Nilton Bravo (Rio de Janeiro, RJ, 03 de março de 1937 - Idem, 27 de setembro de 2005) foi um pintor brasileiro, conhecido como o "Michelangelo dos botequins", pelos trabalhos expostos em célebres bares e botequins do Rio de Janeiro.
Nilton Bravo, o Michelangelo dos botequins
Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai as técnicas de pintura.
Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.
Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.
Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.
Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):
"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.
Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.
Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.
Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.
Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."
Crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67
Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.
Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.
Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.
Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.
Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.
São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.
Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.
Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:
“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.
Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.
O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.
Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.
Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”
O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”
Painel de Nilton Bravo do Bar Brasília, também conhecido como Bar da Margarida (Cachambi)
Nilton bravo na literatura
A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:
A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.
Fonte: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com/2017/07/nilton-bravo-1937-2005-o-michelangelo.html,
atualizado em 15 de julho de 2017, última consulta em 25 de março de 2020.
Pelos bares do Rio de Janeiro, vemos a arte de Nilton Bravo.
Nos anos 50 e 60, foi o artista plástico mais presente no dia-a-dia do carioca.
Em cada botequim da esquina, tinha a arte de seus painéis coloridos, retratando imagens da cidade.
Nilton foi chamado pelo escritor Carlos Heitor Cony, de o Michelangelo dos botequins.
Seus murais nos bares são como o ovo cor-de-rosa ou a serragem próxima do balcão. Ítens da maior carioquice.
Na família Bravo, o talento veio de longe. Em 1885, Manoel Pinto Bravo, avô de Nilton, já se dedicava à pintura de painéis em restaurantes cariocas. A herança foi repassada para Lino Pinto Bravo, pai de Nilton, que foi o grande responsável pelo início de sua carreira.
Aos 13 anos, Nilton já ajudava o pai na pintura de murais e painéis em residências, igrejas e bares. Aliás, pai e filho, conta-se " trabalhavam ao mesmo tempo em uma curiosa parceria: o pai (que era canhoto) começava a pintura de um lado, o filho (destro) do outro e, geralmente, terminavam a obra juntos."
Depois disso, Nilton passou grande parte de sua vida pintando as paredes de bares do Rio de Janeiro. É um dos pintores mais vistos do país e suas obras estão espalhadas pelo mundo todo. Um curta-metragem sobre sua trajetória artística, produzido por Luiz Alphonsus, é exibido com freqüência no Museum of Modern Art, o MOMA, de Nova York.
Conhecido como a embaixada carioca em São Paulo, o bar Pirajá homenageia o Rio de Janeiro, exibindo com orgulho em uma de suas paredes, um mural assinado pelo mestre Nilton Bravo.
Nilton Bravo também participou na elaboração dos painéis no carnaval da escola de samba União da Ilha, de 1991, que desfilou com o excelente enredo De Bar em Bar, Didi, Um Poeta.
Alguns de seus painéis, como o da Praça da Harmonia, na Gamboa, foram tombados pela prefeitura, mas infelizmente muita coisa foi perdida do singular trabalho deste artista, por falta de preservação dos proprietários de botequins.
Fonte: https://rioquemoranomar.blogspot.com/2009/09/nilton-bravo.html,
atualizado em 30 de setembro de 2009.
---
Prefeitura tomba pinturas de Lino e Nilton Bravo que ficam em botecos tradicionais do Rio
Decreto, assinado pelo prefeito Marcelo Crivella, lista oito obras espalhadas pela cidade que precisam ser tombadas
A prefeitura do Rio tombou provisoriamente oito pinturas a óleo dos artistas Lino Bravo e Nilton Bravo que estão penduradas nas paredes de tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade. O município levou em consideração a importância histórica, artística e cultural das obras dos artistas, que, de acordo com o decreto publicado nesta sexta-feira, no Diário Oficial, também considerou a peculiaridade das pinturas, elaboradas em sua maioria para estabelecimentos comerciais tradicionais da cultura carioca — bares e botecos da cidade.
O tombamento também leva em consideração a necessidade de preservação destes exemplares do acervo existente no Rio "frente ao iminente risco de deterioração dos mesmos". Entre as obras tombadas, está uma pintura a óleo instalada no “Bar Jobi”, que fica na Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon. O dono do estabelecimento Narciso Rocha, que morreu no mês passado, falou ao GLOBO em 2016 sobre as pinturas. Na ocasião, ele resumiu a importância histórica do painel:
— "Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim" — disse, na ocasião, o português Narciso Rocha, dono do Bar Jobi, explicando como costumam ser os painéis dos artistas: — "Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando..."
Os painéis já dominaram os botequins na cidade, mas, em 2016, restavam apenas 17 exemplares. As pinturas, sempre com ar bucólico, já foram símbolo de status para os estabelecimentos comerciais no passado.
Confira a lista dos painés tombados.
1- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Rio - Brasília”, situado na Rua Cachambi 365, Cachambi.
2- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Flor de Coimbra”, situado na Rua Teotônio Regadas 34, Lapa.
3- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Jobi”, situado na Av. Ataulfo de Paiva 1166 lj B, Leblon.
4- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Ponto da Galera”, situado na Rua Tadeu Kosciusko 58, Bairro de Fátima.
5- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Costa do Minho”, situado na Rua Visconde de Santa Isabel 261, Grajaú.
6- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Gurilandia”, situado na Rua Conde de Bonfim 670, Tijuca.
7- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Lanchonete Rosa do Bairro”, situado na Rua General Argolo 230, Vasco da Gama.
8- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Açougue e Distribuidor de Carnes Frigobar”, situado na Rua Riachuelo 207, Lapa
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-tomba-pinturas-de-lino-nilton-bravo-que-ficam-em-botecos-tradicionais-do-rio-23222974, atualizado em 09 d e novembro de 2018.
---
Painéis de Nilton Bravo que já dominaram os botequins da cidade são apenas 17
Numa época em que os botequins dominavam o Rio e o chope custava 2.750 cruzeiros, ter um Nilton Bravo no bar era sinônimo de status. Dez entre dez botecos - a maioria comandada por imigrantes portugueses - ostentavam um painel do artista carioca, que morreu em 2005.
- Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim - lembra o português Narciso Rocha, dono do Jobi, no Leblon.
Numa reforma seguinte, ele acabou encobrindo com tinta o painel, mas, em 1992, comprou uma tela do artista e colocou na parede do bar.
- Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando... - destaca.
