Jarbas Lopes (1964, Nova Iguaçu, RJ) é um artista visual brasileiro. Reconhecido por sua atuação na arte contemporânea com foco em obras interativas, esculturas, instalações e projetos coletivos, Jarbas é formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFRJ em 1992. Desenvolveu uma linguagem singular que combina práticas artesanais, objetos do cotidiano, mobilidade e crítica social. Suas obras transitam entre escultura, desenho, performance e ação pública, muitas vezes envolvendo participação do público e ativação no espaço urbano. Influenciado pelo modernismo, movimentos contra-hegemônicos e arte relacional, sua produção destaca-se por explorar a noção de coletividade, utopia e experimentação. Projetos emblemáticos como Cicloviaérea (2001) e Troca-troca (2002) são exemplos do seu compromisso com a reinvenção poética da vida cotidiana. Participou de exposições em instituições como o MoMA (Nova York), Victoria & Albert Museum (Londres), Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio (MAR) e Inhotim (MG), onde possui obras permanentes. Sua produção está presente em importantes acervos e coleções no Brasil e no exterior.
Jarbas Lopes | Arremate Arte
Jarbas Lopes, nascido em 1964, em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, é um dos nomes mais proeminentes da arte contemporânea brasileira. Com uma trajetória marcada pela transgressão das fronteiras entre arte e vida, sua produção se distingue pela criação de obras híbridas, interativas e poéticas, que buscam instaurar novas formas de relação com o mundo. Formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992, Lopes desenvolveu um corpo de trabalho que transita com liberdade entre escultura, instalação, desenho, pintura, performance e publicações, muitas vezes incorporando práticas colaborativas e elementos do cotidiano.
Radicado em Maricá (RJ), o artista construiu ao longo das décadas uma obra profundamente vinculada a valores como coletividade, mobilidade, utopia e crítica à lógica do consumo. Projetos como Cicloviaérea (2001), em que propõe um circuito suspenso de bicicletas como alternativa poética de deslocamento, ou Troca-troca (2002), em que carros são desmontados e remontados com peças de diferentes origens, exemplificam sua constante busca por repensar os sistemas funcionais da sociedade a partir de gestos simbólicos e experiências sensoriais. Seu processo criativo valoriza o fazer manual, o improviso, o afeto e o encontro, desafiando a rigidez institucional e abrindo espaço para outras formas de criação e circulação artística.
A relação com o público ocupa papel central em sua obra. Em muitos de seus trabalhos, o espectador é convidado a participar ativamente, seja ativando objetos, caminhando por instalações ou interagindo com esculturas. O artista transforma a arte em território de convivência, questionamento e reinvenção das formas de estar no mundo. Para além das galerias e museus, suas ações frequentemente ocupam o espaço urbano, interferindo na paisagem e suscitando experiências que cruzam arte, arquitetura, ecologia e política.
Jarbas Lopes participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, incluindo mostras no MoMA (Nova York), no Victoria & Albert Museum (Londres), na Pinacoteca de São Paulo, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Inhotim, onde mantém obras de destaque na coleção permanente. Sua produção integra acervos públicos e privados relevantes, sendo amplamente estudada por críticos e curadores.
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Jarbas Lopes | Itaú Cultural
Jarbas Lopes Júnior (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1964). Artista plástico, performer, organizador de livros. Sua obra discute temas como corpo, tecnologia, comunidade, sociedade de massa, sustentabilidade e imagem, muitas vezes num tom bem-humorado e incentivando a participação do público.
Forma-se bacharel em escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992. Sua primeira exposição individual ocorre em 1998, na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, e apresenta pinturas-objetos e instalação. As pinturas-objetos são obras realizadas com tiras trançadas de plástico, vindas de um universo popular e que aproximam a arte da vida cotidiana. Dois desses trabalhos são Vira-casaca (1996) e Rio de Janeiro (1997), em que o artista recria paisagens cariocas.
A instalação intitulada Um quarto para José Pedro (1998) é realizada com materiais de construção e cria um ambiente sensorial que remete às instalações de Hélio Oiticica (1937-1980), artista carioca pioneiro numa arte preocupada em envolver o espectador, mergulhando-o fisicamente em suas obras. Oiticica e Lygia Clark (1920-1988) são referências declaradas de Jarbas Lopes. Essa instalação também é montada, em 2001, no 27º Panorama da Arte Brasileira, exposição coletiva periódica do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). A respeito dessa obra, o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014) afirma que nela se nota o diálogo entre cultura popular e cultura de massa, a discrepância entre as pretensões da arte de âmbito institucional e as verdades da cultura da escassez de recursos.
Seus trabalhos articulam linguagens, técnicas e materiais populares para discutir e problematizar temas importantes, em uma produção que, de acordo com o crítico e curador Lauro Cavalcanti (1954), funde aspectos e materiais da cultura popular com linguagens da arte erudita.
A partir de 2002, produz a série O debate, cujas obras também se valem da técnica de tiras trançadas, exploradas ao longo de sua carreira. Aqui, o material plástico vem de cartazes de propaganda eleitoral feitos em lona. O resultado são figuras deformadas e assustadoras de políticos, numa problematização de aspectos como vida social, política, persona política, imagem e marketing. Exemplo disso é uma obra sem título de 2019 em que se distingue a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (1955), com vestígios da bandeira nacional ao fundo. Para o crítico e curador Luiz Camillo Osorio (1963), nessa série o artista monta “uma cena que perverte e reinventa a figuração”. Como pontuado por Osorio, nas obras de Jarbas Lopes, a discussão da política não acontece por meio de um discurso programático e ideológico. Em vez disso, o artista desloca imagens e elementos materiais.
Troca-troca (2002), incorporada mais tarde à coleção do Instituto Inhotim, centro de botânica e artes visuais em Brumadinho, Minas Gerais, é sua obra mais conhecida pelo público. Exposta num jardim, é composta de três fuscas, originalmente amarelo, azul e vermelho, que têm suas latarias trocadas, resultando em carros multicoloridos. Antes de serem incorporados a essa coleção, foram utilizados numa viagem do artista e amigos da cidade do Rio de Janeiro a Curitiba, no Paraná, para serem expostos no Museu de Arte Contemporânea (MAC-PR). A comunicação entre os veículos se dava por meio de um sistema de som.
Desde pelo menos 2003, participa da organização de uma série de zines – publicações artísticas independentes de baixa tiragem que exploram linguagens artísticas diversas, tais como o desenho, a poesia e a ilustração. Entre eles, destacam-se dois sem títulos do poeta Guilherme Zarvos (1957), que articulam desenho e caligrafia infantis e poesia, ambos de 2014.
Em 2011, participa, com Ciclovia aérea, do 32º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP. Trata-se de instalação temporária que foi montada no Parque Ibirapuera: uma pequena ciclovia sobre uma plataforma, cujas laterais são espelhadas. A obra discute diversos temas importantes para o artista, tais como “sustentabilidade, mobilidade, coleta seletiva, energia limpa, bicicleta”, de acordo com o que ele próprio escreve no zine relativo a esse projeto. Essa obra faz parte do projeto Cicloviaérea, que surge em 2001 como um plano utópico ou visionário que propõe a criação de ciclovias suspensas para lidar com o trânsito de áreas urbanas. Bicicletas adornadas com trançados de vime e borracha fazem parte desse projeto, atraindo a atenção do público.
Jarbas Lopes tem uma abordagem criativa que busca incorporar a participação do público à arte. Além disso, sua produção articula materiais e técnicas de origem popular com movimentos artísticos. Sua relevância vem da discussão de temas significativos para a sociedade atual a partir dessa articulação.
Exposições
1992 - 2ª Bienal Internacional de Gravura
1992 - 16º Salão Carioca de Arte
1995 - 19º Salão Carioca de Arte
1996 - Projeto Macunaima
1996 - Projeto Quatro Quadros
1996 - Individual de Jarbas Lopes
1996 - Arte: experiência e pesquisa : acervo do CCCM dos últimos 3 anos
1996 - Antarctica Artes com a Folha
1997 - Cidade Oculta
1997 - 2º Projeto Abra / Coca-Cola de Arte Atual
1997 - 25º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - 16º Salão Nacional de Artes Plásticas
1998 - Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas
1998 - Jarbas Lopes: pintura-objeto e instalação
1998 - Antarctica Artes com a Folha
1998 - A Imagem do Som de Caetano Veloso
1998 - Dez Anos de Casa Triângulo
1999 - Vivia 21 Cura
1999 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
1999 - A Imagem do Som de Chico Buarque
1999 - 6º Salão da Bahia
2000 - Investigações. Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 1
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - BR 500
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - 26ª Bienal de Arte de Pontevedra
2000 - Individual de Jarbas Lopes
2000 - A Imagem do Som de Gilberto Gil
2000 - 7º Salão da Bahia
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira Rio de Janeiro
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira (Bahia)
2002 - Imaginário Periférico
2002 - 20 Artistas / 20 Anos
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 - Caminhos do Contemporâneo: 1952/2002
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Canteiro de Obras do Circo Voador
2002 - Faxinal das Artes
2002 - Livro: objeto da arte
2003 - Alfândega 1
2003 - Individual de Jarbas Lopes
2003 - Gambiarra: new art from Brazil
2003 - 8ª Bienal de Havana
2003 - Infantil
2003 - Arte Brasileira no Acervo do MAP
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Tudo É Brasil - Rio
2004 - Exposição 1 Ano: coletiva na A Gentil Carioca
2004 - Pampulha, Obra Colecionada: 1943-2003
2004 - Tudo É Brasil (2004 : São Paulo, SP)
2005 - RAMPA: Signaling New Latin American Art Initiatives
2005 - Coleções VI
2005 - Além da Imagem
2006 - Política: di - vi - da
2006 - 27ª Bienal Internacional de São Paulo
2007 - Close to Me
2007 - Itaú Contemporâneo: arte no Brasil 1981-2006
2007 - 4ª Bienal de Valência
2007 - Recortar e Colar | CtrlC CtrlV
2008 - Coletiva na A Gentil Carioca
2008 - Paper Trail: 15 Brazilian Artists
2008 - Cicloviaérea
2008 - Seja Marginal, Seja Herói
2008 - 3ª Mostra do Programa de Exposições
2009 - Com Piada
2009 - Padedéu
2009 - Pedregulho
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Recortes de uma Coleção
2010 - Se a Pintura Morreu o MAM é um Céu!
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Paralela 2010
2011 - País Paisagem
2011 - 11ª Bienal de Lyon
2011 - 32º Panorama da Arte Brasileira
2014 - Caos e Efeito
2014 - Vestígios: memória e registro da performance e do site specific
2014 - Há Escolas que São Gaiolas e Há Escolas que São Asas
2014 - Iberê Camargo: século XXI
2015 - Invento: as revoluções que nos inventaram
2016 - Brasil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture
2017 - Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos
2017 - Circulovisão
2018 - Via Aérea
2019 - ARTE NAÏF (Nenhum museu a menos)
2020 - Samba In The Dark
2020 - Patifaria!
2021 - 1981/2021: Arte contemporânea brasileira na coleção Andrea e José Olympio Pereira
2021 - Bum-bum Paticumbum Prugurundum
2021 - A Máquina Lírica
2022 - Obscura Luz
2022 - Por enquanto: os primeiros 40 anos
2022 - Parada 7 - Arte em Resistência
2024 - Uma cadeira é uma cadeira é uma cadeira
Fonte: JARBAS Lopes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 15 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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A mostra individual promove uma visão utópica do mundo e nos instiga a questionar o destino final dos objetos que descartamos | Museu de Arte do Rio
Gira, palavra imperativa que expressa movimento. Movimento esse, que o artista Jarbas Lopes faz com os objetos, ressignificando e apresentando obras que propõem interações pautadas pela coletividade. Essa é a ideia da nova exposição do Museu de Arte do Rio: Gira. A mostra individual de Jarbas Lopes, que promove uma utópica visão de mundo, nos instiga, entre outras coisas, a questionar o destino final dos objetos que descartamos. Na exposição, o artista com trinta anos de trajetória na arte contemporânea brasileira, lida diretamente com o espectador, convidando o público a estar no museu e a interagir com as obras criando uma participação ativa com algumas das peças.
O processo criativo de Jarbas permeia uma reconfiguração dos objetos e das experiências estéticas, dando um novo significado e movimento, sempre permeados por um tom crítico. O artista usa objetos que foram descartados nas ruas, como jornais, revistas, faixas de divulgação de shows e até propaganda política, que ganham novos significados. Ele cria ambientes que trazem histórias chaves para ampliar as arestas da arte e usa materiais do cotidiano como carros, bicicletas, tintas e elásticos. Suas esculturas e pinturas interativas fazem uma fusão entre tempo, espaço e circunstâncias práticas e ideológicas como participação coletiva, sociabilidade para espaços públicos e usos compartilhados da cidade.
“Há um bom tempo que eu tenho pensado nesse caminho que as pessoas podem fazer aqui nessa exposição. É um caminho circular. Circular é pra mim uma referência de pensar a minha expressão. O circular é aquela coisa que vai se repetindo. É o ritmo da própria vida e a arte faz parte disso. Eu trabalho as coisas que vão e voltam, evoluem um pouco, mas vão e voltam” conta o artista Jarbas Lopes.
A exposição, que tem curadoria de Amanda Bonan e Marcelo Campos, apresenta cerca de 100 obras que fazem parte da produção do artista, além de trabalhos inéditos e projetos que só existiam até agora no papel. O público vai encontrar diferentes tipos de obras de Jarbas como esculturas, pinturas, fotografias, desenhos, livros, maquetes e instalações.
“É uma exposição que o tempo todo quer o público e convida o público a estar no museu. O público não precisa entender antes de ver. O ver e o entender estão aliados. O que você está vendo é exatamente o que você precisa para entender o trabalho. Cada um pode interpretar da sua maneira, mas a interpretação não é um empecilho para estar em uma sala da exposição do Jarbas. Porque ela também te convida a usar diversos sentidos” ressalta o curador-chefe do MAR, Marcelo Campos.
Na mostra, o público é levado a se questionar sobre a obsolescência dos produtos: por que jogar fora? Quando uma máquina deixa de servir? O que fazer com os restos e sobras? A obra de Jarbas Lopes nos faz refletir sobre os descartes em um Brasil cujas florestas se tornam desertos. De muitos modos, os objetos que o artista nos oferece se mantêm em uso. Enquanto isso, o artista nos convida a ler e a interpretar o mundo. Não há sobras no trabalho dele. Até os restos entram no pensamento de uma outra parte do trabalho.
“A exposição de Jarbas Lopes chega ao MAR num momento muito oportuno: perto da semana do meio ambiente e das discussões da Rio +30. Ele é um artista que traz consciência ecológica em todos seus trabalhos e nos faz refletir sobre a preservação da biodiversidade brasileira. Acreditamos no importante papel do MAR para a discussão, dialogando com a conscientização sobre o futuro dos nossos ecossistemas e com a preservação de toda biodiversidade.” defende Raphael Callou, Diretor e Chefe da representação da OEI no Brasil, organização responsável pela gestão do museu desde janeiro deste ano.
Fonte: Museu de Arte do Rio. Consultado pela última vez em 16 de abril de 2025.
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Jarbas Lopes | Inhotim
Jarbas Lopes concluiu seus estudos sobre escultura em 1992, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Janeiro. A sua produção reúne esculturas, desenhos, instalações e performances. Também desenvolve projetos conceituais que operam à margem da lógica capitalista, valorizando o pensamento artesanal e a participação do espectador. Na série A paisano, por exemplo, ele recupera a prática popular do trançado para construir com tramas multicoloridas imagens que ficam entre a pintura e a escultura. Sua obra faz parte de importantes coleções como as do MAM – Museu Arte Moderna do Rio de Janeiro, do MoMA – Museum of Modern Art (EUA), Victoria & Albert Museum (Inglaterra) e da Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA).
Troca-Troca
Troca-troca (2002) é uma obra de Jarbas Lopes composta por três fuscas coloridos, originalmente amarelo, azul e vermelho, que tiveram suas latarias trocadas, resultando em três carros multicoloridos. Eles foram usados em 2002, pelo artista e um grupo de amigos, em uma viagem do Rio de Janeiro a Curitiba. A comunicação entre os carros era feita por meio de um sistema de som interligado.
No caminho, colaram adesivos nos para-brisas dos carros que encontravam na estrada, produzidos a partir do arquivo de palíndromos do artista Luis Andrade: “zé deserto, três é dez”, “a vadia saída vã”, e “e o bolero; borel oboé”, entre outros. Em 2007, após o restauro, os carros novamente ganharam a estrada, dessa vez de Belo Horizonte a Brumadinho, depois de percorrer as comunidades do entorno.
