que fizeram daqui sua morada, Facchinetti não só contribui para o importante registro iconográfico de uma época, mas também faz, como todos aqueles artistas, um declarado amor à sua nova casa. Muito do que sabemos de um período já distante de nossa época, deve diretamente a todos aqueles que não mediram esforços para que as notícias de seu momento, chegassem o mais longe possível, no tempo e no espaço.
Fonte: Arte em Foco - José Rosário, publicado em 15 de junho de 2011 por José Rosário.
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Crédito fotográfico: Wikipédia. Consultado pela última vez em 13 de dezembro de 2022.
2 artistas relacionados
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15 de outubro de 1900), também conhecido como Nicola Antonio Facchinetti ou apenas N. Facchinetti, foi um cenógrafo, desenhista, pintor e professor de artes plásticas italo-brasileiro. Especula-se que Facchinetti cursou na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos para a Academia de Veneza. Foi premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente teve contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849 muda-se para o Brasil, onde passou a produzir, principalmente, retratos e ao mesmo tempo dedicou-se ao ensino de desenho e ao trabalho como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Pintor das paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo, o artista participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865.
Biografia — Itaú Cultural
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1900). Pintor, desenhista, cenógrafo e professor. Segundo alguns estudiosos, teria feito curso na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos na Academia de Veneza. É premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente tem contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849, mudou-se para o Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro. Produz principalmente retratos e ao mesmo tempo dedica-se ao ensino de desenho e atua como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. A partir da metade da década de 1860, faz paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo. O artista viaja para estudar as características da região e realiza desenhos em papel, que transpõe posteriormente para a tela. Participa de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865. Sua produção é objeto de estudo do historiador Donato Mello Júnior, que publicou um livro sobre o artista em 1982. Em 2004, é realizada a exposição Nicolau Facchinetti: 1824-1900, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio de Janeiro, com curadoria do museólogo e artista plástico Carlos Martins e da historiadora Valéria Piccoli.
Análise
O pintor italiano Facchinetti vem para o Brasil em 1849 e dedica-se inicialmente à realização de retratos e à cenografia, para voltar depois à pintura de paisagens, gênero no qual se consagra como um dos mais importantes artistas de sua geração.
O artista realiza vastos panoramas da cidade do Rio de Janeiro e de seus arredores, contrapondo a visão dos casarios novos à da natureza exuberante do entorno. Executa ainda vistas de Petrópolis e Teresópolis, Rio de Janeiro, da zona rural do Vale do Paraíba e de algumas regiões de Minas Gerais.
Há em suas obras um senso de grandeza da paisagem, a apresentação ampla da topografia, em perspectiva aérea, que por vezes, contrasta com as pequenas figuras e construções. Na tela Panorama de São Tomé das Letras (ca.1876), por exemplo, o artista se retrata, a pintar, em uma minúscula cabana com teto de palha. Já nas diversas telas que têm como cenário a baía da Guanabara, preocupa-se em registrar detalhes da paisagem. Em geral, suas pinturas são quase despovoadas.
Facchinetti manifesta a preferência por captar a natureza em certas horas do dia, como no alvorecer ou no entardecer, explorando os efeitos da luminosidade. Segundo o crítico de arte Gonzaga Duque (1863 - 1911), antes de pintar, o artista viaja ao local para estudar as características da região e traceja o motivo em um papel, para posteriormente transpô-lo na tela.
Críticas
"Nicolau Facchinetti deve ter acompanhado a evolução da nossa paisagem principalmente pelas Exposições Gerais e pelo relacionamento com alguns profissionais. Na segunda metade do século XIX a paisagem tende a ser estudada e, mesmo feita fora do ateliê, segundo as novas idéias de amor à natureza e as concepções do naturalismo e, no último terço do mesmo, do impressionismo, nascido na França, preocupado com os problemas da luz e seus efeitos. Em face do ensino acadêmico, predominavam as escolas romântica e neoclássica idealista. Só lentamente o realismo e o impressionismo chegam à Academia na década de 1880, com o ensino de Grimm (...) Facchinetti deve ter acompanhado esta evolução de pintura de ateliê para a de ar livre, de caráter verista, que foi a empregada por um novo grupo de artistas encabeçado pelo pintor alemão Johann Georg Grimm (...)" — Donato Mello Júnior (MELLO JÚNIOR, Donato. Facchinetti. São Paulo: Art: Record, 1982).
"Mas parece mais importante chamar a atenção para a concepção, por assim dizer, 'cinemascópica' do espaço em Facchinetti, que busca claramente dilatar ao máximo as possibilidades de expressão da grandeza, do infinito espacial. Não é certo por acaso que um número impressionante de paisagens suas têm o formato de uma projeção em cinemascope, como se ao apelo à dilatação do espaço devesse corresponder uma ruptura e uma redemarcação dos limites físicos, convencionais, da representação (...) ambição insensata de Facchinetti de forçar a tessitura de sua visão, recusar toda seleção ótica das ordens de grandeza, apresentar ao espectador um mundo no qual esteja presente a tensão entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande" — Luiz Marques (O BRASIL pintado por mestres nacionais e estrangeiros: séculos XVII-XX. São Paulo: MASP, 1987).
