José Maria de Souza (Valença, BA, 13 de abril de 1935 — Salvador, BA, 16 de setembro de 1985) foi um pintor e gravador brasileiro.
Biografia
Foi para Salvador em 1945, quando começou a desenhar no Liceu Salesiano. Em 1951, morou e estudou na Escola de Belas Artes da UFBA, onde foi aluno de gravura de Mário Cravo e, de desenho de Juarez Paraíso. De 1961 a 1973, residiu no Rio de Janeiro, passando da xilogravura para a pintura. Sentindo-se confinado no seu apartamento do Rio, decidiu viajar para Pernambuco passando por várias cidades, e depois Salvador, numa viagem que durou dois anos e o levou a mostrar em suas telas, as paisagens e a gente do interior. Realizou muitas exposições na Galeria Bonino e o Irlandini, no Rio; expôs também em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Buenos Aires, Madri. Barcelona e Lausanne. Participou das V, VI e VII Bienais de São Paulo, de Salões Nacionais e de inúmeras coletivas. Em 1990, foi lançado pelo editor Cabicieri, o livro sobre a vida e a obra do artista, gravador e pintor José Maria de Souza.
José Maria de Souza
Para os amigos e artistas de sua geração, José Maria é sobretudo o gravador. E isto porque, carismático e convicto, surgiu entre nós com uma extraordinária vocação para a gravura. Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura, naquela época (1959) um dos mais importantes em nossa escola. Trabalhando precariamente, apenas com lâmina de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textural dos cinzas, e, acima de tudo, pelo conteúdo, expressivo de suas primeiras figuras e naturezas-mortas.
Em que pese a orientação e o estímulo dos amigos, artistas e professores, José Maria, no seu período de formação técnica, foi um autodidata. Confundindo-se com os próprios materiais, sempre encontrávamos o artista fascinantemente preso ao compensado, ás goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma que, melhor exprimiriam as suas idéias, o seu sentimento. Enquanto a cidade dormia no silêncio das longas noite, a cena era inconfundível: José Maria predestinado, apaixonadamente dedicado ao trabalho artístico, vencendo dificuldades, como um verdadeiro asceta, milagre da própria dignidade e do destino espiritual do homem, ausente as seduções, aos lucros materiais de tantas outras atividades.
O extraordinário seria sondar e revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de beatitude, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem para os demais.
A seguir o pequeno texto que fiz sobre José Maria de Souza tentava montar suas aptidões artísticas. Quando trabalhava como balconista numa casa de tecidos na zona do Comércio, de propriedade do pai do engenheiro Mário Antônio Sampaio, que naquela época era vizinho do artista Sante Scaldaferri, sensibilizado com os pendores artísticos de José Maria, o engenheiro levou-o á presença de Sante, oportunidade em que lhe foram mostrados vários desenhos. Sante observou-os e fez algumas recomendações.
Dias depois nova leva de desenhos chegou para Sante examinar e, para sua surpresa, o então balconista tinha captado todas as informações que lhe foram passadas. Daí nasceu uma amizade, na verdade são muito sólida(se viram poucas vezes) mas sincera.
Sante apresentou-a a Juarez Paraíso e juntos trabalharam algum tempo, até em finais de semana.
O temperamento era introspectivo, arredio até. Outras vezes surpreendia, defendendo um ponto de vista.
Essas lembranças são necessárias para que as gerações futuras possam entender um pouco do homem José Maria. Conheci-o numa casa que Renot possuía nas imediações de Patamares. Era um atelier que o galerista arranjou para ele passar uma temporada: lembro-me de belas telas inspiradas nos canaviais pernambucanos, com o branco das casinhas caiadas contrastando com o verde-cana que dominava os campos. Nunca mais o vi, até que fui surpreendido com a notícia da sua morte em 16 de setembro de 1985.
Seu sepultamento ocorreu em Valença, sua terra natal. Ele participou de salões no Rio de Janeiro, da Bienal de São Paulo e fez algumas exposições em várias capitais e também em Buenos Aires.Sua obra foi muita apreciada, principalmente no Rio de Janeiro e aqui na Bahia.
Fez muitas gravuras, onde podemos sentir a influência de Goeldi. No início de sua carreira utilizava lâminas de barbear e tocos de faca para entalhar a madeira. Tenho uma gravura de sua autoria onde a influência de Goeldi pode ser notada. Isso não desmerece a sua obra. Ao contrário, todo artista sofre influências dos mestres e José Maria soube ser ele mesmo.
Fonte: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
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José Maria de Souza: A xilogravura dos andarilhos em Salvador
José Maria de Souza, nasceu em Valença, Bahia, em 13 de abril de 1935, tendo sido criado por seus padrinhos Adalberto Ferreira e Adelaide Ferreira, pois a mãe, Maria Augusta de Souza, falecera pouco tempo depois do seu nascimento. Maria Augusta não era casada com o pai, Pedro Coceiro de Matos. Passou a infância em Valença e mudou-se para Salvador na adolescência, onde estudou no internato do Liceu Salesiano. Foi no Liceu que ele começou a demonstrar suas aptidões artísticas ao desenhar e copiar figuras das estórias em quadrinhos, levadas por seus amigos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Criado pelos padrinhos, José Maria teve contato indireto com seus irmãos e seu pai, pois viajava periodicamente para Valença, para passar os finais de semana. Souza, (1987) sobre a vida de José Maria,
De quinze em quinze dias José Maria passava os fins de semana em Valença, onde era observado pelos irmãos, os quais não conhecia, filhos de Pedro Coceiro e Damiana. Os irmãos, principalmente Natan Coceiro, realizaram tentativas de aproximação com José Maria sem lhe revelar o parentesco, mas ele especulava sobre tal hipótese e mantinha-se igualmente sob reserva, frente à incerteza desta condição. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Mesmo com este ambiente familiar incomum, José Maria, era um menino sempre alegre e jovial, gostava de molecagem, brincadeiras de rua e cresceu desse modo, de acordo com depoimentos e, quando jovem, fazia parte de uma turma na Rua Jogo do Carneiro, no bairro de Nazaré, onde morava. Faziam parte também desta turma Paulo Gil Soares e Waldemar Szaveniesvsk. Sobre suas angústias em relação ao internato, José Maria narrou para seu amigo Paulo Gil Soares como foi seu encontro com a arte: “Eu procurava esquecer o internato, desenhando. Esquecer, por exemplo, que os outros estavam pintando o belo casario baiano, e que eu estava sofrendo a vigilância de padres ferozes”. Seria inevitável que em algum momento se rebelasse e, quando escolheu seguir a carreira artística contou com o estranhamento da família, apoiado por um discurso preconceituoso e depreciativo. De acordo com Souza, (1987):
Ao terminar o ginásio, o padrinho encaminhou-o ao trabalho no comércio, porém não era isso que atraía Jose Maria. Seu desejo era ingressar na Escola de Belas Artes – ser pintor. “Artista? Coisa de vagabundo”, diziam os padrinhos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.25).
Podemos imaginar quanto deve ter sido difícil para José Maria lidar com a falta de apoio dos padrinhos, além da ausência dos familiares e as limitações financeiras. Mas isto foi apenas o começo das dificuldades que ele precisou superar para seguir a carreira artística e ter que ultrapassar os desafios comuns à juventude e as consequências de tal decisão, que é de grande importância para a vida. Soares, (1958) ao escrever sobre a consciência artística, demonstra como tal escolha imprime um enfrentamento diante da sociedade:
Nesta fase, o artista moço sente-se marginal. Infelizmente entre nós é considerado vagabundo todo o jovem que se dedica à arte. O artista é sociologicamente inútil. Ninguém pensa com simpatia na luta interior de quem faz arte. Só os loucos sabem abrir os braços ao artista e chamá-los de irmãos. Daí falarmos agora de José Maria de Souza, um jovem artista plástico baiano que começa a se afirmar. (SOARES apud CABICIERI, 1958, p. 36).
José Maria tornou-se amigo de artistas e seguindo o conselho de Sante Scaldaferri e Mirabeau Sampaio, resolveu deixar a casa dos padrinhos e foi morar no sótão da Escola de Belas Artes, onde estudou desenho com o professor Juarez Paraíso e gravura com os professores Mario Cravo e Henrique Oswald. Juarez Paraíso descreve como foi o começo da trajetória artística de José Maria, enquanto estudante de arte, com convicção, evidente:
Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura. Trabalhando precariamente apenas com laminas de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textual dos cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras e naturezas mortas. (PARAÌSO apud CABICIERI, 1965, p. 49).
Apesar da apreensão em relação às condições financeiras, o período em que José Maria começou a estudar arte foi bastante frutífero. Soares (1960) sublinha festivamente o sucesso que foi, antes mesmo do resultado financeiro, o encontro de SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3348 José Maria com a arte, com a Escola de Belas Artes, com os amigos que encontrou e, para a surpresa de todos, a desenvoltura com o desenho e a gravura. E, sobretudo, a aceitação de seus trabalhos, quer seja pelo assunto, quer seja pela técnica, pois a gravura julgava-se mais difícil de assimilar. Como observa Soares (1960):
E Belas Artes chegou.... E a amizade de Juarez também. É desnecessário falar que as bíblicas vacas magras montaram estábulo nos bolsos do nosso bom Zé Maria, inaugurando festivamente a fase da pindaíba total. Veio a gravura. Calma e pacientemente, qual monge debruçado sobre seu breviário, Zé Maria submetia a madeira às suas mãos. (SOARES apud CABICIERI, 1960, p. 38).