Fonte: Inhotim. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Sobre Jarbas Lopes | Luisa Strina
O trabalho de Jarbas Lopes transita entre pintura, escultura, desenho, livros de artista e performance. Muitos de seus trabalhos são participativos ou sensoriais, e o artista encoraja os participantes a tocar, segurar, movimentar e virar páginas. Projetos utópicos são planejados e feitos para envolver a comunidade e oferecer novas formas para a sociedade funcionar.
Exposições individuais recentes incluem: Eixos, Pinacoteca de São Paulo (2023); Gira, MAR - Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (2022); e a u, CRAC Alsace, Altkirch (2017); Circulovisão, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2017); Galeria Baginski, Lisboa (2015); Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro (2013); Park Central, Tilton Gallery, New York (2010); Cicloviaérea, Museo Nacional de Bellas Artes, Santiago (2010); Padedéu, in collaboration with Laura Lima, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2009).
Exposições coletivas recentes incluem: 3a. Bienal de Vila de Gaia, Vila Nova de Gaia (2019); ‘Brazil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture’, Museum Beelden aan Zee, Haia (2016); ‘Provocar Urbanos: Inquietações sobre a Cidade’, Sesc Vila Mariana, São Paulo (2016); ‘E de novo montanha, rio, mar, selva, floresta’, SESC Palladium, Belo Horizonte (2016); ‘(de) (re) construct: Artworks from the Permanent Collection’, Bronx Museum, Nova York (2015); ‘Look.look.again.’, The Aldrich Contemporary Art Museum, Ridgefield (2009); ‘Desenhos: A-Z’, Museu da Cidade, Lisboa (2009).
Coleções das quais seu trabalho faz parte incluem: CACI Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brasil; Victoria and Albert Museum, Inglaterra; The Cisneros Fontanals Art Foundation, EUA; Henry Moore Foundation, Inglaterra; MAM/Rio Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Museu de Arte da Pampulha, Brasil; Fundación ARCO, Espanha; MoMA Museum of Modern Art, EUA; TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Áustria.
Fonte: Luisa Strina. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Um futuro para hoje | Select Art
“Ciclotransamazonicaaérea é uma poética intermodal cujo eixo condutor de produção de experiência é o tecnoxamanismo do encaixe humano-bicicleta. Convida-nos a imaginar, com a totalidade inacabada de nossos corpos uni e pluricelulares, utopias materializáveis e materializadas. Se com a morte do último xamã amazônico o céu cairia sobre todos, com a instalação do primeiro pilar da cicloviaérea a pele do céu se estica mais alto.” O novo desdobramento da série Cicloviaérea (2001-2022), pensado para atravessar 600 quilômetros na Amazônia sem derrubar uma única árvore, foi anunciado em um zine não datado que a Editora Kadê, do artista Jarbas Lopes, publicou e pôs para circular há alguns anos.
Esse é o modus operandi do projeto estético-político mais longevo de Jarbas Lopes. Desde os primeiros estudos, desenhos e das primeiras bicicletas customizadas com o hoje conhecido trançado de vime que recobre e ornamenta a bike, a Cicloviaérea costuma provocar uma dúvida: trata-se de um projeto de urbanismo ou de uma utopia? Deparar com os objetos, desenhos e maquetes em uma exposição (por exemplo, na Bienal de São Paulo de 2006 ou no Panorama do MAM em 2011) gera essa ambiguidade entre uma proposta pragmática, de realização possível na trama urbana, e algo da ordem do sonho, como uma possibilidade de imaginar um mundo que a gente sabe que não vai existir. O paradoxo transfigura-se diante dos trechos experimentais móveis da Cicloviaérea, já instalados no Sesc Belenzinho, em 2018, e no Parque do Ibirapuera, no período do Panorama 2011, entre outros, quando a experiência deste trabalho coletivo pode ser vivida coletivamente. De utópico, o trabalho realiza-se à medida que é usado e partilhado. A Cicloviaérea está se realizando há 20 anos, toda vez que alguém pega uma bike do projeto, seja na Pampulha, seja no Sesc, e dá um rolê.
“São utopias possíveis, não é? Depois de um tempo, fui ver que existe também esse pensamento das utopias possíveis em diferentes filósofos, como algo estudado no campo do conhecimento. Mas isso tudo parte de uma ideia que me vem intuitivamente, em 2001, como uma resposta que poderíamos chamar de positiva para a esfera política e para a sociedade”, diz Jarbas Lopes à seLecT. “Dentro dessa lógica ou percepção de protesto, ou manifesto, o que poderia ser uma resposta, o que é que a gente pode resolver então nessa confusão? O que seria, afinal, divertido também?”, questiona. “Assim veio essa ideia da Cicloviaérea. Não é uma questão só da bicicleta. É sobre o prazer. Ele abrange tudo, ele abre uma plataforma, como se diz atualmente, e, quando surgia essa leitura, da utopia, eu respondia que era um futuro pra hoje.”
ANTES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Lopes costuma trabalhar com enunciados para suas obras. O da Cicloviaérea descreve “uma pista suspensa com um pequeno declive em sua extensão que proporcionará uma leve força a favor em seu percurso, facilitando longas distâncias de bicicleta dentro do cotidiano de transações urbanas”. Começar a usar a “tecnologia do corpo” era para já, desde o enunciado de 2001, muito antes de as ciclovias se disseminarem nas políticas públicas. Um entendimento político das tecnologias perpassa a pesquisa do artista. “É como agora com o celular, que primeiro era uma coisa futurista, de um alcance inimaginável, mas que logo depois começa a criar problemas, como todas essas invenções, certo? O avião, por exemplo. Alguns anos depois de ser inventado, estava jogando bomba na cabeça dos outros. Daí a importância de propor uma resposta no campo político, porque somos atingidos também, somos afetados por tudo isso”, reflete.
Além do enunciado-manifesto, o projeto sempre foi acompanhado de desenhos, em que Jarbas Lopes representa não a própria Cicloviaérea, mas o imaginário que ela gera. A CicloTransAmazônicaAérea começou a ser gestada entre 2015 e 2016. “Comecei a imaginar essa ideia de migrar da via para o trans, como se fosse uma ficção de novo. Porque na cidade isso já se realizou. Então, o novo território da ação passa a ser a Amazônia. É uma proposta que eu acho que pode acontecer. A gente gosta de ficar construindo coisas, as civilizações. Uma vez, encontrei um engenheiro argentino que tinha cruzado a Amazônia com uma linha elétrica, com o cabeamento da rede elétrica. Eles abriram uma faixa de 3 metros de largura por 600 quilômetros. Só que ali cortaram tudo, né? Detonaram geral. Então é isso, será que a gente não pode, se fizeram isso, fazer uma cicloviazinha?”, diverte-se.
Estamos na segunda sala da exposição GIRA, no Museu de Arte do Rio, quando Jarbas fornece essas explicações. Em frente aos desenhos da CicloTransAmazônicaAérea, feitos com esferográficas azuis, vermelhas, pretas e verdes, uma enorme maquete é habitada por plantas que o artista e duas colaboradoras especiais, Katerina Dimitrova e Amora Dimitrova Lopes, trouxeram de casa, em Maricá, para criar o jardim que faz as vezes da Amazônia na escultura. Em um sábado ensolarado de fim de julho, o MAR está cheio de visitantes e a exposição individual de Jarbas Lopes prende a atenção, porque mobiliza muito mais do que os olhares. Na primeira sala, por exemplo, três obras da série Shock Pintura – estruturas de alumínio com cordas de alpinismo trançadas – podem ser usadas para balançar o corpo; e uma bancada com diversas publicações da Editora Kadê convida o visitante a se sentar e passear pelos livros-objetos do artista, que concentram as suas experimentações estético-políticas, sempre democraticamente colocadas em circulação.
TECNOLOGIA XAMÂNICA
O título da mostra vem da mesma raiz: girar, circular. Este, o ponto de partida de toda a pesquisa do artista, que articula a ideia de uma “tecnologia xamânica”. Tecnologia significa uma vastidão de saberes contraditórios no léxico de Jarbas Lopes. “Como é que a pessoa entra na Amazônia? Vou vestir uma bota, vou botar um capacete? Vou fazer uma armadura de fibra de carbono, superleve, mas que pode vir um jacaré morder, não vai ter problema. Ou um inseticida. Não, você tem ali uma energia xamânica que o adapta melhor, de modo que você não precisa de ninguém pra ficar carregando sua mala na hora que você está andando lá. Nem carrinho pra puxar a mala, sabe? Está querendo uma pousada, um resort pra você mergulhar na piscina? Não, você se adapta igual a esses povos que vivem já há milênios em convivência com esse ambiente, mas você mantém também essa relação com o urbano, uma coisa que a gente tem. Não é só uma crítica a isso, mas uma relação entre as duas coisas, um jeito de compreender esse ambiente, utilizá-lo de outra forma, por outra lógica, e sempre ligado a essa coisa do prazer.”
Nascido e criado na Baixada Fluminense, Jarbas conta que a visualidade do subúrbio carioca sempre informou seus trabalhos, como se vê na escultura-tenda DEEGRAÇA (1998), que mostrou no Panorama MAM de 2001 e na coletiva Gambiarra (2003), na Gasworks, em Londres. Feita de faixas de ráfia costuradas, ela delimita um território de 25 metros quadrados, que já abrigou performances musicais, festas e outras ações por onde passou, e cabe em uma sacola (também de ráfia, que tem o título do trabalho). “Esses materiais todos têm também o lado estético. São coloridos, têm a coisa gráfica do anúncio de mercados, os anúncios de bar, que foi o primeiro material que usei, naquela barraca de praça. Aquele é o primeiro projeto que eu fiz que estabelece uma relação com o público, tem participações, performance improvisada, convivência. Esse é o material de anúncios de eventos culturais na periferia, com o qual tinha uma relação anterior, porque meu pai foi dessa área, convivi muito com essas faixas na infância e adolescência, porque era parte da cultura da periferia onde eu vivia”, conta.
Mais do que falar de reutilização, interessa operar uma transmutação. Esta é a alquimia que se processa na série O Debate (1998-2019), em que entrelaça cartazes de campanha eleitoral, uma das obras mais conhecidas de Jarbas Lopes, exibida no mesmo Panorama de 2001 e na Galeria Reocupa, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, na mostra O Que Não É Floresta É Preso Político (2019). “Não é só uma questão de reaproveitamento, porque a reutilização tem também esse sentido político e atual da reciclagem, mas no fundo é uma maneira de se relacionar com o material que tem um histórico com o qual você cria outra relação. Esses materiais que vou buscar na rua me interessam porque chegam impregnados do que está acontecendo e a mistura com o experimento plástico possibilita essa modificação dentro dessa esfera da arte e da política.”
Fonte: Select Art, “Um futuro para hoje", escrito por Juliana Monachesi, publicado em 28 de outubro de 2022. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Fonte de energia de prazer | Select Art
É novembro de 2023. Jarbas Lopes pega a estrada, em Maricá, município do Rio de Janeiro, dirigindo seu Fusca branco, com destino a São Paulo, para a montagem da individual Jarbas Lopes: eixos, em cartaz na Pina Estação até 31/3/24. Logo na saída, cruza com moradores do bairro, no meio da rua, atiçando fogo a uma pilha de galhos secos e pneus, em protesto pela falta de luz e de água há três dias. Por todo o percurso de saída da cidade, de São Gonçalo até Niterói, Lopes atravessa várias barricadas. “Tudo resultado dessas privatizações que obrigam a gente a pagar a conta, sem entregar o serviço”, diz o artista no vídeo O Bem e o Mal Entendido (2023), que documenta a viagem do Fusca branco, que é a base de uma instalação de mesmo título, montada no estacionamento do museu. Mas esse vídeo é também um statement, a ser lido no contexto da obra-manifesto Hidrobras (2022-24), de viés ativista socioambiental, que propõe substituir a Petrobras pela criação de uma nova estatal que fará o manejo sustentável e permanente do maior ativo da economia brasileira: a água.
No Rio de Janeiro, os serviços de água e esgoto foram privatizados em 2021. Em dezembro de 2023, foi sancionada em São Paulo a lei que autoriza a venda da empresa estatal de águas e esgoto. “Se um dia São Paulo realmente se tornar um deserto, se essa terra aqui for consumida pela destruição, pela proliferação da selva de pedra, os motores do Fusca irão sobreviver bem”, continua Jarbas Lopes no documentário. “Esse é um carro próprio para lugares quentes, desertos, com falta d’água. Ele é mais que um camelo, porque não bebe água, esse carro. Eu tenho que beber por ele.”
Com 13,7% de toda a água doce no planeta, o Brasil é a maior reserva hidrológica do mundo, considerado por isso o “manancial da Terra”. “Como sociedade, vamos fazer o seguinte: doar a Petrobras para um ferro velho brasileiro e desenvolver a Hidrobras”, aponta o artista. No projeto, a matriz energética a partir de agora será a água, que passará a ser pesquisada e cuidada, para ser limpa, pública e gratuita. A matriz energética do petróleo, além de estar baseada na extração de recursos não renováveis, gera resíduos tóxicos para o meio ambiente e sua combustão é responsável pelos gases poluentes na atmosfera.
Hidrobras é uma manifestação de duas frentes centrais da pesquisa de Jarbas Lopes: as tramas – e estamos falando aqui de sociabilidades, tramas sociais, interações, diálogos, debates – e a vertente gráfica. O trabalho consiste na distribuição gratuita de um desenho em marca d’água da nova empresa pública, impresso em relevo sobre papel. A ação foi realizada inicialmente na exposição Gira, individual do artista no Museu de Arte do Rio (MAR), de junho a outubro de 2022, e agora terá nova tiragem realizada presencialmente pelo artista na bancada da revista celeste na SP-Arte 2024 e distribuída para o público.
O prelo disponibilizado pelo artista para a ação é um equipamento de sua Gráfica e Editora KD, lugar de pesquisas e experimentações com maquinário e técnicas de impressão desde 2012. Como em projetos de invenção, como a sua consagrada série Ciclovia Aérea (2001-23), a ação Hidrobras se equilibra entre as terras do imaginário e os ares do possível. Aqui, propondo “ideias que geram movimento”, o acrobata Jarbas Lopes desencadeia um movimento pela água como fonte não de energia de produção, mas sim de prazer e de vida.
Fonte: Select Art, “Fonte de energia de prazer”, escrito por Paula Alzugaray, publicado em 28 de março de 2024. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções | Agência Brasil
Invenções que tiveram impacto decisivo na história da humanidade em releituras feitas por artistas formam a exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, que inclui tanto obras de artistas renomados, como Andy Warhol e Man Ray, quanto trabalhos feitos especificamente para o evento. A mostra abre na próxima quarta-feira (5) e vai até 4 de outubro, na Oca do Parque Ibirapuera, zona sul paulistana.
O ferro elétrico é lembrado na peça The Gift do norte-americano Man Ray. O trabalho de 1958 traz o utensílio doméstico com uma fileira de pregos que inevitavelmente rasgariam qualquer roupa passada por ele. Menos agressiva é a guitarra personalizada por Andy Wahol, um dos maiores nomes da Pop Art, para o músico Lou Reed, lider da banda de rock Velvet Underground.
Obra The Gift do artista Man Ray exibida na exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, em São Paulo Divulgação
Entre os 30 nomes que assinam as obras, também estão brasileiros como Guto Lacaz. O artista paulista fez uma instalação com rádios transformados em varas de pescar a partir das antenas. O carioca Jarbas Lopes usou dois fuscas, um branco e outro preto, para fazer uma referência ao símbolo taoísta do yin-yang com os automóveis.
Para o curador Marcello Dantas, afastar os equipamentos das funções tradicionais ajuda a refletir sobre o impacto dos inventos na sociedade. “Ao incorporar as invenções em suas obras, os artistas em geral pensam em desfuncionalizá-las, afastá-las de sua função original para lhes oferecer uma reencarnação de seu sentido social. A verdade da arte não é a mesma da história”, comparou.
Além das obras, a exposição tem um conteúdo interativo sobre a história e a relevância das invenções retratadas na mostra, com texto assinado pelo historiador norte-americano Joshua Decter.
Fonte: Agência Brasil, “Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções”, escrito por Daniel Mello, publicado em 8 de fevereiro de 2015. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Imagem extraída de rede social, publicada em 22 de novembro de 2023.