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
As pinturas de Nilton Bravo eram assim, sempre bucólicas. Há quem diga que ele se inspirava em antigas folhinhas com reproduções de cenários europeus.
- As paisagens lembram as de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal, e as das províncias do Alentejo, no Sul - diz o português Ernesto Valongo, dono do Café e Bar Brasília, no Cachambi, que também tem um Nilton Bravo para chamar de seu. - Não imagino o meu bar sem ele.
O dono do Sírio e Libanês, no Centro, com pesar, teve que aprender a viver sem. Nascido no Líbano e radicado no Rio há 61 anos, Jawad Ghazi encomendou um painel a Nilton Bravo em 1966. Mas, na última reforma do estabelecimento, há um ano e meio, a obra foi coberta de tinta.
- A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano - lamenta Jawad.
Como o painel do Sírio e Libanês, várias outras obras de Nilton Bravo sucumbiram à ação do tempo ou ao fechamento das casas que as ostentavam. Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), hoje, há só 17 estabelecimentos com murais ou telas do artista. Dois trabalhos são tombados pelo município (no Café e Bar Sulista, na Gamboa, e no Bar Balcão, no Caju).
- Temos planos de tombar os demais até o fim deste ano - afirma Washington Fajardo, presidente do IRPH.
O número, no entanto, era infinitamente maior.
- Só o bar Arco Teles (que fechou nos anos 1990), no Centro, por exemplo, tinha nove painéis de Nilton Bravo - conta o jornalista Paulo Thiago de Mello, coautor do livro "Memória afetiva do botequim carioca".
Nascido no Rio, em 1935, Nilton Bravo começou sua relação com tintas e pincéis ainda menino. O pai, Lino Bravo, também era pintor de painéis e o avô, pintor decorativo (fazia sancas e pátinas). Quem conta é o artista plástico e fotógrafo Luiz Alphonsus, diretor do curta "Nilton Bravo, o pintor de inúmeros bares do Rio de Janeiro".
- Nilton começou a acompanhar o pai e, quando ele adoeceu, assumiu muito jovem seu lugar. Pintava muito e muito rápido. O jornalista David Nasser chegou a dizer que, juntas, as pinturas de Nilton Bravo dariam para cobrir a Avenida Presidente Vargas. Todos os bares do Rio tinham uma.
Não foi à toa, portanto, que o escritor Carlos Heitor Cony o batizou de "Michelangelo dos botequins":
- A primeira matéria que fiz, para a extinta revista "Manchete", foi sobre Nilton Bravo. Ele tinha uma habilidade fabulosa e era um autodidata. Pena que não teve um mecenas que o bancasse. Se não, teria sido um dos grandes pintores do século.
Os painéis de Nilton Bravo também adornaram um carro alegórico do desfile "De bar em bar, Didi um poeta", da União da Ilha, em 1991. E até hoje um deles está na Adega Flor de Coimbra, na Lapa.
- A gente colocou uma moldura, para ajudar a preservar. Isso tudo é cultura - destaca Eliete Sousa, mulher de José Batista Sobrinho, que herdou a casa do tio, José Lourenço.
O artista morou a vida inteira no Lins com a mulher, a professora Marli Bravo, e a filha, a advogada Simone Bravo. Quando a demanda começou a ficar escassa, nos anos 1970, virou construtor de casas no bairro.
- Em cada casa que ele construía para vender, pintava um mural. Depois que meu filme foi lançado, em 1980, ele se empolgou novamente com a arte e voltou a se dedicar exclusivamente à pintura. Mas passou a fazer pintura acadêmica, telas de natureza-morta, que vendia até no calçadão de Copacabana. Vendia tudo - conta Luiz Alphonsus.
Para Solange Bravo, "é um orgulho muito grande" que a memória do pai "de repente tenha dado uma renascida":
- Ele realmente tinha a cara do Rio, essa coisa bem alegre e ligada à natureza.
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/rio-gastronomia/2016/paineis-de-nilton-bravo-que-ja-dominaram-os-botequins-da-cidade-sao-apenas-17-20388834,
por Natalia Boere, atualizado e, 31 de outubro de 2016.
Nilton Bravo (Rio de Janeiro, RJ, 03 de março de 1937 - Idem, 27 de setembro de 2005) foi um pintor brasileiro, conhecido como o "Michelangelo dos botequins", pelos trabalhos expostos em célebres bares e botequins do Rio de Janeiro.
Nilton Bravo, o Michelangelo dos botequins
Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai as técnicas de pintura.
Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.
Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.
Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.
Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):
"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.
Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.
Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.
Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.
Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."
Crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67
Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.
Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.
Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.
Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.
Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.
São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.
Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.
Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:
“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.
Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.
O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.
Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.
Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”
O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”
Painel de Nilton Bravo do Bar Brasília, também conhecido como Bar da Margarida (Cachambi)
Nilton bravo na literatura
A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:
A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.
Fonte: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com/2017/07/nilton-bravo-1937-2005-o-michelangelo.html,
atualizado em 15 de julho de 2017, última consulta em 25 de março de 2020.
Pelos bares do Rio de Janeiro, vemos a arte de Nilton Bravo.
Nos anos 50 e 60, foi o artista plástico mais presente no dia-a-dia do carioca.
Em cada botequim da esquina, tinha a arte de seus painéis coloridos, retratando imagens da cidade.
Nilton foi chamado pelo escritor Carlos Heitor Cony, de o Michelangelo dos botequins.
Seus murais nos bares são como o ovo cor-de-rosa ou a serragem próxima do balcão. Ítens da maior carioquice.
Na família Bravo, o talento veio de longe. Em 1885, Manoel Pinto Bravo, avô de Nilton, já se dedicava à pintura de painéis em restaurantes cariocas. A herança foi repassada para Lino Pinto Bravo, pai de Nilton, que foi o grande responsável pelo início de sua carreira.
Aos 13 anos, Nilton já ajudava o pai na pintura de murais e painéis em residências, igrejas e bares. Aliás, pai e filho, conta-se " trabalhavam ao mesmo tempo em uma curiosa parceria: o pai (que era canhoto) começava a pintura de um lado, o filho (destro) do outro e, geralmente, terminavam a obra juntos."
Depois disso, Nilton passou grande parte de sua vida pintando as paredes de bares do Rio de Janeiro. É um dos pintores mais vistos do país e suas obras estão espalhadas pelo mundo todo. Um curta-metragem sobre sua trajetória artística, produzido por Luiz Alphonsus, é exibido com freqüência no Museum of Modern Art, o MOMA, de Nova York.