"No gênero a que se dedicou, a miniatura, não tem, atualmente, quem possa confundi-lo e empanar-lhe o brilho do nome. Os seus quadros são pintados com um característico e paciente cuidado, colorido com esplendor fora do vulgar, desenhados com um escrúpulo extraordinário, quase fatigante.
Reconhece-se, ao mais ligeiro golpe de vista, um grande artifício empregado pelo pintor para vencer tudo quanto escapou à sua faculdade de coordenação; e o trabalho que, a pouco e pouco, vai-se-nos afigurando melhor, pela habilidade da sua técnica, pelo calor do seu colorido, é, na sua complexidade, mais uma obra de paciência, mais uma prova de infatigável cuidado, do que uma simples obra de arte.
(...) os quadros de Facchinetti merecem, longe de complacência ou de hipocrisia, sinceros elogios. No gênero em que são feitos, constituem obras perfeitamente acabadas. (...)
A cor é quente, quase sempre exata, bem observada; o desenho minucioso em todos os detalhes, as perspectivas felizmente desenvolvidas, em suma, as suas obras são concluídas com o máximo rigor.
Para vencer todas as dificuldades, para obter a forma e o tom exato das cousas mais insignificantes e mais afastadas do ponto de observação, lança mão de lentes de aumento, pois é inteiramente impossível que seu órgão visual abranja, desarmado, as extensões que em seus quadros nitidamente observamos. Daí certo prejuízo para a tonalidade do quadro, que, se escapasse ao artista perfeito conhecimento do claro-escuro, aparecer-nos-ia sem perspectiva aérea e planimetria. Mas Facchinetti é um verdadeiro artista, conhece todos os segredos do desenho e da cor, e, sem pecha para importância de suas pequeninas telas, substitui a espontaneidade pela fidelidade. Não sou simpático à miniatura aplicada à paisagem, e isso por causa não só da impressão como da personalidade do artista, mas sou obrigado a ver nos trabalhos de Nicolau Facchinetti um mérito relativo, porém firme e inquestionável" — Gonzaga-Duque (DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Introdução Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p. 132-134).
Acervos
Museu Imperial - Petrópolis RJ
Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Museu Nacional de Belas Artes - MNBA - Rio de Janeiro RJ
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG
Museu de Arte de São Paulo - MASP - São Paulo SP
Museu Castro Maya - Rio de Janeiro RJ
Instituto Ricardo Brennand - Recife PE
Coleção Brasiliana / Fundação Estudar - São Paulo SP
Exposições Individuais
1898 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Ladeira da Glória, 15
Exposições Coletivas
1849 - Rio de Janeiro RJ - 10ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1850 - Rio de Janeiro RJ - 11ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1864 - Rio de Janeiro RJ - 16ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - menção honrosa
1865 - Rio de Janeiro RJ - 17ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - medalha de prata
1867 - Rio de Janeiro RJ - 19ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1870 - Rio de Janeiro RJ - 21ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1872 - Rio de Janeiro RJ - 22ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1875 - Rio de Janeiro RJ - 23ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1884 - Rio de Janeiro RJ - 26ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1886 - Rio de Janeiro RJ - Nicolau Facchinetti e Henrique Bernardelli, na Imprensa Nacional
1890 - Rio de Janeiro RJ - Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1894 - Rio de Janeiro RJ - 1ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1895 - Rio de Janeiro RJ - 2ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1900 - Rio de Janeiro RJ - 7ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
Exposições Póstumas
1944 - Rio de Janeiro RJ - Paisagem Brasileira, no MNBA
1948 - Rio de Janeiro RJ - Retrospectiva da Pintura no Brasil, no MNBA
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão dos Estados
1956 - São Paulo SP - 50 Anos de Paisagem Brasileira, no MAM/SP
1959 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas, no MNBA
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Rio na Pintura Brasileira, na Biblioteca Estadual da Guanabara
1965 - Rio de Janeiro RJ - Aspectos do Rio, no MNBA
1977 - Rio de Janeiro RJ - Aspecto da Paisagem Brasileira 1816-1916, no MNBA
1980 - São Paulo SP - A Paisagem Brasileira: 1650-1976, no Paço das Artes
1982 - São Paulo SP - Pintores Italianos no Brasil, no MAM/SP
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - O Brasil Pintado por Mestres Nacionais e Estrangeiros: séculos XVIII - XX, no Masp
1989 - Rio de Janeiro RJ - O Rio de Janeiro de Machado de Assis, no CCBB