Jarbas Lopes (1964, Nova Iguaçu, RJ) é um artista visual brasileiro. Reconhecido por sua atuação na arte contemporânea com foco em obras interativas, esculturas, instalações e projetos coletivos, Jarbas é formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFRJ em 1992. Desenvolveu uma linguagem singular que combina práticas artesanais, objetos do cotidiano, mobilidade e crítica social. Suas obras transitam entre escultura, desenho, performance e ação pública, muitas vezes envolvendo participação do público e ativação no espaço urbano. Influenciado pelo modernismo, movimentos contra-hegemônicos e arte relacional, sua produção destaca-se por explorar a noção de coletividade, utopia e experimentação. Projetos emblemáticos como Cicloviaérea (2001) e Troca-troca (2002) são exemplos do seu compromisso com a reinvenção poética da vida cotidiana. Participou de exposições em instituições como o MoMA (Nova York), Victoria & Albert Museum (Londres), Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio (MAR) e Inhotim (MG), onde possui obras permanentes. Sua produção está presente em importantes acervos e coleções no Brasil e no exterior.
Jarbas Lopes | Arremate Arte
Jarbas Lopes, nascido em 1964, em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, é um dos nomes mais proeminentes da arte contemporânea brasileira. Com uma trajetória marcada pela transgressão das fronteiras entre arte e vida, sua produção se distingue pela criação de obras híbridas, interativas e poéticas, que buscam instaurar novas formas de relação com o mundo. Formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992, Lopes desenvolveu um corpo de trabalho que transita com liberdade entre escultura, instalação, desenho, pintura, performance e publicações, muitas vezes incorporando práticas colaborativas e elementos do cotidiano.
Radicado em Maricá (RJ), o artista construiu ao longo das décadas uma obra profundamente vinculada a valores como coletividade, mobilidade, utopia e crítica à lógica do consumo. Projetos como Cicloviaérea (2001), em que propõe um circuito suspenso de bicicletas como alternativa poética de deslocamento, ou Troca-troca (2002), em que carros são desmontados e remontados com peças de diferentes origens, exemplificam sua constante busca por repensar os sistemas funcionais da sociedade a partir de gestos simbólicos e experiências sensoriais. Seu processo criativo valoriza o fazer manual, o improviso, o afeto e o encontro, desafiando a rigidez institucional e abrindo espaço para outras formas de criação e circulação artística.
A relação com o público ocupa papel central em sua obra. Em muitos de seus trabalhos, o espectador é convidado a participar ativamente, seja ativando objetos, caminhando por instalações ou interagindo com esculturas. O artista transforma a arte em território de convivência, questionamento e reinvenção das formas de estar no mundo. Para além das galerias e museus, suas ações frequentemente ocupam o espaço urbano, interferindo na paisagem e suscitando experiências que cruzam arte, arquitetura, ecologia e política.
Jarbas Lopes participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, incluindo mostras no MoMA (Nova York), no Victoria & Albert Museum (Londres), na Pinacoteca de São Paulo, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Inhotim, onde mantém obras de destaque na coleção permanente. Sua produção integra acervos públicos e privados relevantes, sendo amplamente estudada por críticos e curadores.
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Jarbas Lopes | Itaú Cultural
Jarbas Lopes Júnior (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1964). Artista plástico, performer, organizador de livros. Sua obra discute temas como corpo, tecnologia, comunidade, sociedade de massa, sustentabilidade e imagem, muitas vezes num tom bem-humorado e incentivando a participação do público.
Forma-se bacharel em escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992. Sua primeira exposição individual ocorre em 1998, na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, e apresenta pinturas-objetos e instalação. As pinturas-objetos são obras realizadas com tiras trançadas de plástico, vindas de um universo popular e que aproximam a arte da vida cotidiana. Dois desses trabalhos são Vira-casaca (1996) e Rio de Janeiro (1997), em que o artista recria paisagens cariocas.
A instalação intitulada Um quarto para José Pedro (1998) é realizada com materiais de construção e cria um ambiente sensorial que remete às instalações de Hélio Oiticica (1937-1980), artista carioca pioneiro numa arte preocupada em envolver o espectador, mergulhando-o fisicamente em suas obras. Oiticica e Lygia Clark (1920-1988) são referências declaradas de Jarbas Lopes. Essa instalação também é montada, em 2001, no 27º Panorama da Arte Brasileira, exposição coletiva periódica do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). A respeito dessa obra, o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014) afirma que nela se nota o diálogo entre cultura popular e cultura de massa, a discrepância entre as pretensões da arte de âmbito institucional e as verdades da cultura da escassez de recursos.
Seus trabalhos articulam linguagens, técnicas e materiais populares para discutir e problematizar temas importantes, em uma produção que, de acordo com o crítico e curador Lauro Cavalcanti (1954), funde aspectos e materiais da cultura popular com linguagens da arte erudita.
A partir de 2002, produz a série O debate, cujas obras também se valem da técnica de tiras trançadas, exploradas ao longo de sua carreira. Aqui, o material plástico vem de cartazes de propaganda eleitoral feitos em lona. O resultado são figuras deformadas e assustadoras de políticos, numa problematização de aspectos como vida social, política, persona política, imagem e marketing. Exemplo disso é uma obra sem título de 2019 em que se distingue a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (1955), com vestígios da bandeira nacional ao fundo. Para o crítico e curador Luiz Camillo Osorio (1963), nessa série o artista monta “uma cena que perverte e reinventa a figuração”. Como pontuado por Osorio, nas obras de Jarbas Lopes, a discussão da política não acontece por meio de um discurso programático e ideológico. Em vez disso, o artista desloca imagens e elementos materiais.
Troca-troca (2002), incorporada mais tarde à coleção do Instituto Inhotim, centro de botânica e artes visuais em Brumadinho, Minas Gerais, é sua obra mais conhecida pelo público. Exposta num jardim, é composta de três fuscas, originalmente amarelo, azul e vermelho, que têm suas latarias trocadas, resultando em carros multicoloridos. Antes de serem incorporados a essa coleção, foram utilizados numa viagem do artista e amigos da cidade do Rio de Janeiro a Curitiba, no Paraná, para serem expostos no Museu de Arte Contemporânea (MAC-PR). A comunicação entre os veículos se dava por meio de um sistema de som.
Desde pelo menos 2003, participa da organização de uma série de zines – publicações artísticas independentes de baixa tiragem que exploram linguagens artísticas diversas, tais como o desenho, a poesia e a ilustração. Entre eles, destacam-se dois sem títulos do poeta Guilherme Zarvos (1957), que articulam desenho e caligrafia infantis e poesia, ambos de 2014.
Em 2011, participa, com Ciclovia aérea, do 32º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP. Trata-se de instalação temporária que foi montada no Parque Ibirapuera: uma pequena ciclovia sobre uma plataforma, cujas laterais são espelhadas. A obra discute diversos temas importantes para o artista, tais como “sustentabilidade, mobilidade, coleta seletiva, energia limpa, bicicleta”, de acordo com o que ele próprio escreve no zine relativo a esse projeto. Essa obra faz parte do projeto Cicloviaérea, que surge em 2001 como um plano utópico ou visionário que propõe a criação de ciclovias suspensas para lidar com o trânsito de áreas urbanas. Bicicletas adornadas com trançados de vime e borracha fazem parte desse projeto, atraindo a atenção do público.
Jarbas Lopes tem uma abordagem criativa que busca incorporar a participação do público à arte. Além disso, sua produção articula materiais e técnicas de origem popular com movimentos artísticos. Sua relevância vem da discussão de temas significativos para a sociedade atual a partir dessa articulação.
Exposições
1992 - 2ª Bienal Internacional de Gravura
1992 - 16º Salão Carioca de Arte
1995 - 19º Salão Carioca de Arte
1996 - Projeto Macunaima
1996 - Projeto Quatro Quadros
1996 - Individual de Jarbas Lopes
1996 - Arte: experiência e pesquisa : acervo do CCCM dos últimos 3 anos
1996 - Antarctica Artes com a Folha
1997 - Cidade Oculta
1997 - 2º Projeto Abra / Coca-Cola de Arte Atual
1997 - 25º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - 16º Salão Nacional de Artes Plásticas
1998 - Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas
1998 - Jarbas Lopes: pintura-objeto e instalação
1998 - Antarctica Artes com a Folha
1998 - A Imagem do Som de Caetano Veloso
1998 - Dez Anos de Casa Triângulo
1999 - Vivia 21 Cura
1999 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
1999 - A Imagem do Som de Chico Buarque
1999 - 6º Salão da Bahia
2000 - Investigações. Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 1
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - BR 500
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - 26ª Bienal de Arte de Pontevedra
2000 - Individual de Jarbas Lopes
2000 - A Imagem do Som de Gilberto Gil
2000 - 7º Salão da Bahia
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira Rio de Janeiro
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira (Bahia)
2002 - Imaginário Periférico
2002 - 20 Artistas / 20 Anos
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 - Caminhos do Contemporâneo: 1952/2002
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Canteiro de Obras do Circo Voador
2002 - Faxinal das Artes
2002 - Livro: objeto da arte
2003 - Alfândega 1
2003 - Individual de Jarbas Lopes
2003 - Gambiarra: new art from Brazil
2003 - 8ª Bienal de Havana
2003 - Infantil
2003 - Arte Brasileira no Acervo do MAP
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Tudo É Brasil - Rio
2004 - Exposição 1 Ano: coletiva na A Gentil Carioca
2004 - Pampulha, Obra Colecionada: 1943-2003
2004 - Tudo É Brasil (2004 : São Paulo, SP)
2005 - RAMPA: Signaling New Latin American Art Initiatives
2005 - Coleções VI
2005 - Além da Imagem
2006 - Política: di - vi - da
2006 - 27ª Bienal Internacional de São Paulo
2007 - Close to Me
2007 - Itaú Contemporâneo: arte no Brasil 1981-2006
2007 - 4ª Bienal de Valência
2007 - Recortar e Colar | CtrlC CtrlV
2008 - Coletiva na A Gentil Carioca
2008 - Paper Trail: 15 Brazilian Artists
2008 - Cicloviaérea
2008 - Seja Marginal, Seja Herói
2008 - 3ª Mostra do Programa de Exposições
2009 - Com Piada
2009 - Padedéu
2009 - Pedregulho
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Recortes de uma Coleção
2010 - Se a Pintura Morreu o MAM é um Céu!
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Paralela 2010
2011 - País Paisagem
2011 - 11ª Bienal de Lyon
2011 - 32º Panorama da Arte Brasileira
2014 - Caos e Efeito
2014 - Vestígios: memória e registro da performance e do site specific
2014 - Há Escolas que São Gaiolas e Há Escolas que São Asas
2014 - Iberê Camargo: século XXI
2015 - Invento: as revoluções que nos inventaram
2016 - Brasil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture
2017 - Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos
2017 - Circulovisão
2018 - Via Aérea
2019 - ARTE NAÏF (Nenhum museu a menos)
2020 - Samba In The Dark
2020 - Patifaria!
2021 - 1981/2021: Arte contemporânea brasileira na coleção Andrea e José Olympio Pereira
2021 - Bum-bum Paticumbum Prugurundum
2021 - A Máquina Lírica
2022 - Obscura Luz
2022 - Por enquanto: os primeiros 40 anos
2022 - Parada 7 - Arte em Resistência
2024 - Uma cadeira é uma cadeira é uma cadeira
Fonte: JARBAS Lopes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 15 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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A mostra individual promove uma visão utópica do mundo e nos instiga a questionar o destino final dos objetos que descartamos | Museu de Arte do Rio
Gira, palavra imperativa que expressa movimento. Movimento esse, que o artista Jarbas Lopes faz com os objetos, ressignificando e apresentando obras que propõem interações pautadas pela coletividade. Essa é a ideia da nova exposição do Museu de Arte do Rio: Gira. A mostra individual de Jarbas Lopes, que promove uma utópica visão de mundo, nos instiga, entre outras coisas, a questionar o destino final dos objetos que descartamos. Na exposição, o artista com trinta anos de trajetória na arte contemporânea brasileira, lida diretamente com o espectador, convidando o público a estar no museu e a interagir com as obras criando uma participação ativa com algumas das peças.
O processo criativo de Jarbas permeia uma reconfiguração dos objetos e das experiências estéticas, dando um novo significado e movimento, sempre permeados por um tom crítico. O artista usa objetos que foram descartados nas ruas, como jornais, revistas, faixas de divulgação de shows e até propaganda política, que ganham novos significados. Ele cria ambientes que trazem histórias chaves para ampliar as arestas da arte e usa materiais do cotidiano como carros, bicicletas, tintas e elásticos. Suas esculturas e pinturas interativas fazem uma fusão entre tempo, espaço e circunstâncias práticas e ideológicas como participação coletiva, sociabilidade para espaços públicos e usos compartilhados da cidade.
“Há um bom tempo que eu tenho pensado nesse caminho que as pessoas podem fazer aqui nessa exposição. É um caminho circular. Circular é pra mim uma referência de pensar a minha expressão. O circular é aquela coisa que vai se repetindo. É o ritmo da própria vida e a arte faz parte disso. Eu trabalho as coisas que vão e voltam, evoluem um pouco, mas vão e voltam” conta o artista Jarbas Lopes.
A exposição, que tem curadoria de Amanda Bonan e Marcelo Campos, apresenta cerca de 100 obras que fazem parte da produção do artista, além de trabalhos inéditos e projetos que só existiam até agora no papel. O público vai encontrar diferentes tipos de obras de Jarbas como esculturas, pinturas, fotografias, desenhos, livros, maquetes e instalações.
“É uma exposição que o tempo todo quer o público e convida o público a estar no museu. O público não precisa entender antes de ver. O ver e o entender estão aliados. O que você está vendo é exatamente o que você precisa para entender o trabalho. Cada um pode interpretar da sua maneira, mas a interpretação não é um empecilho para estar em uma sala da exposição do Jarbas. Porque ela também te convida a usar diversos sentidos” ressalta o curador-chefe do MAR, Marcelo Campos.
Na mostra, o público é levado a se questionar sobre a obsolescência dos produtos: por que jogar fora? Quando uma máquina deixa de servir? O que fazer com os restos e sobras? A obra de Jarbas Lopes nos faz refletir sobre os descartes em um Brasil cujas florestas se tornam desertos. De muitos modos, os objetos que o artista nos oferece se mantêm em uso. Enquanto isso, o artista nos convida a ler e a interpretar o mundo. Não há sobras no trabalho dele. Até os restos entram no pensamento de uma outra parte do trabalho.
“A exposição de Jarbas Lopes chega ao MAR num momento muito oportuno: perto da semana do meio ambiente e das discussões da Rio +30. Ele é um artista que traz consciência ecológica em todos seus trabalhos e nos faz refletir sobre a preservação da biodiversidade brasileira. Acreditamos no importante papel do MAR para a discussão, dialogando com a conscientização sobre o futuro dos nossos ecossistemas e com a preservação de toda biodiversidade.” defende Raphael Callou, Diretor e Chefe da representação da OEI no Brasil, organização responsável pela gestão do museu desde janeiro deste ano.
Fonte: Museu de Arte do Rio. Consultado pela última vez em 16 de abril de 2025.
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Jarbas Lopes | Inhotim
Jarbas Lopes concluiu seus estudos sobre escultura em 1992, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Janeiro. A sua produção reúne esculturas, desenhos, instalações e performances. Também desenvolve projetos conceituais que operam à margem da lógica capitalista, valorizando o pensamento artesanal e a participação do espectador. Na série A paisano, por exemplo, ele recupera a prática popular do trançado para construir com tramas multicoloridas imagens que ficam entre a pintura e a escultura. Sua obra faz parte de importantes coleções como as do MAM – Museu Arte Moderna do Rio de Janeiro, do MoMA – Museum of Modern Art (EUA), Victoria & Albert Museum (Inglaterra) e da Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA).
Troca-Troca
Troca-troca (2002) é uma obra de Jarbas Lopes composta por três fuscas coloridos, originalmente amarelo, azul e vermelho, que tiveram suas latarias trocadas, resultando em três carros multicoloridos. Eles foram usados em 2002, pelo artista e um grupo de amigos, em uma viagem do Rio de Janeiro a Curitiba. A comunicação entre os carros era feita por meio de um sistema de som interligado.
No caminho, colaram adesivos nos para-brisas dos carros que encontravam na estrada, produzidos a partir do arquivo de palíndromos do artista Luis Andrade: “zé deserto, três é dez”, “a vadia saída vã”, e “e o bolero; borel oboé”, entre outros. Em 2007, após o restauro, os carros novamente ganharam a estrada, dessa vez de Belo Horizonte a Brumadinho, depois de percorrer as comunidades do entorno.
