Antonio Luiz Morais de Andrade (São Felipe, BA, 12 de maio de 1953), mais conhecido pelo pseudônimo de Almandrade, é um artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte brasileiro.
Biografia
Almandrade é artista visual e poeta com formação em arquitetura e urbanismo com uma produção alinhada em diferentes suportes que se fundamenta a partir de dois eixos: a arte construtiva e a arte conceitual, sem deixar de lado as conquistas e influências da poesia concreta e do Poema/Processo. O procedimento de Almandrade se resume em práticas semióticas que se apropriam de um repertório mínimo de signos em seus diferentes suportes. A exposição traz alguns exemplos de uma extensa produção de mais de quatro décadas.
O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo dos anos, como um lugar de reflexão à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 1970, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcaram a produção deste artista na segunda metade da década de 1970.
No começo dos anos 1980, redescobre a cor e os trabalhos – pinturas, objetos e esculturas – ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência. Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.
Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Realizou cerca de trinta exposições individuais em vários Estados.
Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais.
Exposições coletivas
XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo;
"Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo;
IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio);
Feira Nacional (S.Paulo);
II Salão Paulista
I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza);
I Salão Baiano;
II Salão Nacional;
Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972.
Acervos
Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Museu de Arte Moderna da Bahia;
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro);
Museu da Cidade (Salvador);
Pinacoteca Municipal de São Paulo;
Museu Afro (São Paulo);
Museu de Arte do Rio Grande do Sul;
Itaú Cultural;
Museu de Arte do Rio de Janeiro;
Brasil Golden Art.
Vive e trabalha em Salvador, Bahia
Almandrade por Marc Pottier
A 3a Bienal da Bahia em 2014 foi para mim uma ocasião privilegiada para descobrir o trabalho de Almandrade. Vários aspectos de sua obra foram apresentados. Uma primeira proposta foi um incrível exercício tridimensional, indo de uma grande escultura localizada no campus de Ondina (UFBA) a formidáveis maquetes em pequena escala no Convento de São Bento: composições coloridas que dialogam com a paisagem e os edifícios ou os volumes do convento, evocando, em um interessante paradoxo, o rigor das formas de Franz Weissmann ou de Amilcar de Castro, mas também um labirinto de Hélio Oiticica (como podemos ver hoje em Inhotim). Poderíamos pensar ainda em Mondrian, com suas paisagens-composições refinadas, feitas de horizontais e verticais. Os diferentes planos que se interpenetram oferecem aos visitantes um jogo equilibrado de formas geométricas coloridas e arejadas, em algumas situações, por janelas de sombra e luz de tradição construtivista e minimalista. Como Francisco Antônio Zorzo chama atenção, Almandrade “intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira”. Na verdade, ao descobrir essa obra tentacular, a Bienal apresentou também numerosos desenhos e poemas, assim as referencias artísticas se apagam um pouco e nos fazem viajar para longe da Bahia.
“A pintura é concreta e não abstrata porque nada é mais concreto, mais real do que uma linha, uma cor, uma superfície”, reivindicava Theo Van Doesburg e os membros do grupo de Arte Concreta formada em 1930, em Paris. Eles pregavam uma forma de arte não figurativa, tendo rompido com todos os outros processos de abstração do mundo real e privilegiando a manipulação direta e racional dos constituintes plásticos da obra de arte. Almandrade pertence a era do pós-construtivismo, incorporando a contribuição do neo-concretismo brasileiro e ainda a do movimento da Poesia Concreta, redistribuindo postulados da Arte Concreta por um diálogo precursor com a Arte Conceitual.
Mas essa participação na Bienal da Bahia foi apenas uma amostra, um aperitivo antes de sentar a mesa para quem desejar descobrir quem é Almandrade e as diferentes faces de sua obra magistral.
O menos que se pode dizer é que há 45 anos Almandrade, nascido em 1953, arquiteto de formação, mostra ter mais de um coelho na cartola. A vocês se deixarem impressionar! Teórico, jornalista, professor de arte em Salvador, na Bahia... Como artista, sua obra faz malabarismo com esculturas e instalações, gravuras e desenhos. Desde os anos 1980, ele é o autor de vários livros e coletâneas de poemas. Antes, em 1974, havia editado a revista “Semiótica”*.
Ele nos conduz, a sua maneira, invocando o construtivismo, o minimalismo, letrismo e o conceitualismo. Essa é a razão, sem nenhuma dúvida, pela qual sua criação atinge escalas maiores com seus poemas visuais. Se ele tem como origem a Bahia, sua obra tem uma vocação universal. Como disse Oscar Wilde: “meu lugar é o mundo”, amaria dizer Almandrade. Ele rapidamente inventou sua própria assinatura na qual se destacam as influências de Hélio Oiticica ou Lygia Pape em termos estéticos, ou de seu caro amigo Wlademir Dias Pino e Ferreira Gular no mundo da poesia.
Bataille, Jorge Luis Borges, Lautréamont, Sade, Bachelard, Machado de Assis, Italo Calvino, entre outros, são suas referências. Em 1973, ele encontrou em Salvador Augusto de Campos (um dos fundadores do movimento de Poesia Concreta no Brasil, assim como da revista literária Noigandres), e foi também amigo do famoso poeta, tradutor, crítico e ensaísta Décio Pignatari. “A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular”; dizia Pignatari.
Necessário lembrar que a Poesia Concreta nasce simultaneamente em diferentes países do mundo nos anos 1950, como um movimento de vanguarda. Trata-se de uma arte carregada de tendências experimentalistas que nasce a partir de novas formas de organização do texto. Esse movimento poético se distancia das estruturas convencionais. Ele formou um novo paradigma poético, influenciado pelos movimentos dada, modernista e futurista, assim como por grandes pensadores e poetas como Stéphane Mallarmé (a grande referência desse movimento), Apollinaire, Lewis Carroll, Alfred Jarry, Ezra Pound, James Joyce... o movimento concretista foi lançado publicamente no Brasil na Exposição Nacional de Arte Concreta, entre dezembro de 1956 (São Paulo) e fevereiro de 1957 (Rio de Janeiro). Essa nova forma de poesia, que se funda sobre uma tradição da poética visual, é definida como “um elemento da teoria da comunicação e da semiótica”. A frase é desorganizada, o discurso partido com suas próprias palavras desordenadas, com a intenção de criar novas relações entre elementos sintáticos, procurando mesmo romper com sua própria sintaxe. O espaço gráfico toma um novo papel no poema. Almandrade sente-se como um artista gráfico conversando com a literatura e quer afirmar que a poesia faz também parte das artes visuais.
Sob a forte influência da poesia concreta, o próprio nome do artista se torna assim sua primeira obra: “Antônio Luiz M. Andrade, cujas iniciais formam A.L.M.A., daí o compósito ‘Almandrade’. Mas esse é o país dos “Andrades”: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade... Destaco que ‘Almandrade’ lembra também o proparoxítono “Sousândrade”. Assim temos uma reunião de nomes de poetas marcados pela irreverência, pela ousadia e, principalmente, pela radicalidade da invenção’, comenta o professor Jayro Luna.
Poderíamos quase dizer que Almandrade inventou uma nova forma de ‘Haiku brasileiro’, reduzido a sua mais simples expressão. As 17 sílabas em três versos se resumem a uma única imagem na qual o grafismo joga com as letras. Essa forma concisa, ativa e viva nos convida a descobrir aquilo que está oculto; ela propõe uma performance visual que obriga o observador a cruzar as informações, descobrir os sons ritmados de sua leitura para poder apreciar plenamente a obra. Esse minimal é muito mais complexo do que parece a primeira vista, e obriga a procura de chaves poéticas para os diferentes ângulos abordados. Seu repertório é geralmente limitado a alguns signos e palavras. O artista leva a linguagem a seus limites e se dá o direito de transformar a ordem e o significado das coisas. É importante para ele inventar outras relações com o mundo e seu cotidiano. “A grande riqueza visual aliada à semântica da proposta fazem de Almandrade um dos mais criativos operários da linguagem. Um construtor.” Gutemberg Cruz. Almandrade participou ainda do movimento poesia/processo, modo de expressão visual radical, sem teoria, onde as palavras do poema poderiam desaparecer diante de um simples sinal.
“A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante.”, escreve o artista.
Almandrade fez ainda parte do grupo Etsedron. Devemos nos lembrar que nos anos 1970 aparece a Arte Ambiental, onde os objetos de arte estavam integrados a vida cotidiana. No Brasil, Frans Krajcberg e o Grupo Etsedron se pautaram por intervenções nas paisagens agregando artes plásticas, música, dança, fotografia, literatura e cinema. Obras, integrando-se à natureza e à realidade social do povo brasileiro, que estimulassem os vínculos entre arte e vida.