Conhecido como a embaixada carioca em São Paulo, o bar Pirajá homenageia o Rio de Janeiro, exibindo com orgulho em uma de suas paredes, um mural assinado pelo mestre Nilton Bravo.
Nilton Bravo também participou na elaboração dos painéis no carnaval da escola de samba União da Ilha, de 1991, que desfilou com o excelente enredo De Bar em Bar, Didi, Um Poeta.
Alguns de seus painéis, como o da Praça da Harmonia, na Gamboa, foram tombados pela prefeitura, mas infelizmente muita coisa foi perdida do singular trabalho deste artista, por falta de preservação dos proprietários de botequins.
Fonte: https://rioquemoranomar.blogspot.com/2009/09/nilton-bravo.html,
atualizado em 30 de setembro de 2009.
---
Prefeitura tomba pinturas de Lino e Nilton Bravo que ficam em botecos tradicionais do Rio
Decreto, assinado pelo prefeito Marcelo Crivella, lista oito obras espalhadas pela cidade que precisam ser tombadas
A prefeitura do Rio tombou provisoriamente oito pinturas a óleo dos artistas Lino Bravo e Nilton Bravo que estão penduradas nas paredes de tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade. O município levou em consideração a importância histórica, artística e cultural das obras dos artistas, que, de acordo com o decreto publicado nesta sexta-feira, no Diário Oficial, também considerou a peculiaridade das pinturas, elaboradas em sua maioria para estabelecimentos comerciais tradicionais da cultura carioca — bares e botecos da cidade.
O tombamento também leva em consideração a necessidade de preservação destes exemplares do acervo existente no Rio "frente ao iminente risco de deterioração dos mesmos". Entre as obras tombadas, está uma pintura a óleo instalada no “Bar Jobi”, que fica na Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon. O dono do estabelecimento Narciso Rocha, que morreu no mês passado, falou ao GLOBO em 2016 sobre as pinturas. Na ocasião, ele resumiu a importância histórica do painel:
— "Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim" — disse, na ocasião, o português Narciso Rocha, dono do Bar Jobi, explicando como costumam ser os painéis dos artistas: — "Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando..."
Os painéis já dominaram os botequins na cidade, mas, em 2016, restavam apenas 17 exemplares. As pinturas, sempre com ar bucólico, já foram símbolo de status para os estabelecimentos comerciais no passado.
Confira a lista dos painés tombados.
1- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Rio - Brasília”, situado na Rua Cachambi 365, Cachambi.
2- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Flor de Coimbra”, situado na Rua Teotônio Regadas 34, Lapa.
3- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Jobi”, situado na Av. Ataulfo de Paiva 1166 lj B, Leblon.
4- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Ponto da Galera”, situado na Rua Tadeu Kosciusko 58, Bairro de Fátima.
5- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Costa do Minho”, situado na Rua Visconde de Santa Isabel 261, Grajaú.
6- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Gurilandia”, situado na Rua Conde de Bonfim 670, Tijuca.
7- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Lanchonete Rosa do Bairro”, situado na Rua General Argolo 230, Vasco da Gama.
8- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Açougue e Distribuidor de Carnes Frigobar”, situado na Rua Riachuelo 207, Lapa
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-tomba-pinturas-de-lino-nilton-bravo-que-ficam-em-botecos-tradicionais-do-rio-23222974, atualizado em 09 d e novembro de 2018.
---
Painéis de Nilton Bravo que já dominaram os botequins da cidade são apenas 17
Numa época em que os botequins dominavam o Rio e o chope custava 2.750 cruzeiros, ter um Nilton Bravo no bar era sinônimo de status. Dez entre dez botecos - a maioria comandada por imigrantes portugueses - ostentavam um painel do artista carioca, que morreu em 2005.
- Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim - lembra o português Narciso Rocha, dono do Jobi, no Leblon.
Numa reforma seguinte, ele acabou encobrindo com tinta o painel, mas, em 1992, comprou uma tela do artista e colocou na parede do bar.
- Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando... - destaca.
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
As pinturas de Nilton Bravo eram assim, sempre bucólicas. Há quem diga que ele se inspirava em antigas folhinhas com reproduções de cenários europeus.
- As paisagens lembram as de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal, e as das províncias do Alentejo, no Sul - diz o português Ernesto Valongo, dono do Café e Bar Brasília, no Cachambi, que também tem um Nilton Bravo para chamar de seu. - Não imagino o meu bar sem ele.
O dono do Sírio e Libanês, no Centro, com pesar, teve que aprender a viver sem. Nascido no Líbano e radicado no Rio há 61 anos, Jawad Ghazi encomendou um painel a Nilton Bravo em 1966. Mas, na última reforma do estabelecimento, há um ano e meio, a obra foi coberta de tinta.
- A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano - lamenta Jawad.
Como o painel do Sírio e Libanês, várias outras obras de Nilton Bravo sucumbiram à ação do tempo ou ao fechamento das casas que as ostentavam. Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), hoje, há só 17 estabelecimentos com murais ou telas do artista. Dois trabalhos são tombados pelo município (no Café e Bar Sulista, na Gamboa, e no Bar Balcão, no Caju).
- Temos planos de tombar os demais até o fim deste ano - afirma Washington Fajardo, presidente do IRPH.
O número, no entanto, era infinitamente maior.
- Só o bar Arco Teles (que fechou nos anos 1990), no Centro, por exemplo, tinha nove painéis de Nilton Bravo - conta o jornalista Paulo Thiago de Mello, coautor do livro "Memória afetiva do botequim carioca".
Nascido no Rio, em 1935, Nilton Bravo começou sua relação com tintas e pincéis ainda menino. O pai, Lino Bravo, também era pintor de painéis e o avô, pintor decorativo (fazia sancas e pátinas). Quem conta é o artista plástico e fotógrafo Luiz Alphonsus, diretor do curta "Nilton Bravo, o pintor de inúmeros bares do Rio de Janeiro".
- Nilton começou a acompanhar o pai e, quando ele adoeceu, assumiu muito jovem seu lugar. Pintava muito e muito rápido. O jornalista David Nasser chegou a dizer que, juntas, as pinturas de Nilton Bravo dariam para cobrir a Avenida Presidente Vargas. Todos os bares do Rio tinham uma.
Não foi à toa, portanto, que o escritor Carlos Heitor Cony o batizou de "Michelangelo dos botequins":
- A primeira matéria que fiz, para a extinta revista "Manchete", foi sobre Nilton Bravo. Ele tinha uma habilidade fabulosa e era um autodidata. Pena que não teve um mecenas que o bancasse. Se não, teria sido um dos grandes pintores do século.