Fonte: Inhotim. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Sobre Jarbas Lopes | Luisa Strina
O trabalho de Jarbas Lopes transita entre pintura, escultura, desenho, livros de artista e performance. Muitos de seus trabalhos são participativos ou sensoriais, e o artista encoraja os participantes a tocar, segurar, movimentar e virar páginas. Projetos utópicos são planejados e feitos para envolver a comunidade e oferecer novas formas para a sociedade funcionar.
Exposições individuais recentes incluem: Eixos, Pinacoteca de São Paulo (2023); Gira, MAR - Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (2022); e a u, CRAC Alsace, Altkirch (2017); Circulovisão, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2017); Galeria Baginski, Lisboa (2015); Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro (2013); Park Central, Tilton Gallery, New York (2010); Cicloviaérea, Museo Nacional de Bellas Artes, Santiago (2010); Padedéu, in collaboration with Laura Lima, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2009).
Exposições coletivas recentes incluem: 3a. Bienal de Vila de Gaia, Vila Nova de Gaia (2019); ‘Brazil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture’, Museum Beelden aan Zee, Haia (2016); ‘Provocar Urbanos: Inquietações sobre a Cidade’, Sesc Vila Mariana, São Paulo (2016); ‘E de novo montanha, rio, mar, selva, floresta’, SESC Palladium, Belo Horizonte (2016); ‘(de) (re) construct: Artworks from the Permanent Collection’, Bronx Museum, Nova York (2015); ‘Look.look.again.’, The Aldrich Contemporary Art Museum, Ridgefield (2009); ‘Desenhos: A-Z’, Museu da Cidade, Lisboa (2009).
Coleções das quais seu trabalho faz parte incluem: CACI Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brasil; Victoria and Albert Museum, Inglaterra; The Cisneros Fontanals Art Foundation, EUA; Henry Moore Foundation, Inglaterra; MAM/Rio Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Museu de Arte da Pampulha, Brasil; Fundación ARCO, Espanha; MoMA Museum of Modern Art, EUA; TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Áustria.
Fonte: Luisa Strina. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Um futuro para hoje | Select Art
“Ciclotransamazonicaaérea é uma poética intermodal cujo eixo condutor de produção de experiência é o tecnoxamanismo do encaixe humano-bicicleta. Convida-nos a imaginar, com a totalidade inacabada de nossos corpos uni e pluricelulares, utopias materializáveis e materializadas. Se com a morte do último xamã amazônico o céu cairia sobre todos, com a instalação do primeiro pilar da cicloviaérea a pele do céu se estica mais alto.” O novo desdobramento da série Cicloviaérea (2001-2022), pensado para atravessar 600 quilômetros na Amazônia sem derrubar uma única árvore, foi anunciado em um zine não datado que a Editora Kadê, do artista Jarbas Lopes, publicou e pôs para circular há alguns anos.
Esse é o modus operandi do projeto estético-político mais longevo de Jarbas Lopes. Desde os primeiros estudos, desenhos e das primeiras bicicletas customizadas com o hoje conhecido trançado de vime que recobre e ornamenta a bike, a Cicloviaérea costuma provocar uma dúvida: trata-se de um projeto de urbanismo ou de uma utopia? Deparar com os objetos, desenhos e maquetes em uma exposição (por exemplo, na Bienal de São Paulo de 2006 ou no Panorama do MAM em 2011) gera essa ambiguidade entre uma proposta pragmática, de realização possível na trama urbana, e algo da ordem do sonho, como uma possibilidade de imaginar um mundo que a gente sabe que não vai existir. O paradoxo transfigura-se diante dos trechos experimentais móveis da Cicloviaérea, já instalados no Sesc Belenzinho, em 2018, e no Parque do Ibirapuera, no período do Panorama 2011, entre outros, quando a experiência deste trabalho coletivo pode ser vivida coletivamente. De utópico, o trabalho realiza-se à medida que é usado e partilhado. A Cicloviaérea está se realizando há 20 anos, toda vez que alguém pega uma bike do projeto, seja na Pampulha, seja no Sesc, e dá um rolê.
“São utopias possíveis, não é? Depois de um tempo, fui ver que existe também esse pensamento das utopias possíveis em diferentes filósofos, como algo estudado no campo do conhecimento. Mas isso tudo parte de uma ideia que me vem intuitivamente, em 2001, como uma resposta que poderíamos chamar de positiva para a esfera política e para a sociedade”, diz Jarbas Lopes à seLecT. “Dentro dessa lógica ou percepção de protesto, ou manifesto, o que poderia ser uma resposta, o que é que a gente pode resolver então nessa confusão? O que seria, afinal, divertido também?”, questiona. “Assim veio essa ideia da Cicloviaérea. Não é uma questão só da bicicleta. É sobre o prazer. Ele abrange tudo, ele abre uma plataforma, como se diz atualmente, e, quando surgia essa leitura, da utopia, eu respondia que era um futuro pra hoje.”
ANTES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Lopes costuma trabalhar com enunciados para suas obras. O da Cicloviaérea descreve “uma pista suspensa com um pequeno declive em sua extensão que proporcionará uma leve força a favor em seu percurso, facilitando longas distâncias de bicicleta dentro do cotidiano de transações urbanas”. Começar a usar a “tecnologia do corpo” era para já, desde o enunciado de 2001, muito antes de as ciclovias se disseminarem nas políticas públicas. Um entendimento político das tecnologias perpassa a pesquisa do artista. “É como agora com o celular, que primeiro era uma coisa futurista, de um alcance inimaginável, mas que logo depois começa a criar problemas, como todas essas invenções, certo? O avião, por exemplo. Alguns anos depois de ser inventado, estava jogando bomba na cabeça dos outros. Daí a importância de propor uma resposta no campo político, porque somos atingidos também, somos afetados por tudo isso”, reflete.
Além do enunciado-manifesto, o projeto sempre foi acompanhado de desenhos, em que Jarbas Lopes representa não a própria Cicloviaérea, mas o imaginário que ela gera. A CicloTransAmazônicaAérea começou a ser gestada entre 2015 e 2016. “Comecei a imaginar essa ideia de migrar da via para o trans, como se fosse uma ficção de novo. Porque na cidade isso já se realizou. Então, o novo território da ação passa a ser a Amazônia. É uma proposta que eu acho que pode acontecer. A gente gosta de ficar construindo coisas, as civilizações. Uma vez, encontrei um engenheiro argentino que tinha cruzado a Amazônia com uma linha elétrica, com o cabeamento da rede elétrica. Eles abriram uma faixa de 3 metros de largura por 600 quilômetros. Só que ali cortaram tudo, né? Detonaram geral. Então é isso, será que a gente não pode, se fizeram isso, fazer uma cicloviazinha?”, diverte-se.
Estamos na segunda sala da exposição GIRA, no Museu de Arte do Rio, quando Jarbas fornece essas explicações. Em frente aos desenhos da CicloTransAmazônicaAérea, feitos com esferográficas azuis, vermelhas, pretas e verdes, uma enorme maquete é habitada por plantas que o artista e duas colaboradoras especiais, Katerina Dimitrova e Amora Dimitrova Lopes, trouxeram de casa, em Maricá, para criar o jardim que faz as vezes da Amazônia na escultura. Em um sábado ensolarado de fim de julho, o MAR está cheio de visitantes e a exposição individual de Jarbas Lopes prende a atenção, porque mobiliza muito mais do que os olhares. Na primeira sala, por exemplo, três obras da série Shock Pintura – estruturas de alumínio com cordas de alpinismo trançadas – podem ser usadas para balançar o corpo; e uma bancada com diversas publicações da Editora Kadê convida o visitante a se sentar e passear pelos livros-objetos do artista, que concentram as suas experimentações estético-políticas, sempre democraticamente colocadas em circulação.
TECNOLOGIA XAMÂNICA
O título da mostra vem da mesma raiz: girar, circular. Este, o ponto de partida de toda a pesquisa do artista, que articula a ideia de uma “tecnologia xamânica”. Tecnologia significa uma vastidão de saberes contraditórios no léxico de Jarbas Lopes. “Como é que a pessoa entra na Amazônia? Vou vestir uma bota, vou botar um capacete? Vou fazer uma armadura de fibra de carbono, superleve, mas que pode vir um jacaré morder, não vai ter problema. Ou um inseticida. Não, você tem ali uma energia xamânica que o adapta melhor, de modo que você não precisa de ninguém pra ficar carregando sua mala na hora que você está andando lá. Nem carrinho pra puxar a mala, sabe? Está querendo uma pousada, um resort pra você mergulhar na piscina? Não, você se adapta igual a esses povos que vivem já há milênios em convivência com esse ambiente, mas você mantém também essa relação com o urbano, uma coisa que a gente tem. Não é só uma crítica a isso, mas uma relação entre as duas coisas, um jeito de compreender esse ambiente, utilizá-lo de outra forma, por outra lógica, e sempre ligado a essa coisa do prazer.”
Nascido e criado na Baixada Fluminense, Jarbas conta que a visualidade do subúrbio carioca sempre informou seus trabalhos, como se vê na escultura-tenda DEEGRAÇA (1998), que mostrou no Panorama MAM de 2001 e na coletiva Gambiarra (2003), na Gasworks, em Londres. Feita de faixas de ráfia costuradas, ela delimita um território de 25 metros quadrados, que já abrigou performances musicais, festas e outras ações por onde passou, e cabe em uma sacola (também de ráfia, que tem o título do trabalho). “Esses materiais todos têm também o lado estético. São coloridos, têm a coisa gráfica do anúncio de mercados, os anúncios de bar, que foi o primeiro material que usei, naquela barraca de praça. Aquele é o primeiro projeto que eu fiz que estabelece uma relação com o público, tem participações, performance improvisada, convivência. Esse é o material de anúncios de eventos culturais na periferia, com o qual tinha uma relação anterior, porque meu pai foi dessa área, convivi muito com essas faixas na infância e adolescência, porque era parte da cultura da periferia onde eu vivia”, conta.
Mais do que falar de reutilização, interessa operar uma transmutação. Esta é a alquimia que se processa na série O Debate (1998-2019), em que entrelaça cartazes de campanha eleitoral, uma das obras mais conhecidas de Jarbas Lopes, exibida no mesmo Panorama de 2001 e na Galeria Reocupa, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, na mostra O Que Não É Floresta É Preso Político (2019). “Não é só uma questão de reaproveitamento, porque a reutilização tem também esse sentido político e atual da reciclagem, mas no fundo é uma maneira de se relacionar com o material que tem um histórico com o qual você cria outra relação. Esses materiais que vou buscar na rua me interessam porque chegam impregnados do que está acontecendo e a mistura com o experimento plástico possibilita essa modificação dentro dessa esfera da arte e da política.”
Fonte: Select Art, “Um futuro para hoje", escrito por Juliana Monachesi, publicado em 28 de outubro de 2022. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Fonte de energia de prazer | Select Art
É novembro de 2023. Jarbas Lopes pega a estrada, em Maricá, município do Rio de Janeiro, dirigindo seu Fusca branco, com destino a São Paulo, para a montagem da individual Jarbas Lopes: eixos, em cartaz na Pina Estação até 31/3/24. Logo na saída, cruza com moradores do bairro, no meio da rua, atiçando fogo a uma pilha de galhos secos e pneus, em protesto pela falta de luz e de água há três dias. Por todo o percurso de saída da cidade, de São Gonçalo até Niterói, Lopes atravessa várias barricadas. “Tudo resultado dessas privatizações que obrigam a gente a pagar a conta, sem entregar o serviço”, diz o artista no vídeo O Bem e o Mal Entendido (2023), que documenta a viagem do Fusca branco, que é a base de uma instalação de mesmo título, montada no estacionamento do museu. Mas esse vídeo é também um statement, a ser lido no contexto da obra-manifesto Hidrobras (2022-24), de viés ativista socioambiental, que propõe substituir a Petrobras pela criação de uma nova estatal que fará o manejo sustentável e permanente do maior ativo da economia brasileira: a água.
No Rio de Janeiro, os serviços de água e esgoto foram privatizados em 2021. Em dezembro de 2023, foi sancionada em São Paulo a lei que autoriza a venda da empresa estatal de águas e esgoto. “Se um dia São Paulo realmente se tornar um deserto, se essa terra aqui for consumida pela destruição, pela proliferação da selva de pedra, os motores do Fusca irão sobreviver bem”, continua Jarbas Lopes no documentário. “Esse é um carro próprio para lugares quentes, desertos, com falta d’água. Ele é mais que um camelo, porque não bebe água, esse carro. Eu tenho que beber por ele.”
Com 13,7% de toda a água doce no planeta, o Brasil é a maior reserva hidrológica do mundo, considerado por isso o “manancial da Terra”. “Como sociedade, vamos fazer o seguinte: doar a Petrobras para um ferro velho brasileiro e desenvolver a Hidrobras”, aponta o artista. No projeto, a matriz energética a partir de agora será a água, que passará a ser pesquisada e cuidada, para ser limpa, pública e gratuita. A matriz energética do petróleo, além de estar baseada na extração de recursos não renováveis, gera resíduos tóxicos para o meio ambiente e sua combustão é responsável pelos gases poluentes na atmosfera.
Hidrobras é uma manifestação de duas frentes centrais da pesquisa de Jarbas Lopes: as tramas – e estamos falando aqui de sociabilidades, tramas sociais, interações, diálogos, debates – e a vertente gráfica. O trabalho consiste na distribuição gratuita de um desenho em marca d’água da nova empresa pública, impresso em relevo sobre papel. A ação foi realizada inicialmente na exposição Gira, individual do artista no Museu de Arte do Rio (MAR), de junho a outubro de 2022, e agora terá nova tiragem realizada presencialmente pelo artista na bancada da revista celeste na SP-Arte 2024 e distribuída para o público.
O prelo disponibilizado pelo artista para a ação é um equipamento de sua Gráfica e Editora KD, lugar de pesquisas e experimentações com maquinário e técnicas de impressão desde 2012. Como em projetos de invenção, como a sua consagrada série Ciclovia Aérea (2001-23), a ação Hidrobras se equilibra entre as terras do imaginário e os ares do possível. Aqui, propondo “ideias que geram movimento”, o acrobata Jarbas Lopes desencadeia um movimento pela água como fonte não de energia de produção, mas sim de prazer e de vida.
Fonte: Select Art, “Fonte de energia de prazer”, escrito por Paula Alzugaray, publicado em 28 de março de 2024. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções | Agência Brasil
Invenções que tiveram impacto decisivo na história da humanidade em releituras feitas por artistas formam a exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, que inclui tanto obras de artistas renomados, como Andy Warhol e Man Ray, quanto trabalhos feitos especificamente para o evento. A mostra abre na próxima quarta-feira (5) e vai até 4 de outubro, na Oca do Parque Ibirapuera, zona sul paulistana.
O ferro elétrico é lembrado na peça The Gift do norte-americano Man Ray. O trabalho de 1958 traz o utensílio doméstico com uma fileira de pregos que inevitavelmente rasgariam qualquer roupa passada por ele. Menos agressiva é a guitarra personalizada por Andy Wahol, um dos maiores nomes da Pop Art, para o músico Lou Reed, lider da banda de rock Velvet Underground.
Obra The Gift do artista Man Ray exibida na exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, em São Paulo Divulgação
Entre os 30 nomes que assinam as obras, também estão brasileiros como Guto Lacaz. O artista paulista fez uma instalação com rádios transformados em varas de pescar a partir das antenas. O carioca Jarbas Lopes usou dois fuscas, um branco e outro preto, para fazer uma referência ao símbolo taoísta do yin-yang com os automóveis.
Para o curador Marcello Dantas, afastar os equipamentos das funções tradicionais ajuda a refletir sobre o impacto dos inventos na sociedade. “Ao incorporar as invenções em suas obras, os artistas em geral pensam em desfuncionalizá-las, afastá-las de sua função original para lhes oferecer uma reencarnação de seu sentido social. A verdade da arte não é a mesma da história”, comparou.
Além das obras, a exposição tem um conteúdo interativo sobre a história e a relevância das invenções retratadas na mostra, com texto assinado pelo historiador norte-americano Joshua Decter.
Fonte: Agência Brasil, “Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções”, escrito por Daniel Mello, publicado em 8 de fevereiro de 2015. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Imagem extraída de rede social, publicada em 22 de novembro de 2023.