Escultura, assemblage feita com objetos simples do cotidiano, desenhos, gravuras; todas suas obras participam de uma sutil base de humor, de onde nasce todo o prazer. Ele nos faz pertencer a um mundo inteligente onde é possível conviver com o real. Seu vocabulário gráfico rigoroso, com uma economia de meios, os jogos de formas, às vezes de oposições cromáticas, propõem obras mínimas, sutis e sem falsificações.
Almandrade joga com o cheio e o vazio e ainda com seus textos que colocam o espaço natural em questão, nos obrigando a procura pelo entendimento de seus enigmas. A partir de seus Ready Made mentais, de signos e de palavras simples, eles nos força ainda a refazer mentalmente o processo de construção da obra, podendo levar à frustração imposta pela dúvida. Suas obras silenciosas e sintéticas sob formas essenciais são aforismos visuais que conduzem a novas percepções e concepções.
"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
Ferreira Gullar
(*) A revista "Semiótica" só teve um número, julho de 1974; éramos estudantes sem qualquer pretensão, os outros que faziam parte do grupo se dedicaram a outras atividades, não pretendiam ser artistas nem poetas. Foi uma experiência numa cidade provinciana que desconhecia a vanguarda e recusava a contemporaneidade, não tínhamos apoio, foi uma publicação com seus erros.
Fonte: Roberto Alban Galeria, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Biografia - Wikipédia
O artista participou de mais de trinta mostras individuais e coletivas de artes plásticas, dentre elas três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Seus trabalhos estão em acervos particulares e públicos, por exemplo, o Museu de Arte Moderna da Bahia e a Pinacoteca Municipal de São Paulo. Publicou oito livros e integrou coletivas de poemas visuais no Brasil e exterior entre 1975 e 2012.
Críticas
"É dono de um estilo que chega a espantar pela coerência de transitar em diversos suportes, inclusive a palavra, sem perder o rigor e a responsabilidade com a linguagem e o pensamento."
Gilberto Motta
Livros
Obscuridade do riso (1982)
Poemas (1988)
Suor noturno (Editora Fator, 1993)
Poesias (1997)
Arquitetura de algodão (Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000)
Escritos sobre artes (2008)
Prêmios
Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82.
Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Almandrade expõe obras que resumem 40 anos de arte
Poemas visuais, desenhos e pinturas que traduzem o espírito dos 40 anos de carreira do artista plástico baiano Almandrade. Essa é a ideia que permeia a mostra Entre a Palavra e o Conceito, aberta à visitação a partir de quinta-feira, 18, na Roberto Alban Galeria, em Ondina.
"Essa exposição traz um apanhado geral dos meus trabalhos desde os anos 1970", explica o artista. Com curadoria do francês Marc Pottier, a mostra apresenta cerca de 40 trabalhos que aliam formas às palavras através de diferentes suportes, sob a estética do neoconcretismo - movimento que evoca a subjetividade e a expressividade do objeto artístico.
"Não são obras totalmente diferentes, mas são momentos diferentes", conceitua o artista. Desse modo, Entre a Palavra e o Conceito guia o olhar do apreciador sobre o desdobramento de obras como pinturas, poemas visuais e projetos de instalação. O objetivo, segundo Almandrade, é "mostrar uma linha de trabalho, uma trajetória".
Formado em Arquitetura, mestre em Desenho Urbano, artista plástico e professor de teoria da arte nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia e do Palacete das Artes, Almandrade já participou de quatro edições da Bienal de São Paulo, além de exposições individuais e coletivas Brasil e mundo afora.
Arte conceitual
Linhas geométricas em contraste com palavras. É através desse conceito que o artista se manifesta. Com poesia concreta até no nome, Antônio Luiz Morais de Andrade, o Almandrade, traz a palavra como elemento de composição.
"A palavra é um elemento que participa do trabalho, ao mesmo tempo ela faz parte de um elemento conceitual", define. Assim, a poesia de Almandrade se traduz na expressão das linhas e cores, criando um sentido que depende da relação com o espectador para fazer sentido.
Segundo o artista, as ideias expressas em seu trabalho são voltadas para o olhar. "Na verdade, as obras de arte não são feitas para falar, são feitas para olhar. O homem que tem mania de falar de tudo e quer falar de obra de arte", reflete.
Desse modo, enquanto faz um apanhado geral da carreira, o artista plástico baiano reforça o diálogo com o público. "Há sempre um abismo entre o que eu falo e o que alguém fala", comenta. É justamente esse abismo que permite as múltiplas interpretações acerca de um trabalho artístico.
"É como se o artista estivesse compartilhando com o observador um conhecimento secreto. Por isso que essas obras de arte estão aí principalmente provocando a gente", finaliza.
Fonte e crédito fotográfico: A Tarde, por Débora Rezende, em 16 de junho de 2015.
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Almandrade, por Francisco Antônio Zorzo
Desde a década de 1970, Almandrade incorporou às suas peças a atitude crítica da arte contemporânea. Tendo uma formação universitária como arquiteto pós-Brasilia, veio a assumir uma posição autônoma em relação à geração anterior, que foi muito festejada na Bahia, composta por artistas tais como Cravo Jr., Scaldaferri e Paraíso, entre outros.
Nos primeiros tempos, orientou-se pela abstração construtivista, mas depois derivou por um caminho próprio. Em suas relações com artistas que circulavam ao nível nacional, se aproximou bastante dos criadores Hélio Oiticica e de Lygia Pape e de poetas como Dias Pino e Ferreira Gullar.
Uma lâmina gilete pendurada dentro de uma garrafa compõe um objeto criado por Almandrade que gerou fértil polêmica. Como interpretar um objeto que incorpora significados múltiplos e cortantes, do vidro e do aço da realidade? Cada objeto construído depende do sentido agregado pelo artista e pelo espectador. Da parte do escultor, uma atribuição de sentido que lhe correspondeu a uma experimentação e a uma reflexão singular. No olhar do expectador a leitura pode ir do vértice do absurdo ao erotismo-vulgar de um corte na pele.
No livro que publicou recentemente reunindo análises realizadas no correr de sua trajetória, Escritos sobre Arte, Almandrade deu a pista para muito de seus truques e procedimentos operativos. O importante, no caso da produção desse artista “cult” baiano é que obras e discursos se traduzem um ao outro, bem como conservam sintonia com sua proposta estética. Essas reflexões são importantes, porque a estética engendrada não atendeu a nenhuma chamada gregária no sentido de banalizar a arte baiana.
Como pode um objeto ser capaz de, ao mesmo tempo, causar uma fruição direta e uma decodificação crítica? As obras de Almandrade primam pela simplicidade e pela economia de meios. Ele certamente está entre os menos barrocos produtores visuais do período entre os anos 1980 e 2000 no Brasil. Os objetos e pinturas discutiram sempre os conceitos em voga e instalaram a cunha de resistência de um pensamento rigoroso.
Para deixar mais um exemplo de suas criações, vale retomar um objeto que expôs numa galeria do Rio Vermelho, anos atrás. Um instrumento quadrado composto de duas peças sobrepostas, uma grande azul e uma pequenina dourada no meio, sendo a primeira delas vazada e riscada com linhas brancas. Esse objeto poético-visual foi denominado “Violão da Bossa Nova”. Ao fazer soar esse violão quadrado soar, Almandrade conduziu, como um mestre, seu olhar reflexivo e solitário sobre os campos das artes e da cultura contemporânea no país.
As esculturas de Almandrade
Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.
Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.
Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.
O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.
O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.
As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.
Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.
As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.
Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?
Fonte: Portal Artes, por Francisco Antônio Zorzo, professor da UFBA, publicado em 6 de dezembro de 2011.
Antonio Luiz Morais de Andrade (São Felipe, BA, 12 de maio de 1953), mais conhecido pelo pseudônimo de Almandrade, é um artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte brasileiro.
Biografia
Almandrade é artista visual e poeta com formação em arquitetura e urbanismo com uma produção alinhada em diferentes suportes que se fundamenta a partir de dois eixos: a arte construtiva e a arte conceitual, sem deixar de lado as conquistas e influências da poesia concreta e do Poema/Processo. O procedimento de Almandrade se resume em práticas semióticas que se apropriam de um repertório mínimo de signos em seus diferentes suportes. A exposição traz alguns exemplos de uma extensa produção de mais de quatro décadas.
O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo dos anos, como um lugar de reflexão à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 1970, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcaram a produção deste artista na segunda metade da década de 1970.