1992 - Rio de Janeiro RJ - Natureza: quatro séculos de arte no Brasil, no CCBB
1993 - Rio de Janeiro RJ - Paisagens Brasileiras pelos Artistas Estrangeiros, na Galeria de Arte Sesc Tijuca
1994 - São Paulo SP - Um Olhar Crítico sobre o Acervo do Século XIX, na Pinacoteca do Estado
1994 - São Paulo SP - O Brasil dos Viajantes, no Museu de Arte de São Paulo
1995 - Lisboa (Portugal) - O Brasil dos Viajantes, no Centro Cultural de Belém
1996 - Londres - Brazil Through European Eyes, na Christie's
1998 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas em Grandes Coleções Paulistas, no Museu Naval
1998 - São Paulo SP - Brasil Século XIX: uma exuberante natureza, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Brasil Redescoberto, no Paço Imperial
2000 - Porto Alegre RS - De Frans Post a Eliseu Visconti: acervo Museu Nacional de Belas Artes RJ, no Margs
2000 - Rio de Janeiro RJ - Visões do Rio na Coleção Geyer, no CCBB
2000 - Roma - Viajantes e Naturalistas Italianos: Imagens do Brasil nos Séculos XVIII e XIX, no Palazzo Santacrote
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento: Arte do Século XIX, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Brasil Sobre Papel: matizes e vivências, no Espaço de Artes Unicid
2000 - São Paulo SP - Coleção Brasiliana, na Pinacoteca do Estado
2001 - São Paulo SP - 30 Mestres da Pintura no Brasil, no Masp
2001 - São Paulo SP - Trajetória da Luz na Arte Brasileira, no Itaú Cultural
2002 - São Paulo SP - Imagem e Identidade: um olhar sobre a história na coleção do Museu de Belas Artes, no Instituto Cultural Banco Santos
2004 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCBB
2005 - Fortaleza CE - Arte Brasileira: nas coleções públicas e privadas do Ceará, no Espaço Cultural Unifor
2005 - Rio de Janeiro RJ - Obras-primas da Arte Brasileira, no Centro de Exposições do Rio Design Barra
2009 - São Paulo SP - Paisagem e Panoramas, na Pinacoteca do Estado
2010 - São Paulo SP - 6ª sp-arte, na Fundação Bienal
Fonte: NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Acesso em: 13 de dezembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Para certos artistas e suas obras, a admiração cresce proporcional ao nosso envolvimento com o que produziram e pelos fatos que relatam como foram suas vidas. Não me era muito familiar, até pouco tempo atrás, a referência de Facchinetti na história da pintura brasileira. Já havia visto alguns poucos trabalhos dele, mas, a curiosidade me foi despertada pela insistência do Paulo de Carvalho, artista carioca que tem o Facchinetti como cartilha de cabeceira.
Comecei então a procurar e pesquisar algo mais sobre esse artista italiano, nascido na cidade de Treviso, a 7 de setembro de 1824. A sua história se mostrou tão rica quanto as suas obras, das quais consegui algumas imagens para compartilhar.
Facchinetti não veio para o Brasil pelo melhor dos motivos. Desavenças com políticos de sua terra natal aceleraram a sua vinda. Pouco se sabe, ou quase nada, de sua formação artística. Certeza mesmo, é que essa não era a sua maior vocação. Como precisava se manter de alguma forma, na nova terra que seria sua nova casa, tornou-se assim que chegou, instrutor de italiano e desenho. A carreira, por vias das circunstâncias, acabou evoluindo para cenógrafo e finalmente retratista. Mesmo que ele fosse preparado tecnicamente para enfrentar as dificuldades do retrato, a concorrência com outros artistas bem mais conceituados, no cenário carioca daquela época, não lhe deixava em boas condições, pois para tal atividade não era mais que um dedicado amador.
Sem muitas alternativas, a paisagem entrou no tema de suas composições quase que intuitivamente. Natural da região do Vêneto, na Itália, é até fácil de entender porque o realismo que tanto perseguia em suas obras, logo se tornou a marca registrada de seu trabalho. Mesmo sendo, na segunda metade do século XIX, a paisagem considerada um gênero inferior de representação artística, Facchinetti não se abateu diante de sua escolha. O lirismo realista de toda atmosfera brasileira que exalava de seus trabalhos, feitos aliás com muita habilidade e até um certo preciosismo, foi naquele momento, o cartão de visitas para ser assediado, em pouco tempo, pela alta sociedade fluminense. Não tardou e o reconhecimento veio logo pela família imperial, que o congratulou mais posteriormente, com o título de pintor oficial da família imperial.
O domínio técnico a que chegara, dava a seus trabalhos um diferencial que não era visto em nenhum outro pintor de sua época. Pela força das circunstâncias, Facchinetti inaugura assim, um estilo que por muito tempo, parecia só seu. É nas ocasiões de extrema necessidade, que a originalidade se manifesta como a maior das virtudes.