Jarbas Lopes (1964, Nova Iguaçu, RJ) é um artista visual brasileiro. Reconhecido por sua atuação na arte contemporânea com foco em obras interativas, esculturas, instalações e projetos coletivos, Jarbas é formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFRJ em 1992. Desenvolveu uma linguagem singular que combina práticas artesanais, objetos do cotidiano, mobilidade e crítica social. Suas obras transitam entre escultura, desenho, performance e ação pública, muitas vezes envolvendo participação do público e ativação no espaço urbano. Influenciado pelo modernismo, movimentos contra-hegemônicos e arte relacional, sua produção destaca-se por explorar a noção de coletividade, utopia e experimentação. Projetos emblemáticos como Cicloviaérea (2001) e Troca-troca (2002) são exemplos do seu compromisso com a reinvenção poética da vida cotidiana. Participou de exposições em instituições como o MoMA (Nova York), Victoria & Albert Museum (Londres), Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio (MAR) e Inhotim (MG), onde possui obras permanentes. Sua produção está presente em importantes acervos e coleções no Brasil e no exterior.
Jarbas Lopes | Arremate Arte
Jarbas Lopes, nascido em 1964, em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, é um dos nomes mais proeminentes da arte contemporânea brasileira. Com uma trajetória marcada pela transgressão das fronteiras entre arte e vida, sua produção se distingue pela criação de obras híbridas, interativas e poéticas, que buscam instaurar novas formas de relação com o mundo. Formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992, Lopes desenvolveu um corpo de trabalho que transita com liberdade entre escultura, instalação, desenho, pintura, performance e publicações, muitas vezes incorporando práticas colaborativas e elementos do cotidiano.
Radicado em Maricá (RJ), o artista construiu ao longo das décadas uma obra profundamente vinculada a valores como coletividade, mobilidade, utopia e crítica à lógica do consumo. Projetos como Cicloviaérea (2001), em que propõe um circuito suspenso de bicicletas como alternativa poética de deslocamento, ou Troca-troca (2002), em que carros são desmontados e remontados com peças de diferentes origens, exemplificam sua constante busca por repensar os sistemas funcionais da sociedade a partir de gestos simbólicos e experiências sensoriais. Seu processo criativo valoriza o fazer manual, o improviso, o afeto e o encontro, desafiando a rigidez institucional e abrindo espaço para outras formas de criação e circulação artística.
A relação com o público ocupa papel central em sua obra. Em muitos de seus trabalhos, o espectador é convidado a participar ativamente, seja ativando objetos, caminhando por instalações ou interagindo com esculturas. O artista transforma a arte em território de convivência, questionamento e reinvenção das formas de estar no mundo. Para além das galerias e museus, suas ações frequentemente ocupam o espaço urbano, interferindo na paisagem e suscitando experiências que cruzam arte, arquitetura, ecologia e política.
Jarbas Lopes participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, incluindo mostras no MoMA (Nova York), no Victoria & Albert Museum (Londres), na Pinacoteca de São Paulo, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Inhotim, onde mantém obras de destaque na coleção permanente. Sua produção integra acervos públicos e privados relevantes, sendo amplamente estudada por críticos e curadores.
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Jarbas Lopes | Itaú Cultural
Jarbas Lopes Júnior (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1964). Artista plástico, performer, organizador de livros. Sua obra discute temas como corpo, tecnologia, comunidade, sociedade de massa, sustentabilidade e imagem, muitas vezes num tom bem-humorado e incentivando a participação do público.
Forma-se bacharel em escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992. Sua primeira exposição individual ocorre em 1998, na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, e apresenta pinturas-objetos e instalação. As pinturas-objetos são obras realizadas com tiras trançadas de plástico, vindas de um universo popular e que aproximam a arte da vida cotidiana. Dois desses trabalhos são Vira-casaca (1996) e Rio de Janeiro (1997), em que o artista recria paisagens cariocas.
A instalação intitulada Um quarto para José Pedro (1998) é realizada com materiais de construção e cria um ambiente sensorial que remete às instalações de Hélio Oiticica (1937-1980), artista carioca pioneiro numa arte preocupada em envolver o espectador, mergulhando-o fisicamente em suas obras. Oiticica e Lygia Clark (1920-1988) são referências declaradas de Jarbas Lopes. Essa instalação também é montada, em 2001, no 27º Panorama da Arte Brasileira, exposição coletiva periódica do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). A respeito dessa obra, o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014) afirma que nela se nota o diálogo entre cultura popular e cultura de massa, a discrepância entre as pretensões da arte de âmbito institucional e as verdades da cultura da escassez de recursos.
Seus trabalhos articulam linguagens, técnicas e materiais populares para discutir e problematizar temas importantes, em uma produção que, de acordo com o crítico e curador Lauro Cavalcanti (1954), funde aspectos e materiais da cultura popular com linguagens da arte erudita.
A partir de 2002, produz a série O debate, cujas obras também se valem da técnica de tiras trançadas, exploradas ao longo de sua carreira. Aqui, o material plástico vem de cartazes de propaganda eleitoral feitos em lona. O resultado são figuras deformadas e assustadoras de políticos, numa problematização de aspectos como vida social, política, persona política, imagem e marketing. Exemplo disso é uma obra sem título de 2019 em que se distingue a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (1955), com vestígios da bandeira nacional ao fundo. Para o crítico e curador Luiz Camillo Osorio (1963), nessa série o artista monta “uma cena que perverte e reinventa a figuração”. Como pontuado por Osorio, nas obras de Jarbas Lopes, a discussão da política não acontece por meio de um discurso programático e ideológico. Em vez disso, o artista desloca imagens e elementos materiais.
Troca-troca (2002), incorporada mais tarde à coleção do Instituto Inhotim, centro de botânica e artes visuais em Brumadinho, Minas Gerais, é sua obra mais conhecida pelo público. Exposta num jardim, é composta de três fuscas, originalmente amarelo, azul e vermelho, que têm suas latarias trocadas, resultando em carros multicoloridos. Antes de serem incorporados a essa coleção, foram utilizados numa viagem do artista e amigos da cidade do Rio de Janeiro a Curitiba, no Paraná, para serem expostos no Museu de Arte Contemporânea (MAC-PR). A comunicação entre os veículos se dava por meio de um sistema de som.
Desde pelo menos 2003, participa da organização de uma série de zines – publicações artísticas independentes de baixa tiragem que exploram linguagens artísticas diversas, tais como o desenho, a poesia e a ilustração. Entre eles, destacam-se dois sem títulos do poeta Guilherme Zarvos (1957), que articulam desenho e caligrafia infantis e poesia, ambos de 2014.
Em 2011, participa, com Ciclovia aérea, do 32º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP. Trata-se de instalação temporária que foi montada no Parque Ibirapuera: uma pequena ciclovia sobre uma plataforma, cujas laterais são espelhadas. A obra discute diversos temas importantes para o artista, tais como “sustentabilidade, mobilidade, coleta seletiva, energia limpa, bicicleta”, de acordo com o que ele próprio escreve no zine relativo a esse projeto. Essa obra faz parte do projeto Cicloviaérea, que surge em 2001 como um plano utópico ou visionário que propõe a criação de ciclovias suspensas para lidar com o trânsito de áreas urbanas. Bicicletas adornadas com trançados de vime e borracha fazem parte desse projeto, atraindo a atenção do público.
Jarbas Lopes tem uma abordagem criativa que busca incorporar a participação do público à arte. Além disso, sua produção articula materiais e técnicas de origem popular com movimentos artísticos. Sua relevância vem da discussão de temas significativos para a sociedade atual a partir dessa articulação.
Exposições
1992 - 2ª Bienal Internacional de Gravura
1992 - 16º Salão Carioca de Arte
1995 - 19º Salão Carioca de Arte
1996 - Projeto Macunaima
1996 - Projeto Quatro Quadros
1996 - Individual de Jarbas Lopes
1996 - Arte: experiência e pesquisa : acervo do CCCM dos últimos 3 anos
1996 - Antarctica Artes com a Folha
1997 - Cidade Oculta
1997 - 2º Projeto Abra / Coca-Cola de Arte Atual
1997 - 25º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - 16º Salão Nacional de Artes Plásticas
1998 - Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas
1998 - Jarbas Lopes: pintura-objeto e instalação
1998 - Antarctica Artes com a Folha
1998 - A Imagem do Som de Caetano Veloso
1998 - Dez Anos de Casa Triângulo
1999 - Vivia 21 Cura
1999 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
1999 - A Imagem do Som de Chico Buarque
1999 - 6º Salão da Bahia
2000 - Investigações. Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 1
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - BR 500
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - 26ª Bienal de Arte de Pontevedra
2000 - Individual de Jarbas Lopes
2000 - A Imagem do Som de Gilberto Gil
2000 - 7º Salão da Bahia
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira Rio de Janeiro
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira (Bahia)
2002 - Imaginário Periférico
2002 - 20 Artistas / 20 Anos
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 - Caminhos do Contemporâneo: 1952/2002
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Canteiro de Obras do Circo Voador
2002 - Faxinal das Artes
2002 - Livro: objeto da arte
2003 - Alfândega 1
2003 - Individual de Jarbas Lopes
2003 - Gambiarra: new art from Brazil
2003 - 8ª Bienal de Havana
2003 - Infantil
2003 - Arte Brasileira no Acervo do MAP
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Tudo É Brasil - Rio
2004 - Exposição 1 Ano: coletiva na A Gentil Carioca
2004 - Pampulha, Obra Colecionada: 1943-2003
2004 - Tudo É Brasil (2004 : São Paulo, SP)
2005 - RAMPA: Signaling New Latin American Art Initiatives
2005 - Coleções VI
2005 - Além da Imagem
2006 - Política: di - vi - da
2006 - 27ª Bienal Internacional de São Paulo
2007 - Close to Me
2007 - Itaú Contemporâneo: arte no Brasil 1981-2006
2007 - 4ª Bienal de Valência
2007 - Recortar e Colar | CtrlC CtrlV
2008 - Coletiva na A Gentil Carioca
2008 - Paper Trail: 15 Brazilian Artists
2008 - Cicloviaérea
2008 - Seja Marginal, Seja Herói
2008 - 3ª Mostra do Programa de Exposições
2009 - Com Piada
2009 - Padedéu
2009 - Pedregulho
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Recortes de uma Coleção
2010 - Se a Pintura Morreu o MAM é um Céu!
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Paralela 2010
2011 - País Paisagem
2011 - 11ª Bienal de Lyon
2011 - 32º Panorama da Arte Brasileira
2014 - Caos e Efeito
2014 - Vestígios: memória e registro da performance e do site specific
2014 - Há Escolas que São Gaiolas e Há Escolas que São Asas
2014 - Iberê Camargo: século XXI
2015 - Invento: as revoluções que nos inventaram
2016 - Brasil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture
2017 - Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos
2017 - Circulovisão
2018 - Via Aérea
2019 - ARTE NAÏF (Nenhum museu a menos)
2020 - Samba In The Dark
2020 - Patifaria!
2021 - 1981/2021: Arte contemporânea brasileira na coleção Andrea e José Olympio Pereira
2021 - Bum-bum Paticumbum Prugurundum
2021 - A Máquina Lírica
2022 - Obscura Luz
2022 - Por enquanto: os primeiros 40 anos
2022 - Parada 7 - Arte em Resistência
2024 - Uma cadeira é uma cadeira é uma cadeira
Fonte: JARBAS Lopes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 15 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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A mostra individual promove uma visão utópica do mundo e nos instiga a questionar o destino final dos objetos que descartamos | Museu de Arte do Rio
Gira, palavra imperativa que expressa movimento. Movimento esse, que o artista Jarbas Lopes faz com os objetos, ressignificando e apresentando obras que propõem interações pautadas pela coletividade. Essa é a ideia da nova exposição do Museu de Arte do Rio: Gira. A mostra individual de Jarbas Lopes, que promove uma utópica visão de mundo, nos instiga, entre outras coisas, a questionar o destino final dos objetos que descartamos. Na exposição, o artista com trinta anos de trajetória na arte contemporânea brasileira, lida diretamente com o espectador, convidando o público a estar no museu e a interagir com as obras criando uma participação ativa com algumas das peças.
O processo criativo de Jarbas permeia uma reconfiguração dos objetos e das experiências estéticas, dando um novo significado e movimento, sempre permeados por um tom crítico. O artista usa objetos que foram descartados nas ruas, como jornais, revistas, faixas de divulgação de shows e até propaganda política, que ganham novos significados. Ele cria ambientes que trazem histórias chaves para ampliar as arestas da arte e usa materiais do cotidiano como carros, bicicletas, tintas e elásticos. Suas esculturas e pinturas interativas fazem uma fusão entre tempo, espaço e circunstâncias práticas e ideológicas como participação coletiva, sociabilidade para espaços públicos e usos compartilhados da cidade.
“Há um bom tempo que eu tenho pensado nesse caminho que as pessoas podem fazer aqui nessa exposição. É um caminho circular. Circular é pra mim uma referência de pensar a minha expressão. O circular é aquela coisa que vai se repetindo. É o ritmo da própria vida e a arte faz parte disso. Eu trabalho as coisas que vão e voltam, evoluem um pouco, mas vão e voltam” conta o artista Jarbas Lopes.
A exposição, que tem curadoria de Amanda Bonan e Marcelo Campos, apresenta cerca de 100 obras que fazem parte da produção do artista, além de trabalhos inéditos e projetos que só existiam até agora no papel. O público vai encontrar diferentes tipos de obras de Jarbas como esculturas, pinturas, fotografias, desenhos, livros, maquetes e instalações.
“É uma exposição que o tempo todo quer o público e convida o público a estar no museu. O público não precisa entender antes de ver. O ver e o entender estão aliados. O que você está vendo é exatamente o que você precisa para entender o trabalho. Cada um pode interpretar da sua maneira, mas a interpretação não é um empecilho para estar em uma sala da exposição do Jarbas. Porque ela também te convida a usar diversos sentidos” ressalta o curador-chefe do MAR, Marcelo Campos.
Na mostra, o público é levado a se questionar sobre a obsolescência dos produtos: por que jogar fora? Quando uma máquina deixa de servir? O que fazer com os restos e sobras? A obra de Jarbas Lopes nos faz refletir sobre os descartes em um Brasil cujas florestas se tornam desertos. De muitos modos, os objetos que o artista nos oferece se mantêm em uso. Enquanto isso, o artista nos convida a ler e a interpretar o mundo. Não há sobras no trabalho dele. Até os restos entram no pensamento de uma outra parte do trabalho.
“A exposição de Jarbas Lopes chega ao MAR num momento muito oportuno: perto da semana do meio ambiente e das discussões da Rio +30. Ele é um artista que traz consciência ecológica em todos seus trabalhos e nos faz refletir sobre a preservação da biodiversidade brasileira. Acreditamos no importante papel do MAR para a discussão, dialogando com a conscientização sobre o futuro dos nossos ecossistemas e com a preservação de toda biodiversidade.” defende Raphael Callou, Diretor e Chefe da representação da OEI no Brasil, organização responsável pela gestão do museu desde janeiro deste ano.
Fonte: Museu de Arte do Rio. Consultado pela última vez em 16 de abril de 2025.
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Jarbas Lopes | Inhotim
Jarbas Lopes concluiu seus estudos sobre escultura em 1992, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Janeiro. A sua produção reúne esculturas, desenhos, instalações e performances. Também desenvolve projetos conceituais que operam à margem da lógica capitalista, valorizando o pensamento artesanal e a participação do espectador. Na série A paisano, por exemplo, ele recupera a prática popular do trançado para construir com tramas multicoloridas imagens que ficam entre a pintura e a escultura. Sua obra faz parte de importantes coleções como as do MAM – Museu Arte Moderna do Rio de Janeiro, do MoMA – Museum of Modern Art (EUA), Victoria & Albert Museum (Inglaterra) e da Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA).
Troca-Troca
Troca-troca (2002) é uma obra de Jarbas Lopes composta por três fuscas coloridos, originalmente amarelo, azul e vermelho, que tiveram suas latarias trocadas, resultando em três carros multicoloridos. Eles foram usados em 2002, pelo artista e um grupo de amigos, em uma viagem do Rio de Janeiro a Curitiba. A comunicação entre os carros era feita por meio de um sistema de som interligado.
No caminho, colaram adesivos nos para-brisas dos carros que encontravam na estrada, produzidos a partir do arquivo de palíndromos do artista Luis Andrade: “zé deserto, três é dez”, “a vadia saída vã”, e “e o bolero; borel oboé”, entre outros. Em 2007, após o restauro, os carros novamente ganharam a estrada, dessa vez de Belo Horizonte a Brumadinho, depois de percorrer as comunidades do entorno.
Fonte: Inhotim. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Sobre Jarbas Lopes | Luisa Strina
O trabalho de Jarbas Lopes transita entre pintura, escultura, desenho, livros de artista e performance. Muitos de seus trabalhos são participativos ou sensoriais, e o artista encoraja os participantes a tocar, segurar, movimentar e virar páginas. Projetos utópicos são planejados e feitos para envolver a comunidade e oferecer novas formas para a sociedade funcionar.