No começo dos anos 1980, redescobre a cor e os trabalhos – pinturas, objetos e esculturas – ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência. Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.
Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Realizou cerca de trinta exposições individuais em vários Estados.
Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais.
Exposições coletivas
XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo;
"Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo;
IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio);
Feira Nacional (S.Paulo);
II Salão Paulista
I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza);
I Salão Baiano;
II Salão Nacional;
Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972.
Acervos
Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Museu de Arte Moderna da Bahia;
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro);
Museu da Cidade (Salvador);
Pinacoteca Municipal de São Paulo;
Museu Afro (São Paulo);
Museu de Arte do Rio Grande do Sul;
Itaú Cultural;
Museu de Arte do Rio de Janeiro;
Brasil Golden Art.
Vive e trabalha em Salvador, Bahia
Almandrade por Marc Pottier
A 3a Bienal da Bahia em 2014 foi para mim uma ocasião privilegiada para descobrir o trabalho de Almandrade. Vários aspectos de sua obra foram apresentados. Uma primeira proposta foi um incrível exercício tridimensional, indo de uma grande escultura localizada no campus de Ondina (UFBA) a formidáveis maquetes em pequena escala no Convento de São Bento: composições coloridas que dialogam com a paisagem e os edifícios ou os volumes do convento, evocando, em um interessante paradoxo, o rigor das formas de Franz Weissmann ou de Amilcar de Castro, mas também um labirinto de Hélio Oiticica (como podemos ver hoje em Inhotim). Poderíamos pensar ainda em Mondrian, com suas paisagens-composições refinadas, feitas de horizontais e verticais. Os diferentes planos que se interpenetram oferecem aos visitantes um jogo equilibrado de formas geométricas coloridas e arejadas, em algumas situações, por janelas de sombra e luz de tradição construtivista e minimalista. Como Francisco Antônio Zorzo chama atenção, Almandrade “intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira”. Na verdade, ao descobrir essa obra tentacular, a Bienal apresentou também numerosos desenhos e poemas, assim as referencias artísticas se apagam um pouco e nos fazem viajar para longe da Bahia.
“A pintura é concreta e não abstrata porque nada é mais concreto, mais real do que uma linha, uma cor, uma superfície”, reivindicava Theo Van Doesburg e os membros do grupo de Arte Concreta formada em 1930, em Paris. Eles pregavam uma forma de arte não figurativa, tendo rompido com todos os outros processos de abstração do mundo real e privilegiando a manipulação direta e racional dos constituintes plásticos da obra de arte. Almandrade pertence a era do pós-construtivismo, incorporando a contribuição do neo-concretismo brasileiro e ainda a do movimento da Poesia Concreta, redistribuindo postulados da Arte Concreta por um diálogo precursor com a Arte Conceitual.
Mas essa participação na Bienal da Bahia foi apenas uma amostra, um aperitivo antes de sentar a mesa para quem desejar descobrir quem é Almandrade e as diferentes faces de sua obra magistral.
O menos que se pode dizer é que há 45 anos Almandrade, nascido em 1953, arquiteto de formação, mostra ter mais de um coelho na cartola. A vocês se deixarem impressionar! Teórico, jornalista, professor de arte em Salvador, na Bahia... Como artista, sua obra faz malabarismo com esculturas e instalações, gravuras e desenhos. Desde os anos 1980, ele é o autor de vários livros e coletâneas de poemas. Antes, em 1974, havia editado a revista “Semiótica”*.
Ele nos conduz, a sua maneira, invocando o construtivismo, o minimalismo, letrismo e o conceitualismo. Essa é a razão, sem nenhuma dúvida, pela qual sua criação atinge escalas maiores com seus poemas visuais. Se ele tem como origem a Bahia, sua obra tem uma vocação universal. Como disse Oscar Wilde: “meu lugar é o mundo”, amaria dizer Almandrade. Ele rapidamente inventou sua própria assinatura na qual se destacam as influências de Hélio Oiticica ou Lygia Pape em termos estéticos, ou de seu caro amigo Wlademir Dias Pino e Ferreira Gular no mundo da poesia.
Bataille, Jorge Luis Borges, Lautréamont, Sade, Bachelard, Machado de Assis, Italo Calvino, entre outros, são suas referências. Em 1973, ele encontrou em Salvador Augusto de Campos (um dos fundadores do movimento de Poesia Concreta no Brasil, assim como da revista literária Noigandres), e foi também amigo do famoso poeta, tradutor, crítico e ensaísta Décio Pignatari. “A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular”; dizia Pignatari.
Necessário lembrar que a Poesia Concreta nasce simultaneamente em diferentes países do mundo nos anos 1950, como um movimento de vanguarda. Trata-se de uma arte carregada de tendências experimentalistas que nasce a partir de novas formas de organização do texto. Esse movimento poético se distancia das estruturas convencionais. Ele formou um novo paradigma poético, influenciado pelos movimentos dada, modernista e futurista, assim como por grandes pensadores e poetas como Stéphane Mallarmé (a grande referência desse movimento), Apollinaire, Lewis Carroll, Alfred Jarry, Ezra Pound, James Joyce... o movimento concretista foi lançado publicamente no Brasil na Exposição Nacional de Arte Concreta, entre dezembro de 1956 (São Paulo) e fevereiro de 1957 (Rio de Janeiro). Essa nova forma de poesia, que se funda sobre uma tradição da poética visual, é definida como “um elemento da teoria da comunicação e da semiótica”. A frase é desorganizada, o discurso partido com suas próprias palavras desordenadas, com a intenção de criar novas relações entre elementos sintáticos, procurando mesmo romper com sua própria sintaxe. O espaço gráfico toma um novo papel no poema. Almandrade sente-se como um artista gráfico conversando com a literatura e quer afirmar que a poesia faz também parte das artes visuais.
Sob a forte influência da poesia concreta, o próprio nome do artista se torna assim sua primeira obra: “Antônio Luiz M. Andrade, cujas iniciais formam A.L.M.A., daí o compósito ‘Almandrade’. Mas esse é o país dos “Andrades”: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade... Destaco que ‘Almandrade’ lembra também o proparoxítono “Sousândrade”. Assim temos uma reunião de nomes de poetas marcados pela irreverência, pela ousadia e, principalmente, pela radicalidade da invenção’, comenta o professor Jayro Luna.
Poderíamos quase dizer que Almandrade inventou uma nova forma de ‘Haiku brasileiro’, reduzido a sua mais simples expressão. As 17 sílabas em três versos se resumem a uma única imagem na qual o grafismo joga com as letras. Essa forma concisa, ativa e viva nos convida a descobrir aquilo que está oculto; ela propõe uma performance visual que obriga o observador a cruzar as informações, descobrir os sons ritmados de sua leitura para poder apreciar plenamente a obra. Esse minimal é muito mais complexo do que parece a primeira vista, e obriga a procura de chaves poéticas para os diferentes ângulos abordados. Seu repertório é geralmente limitado a alguns signos e palavras. O artista leva a linguagem a seus limites e se dá o direito de transformar a ordem e o significado das coisas. É importante para ele inventar outras relações com o mundo e seu cotidiano. “A grande riqueza visual aliada à semântica da proposta fazem de Almandrade um dos mais criativos operários da linguagem. Um construtor.” Gutemberg Cruz. Almandrade participou ainda do movimento poesia/processo, modo de expressão visual radical, sem teoria, onde as palavras do poema poderiam desaparecer diante de um simples sinal.
“A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante.”, escreve o artista.
Almandrade fez ainda parte do grupo Etsedron. Devemos nos lembrar que nos anos 1970 aparece a Arte Ambiental, onde os objetos de arte estavam integrados a vida cotidiana. No Brasil, Frans Krajcberg e o Grupo Etsedron se pautaram por intervenções nas paisagens agregando artes plásticas, música, dança, fotografia, literatura e cinema. Obras, integrando-se à natureza e à realidade social do povo brasileiro, que estimulassem os vínculos entre arte e vida.
Escultura, assemblage feita com objetos simples do cotidiano, desenhos, gravuras; todas suas obras participam de uma sutil base de humor, de onde nasce todo o prazer. Ele nos faz pertencer a um mundo inteligente onde é possível conviver com o real. Seu vocabulário gráfico rigoroso, com uma economia de meios, os jogos de formas, às vezes de oposições cromáticas, propõem obras mínimas, sutis e sem falsificações.
Almandrade joga com o cheio e o vazio e ainda com seus textos que colocam o espaço natural em questão, nos obrigando a procura pelo entendimento de seus enigmas. A partir de seus Ready Made mentais, de signos e de palavras simples, eles nos força ainda a refazer mentalmente o processo de construção da obra, podendo levar à frustração imposta pela dúvida. Suas obras silenciosas e sintéticas sob formas essenciais são aforismos visuais que conduzem a novas percepções e concepções.