Certas habilidades nascem quase sempre de rigorosos métodos, Facchinetti cultivou os seus por toda a sua vida. Um minucioso processo de concepção de todas as suas obras, demandava um bom tempo para a execução das mesmas. Na procura pelo melhor ângulo da cena a ser representada, ele superava os maiores desafios. Em momento algum, hesitava em correr riscos pelos ângulos obtidos de pontos perigosos, pois estava sempre à procura da visão perfeita, aquela que viesse a se transformar na sua cena ideal. Ali esboçava à lápis, o que seria posteriormente ampliado em carvão e fixado à tela. Não abria mão desses recursos feitos “ao natural”. Essa prática, de buscar a inspiração para as suas obras, diretamente da natureza, se tornaria mais tarde, atividade também praticada por artistas guiados por Georg Grimm, entre eles, os renomados Castagnetto, Antônio Parreiras, Domingo Garcia y Vasquez, Hipólito Caron e muitos outros paisagistas do final daquele século. Porém, a diferença fundamental entre Facchinetti e Grimm e sua turma, é que o primeiro não pintava ao ar livre, apenas utilizava seus fartos esboços para compor a cena em ateliê. Já Grimm, incentivou todos os seus a captarem a cor in locco, numa atitude bem parecida com a Escola de Barbizon.
Gonzaga Duque, contemporâneo de Facchinetti, deixa o importante relato:
“Antes de pintar, ele ia ao local, estudava o ponto, esquadrinhando todos os detalhes. Depois tracejava o motivo em separado, numa página de álbum, numa folha de papel, que lentamente completava.
Preparado com esse exato desenho, decalcava-o na tela, a carvão, cobria-o com grafite e terminava fixando-o com tinta comum, por meio de aguda pena de aço.
Uma ocasião, estranhando-lhe eu todo esse lento, meticuloso processo, que anulava a emoção, respondeu-me que o seu interesse era a verdade, quanto mais exata, mais acabada fosse a cópia, tanto maior seria o mérito do seu trabalho...”
O efeito quase fotográfico de seu trabalho, restringiu um pouco a dimensão de suas obras. Quase todas em pequenos formatos, conservam todas elas o minucioso cuidado com todas as proporções, formas e cores, chegando a exagerar um pouco a tonalidade, em algumas obras. Os trabalhos eram quase sempre encomendas dos Barões do Café, membros da alta sociedade do Rio de Janeiro, e todos muito ligados à corte imperial. O destino de grande parte de sua obra era a ornamentação de salas e gabinetes, ou como sofisticados souveniers, oferecidos como presentes entre os grandes nobres.
Facchinetti teve o privilégio de viver no Brasil numa época prolífica. Grande parte das revoltas armadas contra o governo, em diversos pontos do território nacional, já havia sido sanada. Esse fato, que dava ao governo uma consolidação de poder, gerou para os próximos anos, um período de abonança de recursos, o que favoreceu o crescimento do mercado interno da arte. Com todas as benfeitorias centralizadas na então sede da corte, é bem natural que o Rio de Janeiro fosse o centro do país por onde a arte se solidificava e produziu vários artistas. É nesse ambiente, imensamente acolhedor do produto de seus artistas, que Facchinetti atendia uma clientela abonada e sedenta por obras. Produziu quase todas as suas obras por encomenda, fato comprovado no verso de todos os trabalhos solicitados. Muito raramente se dava ao luxo de produzir um trabalho sem destino prévio.
“Segundo Gonzaga Duque, Facchinetti superou barreiras e a ausência de recursos técnicos para conceber suas obras. Facchinetti escapa à perícia da fatura, era teimoso, persistente, rebuscado. Pela ausência de recursos técnicos, que só a tenacidade do querer, a constância do desejo, o amor à profissão, poderiam recompensar. E tais méritos lhe sobravam. Um organismo menos dotado de vigor teria sucumbido pelo esfacelamento. Não obstante, ele triunfou desse penoso trabalho, coadjuvando por seu bom senso, ainda provado com a escolha dos motivos, que eram paisagens panorâmicas. O panorama em quadro, ou mais em vulgata, para melhor compreensão, a vista, como ele fazia, será materialmente trabalhosa, mas oferece vantagens: sobre o acordo com a maneira comum de sentir, tem a dos planos bem detalhados e da perspectiva aérea. A paisagem representava para Facchinetti não só motivo para inspiração, mas também servia para seu deleite pessoal, ao entrar em contato com a natureza o pintor não só reproduzia suas sensações, como era tomado por elas diante da magnitude da paisagem. Facchinetti em suas telas representava o amor e o idealismo pelas cores do Brasil.”
(Trecho extraído do site www.Dezenovevinte.net)
Assim como muitos outros artistas de terras distantes, que fizeram daqui sua morada, Facchinetti não só contribui para o importante registro iconográfico de uma época, mas também faz, como todos aqueles artistas, um declarado amor à sua nova casa. Muito do que sabemos de um período já distante de nossa época, deve diretamente a todos aqueles que não mediram esforços para que as notícias de seu momento, chegassem o mais longe possível, no tempo e no espaço.
Fonte: Arte em Foco - José Rosário, publicado em 15 de junho de 2011 por José Rosário.
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Crédito fotográfico: Wikipédia. Consultado pela última vez em 13 de dezembro de 2022.
