Lenir Garcia de Miranda (1945, Pedro Osório, Brasil), mais conhecida como Lenir de Miranda, é uma artista visual brasileira. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões (1967), Lenir expandiu seus estudos com bacharelado em Comunicação Social (PUCRS, 1975), especializações em História da Arte (1980) e em Desenho (1983) pela UFPel, além de concluir o mestrado em Poéticas Visuais na UFRGS em 2003. Contemporânea e conceitual, Lenir de Miranda desenvolve suas obras combinando imagem e palavra em obras experimentais, sensíveis e profundamente narrativas. Sua produção transita entre livros de artista, instalações, desenhos e vídeos, sempre explorando a materialidade do texto e da imagem. Trabalha com técnicas como pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista, utilizando paletas variadas e materiais experimentais. Recebeu prêmios em importantes salões nacionais, como o Salão Paranaense (1982) e o Salão de Pernambuco (1984). Suas obras fazem parte de acervos de museus como o MARGS (RS), o Museu Nacional de Belas Artes (RJ), o James Joyce Centre (Dublin) e o State Darwin Museum (Moscou), consolidando seu nome na arte contemporânea brasileira.
Lenir de Miranda | Arremate Arte
Nascida em 1945 na cidade de Pedro Osório, no Rio Grande do Sul, Lenir Garcia de Miranda cresceu em meio a paisagens que mais tarde ecoariam nos deslocamentos simbólicos de sua obra. Desde jovem, demonstrou uma inquietação artística que a levou a estudar Pintura na Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões, em Pelotas, onde se graduou em 1967. Esse primeiro mergulho nas artes visuais não seria o único. Lenir seguiria expandindo sua formação com o bacharelado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 1975, especializando-se em História da Arte em 1980 e em Desenho em 1983, ambos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em 2003, sua trajetória acadêmica alcançou um novo patamar com o mestrado em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A obra de Lenir de Miranda sempre dialogou com referências literárias profundas, especialmente com o romance Ulisses, de James Joyce. Essa influência atravessou décadas de produção, manifestando-se em projetos emblemáticos como Projeto Ulisses e Passaporte de Ulisses, nos quais texto e imagem se entrelaçam para dar corpo a narrativas visuais carregadas de simbolismo. Seus trabalhos revelam uma capacidade rara de transformar migrações míticas em experiências contemporâneas, conectando histórias ancestrais aos deslocamentos da subjetividade moderna.
Transitando entre diversas linguagens – pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista –, Lenir construiu um repertório expressivo caracterizado pela experimentação formal e pela fusão de técnicas mistas. Utilizando materiais como colagens, assemblagens e papéis especiais, sua paleta de cores varia entre tons vibrantes e atmosferas mais densas, sempre em função dos conteúdos abordados. Na série Pintura Périplo, por exemplo, Lenir revisita o mito de Ulisses sob o prisma das migrações atuais, propondo uma reflexão poética e crítica sobre as jornadas humanas.
A trajetória da artista é marcada por uma presença constante em salões e premiações importantes. Recebeu distinções no Salão de Artes Plásticas de Pelotas (1972 e 1980), no 39º Salão Paranaense em Curitiba (1982) e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em Recife (1984), consolidando sua reputação como uma das vozes mais originais da arte contemporânea brasileira.
As obras de Lenir de Miranda integram acervos de instituições renomadas, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, o James Joyce Centre em Dublin e o State Darwin Museum em Moscou, evidenciando seu reconhecimento internacional. Com mais de 40 exposições individuais e mais de 120 participações em mostras coletivas, a artista construiu um percurso sólido, ancorado em pesquisa, sensibilidade e vigor criativo.
Ao longo de sua carreira, Lenir manteve-se fiel a uma investigação artística que resiste a categorizações simplistas. Sua obra é atravessada por tensões entre figuração e abstração, palavra e imagem, memória e presente, configurando uma poética visual que espelha as complexidades do ser humano em trânsito. Hoje, sua produção é considerada referência para as novas gerações que buscam expandir os limites da pintura e da palavra na arte contemporânea.
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Lenir de Miranda | Itaú Cultural
Lenir Garcia de Miranda (Pedro Osório RS 1945). Pintora e desenhista. Forma-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Críticas
"Lenir de Miranda é uma artista de grande talento. Ela se expressa numa linguagem profundamente pessoal e contemporânea. Lenir valoriza a nossa pintura" — Iberê Camargo (ARTE gaúcha contemporânea. Texto de Gaudêncio Fidelis. Porto Alegre: Casa de Cultura Mário Quintana, Instituto Estadual de Artes Visuais, 1991).
"Penso que é uma concepção muito interessante e, visualmente, um estimulante método de exploração dos trabalhos de Joyce. Eu admiro a pesquisa, o esforço artístico e a energia criativa que foi utilizada para a produção do Passaporte de Ulisses e é com imenso prazer que eu assino este Passaporte, representando o James Joyce Centre" — Robert Joyce (JOYCE, Robert. Passaporte de Ulisses. Dublin, 2002).