"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
Ferreira Gullar
(*) A revista "Semiótica" só teve um número, julho de 1974; éramos estudantes sem qualquer pretensão, os outros que faziam parte do grupo se dedicaram a outras atividades, não pretendiam ser artistas nem poetas. Foi uma experiência numa cidade provinciana que desconhecia a vanguarda e recusava a contemporaneidade, não tínhamos apoio, foi uma publicação com seus erros.
Fonte: Roberto Alban Galeria, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Biografia - Wikipédia
O artista participou de mais de trinta mostras individuais e coletivas de artes plásticas, dentre elas três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Seus trabalhos estão em acervos particulares e públicos, por exemplo, o Museu de Arte Moderna da Bahia e a Pinacoteca Municipal de São Paulo. Publicou oito livros e integrou coletivas de poemas visuais no Brasil e exterior entre 1975 e 2012.
Críticas
"É dono de um estilo que chega a espantar pela coerência de transitar em diversos suportes, inclusive a palavra, sem perder o rigor e a responsabilidade com a linguagem e o pensamento."
Gilberto Motta
Livros
Obscuridade do riso (1982)
Poemas (1988)
Suor noturno (Editora Fator, 1993)
Poesias (1997)
Arquitetura de algodão (Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000)
Escritos sobre artes (2008)
Prêmios
Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82.
Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Almandrade expõe obras que resumem 40 anos de arte
Poemas visuais, desenhos e pinturas que traduzem o espírito dos 40 anos de carreira do artista plástico baiano Almandrade. Essa é a ideia que permeia a mostra Entre a Palavra e o Conceito, aberta à visitação a partir de quinta-feira, 18, na Roberto Alban Galeria, em Ondina.
"Essa exposição traz um apanhado geral dos meus trabalhos desde os anos 1970", explica o artista. Com curadoria do francês Marc Pottier, a mostra apresenta cerca de 40 trabalhos que aliam formas às palavras através de diferentes suportes, sob a estética do neoconcretismo - movimento que evoca a subjetividade e a expressividade do objeto artístico.
"Não são obras totalmente diferentes, mas são momentos diferentes", conceitua o artista. Desse modo, Entre a Palavra e o Conceito guia o olhar do apreciador sobre o desdobramento de obras como pinturas, poemas visuais e projetos de instalação. O objetivo, segundo Almandrade, é "mostrar uma linha de trabalho, uma trajetória".
Formado em Arquitetura, mestre em Desenho Urbano, artista plástico e professor de teoria da arte nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia e do Palacete das Artes, Almandrade já participou de quatro edições da Bienal de São Paulo, além de exposições individuais e coletivas Brasil e mundo afora.
Arte conceitual
Linhas geométricas em contraste com palavras. É através desse conceito que o artista se manifesta. Com poesia concreta até no nome, Antônio Luiz Morais de Andrade, o Almandrade, traz a palavra como elemento de composição.
"A palavra é um elemento que participa do trabalho, ao mesmo tempo ela faz parte de um elemento conceitual", define. Assim, a poesia de Almandrade se traduz na expressão das linhas e cores, criando um sentido que depende da relação com o espectador para fazer sentido.
Segundo o artista, as ideias expressas em seu trabalho são voltadas para o olhar. "Na verdade, as obras de arte não são feitas para falar, são feitas para olhar. O homem que tem mania de falar de tudo e quer falar de obra de arte", reflete.
Desse modo, enquanto faz um apanhado geral da carreira, o artista plástico baiano reforça o diálogo com o público. "Há sempre um abismo entre o que eu falo e o que alguém fala", comenta. É justamente esse abismo que permite as múltiplas interpretações acerca de um trabalho artístico.
"É como se o artista estivesse compartilhando com o observador um conhecimento secreto. Por isso que essas obras de arte estão aí principalmente provocando a gente", finaliza.
Fonte e crédito fotográfico: A Tarde, por Débora Rezende, em 16 de junho de 2015.
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Almandrade, por Francisco Antônio Zorzo
Desde a década de 1970, Almandrade incorporou às suas peças a atitude crítica da arte contemporânea. Tendo uma formação universitária como arquiteto pós-Brasilia, veio a assumir uma posição autônoma em relação à geração anterior, que foi muito festejada na Bahia, composta por artistas tais como Cravo Jr., Scaldaferri e Paraíso, entre outros.
Nos primeiros tempos, orientou-se pela abstração construtivista, mas depois derivou por um caminho próprio. Em suas relações com artistas que circulavam ao nível nacional, se aproximou bastante dos criadores Hélio Oiticica e de Lygia Pape e de poetas como Dias Pino e Ferreira Gullar.
Uma lâmina gilete pendurada dentro de uma garrafa compõe um objeto criado por Almandrade que gerou fértil polêmica. Como interpretar um objeto que incorpora significados múltiplos e cortantes, do vidro e do aço da realidade? Cada objeto construído depende do sentido agregado pelo artista e pelo espectador. Da parte do escultor, uma atribuição de sentido que lhe correspondeu a uma experimentação e a uma reflexão singular. No olhar do expectador a leitura pode ir do vértice do absurdo ao erotismo-vulgar de um corte na pele.
No livro que publicou recentemente reunindo análises realizadas no correr de sua trajetória, Escritos sobre Arte, Almandrade deu a pista para muito de seus truques e procedimentos operativos. O importante, no caso da produção desse artista “cult” baiano é que obras e discursos se traduzem um ao outro, bem como conservam sintonia com sua proposta estética. Essas reflexões são importantes, porque a estética engendrada não atendeu a nenhuma chamada gregária no sentido de banalizar a arte baiana.
Como pode um objeto ser capaz de, ao mesmo tempo, causar uma fruição direta e uma decodificação crítica? As obras de Almandrade primam pela simplicidade e pela economia de meios. Ele certamente está entre os menos barrocos produtores visuais do período entre os anos 1980 e 2000 no Brasil. Os objetos e pinturas discutiram sempre os conceitos em voga e instalaram a cunha de resistência de um pensamento rigoroso.
Para deixar mais um exemplo de suas criações, vale retomar um objeto que expôs numa galeria do Rio Vermelho, anos atrás. Um instrumento quadrado composto de duas peças sobrepostas, uma grande azul e uma pequenina dourada no meio, sendo a primeira delas vazada e riscada com linhas brancas. Esse objeto poético-visual foi denominado “Violão da Bossa Nova”. Ao fazer soar esse violão quadrado soar, Almandrade conduziu, como um mestre, seu olhar reflexivo e solitário sobre os campos das artes e da cultura contemporânea no país.
As esculturas de Almandrade
Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.
Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.
Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.
O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.
O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.
As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.
Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.
As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.
Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?
Fonte: Portal Artes, por Francisco Antônio Zorzo, professor da UFBA, publicado em 6 de dezembro de 2011.
Antonio Luiz Morais de Andrade (São Felipe, BA, 12 de maio de 1953), mais conhecido pelo pseudônimo de Almandrade, é um artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte brasileiro.
Biografia
Almandrade é artista visual e poeta com formação em arquitetura e urbanismo com uma produção alinhada em diferentes suportes que se fundamenta a partir de dois eixos: a arte construtiva e a arte conceitual, sem deixar de lado as conquistas e influências da poesia concreta e do Poema/Processo. O procedimento de Almandrade se resume em práticas semióticas que se apropriam de um repertório mínimo de signos em seus diferentes suportes. A exposição traz alguns exemplos de uma extensa produção de mais de quatro décadas.
O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo dos anos, como um lugar de reflexão à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 1970, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcaram a produção deste artista na segunda metade da década de 1970.
No começo dos anos 1980, redescobre a cor e os trabalhos – pinturas, objetos e esculturas – ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência. Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.
Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Realizou cerca de trinta exposições individuais em vários Estados.
Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais.
Exposições coletivas
XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo;
"Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo;
IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio);
Feira Nacional (S.Paulo);
II Salão Paulista
I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza);
I Salão Baiano;
II Salão Nacional;
Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972.
Acervos
Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Museu de Arte Moderna da Bahia;
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro);
Museu da Cidade (Salvador);
Pinacoteca Municipal de São Paulo;
Museu Afro (São Paulo);
Museu de Arte do Rio Grande do Sul;
Itaú Cultural;
Museu de Arte do Rio de Janeiro;
Brasil Golden Art.