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 15 de outubro de 1900), também conhecido como Nicola Antonio Facchinetti ou apenas N. Facchinetti, foi um cenógrafo, desenhista, pintor e professor de artes plásticas italo-brasileiro. Especula-se que Facchinetti cursou na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos para a Academia de Veneza. Foi premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente teve contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849 muda-se para o Brasil, onde passou a produzir, principalmente, retratos e ao mesmo tempo dedicou-se ao ensino de desenho e ao trabalho como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Pintor das paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo, o artista participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865.
Biografia — Itaú Cultural
Nicolò Agostino Facchinetti (Treviso, Itália, 7 de setembro de 1824 — Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1900). Pintor, desenhista, cenógrafo e professor. Segundo alguns estudiosos, teria feito curso na Escola de Desenho de Bassano, prosseguindo os estudos na Academia de Veneza. É premiado pela Regia Accademia di Belle Arti, em Veneza, "por cópia de gravura" e trabalho em ornamentos, em 1842 e 1843. Possivelmente tem contato com a obra de Ippolito Caffi (1809 - 1866) e Luigi Querena (1824 - 1887), conhecidos pintores de paisagens. Em 1849, mudou-se para o Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro. Produz principalmente retratos e ao mesmo tempo dedica-se ao ensino de desenho e atua como cenógrafo. Em 1868, obtém diploma em desenho, concedido pela Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. A partir da metade da década de 1860, faz paisagens das regiões serranas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e das fazendas de café do Vale do Paraíba, em São Paulo. O artista viaja para estudar as características da região e realiza desenhos em papel, que transpõe posteriormente para a tela. Participa de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes, entre 1850 e 1900, obtém menção honrosa em 1864 e medalha de prata em 1865. Sua produção é objeto de estudo do historiador Donato Mello Júnior, que publicou um livro sobre o artista em 1982. Em 2004, é realizada a exposição Nicolau Facchinetti: 1824-1900, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio de Janeiro, com curadoria do museólogo e artista plástico Carlos Martins e da historiadora Valéria Piccoli.
Análise
O pintor italiano Facchinetti vem para o Brasil em 1849 e dedica-se inicialmente à realização de retratos e à cenografia, para voltar depois à pintura de paisagens, gênero no qual se consagra como um dos mais importantes artistas de sua geração.
O artista realiza vastos panoramas da cidade do Rio de Janeiro e de seus arredores, contrapondo a visão dos casarios novos à da natureza exuberante do entorno. Executa ainda vistas de Petrópolis e Teresópolis, Rio de Janeiro, da zona rural do Vale do Paraíba e de algumas regiões de Minas Gerais.
Há em suas obras um senso de grandeza da paisagem, a apresentação ampla da topografia, em perspectiva aérea, que por vezes, contrasta com as pequenas figuras e construções. Na tela Panorama de São Tomé das Letras (ca.1876), por exemplo, o artista se retrata, a pintar, em uma minúscula cabana com teto de palha. Já nas diversas telas que têm como cenário a baía da Guanabara, preocupa-se em registrar detalhes da paisagem. Em geral, suas pinturas são quase despovoadas.
Facchinetti manifesta a preferência por captar a natureza em certas horas do dia, como no alvorecer ou no entardecer, explorando os efeitos da luminosidade. Segundo o crítico de arte Gonzaga Duque (1863 - 1911), antes de pintar, o artista viaja ao local para estudar as características da região e traceja o motivo em um papel, para posteriormente transpô-lo na tela.
Críticas
"Nicolau Facchinetti deve ter acompanhado a evolução da nossa paisagem principalmente pelas Exposições Gerais e pelo relacionamento com alguns profissionais. Na segunda metade do século XIX a paisagem tende a ser estudada e, mesmo feita fora do ateliê, segundo as novas idéias de amor à natureza e as concepções do naturalismo e, no último terço do mesmo, do impressionismo, nascido na França, preocupado com os problemas da luz e seus efeitos. Em face do ensino acadêmico, predominavam as escolas romântica e neoclássica idealista. Só lentamente o realismo e o impressionismo chegam à Academia na década de 1880, com o ensino de Grimm (...) Facchinetti deve ter acompanhado esta evolução de pintura de ateliê para a de ar livre, de caráter verista, que foi a empregada por um novo grupo de artistas encabeçado pelo pintor alemão Johann Georg Grimm (...)" — Donato Mello Júnior (MELLO JÚNIOR, Donato. Facchinetti. São Paulo: Art: Record, 1982).
"Mas parece mais importante chamar a atenção para a concepção, por assim dizer, 'cinemascópica' do espaço em Facchinetti, que busca claramente dilatar ao máximo as possibilidades de expressão da grandeza, do infinito espacial. Não é certo por acaso que um número impressionante de paisagens suas têm o formato de uma projeção em cinemascope, como se ao apelo à dilatação do espaço devesse corresponder uma ruptura e uma redemarcação dos limites físicos, convencionais, da representação (...) ambição insensata de Facchinetti de forçar a tessitura de sua visão, recusar toda seleção ótica das ordens de grandeza, apresentar ao espectador um mundo no qual esteja presente a tensão entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande" — Luiz Marques (O BRASIL pintado por mestres nacionais e estrangeiros: séculos XVII-XX. São Paulo: MASP, 1987).