Os painéis de Nilton Bravo também adornaram um carro alegórico do desfile "De bar em bar, Didi um poeta", da União da Ilha, em 1991. E até hoje um deles está na Adega Flor de Coimbra, na Lapa.
- A gente colocou uma moldura, para ajudar a preservar. Isso tudo é cultura - destaca Eliete Sousa, mulher de José Batista Sobrinho, que herdou a casa do tio, José Lourenço.
O artista morou a vida inteira no Lins com a mulher, a professora Marli Bravo, e a filha, a advogada Simone Bravo. Quando a demanda começou a ficar escassa, nos anos 1970, virou construtor de casas no bairro.
- Em cada casa que ele construía para vender, pintava um mural. Depois que meu filme foi lançado, em 1980, ele se empolgou novamente com a arte e voltou a se dedicar exclusivamente à pintura. Mas passou a fazer pintura acadêmica, telas de natureza-morta, que vendia até no calçadão de Copacabana. Vendia tudo - conta Luiz Alphonsus.
Para Solange Bravo, "é um orgulho muito grande" que a memória do pai "de repente tenha dado uma renascida":
- Ele realmente tinha a cara do Rio, essa coisa bem alegre e ligada à natureza.
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/rio-gastronomia/2016/paineis-de-nilton-bravo-que-ja-dominaram-os-botequins-da-cidade-sao-apenas-17-20388834,
por Natalia Boere, atualizado e, 31 de outubro de 2016.
1 artista relacionado
Nilton Bravo (Rio de Janeiro, RJ, 03 de março de 1937 - Idem, 27 de setembro de 2005) foi um pintor brasileiro, conhecido como o "Michelangelo dos botequins", pelos trabalhos expostos em célebres bares e botequins do Rio de Janeiro.
Nilton Bravo, o Michelangelo dos botequins
Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai as técnicas de pintura.
Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.
Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.
Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.
Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):
"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.
Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.
Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.
Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.
Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."
Crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67
Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.
Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.
Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.
Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.
Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.
São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.
Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.
Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:
“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.
Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.
O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.
Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.
Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”
O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”
Painel de Nilton Bravo do Bar Brasília, também conhecido como Bar da Margarida (Cachambi)
Nilton bravo na literatura
A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:
A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.
Fonte: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com/2017/07/nilton-bravo-1937-2005-o-michelangelo.html,
atualizado em 15 de julho de 2017, última consulta em 25 de março de 2020.
Pelos bares do Rio de Janeiro, vemos a arte de Nilton Bravo.
Nos anos 50 e 60, foi o artista plástico mais presente no dia-a-dia do carioca.
Em cada botequim da esquina, tinha a arte de seus painéis coloridos, retratando imagens da cidade.
Nilton foi chamado pelo escritor Carlos Heitor Cony, de o Michelangelo dos botequins.
Seus murais nos bares são como o ovo cor-de-rosa ou a serragem próxima do balcão. Ítens da maior carioquice.
Na família Bravo, o talento veio de longe. Em 1885, Manoel Pinto Bravo, avô de Nilton, já se dedicava à pintura de painéis em restaurantes cariocas. A herança foi repassada para Lino Pinto Bravo, pai de Nilton, que foi o grande responsável pelo início de sua carreira.
Aos 13 anos, Nilton já ajudava o pai na pintura de murais e painéis em residências, igrejas e bares. Aliás, pai e filho, conta-se " trabalhavam ao mesmo tempo em uma curiosa parceria: o pai (que era canhoto) começava a pintura de um lado, o filho (destro) do outro e, geralmente, terminavam a obra juntos."
Depois disso, Nilton passou grande parte de sua vida pintando as paredes de bares do Rio de Janeiro. É um dos pintores mais vistos do país e suas obras estão espalhadas pelo mundo todo. Um curta-metragem sobre sua trajetória artística, produzido por Luiz Alphonsus, é exibido com freqüência no Museum of Modern Art, o MOMA, de Nova York.
Conhecido como a embaixada carioca em São Paulo, o bar Pirajá homenageia o Rio de Janeiro, exibindo com orgulho em uma de suas paredes, um mural assinado pelo mestre Nilton Bravo.
Nilton Bravo também participou na elaboração dos painéis no carnaval da escola de samba União da Ilha, de 1991, que desfilou com o excelente enredo De Bar em Bar, Didi, Um Poeta.
Alguns de seus painéis, como o da Praça da Harmonia, na Gamboa, foram tombados pela prefeitura, mas infelizmente muita coisa foi perdida do singular trabalho deste artista, por falta de preservação dos proprietários de botequins.
Fonte: https://rioquemoranomar.blogspot.com/2009/09/nilton-bravo.html,
atualizado em 30 de setembro de 2009.
---
Prefeitura tomba pinturas de Lino e Nilton Bravo que ficam em botecos tradicionais do Rio
Decreto, assinado pelo prefeito Marcelo Crivella, lista oito obras espalhadas pela cidade que precisam ser tombadas
A prefeitura do Rio tombou provisoriamente oito pinturas a óleo dos artistas Lino Bravo e Nilton Bravo que estão penduradas nas paredes de tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade. O município levou em consideração a importância histórica, artística e cultural das obras dos artistas, que, de acordo com o decreto publicado nesta sexta-feira, no Diário Oficial, também considerou a peculiaridade das pinturas, elaboradas em sua maioria para estabelecimentos comerciais tradicionais da cultura carioca — bares e botecos da cidade.
O tombamento também leva em consideração a necessidade de preservação destes exemplares do acervo existente no Rio "frente ao iminente risco de deterioração dos mesmos". Entre as obras tombadas, está uma pintura a óleo instalada no “Bar Jobi”, que fica na Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon. O dono do estabelecimento Narciso Rocha, que morreu no mês passado, falou ao GLOBO em 2016 sobre as pinturas. Na ocasião, ele resumiu a importância histórica do painel:
— "Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim" — disse, na ocasião, o português Narciso Rocha, dono do Bar Jobi, explicando como costumam ser os painéis dos artistas: — "Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando..."
Os painéis já dominaram os botequins na cidade, mas, em 2016, restavam apenas 17 exemplares. As pinturas, sempre com ar bucólico, já foram símbolo de status para os estabelecimentos comerciais no passado.
Confira a lista dos painés tombados.
1- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Rio - Brasília”, situado na Rua Cachambi 365, Cachambi.
2- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Flor de Coimbra”, situado na Rua Teotônio Regadas 34, Lapa.
3- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Jobi”, situado na Av. Ataulfo de Paiva 1166 lj B, Leblon.
4- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Ponto da Galera”, situado na Rua Tadeu Kosciusko 58, Bairro de Fátima.
5- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Costa do Minho”, situado na Rua Visconde de Santa Isabel 261, Grajaú.
6- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Gurilandia”, situado na Rua Conde de Bonfim 670, Tijuca.
7- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Lanchonete Rosa do Bairro”, situado na Rua General Argolo 230, Vasco da Gama.
8- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Açougue e Distribuidor de Carnes Frigobar”, situado na Rua Riachuelo 207, Lapa
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-tomba-pinturas-de-lino-nilton-bravo-que-ficam-em-botecos-tradicionais-do-rio-23222974, atualizado em 09 d e novembro de 2018.
---
Painéis de Nilton Bravo que já dominaram os botequins da cidade são apenas 17
Numa época em que os botequins dominavam o Rio e o chope custava 2.750 cruzeiros, ter um Nilton Bravo no bar era sinônimo de status. Dez entre dez botecos - a maioria comandada por imigrantes portugueses - ostentavam um painel do artista carioca, que morreu em 2005.
- Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim - lembra o português Narciso Rocha, dono do Jobi, no Leblon.
Numa reforma seguinte, ele acabou encobrindo com tinta o painel, mas, em 1992, comprou uma tela do artista e colocou na parede do bar.
- Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando... - destaca.
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
As pinturas de Nilton Bravo eram assim, sempre bucólicas. Há quem diga que ele se inspirava em antigas folhinhas com reproduções de cenários europeus.
- As paisagens lembram as de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal, e as das províncias do Alentejo, no Sul - diz o português Ernesto Valongo, dono do Café e Bar Brasília, no Cachambi, que também tem um Nilton Bravo para chamar de seu. - Não imagino o meu bar sem ele.
O dono do Sírio e Libanês, no Centro, com pesar, teve que aprender a viver sem. Nascido no Líbano e radicado no Rio há 61 anos, Jawad Ghazi encomendou um painel a Nilton Bravo em 1966. Mas, na última reforma do estabelecimento, há um ano e meio, a obra foi coberta de tinta.
- A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano - lamenta Jawad.
Como o painel do Sírio e Libanês, várias outras obras de Nilton Bravo sucumbiram à ação do tempo ou ao fechamento das casas que as ostentavam. Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), hoje, há só 17 estabelecimentos com murais ou telas do artista. Dois trabalhos são tombados pelo município (no Café e Bar Sulista, na Gamboa, e no Bar Balcão, no Caju).
- Temos planos de tombar os demais até o fim deste ano - afirma Washington Fajardo, presidente do IRPH.
O número, no entanto, era infinitamente maior.
- Só o bar Arco Teles (que fechou nos anos 1990), no Centro, por exemplo, tinha nove painéis de Nilton Bravo - conta o jornalista Paulo Thiago de Mello, coautor do livro "Memória afetiva do botequim carioca".
Nascido no Rio, em 1935, Nilton Bravo começou sua relação com tintas e pincéis ainda menino. O pai, Lino Bravo, também era pintor de painéis e o avô, pintor decorativo (fazia sancas e pátinas). Quem conta é o artista plástico e fotógrafo Luiz Alphonsus, diretor do curta "Nilton Bravo, o pintor de inúmeros bares do Rio de Janeiro".
- Nilton começou a acompanhar o pai e, quando ele adoeceu, assumiu muito jovem seu lugar. Pintava muito e muito rápido. O jornalista David Nasser chegou a dizer que, juntas, as pinturas de Nilton Bravo dariam para cobrir a Avenida Presidente Vargas. Todos os bares do Rio tinham uma.
Não foi à toa, portanto, que o escritor Carlos Heitor Cony o batizou de "Michelangelo dos botequins":
- A primeira matéria que fiz, para a extinta revista "Manchete", foi sobre Nilton Bravo. Ele tinha uma habilidade fabulosa e era um autodidata. Pena que não teve um mecenas que o bancasse. Se não, teria sido um dos grandes pintores do século.
Os painéis de Nilton Bravo também adornaram um carro alegórico do desfile "De bar em bar, Didi um poeta", da União da Ilha, em 1991. E até hoje um deles está na Adega Flor de Coimbra, na Lapa.
- A gente colocou uma moldura, para ajudar a preservar. Isso tudo é cultura - destaca Eliete Sousa, mulher de José Batista Sobrinho, que herdou a casa do tio, José Lourenço.
O artista morou a vida inteira no Lins com a mulher, a professora Marli Bravo, e a filha, a advogada Simone Bravo. Quando a demanda começou a ficar escassa, nos anos 1970, virou construtor de casas no bairro.
- Em cada casa que ele construía para vender, pintava um mural. Depois que meu filme foi lançado, em 1980, ele se empolgou novamente com a arte e voltou a se dedicar exclusivamente à pintura. Mas passou a fazer pintura acadêmica, telas de natureza-morta, que vendia até no calçadão de Copacabana. Vendia tudo - conta Luiz Alphonsus.
Para Solange Bravo, "é um orgulho muito grande" que a memória do pai "de repente tenha dado uma renascida":
- Ele realmente tinha a cara do Rio, essa coisa bem alegre e ligada à natureza.
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/rio-gastronomia/2016/paineis-de-nilton-bravo-que-ja-dominaram-os-botequins-da-cidade-sao-apenas-17-20388834,
por Natalia Boere, atualizado e, 31 de outubro de 2016.
Nilton Bravo (Rio de Janeiro, RJ, 03 de março de 1937 - Idem, 27 de setembro de 2005) foi um pintor brasileiro, conhecido como o "Michelangelo dos botequins", pelos trabalhos expostos em célebres bares e botequins do Rio de Janeiro.
Nilton Bravo, o Michelangelo dos botequins
Nilton Bravo (1937-2005), pintor de linha acadêmica, sobretudo de naturezas mortas, conhecido como o “Michelangelo dos Botequins” (ou, segundo Carlos Heitor Cony, “o Rubem Braga da paleta, o Vinicius de Moraes do pincel”, como veremos na crônica adiante), começou a pintar ainda criança e logo se associou ao pai Lino Pinto Bravo (1899-1966), que se assinava Bravo Filho, “o pintor de botequins”, os dois passando a pintar a quatro mãos e assinando Nilton Bravo & pai. Sem nenhuma formação acadêmica, aprendeu com o pai as técnicas de pintura.