Acervos
Atelier Livre. Secretaria Municipal da Cultura - Porto Alegre RS
Centro de Cultura Inah Martensen - Rio Grande RS
Centro de Teledifusão Educativa - UFRGS - Porto Alegre RS
Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte
Fundação Vera Chaves Barcellos, Porto Alegre, RS
James Joyce Centre, Dublin, Irlanda
Museu da Gravura Brasileira, Bagé, RS
Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas, RS
Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Passo Fundo, RS
Museu do Estado de Pernambuco, Recife, PE
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ
Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, RS
Prefeitura Municipal de Piracicaba, SP
Secretaria de Estado da Cultura, Curitiba, PR
Secretaria Municipal de Pelotas, RS
SESC Pompéia, São Paulo, SP
University of New México, Estados Unidos
Exposições Individuais
1967 - Pelotas RS - Individual, na Galeria Crítica Nova da Escola de Belas-Artes de Pelotas
1983 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1983 - São Carlos SP - Individual, na UFSCar
1983 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1984 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1986 - Cuiabá MT - Individual, na Fundação Cultural do Mato Grosso
1986 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1987 - Rio Grande RS - Individual, no Espaço de Arte Oficina
1988 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1988 - Porto Alegre RS - Projeto Ulisses, no Margs
1989 - Edewecht (Alemanha) - Projeto Ulisses, no Micro Hall Art Center
1989 - Milão (Itália) - Projeto Ulisses, no Centro Lavoro Arte
1989 - Sunderland (Inglaterra) - Projeto Ulisses, na Gallery 2, Nardy Arts Foundation
1990 - Curitiba PR - Individual, na Fundação Cultural de Curitiba
1990 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1994 - Pelotas RS - Autobiografia de Todos Nós, no Museu Leopoldo Gotuzzo
2001 - Porto Alegre RS - Pintura, Texto, Livro de Artista, Joyceanamente, na Galeria Chaves
Exposições Coletivas
1972 - Pelotas RS - 1º Salão de Artes Plásticas - Terceiro Prêmio - pintura
1972 - São Paulo SP - Mostra de Arte Sesquicentenário da Independência e Brasil Plástica - 72, na Fundação Bienal
1980 - Pelotas RS - 4º Salão de Artes de Pelotas - menção honrosa
1982 - Curitiba PR - 39º. Salão Paranaense - Prêmio Assembléia Legislativa - desenho
1983 - Indianópolis (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Lafayette (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Porto Alegre RS - 15 Desenhistas Gaúchos, na Toque Final Casa de Arte
1983 - Porto Alegre RS - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Washington (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1984 - Fortaleza CE - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas
1984 - Goiânia GO - Salão Nacional de Artes Plásticas de Goiânia
1984 - Recife PE - 37º. Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Prêmio Aquisição - pintura
1984 - Rio de Janeiro RJ - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Campinas SP - 12º Salão de Arte Contemporânea de Campinas
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - Porto Alegre RS - Projeto Releitura, no Margs
1987 - Assunção (Paraguai) - 1ª Semana de Arte Brasileira, na Galeria do Centro de Estudos Brasileiros - artista convidada
1987 - Buenos Aires (Argentina) - 1º Salão Latino-Americano de Arte Sobre Papel
1987 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1989 - Havana (Cuba) - 3ª Bienal Internacional de Havana
1989 - Milão (Itália) - Rassegna Internazionale di Libri d´Artista, no Milan Art Center
1989 - Porto Alegre RS - Arte Sul 89, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
1989 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1990 - Porto Alegre RS - O Vermelho e o Negro, na Galeria Arte & Fato
1991 - Florianópolis SC - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFSC
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, na Casa de Cultura Mário Quintana
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Chico Lisboa Agora, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Dores e Cores, no Margs
1991 - Salvador BA - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFBA
1991 - São Paulo SP - Projeto: 100 anos de Paulista, na Casa das Rosas
1994 - Madrid (Espanha) - Artistas Iberoamericanos, na Iberoamericana Sala de Arte
1994 - Porto Alegre RS - Coletiva, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
1998 - Porto Alegre RS - Projeto Rio Grande da Arte, no Instituto Estadual de Artes Visuais
1998 - Caxias do Sul RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Passo Fundo RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Pelotas RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Rio Grande RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santa Maria RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santo Ângelo RS - Projeto Rio Grande da Arte
2000 - Porto Alegre RS - [bah]Zart Contemporâneo, na Galeria Chaves
Fonte: LENIR de Miranda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 25 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Lenir de Miranda | Site Oficial
Formação
2003 Mestrado em Poéticas Visuais. Instituto de Artes UFRGS. Porto Alegre, RS.
1994 International Seminar on Educational Systems in Israel. Kibbutz Chain. Israel Government.
1989 Artista e Professora Visitante / School of Art and Design, Sunderland Polytechnic, England.
1985 Especialização em Artes Plásticas, Teoria e Práxis. Pontifícia Universidade Católica do RS. Porto Alegre, RS.
1983 Especialização em Desenho. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas, RS.
1980 Especialização em História da Arte. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL.
1975 Graduação em Comunicação Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
1967 Graduação em Pintura. Escola de Belas Artes, Pelotas, RS.
Trabalha com pintura, desenho, imagens digitalizadas, vídeo, poemas, livros-de-artista, instalação. Vários prêmios de pintura e desenho, no Brasil. Exposições coletivas, individuais e obras em acervos públicos, no Brasil e exterior. Citações em bibliografias.
Resumo Exposições Individuais
2014 - Fragments of Land (painting, installation). State Darwin Museum, Moscow, Russia.
2012 - Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Terra Desolada (pinturas, fragmentos, instalação). Artista convidada. Porto Alegre, RS.
2011 - Centro Cultural Da Maya. Quem Vem Lá? Pinturas, livros, Passaporte de Ulisses. Bagé, RS.
2009 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS). Pinturas Meu Nome é Ninguém. Lançamento de livro homônimo. Porto Alegre, RS.
2008 - Instalação Fastfoods com Poemáticos Conturbados, vídeo, pintura. Museu de Arte de Joinville, SC. Galeria Breche. Pintura 20 anos, artista homenageada, Prefeitura Municipal de Rio Grande, RS.