Exposições individuais recentes incluem: Eixos, Pinacoteca de São Paulo (2023); Gira, MAR - Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (2022); e a u, CRAC Alsace, Altkirch (2017); Circulovisão, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2017); Galeria Baginski, Lisboa (2015); Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro (2013); Park Central, Tilton Gallery, New York (2010); Cicloviaérea, Museo Nacional de Bellas Artes, Santiago (2010); Padedéu, in collaboration with Laura Lima, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2009).
Exposições coletivas recentes incluem: 3a. Bienal de Vila de Gaia, Vila Nova de Gaia (2019); ‘Brazil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture’, Museum Beelden aan Zee, Haia (2016); ‘Provocar Urbanos: Inquietações sobre a Cidade’, Sesc Vila Mariana, São Paulo (2016); ‘E de novo montanha, rio, mar, selva, floresta’, SESC Palladium, Belo Horizonte (2016); ‘(de) (re) construct: Artworks from the Permanent Collection’, Bronx Museum, Nova York (2015); ‘Look.look.again.’, The Aldrich Contemporary Art Museum, Ridgefield (2009); ‘Desenhos: A-Z’, Museu da Cidade, Lisboa (2009).
Coleções das quais seu trabalho faz parte incluem: CACI Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brasil; Victoria and Albert Museum, Inglaterra; The Cisneros Fontanals Art Foundation, EUA; Henry Moore Foundation, Inglaterra; MAM/Rio Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Museu de Arte da Pampulha, Brasil; Fundación ARCO, Espanha; MoMA Museum of Modern Art, EUA; TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Áustria.
Fonte: Luisa Strina. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Um futuro para hoje | Select Art
“Ciclotransamazonicaaérea é uma poética intermodal cujo eixo condutor de produção de experiência é o tecnoxamanismo do encaixe humano-bicicleta. Convida-nos a imaginar, com a totalidade inacabada de nossos corpos uni e pluricelulares, utopias materializáveis e materializadas. Se com a morte do último xamã amazônico o céu cairia sobre todos, com a instalação do primeiro pilar da cicloviaérea a pele do céu se estica mais alto.” O novo desdobramento da série Cicloviaérea (2001-2022), pensado para atravessar 600 quilômetros na Amazônia sem derrubar uma única árvore, foi anunciado em um zine não datado que a Editora Kadê, do artista Jarbas Lopes, publicou e pôs para circular há alguns anos.
Esse é o modus operandi do projeto estético-político mais longevo de Jarbas Lopes. Desde os primeiros estudos, desenhos e das primeiras bicicletas customizadas com o hoje conhecido trançado de vime que recobre e ornamenta a bike, a Cicloviaérea costuma provocar uma dúvida: trata-se de um projeto de urbanismo ou de uma utopia? Deparar com os objetos, desenhos e maquetes em uma exposição (por exemplo, na Bienal de São Paulo de 2006 ou no Panorama do MAM em 2011) gera essa ambiguidade entre uma proposta pragmática, de realização possível na trama urbana, e algo da ordem do sonho, como uma possibilidade de imaginar um mundo que a gente sabe que não vai existir. O paradoxo transfigura-se diante dos trechos experimentais móveis da Cicloviaérea, já instalados no Sesc Belenzinho, em 2018, e no Parque do Ibirapuera, no período do Panorama 2011, entre outros, quando a experiência deste trabalho coletivo pode ser vivida coletivamente. De utópico, o trabalho realiza-se à medida que é usado e partilhado. A Cicloviaérea está se realizando há 20 anos, toda vez que alguém pega uma bike do projeto, seja na Pampulha, seja no Sesc, e dá um rolê.
“São utopias possíveis, não é? Depois de um tempo, fui ver que existe também esse pensamento das utopias possíveis em diferentes filósofos, como algo estudado no campo do conhecimento. Mas isso tudo parte de uma ideia que me vem intuitivamente, em 2001, como uma resposta que poderíamos chamar de positiva para a esfera política e para a sociedade”, diz Jarbas Lopes à seLecT. “Dentro dessa lógica ou percepção de protesto, ou manifesto, o que poderia ser uma resposta, o que é que a gente pode resolver então nessa confusão? O que seria, afinal, divertido também?”, questiona. “Assim veio essa ideia da Cicloviaérea. Não é uma questão só da bicicleta. É sobre o prazer. Ele abrange tudo, ele abre uma plataforma, como se diz atualmente, e, quando surgia essa leitura, da utopia, eu respondia que era um futuro pra hoje.”
ANTES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Lopes costuma trabalhar com enunciados para suas obras. O da Cicloviaérea descreve “uma pista suspensa com um pequeno declive em sua extensão que proporcionará uma leve força a favor em seu percurso, facilitando longas distâncias de bicicleta dentro do cotidiano de transações urbanas”. Começar a usar a “tecnologia do corpo” era para já, desde o enunciado de 2001, muito antes de as ciclovias se disseminarem nas políticas públicas. Um entendimento político das tecnologias perpassa a pesquisa do artista. “É como agora com o celular, que primeiro era uma coisa futurista, de um alcance inimaginável, mas que logo depois começa a criar problemas, como todas essas invenções, certo? O avião, por exemplo. Alguns anos depois de ser inventado, estava jogando bomba na cabeça dos outros. Daí a importância de propor uma resposta no campo político, porque somos atingidos também, somos afetados por tudo isso”, reflete.
Além do enunciado-manifesto, o projeto sempre foi acompanhado de desenhos, em que Jarbas Lopes representa não a própria Cicloviaérea, mas o imaginário que ela gera. A CicloTransAmazônicaAérea começou a ser gestada entre 2015 e 2016. “Comecei a imaginar essa ideia de migrar da via para o trans, como se fosse uma ficção de novo. Porque na cidade isso já se realizou. Então, o novo território da ação passa a ser a Amazônia. É uma proposta que eu acho que pode acontecer. A gente gosta de ficar construindo coisas, as civilizações. Uma vez, encontrei um engenheiro argentino que tinha cruzado a Amazônia com uma linha elétrica, com o cabeamento da rede elétrica. Eles abriram uma faixa de 3 metros de largura por 600 quilômetros. Só que ali cortaram tudo, né? Detonaram geral. Então é isso, será que a gente não pode, se fizeram isso, fazer uma cicloviazinha?”, diverte-se.
Estamos na segunda sala da exposição GIRA, no Museu de Arte do Rio, quando Jarbas fornece essas explicações. Em frente aos desenhos da CicloTransAmazônicaAérea, feitos com esferográficas azuis, vermelhas, pretas e verdes, uma enorme maquete é habitada por plantas que o artista e duas colaboradoras especiais, Katerina Dimitrova e Amora Dimitrova Lopes, trouxeram de casa, em Maricá, para criar o jardim que faz as vezes da Amazônia na escultura. Em um sábado ensolarado de fim de julho, o MAR está cheio de visitantes e a exposição individual de Jarbas Lopes prende a atenção, porque mobiliza muito mais do que os olhares. Na primeira sala, por exemplo, três obras da série Shock Pintura – estruturas de alumínio com cordas de alpinismo trançadas – podem ser usadas para balançar o corpo; e uma bancada com diversas publicações da Editora Kadê convida o visitante a se sentar e passear pelos livros-objetos do artista, que concentram as suas experimentações estético-políticas, sempre democraticamente colocadas em circulação.
TECNOLOGIA XAMÂNICA
O título da mostra vem da mesma raiz: girar, circular. Este, o ponto de partida de toda a pesquisa do artista, que articula a ideia de uma “tecnologia xamânica”. Tecnologia significa uma vastidão de saberes contraditórios no léxico de Jarbas Lopes. “Como é que a pessoa entra na Amazônia? Vou vestir uma bota, vou botar um capacete? Vou fazer uma armadura de fibra de carbono, superleve, mas que pode vir um jacaré morder, não vai ter problema. Ou um inseticida. Não, você tem ali uma energia xamânica que o adapta melhor, de modo que você não precisa de ninguém pra ficar carregando sua mala na hora que você está andando lá. Nem carrinho pra puxar a mala, sabe? Está querendo uma pousada, um resort pra você mergulhar na piscina? Não, você se adapta igual a esses povos que vivem já há milênios em convivência com esse ambiente, mas você mantém também essa relação com o urbano, uma coisa que a gente tem. Não é só uma crítica a isso, mas uma relação entre as duas coisas, um jeito de compreender esse ambiente, utilizá-lo de outra forma, por outra lógica, e sempre ligado a essa coisa do prazer.”
Nascido e criado na Baixada Fluminense, Jarbas conta que a visualidade do subúrbio carioca sempre informou seus trabalhos, como se vê na escultura-tenda DEEGRAÇA (1998), que mostrou no Panorama MAM de 2001 e na coletiva Gambiarra (2003), na Gasworks, em Londres. Feita de faixas de ráfia costuradas, ela delimita um território de 25 metros quadrados, que já abrigou performances musicais, festas e outras ações por onde passou, e cabe em uma sacola (também de ráfia, que tem o título do trabalho). “Esses materiais todos têm também o lado estético. São coloridos, têm a coisa gráfica do anúncio de mercados, os anúncios de bar, que foi o primeiro material que usei, naquela barraca de praça. Aquele é o primeiro projeto que eu fiz que estabelece uma relação com o público, tem participações, performance improvisada, convivência. Esse é o material de anúncios de eventos culturais na periferia, com o qual tinha uma relação anterior, porque meu pai foi dessa área, convivi muito com essas faixas na infância e adolescência, porque era parte da cultura da periferia onde eu vivia”, conta.
Mais do que falar de reutilização, interessa operar uma transmutação. Esta é a alquimia que se processa na série O Debate (1998-2019), em que entrelaça cartazes de campanha eleitoral, uma das obras mais conhecidas de Jarbas Lopes, exibida no mesmo Panorama de 2001 e na Galeria Reocupa, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, na mostra O Que Não É Floresta É Preso Político (2019). “Não é só uma questão de reaproveitamento, porque a reutilização tem também esse sentido político e atual da reciclagem, mas no fundo é uma maneira de se relacionar com o material que tem um histórico com o qual você cria outra relação. Esses materiais que vou buscar na rua me interessam porque chegam impregnados do que está acontecendo e a mistura com o experimento plástico possibilita essa modificação dentro dessa esfera da arte e da política.”
Fonte: Select Art, “Um futuro para hoje", escrito por Juliana Monachesi, publicado em 28 de outubro de 2022. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Fonte de energia de prazer | Select Art
É novembro de 2023. Jarbas Lopes pega a estrada, em Maricá, município do Rio de Janeiro, dirigindo seu Fusca branco, com destino a São Paulo, para a montagem da individual Jarbas Lopes: eixos, em cartaz na Pina Estação até 31/3/24. Logo na saída, cruza com moradores do bairro, no meio da rua, atiçando fogo a uma pilha de galhos secos e pneus, em protesto pela falta de luz e de água há três dias. Por todo o percurso de saída da cidade, de São Gonçalo até Niterói, Lopes atravessa várias barricadas. “Tudo resultado dessas privatizações que obrigam a gente a pagar a conta, sem entregar o serviço”, diz o artista no vídeo O Bem e o Mal Entendido (2023), que documenta a viagem do Fusca branco, que é a base de uma instalação de mesmo título, montada no estacionamento do museu. Mas esse vídeo é também um statement, a ser lido no contexto da obra-manifesto Hidrobras (2022-24), de viés ativista socioambiental, que propõe substituir a Petrobras pela criação de uma nova estatal que fará o manejo sustentável e permanente do maior ativo da economia brasileira: a água.
No Rio de Janeiro, os serviços de água e esgoto foram privatizados em 2021. Em dezembro de 2023, foi sancionada em São Paulo a lei que autoriza a venda da empresa estatal de águas e esgoto. “Se um dia São Paulo realmente se tornar um deserto, se essa terra aqui for consumida pela destruição, pela proliferação da selva de pedra, os motores do Fusca irão sobreviver bem”, continua Jarbas Lopes no documentário. “Esse é um carro próprio para lugares quentes, desertos, com falta d’água. Ele é mais que um camelo, porque não bebe água, esse carro. Eu tenho que beber por ele.”
Com 13,7% de toda a água doce no planeta, o Brasil é a maior reserva hidrológica do mundo, considerado por isso o “manancial da Terra”. “Como sociedade, vamos fazer o seguinte: doar a Petrobras para um ferro velho brasileiro e desenvolver a Hidrobras”, aponta o artista. No projeto, a matriz energética a partir de agora será a água, que passará a ser pesquisada e cuidada, para ser limpa, pública e gratuita. A matriz energética do petróleo, além de estar baseada na extração de recursos não renováveis, gera resíduos tóxicos para o meio ambiente e sua combustão é responsável pelos gases poluentes na atmosfera.
Hidrobras é uma manifestação de duas frentes centrais da pesquisa de Jarbas Lopes: as tramas – e estamos falando aqui de sociabilidades, tramas sociais, interações, diálogos, debates – e a vertente gráfica. O trabalho consiste na distribuição gratuita de um desenho em marca d’água da nova empresa pública, impresso em relevo sobre papel. A ação foi realizada inicialmente na exposição Gira, individual do artista no Museu de Arte do Rio (MAR), de junho a outubro de 2022, e agora terá nova tiragem realizada presencialmente pelo artista na bancada da revista celeste na SP-Arte 2024 e distribuída para o público.
O prelo disponibilizado pelo artista para a ação é um equipamento de sua Gráfica e Editora KD, lugar de pesquisas e experimentações com maquinário e técnicas de impressão desde 2012. Como em projetos de invenção, como a sua consagrada série Ciclovia Aérea (2001-23), a ação Hidrobras se equilibra entre as terras do imaginário e os ares do possível. Aqui, propondo “ideias que geram movimento”, o acrobata Jarbas Lopes desencadeia um movimento pela água como fonte não de energia de produção, mas sim de prazer e de vida.
Fonte: Select Art, “Fonte de energia de prazer”, escrito por Paula Alzugaray, publicado em 28 de março de 2024. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções | Agência Brasil
Invenções que tiveram impacto decisivo na história da humanidade em releituras feitas por artistas formam a exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, que inclui tanto obras de artistas renomados, como Andy Warhol e Man Ray, quanto trabalhos feitos especificamente para o evento. A mostra abre na próxima quarta-feira (5) e vai até 4 de outubro, na Oca do Parque Ibirapuera, zona sul paulistana.
O ferro elétrico é lembrado na peça The Gift do norte-americano Man Ray. O trabalho de 1958 traz o utensílio doméstico com uma fileira de pregos que inevitavelmente rasgariam qualquer roupa passada por ele. Menos agressiva é a guitarra personalizada por Andy Wahol, um dos maiores nomes da Pop Art, para o músico Lou Reed, lider da banda de rock Velvet Underground.
Obra The Gift do artista Man Ray exibida na exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, em São Paulo Divulgação
Entre os 30 nomes que assinam as obras, também estão brasileiros como Guto Lacaz. O artista paulista fez uma instalação com rádios transformados em varas de pescar a partir das antenas. O carioca Jarbas Lopes usou dois fuscas, um branco e outro preto, para fazer uma referência ao símbolo taoísta do yin-yang com os automóveis.
Para o curador Marcello Dantas, afastar os equipamentos das funções tradicionais ajuda a refletir sobre o impacto dos inventos na sociedade. “Ao incorporar as invenções em suas obras, os artistas em geral pensam em desfuncionalizá-las, afastá-las de sua função original para lhes oferecer uma reencarnação de seu sentido social. A verdade da arte não é a mesma da história”, comparou.
Além das obras, a exposição tem um conteúdo interativo sobre a história e a relevância das invenções retratadas na mostra, com texto assinado pelo historiador norte-americano Joshua Decter.
Fonte: Agência Brasil, “Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções”, escrito por Daniel Mello, publicado em 8 de fevereiro de 2015. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Imagem extraída de rede social, publicada em 22 de novembro de 2023.
Jarbas Lopes (1964, Nova Iguaçu, RJ) é um artista visual brasileiro. Reconhecido por sua atuação na arte contemporânea com foco em obras interativas, esculturas, instalações e projetos coletivos, Jarbas é formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFRJ em 1992. Desenvolveu uma linguagem singular que combina práticas artesanais, objetos do cotidiano, mobilidade e crítica social. Suas obras transitam entre escultura, desenho, performance e ação pública, muitas vezes envolvendo participação do público e ativação no espaço urbano. Influenciado pelo modernismo, movimentos contra-hegemônicos e arte relacional, sua produção destaca-se por explorar a noção de coletividade, utopia e experimentação. Projetos emblemáticos como Cicloviaérea (2001) e Troca-troca (2002) são exemplos do seu compromisso com a reinvenção poética da vida cotidiana. Participou de exposições em instituições como o MoMA (Nova York), Victoria & Albert Museum (Londres), Pinacoteca de São Paulo, Museu de Arte do Rio (MAR) e Inhotim (MG), onde possui obras permanentes. Sua produção está presente em importantes acervos e coleções no Brasil e no exterior.