Através dessas experiências, a arte da gravura tornou-se um meio sem segredos para o jovem artista que, por meio de linhas, efeitos de claro-escuro e compreensão de valores cromáticos, pôde experimentar intensamente as técnicas de xilogravura que se tornaram meios de ampla expressão. Podemos afirmar, dessa maneira, que o entusiasmo de José Maria pela gravura manifestou-se nos primeiros contatos com aquela linguagem, proliferando rapidamente em excelentes resultados.
Diante disso, podemos notar nas xilogravuras de José Maria, aspectos ainda ausentes das discussões acadêmicas ou que têm recebido uma atenção incompatível com sua representatividade. Torna-se necessário proporcionar a visibilidade da referida obra, pois sua realização poderá abrir caminho para novas leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da Escola de Belas Artes, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites da instituição. José Maria foi surpreendente pelo modo particular em que situava os pesos visuais, pela riqueza da sua valiosa escala de cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras, seus desencantos e a ausência.
José Maria de Souza, dedicou-se calma e pacientemente à gravura, pôs-se a conhecer cada instrumento, cada traço que os instrumentos e os veios da madeira lhe ofereciam. Primeiro submeteu a gravura às suas mãos; buscou o figurativo e em seguida o abstrato e nas xilogravuras se denotavam, na distorção e na deformação plástica dos objetos, uma condição expressionista pedindo licença para embeber toda a obra. Nesse momento em que procurou identificação, encontrou no expressionismo alemão a perfeita tradução de uma leitura crítica da sociedade baiana, nos cantos da cidade e suas mazelas. O resultado de um intenso processo de expressão veio a tempo de partilhar com sua expressão artística.
O recorte da cena das gravuras de José Maria situa-se no claro-escuro, na densidade da treva, dentro da qual os corpos se configuram mediante a iluminação que o artista arbitra. O ambiente interno se mistura e os personagens principais surgem rasgando a cena, dando contornos que saltam aos olhos, àquilo que por muitas vezes, gostaríamos de não observar. De acordo com PEDROSA (1949), evidenciando o que acontecia com os artistas daquela época, “ os motivos sociais, SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3350 ao inverso dos da natureza, tornaram-se cada vez mais ricos e pedem a sua integração na obra artística moderna”. As ruas de Salvador, sempre retratadas de vários modos, é apresentada por José Maria de modo singular e atemporal. Os andarilhos de ontem ainda caminham hoje, lado a lado, com as xilogravuras. Continuam fazendo parte, assim como a sua gravura, que segue contrariando a ordem dos discursos, daqueles que admiram a pintura, com todos os seus adjetivos, que não se encontram na gravura. Mas, mesmo assim, segue ainda avançando e questionando-nos nas cenas citadinas em que a figura sem contorno deixou de ser determinada pela linha para resolver-se através da mutação que perambula por toda a parte.
Seu carisma e sua convicção se revelou numa extraordinária vocação para a gravura. Pelo seu envolvimento com a arte havia momentos em que chegou a simbiose, confundindo-se com os próprios materiais e por vezes era encontrado fascinado, aprisionado aos veios da madeira, às goivas e formões, descobrindo-se parte da criação, atuando como um dos seus personagens, vivenciando ou experienciando o ser arte. Segundo os relatos, ele realizava suas xilogravuras enquanto a cidade dormia, silenciosamente, exprimia seu olhar noturno num compensado, pelo avesso.
O gravador se imbricava com os próprios materiais, era visto sempre fascinado pela sua gravura, como se estivesse preso ao compensado, às goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma, que melhor exprimiriam as suas ideias, o seu sentimento, afirmou BRITO (1988). Motivado pela sua visão da natureza e das pessoas, era extremamente sensível para captar a atmosfera dos ambientes, na observação dos aspectos sociais e nas suas andanças pela noite soteropolitana, as pessoas entregues à ausência de amparo. Os desertos de afetos são representados em grande parte de sua obra gráfica. As pessoas, em expressão do sofrimento no qual a fisionomia não é notória, mas ao ambiente obscuro são acrescidas as manchas próprias da xilogravura, que contornam com mais sofrimento, entre o paradoxo cromático de luminosidade e penumbra, igualando-se também à inexistência de esperança dos personagens que compõe.
José Maria faz parte daqueles que indicam nos corpos sempre uma necessidade expressional e jamais na correção do realístico e o movimento da figura se restringe nos gestos e às atitudes mais discretas. Certamente, de acordo com o carinho pelo qual seus companheiros de gravura se referem, deveria ser um humanista, como se revela em sua obra. O olhar dele repousa sobre as inquietações humanas, sobretudo naquilo em que mais se destacam as angústias e a solidão.
Seria admirável sondar e revelar a mente de pessoas como ele, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de atitudes benevolentes diante da desumanidade, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem os demais. Passou por limitações financeira, escassez de alimentos, situações extremas. Mas isso serviu para firmar seu compromisso com a vida. Sentia-se emocionalmente ligado aos padecimentos do homem, tendo convivido com marginais, bêbedos, prostitutas e mendigos, tornando-se inerente à sua estrutura perceptual um sentimento universal de solidariedade humana. As injustiças e as repressões descabidas, o egoísmo da sociedade que se define pela discriminação hipócrita e desumana só fizeram intensificar a sua sensibilidade, o seu sentimento de compaixão.
Nesta série de gravuras dos anos 1959, o artista explora as questões humanas na figura da infância abandonada, os conflitos comunitários nunca expostos numa sociedade que se define organizada. A descrença se alinha com a construção de um cenário irreal. Seria extraordinário se fosse possível revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o desejo preservacionista do material humano, que creditava o maior valor possível em contraposição a sua indiferença aos valores temporais, pois dentro de seu temperamento arredio, residia uma pessoa introspectiva, que certamente abrigava uma grande inquietação diante do mundo contraditório e enviesado, mas ele permite que adentremos apenas para apreciar em sua obra e compartilhar da mesma angústia em torno da realidade que ultrapassa o tempo.
Procura conscientizar o homem quanto aos verdadeiros valores de sua existência, mostrando cruamente o produto de suas injustiças, apelando à sua dignidade subjacente, porque amortecida através do instrumento mais eficaz que é a obra de arte. Somente a beleza (o esteticamente expressivo) é capaz de intimidar o homem no mais profundo de sua estrutura sensível. Antes mesmo de ser um meio de alta expressão, a obra de arte transcende pela projeção do universal, dos valores próprios à estrutura anímica do homem.
O artista realizou, desse modo particular, uma reflexão entre a arte e as mazelas da sociedade. Ampliou os espaços da produção artística entre as regiões sudeste e nordeste, ao se inserir na V Bienal de São Paulo, apresentando uma proposta que envolveu não apenas um modo subjetivo de linguagem, mas acima de tudo, um cruzamento entre a realidade de alguns e a experiência transformadora e reveladora de um artista em inteireza com sua produção, que se permitiu a uma breve, porém profunda e dialética proposta de gravura, que não terminou com a sua morte
O conceito de renovação estaria relacionada tanto à questão da produção (a gravura artística, com sua variedade de métodos técnicos, seu caráter artesanal, mecânico, multiplicador do objeto de arte, permitiu experiências e resultados não previstos ou mesmo considerados pela arte academicista, que buscava a suprema beleza ou irrisórias realidades) quanto à do ensino (os procedimentos de compartilhamento dos conhecimentos que deram grande ênfase ao experimento e à livre expressão), assim como as condições estruturais e materiais em que esse compartilhamento ocorria, colocando os artistas, profissionais e aprendizes, no caminho da criação livre e consciente, resultando numa produção, como podemos evidenciar na obra de José Maria.
A reflexão gráfica realizada por José Maria oportuniza outras leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da cidade de Salvador, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites e concepção artística do período, permitindo uma análise dos aspectos formais dos elementos da arte moderna e atualiza hoje a interpretação da sociedade contemporânea.
A estrutura peculiar de suas formas, o conjunto de traços e a sua expressividade, bem como o uso de certas sutilezas e o tratamento estético lhe conferem um registro de um xilogravador de notória qualidade. Sua obra nos premia com toda carga de valores expressionistas e, junto com sua trajetória de vida, assumem um contexto bastante compatível do período em que viveu e produziu. O indivíduo que viveu um momento em que a sociedade enfrentava grandes dissabores e que o enfrentamento dessas realidades, ainda que não tenha sido de modo transformador, na gravura acentua-se enquanto expressão, que vibra e lhe recheia de questionamentos sobre a arte, seu papel social, suas intervenções, seus discursos e, sobretudo, seus alcances.
Fonte: Anpap, por Virginia de Fátima Oliveira e Silva / UFBA, publicado em 24 de setembro de 2018.
Crédito fotográfico: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
José Maria de Souza (Valença, BA, 13 de abril de 1935 — Salvador, BA, 16 de setembro de 1985) foi um pintor e gravador brasileiro.