Pintou mais de 2 mil painéis em botequins e outros estabelecimentos Rio de Janeiro afora, principalmente nos subúrbios, Centro e Zona Portuária. “Quando Pelé fez o milésimo gol eu já tinha pintado mais de 1300 painéis” (Nilton Bravo em O Globo, Jornal do Bairro: Meier, 31/5/1989) Em 1986, o Prefeito Saturnino Braga decidiu tombar seus painéis a óleo, mas pouco se fez de concreto, e na prática apenas as pinturas do Bar Sulista, na Rua Coronel Assunção, 357 (Gamboa - fotos acima), estão hoje tombadas.
Com a modernização dos botequins e colocação de revestimentos de parede modernos (azulejos grandes), boa parte da obra da dinastia Bravo – iniciada pelo avô Manoel Pinto Bravo, que decorava tetos e paredes de residências e igrejas – se perdeu, e o que resta está em mau estado, com exceção dos dois painéis tombados (fotos acima), daqueles dos bares Brasília (Cachambi) e Tempero do Nordeste (Bairro de Fátima, embora com algumas partes descascadas - ver foto abaixo) e de alguns estabelecimentos mais “gentrificados”, com maior consciência do valor dessas obras, que as conservam até como chamariz, a exemplo do Jobi no Leblon, Adega Flor de Coimbra na Lapa, o tradicional Adegão Português em São Cristóvão e o Pirajá em São Paulo.
Na década de 1980 Nilton Bravo deixou de pintar painéis para se dedicar às telas, expostas em galerias de arte, gozando de relativo sucesso e certa visibilidade na imprensa (foi em edições de O Globo da época que extraí as informações desta “biografia”). Ocupou a cadeira 40 da Academia Brasileira de Belas Artes. Seu último painel de botequim, no Belmonte de Copacabana, pintou-o no ano de sua morte, mas infelizmente em setembro de 2015 constatei que havia sido removido. Atualmente o maior pesquisador da obra remanescente de Bravo é Evandro Von Sydow Domingues, que se dedica a percorrer bares Rio afora na tentativa de localizá-los. O resultado de suas investigações encontra-se em seu blog A Vida Numa Goa e seu inventário mais recente das obras de Bravo (6/6/15) pode ser consultado aqui.
Trecho da crônica "O Miguel Ângelo dos Botequins" de Carlos Heitor Cony publicada na Folha de São Paulo de 4/9/1998 (para ler a crônica inteira clique aqui):
"Não faz muito, grande parte dos bares, botequins e padarias do Rio eram decorados por um pintor chamado Nilton Bravo. Em termos de comunicação, era na época o artista mais consumido do Brasil.
Suas paisagens podiam ser admiradas por milhares de pessoas, todos os dias. Segundo os donos dos botequins, os quadros de Nilton Bravo ajudavam o varejo: olhando a paisagem bucólica e plácida, o freguês sentia vontade de comer outro sanduíche e beber mais um chope.
Herdeiro de nobre tradição pictórica, ele repetia Miguel Ângelo passando a vida pendurado em andaimes, cobrindo paredes com cores e formas. O botequim era a sua Capela Sistina. Em vez do papa, quem lhe dava ordens era o dono do bar: "Bota um barquinho ali naquele canto". Ele botava.
Trabalhando a metro quadrado, seus quadros pregavam a doçura das tardes, a quietude das águas. Por sua ternura, era o Rubem Braga da paleta, o Vinícius de Moraes do pincel.
Não havia carioca que não tivesse visto um quadro de Nilton Bravo. Suas paisagens eram, em essência, as mesmas: um rio cortando duas margens floridas, uma casinha rústica com a fumaça saindo pela chaminé, um céu azul bordado de nuvens diáfanas."
Crônica de Nelson Motta no Caderno B do Jornal do Brasil de 20-7-67
Seu estilo é inconfundível e sua obra espalha-se pela Cidade inteira.
Entre os cariocas, seus painéis são mais conhecidos do que qualquer quadro de Picasso ou Van Gogh.
Quase todo mundo já viu um painel seu, mas, provavelmente, muito poucos prestaram atenção à pintura para não deixar esfriar o cafezinho.
Sim, é ele mesmo — Nilton Bravo — o pintor que decorou a grande maioria dos bares e botequins do Rio com seus painéis, onde o motivo é sempre ligado à atividade ou localização do bar.
Autor de mais de 2000 trabalhos, a princípio em sociedade com seu pai — também Nilton Bravo [na verdade o pai de Nilton Bravo chama-se Lino Pinto Bravo Filho e o avô, nascido na Itália, Manoel Pinto Bravo] —, é um autodidata, que aprendeu na prática a resolver os problemas de decoração das paredes dos bares do Rio.
Praia de Copacabana, Corcovado, Pão de Açúcar e Aterro da Glória são alguns dos seus temas preferidos; no entanto, apenas sugere ao dono do bar a paisagem que deve ser pintada.
São conhecidíssimos seus painéis numa sinuca do Posto Seis e no bar em frente ao Jóquei, onde naturalmente o assunto é corrida de cavalos.
Embora em estilo acadêmico, os painéis de Nilton Bravo despertam grande interesse entre os artistas pop do Rio como Rubens Gerchman e Carlos Vergara. Antônio Dias sabe inclusive “onde estão os melhores Bravo da praça, de determinada fase”.
Rubens Gerchman, recentemente premiado no Salão de Arte Moderna com dois anos de estudos em Paris, dá seu depoimento:
“O grande mecenas de hoje é o pequeno comerciante, dono do bar da esquina, quase sempre português.
Para um dono de bar é uma vergonha que suas paredes não possuam pelo menos uma pintura decorando o ambiente.
O mais conhecido de todos os pintores de bar é Nilton Bravo, que a princípio assinava Bravo & Filho, depois Bravo & Pai e atualmente apenas Nilton Bravo.
Outro dia — diz ainda Gerchman — conversando com meu amigo, o também pintor Paulo Guilherme Sami, achamos interessante criar uma firma de pintura de bar. O nome escolhido foi Pinbar e o logotipo que desenhamos foi uma palheta de pintor com seus respectivos pincéis e o telefone, como Nilton Bravo.