Vive e trabalha em Salvador, Bahia
Almandrade por Marc Pottier
A 3a Bienal da Bahia em 2014 foi para mim uma ocasião privilegiada para descobrir o trabalho de Almandrade. Vários aspectos de sua obra foram apresentados. Uma primeira proposta foi um incrível exercício tridimensional, indo de uma grande escultura localizada no campus de Ondina (UFBA) a formidáveis maquetes em pequena escala no Convento de São Bento: composições coloridas que dialogam com a paisagem e os edifícios ou os volumes do convento, evocando, em um interessante paradoxo, o rigor das formas de Franz Weissmann ou de Amilcar de Castro, mas também um labirinto de Hélio Oiticica (como podemos ver hoje em Inhotim). Poderíamos pensar ainda em Mondrian, com suas paisagens-composições refinadas, feitas de horizontais e verticais. Os diferentes planos que se interpenetram oferecem aos visitantes um jogo equilibrado de formas geométricas coloridas e arejadas, em algumas situações, por janelas de sombra e luz de tradição construtivista e minimalista. Como Francisco Antônio Zorzo chama atenção, Almandrade “intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira”. Na verdade, ao descobrir essa obra tentacular, a Bienal apresentou também numerosos desenhos e poemas, assim as referencias artísticas se apagam um pouco e nos fazem viajar para longe da Bahia.
“A pintura é concreta e não abstrata porque nada é mais concreto, mais real do que uma linha, uma cor, uma superfície”, reivindicava Theo Van Doesburg e os membros do grupo de Arte Concreta formada em 1930, em Paris. Eles pregavam uma forma de arte não figurativa, tendo rompido com todos os outros processos de abstração do mundo real e privilegiando a manipulação direta e racional dos constituintes plásticos da obra de arte. Almandrade pertence a era do pós-construtivismo, incorporando a contribuição do neo-concretismo brasileiro e ainda a do movimento da Poesia Concreta, redistribuindo postulados da Arte Concreta por um diálogo precursor com a Arte Conceitual.
Mas essa participação na Bienal da Bahia foi apenas uma amostra, um aperitivo antes de sentar a mesa para quem desejar descobrir quem é Almandrade e as diferentes faces de sua obra magistral.
O menos que se pode dizer é que há 45 anos Almandrade, nascido em 1953, arquiteto de formação, mostra ter mais de um coelho na cartola. A vocês se deixarem impressionar! Teórico, jornalista, professor de arte em Salvador, na Bahia... Como artista, sua obra faz malabarismo com esculturas e instalações, gravuras e desenhos. Desde os anos 1980, ele é o autor de vários livros e coletâneas de poemas. Antes, em 1974, havia editado a revista “Semiótica”*.
Ele nos conduz, a sua maneira, invocando o construtivismo, o minimalismo, letrismo e o conceitualismo. Essa é a razão, sem nenhuma dúvida, pela qual sua criação atinge escalas maiores com seus poemas visuais. Se ele tem como origem a Bahia, sua obra tem uma vocação universal. Como disse Oscar Wilde: “meu lugar é o mundo”, amaria dizer Almandrade. Ele rapidamente inventou sua própria assinatura na qual se destacam as influências de Hélio Oiticica ou Lygia Pape em termos estéticos, ou de seu caro amigo Wlademir Dias Pino e Ferreira Gular no mundo da poesia.
Bataille, Jorge Luis Borges, Lautréamont, Sade, Bachelard, Machado de Assis, Italo Calvino, entre outros, são suas referências. Em 1973, ele encontrou em Salvador Augusto de Campos (um dos fundadores do movimento de Poesia Concreta no Brasil, assim como da revista literária Noigandres), e foi também amigo do famoso poeta, tradutor, crítico e ensaísta Décio Pignatari. “A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular”; dizia Pignatari.
Necessário lembrar que a Poesia Concreta nasce simultaneamente em diferentes países do mundo nos anos 1950, como um movimento de vanguarda. Trata-se de uma arte carregada de tendências experimentalistas que nasce a partir de novas formas de organização do texto. Esse movimento poético se distancia das estruturas convencionais. Ele formou um novo paradigma poético, influenciado pelos movimentos dada, modernista e futurista, assim como por grandes pensadores e poetas como Stéphane Mallarmé (a grande referência desse movimento), Apollinaire, Lewis Carroll, Alfred Jarry, Ezra Pound, James Joyce... o movimento concretista foi lançado publicamente no Brasil na Exposição Nacional de Arte Concreta, entre dezembro de 1956 (São Paulo) e fevereiro de 1957 (Rio de Janeiro). Essa nova forma de poesia, que se funda sobre uma tradição da poética visual, é definida como “um elemento da teoria da comunicação e da semiótica”. A frase é desorganizada, o discurso partido com suas próprias palavras desordenadas, com a intenção de criar novas relações entre elementos sintáticos, procurando mesmo romper com sua própria sintaxe. O espaço gráfico toma um novo papel no poema. Almandrade sente-se como um artista gráfico conversando com a literatura e quer afirmar que a poesia faz também parte das artes visuais.
Sob a forte influência da poesia concreta, o próprio nome do artista se torna assim sua primeira obra: “Antônio Luiz M. Andrade, cujas iniciais formam A.L.M.A., daí o compósito ‘Almandrade’. Mas esse é o país dos “Andrades”: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade... Destaco que ‘Almandrade’ lembra também o proparoxítono “Sousândrade”. Assim temos uma reunião de nomes de poetas marcados pela irreverência, pela ousadia e, principalmente, pela radicalidade da invenção’, comenta o professor Jayro Luna.
Poderíamos quase dizer que Almandrade inventou uma nova forma de ‘Haiku brasileiro’, reduzido a sua mais simples expressão. As 17 sílabas em três versos se resumem a uma única imagem na qual o grafismo joga com as letras. Essa forma concisa, ativa e viva nos convida a descobrir aquilo que está oculto; ela propõe uma performance visual que obriga o observador a cruzar as informações, descobrir os sons ritmados de sua leitura para poder apreciar plenamente a obra. Esse minimal é muito mais complexo do que parece a primeira vista, e obriga a procura de chaves poéticas para os diferentes ângulos abordados. Seu repertório é geralmente limitado a alguns signos e palavras. O artista leva a linguagem a seus limites e se dá o direito de transformar a ordem e o significado das coisas. É importante para ele inventar outras relações com o mundo e seu cotidiano. “A grande riqueza visual aliada à semântica da proposta fazem de Almandrade um dos mais criativos operários da linguagem. Um construtor.” Gutemberg Cruz. Almandrade participou ainda do movimento poesia/processo, modo de expressão visual radical, sem teoria, onde as palavras do poema poderiam desaparecer diante de um simples sinal.
“A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante.”, escreve o artista.
Almandrade fez ainda parte do grupo Etsedron. Devemos nos lembrar que nos anos 1970 aparece a Arte Ambiental, onde os objetos de arte estavam integrados a vida cotidiana. No Brasil, Frans Krajcberg e o Grupo Etsedron se pautaram por intervenções nas paisagens agregando artes plásticas, música, dança, fotografia, literatura e cinema. Obras, integrando-se à natureza e à realidade social do povo brasileiro, que estimulassem os vínculos entre arte e vida.
Escultura, assemblage feita com objetos simples do cotidiano, desenhos, gravuras; todas suas obras participam de uma sutil base de humor, de onde nasce todo o prazer. Ele nos faz pertencer a um mundo inteligente onde é possível conviver com o real. Seu vocabulário gráfico rigoroso, com uma economia de meios, os jogos de formas, às vezes de oposições cromáticas, propõem obras mínimas, sutis e sem falsificações.
Almandrade joga com o cheio e o vazio e ainda com seus textos que colocam o espaço natural em questão, nos obrigando a procura pelo entendimento de seus enigmas. A partir de seus Ready Made mentais, de signos e de palavras simples, eles nos força ainda a refazer mentalmente o processo de construção da obra, podendo levar à frustração imposta pela dúvida. Suas obras silenciosas e sintéticas sob formas essenciais são aforismos visuais que conduzem a novas percepções e concepções.
"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
Ferreira Gullar
(*) A revista "Semiótica" só teve um número, julho de 1974; éramos estudantes sem qualquer pretensão, os outros que faziam parte do grupo se dedicaram a outras atividades, não pretendiam ser artistas nem poetas. Foi uma experiência numa cidade provinciana que desconhecia a vanguarda e recusava a contemporaneidade, não tínhamos apoio, foi uma publicação com seus erros.