"No gênero a que se dedicou, a miniatura, não tem, atualmente, quem possa confundi-lo e empanar-lhe o brilho do nome. Os seus quadros são pintados com um característico e paciente cuidado, colorido com esplendor fora do vulgar, desenhados com um escrúpulo extraordinário, quase fatigante.
Reconhece-se, ao mais ligeiro golpe de vista, um grande artifício empregado pelo pintor para vencer tudo quanto escapou à sua faculdade de coordenação; e o trabalho que, a pouco e pouco, vai-se-nos afigurando melhor, pela habilidade da sua técnica, pelo calor do seu colorido, é, na sua complexidade, mais uma obra de paciência, mais uma prova de infatigável cuidado, do que uma simples obra de arte.
(...) os quadros de Facchinetti merecem, longe de complacência ou de hipocrisia, sinceros elogios. No gênero em que são feitos, constituem obras perfeitamente acabadas. (...)
A cor é quente, quase sempre exata, bem observada; o desenho minucioso em todos os detalhes, as perspectivas felizmente desenvolvidas, em suma, as suas obras são concluídas com o máximo rigor.
Para vencer todas as dificuldades, para obter a forma e o tom exato das cousas mais insignificantes e mais afastadas do ponto de observação, lança mão de lentes de aumento, pois é inteiramente impossível que seu órgão visual abranja, desarmado, as extensões que em seus quadros nitidamente observamos. Daí certo prejuízo para a tonalidade do quadro, que, se escapasse ao artista perfeito conhecimento do claro-escuro, aparecer-nos-ia sem perspectiva aérea e planimetria. Mas Facchinetti é um verdadeiro artista, conhece todos os segredos do desenho e da cor, e, sem pecha para importância de suas pequeninas telas, substitui a espontaneidade pela fidelidade. Não sou simpático à miniatura aplicada à paisagem, e isso por causa não só da impressão como da personalidade do artista, mas sou obrigado a ver nos trabalhos de Nicolau Facchinetti um mérito relativo, porém firme e inquestionável" — Gonzaga-Duque (DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira. Introdução Tadeu Chiarelli. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p. 132-134).
Acervos
Museu Imperial - Petrópolis RJ
Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil - São Paulo SP
Museu Nacional de Belas Artes - MNBA - Rio de Janeiro RJ
Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG
Museu de Arte de São Paulo - MASP - São Paulo SP
Museu Castro Maya - Rio de Janeiro RJ
Instituto Ricardo Brennand - Recife PE
Coleção Brasiliana / Fundação Estudar - São Paulo SP
Exposições Individuais
1898 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Ladeira da Glória, 15
Exposições Coletivas
1849 - Rio de Janeiro RJ - 10ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1850 - Rio de Janeiro RJ - 11ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1864 - Rio de Janeiro RJ - 16ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - menção honrosa
1865 - Rio de Janeiro RJ - 17ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba - medalha de prata
1867 - Rio de Janeiro RJ - 19ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1870 - Rio de Janeiro RJ - 21ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1872 - Rio de Janeiro RJ - 22ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1875 - Rio de Janeiro RJ - 23ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1884 - Rio de Janeiro RJ - 26ª Exposição Geral de Belas Artes, na Aiba
1886 - Rio de Janeiro RJ - Nicolau Facchinetti e Henrique Bernardelli, na Imprensa Nacional
1890 - Rio de Janeiro RJ - Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1894 - Rio de Janeiro RJ - 1ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1895 - Rio de Janeiro RJ - 2ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
1900 - Rio de Janeiro RJ - 7ª Exposição Geral de Belas Artes, na Enba
Exposições Póstumas
1944 - Rio de Janeiro RJ - Paisagem Brasileira, no MNBA
1948 - Rio de Janeiro RJ - Retrospectiva da Pintura no Brasil, no MNBA
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão dos Estados
1956 - São Paulo SP - 50 Anos de Paisagem Brasileira, no MAM/SP
1959 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas, no MNBA
1961 - Rio de Janeiro RJ - O Rio na Pintura Brasileira, na Biblioteca Estadual da Guanabara
1965 - Rio de Janeiro RJ - Aspectos do Rio, no MNBA
1977 - Rio de Janeiro RJ - Aspecto da Paisagem Brasileira 1816-1916, no MNBA
1980 - São Paulo SP - A Paisagem Brasileira: 1650-1976, no Paço das Artes
1982 - São Paulo SP - Pintores Italianos no Brasil, no MAM/SP
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - O Brasil Pintado por Mestres Nacionais e Estrangeiros: séculos XVIII - XX, no Masp
1989 - Rio de Janeiro RJ - O Rio de Janeiro de Machado de Assis, no CCBB