Jarbas Lopes | Arremate Arte
Jarbas Lopes, nascido em 1964, em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, é um dos nomes mais proeminentes da arte contemporânea brasileira. Com uma trajetória marcada pela transgressão das fronteiras entre arte e vida, sua produção se distingue pela criação de obras híbridas, interativas e poéticas, que buscam instaurar novas formas de relação com o mundo. Formado em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992, Lopes desenvolveu um corpo de trabalho que transita com liberdade entre escultura, instalação, desenho, pintura, performance e publicações, muitas vezes incorporando práticas colaborativas e elementos do cotidiano.
Radicado em Maricá (RJ), o artista construiu ao longo das décadas uma obra profundamente vinculada a valores como coletividade, mobilidade, utopia e crítica à lógica do consumo. Projetos como Cicloviaérea (2001), em que propõe um circuito suspenso de bicicletas como alternativa poética de deslocamento, ou Troca-troca (2002), em que carros são desmontados e remontados com peças de diferentes origens, exemplificam sua constante busca por repensar os sistemas funcionais da sociedade a partir de gestos simbólicos e experiências sensoriais. Seu processo criativo valoriza o fazer manual, o improviso, o afeto e o encontro, desafiando a rigidez institucional e abrindo espaço para outras formas de criação e circulação artística.
A relação com o público ocupa papel central em sua obra. Em muitos de seus trabalhos, o espectador é convidado a participar ativamente, seja ativando objetos, caminhando por instalações ou interagindo com esculturas. O artista transforma a arte em território de convivência, questionamento e reinvenção das formas de estar no mundo. Para além das galerias e museus, suas ações frequentemente ocupam o espaço urbano, interferindo na paisagem e suscitando experiências que cruzam arte, arquitetura, ecologia e política.
Jarbas Lopes participou de importantes exposições no Brasil e no exterior, incluindo mostras no MoMA (Nova York), no Victoria & Albert Museum (Londres), na Pinacoteca de São Paulo, no Museu de Arte do Rio (MAR) e no Inhotim, onde mantém obras de destaque na coleção permanente. Sua produção integra acervos públicos e privados relevantes, sendo amplamente estudada por críticos e curadores.
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Jarbas Lopes | Itaú Cultural
Jarbas Lopes Júnior (Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, 1964). Artista plástico, performer, organizador de livros. Sua obra discute temas como corpo, tecnologia, comunidade, sociedade de massa, sustentabilidade e imagem, muitas vezes num tom bem-humorado e incentivando a participação do público.
Forma-se bacharel em escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992. Sua primeira exposição individual ocorre em 1998, na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, e apresenta pinturas-objetos e instalação. As pinturas-objetos são obras realizadas com tiras trançadas de plástico, vindas de um universo popular e que aproximam a arte da vida cotidiana. Dois desses trabalhos são Vira-casaca (1996) e Rio de Janeiro (1997), em que o artista recria paisagens cariocas.
A instalação intitulada Um quarto para José Pedro (1998) é realizada com materiais de construção e cria um ambiente sensorial que remete às instalações de Hélio Oiticica (1937-1980), artista carioca pioneiro numa arte preocupada em envolver o espectador, mergulhando-o fisicamente em suas obras. Oiticica e Lygia Clark (1920-1988) são referências declaradas de Jarbas Lopes. Essa instalação também é montada, em 2001, no 27º Panorama da Arte Brasileira, exposição coletiva periódica do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). A respeito dessa obra, o historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014) afirma que nela se nota o diálogo entre cultura popular e cultura de massa, a discrepância entre as pretensões da arte de âmbito institucional e as verdades da cultura da escassez de recursos.
Seus trabalhos articulam linguagens, técnicas e materiais populares para discutir e problematizar temas importantes, em uma produção que, de acordo com o crítico e curador Lauro Cavalcanti (1954), funde aspectos e materiais da cultura popular com linguagens da arte erudita.
A partir de 2002, produz a série O debate, cujas obras também se valem da técnica de tiras trançadas, exploradas ao longo de sua carreira. Aqui, o material plástico vem de cartazes de propaganda eleitoral feitos em lona. O resultado são figuras deformadas e assustadoras de políticos, numa problematização de aspectos como vida social, política, persona política, imagem e marketing. Exemplo disso é uma obra sem título de 2019 em que se distingue a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (1955), com vestígios da bandeira nacional ao fundo. Para o crítico e curador Luiz Camillo Osorio (1963), nessa série o artista monta “uma cena que perverte e reinventa a figuração”. Como pontuado por Osorio, nas obras de Jarbas Lopes, a discussão da política não acontece por meio de um discurso programático e ideológico. Em vez disso, o artista desloca imagens e elementos materiais.
Troca-troca (2002), incorporada mais tarde à coleção do Instituto Inhotim, centro de botânica e artes visuais em Brumadinho, Minas Gerais, é sua obra mais conhecida pelo público. Exposta num jardim, é composta de três fuscas, originalmente amarelo, azul e vermelho, que têm suas latarias trocadas, resultando em carros multicoloridos. Antes de serem incorporados a essa coleção, foram utilizados numa viagem do artista e amigos da cidade do Rio de Janeiro a Curitiba, no Paraná, para serem expostos no Museu de Arte Contemporânea (MAC-PR). A comunicação entre os veículos se dava por meio de um sistema de som.
Desde pelo menos 2003, participa da organização de uma série de zines – publicações artísticas independentes de baixa tiragem que exploram linguagens artísticas diversas, tais como o desenho, a poesia e a ilustração. Entre eles, destacam-se dois sem títulos do poeta Guilherme Zarvos (1957), que articulam desenho e caligrafia infantis e poesia, ambos de 2014.
Em 2011, participa, com Ciclovia aérea, do 32º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP. Trata-se de instalação temporária que foi montada no Parque Ibirapuera: uma pequena ciclovia sobre uma plataforma, cujas laterais são espelhadas. A obra discute diversos temas importantes para o artista, tais como “sustentabilidade, mobilidade, coleta seletiva, energia limpa, bicicleta”, de acordo com o que ele próprio escreve no zine relativo a esse projeto. Essa obra faz parte do projeto Cicloviaérea, que surge em 2001 como um plano utópico ou visionário que propõe a criação de ciclovias suspensas para lidar com o trânsito de áreas urbanas. Bicicletas adornadas com trançados de vime e borracha fazem parte desse projeto, atraindo a atenção do público.
Jarbas Lopes tem uma abordagem criativa que busca incorporar a participação do público à arte. Além disso, sua produção articula materiais e técnicas de origem popular com movimentos artísticos. Sua relevância vem da discussão de temas significativos para a sociedade atual a partir dessa articulação.
Exposições
1992 - 2ª Bienal Internacional de Gravura
1992 - 16º Salão Carioca de Arte
1995 - 19º Salão Carioca de Arte
1996 - Projeto Macunaima
1996 - Projeto Quatro Quadros
1996 - Individual de Jarbas Lopes
1996 - Arte: experiência e pesquisa : acervo do CCCM dos últimos 3 anos
1996 - Antarctica Artes com a Folha
1997 - Cidade Oculta
1997 - 2º Projeto Abra / Coca-Cola de Arte Atual
1997 - 25º Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - Individual de Jarbas Lopes
1998 - 16º Salão Nacional de Artes Plásticas
1998 - Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas
1998 - Jarbas Lopes: pintura-objeto e instalação
1998 - Antarctica Artes com a Folha
1998 - A Imagem do Som de Caetano Veloso
1998 - Dez Anos de Casa Triângulo
1999 - Vivia 21 Cura
1999 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
1999 - A Imagem do Som de Chico Buarque
1999 - 6º Salão da Bahia
2000 - Investigações. Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 1
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - BR 500
2000 - Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. O Plano Ampliado
2000 - 26ª Bienal de Arte de Pontevedra
2000 - Individual de Jarbas Lopes
2000 - A Imagem do Som de Gilberto Gil
2000 - 7º Salão da Bahia
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2001 - 27º Panorama da Arte Brasileira
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira Rio de Janeiro
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - 27º Panorama da Arte Brasileira (Bahia)
2002 - Imaginário Periférico
2002 - 20 Artistas / 20 Anos
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 - Caminhos do Contemporâneo: 1952/2002
2002 - Niterói Arte Hoje
2002 - Imaginário Periférico
2002 - Canteiro de Obras do Circo Voador
2002 - Faxinal das Artes
2002 - Livro: objeto da arte
2003 - Alfândega 1
2003 - Individual de Jarbas Lopes
2003 - Gambiarra: new art from Brazil
2003 - 8ª Bienal de Havana
2003 - Infantil
2003 - Arte Brasileira no Acervo do MAP
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Individual de Jarbas Lopes
2004 - Tudo É Brasil - Rio
2004 - Exposição 1 Ano: coletiva na A Gentil Carioca
2004 - Pampulha, Obra Colecionada: 1943-2003
2004 - Tudo É Brasil (2004 : São Paulo, SP)
2005 - RAMPA: Signaling New Latin American Art Initiatives
2005 - Coleções VI
2005 - Além da Imagem
2006 - Política: di - vi - da
2006 - 27ª Bienal Internacional de São Paulo
2007 - Close to Me
2007 - Itaú Contemporâneo: arte no Brasil 1981-2006
2007 - 4ª Bienal de Valência
2007 - Recortar e Colar | CtrlC CtrlV
2008 - Coletiva na A Gentil Carioca
2008 - Paper Trail: 15 Brazilian Artists
2008 - Cicloviaérea
2008 - Seja Marginal, Seja Herói
2008 - 3ª Mostra do Programa de Exposições
2009 - Com Piada
2009 - Padedéu
2009 - Pedregulho
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Recortes de uma Coleção
2010 - Se a Pintura Morreu o MAM é um Céu!
2010 - Uma Gentil Invenção
2010 - Paralela 2010
2011 - País Paisagem
2011 - 11ª Bienal de Lyon
2011 - 32º Panorama da Arte Brasileira
2014 - Caos e Efeito
2014 - Vestígios: memória e registro da performance e do site specific
2014 - Há Escolas que São Gaiolas e Há Escolas que São Asas
2014 - Iberê Camargo: século XXI
2015 - Invento: as revoluções que nos inventaram
2016 - Brasil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture
2017 - Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos
2017 - Circulovisão
2018 - Via Aérea
2019 - ARTE NAÏF (Nenhum museu a menos)
2020 - Samba In The Dark
2020 - Patifaria!
2021 - 1981/2021: Arte contemporânea brasileira na coleção Andrea e José Olympio Pereira
2021 - Bum-bum Paticumbum Prugurundum
2021 - A Máquina Lírica
2022 - Obscura Luz
2022 - Por enquanto: os primeiros 40 anos
2022 - Parada 7 - Arte em Resistência
2024 - Uma cadeira é uma cadeira é uma cadeira
Fonte: JARBAS Lopes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 15 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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A mostra individual promove uma visão utópica do mundo e nos instiga a questionar o destino final dos objetos que descartamos | Museu de Arte do Rio
Gira, palavra imperativa que expressa movimento. Movimento esse, que o artista Jarbas Lopes faz com os objetos, ressignificando e apresentando obras que propõem interações pautadas pela coletividade. Essa é a ideia da nova exposição do Museu de Arte do Rio: Gira. A mostra individual de Jarbas Lopes, que promove uma utópica visão de mundo, nos instiga, entre outras coisas, a questionar o destino final dos objetos que descartamos. Na exposição, o artista com trinta anos de trajetória na arte contemporânea brasileira, lida diretamente com o espectador, convidando o público a estar no museu e a interagir com as obras criando uma participação ativa com algumas das peças.
O processo criativo de Jarbas permeia uma reconfiguração dos objetos e das experiências estéticas, dando um novo significado e movimento, sempre permeados por um tom crítico. O artista usa objetos que foram descartados nas ruas, como jornais, revistas, faixas de divulgação de shows e até propaganda política, que ganham novos significados. Ele cria ambientes que trazem histórias chaves para ampliar as arestas da arte e usa materiais do cotidiano como carros, bicicletas, tintas e elásticos. Suas esculturas e pinturas interativas fazem uma fusão entre tempo, espaço e circunstâncias práticas e ideológicas como participação coletiva, sociabilidade para espaços públicos e usos compartilhados da cidade.
“Há um bom tempo que eu tenho pensado nesse caminho que as pessoas podem fazer aqui nessa exposição. É um caminho circular. Circular é pra mim uma referência de pensar a minha expressão. O circular é aquela coisa que vai se repetindo. É o ritmo da própria vida e a arte faz parte disso. Eu trabalho as coisas que vão e voltam, evoluem um pouco, mas vão e voltam” conta o artista Jarbas Lopes.
A exposição, que tem curadoria de Amanda Bonan e Marcelo Campos, apresenta cerca de 100 obras que fazem parte da produção do artista, além de trabalhos inéditos e projetos que só existiam até agora no papel. O público vai encontrar diferentes tipos de obras de Jarbas como esculturas, pinturas, fotografias, desenhos, livros, maquetes e instalações.
“É uma exposição que o tempo todo quer o público e convida o público a estar no museu. O público não precisa entender antes de ver. O ver e o entender estão aliados. O que você está vendo é exatamente o que você precisa para entender o trabalho. Cada um pode interpretar da sua maneira, mas a interpretação não é um empecilho para estar em uma sala da exposição do Jarbas. Porque ela também te convida a usar diversos sentidos” ressalta o curador-chefe do MAR, Marcelo Campos.
Na mostra, o público é levado a se questionar sobre a obsolescência dos produtos: por que jogar fora? Quando uma máquina deixa de servir? O que fazer com os restos e sobras? A obra de Jarbas Lopes nos faz refletir sobre os descartes em um Brasil cujas florestas se tornam desertos. De muitos modos, os objetos que o artista nos oferece se mantêm em uso. Enquanto isso, o artista nos convida a ler e a interpretar o mundo. Não há sobras no trabalho dele. Até os restos entram no pensamento de uma outra parte do trabalho.
“A exposição de Jarbas Lopes chega ao MAR num momento muito oportuno: perto da semana do meio ambiente e das discussões da Rio +30. Ele é um artista que traz consciência ecológica em todos seus trabalhos e nos faz refletir sobre a preservação da biodiversidade brasileira. Acreditamos no importante papel do MAR para a discussão, dialogando com a conscientização sobre o futuro dos nossos ecossistemas e com a preservação de toda biodiversidade.” defende Raphael Callou, Diretor e Chefe da representação da OEI no Brasil, organização responsável pela gestão do museu desde janeiro deste ano.
Fonte: Museu de Arte do Rio. Consultado pela última vez em 16 de abril de 2025.
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Jarbas Lopes | Inhotim
Jarbas Lopes concluiu seus estudos sobre escultura em 1992, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Janeiro. A sua produção reúne esculturas, desenhos, instalações e performances. Também desenvolve projetos conceituais que operam à margem da lógica capitalista, valorizando o pensamento artesanal e a participação do espectador. Na série A paisano, por exemplo, ele recupera a prática popular do trançado para construir com tramas multicoloridas imagens que ficam entre a pintura e a escultura. Sua obra faz parte de importantes coleções como as do MAM – Museu Arte Moderna do Rio de Janeiro, do MoMA – Museum of Modern Art (EUA), Victoria & Albert Museum (Inglaterra) e da Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA).
Troca-Troca
Troca-troca (2002) é uma obra de Jarbas Lopes composta por três fuscas coloridos, originalmente amarelo, azul e vermelho, que tiveram suas latarias trocadas, resultando em três carros multicoloridos. Eles foram usados em 2002, pelo artista e um grupo de amigos, em uma viagem do Rio de Janeiro a Curitiba. A comunicação entre os carros era feita por meio de um sistema de som interligado.
No caminho, colaram adesivos nos para-brisas dos carros que encontravam na estrada, produzidos a partir do arquivo de palíndromos do artista Luis Andrade: “zé deserto, três é dez”, “a vadia saída vã”, e “e o bolero; borel oboé”, entre outros. Em 2007, após o restauro, os carros novamente ganharam a estrada, dessa vez de Belo Horizonte a Brumadinho, depois de percorrer as comunidades do entorno.