Fonte: Roberto Alban Galeria, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Biografia - Wikipédia
O artista participou de mais de trinta mostras individuais e coletivas de artes plásticas, dentre elas três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Seus trabalhos estão em acervos particulares e públicos, por exemplo, o Museu de Arte Moderna da Bahia e a Pinacoteca Municipal de São Paulo. Publicou oito livros e integrou coletivas de poemas visuais no Brasil e exterior entre 1975 e 2012.
Críticas
"É dono de um estilo que chega a espantar pela coerência de transitar em diversos suportes, inclusive a palavra, sem perder o rigor e a responsabilidade com a linguagem e o pensamento."
Gilberto Motta
Livros
Obscuridade do riso (1982)
Poemas (1988)
Suor noturno (Editora Fator, 1993)
Poesias (1997)
Arquitetura de algodão (Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000)
Escritos sobre artes (2008)
Prêmios
Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82.
Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Almandrade expõe obras que resumem 40 anos de arte
Poemas visuais, desenhos e pinturas que traduzem o espírito dos 40 anos de carreira do artista plástico baiano Almandrade. Essa é a ideia que permeia a mostra Entre a Palavra e o Conceito, aberta à visitação a partir de quinta-feira, 18, na Roberto Alban Galeria, em Ondina.
"Essa exposição traz um apanhado geral dos meus trabalhos desde os anos 1970", explica o artista. Com curadoria do francês Marc Pottier, a mostra apresenta cerca de 40 trabalhos que aliam formas às palavras através de diferentes suportes, sob a estética do neoconcretismo - movimento que evoca a subjetividade e a expressividade do objeto artístico.
"Não são obras totalmente diferentes, mas são momentos diferentes", conceitua o artista. Desse modo, Entre a Palavra e o Conceito guia o olhar do apreciador sobre o desdobramento de obras como pinturas, poemas visuais e projetos de instalação. O objetivo, segundo Almandrade, é "mostrar uma linha de trabalho, uma trajetória".
Formado em Arquitetura, mestre em Desenho Urbano, artista plástico e professor de teoria da arte nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia e do Palacete das Artes, Almandrade já participou de quatro edições da Bienal de São Paulo, além de exposições individuais e coletivas Brasil e mundo afora.
Arte conceitual
Linhas geométricas em contraste com palavras. É através desse conceito que o artista se manifesta. Com poesia concreta até no nome, Antônio Luiz Morais de Andrade, o Almandrade, traz a palavra como elemento de composição.
"A palavra é um elemento que participa do trabalho, ao mesmo tempo ela faz parte de um elemento conceitual", define. Assim, a poesia de Almandrade se traduz na expressão das linhas e cores, criando um sentido que depende da relação com o espectador para fazer sentido.
Segundo o artista, as ideias expressas em seu trabalho são voltadas para o olhar. "Na verdade, as obras de arte não são feitas para falar, são feitas para olhar. O homem que tem mania de falar de tudo e quer falar de obra de arte", reflete.
Desse modo, enquanto faz um apanhado geral da carreira, o artista plástico baiano reforça o diálogo com o público. "Há sempre um abismo entre o que eu falo e o que alguém fala", comenta. É justamente esse abismo que permite as múltiplas interpretações acerca de um trabalho artístico.
"É como se o artista estivesse compartilhando com o observador um conhecimento secreto. Por isso que essas obras de arte estão aí principalmente provocando a gente", finaliza.
Fonte e crédito fotográfico: A Tarde, por Débora Rezende, em 16 de junho de 2015.
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Almandrade, por Francisco Antônio Zorzo
Desde a década de 1970, Almandrade incorporou às suas peças a atitude crítica da arte contemporânea. Tendo uma formação universitária como arquiteto pós-Brasilia, veio a assumir uma posição autônoma em relação à geração anterior, que foi muito festejada na Bahia, composta por artistas tais como Cravo Jr., Scaldaferri e Paraíso, entre outros.
Nos primeiros tempos, orientou-se pela abstração construtivista, mas depois derivou por um caminho próprio. Em suas relações com artistas que circulavam ao nível nacional, se aproximou bastante dos criadores Hélio Oiticica e de Lygia Pape e de poetas como Dias Pino e Ferreira Gullar.
Uma lâmina gilete pendurada dentro de uma garrafa compõe um objeto criado por Almandrade que gerou fértil polêmica. Como interpretar um objeto que incorpora significados múltiplos e cortantes, do vidro e do aço da realidade? Cada objeto construído depende do sentido agregado pelo artista e pelo espectador. Da parte do escultor, uma atribuição de sentido que lhe correspondeu a uma experimentação e a uma reflexão singular. No olhar do expectador a leitura pode ir do vértice do absurdo ao erotismo-vulgar de um corte na pele.
No livro que publicou recentemente reunindo análises realizadas no correr de sua trajetória, Escritos sobre Arte, Almandrade deu a pista para muito de seus truques e procedimentos operativos. O importante, no caso da produção desse artista “cult” baiano é que obras e discursos se traduzem um ao outro, bem como conservam sintonia com sua proposta estética. Essas reflexões são importantes, porque a estética engendrada não atendeu a nenhuma chamada gregária no sentido de banalizar a arte baiana.
Como pode um objeto ser capaz de, ao mesmo tempo, causar uma fruição direta e uma decodificação crítica? As obras de Almandrade primam pela simplicidade e pela economia de meios. Ele certamente está entre os menos barrocos produtores visuais do período entre os anos 1980 e 2000 no Brasil. Os objetos e pinturas discutiram sempre os conceitos em voga e instalaram a cunha de resistência de um pensamento rigoroso.
Para deixar mais um exemplo de suas criações, vale retomar um objeto que expôs numa galeria do Rio Vermelho, anos atrás. Um instrumento quadrado composto de duas peças sobrepostas, uma grande azul e uma pequenina dourada no meio, sendo a primeira delas vazada e riscada com linhas brancas. Esse objeto poético-visual foi denominado “Violão da Bossa Nova”. Ao fazer soar esse violão quadrado soar, Almandrade conduziu, como um mestre, seu olhar reflexivo e solitário sobre os campos das artes e da cultura contemporânea no país.
As esculturas de Almandrade
Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.
Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.
Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.
O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.
O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.
As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.
Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.
As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.
Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?
Fonte: Portal Artes, por Francisco Antônio Zorzo, professor da UFBA, publicado em 6 de dezembro de 2011.
Antonio Luiz Morais de Andrade (São Felipe, BA, 12 de maio de 1953), mais conhecido pelo pseudônimo de Almandrade, é um artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte brasileiro.
Biografia
Almandrade é artista visual e poeta com formação em arquitetura e urbanismo com uma produção alinhada em diferentes suportes que se fundamenta a partir de dois eixos: a arte construtiva e a arte conceitual, sem deixar de lado as conquistas e influências da poesia concreta e do Poema/Processo. O procedimento de Almandrade se resume em práticas semióticas que se apropriam de um repertório mínimo de signos em seus diferentes suportes. A exposição traz alguns exemplos de uma extensa produção de mais de quatro décadas.
O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo dos anos, como um lugar de reflexão à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 1970, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcaram a produção deste artista na segunda metade da década de 1970.
No começo dos anos 1980, redescobre a cor e os trabalhos – pinturas, objetos e esculturas – ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência. Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidade, reinventando novas leituras.
Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Realizou cerca de trinta exposições individuais em vários Estados.
Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais.
Exposições coletivas
XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo;
"Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo;
IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio);
Feira Nacional (S.Paulo);
II Salão Paulista
I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza);
I Salão Baiano;
II Salão Nacional;
Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972.
Acervos
Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Museu de Arte Moderna da Bahia;
Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro);
Museu da Cidade (Salvador);
Pinacoteca Municipal de São Paulo;
Museu Afro (São Paulo);
Museu de Arte do Rio Grande do Sul;
Itaú Cultural;
Museu de Arte do Rio de Janeiro;
Brasil Golden Art.
Vive e trabalha em Salvador, Bahia
Almandrade por Marc Pottier
A 3a Bienal da Bahia em 2014 foi para mim uma ocasião privilegiada para descobrir o trabalho de Almandrade. Vários aspectos de sua obra foram apresentados. Uma primeira proposta foi um incrível exercício tridimensional, indo de uma grande escultura localizada no campus de Ondina (UFBA) a formidáveis maquetes em pequena escala no Convento de São Bento: composições coloridas que dialogam com a paisagem e os edifícios ou os volumes do convento, evocando, em um interessante paradoxo, o rigor das formas de Franz Weissmann ou de Amilcar de Castro, mas também um labirinto de Hélio Oiticica (como podemos ver hoje em Inhotim). Poderíamos pensar ainda em Mondrian, com suas paisagens-composições refinadas, feitas de horizontais e verticais. Os diferentes planos que se interpenetram oferecem aos visitantes um jogo equilibrado de formas geométricas coloridas e arejadas, em algumas situações, por janelas de sombra e luz de tradição construtivista e minimalista. Como Francisco Antônio Zorzo chama atenção, Almandrade “intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira”. Na verdade, ao descobrir essa obra tentacular, a Bienal apresentou também numerosos desenhos e poemas, assim as referencias artísticas se apagam um pouco e nos fazem viajar para longe da Bahia.