1992 - Rio de Janeiro RJ - Natureza: quatro séculos de arte no Brasil, no CCBB
1993 - Rio de Janeiro RJ - Paisagens Brasileiras pelos Artistas Estrangeiros, na Galeria de Arte Sesc Tijuca
1994 - São Paulo SP - Um Olhar Crítico sobre o Acervo do Século XIX, na Pinacoteca do Estado
1994 - São Paulo SP - O Brasil dos Viajantes, no Museu de Arte de São Paulo
1995 - Lisboa (Portugal) - O Brasil dos Viajantes, no Centro Cultural de Belém
1996 - Londres - Brazil Through European Eyes, na Christie's
1998 - Rio de Janeiro RJ - Marinhas em Grandes Coleções Paulistas, no Museu Naval
1998 - São Paulo SP - Brasil Século XIX: uma exuberante natureza, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1999 - Rio de Janeiro RJ - O Brasil Redescoberto, no Paço Imperial
2000 - Porto Alegre RS - De Frans Post a Eliseu Visconti: acervo Museu Nacional de Belas Artes RJ, no Margs
2000 - Rio de Janeiro RJ - Visões do Rio na Coleção Geyer, no CCBB
2000 - Roma - Viajantes e Naturalistas Italianos: Imagens do Brasil nos Séculos XVIII e XIX, no Palazzo Santacrote
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento: Arte do Século XIX, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Brasil Sobre Papel: matizes e vivências, no Espaço de Artes Unicid
2000 - São Paulo SP - Coleção Brasiliana, na Pinacoteca do Estado
2001 - São Paulo SP - 30 Mestres da Pintura no Brasil, no Masp
2001 - São Paulo SP - Trajetória da Luz na Arte Brasileira, no Itaú Cultural
2002 - São Paulo SP - Imagem e Identidade: um olhar sobre a história na coleção do Museu de Belas Artes, no Instituto Cultural Banco Santos
2004 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no CCBB
2005 - Fortaleza CE - Arte Brasileira: nas coleções públicas e privadas do Ceará, no Espaço Cultural Unifor
2005 - Rio de Janeiro RJ - Obras-primas da Arte Brasileira, no Centro de Exposições do Rio Design Barra
2009 - São Paulo SP - Paisagem e Panoramas, na Pinacoteca do Estado
2010 - São Paulo SP - 6ª sp-arte, na Fundação Bienal
Fonte: NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Acesso em: 13 de dezembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Para certos artistas e suas obras, a admiração cresce proporcional ao nosso envolvimento com o que produziram e pelos fatos que relatam como foram suas vidas. Não me era muito familiar, até pouco tempo atrás, a referência de Facchinetti na história da pintura brasileira. Já havia visto alguns poucos trabalhos dele, mas, a curiosidade me foi despertada pela insistência do Paulo de Carvalho, artista carioca que tem o Facchinetti como cartilha de cabeceira.
Comecei então a procurar e pesquisar algo mais sobre esse artista italiano, nascido na cidade de Treviso, a 7 de setembro de 1824. A sua história se mostrou tão rica quanto as suas obras, das quais consegui algumas imagens para compartilhar.
Facchinetti não veio para o Brasil pelo melhor dos motivos. Desavenças com políticos de sua terra natal aceleraram a sua vinda. Pouco se sabe, ou quase nada, de sua formação artística. Certeza mesmo, é que essa não era a sua maior vocação. Como precisava se manter de alguma forma, na nova terra que seria sua nova casa, tornou-se assim que chegou, instrutor de italiano e desenho. A carreira, por vias das circunstâncias, acabou evoluindo para cenógrafo e finalmente retratista. Mesmo que ele fosse preparado tecnicamente para enfrentar as dificuldades do retrato, a concorrência com outros artistas bem mais conceituados, no cenário carioca daquela época, não lhe deixava em boas condições, pois para tal atividade não era mais que um dedicado amador.
Sem muitas alternativas, a paisagem entrou no tema de suas composições quase que intuitivamente. Natural da região do Vêneto, na Itália, é até fácil de entender porque o realismo que tanto perseguia em suas obras, logo se tornou a marca registrada de seu trabalho. Mesmo sendo, na segunda metade do século XIX, a paisagem considerada um gênero inferior de representação artística, Facchinetti não se abateu diante de sua escolha. O lirismo realista de toda atmosfera brasileira que exalava de seus trabalhos, feitos aliás com muita habilidade e até um certo preciosismo, foi naquele momento, o cartão de visitas para ser assediado, em pouco tempo, pela alta sociedade fluminense. Não tardou e o reconhecimento veio logo pela família imperial, que o congratulou mais posteriormente, com o título de pintor oficial da família imperial.
O domínio técnico a que chegara, dava a seus trabalhos um diferencial que não era visto em nenhum outro pintor de sua época. Pela força das circunstâncias, Facchinetti inaugura assim, um estilo que por muito tempo, parecia só seu. É nas ocasiões de extrema necessidade, que a originalidade se manifesta como a maior das virtudes.