2007 - Instalação Visão Pós-traumática do Déjeuner sur l´Herbe. Paço Municipal, Sec. Municipal de Cultura, Porto Alegre.
2004 - Passaporte de Ulisses e Uma Sobra de Guerra. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre e Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas.
2003 - Lançamento do Passaporte de Ulisses. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre - RS
2001 - Pinturas, livros, joyceanamente. Galeria Obra Aberta, Porto Alegre. Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Livros-de-artista, Passo Fundo, RS. Artista convidada para abertura Galeria Sete ao Cubo, Secret. Municipal de Cultura, Pelotas, RS. Livros-de-Artista.
1998 - MARGS, Porto Alegre. Lançamento livro Fim de Expediente (literatura/ artes visuais). Feira do Livro de Porto Alegre, Livraria Palmarinca, livro Fim de Expediente.
1994 - Solar dos Câmara, Diretoria de Cultura, Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Livros de Artista e lançamento do livro Autobiografia de Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS, Porto Alegre. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Pelotas, RS.
1990 - Galeria Arte & Fato. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Curitiba, desenhos. Curitiba, PR.
1988 - Projeto ULISSES. MARGS, Porto Alegre, RS. Gallery 2, Vardy Arts Foundation. Sunderland, Inglaterra. Centro Lavoro Arte. Milão, Itália. Micro Hall Art Center. Edewecht, Alemanha.
1987 - Espaço Oficina. Pinturas. Rio Grande, RS.
1986 - Galeria Arte & Fato. Pinturas. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Mato Grosso. Galeria de Arte Dalva de Barros. Pinturas. Cuiabá, MT.
1984 - Itaú Galeria, Desenhos. São Paulo, SP.
1983 - Desenhos série Sobre/vivências. Universidade Federal de São Carlos, SP. Itaú Galeria, São Carlos, SP. MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.
1982 - Espaço Livros & Artes. Desenhos. Porto Alegre, RS.
Resumo Exposições Coletivas / Premiações / Outros
2014 - O Cânone Podre. Museu de Arte do Rui Grande do Sul. Porto Alegre – RS.
2013 - Forapalavradentro. Espaço Cultural Campus II – Teatro FEEVALE. Novo Hamburgo - RS. A Medida do Gesto. Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Porto Alegre – RS. Lugares-Livros Exposição Feira 2013. Secretaria Municipal de Cultura. Pelotas – RS Oceans Project – Tania Kovats. Fruitmarket Gallery. Edinbugh, Scotland.
2012 - Fundação Vera Chaves Barcellos. Des / Estruturas. Sala dos Pomares. Viamão, RS. Assista Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O Museu Sensível. Porto Alegre, RS. 20 Anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - O Triunfo do Contemporâneo. MAC-RS e Santander Cultural. Porto Alegre, RS.
2011 - 8º Bienal do Mercosul. Além Fronteiras. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Porto Alegre, RS. Brasil. Fundação Vera Chaves Barcellos. Pintura - da matéria à representação. Viamão, RS. Museu de Arte Contemporânea. A Medida do Gesto. Porto Alegre, RS. Time/Bank. Stroom Den Haag. MASS MOCA – Massachusetts Museum of Contemporary Arts, EU. An exchange with Sol Lewitt. Fundação Vera Chaves Barcellos. Um Ponto de Ironia. Viamão, RS. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Labirintos da Iconografia. Porto Alegre, RS. Book Aguilar Branch of the New York Public Library. The Last Book (L. Camnitzer). NY, EU.
2010 - 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Terreiro Longe Daqui, Aqui Mesmo (curadoria Fábio Morais/Marilá Dardot. Livros de artista. São Paulo, SP. Pintura: da matéria à representação. Fundação Vera Chaves Barcellos. Viamão, RS. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Zentral Bibliothek, Zurich. Livros de Artistas. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, RJ.
2009 - NBP (R. Basbaum) 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre. Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro. Aluga-se. Galeria Subterrânea, Tempo Contaminado, Porto Alegre. MAC, Museum. Wien, Áustria. Colors Book-Fabrica. Galeria da Associação Cultural Brasil/E.U. Doce de Santo, Salvador, BA. Exposição Perspectivas do livro de artista. Seminário de Pós-Graduação da EBA/UFMG, Belo Horizonte, MG.
2008 - El Último Libro. Biblioteca Nacional de la República Argentina, Buenos Aires. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Appel Project, Florean Museum. Baia Mare, Romania. VazioOff Bienal Online (TomLisboa), Curitiba, PR. Feevale, Novo Hamburgo, RS. IX Congresso Internacional/Pesquisadores da Crítica Genética – palestra (O Cascudo na Bandeja), Universidade Fed. do Espírito Santo, Vitória. ArtLine, Pinturas, Kiev, Embassy of Ukraine.
2007 - Colóquio Internacional Mestiçagens na Arte Contemporânea: Fastfoods com Poemáticos Conturbados. MARGS - Porto Alegre, RS. Associações Livres - Ler é Acreditar. Curadoria Gaudêncio Fidelis. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre, RS. Documenta12 Magazine Online, Kassel, Alemanha. Vídeo: Post-Traumatic Vision of Déjeuner sur l´herbe (après Manet).
2006 - MEMEFEST 2006 International Festival of Radical Communication. Eslovênia, Canadá, Colômbia, Emirados Árabes, Brasil. XX Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
2004 - Bloomsday, 2004. Talismã Batatal. 3º lugar júri popular. Oficcina Multimedia, Fund. Educ. Artística. Belo Horizonte, MG. São Paulo 450 anos. SESC Pompéia, SP.