“A pintura é concreta e não abstrata porque nada é mais concreto, mais real do que uma linha, uma cor, uma superfície”, reivindicava Theo Van Doesburg e os membros do grupo de Arte Concreta formada em 1930, em Paris. Eles pregavam uma forma de arte não figurativa, tendo rompido com todos os outros processos de abstração do mundo real e privilegiando a manipulação direta e racional dos constituintes plásticos da obra de arte. Almandrade pertence a era do pós-construtivismo, incorporando a contribuição do neo-concretismo brasileiro e ainda a do movimento da Poesia Concreta, redistribuindo postulados da Arte Concreta por um diálogo precursor com a Arte Conceitual.
Mas essa participação na Bienal da Bahia foi apenas uma amostra, um aperitivo antes de sentar a mesa para quem desejar descobrir quem é Almandrade e as diferentes faces de sua obra magistral.
O menos que se pode dizer é que há 45 anos Almandrade, nascido em 1953, arquiteto de formação, mostra ter mais de um coelho na cartola. A vocês se deixarem impressionar! Teórico, jornalista, professor de arte em Salvador, na Bahia... Como artista, sua obra faz malabarismo com esculturas e instalações, gravuras e desenhos. Desde os anos 1980, ele é o autor de vários livros e coletâneas de poemas. Antes, em 1974, havia editado a revista “Semiótica”*.
Ele nos conduz, a sua maneira, invocando o construtivismo, o minimalismo, letrismo e o conceitualismo. Essa é a razão, sem nenhuma dúvida, pela qual sua criação atinge escalas maiores com seus poemas visuais. Se ele tem como origem a Bahia, sua obra tem uma vocação universal. Como disse Oscar Wilde: “meu lugar é o mundo”, amaria dizer Almandrade. Ele rapidamente inventou sua própria assinatura na qual se destacam as influências de Hélio Oiticica ou Lygia Pape em termos estéticos, ou de seu caro amigo Wlademir Dias Pino e Ferreira Gular no mundo da poesia.
Bataille, Jorge Luis Borges, Lautréamont, Sade, Bachelard, Machado de Assis, Italo Calvino, entre outros, são suas referências. Em 1973, ele encontrou em Salvador Augusto de Campos (um dos fundadores do movimento de Poesia Concreta no Brasil, assim como da revista literária Noigandres), e foi também amigo do famoso poeta, tradutor, crítico e ensaísta Décio Pignatari. “A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular”; dizia Pignatari.
Necessário lembrar que a Poesia Concreta nasce simultaneamente em diferentes países do mundo nos anos 1950, como um movimento de vanguarda. Trata-se de uma arte carregada de tendências experimentalistas que nasce a partir de novas formas de organização do texto. Esse movimento poético se distancia das estruturas convencionais. Ele formou um novo paradigma poético, influenciado pelos movimentos dada, modernista e futurista, assim como por grandes pensadores e poetas como Stéphane Mallarmé (a grande referência desse movimento), Apollinaire, Lewis Carroll, Alfred Jarry, Ezra Pound, James Joyce... o movimento concretista foi lançado publicamente no Brasil na Exposição Nacional de Arte Concreta, entre dezembro de 1956 (São Paulo) e fevereiro de 1957 (Rio de Janeiro). Essa nova forma de poesia, que se funda sobre uma tradição da poética visual, é definida como “um elemento da teoria da comunicação e da semiótica”. A frase é desorganizada, o discurso partido com suas próprias palavras desordenadas, com a intenção de criar novas relações entre elementos sintáticos, procurando mesmo romper com sua própria sintaxe. O espaço gráfico toma um novo papel no poema. Almandrade sente-se como um artista gráfico conversando com a literatura e quer afirmar que a poesia faz também parte das artes visuais.
Sob a forte influência da poesia concreta, o próprio nome do artista se torna assim sua primeira obra: “Antônio Luiz M. Andrade, cujas iniciais formam A.L.M.A., daí o compósito ‘Almandrade’. Mas esse é o país dos “Andrades”: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade... Destaco que ‘Almandrade’ lembra também o proparoxítono “Sousândrade”. Assim temos uma reunião de nomes de poetas marcados pela irreverência, pela ousadia e, principalmente, pela radicalidade da invenção’, comenta o professor Jayro Luna.
Poderíamos quase dizer que Almandrade inventou uma nova forma de ‘Haiku brasileiro’, reduzido a sua mais simples expressão. As 17 sílabas em três versos se resumem a uma única imagem na qual o grafismo joga com as letras. Essa forma concisa, ativa e viva nos convida a descobrir aquilo que está oculto; ela propõe uma performance visual que obriga o observador a cruzar as informações, descobrir os sons ritmados de sua leitura para poder apreciar plenamente a obra. Esse minimal é muito mais complexo do que parece a primeira vista, e obriga a procura de chaves poéticas para os diferentes ângulos abordados. Seu repertório é geralmente limitado a alguns signos e palavras. O artista leva a linguagem a seus limites e se dá o direito de transformar a ordem e o significado das coisas. É importante para ele inventar outras relações com o mundo e seu cotidiano. “A grande riqueza visual aliada à semântica da proposta fazem de Almandrade um dos mais criativos operários da linguagem. Um construtor.” Gutemberg Cruz. Almandrade participou ainda do movimento poesia/processo, modo de expressão visual radical, sem teoria, onde as palavras do poema poderiam desaparecer diante de um simples sinal.
“A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante.”, escreve o artista.
Almandrade fez ainda parte do grupo Etsedron. Devemos nos lembrar que nos anos 1970 aparece a Arte Ambiental, onde os objetos de arte estavam integrados a vida cotidiana. No Brasil, Frans Krajcberg e o Grupo Etsedron se pautaram por intervenções nas paisagens agregando artes plásticas, música, dança, fotografia, literatura e cinema. Obras, integrando-se à natureza e à realidade social do povo brasileiro, que estimulassem os vínculos entre arte e vida.
Escultura, assemblage feita com objetos simples do cotidiano, desenhos, gravuras; todas suas obras participam de uma sutil base de humor, de onde nasce todo o prazer. Ele nos faz pertencer a um mundo inteligente onde é possível conviver com o real. Seu vocabulário gráfico rigoroso, com uma economia de meios, os jogos de formas, às vezes de oposições cromáticas, propõem obras mínimas, sutis e sem falsificações.
Almandrade joga com o cheio e o vazio e ainda com seus textos que colocam o espaço natural em questão, nos obrigando a procura pelo entendimento de seus enigmas. A partir de seus Ready Made mentais, de signos e de palavras simples, eles nos força ainda a refazer mentalmente o processo de construção da obra, podendo levar à frustração imposta pela dúvida. Suas obras silenciosas e sintéticas sob formas essenciais são aforismos visuais que conduzem a novas percepções e concepções.
"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?"
Ferreira Gullar
(*) A revista "Semiótica" só teve um número, julho de 1974; éramos estudantes sem qualquer pretensão, os outros que faziam parte do grupo se dedicaram a outras atividades, não pretendiam ser artistas nem poetas. Foi uma experiência numa cidade provinciana que desconhecia a vanguarda e recusava a contemporaneidade, não tínhamos apoio, foi uma publicação com seus erros.
Fonte: Roberto Alban Galeria, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Biografia - Wikipédia
O artista participou de mais de trinta mostras individuais e coletivas de artes plásticas, dentre elas três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Seus trabalhos estão em acervos particulares e públicos, por exemplo, o Museu de Arte Moderna da Bahia e a Pinacoteca Municipal de São Paulo. Publicou oito livros e integrou coletivas de poemas visuais no Brasil e exterior entre 1975 e 2012.
Críticas
"É dono de um estilo que chega a espantar pela coerência de transitar em diversos suportes, inclusive a palavra, sem perder o rigor e a responsabilidade com a linguagem e o pensamento."
Gilberto Motta
Livros
Obscuridade do riso (1982)
Poemas (1988)
Suor noturno (Editora Fator, 1993)
Poesias (1997)
Arquitetura de algodão (Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000)
Escritos sobre artes (2008)
Prêmios
Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82.
Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 13 de junho de 2020.