Certas habilidades nascem quase sempre de rigorosos métodos, Facchinetti cultivou os seus por toda a sua vida. Um minucioso processo de concepção de todas as suas obras, demandava um bom tempo para a execução das mesmas. Na procura pelo melhor ângulo da cena a ser representada, ele superava os maiores desafios. Em momento algum, hesitava em correr riscos pelos ângulos obtidos de pontos perigosos, pois estava sempre à procura da visão perfeita, aquela que viesse a se transformar na sua cena ideal. Ali esboçava à lápis, o que seria posteriormente ampliado em carvão e fixado à tela. Não abria mão desses recursos feitos “ao natural”. Essa prática, de buscar a inspiração para as suas obras, diretamente da natureza, se tornaria mais tarde, atividade também praticada por artistas guiados por Georg Grimm, entre eles, os renomados Castagnetto, Antônio Parreiras, Domingo Garcia y Vasquez, Hipólito Caron e muitos outros paisagistas do final daquele século. Porém, a diferença fundamental entre Facchinetti e Grimm e sua turma, é que o primeiro não pintava ao ar livre, apenas utilizava seus fartos esboços para compor a cena em ateliê. Já Grimm, incentivou todos os seus a captarem a cor in locco, numa atitude bem parecida com a Escola de Barbizon.
Gonzaga Duque, contemporâneo de Facchinetti, deixa o importante relato:
“Antes de pintar, ele ia ao local, estudava o ponto, esquadrinhando todos os detalhes. Depois tracejava o motivo em separado, numa página de álbum, numa folha de papel, que lentamente completava.
Preparado com esse exato desenho, decalcava-o na tela, a carvão, cobria-o com grafite e terminava fixando-o com tinta comum, por meio de aguda pena de aço.
Uma ocasião, estranhando-lhe eu todo esse lento, meticuloso processo, que anulava a emoção, respondeu-me que o seu interesse era a verdade, quanto mais exata, mais acabada fosse a cópia, tanto maior seria o mérito do seu trabalho...”
O efeito quase fotográfico de seu trabalho, restringiu um pouco a dimensão de suas obras. Quase todas em pequenos formatos, conservam todas elas o minucioso cuidado com todas as proporções, formas e cores, chegando a exagerar um pouco a tonalidade, em algumas obras. Os trabalhos eram quase sempre encomendas dos Barões do Café, membros da alta sociedade do Rio de Janeiro, e todos muito ligados à corte imperial. O destino de grande parte de sua obra era a ornamentação de salas e gabinetes, ou como sofisticados souveniers, oferecidos como presentes entre os grandes nobres.
Facchinetti teve o privilégio de viver no Brasil numa época prolífica. Grande parte das revoltas armadas contra o governo, em diversos pontos do território nacional, já havia sido sanada. Esse fato, que dava ao governo uma consolidação de poder, gerou para os próximos anos, um período de abonança de recursos, o que favoreceu o crescimento do mercado interno da arte. Com todas as benfeitorias centralizadas na então sede da corte, é bem natural que o Rio de Janeiro fosse o centro do país por onde a arte se solidificava e produziu vários artistas. É nesse ambiente, imensamente acolhedor do produto de seus artistas, que Facchinetti atendia uma clientela abonada e sedenta por obras. Produziu quase todas as suas obras por encomenda, fato comprovado no verso de todos os trabalhos solicitados. Muito raramente se dava ao luxo de produzir um trabalho sem destino prévio.
“Segundo Gonzaga Duque, Facchinetti superou barreiras e a ausência de recursos técnicos para conceber suas obras. Facchinetti escapa à perícia da fatura, era teimoso, persistente, rebuscado. Pela ausência de recursos técnicos, que só a tenacidade do querer, a constância do desejo, o amor à profissão, poderiam recompensar. E tais méritos lhe sobravam. Um organismo menos dotado de vigor teria sucumbido pelo esfacelamento. Não obstante, ele triunfou desse penoso trabalho, coadjuvando por seu bom senso, ainda provado com a escolha dos motivos, que eram paisagens panorâmicas. O panorama em quadro, ou mais em vulgata, para melhor compreensão, a vista, como ele fazia, será materialmente trabalhosa, mas oferece vantagens: sobre o acordo com a maneira comum de sentir, tem a dos planos bem detalhados e da perspectiva aérea. A paisagem representava para Facchinetti não só motivo para inspiração, mas também servia para seu deleite pessoal, ao entrar em contato com a natureza o pintor não só reproduzia suas sensações, como era tomado por elas diante da magnitude da paisagem. Facchinetti em suas telas representava o amor e o idealismo pelas cores do Brasil.”
(Trecho extraído do site www.Dezenovevinte.net)
Assim como muitos outros artistas de terras distantes, que fizeram daqui sua morada, Facchinetti não só contribui para o importante registro iconográfico de uma época, mas também faz, como todos aqueles artistas, um declarado amor à sua nova casa. Muito do que sabemos de um período já distante de nossa época, deve diretamente a todos aqueles que não mediram esforços para que as notícias de seu momento, chegassem o mais longe possível, no tempo e no espaço.
Fonte: Arte em Foco - José Rosário, publicado em 15 de junho de 2011 por José Rosário.
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Crédito fotográfico: Wikipédia. Consultado pela última vez em 13 de dezembro de 2022.