Nossa primeira encomenda — contou Gerchman — foi em uma padaria de Nova Iguaçu e, conversando com o proprietário, passamos a entender a psicologia prática do dono de bar, pois nos foi encomendada, para o balcão de bebidas, uma paisagem de mar (que motiva a sede) e do lado da padaria uma vista da Cidade (que dá ideia de atividade e desperta a fome).”
O traço fino, a integração de paisagens e cenas, os detalhes (Nilton ama os detalhes) dos ramos de árvores sempre tocando de leve as águas de alguma lagoa onde pode estar-se banhando uma jovem índia com o Pão de Açúcar ao fundo ou o Monumento aos Mortos da II Guerra. Estes são alguns elementos que permitirão a você identificar imediatamente, e sem erro, qualquer painel para, esquecendo um pouco o cafezinho, dizer com absoluta certeza: “Trata-se de um Bravo autêntico.”
Painel de Nilton Bravo do Bar Brasília, também conhecido como Bar da Margarida (Cachambi)
Nilton bravo na literatura
A única menção à obra de Bravo na literatura que conheço é na pág. 211 do romance A última adolescência do autor contemporâneo Helio Brasil, que se notabiliza por fixar a memória de seu bairro natal São Cristóvão, como você pode conferir no verbete que lhe dedica a Wikipedia. Só que ele grafou o nome do pintor erroneamente. Aqui está o trecho:
A garotada contemplava de longe, apreciando os painéis greco-romanos de Newton [Nilton] Bravo, um contraste imprevisto entre o lirismo de paisagens floridas e o fumo que empestava o ambiente de mistura com o odor de café – sempre fresco – e a carne assada feitos pelas duas mulheres que se ocupavam da cozinha. Aquele era um lugar para gente grande, tanto mais que nos fundos, separadas por painéis de vidro e madeira, portas vai-e-vem, havia duas sólidas mesas Brunswick, eternamente cercadas pelos bambas do taco. Ali esbarravam-se, sem ousar beligerância, detetives e batedores de carteira, bookmakers e seus ansiosos fregueses, acompanhando os páreos gritados pelo rádio na voz de Teófilo de Vasconcelos, ou torcedores fanáticos acompanhando as proezas de Ademir, Zizinho, Danilo e Pedro Amorim nas dramáticas recriações de Ary Barroso. Em um ou outro canto, indiferentes a tudo, os adeptos do carteado, preparando-se para as rodadas noturnas de pôquer.
Fonte: http://literaturaeriodejaneiro.blogspot.com/2017/07/nilton-bravo-1937-2005-o-michelangelo.html,
atualizado em 15 de julho de 2017, última consulta em 25 de março de 2020.
Pelos bares do Rio de Janeiro, vemos a arte de Nilton Bravo.
Nos anos 50 e 60, foi o artista plástico mais presente no dia-a-dia do carioca.
Em cada botequim da esquina, tinha a arte de seus painéis coloridos, retratando imagens da cidade.
Nilton foi chamado pelo escritor Carlos Heitor Cony, de o Michelangelo dos botequins.
Seus murais nos bares são como o ovo cor-de-rosa ou a serragem próxima do balcão. Ítens da maior carioquice.
Na família Bravo, o talento veio de longe. Em 1885, Manoel Pinto Bravo, avô de Nilton, já se dedicava à pintura de painéis em restaurantes cariocas. A herança foi repassada para Lino Pinto Bravo, pai de Nilton, que foi o grande responsável pelo início de sua carreira.
Aos 13 anos, Nilton já ajudava o pai na pintura de murais e painéis em residências, igrejas e bares. Aliás, pai e filho, conta-se " trabalhavam ao mesmo tempo em uma curiosa parceria: o pai (que era canhoto) começava a pintura de um lado, o filho (destro) do outro e, geralmente, terminavam a obra juntos."
Depois disso, Nilton passou grande parte de sua vida pintando as paredes de bares do Rio de Janeiro. É um dos pintores mais vistos do país e suas obras estão espalhadas pelo mundo todo. Um curta-metragem sobre sua trajetória artística, produzido por Luiz Alphonsus, é exibido com freqüência no Museum of Modern Art, o MOMA, de Nova York.
Conhecido como a embaixada carioca em São Paulo, o bar Pirajá homenageia o Rio de Janeiro, exibindo com orgulho em uma de suas paredes, um mural assinado pelo mestre Nilton Bravo.
Nilton Bravo também participou na elaboração dos painéis no carnaval da escola de samba União da Ilha, de 1991, que desfilou com o excelente enredo De Bar em Bar, Didi, Um Poeta.
Alguns de seus painéis, como o da Praça da Harmonia, na Gamboa, foram tombados pela prefeitura, mas infelizmente muita coisa foi perdida do singular trabalho deste artista, por falta de preservação dos proprietários de botequins.
Fonte: https://rioquemoranomar.blogspot.com/2009/09/nilton-bravo.html,
atualizado em 30 de setembro de 2009.
---
Prefeitura tomba pinturas de Lino e Nilton Bravo que ficam em botecos tradicionais do Rio
Decreto, assinado pelo prefeito Marcelo Crivella, lista oito obras espalhadas pela cidade que precisam ser tombadas
A prefeitura do Rio tombou provisoriamente oito pinturas a óleo dos artistas Lino Bravo e Nilton Bravo que estão penduradas nas paredes de tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade. O município levou em consideração a importância histórica, artística e cultural das obras dos artistas, que, de acordo com o decreto publicado nesta sexta-feira, no Diário Oficial, também considerou a peculiaridade das pinturas, elaboradas em sua maioria para estabelecimentos comerciais tradicionais da cultura carioca — bares e botecos da cidade.
O tombamento também leva em consideração a necessidade de preservação destes exemplares do acervo existente no Rio "frente ao iminente risco de deterioração dos mesmos". Entre as obras tombadas, está uma pintura a óleo instalada no “Bar Jobi”, que fica na Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon. O dono do estabelecimento Narciso Rocha, que morreu no mês passado, falou ao GLOBO em 2016 sobre as pinturas. Na ocasião, ele resumiu a importância histórica do painel:
— "Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim" — disse, na ocasião, o português Narciso Rocha, dono do Bar Jobi, explicando como costumam ser os painéis dos artistas: — "Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando..."
Os painéis já dominaram os botequins na cidade, mas, em 2016, restavam apenas 17 exemplares. As pinturas, sempre com ar bucólico, já foram símbolo de status para os estabelecimentos comerciais no passado.
Confira a lista dos painés tombados.
1- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Rio - Brasília”, situado na Rua Cachambi 365, Cachambi.
2- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Café e Bar Flor de Coimbra”, situado na Rua Teotônio Regadas 34, Lapa.
3- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Jobi”, situado na Av. Ataulfo de Paiva 1166 lj B, Leblon.
4- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Ponto da Galera”, situado na Rua Tadeu Kosciusko 58, Bairro de Fátima.
5- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Costa do Minho”, situado na Rua Visconde de Santa Isabel 261, Grajaú.
6- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Bar Gurilandia”, situado na Rua Conde de Bonfim 670, Tijuca.
7- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Lanchonete Rosa do Bairro”, situado na Rua General Argolo 230, Vasco da Gama.
8- Pintura a óleo instalada no estabelecimento comercial “Açougue e Distribuidor de Carnes Frigobar”, situado na Rua Riachuelo 207, Lapa
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/prefeitura-tomba-pinturas-de-lino-nilton-bravo-que-ficam-em-botecos-tradicionais-do-rio-23222974, atualizado em 09 d e novembro de 2018.
---
Painéis de Nilton Bravo que já dominaram os botequins da cidade são apenas 17
Numa época em que os botequins dominavam o Rio e o chope custava 2.750 cruzeiros, ter um Nilton Bravo no bar era sinônimo de status. Dez entre dez botecos - a maioria comandada por imigrantes portugueses - ostentavam um painel do artista carioca, que morreu em 2005.
- Quando fiz a minha primeira obra, em 1962, preparei a parede para receber o mural do Nilton Bravo. Todo barzinho precisava ter. Se não, não era botequim - lembra o português Narciso Rocha, dono do Jobi, no Leblon.
Numa reforma seguinte, ele acabou encobrindo com tinta o painel, mas, em 1992, comprou uma tela do artista e colocou na parede do bar.
- Os desenhos são os mesmos: um barquinho, uma casinha, garças, uma cascata, uma mulherzinha pescando... - destaca.
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
Cenário bucólico. Uma pintura de Nilton Bravo no Jobi, bar do Leblon: há quem diga que o artista se inspirava em folhinhas com paisagens europeias Foto: Fotos de Fernando Lemos
As pinturas de Nilton Bravo eram assim, sempre bucólicas. Há quem diga que ele se inspirava em antigas folhinhas com reproduções de cenários europeus.
- As paisagens lembram as de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal, e as das províncias do Alentejo, no Sul - diz o português Ernesto Valongo, dono do Café e Bar Brasília, no Cachambi, que também tem um Nilton Bravo para chamar de seu. - Não imagino o meu bar sem ele.
O dono do Sírio e Libanês, no Centro, com pesar, teve que aprender a viver sem. Nascido no Líbano e radicado no Rio há 61 anos, Jawad Ghazi encomendou um painel a Nilton Bravo em 1966. Mas, na última reforma do estabelecimento, há um ano e meio, a obra foi coberta de tinta.
- A pintura estava toda velha, descascando. Chamamos uns pintores da igreja (Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos, na Saara) para restaurar, mas eles disseram que, infelizmente, não dava para recuperar mais. Fiquei muito sentido. O mural tinha pontos turísticos da minha terra, como os templos de Baalbek e cedros do Líbano - lamenta Jawad.
Como o painel do Sírio e Libanês, várias outras obras de Nilton Bravo sucumbiram à ação do tempo ou ao fechamento das casas que as ostentavam. Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), hoje, há só 17 estabelecimentos com murais ou telas do artista. Dois trabalhos são tombados pelo município (no Café e Bar Sulista, na Gamboa, e no Bar Balcão, no Caju).
- Temos planos de tombar os demais até o fim deste ano - afirma Washington Fajardo, presidente do IRPH.
O número, no entanto, era infinitamente maior.
- Só o bar Arco Teles (que fechou nos anos 1990), no Centro, por exemplo, tinha nove painéis de Nilton Bravo - conta o jornalista Paulo Thiago de Mello, coautor do livro "Memória afetiva do botequim carioca".
Nascido no Rio, em 1935, Nilton Bravo começou sua relação com tintas e pincéis ainda menino. O pai, Lino Bravo, também era pintor de painéis e o avô, pintor decorativo (fazia sancas e pátinas). Quem conta é o artista plástico e fotógrafo Luiz Alphonsus, diretor do curta "Nilton Bravo, o pintor de inúmeros bares do Rio de Janeiro".
- Nilton começou a acompanhar o pai e, quando ele adoeceu, assumiu muito jovem seu lugar. Pintava muito e muito rápido. O jornalista David Nasser chegou a dizer que, juntas, as pinturas de Nilton Bravo dariam para cobrir a Avenida Presidente Vargas. Todos os bares do Rio tinham uma.
Não foi à toa, portanto, que o escritor Carlos Heitor Cony o batizou de "Michelangelo dos botequins":
- A primeira matéria que fiz, para a extinta revista "Manchete", foi sobre Nilton Bravo. Ele tinha uma habilidade fabulosa e era um autodidata. Pena que não teve um mecenas que o bancasse. Se não, teria sido um dos grandes pintores do século.
Os painéis de Nilton Bravo também adornaram um carro alegórico do desfile "De bar em bar, Didi um poeta", da União da Ilha, em 1991. E até hoje um deles está na Adega Flor de Coimbra, na Lapa.
- A gente colocou uma moldura, para ajudar a preservar. Isso tudo é cultura - destaca Eliete Sousa, mulher de José Batista Sobrinho, que herdou a casa do tio, José Lourenço.
O artista morou a vida inteira no Lins com a mulher, a professora Marli Bravo, e a filha, a advogada Simone Bravo. Quando a demanda começou a ficar escassa, nos anos 1970, virou construtor de casas no bairro.
- Em cada casa que ele construía para vender, pintava um mural. Depois que meu filme foi lançado, em 1980, ele se empolgou novamente com a arte e voltou a se dedicar exclusivamente à pintura. Mas passou a fazer pintura acadêmica, telas de natureza-morta, que vendia até no calçadão de Copacabana. Vendia tudo - conta Luiz Alphonsus.
Para Solange Bravo, "é um orgulho muito grande" que a memória do pai "de repente tenha dado uma renascida":
- Ele realmente tinha a cara do Rio, essa coisa bem alegre e ligada à natureza.
Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/rio-gastronomia/2016/paineis-de-nilton-bravo-que-ja-dominaram-os-botequins-da-cidade-sao-apenas-17-20388834,
por Natalia Boere, atualizado e, 31 de outubro de 2016.