2002 - Ulysses´s Passport. XVIII Internat. James Joyce Symposium, Bloomsday. University of Trieste, Itália. Angústia de um Tomate e Trajetória Artística com a Nostalgia de Ulisses: palestra. Instit. de Letras e Artes. UFPEL, Pelotas. VII Biennial of Experimental Poetry, México City.
2001 - XV Festival de Arte Cidade de Porto Alegre. Secr. Municipal de Cultura.
2000 - Olhando Desenhos. MARGS, Porto Alegre, RS. Desenho e Novas Linguagens. MARGS, Porto Alegre, RS.
1999 - MAC, Mostra itinerante. Museu de Arte Contemporânea. Instituto Estadual de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1997 - Bloomscyberday 97. The Irish Times on the Web. Dublin, Irlanda. Folha de São Paulo, SP.
1994 - Sala de Arte Iberoamericana. Madri, Espanha. Nossos bosques têm mais vida? Museu de Arte do Rio Grande do Sul MARGS e Parceria Internacional de Museus.
1993 - Salão Latino-americano de Artes Plásticas, Santa Maria, RS.
1992 - 360 Graus de Pintura Agora. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre. Arte Contemporânea. Edel Trade Center, Instit. Est. de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1991 - Último Decênio Dores e Cores. MARGS, Porto Alegre, RS. Arte Gaúcha Contemporânea, Univ. Federal da Bahia, Salvador, BA.
1990 - RS sobre Papel, MARGS, Porto Alegre, RS. IV Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
1989 - III Bienal de Havana, Cuba. Rassegna Internazionale di Libri d`Artista, Milan Art Center. Milão, Itália. Conselheira (ad hoc) FAPERGS, Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1988 - Salão de Arte Contemporânea, Sto. André, SP. Projeto Ulisses/mail-art. MARGS, Porto Alegre, RS. Galeria Metropolitana de Artes, Recife, PE. .
1987 - Salão Latino-americano Arte sobre Papel. Buenos Aires, Argentina. Olhar Contemporâneo. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre, RS. Releituras 86. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre, RS.
1986 - Mostra do Desenho Brasileiro. Curitiba, PR.
1985 - Escrituras e Caligrafias. Funarte, Rio de Janeiro, RJ. Salão de Arte Contemporânea. Campinas, SP. 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Funarte. Rio de Janeiro, RJ.
1984 - Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, PE. Prêmio Aquisição Pintura. Salão de Arte Contemporânea. Prêmio Aquisição Pintura. Piracicaba, SP.
1983 - III Salão de Arte de Sta. Maria. Menção Honrosa Desenho. Santa Maria, RS. Arte sobre papel. Intercâmbio RS/Indianópolis, USA. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre e Indianópolis, Lafayette, Washington DC (USA).
1980 - IV Salão de Artes Plásticas, Pelotas, RS. Menção Honrosa Desenho. Salão Paranaense. Curitiba, PR. Prêmio Assembléia Legislativa - Desenho. I Salão de Arte Cidade de Novo Hamburgo, RS. Prêmio Aquisição Desenho. II Salão de Arte de Santa Maria, RS. Menção Honrosa Desenho. Ingresso na Univ. Federal Pelotas-UFPEL, ingressa como professora.
1972 - I Salão de Artes Plásticas de Pelotas. III Prêmio Pintura. Pelotas, RS. II Bienal Nacional de Artes Plásticas. São Paulo, SP.
Textos
Há algum tempo envolvido com livros, textos e edições muitas, cultivava e seguia disfarçando uma vontade de ver editado em Pelotas um trabalho que ousasse diferenciar o que tem acontecido, tanto na forma, como em conteúdo. Um livro de forma (quase) quadrada por que não? De conteúdo que muito bem poderia estar noutro meio de expressão cultural – por que não? – e a autoria fosse de alguém cuja postura, proposta e talento não se submetessem ao conforto de uma idéia e à vaidade de escrever um livro – por que não?… Já perceberam, então, porque estou com Lenir nesta sua obra: simplesmente por que Lenir e tudo a que está se propondo enquadra-se perfeitamente no que nos faltava. E se assim é, tê-la com o selo de nossa editora é como sentir os prazeres da Pasárgada, ou arriscar os extremos e as surpresas de uma Liliputh… Foi um caso de sintonia quase perfeita (e digo quase porque, se total, talvez não precisas se acontecer), já que tanto já sei e espero do que ela traz, que tenho certeza, Lenir, vocês, eu, nós, todos sairemos acrescidos. Lenir reinventa a experiência européia do livro-de-artista, e nestes primeiros produtos ela mesma se envolve, diagrama, imprime e supervisiona a encadernação, dando de si e de seu tempo, à procura do produto final. E Lenir, da idéia do LIVRO DE ARTISTA, torna-se a ARTISTA DO LIVRO, guardando a simetria de um livro, mas trazendo esta proposta nova/antiga (papiro/manuscritos) num momento em que estamos todos ávidos por algo de essência: a essência do artista na sensibilidade do fruidor.
ps: Sobre Lenir e o que ela admite, gosta, empreende, inquieta ou intui, ver neste livro na sequência das páginas. Muito de Lenir, pouco sobre Lenir.
A integração não tem a ver com a ilustração da escrita pela imagem, nem com a “explicação” da imagem pela escrita: elas andam juntas, correspondem-se sem se explicarem mutuamente, complementam-se sem se fundirem. Cada linguagem permanece íntegra nela mesma, num diálogo tenso com a outra; tenso, porque não se traduzem mutuamente; porque não se equivalem; porque seus elementos constitutivos são únicos e irredutíveis um ao outro. Segundo Foucault,
“ … a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.” (Foucault, 1992 , p.25).