Fonte: Inhotim. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Sobre Jarbas Lopes | Luisa Strina
O trabalho de Jarbas Lopes transita entre pintura, escultura, desenho, livros de artista e performance. Muitos de seus trabalhos são participativos ou sensoriais, e o artista encoraja os participantes a tocar, segurar, movimentar e virar páginas. Projetos utópicos são planejados e feitos para envolver a comunidade e oferecer novas formas para a sociedade funcionar.
Exposições individuais recentes incluem: Eixos, Pinacoteca de São Paulo (2023); Gira, MAR - Museu de Arte do Rio, Rio de Janeiro (2022); e a u, CRAC Alsace, Altkirch (2017); Circulovisão, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2017); Galeria Baginski, Lisboa (2015); Galeria A Gentil Carioca, Rio de Janeiro (2013); Park Central, Tilton Gallery, New York (2010); Cicloviaérea, Museo Nacional de Bellas Artes, Santiago (2010); Padedéu, in collaboration with Laura Lima, Galeria Luisa Strina, São Paulo (2009).
Exposições coletivas recentes incluem: 3a. Bienal de Vila de Gaia, Vila Nova de Gaia (2019); ‘Brazil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture’, Museum Beelden aan Zee, Haia (2016); ‘Provocar Urbanos: Inquietações sobre a Cidade’, Sesc Vila Mariana, São Paulo (2016); ‘E de novo montanha, rio, mar, selva, floresta’, SESC Palladium, Belo Horizonte (2016); ‘(de) (re) construct: Artworks from the Permanent Collection’, Bronx Museum, Nova York (2015); ‘Look.look.again.’, The Aldrich Contemporary Art Museum, Ridgefield (2009); ‘Desenhos: A-Z’, Museu da Cidade, Lisboa (2009).
Coleções das quais seu trabalho faz parte incluem: CACI Centro de Arte Contemporânea Inhotim, Brasil; Victoria and Albert Museum, Inglaterra; The Cisneros Fontanals Art Foundation, EUA; Henry Moore Foundation, Inglaterra; MAM/Rio Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil; Museu de Arte da Pampulha, Brasil; Fundación ARCO, Espanha; MoMA Museum of Modern Art, EUA; TBA21 Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Áustria.
Fonte: Luisa Strina. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Um futuro para hoje | Select Art
“Ciclotransamazonicaaérea é uma poética intermodal cujo eixo condutor de produção de experiência é o tecnoxamanismo do encaixe humano-bicicleta. Convida-nos a imaginar, com a totalidade inacabada de nossos corpos uni e pluricelulares, utopias materializáveis e materializadas. Se com a morte do último xamã amazônico o céu cairia sobre todos, com a instalação do primeiro pilar da cicloviaérea a pele do céu se estica mais alto.” O novo desdobramento da série Cicloviaérea (2001-2022), pensado para atravessar 600 quilômetros na Amazônia sem derrubar uma única árvore, foi anunciado em um zine não datado que a Editora Kadê, do artista Jarbas Lopes, publicou e pôs para circular há alguns anos.
Esse é o modus operandi do projeto estético-político mais longevo de Jarbas Lopes. Desde os primeiros estudos, desenhos e das primeiras bicicletas customizadas com o hoje conhecido trançado de vime que recobre e ornamenta a bike, a Cicloviaérea costuma provocar uma dúvida: trata-se de um projeto de urbanismo ou de uma utopia? Deparar com os objetos, desenhos e maquetes em uma exposição (por exemplo, na Bienal de São Paulo de 2006 ou no Panorama do MAM em 2011) gera essa ambiguidade entre uma proposta pragmática, de realização possível na trama urbana, e algo da ordem do sonho, como uma possibilidade de imaginar um mundo que a gente sabe que não vai existir. O paradoxo transfigura-se diante dos trechos experimentais móveis da Cicloviaérea, já instalados no Sesc Belenzinho, em 2018, e no Parque do Ibirapuera, no período do Panorama 2011, entre outros, quando a experiência deste trabalho coletivo pode ser vivida coletivamente. De utópico, o trabalho realiza-se à medida que é usado e partilhado. A Cicloviaérea está se realizando há 20 anos, toda vez que alguém pega uma bike do projeto, seja na Pampulha, seja no Sesc, e dá um rolê.
“São utopias possíveis, não é? Depois de um tempo, fui ver que existe também esse pensamento das utopias possíveis em diferentes filósofos, como algo estudado no campo do conhecimento. Mas isso tudo parte de uma ideia que me vem intuitivamente, em 2001, como uma resposta que poderíamos chamar de positiva para a esfera política e para a sociedade”, diz Jarbas Lopes à seLecT. “Dentro dessa lógica ou percepção de protesto, ou manifesto, o que poderia ser uma resposta, o que é que a gente pode resolver então nessa confusão? O que seria, afinal, divertido também?”, questiona. “Assim veio essa ideia da Cicloviaérea. Não é uma questão só da bicicleta. É sobre o prazer. Ele abrange tudo, ele abre uma plataforma, como se diz atualmente, e, quando surgia essa leitura, da utopia, eu respondia que era um futuro pra hoje.”
ANTES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Lopes costuma trabalhar com enunciados para suas obras. O da Cicloviaérea descreve “uma pista suspensa com um pequeno declive em sua extensão que proporcionará uma leve força a favor em seu percurso, facilitando longas distâncias de bicicleta dentro do cotidiano de transações urbanas”. Começar a usar a “tecnologia do corpo” era para já, desde o enunciado de 2001, muito antes de as ciclovias se disseminarem nas políticas públicas. Um entendimento político das tecnologias perpassa a pesquisa do artista. “É como agora com o celular, que primeiro era uma coisa futurista, de um alcance inimaginável, mas que logo depois começa a criar problemas, como todas essas invenções, certo? O avião, por exemplo. Alguns anos depois de ser inventado, estava jogando bomba na cabeça dos outros. Daí a importância de propor uma resposta no campo político, porque somos atingidos também, somos afetados por tudo isso”, reflete.
Além do enunciado-manifesto, o projeto sempre foi acompanhado de desenhos, em que Jarbas Lopes representa não a própria Cicloviaérea, mas o imaginário que ela gera. A CicloTransAmazônicaAérea começou a ser gestada entre 2015 e 2016. “Comecei a imaginar essa ideia de migrar da via para o trans, como se fosse uma ficção de novo. Porque na cidade isso já se realizou. Então, o novo território da ação passa a ser a Amazônia. É uma proposta que eu acho que pode acontecer. A gente gosta de ficar construindo coisas, as civilizações. Uma vez, encontrei um engenheiro argentino que tinha cruzado a Amazônia com uma linha elétrica, com o cabeamento da rede elétrica. Eles abriram uma faixa de 3 metros de largura por 600 quilômetros. Só que ali cortaram tudo, né? Detonaram geral. Então é isso, será que a gente não pode, se fizeram isso, fazer uma cicloviazinha?”, diverte-se.
Estamos na segunda sala da exposição GIRA, no Museu de Arte do Rio, quando Jarbas fornece essas explicações. Em frente aos desenhos da CicloTransAmazônicaAérea, feitos com esferográficas azuis, vermelhas, pretas e verdes, uma enorme maquete é habitada por plantas que o artista e duas colaboradoras especiais, Katerina Dimitrova e Amora Dimitrova Lopes, trouxeram de casa, em Maricá, para criar o jardim que faz as vezes da Amazônia na escultura. Em um sábado ensolarado de fim de julho, o MAR está cheio de visitantes e a exposição individual de Jarbas Lopes prende a atenção, porque mobiliza muito mais do que os olhares. Na primeira sala, por exemplo, três obras da série Shock Pintura – estruturas de alumínio com cordas de alpinismo trançadas – podem ser usadas para balançar o corpo; e uma bancada com diversas publicações da Editora Kadê convida o visitante a se sentar e passear pelos livros-objetos do artista, que concentram as suas experimentações estético-políticas, sempre democraticamente colocadas em circulação.
TECNOLOGIA XAMÂNICA
O título da mostra vem da mesma raiz: girar, circular. Este, o ponto de partida de toda a pesquisa do artista, que articula a ideia de uma “tecnologia xamânica”. Tecnologia significa uma vastidão de saberes contraditórios no léxico de Jarbas Lopes. “Como é que a pessoa entra na Amazônia? Vou vestir uma bota, vou botar um capacete? Vou fazer uma armadura de fibra de carbono, superleve, mas que pode vir um jacaré morder, não vai ter problema. Ou um inseticida. Não, você tem ali uma energia xamânica que o adapta melhor, de modo que você não precisa de ninguém pra ficar carregando sua mala na hora que você está andando lá. Nem carrinho pra puxar a mala, sabe? Está querendo uma pousada, um resort pra você mergulhar na piscina? Não, você se adapta igual a esses povos que vivem já há milênios em convivência com esse ambiente, mas você mantém também essa relação com o urbano, uma coisa que a gente tem. Não é só uma crítica a isso, mas uma relação entre as duas coisas, um jeito de compreender esse ambiente, utilizá-lo de outra forma, por outra lógica, e sempre ligado a essa coisa do prazer.”
Nascido e criado na Baixada Fluminense, Jarbas conta que a visualidade do subúrbio carioca sempre informou seus trabalhos, como se vê na escultura-tenda DEEGRAÇA (1998), que mostrou no Panorama MAM de 2001 e na coletiva Gambiarra (2003), na Gasworks, em Londres. Feita de faixas de ráfia costuradas, ela delimita um território de 25 metros quadrados, que já abrigou performances musicais, festas e outras ações por onde passou, e cabe em uma sacola (também de ráfia, que tem o título do trabalho). “Esses materiais todos têm também o lado estético. São coloridos, têm a coisa gráfica do anúncio de mercados, os anúncios de bar, que foi o primeiro material que usei, naquela barraca de praça. Aquele é o primeiro projeto que eu fiz que estabelece uma relação com o público, tem participações, performance improvisada, convivência. Esse é o material de anúncios de eventos culturais na periferia, com o qual tinha uma relação anterior, porque meu pai foi dessa área, convivi muito com essas faixas na infância e adolescência, porque era parte da cultura da periferia onde eu vivia”, conta.
Mais do que falar de reutilização, interessa operar uma transmutação. Esta é a alquimia que se processa na série O Debate (1998-2019), em que entrelaça cartazes de campanha eleitoral, uma das obras mais conhecidas de Jarbas Lopes, exibida no mesmo Panorama de 2001 e na Galeria Reocupa, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, na mostra O Que Não É Floresta É Preso Político (2019). “Não é só uma questão de reaproveitamento, porque a reutilização tem também esse sentido político e atual da reciclagem, mas no fundo é uma maneira de se relacionar com o material que tem um histórico com o qual você cria outra relação. Esses materiais que vou buscar na rua me interessam porque chegam impregnados do que está acontecendo e a mistura com o experimento plástico possibilita essa modificação dentro dessa esfera da arte e da política.”
Fonte: Select Art, “Um futuro para hoje", escrito por Juliana Monachesi, publicado em 28 de outubro de 2022. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Fonte de energia de prazer | Select Art
É novembro de 2023. Jarbas Lopes pega a estrada, em Maricá, município do Rio de Janeiro, dirigindo seu Fusca branco, com destino a São Paulo, para a montagem da individual Jarbas Lopes: eixos, em cartaz na Pina Estação até 31/3/24. Logo na saída, cruza com moradores do bairro, no meio da rua, atiçando fogo a uma pilha de galhos secos e pneus, em protesto pela falta de luz e de água há três dias. Por todo o percurso de saída da cidade, de São Gonçalo até Niterói, Lopes atravessa várias barricadas. “Tudo resultado dessas privatizações que obrigam a gente a pagar a conta, sem entregar o serviço”, diz o artista no vídeo O Bem e o Mal Entendido (2023), que documenta a viagem do Fusca branco, que é a base de uma instalação de mesmo título, montada no estacionamento do museu. Mas esse vídeo é também um statement, a ser lido no contexto da obra-manifesto Hidrobras (2022-24), de viés ativista socioambiental, que propõe substituir a Petrobras pela criação de uma nova estatal que fará o manejo sustentável e permanente do maior ativo da economia brasileira: a água.
No Rio de Janeiro, os serviços de água e esgoto foram privatizados em 2021. Em dezembro de 2023, foi sancionada em São Paulo a lei que autoriza a venda da empresa estatal de águas e esgoto. “Se um dia São Paulo realmente se tornar um deserto, se essa terra aqui for consumida pela destruição, pela proliferação da selva de pedra, os motores do Fusca irão sobreviver bem”, continua Jarbas Lopes no documentário. “Esse é um carro próprio para lugares quentes, desertos, com falta d’água. Ele é mais que um camelo, porque não bebe água, esse carro. Eu tenho que beber por ele.”
Com 13,7% de toda a água doce no planeta, o Brasil é a maior reserva hidrológica do mundo, considerado por isso o “manancial da Terra”. “Como sociedade, vamos fazer o seguinte: doar a Petrobras para um ferro velho brasileiro e desenvolver a Hidrobras”, aponta o artista. No projeto, a matriz energética a partir de agora será a água, que passará a ser pesquisada e cuidada, para ser limpa, pública e gratuita. A matriz energética do petróleo, além de estar baseada na extração de recursos não renováveis, gera resíduos tóxicos para o meio ambiente e sua combustão é responsável pelos gases poluentes na atmosfera.
Hidrobras é uma manifestação de duas frentes centrais da pesquisa de Jarbas Lopes: as tramas – e estamos falando aqui de sociabilidades, tramas sociais, interações, diálogos, debates – e a vertente gráfica. O trabalho consiste na distribuição gratuita de um desenho em marca d’água da nova empresa pública, impresso em relevo sobre papel. A ação foi realizada inicialmente na exposição Gira, individual do artista no Museu de Arte do Rio (MAR), de junho a outubro de 2022, e agora terá nova tiragem realizada presencialmente pelo artista na bancada da revista celeste na SP-Arte 2024 e distribuída para o público.
O prelo disponibilizado pelo artista para a ação é um equipamento de sua Gráfica e Editora KD, lugar de pesquisas e experimentações com maquinário e técnicas de impressão desde 2012. Como em projetos de invenção, como a sua consagrada série Ciclovia Aérea (2001-23), a ação Hidrobras se equilibra entre as terras do imaginário e os ares do possível. Aqui, propondo “ideias que geram movimento”, o acrobata Jarbas Lopes desencadeia um movimento pela água como fonte não de energia de produção, mas sim de prazer e de vida.
Fonte: Select Art, “Fonte de energia de prazer”, escrito por Paula Alzugaray, publicado em 28 de março de 2024. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
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Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções | Agência Brasil
Invenções que tiveram impacto decisivo na história da humanidade em releituras feitas por artistas formam a exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, que inclui tanto obras de artistas renomados, como Andy Warhol e Man Ray, quanto trabalhos feitos especificamente para o evento. A mostra abre na próxima quarta-feira (5) e vai até 4 de outubro, na Oca do Parque Ibirapuera, zona sul paulistana.
O ferro elétrico é lembrado na peça The Gift do norte-americano Man Ray. O trabalho de 1958 traz o utensílio doméstico com uma fileira de pregos que inevitavelmente rasgariam qualquer roupa passada por ele. Menos agressiva é a guitarra personalizada por Andy Wahol, um dos maiores nomes da Pop Art, para o músico Lou Reed, lider da banda de rock Velvet Underground.
Obra The Gift do artista Man Ray exibida na exposição Invento – As invenções que Nos Inventaram, em São Paulo Divulgação
Entre os 30 nomes que assinam as obras, também estão brasileiros como Guto Lacaz. O artista paulista fez uma instalação com rádios transformados em varas de pescar a partir das antenas. O carioca Jarbas Lopes usou dois fuscas, um branco e outro preto, para fazer uma referência ao símbolo taoísta do yin-yang com os automóveis.
Para o curador Marcello Dantas, afastar os equipamentos das funções tradicionais ajuda a refletir sobre o impacto dos inventos na sociedade. “Ao incorporar as invenções em suas obras, os artistas em geral pensam em desfuncionalizá-las, afastá-las de sua função original para lhes oferecer uma reencarnação de seu sentido social. A verdade da arte não é a mesma da história”, comparou.
Além das obras, a exposição tem um conteúdo interativo sobre a história e a relevância das invenções retratadas na mostra, com texto assinado pelo historiador norte-americano Joshua Decter.
Fonte: Agência Brasil, “Exposição no Ibirapuera apresenta releituras artísticas de grandes invenções”, escrito por Daniel Mello, publicado em 8 de fevereiro de 2015. Consultado pela última vez em 15 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Imagem extraída de rede social, publicada em 22 de novembro de 2023.