Biografia
Foi para Salvador em 1945, quando começou a desenhar no Liceu Salesiano. Em 1951, morou e estudou na Escola de Belas Artes da UFBA, onde foi aluno de gravura de Mário Cravo e, de desenho de Juarez Paraíso. De 1961 a 1973, residiu no Rio de Janeiro, passando da xilogravura para a pintura. Sentindo-se confinado no seu apartamento do Rio, decidiu viajar para Pernambuco passando por várias cidades, e depois Salvador, numa viagem que durou dois anos e o levou a mostrar em suas telas, as paisagens e a gente do interior. Realizou muitas exposições na Galeria Bonino e o Irlandini, no Rio; expôs também em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Buenos Aires, Madri. Barcelona e Lausanne. Participou das V, VI e VII Bienais de São Paulo, de Salões Nacionais e de inúmeras coletivas. Em 1990, foi lançado pelo editor Cabicieri, o livro sobre a vida e a obra do artista, gravador e pintor José Maria de Souza.
José Maria de Souza
Para os amigos e artistas de sua geração, José Maria é sobretudo o gravador. E isto porque, carismático e convicto, surgiu entre nós com uma extraordinária vocação para a gravura. Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura, naquela época (1959) um dos mais importantes em nossa escola. Trabalhando precariamente, apenas com lâmina de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textural dos cinzas, e, acima de tudo, pelo conteúdo, expressivo de suas primeiras figuras e naturezas-mortas.
Em que pese a orientação e o estímulo dos amigos, artistas e professores, José Maria, no seu período de formação técnica, foi um autodidata. Confundindo-se com os próprios materiais, sempre encontrávamos o artista fascinantemente preso ao compensado, ás goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma que, melhor exprimiriam as suas idéias, o seu sentimento. Enquanto a cidade dormia no silêncio das longas noite, a cena era inconfundível: José Maria predestinado, apaixonadamente dedicado ao trabalho artístico, vencendo dificuldades, como um verdadeiro asceta, milagre da própria dignidade e do destino espiritual do homem, ausente as seduções, aos lucros materiais de tantas outras atividades.
O extraordinário seria sondar e revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de beatitude, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem para os demais.
A seguir o pequeno texto que fiz sobre José Maria de Souza tentava montar suas aptidões artísticas. Quando trabalhava como balconista numa casa de tecidos na zona do Comércio, de propriedade do pai do engenheiro Mário Antônio Sampaio, que naquela época era vizinho do artista Sante Scaldaferri, sensibilizado com os pendores artísticos de José Maria, o engenheiro levou-o á presença de Sante, oportunidade em que lhe foram mostrados vários desenhos. Sante observou-os e fez algumas recomendações.
Dias depois nova leva de desenhos chegou para Sante examinar e, para sua surpresa, o então balconista tinha captado todas as informações que lhe foram passadas. Daí nasceu uma amizade, na verdade são muito sólida(se viram poucas vezes) mas sincera.
Sante apresentou-a a Juarez Paraíso e juntos trabalharam algum tempo, até em finais de semana.
O temperamento era introspectivo, arredio até. Outras vezes surpreendia, defendendo um ponto de vista.
Essas lembranças são necessárias para que as gerações futuras possam entender um pouco do homem José Maria. Conheci-o numa casa que Renot possuía nas imediações de Patamares. Era um atelier que o galerista arranjou para ele passar uma temporada: lembro-me de belas telas inspiradas nos canaviais pernambucanos, com o branco das casinhas caiadas contrastando com o verde-cana que dominava os campos. Nunca mais o vi, até que fui surpreendido com a notícia da sua morte em 16 de setembro de 1985.
Seu sepultamento ocorreu em Valença, sua terra natal. Ele participou de salões no Rio de Janeiro, da Bienal de São Paulo e fez algumas exposições em várias capitais e também em Buenos Aires.Sua obra foi muita apreciada, principalmente no Rio de Janeiro e aqui na Bahia.
Fez muitas gravuras, onde podemos sentir a influência de Goeldi. No início de sua carreira utilizava lâminas de barbear e tocos de faca para entalhar a madeira. Tenho uma gravura de sua autoria onde a influência de Goeldi pode ser notada. Isso não desmerece a sua obra. Ao contrário, todo artista sofre influências dos mestres e José Maria soube ser ele mesmo.
Fonte: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
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José Maria de Souza: A xilogravura dos andarilhos em Salvador
José Maria de Souza, nasceu em Valença, Bahia, em 13 de abril de 1935, tendo sido criado por seus padrinhos Adalberto Ferreira e Adelaide Ferreira, pois a mãe, Maria Augusta de Souza, falecera pouco tempo depois do seu nascimento. Maria Augusta não era casada com o pai, Pedro Coceiro de Matos. Passou a infância em Valença e mudou-se para Salvador na adolescência, onde estudou no internato do Liceu Salesiano. Foi no Liceu que ele começou a demonstrar suas aptidões artísticas ao desenhar e copiar figuras das estórias em quadrinhos, levadas por seus amigos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Criado pelos padrinhos, José Maria teve contato indireto com seus irmãos e seu pai, pois viajava periodicamente para Valença, para passar os finais de semana. Souza, (1987) sobre a vida de José Maria,
De quinze em quinze dias José Maria passava os fins de semana em Valença, onde era observado pelos irmãos, os quais não conhecia, filhos de Pedro Coceiro e Damiana. Os irmãos, principalmente Natan Coceiro, realizaram tentativas de aproximação com José Maria sem lhe revelar o parentesco, mas ele especulava sobre tal hipótese e mantinha-se igualmente sob reserva, frente à incerteza desta condição. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Mesmo com este ambiente familiar incomum, José Maria, era um menino sempre alegre e jovial, gostava de molecagem, brincadeiras de rua e cresceu desse modo, de acordo com depoimentos e, quando jovem, fazia parte de uma turma na Rua Jogo do Carneiro, no bairro de Nazaré, onde morava. Faziam parte também desta turma Paulo Gil Soares e Waldemar Szaveniesvsk. Sobre suas angústias em relação ao internato, José Maria narrou para seu amigo Paulo Gil Soares como foi seu encontro com a arte: “Eu procurava esquecer o internato, desenhando. Esquecer, por exemplo, que os outros estavam pintando o belo casario baiano, e que eu estava sofrendo a vigilância de padres ferozes”. Seria inevitável que em algum momento se rebelasse e, quando escolheu seguir a carreira artística contou com o estranhamento da família, apoiado por um discurso preconceituoso e depreciativo. De acordo com Souza, (1987):
Ao terminar o ginásio, o padrinho encaminhou-o ao trabalho no comércio, porém não era isso que atraía Jose Maria. Seu desejo era ingressar na Escola de Belas Artes – ser pintor. “Artista? Coisa de vagabundo”, diziam os padrinhos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.25).
Podemos imaginar quanto deve ter sido difícil para José Maria lidar com a falta de apoio dos padrinhos, além da ausência dos familiares e as limitações financeiras. Mas isto foi apenas o começo das dificuldades que ele precisou superar para seguir a carreira artística e ter que ultrapassar os desafios comuns à juventude e as consequências de tal decisão, que é de grande importância para a vida. Soares, (1958) ao escrever sobre a consciência artística, demonstra como tal escolha imprime um enfrentamento diante da sociedade:
Nesta fase, o artista moço sente-se marginal. Infelizmente entre nós é considerado vagabundo todo o jovem que se dedica à arte. O artista é sociologicamente inútil. Ninguém pensa com simpatia na luta interior de quem faz arte. Só os loucos sabem abrir os braços ao artista e chamá-los de irmãos. Daí falarmos agora de José Maria de Souza, um jovem artista plástico baiano que começa a se afirmar. (SOARES apud CABICIERI, 1958, p. 36).
José Maria tornou-se amigo de artistas e seguindo o conselho de Sante Scaldaferri e Mirabeau Sampaio, resolveu deixar a casa dos padrinhos e foi morar no sótão da Escola de Belas Artes, onde estudou desenho com o professor Juarez Paraíso e gravura com os professores Mario Cravo e Henrique Oswald. Juarez Paraíso descreve como foi o começo da trajetória artística de José Maria, enquanto estudante de arte, com convicção, evidente:
Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura. Trabalhando precariamente apenas com laminas de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textual dos cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras e naturezas mortas. (PARAÌSO apud CABICIERI, 1965, p. 49).
Apesar da apreensão em relação às condições financeiras, o período em que José Maria começou a estudar arte foi bastante frutífero. Soares (1960) sublinha festivamente o sucesso que foi, antes mesmo do resultado financeiro, o encontro de SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3348 José Maria com a arte, com a Escola de Belas Artes, com os amigos que encontrou e, para a surpresa de todos, a desenvoltura com o desenho e a gravura. E, sobretudo, a aceitação de seus trabalhos, quer seja pelo assunto, quer seja pela técnica, pois a gravura julgava-se mais difícil de assimilar. Como observa Soares (1960):
E Belas Artes chegou.... E a amizade de Juarez também. É desnecessário falar que as bíblicas vacas magras montaram estábulo nos bolsos do nosso bom Zé Maria, inaugurando festivamente a fase da pindaíba total. Veio a gravura. Calma e pacientemente, qual monge debruçado sobre seu breviário, Zé Maria submetia a madeira às suas mãos. (SOARES apud CABICIERI, 1960, p. 38).