Não há fusão entre texto e imagem, mas há “contaminação” de um pelo outro. Eles não se justapõem apenas, como em livros ilustrados tradicionais, mas se sobrepõem. A escrita é recoberta por manchas de tinta, ou por grafismos gestuais. O desenho possui, frequentemente, frases ou palavras soltas: nem títulos, nem explicações, mas elementos formais que interagem com as imagens:
“A imagem vai nascendo, e ela mesma exige respostas. Vou traçando e vou enxergando. A figura fica ali, me olhando, me desafiando. Ou eu acho o que ela quer, ou perco tudo.” (Miranda, 2000)
Perde tudo, ou se perde? A arte é como a esfinge: “decifra-me, ou te devoro.”
Lenir anseia pelas palavras como anseia pelas formas, cores, gestos que a pintura e o desenho permitem. Seu Ulisses é o herói narrado, sua trajetória, mas é também o mundo de paisagens, cenas, figuras que a própria narrativa desencadeia em sua imaginação. Assim, o oceano: que vai e vem, num retorno cíclico, tal como Ulisses. O círculo da vida, representado pelo fluxo da água, que, no seu ir e vir, nunca é a mesma. Do mesmo modo, o grafismo que a representa nunca é igual, pois o gesto sempre muda, de forma quase automática, inconsciente. A água é que conduz a mão, como as ondas conduzem Ulisses. O Ulisses de Lenir é seu Ulisses, que só existe na totalidade da palavra com a imagem. De suas palavras com suas imagens. É sem dúvida por isso (sendo a arte, sempre, uma forma de auto-retrato), que, neste último livro, Lenir substituiu o Ulisses-Leopold Bloom de James Joyce por Agnes Bloom. O outro lado do mito, sua face escura. O feminino, identitário e marginal simultaneamente. Dual: mito e anti-mítico, herói e anti-heróico. Aquele que se desloca aleatoriamente, mas não cumpre uma trajetória circular. Aquele que espera: é sempre o feminino que espera, que conta o tempo (o que passou, o que virá, o que falta passar). Aquele que se ocupa dos pequenos fatos do cotidiano. Aquele que exerce a repetição, essa sim, efetiva, das incontornáveis tarefas do dia a dia.
O CORPO-ESCRITA, O CORPO ESCRITO
A escrita sempre forma um corpo. Conjunto de signos que imprimem sobre o suporte uma tessitura, como uma tapeçaria. A mão que escreve, e o olho que lê executam um movimento regular, linear, rítmico, como tecendo e retecendo um corpo feito de tramas.
No caso deste livro, esse corpo é irregular: variam os espaçamentos, os tipos dos caracteres, seu tamanho; às vezes, a escrita manual rompe a regularidade das letras impressas e introduz o tocante tremor do corpo que cria, o corpo da artista.
Rasuras, vazios, notas à margem, sublinhas também constituem esse corpo textual, negando sua vocação à uniformidade e evidenciando-o como um organismo vivo: com suas cicatrizes, imperfeições, irregularidades. Ele reconstitui a gênese dos mitos: a narrativa oral, com seus ritmos irregulares, suas ênfases, suas pausas. E a presença indispensável do corpo que narra. A narrativa de Lenir, mesmo quando impressa em caracteres mecânicos, cria um ritmo que evoca os grafismos de seus desenhos: rapidez, urgência, a necessidade de registrar à medida que a idéia “sai” de sua mente e escorre para a mão.
Ele traduz, assim, com mais força, o corpo escrito, de Agnes. Exposto com seus cansaços, seus fluídos e fluxos, sua pele e pêlos. Desvelado com seus sentimentos, reflexões e observações. Desvendado, sobretudo, por seu olhar.
Esse corpo olha os dos outros e é por eles olhado. Vê-se refletido no espelho de um outro passageiro do ônibus, bem como nos vidros embaçados das janelas. Encontra-se projetado do corpo da artista e rebate em nossos próprios corpos, nós leitores – espectadores – voyeurs. Todos somos Agnes, todos somos Ulisses. A névoa de Ítaca nos invade a todos.
Agnes está nas quinas dos muros, bem como nas ondulações das águas. A cela e o mar representam, para Lenir, duas simbolizações antagônicas do corpo, encerrado e livre simultaneamente. O corpo está, pois, presente (embora, não figurado) nos desenhos desses lugares”.
Agnes, secretamente, transborda.
Como Lenir. Como todos nós, que sempre tentamos ir para muito mais além dos limites de nossos corpos: através dos mitos, ou do imaginário, ou da arte — Icleia Cattani (CATTANI, Icleia. A Escrita Pintada, A Pintura Escrita. Catálogo da Exposição Pintura Livro Joyceanamente. Galeria Obra Aberta : Porto Alegre, 2001).
"Sobre isso, e fomentando os debates, que são o centro do próximo capítulo, o artista plástico, curador independente e professor do Instituto de Artes da UFRGS, Paulo Gomes, indica que esta limitação do edital parece “bairrista”, excluindo boas exposições da possibilidade de serem agraciadas com o Prêmio.
[…] Tem um critério de bairrismo no Prêmio que eu acho lamentável; por exemplo, artistas que não moram em Porto Alegre, mas que são do Rio Grande do Sul, não concorrem a prêmios, o que eu acho, de uma certa maneira, injusto. A gente não pode colocar Porto Alegre como um centro, mas como é um Prêmio do município, a justificativa é que é um prêmio do município, então até aí eu aceito. Só que houve duas exposições este ano [referindo-se a 2009] que foram excepcionais e que não concorreram ao Prêmio: a exposição da Nara Amélia, de gravura, lá na Usina do Gasômetro, e a exposição de pintura da Lenir de Miranda, que é de Pelotas, no MARGS. Elas não concorreram ao prêmio, o que eu acho injustiça. A Lenir fez a melhor exposição de pintura nos últimos dez anos em Porto Alegre. Então, são os problemas dos limites municipais do Prêmio.