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Almandrade expõe obras que resumem 40 anos de arte
Poemas visuais, desenhos e pinturas que traduzem o espírito dos 40 anos de carreira do artista plástico baiano Almandrade. Essa é a ideia que permeia a mostra Entre a Palavra e o Conceito, aberta à visitação a partir de quinta-feira, 18, na Roberto Alban Galeria, em Ondina.
"Essa exposição traz um apanhado geral dos meus trabalhos desde os anos 1970", explica o artista. Com curadoria do francês Marc Pottier, a mostra apresenta cerca de 40 trabalhos que aliam formas às palavras através de diferentes suportes, sob a estética do neoconcretismo - movimento que evoca a subjetividade e a expressividade do objeto artístico.
"Não são obras totalmente diferentes, mas são momentos diferentes", conceitua o artista. Desse modo, Entre a Palavra e o Conceito guia o olhar do apreciador sobre o desdobramento de obras como pinturas, poemas visuais e projetos de instalação. O objetivo, segundo Almandrade, é "mostrar uma linha de trabalho, uma trajetória".
Formado em Arquitetura, mestre em Desenho Urbano, artista plástico e professor de teoria da arte nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia e do Palacete das Artes, Almandrade já participou de quatro edições da Bienal de São Paulo, além de exposições individuais e coletivas Brasil e mundo afora.
Arte conceitual
Linhas geométricas em contraste com palavras. É através desse conceito que o artista se manifesta. Com poesia concreta até no nome, Antônio Luiz Morais de Andrade, o Almandrade, traz a palavra como elemento de composição.
"A palavra é um elemento que participa do trabalho, ao mesmo tempo ela faz parte de um elemento conceitual", define. Assim, a poesia de Almandrade se traduz na expressão das linhas e cores, criando um sentido que depende da relação com o espectador para fazer sentido.
Segundo o artista, as ideias expressas em seu trabalho são voltadas para o olhar. "Na verdade, as obras de arte não são feitas para falar, são feitas para olhar. O homem que tem mania de falar de tudo e quer falar de obra de arte", reflete.
Desse modo, enquanto faz um apanhado geral da carreira, o artista plástico baiano reforça o diálogo com o público. "Há sempre um abismo entre o que eu falo e o que alguém fala", comenta. É justamente esse abismo que permite as múltiplas interpretações acerca de um trabalho artístico.
"É como se o artista estivesse compartilhando com o observador um conhecimento secreto. Por isso que essas obras de arte estão aí principalmente provocando a gente", finaliza.
Fonte e crédito fotográfico: A Tarde, por Débora Rezende, em 16 de junho de 2015.
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Almandrade, por Francisco Antônio Zorzo
Desde a década de 1970, Almandrade incorporou às suas peças a atitude crítica da arte contemporânea. Tendo uma formação universitária como arquiteto pós-Brasilia, veio a assumir uma posição autônoma em relação à geração anterior, que foi muito festejada na Bahia, composta por artistas tais como Cravo Jr., Scaldaferri e Paraíso, entre outros.
Nos primeiros tempos, orientou-se pela abstração construtivista, mas depois derivou por um caminho próprio. Em suas relações com artistas que circulavam ao nível nacional, se aproximou bastante dos criadores Hélio Oiticica e de Lygia Pape e de poetas como Dias Pino e Ferreira Gullar.
Uma lâmina gilete pendurada dentro de uma garrafa compõe um objeto criado por Almandrade que gerou fértil polêmica. Como interpretar um objeto que incorpora significados múltiplos e cortantes, do vidro e do aço da realidade? Cada objeto construído depende do sentido agregado pelo artista e pelo espectador. Da parte do escultor, uma atribuição de sentido que lhe correspondeu a uma experimentação e a uma reflexão singular. No olhar do expectador a leitura pode ir do vértice do absurdo ao erotismo-vulgar de um corte na pele.
No livro que publicou recentemente reunindo análises realizadas no correr de sua trajetória, Escritos sobre Arte, Almandrade deu a pista para muito de seus truques e procedimentos operativos. O importante, no caso da produção desse artista “cult” baiano é que obras e discursos se traduzem um ao outro, bem como conservam sintonia com sua proposta estética. Essas reflexões são importantes, porque a estética engendrada não atendeu a nenhuma chamada gregária no sentido de banalizar a arte baiana.
Como pode um objeto ser capaz de, ao mesmo tempo, causar uma fruição direta e uma decodificação crítica? As obras de Almandrade primam pela simplicidade e pela economia de meios. Ele certamente está entre os menos barrocos produtores visuais do período entre os anos 1980 e 2000 no Brasil. Os objetos e pinturas discutiram sempre os conceitos em voga e instalaram a cunha de resistência de um pensamento rigoroso.
Para deixar mais um exemplo de suas criações, vale retomar um objeto que expôs numa galeria do Rio Vermelho, anos atrás. Um instrumento quadrado composto de duas peças sobrepostas, uma grande azul e uma pequenina dourada no meio, sendo a primeira delas vazada e riscada com linhas brancas. Esse objeto poético-visual foi denominado “Violão da Bossa Nova”. Ao fazer soar esse violão quadrado soar, Almandrade conduziu, como um mestre, seu olhar reflexivo e solitário sobre os campos das artes e da cultura contemporânea no país.
As esculturas de Almandrade
Cada uma das peças compõem-se de duas placas encaixadas que foram colocadas diretamente sobre o chão. As placas são recortadas e vazadas e não se empregam pregos, colas ou emendas.
Para se traçar um paralelo dentro da arte contemporânea dessas peças com objetos de outros artistas, seria interessante dizer que as esculturas de Almandrade mantém uma certa identidade com as de Franz Weissman e Amílcar de Castro. O construtivismo, a economia material e a escolha de cores simples são conceitos presentes na obra dos três artistas. No entanto, há elementos de distinção. Franz Weissman e Amílcar de Castro usam solda ou dobra na confecção de seus objetos.
Almandrade usa como procedimento de montagem o encaixe direto, onde os planos de madeira laminada se interpenetram e se apoiam mutuamente.
O fato de não haver dobra nas peças de Almandrade é um índice importante para a análise de sua obra. Almandrade intencionalmente mantém uma distância do barroquismo, do expressionismo e de outras tendências do tipo sensual muito recorrentes na arte baiana e brasileira.
O barroco tem muitas seduções. A dobra que vai ao infinito é um artifício barroco que ultrapassa sua própria moda e seus limites históricos (ver Deleuze em A Dobra, Leibnitz e o Barroco). Com a dobra, a escultura ganha uma vibração especial, estendendo-se à arquitetura e alcança espaços cada vez mais amplos. Trata-se de uma ilusão de ótica que realmente abre um campo de significados.
As peças de Almandrade não possuem a dobra, evitando o seu ilusionismo. A dobra na escultura permite a mudança de plano sem rupturas de continuidade. O olhar que acompanha um plano ao passar pela dobra aceita a mudança de direção e é convidado a avançar sucessivamente até deslizar em uma outra dobra. A dobra provoca um despistamento que, se por um lado seduz, por outro distrai o expectador. Pode-se dizer, além disso que a ambivalência da dobra percorre uma espiral que vai do desejo à melancolia. Ao suprimir a dobra Almandrade parece estar procurando evitar a dispersão intelectual e o efeito de superfície.
Curiosamente, nos retábulos barrocos brasileiros, no entanto, as peças de madeira que sustentavam as dobras e curvas das superfícies ornamentadas, eram montadas com encaixes. Esses encaixes tinham que ser perfeitos em sua geometria. O barroco recorreu em suas bases construtivas a técnica do ensamblamento. Ensamblar significava, no dicionário de arquitetura e ornamentação, reunir, juntar, encaixar peças de diversos materiais. Um glossário do barroco mineiro traz uma referência documental, datada de 1771, referente à construção de uma igreja em Sabará, de um “ensamblamento” de pedras, com ferro e chumbo.
As peças reunidas nos retábulos de madeira das igrejas barrocas deviam ser ensambladas, quer dizer, encaixadas uma nas outras, sem a necessidade de recorrer-se a pregos ou colagens.
Nesse sentido as peças de Almandrade contém um ar clássico que, pode-se afirmar, continua atravessando até hoje, energicamente, o mundo material das artes plásticas. Esse trabalho parece estar respondendo a pergunta fundamental, o que assegura a expansão expressiva infinita (da arte, da imaginação, das dobras) em relação ao portador finito (a madeira, o ferro, a pedra)? Qual é estrutura construtiva, quais são os encaixes e as articulações que permitem a realização de uma obra?
Fonte: Portal Artes, por Francisco Antônio Zorzo, professor da UFBA, publicado em 6 de dezembro de 2011.