Através dessas experiências, a arte da gravura tornou-se um meio sem segredos para o jovem artista que, por meio de linhas, efeitos de claro-escuro e compreensão de valores cromáticos, pôde experimentar intensamente as técnicas de xilogravura que se tornaram meios de ampla expressão. Podemos afirmar, dessa maneira, que o entusiasmo de José Maria pela gravura manifestou-se nos primeiros contatos com aquela linguagem, proliferando rapidamente em excelentes resultados.
Diante disso, podemos notar nas xilogravuras de José Maria, aspectos ainda ausentes das discussões acadêmicas ou que têm recebido uma atenção incompatível com sua representatividade. Torna-se necessário proporcionar a visibilidade da referida obra, pois sua realização poderá abrir caminho para novas leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da Escola de Belas Artes, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites da instituição. José Maria foi surpreendente pelo modo particular em que situava os pesos visuais, pela riqueza da sua valiosa escala de cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras, seus desencantos e a ausência.
José Maria de Souza, dedicou-se calma e pacientemente à gravura, pôs-se a conhecer cada instrumento, cada traço que os instrumentos e os veios da madeira lhe ofereciam. Primeiro submeteu a gravura às suas mãos; buscou o figurativo e em seguida o abstrato e nas xilogravuras se denotavam, na distorção e na deformação plástica dos objetos, uma condição expressionista pedindo licença para embeber toda a obra. Nesse momento em que procurou identificação, encontrou no expressionismo alemão a perfeita tradução de uma leitura crítica da sociedade baiana, nos cantos da cidade e suas mazelas. O resultado de um intenso processo de expressão veio a tempo de partilhar com sua expressão artística.
O recorte da cena das gravuras de José Maria situa-se no claro-escuro, na densidade da treva, dentro da qual os corpos se configuram mediante a iluminação que o artista arbitra. O ambiente interno se mistura e os personagens principais surgem rasgando a cena, dando contornos que saltam aos olhos, àquilo que por muitas vezes, gostaríamos de não observar. De acordo com PEDROSA (1949), evidenciando o que acontecia com os artistas daquela época, “ os motivos sociais, SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3350 ao inverso dos da natureza, tornaram-se cada vez mais ricos e pedem a sua integração na obra artística moderna”. As ruas de Salvador, sempre retratadas de vários modos, é apresentada por José Maria de modo singular e atemporal. Os andarilhos de ontem ainda caminham hoje, lado a lado, com as xilogravuras. Continuam fazendo parte, assim como a sua gravura, que segue contrariando a ordem dos discursos, daqueles que admiram a pintura, com todos os seus adjetivos, que não se encontram na gravura. Mas, mesmo assim, segue ainda avançando e questionando-nos nas cenas citadinas em que a figura sem contorno deixou de ser determinada pela linha para resolver-se através da mutação que perambula por toda a parte.
Seu carisma e sua convicção se revelou numa extraordinária vocação para a gravura. Pelo seu envolvimento com a arte havia momentos em que chegou a simbiose, confundindo-se com os próprios materiais e por vezes era encontrado fascinado, aprisionado aos veios da madeira, às goivas e formões, descobrindo-se parte da criação, atuando como um dos seus personagens, vivenciando ou experienciando o ser arte. Segundo os relatos, ele realizava suas xilogravuras enquanto a cidade dormia, silenciosamente, exprimia seu olhar noturno num compensado, pelo avesso.
O gravador se imbricava com os próprios materiais, era visto sempre fascinado pela sua gravura, como se estivesse preso ao compensado, às goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma, que melhor exprimiriam as suas ideias, o seu sentimento, afirmou BRITO (1988). Motivado pela sua visão da natureza e das pessoas, era extremamente sensível para captar a atmosfera dos ambientes, na observação dos aspectos sociais e nas suas andanças pela noite soteropolitana, as pessoas entregues à ausência de amparo. Os desertos de afetos são representados em grande parte de sua obra gráfica. As pessoas, em expressão do sofrimento no qual a fisionomia não é notória, mas ao ambiente obscuro são acrescidas as manchas próprias da xilogravura, que contornam com mais sofrimento, entre o paradoxo cromático de luminosidade e penumbra, igualando-se também à inexistência de esperança dos personagens que compõe.
José Maria faz parte daqueles que indicam nos corpos sempre uma necessidade expressional e jamais na correção do realístico e o movimento da figura se restringe nos gestos e às atitudes mais discretas. Certamente, de acordo com o carinho pelo qual seus companheiros de gravura se referem, deveria ser um humanista, como se revela em sua obra. O olhar dele repousa sobre as inquietações humanas, sobretudo naquilo em que mais se destacam as angústias e a solidão.
Seria admirável sondar e revelar a mente de pessoas como ele, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de atitudes benevolentes diante da desumanidade, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem os demais. Passou por limitações financeira, escassez de alimentos, situações extremas. Mas isso serviu para firmar seu compromisso com a vida. Sentia-se emocionalmente ligado aos padecimentos do homem, tendo convivido com marginais, bêbedos, prostitutas e mendigos, tornando-se inerente à sua estrutura perceptual um sentimento universal de solidariedade humana. As injustiças e as repressões descabidas, o egoísmo da sociedade que se define pela discriminação hipócrita e desumana só fizeram intensificar a sua sensibilidade, o seu sentimento de compaixão.
Nesta série de gravuras dos anos 1959, o artista explora as questões humanas na figura da infância abandonada, os conflitos comunitários nunca expostos numa sociedade que se define organizada. A descrença se alinha com a construção de um cenário irreal. Seria extraordinário se fosse possível revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o desejo preservacionista do material humano, que creditava o maior valor possível em contraposição a sua indiferença aos valores temporais, pois dentro de seu temperamento arredio, residia uma pessoa introspectiva, que certamente abrigava uma grande inquietação diante do mundo contraditório e enviesado, mas ele permite que adentremos apenas para apreciar em sua obra e compartilhar da mesma angústia em torno da realidade que ultrapassa o tempo.
Procura conscientizar o homem quanto aos verdadeiros valores de sua existência, mostrando cruamente o produto de suas injustiças, apelando à sua dignidade subjacente, porque amortecida através do instrumento mais eficaz que é a obra de arte. Somente a beleza (o esteticamente expressivo) é capaz de intimidar o homem no mais profundo de sua estrutura sensível. Antes mesmo de ser um meio de alta expressão, a obra de arte transcende pela projeção do universal, dos valores próprios à estrutura anímica do homem.
O artista realizou, desse modo particular, uma reflexão entre a arte e as mazelas da sociedade. Ampliou os espaços da produção artística entre as regiões sudeste e nordeste, ao se inserir na V Bienal de São Paulo, apresentando uma proposta que envolveu não apenas um modo subjetivo de linguagem, mas acima de tudo, um cruzamento entre a realidade de alguns e a experiência transformadora e reveladora de um artista em inteireza com sua produção, que se permitiu a uma breve, porém profunda e dialética proposta de gravura, que não terminou com a sua morte
O conceito de renovação estaria relacionada tanto à questão da produção (a gravura artística, com sua variedade de métodos técnicos, seu caráter artesanal, mecânico, multiplicador do objeto de arte, permitiu experiências e resultados não previstos ou mesmo considerados pela arte academicista, que buscava a suprema beleza ou irrisórias realidades) quanto à do ensino (os procedimentos de compartilhamento dos conhecimentos que deram grande ênfase ao experimento e à livre expressão), assim como as condições estruturais e materiais em que esse compartilhamento ocorria, colocando os artistas, profissionais e aprendizes, no caminho da criação livre e consciente, resultando numa produção, como podemos evidenciar na obra de José Maria.
A reflexão gráfica realizada por José Maria oportuniza outras leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da cidade de Salvador, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites e concepção artística do período, permitindo uma análise dos aspectos formais dos elementos da arte moderna e atualiza hoje a interpretação da sociedade contemporânea.
A estrutura peculiar de suas formas, o conjunto de traços e a sua expressividade, bem como o uso de certas sutilezas e o tratamento estético lhe conferem um registro de um xilogravador de notória qualidade. Sua obra nos premia com toda carga de valores expressionistas e, junto com sua trajetória de vida, assumem um contexto bastante compatível do período em que viveu e produziu. O indivíduo que viveu um momento em que a sociedade enfrentava grandes dissabores e que o enfrentamento dessas realidades, ainda que não tenha sido de modo transformador, na gravura acentua-se enquanto expressão, que vibra e lhe recheia de questionamentos sobre a arte, seu papel social, suas intervenções, seus discursos e, sobretudo, seus alcances.
Fonte: Anpap, por Virginia de Fátima Oliveira e Silva / UFBA, publicado em 24 de setembro de 2018.
Crédito fotográfico: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
José Maria de Souza (Valença, BA, 13 de abril de 1935 — Salvador, BA, 16 de setembro de 1985) foi um pintor e gravador brasileiro.