Acerca do exemplo levantado por Gomes, vale comentar que, na noite de premiação do quarto Açorianos, no dia 8 de maio de 2010, a artista plástica Maria Tomaselli, agraciada com o Destaque de Melhor Exposição Individual pela mostra Magia da Semelhança, junto ao Margs Ado Malagoli, também se manifestou, sugerindo, na sua breve fala, uma certa “injustiça”, pelo fato de que nem Lenir de Miranda, nem Heloisa Schneiders (exposição póstuma também no Margs), haviam sido indicadas na categoria Pintura (as três artistas haviam exposto no Margs no mesmo período, entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010). Tomaselli provavelmente se manifestou dessa forma, inclusive, por desconhecer o edital; o fato é que a maioria dos artistas, agraciados ou não, ignoram as “normas” do Açorianos, bem como os critérios dos membros do júri.” — Yasmine Mazzoni (Monografia. Instituto de Artes -UFRGS. Porto Alegre, 2009).
O Contexto dos Livros de Lenir de Miranda
O texto que tem acompanhado as artes visuais no século XX, por sua presença ou pelo enaltecimento de sua ausência, é uma entidade ambígua, uma ferramenta pouco ergonômica. Ele faz a apologia do artista, ele o acossa, julga o produto artístico, busca uma distância crítica… Também pode fazer parte da obra… ou não. Caso se proponha uma situação primeira, onde a escrita legitima a arte (ou faz seu comentário escrito), imediatamente se imporia uma segunda situação, em que o artista visual se apropriaria do texto (descritivo e narrativo). O inter-relacionamento dessas situações deverá gerar uma terceira, onde será a obra que perverterá a escrita. E cada vez mais o artista avançará até o epílogo adivinhado: a quarta situação, a escrita expulsa de seu próprio suporte. E, enfim, o que se tem é o volume. Em que região entre esses quatro vértices estamos nós, que temos as páginas de Lenir de Miranda nas mãos? E elas mesmas, as páginas de Lenir, onde estão?
Existem ocasiões em que é prudente reduzir o espaço gasto com palavras. Vou omitir as perguntas e deixar que as dúvidas enfeitem minhas convicções. Porque hoje existem tessituras mais ricas entre os mundos da estética literária e da plástica, queiram ou não os escrevinhadores. As inteligências que constroem a teorização do objeto artístico do agora são mais amadurecidas. São maiores e mais conscientes que suas antecessoras. O envolvimento é mais comprometido. Por outro lado, esse espaço disponível à reflexão
textual às vezes deixa a mostra certa escrita gratuita, apressada pela ansiedade. Talvez porque a palavra que julgava e interpretava a arte agora é sua refeição diária, comum, degustada em círculos maiores. [….]
No Brasil, o livro de artista estrito (um produto diferente do livro-objeto, ainda que ambos pertençam à grande categoria do livro de artista) teve e ainda tem pouca divulgação. E o livro-objeto, por sua vez, sofre da pequena atenção recebida dos próprios artistas. É nesse contexto semi-árido que os trabalhos de Lenir de Miranda se multiplicam, indiferentes ao desamparo crítico que isola os fazedores de livros. A maior parte da produção da artista é de livros-objetos em exemplares únicos, produzidos a partir de meados dos anos 90, ainda no refluxo da arte matérica.
Apresentam-se como obras quase inteiramente plásticas. Têm normalmente a materialidade e a sensualidade como características dominantes, com a presença eloqüente de uma ampla gama de pigmentos e substâncias (com destaque para a cera de abelha e a laca), mesclando, manchando ou revestindo materiais como o pano, a lixa ou a madeira. Mas neles o texto não é integralmente ausente. Aqui e ali aparecem frases esparsas, às vezes parágrafos inteiros, associados direta ou indiretamente às construções literárias de James Joyce (Ulisses). Também podem ser encontradas outras anotações ou anexações físicas, como tíquetes, rótulos ou outros impressos, além de objetos diversos, como dados de jogar, arames, interruptores elétricos, enfim tudo que se puder imaginar. Os livros, aqui, são sobretudo coisas. Seus títulos são por vezes mais ou menos objetivos, citando suas características (Livro da pintura ou Livro com funil de Buchner e decantação); outras vezes são subjetivos, embora proponham a sua função (Livro para ligar ou Livro para Beuys ver); ou são francamente ambíguos (Livro com todas as páginas oceânicas ou Livro induzido). Todos menos um são peças únicas.
Autobiografia de todos nós foi produzido para acompanhar a exposição homônima de livros-objetos únicos em 1994, dentre eles alguns dos já citados. Poderia ser originalmente um catálogo. Mas por permanecer vivo independente da exposição ele se recusa como tal. E essa recusa é sua mais interessante característica. Ele se impõe como livro de artista stricto sensu, múltiplo e satisfeito com sua condição simultânea de obra gráfica e plástica. A totalidade (a proposição) de sua tiragem é, também, coisa. Essa é uma dimensão exclusiva do mundo industrial, aqui subvertida ao propósito artístico. Ou seja, ter uma tiragem é um propósito estético. A relativização do industrial fica estabelecida pela inclusão em cada exemplar de fragmentos de tecido pigmentado e/ou tratado com cera. Essa indefinição entre o único e o múltiplo retornaria na primeira versão de Fim de Expediente, 1998, onde o texto permaneceria essencialmente imutável em doze exemplares, individualizados por colagens, montagens e pátinas matéricas. Paradoxalmente ou não (para quem visa ao livro semi-industrial) a mão plástica continuava sendo dominadora, muito mais eloqüente que a intenção multiplicadora. Isso se confirmaria pelos exemplares adicionais realizados depois, persistentemente híbridos.