Biografia
Foi para Salvador em 1945, quando começou a desenhar no Liceu Salesiano. Em 1951, morou e estudou na Escola de Belas Artes da UFBA, onde foi aluno de gravura de Mário Cravo e, de desenho de Juarez Paraíso. De 1961 a 1973, residiu no Rio de Janeiro, passando da xilogravura para a pintura. Sentindo-se confinado no seu apartamento do Rio, decidiu viajar para Pernambuco passando por várias cidades, e depois Salvador, numa viagem que durou dois anos e o levou a mostrar em suas telas, as paisagens e a gente do interior. Realizou muitas exposições na Galeria Bonino e o Irlandini, no Rio; expôs também em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Buenos Aires, Madri. Barcelona e Lausanne. Participou das V, VI e VII Bienais de São Paulo, de Salões Nacionais e de inúmeras coletivas. Em 1990, foi lançado pelo editor Cabicieri, o livro sobre a vida e a obra do artista, gravador e pintor José Maria de Souza.
José Maria de Souza
Para os amigos e artistas de sua geração, José Maria é sobretudo o gravador. E isto porque, carismático e convicto, surgiu entre nós com uma extraordinária vocação para a gravura. Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura, naquela época (1959) um dos mais importantes em nossa escola. Trabalhando precariamente, apenas com lâmina de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textural dos cinzas, e, acima de tudo, pelo conteúdo, expressivo de suas primeiras figuras e naturezas-mortas.
Em que pese a orientação e o estímulo dos amigos, artistas e professores, José Maria, no seu período de formação técnica, foi um autodidata. Confundindo-se com os próprios materiais, sempre encontrávamos o artista fascinantemente preso ao compensado, ás goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma que, melhor exprimiriam as suas idéias, o seu sentimento. Enquanto a cidade dormia no silêncio das longas noite, a cena era inconfundível: José Maria predestinado, apaixonadamente dedicado ao trabalho artístico, vencendo dificuldades, como um verdadeiro asceta, milagre da própria dignidade e do destino espiritual do homem, ausente as seduções, aos lucros materiais de tantas outras atividades.
O extraordinário seria sondar e revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de beatitude, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem para os demais.
A seguir o pequeno texto que fiz sobre José Maria de Souza tentava montar suas aptidões artísticas. Quando trabalhava como balconista numa casa de tecidos na zona do Comércio, de propriedade do pai do engenheiro Mário Antônio Sampaio, que naquela época era vizinho do artista Sante Scaldaferri, sensibilizado com os pendores artísticos de José Maria, o engenheiro levou-o á presença de Sante, oportunidade em que lhe foram mostrados vários desenhos. Sante observou-os e fez algumas recomendações.
Dias depois nova leva de desenhos chegou para Sante examinar e, para sua surpresa, o então balconista tinha captado todas as informações que lhe foram passadas. Daí nasceu uma amizade, na verdade são muito sólida(se viram poucas vezes) mas sincera.
Sante apresentou-a a Juarez Paraíso e juntos trabalharam algum tempo, até em finais de semana.
O temperamento era introspectivo, arredio até. Outras vezes surpreendia, defendendo um ponto de vista.
Essas lembranças são necessárias para que as gerações futuras possam entender um pouco do homem José Maria. Conheci-o numa casa que Renot possuía nas imediações de Patamares. Era um atelier que o galerista arranjou para ele passar uma temporada: lembro-me de belas telas inspiradas nos canaviais pernambucanos, com o branco das casinhas caiadas contrastando com o verde-cana que dominava os campos. Nunca mais o vi, até que fui surpreendido com a notícia da sua morte em 16 de setembro de 1985.
Seu sepultamento ocorreu em Valença, sua terra natal. Ele participou de salões no Rio de Janeiro, da Bienal de São Paulo e fez algumas exposições em várias capitais e também em Buenos Aires.Sua obra foi muita apreciada, principalmente no Rio de Janeiro e aqui na Bahia.
Fez muitas gravuras, onde podemos sentir a influência de Goeldi. No início de sua carreira utilizava lâminas de barbear e tocos de faca para entalhar a madeira. Tenho uma gravura de sua autoria onde a influência de Goeldi pode ser notada. Isso não desmerece a sua obra. Ao contrário, todo artista sofre influências dos mestres e José Maria soube ser ele mesmo.
Fonte: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
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José Maria de Souza: A xilogravura dos andarilhos em Salvador
José Maria de Souza, nasceu em Valença, Bahia, em 13 de abril de 1935, tendo sido criado por seus padrinhos Adalberto Ferreira e Adelaide Ferreira, pois a mãe, Maria Augusta de Souza, falecera pouco tempo depois do seu nascimento. Maria Augusta não era casada com o pai, Pedro Coceiro de Matos. Passou a infância em Valença e mudou-se para Salvador na adolescência, onde estudou no internato do Liceu Salesiano. Foi no Liceu que ele começou a demonstrar suas aptidões artísticas ao desenhar e copiar figuras das estórias em quadrinhos, levadas por seus amigos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Criado pelos padrinhos, José Maria teve contato indireto com seus irmãos e seu pai, pois viajava periodicamente para Valença, para passar os finais de semana. Souza, (1987) sobre a vida de José Maria,
De quinze em quinze dias José Maria passava os fins de semana em Valença, onde era observado pelos irmãos, os quais não conhecia, filhos de Pedro Coceiro e Damiana. Os irmãos, principalmente Natan Coceiro, realizaram tentativas de aproximação com José Maria sem lhe revelar o parentesco, mas ele especulava sobre tal hipótese e mantinha-se igualmente sob reserva, frente à incerteza desta condição. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Mesmo com este ambiente familiar incomum, José Maria, era um menino sempre alegre e jovial, gostava de molecagem, brincadeiras de rua e cresceu desse modo, de acordo com depoimentos e, quando jovem, fazia parte de uma turma na Rua Jogo do Carneiro, no bairro de Nazaré, onde morava. Faziam parte também desta turma Paulo Gil Soares e Waldemar Szaveniesvsk. Sobre suas angústias em relação ao internato, José Maria narrou para seu amigo Paulo Gil Soares como foi seu encontro com a arte: “Eu procurava esquecer o internato, desenhando. Esquecer, por exemplo, que os outros estavam pintando o belo casario baiano, e que eu estava sofrendo a vigilância de padres ferozes”. Seria inevitável que em algum momento se rebelasse e, quando escolheu seguir a carreira artística contou com o estranhamento da família, apoiado por um discurso preconceituoso e depreciativo. De acordo com Souza, (1987):
Ao terminar o ginásio, o padrinho encaminhou-o ao trabalho no comércio, porém não era isso que atraía Jose Maria. Seu desejo era ingressar na Escola de Belas Artes – ser pintor. “Artista? Coisa de vagabundo”, diziam os padrinhos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.25).
Podemos imaginar quanto deve ter sido difícil para José Maria lidar com a falta de apoio dos padrinhos, além da ausência dos familiares e as limitações financeiras. Mas isto foi apenas o começo das dificuldades que ele precisou superar para seguir a carreira artística e ter que ultrapassar os desafios comuns à juventude e as consequências de tal decisão, que é de grande importância para a vida. Soares, (1958) ao escrever sobre a consciência artística, demonstra como tal escolha imprime um enfrentamento diante da sociedade:
Nesta fase, o artista moço sente-se marginal. Infelizmente entre nós é considerado vagabundo todo o jovem que se dedica à arte. O artista é sociologicamente inútil. Ninguém pensa com simpatia na luta interior de quem faz arte. Só os loucos sabem abrir os braços ao artista e chamá-los de irmãos. Daí falarmos agora de José Maria de Souza, um jovem artista plástico baiano que começa a se afirmar. (SOARES apud CABICIERI, 1958, p. 36).
José Maria tornou-se amigo de artistas e seguindo o conselho de Sante Scaldaferri e Mirabeau Sampaio, resolveu deixar a casa dos padrinhos e foi morar no sótão da Escola de Belas Artes, onde estudou desenho com o professor Juarez Paraíso e gravura com os professores Mario Cravo e Henrique Oswald. Juarez Paraíso descreve como foi o começo da trajetória artística de José Maria, enquanto estudante de arte, com convicção, evidente:
Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura. Trabalhando precariamente apenas com laminas de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textual dos cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras e naturezas mortas. (PARAÌSO apud CABICIERI, 1965, p. 49).
Apesar da apreensão em relação às condições financeiras, o período em que José Maria começou a estudar arte foi bastante frutífero. Soares (1960) sublinha festivamente o sucesso que foi, antes mesmo do resultado financeiro, o encontro de SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3348 José Maria com a arte, com a Escola de Belas Artes, com os amigos que encontrou e, para a surpresa de todos, a desenvoltura com o desenho e a gravura. E, sobretudo, a aceitação de seus trabalhos, quer seja pelo assunto, quer seja pela técnica, pois a gravura julgava-se mais difícil de assimilar. Como observa Soares (1960):
E Belas Artes chegou.... E a amizade de Juarez também. É desnecessário falar que as bíblicas vacas magras montaram estábulo nos bolsos do nosso bom Zé Maria, inaugurando festivamente a fase da pindaíba total. Veio a gravura. Calma e pacientemente, qual monge debruçado sobre seu breviário, Zé Maria submetia a madeira às suas mãos. (SOARES apud CABICIERI, 1960, p. 38).
Através dessas experiências, a arte da gravura tornou-se um meio sem segredos para o jovem artista que, por meio de linhas, efeitos de claro-escuro e compreensão de valores cromáticos, pôde experimentar intensamente as técnicas de xilogravura que se tornaram meios de ampla expressão. Podemos afirmar, dessa maneira, que o entusiasmo de José Maria pela gravura manifestou-se nos primeiros contatos com aquela linguagem, proliferando rapidamente em excelentes resultados.
Diante disso, podemos notar nas xilogravuras de José Maria, aspectos ainda ausentes das discussões acadêmicas ou que têm recebido uma atenção incompatível com sua representatividade. Torna-se necessário proporcionar a visibilidade da referida obra, pois sua realização poderá abrir caminho para novas leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da Escola de Belas Artes, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites da instituição. José Maria foi surpreendente pelo modo particular em que situava os pesos visuais, pela riqueza da sua valiosa escala de cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras, seus desencantos e a ausência.
José Maria de Souza, dedicou-se calma e pacientemente à gravura, pôs-se a conhecer cada instrumento, cada traço que os instrumentos e os veios da madeira lhe ofereciam. Primeiro submeteu a gravura às suas mãos; buscou o figurativo e em seguida o abstrato e nas xilogravuras se denotavam, na distorção e na deformação plástica dos objetos, uma condição expressionista pedindo licença para embeber toda a obra. Nesse momento em que procurou identificação, encontrou no expressionismo alemão a perfeita tradução de uma leitura crítica da sociedade baiana, nos cantos da cidade e suas mazelas. O resultado de um intenso processo de expressão veio a tempo de partilhar com sua expressão artística.
O recorte da cena das gravuras de José Maria situa-se no claro-escuro, na densidade da treva, dentro da qual os corpos se configuram mediante a iluminação que o artista arbitra. O ambiente interno se mistura e os personagens principais surgem rasgando a cena, dando contornos que saltam aos olhos, àquilo que por muitas vezes, gostaríamos de não observar. De acordo com PEDROSA (1949), evidenciando o que acontecia com os artistas daquela época, “ os motivos sociais, SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3350 ao inverso dos da natureza, tornaram-se cada vez mais ricos e pedem a sua integração na obra artística moderna”. As ruas de Salvador, sempre retratadas de vários modos, é apresentada por José Maria de modo singular e atemporal. Os andarilhos de ontem ainda caminham hoje, lado a lado, com as xilogravuras. Continuam fazendo parte, assim como a sua gravura, que segue contrariando a ordem dos discursos, daqueles que admiram a pintura, com todos os seus adjetivos, que não se encontram na gravura. Mas, mesmo assim, segue ainda avançando e questionando-nos nas cenas citadinas em que a figura sem contorno deixou de ser determinada pela linha para resolver-se através da mutação que perambula por toda a parte.
Seu carisma e sua convicção se revelou numa extraordinária vocação para a gravura. Pelo seu envolvimento com a arte havia momentos em que chegou a simbiose, confundindo-se com os próprios materiais e por vezes era encontrado fascinado, aprisionado aos veios da madeira, às goivas e formões, descobrindo-se parte da criação, atuando como um dos seus personagens, vivenciando ou experienciando o ser arte. Segundo os relatos, ele realizava suas xilogravuras enquanto a cidade dormia, silenciosamente, exprimia seu olhar noturno num compensado, pelo avesso.
O gravador se imbricava com os próprios materiais, era visto sempre fascinado pela sua gravura, como se estivesse preso ao compensado, às goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma, que melhor exprimiriam as suas ideias, o seu sentimento, afirmou BRITO (1988). Motivado pela sua visão da natureza e das pessoas, era extremamente sensível para captar a atmosfera dos ambientes, na observação dos aspectos sociais e nas suas andanças pela noite soteropolitana, as pessoas entregues à ausência de amparo. Os desertos de afetos são representados em grande parte de sua obra gráfica. As pessoas, em expressão do sofrimento no qual a fisionomia não é notória, mas ao ambiente obscuro são acrescidas as manchas próprias da xilogravura, que contornam com mais sofrimento, entre o paradoxo cromático de luminosidade e penumbra, igualando-se também à inexistência de esperança dos personagens que compõe.
José Maria faz parte daqueles que indicam nos corpos sempre uma necessidade expressional e jamais na correção do realístico e o movimento da figura se restringe nos gestos e às atitudes mais discretas. Certamente, de acordo com o carinho pelo qual seus companheiros de gravura se referem, deveria ser um humanista, como se revela em sua obra. O olhar dele repousa sobre as inquietações humanas, sobretudo naquilo em que mais se destacam as angústias e a solidão.
Seria admirável sondar e revelar a mente de pessoas como ele, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de atitudes benevolentes diante da desumanidade, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem os demais. Passou por limitações financeira, escassez de alimentos, situações extremas. Mas isso serviu para firmar seu compromisso com a vida. Sentia-se emocionalmente ligado aos padecimentos do homem, tendo convivido com marginais, bêbedos, prostitutas e mendigos, tornando-se inerente à sua estrutura perceptual um sentimento universal de solidariedade humana. As injustiças e as repressões descabidas, o egoísmo da sociedade que se define pela discriminação hipócrita e desumana só fizeram intensificar a sua sensibilidade, o seu sentimento de compaixão.
Nesta série de gravuras dos anos 1959, o artista explora as questões humanas na figura da infância abandonada, os conflitos comunitários nunca expostos numa sociedade que se define organizada. A descrença se alinha com a construção de um cenário irreal. Seria extraordinário se fosse possível revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o desejo preservacionista do material humano, que creditava o maior valor possível em contraposição a sua indiferença aos valores temporais, pois dentro de seu temperamento arredio, residia uma pessoa introspectiva, que certamente abrigava uma grande inquietação diante do mundo contraditório e enviesado, mas ele permite que adentremos apenas para apreciar em sua obra e compartilhar da mesma angústia em torno da realidade que ultrapassa o tempo.
Procura conscientizar o homem quanto aos verdadeiros valores de sua existência, mostrando cruamente o produto de suas injustiças, apelando à sua dignidade subjacente, porque amortecida através do instrumento mais eficaz que é a obra de arte. Somente a beleza (o esteticamente expressivo) é capaz de intimidar o homem no mais profundo de sua estrutura sensível. Antes mesmo de ser um meio de alta expressão, a obra de arte transcende pela projeção do universal, dos valores próprios à estrutura anímica do homem.
O artista realizou, desse modo particular, uma reflexão entre a arte e as mazelas da sociedade. Ampliou os espaços da produção artística entre as regiões sudeste e nordeste, ao se inserir na V Bienal de São Paulo, apresentando uma proposta que envolveu não apenas um modo subjetivo de linguagem, mas acima de tudo, um cruzamento entre a realidade de alguns e a experiência transformadora e reveladora de um artista em inteireza com sua produção, que se permitiu a uma breve, porém profunda e dialética proposta de gravura, que não terminou com a sua morte
O conceito de renovação estaria relacionada tanto à questão da produção (a gravura artística, com sua variedade de métodos técnicos, seu caráter artesanal, mecânico, multiplicador do objeto de arte, permitiu experiências e resultados não previstos ou mesmo considerados pela arte academicista, que buscava a suprema beleza ou irrisórias realidades) quanto à do ensino (os procedimentos de compartilhamento dos conhecimentos que deram grande ênfase ao experimento e à livre expressão), assim como as condições estruturais e materiais em que esse compartilhamento ocorria, colocando os artistas, profissionais e aprendizes, no caminho da criação livre e consciente, resultando numa produção, como podemos evidenciar na obra de José Maria.
A reflexão gráfica realizada por José Maria oportuniza outras leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da cidade de Salvador, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites e concepção artística do período, permitindo uma análise dos aspectos formais dos elementos da arte moderna e atualiza hoje a interpretação da sociedade contemporânea.
A estrutura peculiar de suas formas, o conjunto de traços e a sua expressividade, bem como o uso de certas sutilezas e o tratamento estético lhe conferem um registro de um xilogravador de notória qualidade. Sua obra nos premia com toda carga de valores expressionistas e, junto com sua trajetória de vida, assumem um contexto bastante compatível do período em que viveu e produziu. O indivíduo que viveu um momento em que a sociedade enfrentava grandes dissabores e que o enfrentamento dessas realidades, ainda que não tenha sido de modo transformador, na gravura acentua-se enquanto expressão, que vibra e lhe recheia de questionamentos sobre a arte, seu papel social, suas intervenções, seus discursos e, sobretudo, seus alcances.
Fonte: Anpap, por Virginia de Fátima Oliveira e Silva / UFBA, publicado em 24 de setembro de 2018.
Crédito fotográfico: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
José Maria de Souza (Valença, BA, 13 de abril de 1935 — Salvador, BA, 16 de setembro de 1985) foi um pintor e gravador brasileiro.
Biografia
Foi para Salvador em 1945, quando começou a desenhar no Liceu Salesiano. Em 1951, morou e estudou na Escola de Belas Artes da UFBA, onde foi aluno de gravura de Mário Cravo e, de desenho de Juarez Paraíso. De 1961 a 1973, residiu no Rio de Janeiro, passando da xilogravura para a pintura. Sentindo-se confinado no seu apartamento do Rio, decidiu viajar para Pernambuco passando por várias cidades, e depois Salvador, numa viagem que durou dois anos e o levou a mostrar em suas telas, as paisagens e a gente do interior. Realizou muitas exposições na Galeria Bonino e o Irlandini, no Rio; expôs também em São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Buenos Aires, Madri. Barcelona e Lausanne. Participou das V, VI e VII Bienais de São Paulo, de Salões Nacionais e de inúmeras coletivas. Em 1990, foi lançado pelo editor Cabicieri, o livro sobre a vida e a obra do artista, gravador e pintor José Maria de Souza.