Mal acomodada na sua tensa mas zombeteira insatisfação fim-de-século, Lenir tenta agora uma nova e mais definitiva inserção no mundo plural, deixando o singular no âmbito do ateliê. Talvez intromissão, melhor dizendo, já que prescinde de convite. O trabalho resultante agora é gráfico e industrial, não mais obra única. No seu projeto mais recente ela junta num só volume dois exercícios originalmente avulsos: uma nova versão de Fim de expediente com o inédito A Sinalização. Ambos são produtos da interação entre imagem, texto em prosa e palavra impressa. No primeiro caso o texto é abundante, enquanto no segundo ele é mais escasso, por vezes apenas indicial. Anexado ao conjunto, está um livreto com artigos suplementares, entre eles este que o leitor tem em mãos (ao meu ver intromissões dispensáveis, ainda que possam ter alguma utilidade num ou noutro ponto; de minha parte, eu peço desculpas). A artista quer um público maior, muito maior… e uma arte mais acessível. Com o auxílio do computador, que alternadamente a seduz e irrita, ela digitaliza o que era na sua origem objetivamente real e manipulável. Levada à condição de ser agora apenas uma etapa de um processo mais complexo, a superfície pictórica matriz, com panos, pigmentos e colagens, se submete ao achatamento inerente à página gráfica, unidade plana multiplicada pelos rolos de impressão. Como afirmação da bidimensionalidade, a imagem resultante correria o risco de ser apenas ilustração, o que infere uma relação hierárquica da página, principalmente quando acompanhada de um bloco de texto. Lenir não permite que isso aconteça, ao menos até a fase de impressão doméstica artesanal com impressora a jato de tinta (sabemos que uma imagem pode sofrer sérias alterações na passagem de um processo de provas para sua impressão final em offset). As cores obtidas nos seus primeiros protótipos são vívidas, recriando as texturas originais. Não acontece aqui uma emulação pela emulação, porque o recurso à mídia é um propósito. A consciência da multiplicação é patente, mesmo que seja buscada a fidelidade de reprodução. Neste aspecto, quase que se pode sentir a textura graxa da parafina utilizada na composição original. O plano é, por isso, mais que afirmado, sublinhado. A página é página mesmo, despretensiosa e amiga de quem a manuseia, mas impõe-nos o poder de citação das tintas que as tocaram. A letra impressa é macerada nas manchas de cor (originalmente laca, em muitos casos). Quase morre afogada. As colunas de texto ou são imagens muito pobres para sobrepujarem o estilo tenso do traço de Lenir, ou são feridas até quase a morte por traços, nódoas e as próprias marcas de sua colagem.
Reitero o afirmado acima. A qualidade tátil da imagem impressa é resultado do profundo desejo de que o público compreenda a origem plástica do projeto. A imagem se torna presente em três estados. Ela existe da origem plástica, matérica, com textura e cheiro, um evento da percepção imediata. Ou seja, a imagem e sua coisa. Ela é, então, digitalizada, passando por uma existência virtual, despregada do objeto. Importante acrescentar que Lenir usa a própria matriz no digitalizador, sem a intermediação da câmera fotográfica: o vidro do scanner toca por nós a epiderme original. A imagem só existirá se for seguida uma série de procedimentos de uso do equipamento. Será reconstruída no monitor ou em sua impressora, aditiva ou subtrativamente. E estará apta a ser traduzida para o fotolito de artes gráficas, podendo antes disso sofrer alguns retoques e pequenas alterações. Finalmente impressa, ela ressurgirá exponencialmente em seu terceiro estado, como estampa, estando o livro aberto aos nossos olhos ou fechado em algum canto. Mas multiplicado em cem ou em mil, mesmo que seja praticamente impossível reproduzir toda a tessitura do apelo tátil e visual característico na obra de Lenir.
Mas a artista quer chegar aos nossos olhos (e às nossas mãos). Restaria como possibilidade uma tradução? Melhor seria chamar de versão. A artista quer e parte em nossa direção a partir de suas próprias ferramentas. A obra é outra, com identidade própria, mas sem perder seu espírito. Alma e corpo não podem estar separados, não importa suas falências, porque juntos precisam sobrepujar suas próprias razões, a consciência de sua possível comunhão quase eterna.
O livro de Lenir é a reconstrução de seus muitos espelhos. Porém é mais estratificado, com muitas camadas de espectros, como se fossem tomografias de um espaço comum ao seu universo pessoal e ao nosso mundo cultural. Ele é o duplo que com as apreensões da artista dividiu a gênese e que conosco agora troca olhares, emitindo seus afetos em nossa direção. É a imagem que pelo processo pode ser distendida e reelaborada, pode ser prolixa, reiterativa. Insiste (suplica) pela nossa atenção. Ela quer ser um agora, sim, físico e antropológico, mas também quer metaforizar muitos extratos do tempo. Quer (precisa) a nossa companhia. De todos nós. E que sejamos muitos. Mas certamente seu livro não traz a mera confidência, e sim a cooptação íntima. Lenir nos quer ao seu lado, dentro de seus mares perspectivados, por vezes inutilmente contidos por linhas escuras, em vão decididas em delimitar compartimentos vitais […]
Cindida entre a memória viva do Canal de São Gonçalo e a memória emprestada dos canais de Dublin. Quantos mares entre eles! Para pictografá-los, Lenir escolheu uma mídia que por si só já é mal entendida, mas que gosta e se orgulha dessa situação torta. O lugar artístico do livro de artista é o lugar das margens de um universo de duplos ora em cisão, ora em comunhão. Dois como par ou como a soma dos ímpares. Onde se pode perguntar se a função é mesmo pervertida nos objetos híbridos e se a dúvida não seria a melhor e a mais desejável das respostas.