José Maria de Souza
Para os amigos e artistas de sua geração, José Maria é sobretudo o gravador. E isto porque, carismático e convicto, surgiu entre nós com uma extraordinária vocação para a gravura. Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura, naquela época (1959) um dos mais importantes em nossa escola. Trabalhando precariamente, apenas com lâmina de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textural dos cinzas, e, acima de tudo, pelo conteúdo, expressivo de suas primeiras figuras e naturezas-mortas.
Em que pese a orientação e o estímulo dos amigos, artistas e professores, José Maria, no seu período de formação técnica, foi um autodidata. Confundindo-se com os próprios materiais, sempre encontrávamos o artista fascinantemente preso ao compensado, ás goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma que, melhor exprimiriam as suas idéias, o seu sentimento. Enquanto a cidade dormia no silêncio das longas noite, a cena era inconfundível: José Maria predestinado, apaixonadamente dedicado ao trabalho artístico, vencendo dificuldades, como um verdadeiro asceta, milagre da própria dignidade e do destino espiritual do homem, ausente as seduções, aos lucros materiais de tantas outras atividades.
O extraordinário seria sondar e revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de beatitude, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem para os demais.
A seguir o pequeno texto que fiz sobre José Maria de Souza tentava montar suas aptidões artísticas. Quando trabalhava como balconista numa casa de tecidos na zona do Comércio, de propriedade do pai do engenheiro Mário Antônio Sampaio, que naquela época era vizinho do artista Sante Scaldaferri, sensibilizado com os pendores artísticos de José Maria, o engenheiro levou-o á presença de Sante, oportunidade em que lhe foram mostrados vários desenhos. Sante observou-os e fez algumas recomendações.
Dias depois nova leva de desenhos chegou para Sante examinar e, para sua surpresa, o então balconista tinha captado todas as informações que lhe foram passadas. Daí nasceu uma amizade, na verdade são muito sólida(se viram poucas vezes) mas sincera.
Sante apresentou-a a Juarez Paraíso e juntos trabalharam algum tempo, até em finais de semana.
O temperamento era introspectivo, arredio até. Outras vezes surpreendia, defendendo um ponto de vista.
Essas lembranças são necessárias para que as gerações futuras possam entender um pouco do homem José Maria. Conheci-o numa casa que Renot possuía nas imediações de Patamares. Era um atelier que o galerista arranjou para ele passar uma temporada: lembro-me de belas telas inspiradas nos canaviais pernambucanos, com o branco das casinhas caiadas contrastando com o verde-cana que dominava os campos. Nunca mais o vi, até que fui surpreendido com a notícia da sua morte em 16 de setembro de 1985.
Seu sepultamento ocorreu em Valença, sua terra natal. Ele participou de salões no Rio de Janeiro, da Bienal de São Paulo e fez algumas exposições em várias capitais e também em Buenos Aires.Sua obra foi muita apreciada, principalmente no Rio de Janeiro e aqui na Bahia.
Fez muitas gravuras, onde podemos sentir a influência de Goeldi. No início de sua carreira utilizava lâminas de barbear e tocos de faca para entalhar a madeira. Tenho uma gravura de sua autoria onde a influência de Goeldi pode ser notada. Isso não desmerece a sua obra. Ao contrário, todo artista sofre influências dos mestres e José Maria soube ser ele mesmo.
Fonte: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.
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José Maria de Souza: A xilogravura dos andarilhos em Salvador
José Maria de Souza, nasceu em Valença, Bahia, em 13 de abril de 1935, tendo sido criado por seus padrinhos Adalberto Ferreira e Adelaide Ferreira, pois a mãe, Maria Augusta de Souza, falecera pouco tempo depois do seu nascimento. Maria Augusta não era casada com o pai, Pedro Coceiro de Matos. Passou a infância em Valença e mudou-se para Salvador na adolescência, onde estudou no internato do Liceu Salesiano. Foi no Liceu que ele começou a demonstrar suas aptidões artísticas ao desenhar e copiar figuras das estórias em quadrinhos, levadas por seus amigos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Criado pelos padrinhos, José Maria teve contato indireto com seus irmãos e seu pai, pois viajava periodicamente para Valença, para passar os finais de semana. Souza, (1987) sobre a vida de José Maria,
De quinze em quinze dias José Maria passava os fins de semana em Valença, onde era observado pelos irmãos, os quais não conhecia, filhos de Pedro Coceiro e Damiana. Os irmãos, principalmente Natan Coceiro, realizaram tentativas de aproximação com José Maria sem lhe revelar o parentesco, mas ele especulava sobre tal hipótese e mantinha-se igualmente sob reserva, frente à incerteza desta condição. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.22).
Mesmo com este ambiente familiar incomum, José Maria, era um menino sempre alegre e jovial, gostava de molecagem, brincadeiras de rua e cresceu desse modo, de acordo com depoimentos e, quando jovem, fazia parte de uma turma na Rua Jogo do Carneiro, no bairro de Nazaré, onde morava. Faziam parte também desta turma Paulo Gil Soares e Waldemar Szaveniesvsk. Sobre suas angústias em relação ao internato, José Maria narrou para seu amigo Paulo Gil Soares como foi seu encontro com a arte: “Eu procurava esquecer o internato, desenhando. Esquecer, por exemplo, que os outros estavam pintando o belo casario baiano, e que eu estava sofrendo a vigilância de padres ferozes”. Seria inevitável que em algum momento se rebelasse e, quando escolheu seguir a carreira artística contou com o estranhamento da família, apoiado por um discurso preconceituoso e depreciativo. De acordo com Souza, (1987):
Ao terminar o ginásio, o padrinho encaminhou-o ao trabalho no comércio, porém não era isso que atraía Jose Maria. Seu desejo era ingressar na Escola de Belas Artes – ser pintor. “Artista? Coisa de vagabundo”, diziam os padrinhos. (SOUZA, apud CABICIERI, 1987, p.25).
Podemos imaginar quanto deve ter sido difícil para José Maria lidar com a falta de apoio dos padrinhos, além da ausência dos familiares e as limitações financeiras. Mas isto foi apenas o começo das dificuldades que ele precisou superar para seguir a carreira artística e ter que ultrapassar os desafios comuns à juventude e as consequências de tal decisão, que é de grande importância para a vida. Soares, (1958) ao escrever sobre a consciência artística, demonstra como tal escolha imprime um enfrentamento diante da sociedade:
Nesta fase, o artista moço sente-se marginal. Infelizmente entre nós é considerado vagabundo todo o jovem que se dedica à arte. O artista é sociologicamente inútil. Ninguém pensa com simpatia na luta interior de quem faz arte. Só os loucos sabem abrir os braços ao artista e chamá-los de irmãos. Daí falarmos agora de José Maria de Souza, um jovem artista plástico baiano que começa a se afirmar. (SOARES apud CABICIERI, 1958, p. 36).
José Maria tornou-se amigo de artistas e seguindo o conselho de Sante Scaldaferri e Mirabeau Sampaio, resolveu deixar a casa dos padrinhos e foi morar no sótão da Escola de Belas Artes, onde estudou desenho com o professor Juarez Paraíso e gravura com os professores Mario Cravo e Henrique Oswald. Juarez Paraíso descreve como foi o começo da trajetória artística de José Maria, enquanto estudante de arte, com convicção, evidente:
Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Bahia, recomendado por Sante Scaldaferri, tínhamos imaginado para o iniciante o mesmo percurso árduo e interrogativo a que se submetem os neófitos das artes plásticas. Depois do desenho foi imediatamente seduzido pelo exercício da gravura. Trabalhando precariamente apenas com laminas de barbear e tocos de facas, José Maria surpreendeu-nos pela notável colocação dos pesos visuais, pela riqueza textual dos cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras e naturezas mortas. (PARAÌSO apud CABICIERI, 1965, p. 49).
Apesar da apreensão em relação às condições financeiras, o período em que José Maria começou a estudar arte foi bastante frutífero. Soares (1960) sublinha festivamente o sucesso que foi, antes mesmo do resultado financeiro, o encontro de SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3348 José Maria com a arte, com a Escola de Belas Artes, com os amigos que encontrou e, para a surpresa de todos, a desenvoltura com o desenho e a gravura. E, sobretudo, a aceitação de seus trabalhos, quer seja pelo assunto, quer seja pela técnica, pois a gravura julgava-se mais difícil de assimilar. Como observa Soares (1960):
E Belas Artes chegou.... E a amizade de Juarez também. É desnecessário falar que as bíblicas vacas magras montaram estábulo nos bolsos do nosso bom Zé Maria, inaugurando festivamente a fase da pindaíba total. Veio a gravura. Calma e pacientemente, qual monge debruçado sobre seu breviário, Zé Maria submetia a madeira às suas mãos. (SOARES apud CABICIERI, 1960, p. 38).
Através dessas experiências, a arte da gravura tornou-se um meio sem segredos para o jovem artista que, por meio de linhas, efeitos de claro-escuro e compreensão de valores cromáticos, pôde experimentar intensamente as técnicas de xilogravura que se tornaram meios de ampla expressão. Podemos afirmar, dessa maneira, que o entusiasmo de José Maria pela gravura manifestou-se nos primeiros contatos com aquela linguagem, proliferando rapidamente em excelentes resultados.
Diante disso, podemos notar nas xilogravuras de José Maria, aspectos ainda ausentes das discussões acadêmicas ou que têm recebido uma atenção incompatível com sua representatividade. Torna-se necessário proporcionar a visibilidade da referida obra, pois sua realização poderá abrir caminho para novas leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da Escola de Belas Artes, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites da instituição. José Maria foi surpreendente pelo modo particular em que situava os pesos visuais, pela riqueza da sua valiosa escala de cinzas e, acima de tudo, pelo conteúdo expressivo de suas primeiras figuras, seus desencantos e a ausência.
José Maria de Souza, dedicou-se calma e pacientemente à gravura, pôs-se a conhecer cada instrumento, cada traço que os instrumentos e os veios da madeira lhe ofereciam. Primeiro submeteu a gravura às suas mãos; buscou o figurativo e em seguida o abstrato e nas xilogravuras se denotavam, na distorção e na deformação plástica dos objetos, uma condição expressionista pedindo licença para embeber toda a obra. Nesse momento em que procurou identificação, encontrou no expressionismo alemão a perfeita tradução de uma leitura crítica da sociedade baiana, nos cantos da cidade e suas mazelas. O resultado de um intenso processo de expressão veio a tempo de partilhar com sua expressão artística.
O recorte da cena das gravuras de José Maria situa-se no claro-escuro, na densidade da treva, dentro da qual os corpos se configuram mediante a iluminação que o artista arbitra. O ambiente interno se mistura e os personagens principais surgem rasgando a cena, dando contornos que saltam aos olhos, àquilo que por muitas vezes, gostaríamos de não observar. De acordo com PEDROSA (1949), evidenciando o que acontecia com os artistas daquela época, “ os motivos sociais, SILVA, Virginia de Fátima Oliveira e. José Maria de Souza: a xilogravura dos andarilhos em Salvador, In Anais do 27o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, 27o, 2018, São Paulo. Anais do 27o Encontro da Anpap. São Paulo: Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Artes, 2018. p.3342-3356. 3350 ao inverso dos da natureza, tornaram-se cada vez mais ricos e pedem a sua integração na obra artística moderna”. As ruas de Salvador, sempre retratadas de vários modos, é apresentada por José Maria de modo singular e atemporal. Os andarilhos de ontem ainda caminham hoje, lado a lado, com as xilogravuras. Continuam fazendo parte, assim como a sua gravura, que segue contrariando a ordem dos discursos, daqueles que admiram a pintura, com todos os seus adjetivos, que não se encontram na gravura. Mas, mesmo assim, segue ainda avançando e questionando-nos nas cenas citadinas em que a figura sem contorno deixou de ser determinada pela linha para resolver-se através da mutação que perambula por toda a parte.
Seu carisma e sua convicção se revelou numa extraordinária vocação para a gravura. Pelo seu envolvimento com a arte havia momentos em que chegou a simbiose, confundindo-se com os próprios materiais e por vezes era encontrado fascinado, aprisionado aos veios da madeira, às goivas e formões, descobrindo-se parte da criação, atuando como um dos seus personagens, vivenciando ou experienciando o ser arte. Segundo os relatos, ele realizava suas xilogravuras enquanto a cidade dormia, silenciosamente, exprimia seu olhar noturno num compensado, pelo avesso.
O gravador se imbricava com os próprios materiais, era visto sempre fascinado pela sua gravura, como se estivesse preso ao compensado, às goivas e formões, descobrindo, por amor ao trabalho e por compulsão orgânica, os segredos e o domínio da técnica e da forma, que melhor exprimiriam as suas ideias, o seu sentimento, afirmou BRITO (1988). Motivado pela sua visão da natureza e das pessoas, era extremamente sensível para captar a atmosfera dos ambientes, na observação dos aspectos sociais e nas suas andanças pela noite soteropolitana, as pessoas entregues à ausência de amparo. Os desertos de afetos são representados em grande parte de sua obra gráfica. As pessoas, em expressão do sofrimento no qual a fisionomia não é notória, mas ao ambiente obscuro são acrescidas as manchas próprias da xilogravura, que contornam com mais sofrimento, entre o paradoxo cromático de luminosidade e penumbra, igualando-se também à inexistência de esperança dos personagens que compõe.
José Maria faz parte daqueles que indicam nos corpos sempre uma necessidade expressional e jamais na correção do realístico e o movimento da figura se restringe nos gestos e às atitudes mais discretas. Certamente, de acordo com o carinho pelo qual seus companheiros de gravura se referem, deveria ser um humanista, como se revela em sua obra. O olhar dele repousa sobre as inquietações humanas, sobretudo naquilo em que mais se destacam as angústias e a solidão.
Seria admirável sondar e revelar a mente de pessoas como ele, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o ato de atitudes benevolentes diante da desumanidade, a sua indiferença aos valores temporais, a força irrefreável com que constroem os demais. Passou por limitações financeira, escassez de alimentos, situações extremas. Mas isso serviu para firmar seu compromisso com a vida. Sentia-se emocionalmente ligado aos padecimentos do homem, tendo convivido com marginais, bêbedos, prostitutas e mendigos, tornando-se inerente à sua estrutura perceptual um sentimento universal de solidariedade humana. As injustiças e as repressões descabidas, o egoísmo da sociedade que se define pela discriminação hipócrita e desumana só fizeram intensificar a sua sensibilidade, o seu sentimento de compaixão.
Nesta série de gravuras dos anos 1959, o artista explora as questões humanas na figura da infância abandonada, os conflitos comunitários nunca expostos numa sociedade que se define organizada. A descrença se alinha com a construção de um cenário irreal. Seria extraordinário se fosse possível revelar a mente de homens desse tipo, perscrutar os motivos, as razões e as emoções que provocam o desejo preservacionista do material humano, que creditava o maior valor possível em contraposição a sua indiferença aos valores temporais, pois dentro de seu temperamento arredio, residia uma pessoa introspectiva, que certamente abrigava uma grande inquietação diante do mundo contraditório e enviesado, mas ele permite que adentremos apenas para apreciar em sua obra e compartilhar da mesma angústia em torno da realidade que ultrapassa o tempo.
Procura conscientizar o homem quanto aos verdadeiros valores de sua existência, mostrando cruamente o produto de suas injustiças, apelando à sua dignidade subjacente, porque amortecida através do instrumento mais eficaz que é a obra de arte. Somente a beleza (o esteticamente expressivo) é capaz de intimidar o homem no mais profundo de sua estrutura sensível. Antes mesmo de ser um meio de alta expressão, a obra de arte transcende pela projeção do universal, dos valores próprios à estrutura anímica do homem.
O artista realizou, desse modo particular, uma reflexão entre a arte e as mazelas da sociedade. Ampliou os espaços da produção artística entre as regiões sudeste e nordeste, ao se inserir na V Bienal de São Paulo, apresentando uma proposta que envolveu não apenas um modo subjetivo de linguagem, mas acima de tudo, um cruzamento entre a realidade de alguns e a experiência transformadora e reveladora de um artista em inteireza com sua produção, que se permitiu a uma breve, porém profunda e dialética proposta de gravura, que não terminou com a sua morte
O conceito de renovação estaria relacionada tanto à questão da produção (a gravura artística, com sua variedade de métodos técnicos, seu caráter artesanal, mecânico, multiplicador do objeto de arte, permitiu experiências e resultados não previstos ou mesmo considerados pela arte academicista, que buscava a suprema beleza ou irrisórias realidades) quanto à do ensino (os procedimentos de compartilhamento dos conhecimentos que deram grande ênfase ao experimento e à livre expressão), assim como as condições estruturais e materiais em que esse compartilhamento ocorria, colocando os artistas, profissionais e aprendizes, no caminho da criação livre e consciente, resultando numa produção, como podemos evidenciar na obra de José Maria.
A reflexão gráfica realizada por José Maria oportuniza outras leituras e interpretações do fenômeno da gravura artística baiana, em especial do estágio de grande desenvolvimento e expressividade alcançado em meados do século XX, no contexto da cidade de Salvador, e que conseguiu irradiar-se para fora dos limites e concepção artística do período, permitindo uma análise dos aspectos formais dos elementos da arte moderna e atualiza hoje a interpretação da sociedade contemporânea.
A estrutura peculiar de suas formas, o conjunto de traços e a sua expressividade, bem como o uso de certas sutilezas e o tratamento estético lhe conferem um registro de um xilogravador de notória qualidade. Sua obra nos premia com toda carga de valores expressionistas e, junto com sua trajetória de vida, assumem um contexto bastante compatível do período em que viveu e produziu. O indivíduo que viveu um momento em que a sociedade enfrentava grandes dissabores e que o enfrentamento dessas realidades, ainda que não tenha sido de modo transformador, na gravura acentua-se enquanto expressão, que vibra e lhe recheia de questionamentos sobre a arte, seu papel social, suas intervenções, seus discursos e, sobretudo, seus alcances.
Fonte: Anpap, por Virginia de Fátima Oliveira e Silva / UFBA, publicado em 24 de setembro de 2018.
Crédito fotográfico: Reynivaldo Brito, publicado em 16 de fevereiro de 2013.