(fragmento do livro-texto de A Sinalização – edição de Lenir de Miranda)
[…] Lenir de Miranda, primeiramente desenhista e pintora, ela parece ter sido uma das mais prolíferas produtoras de livros de artista do sul do país nos anos 90. […]
A cumplicidade inevitável entre o homem e o livro seria uma armadilha? E ao que é da psique deve ser permitido o toque? […] talvez vislumbremos aí a alma metafísica dos livros de Lenir de Miranda.
(fragmento do livro A Página Violada)
Porto Alegre, 2000
Fonte: Lenir de Miranda Site Oficial. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Sobre Lenir de Miranda | MAC RS
Pintora e desenhista. Lenir Garcia de Miranda formou-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Fonte: MAC RS. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Entrevista Lenir de Miranda |
1. Por que você escolheu, num momento específico de sua vida artística, o livro de artista?
Não lembro qual foi o primeiro livro que fiz. Mas em 1994 fiz um grande livro para a exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Nossos bosques têm mais vida?, dentro do Programa Parceria Internacional de Museus, evocando a consciência ecológica. Neste livro (80x60x17cm) está escrito o poema de Gonçalves Dias que dá nome à exposição, tendo além das pinturas e grafias um visor mágico com fragmento de planta. Chamou-se Livro do exílio e da nostalgia. O que motivou foi a vontade de experienciar algo mais íntimo que a simples pintura bidimensional. Também a possibilidade de exploração manual, uma viagem, a criação do tempo na obra. Isso era o passar de páginas num livro de artista.
Vale acrescentar a informação de que trabalhei com artes gráficas, planejamento visual e supervisão gráfica, que é uma experiência apaixonante ver o surgimento do material impresso (por uns dezesseis anos). Transpus, também, essa experiência para uma forma estética, com vida própria, em seu espaço sígnico, de início utilizando mais a pintura, o desenho, colagem de objetos aparentemente desconexos, embora se saiba que sempre existem os nexos secretos.
2. O período de tempo em que você se dedicou ao livro de artista está encerrado?
Não. Estou totalmente envolvida com livro de artista neste momento. Nesta cultura cada vez mais saturada pelos meios eletrônicos de comunicação instantânea o livro de artista é o objeto paradoxo que convida o homem a uma pausa diante de si mesmo ao convidá-lo a penetrar na sua trama íntima (guiado pelo fio de Ariadne?).
3. Que artistas influenciaram o seu trabalho?
M. Duchamp ensinou-me que a obra se dá como forma de conhecimento, uma gnose, um procedimento ético.
J. Beuys que dizia que toda obra de arte intenta demonstrar ao homem sua própria imagem (por isso falo em autobiografia de todos nós como título de meu livro sobre os meus vinte livros de artista). Rauschemberg, com suas assemblagens, unindo a arte à vida. Anselm Kiefer. Iberê Camargo, quando estudava pintura em Pelotas. Sempre fui uma expressionista.
4. Qual o papel de James Joyce nas suas obras?
Se fores na Biblioteca da Faculdade de Direito de Pelotas, encontrarás livros de literatura internacional cujas fichas contêm minha assinatura desde 1967. Naquela época eu conheci J. Joyce. Ulysses. Era a forma de literatura que eu queria descobrir, intrigante, que me fazia criar uma infinidade de coisas em minha mente. Era uma literatura que extrapolava os limites da realidade banal das historinhas. Kafka, Eliot e alguns malditos marcavam encontro comigo mas Joyce predominava. Ele proporcionava uma experiência interativa única, ao “fluxo da consciência”, que me levava a completar a obra com imagens que nem saberia afirmar de onde vinham, elas aconteciam subconscientemente. Isso era Ulysses para mim, que trabalhava com a visualidade, algo poderoso em comunicar vivências míticas dentro de mim numa pluralidade de outras vivências sobrepostas, cotidianas, da minha realidade contemporânea.
A transposição da linguagem verbal para a plástica se faz através da sobreposição, da mescla de técnicas, conjugação de vários elementos como desenho, pintura, colagem, ao fluir das exigências da plasticidade em formação ou de uma ideia, um conceito em desenvolvimento.
5. O conjunto de vinte livros da sua exposição de 1994 em Porto Alegre foi elaborado a partir de um projeto ou método?
Cada livro ia surgindo a partir das suas exigências íntimas, próprias de um ou de vários dos componentes iniciais que ditavam suas solicitações plásticas. Cabia a mim descobrir qual a reposta mais adequada diante da forma do livro que se revelava. Parafraseando F. Bacon, que disse que a pintura exige do artista a sua solução.
Assim, no livro, o tempo e o espaço justapostos e sobrepostos vão criando infinidades de outras realidades, que irão acenar à participação do “leitor” ao qual ele será entregue. O que determinou a criação destes vinte livros foram suas relações sintáticas, ocorridas em cada livro individualmente, elementos significantes inseridos com outros elementos, formando um código rico de ambiguidades.
6. Por que você optou por peças únicas?
Seu mistério não deverá ser duplicável, nem sua solidão, assim vejo o livro de artista como peça única, algo muito original.
7. Componentes físicos do desenho, da pintura e da escultura, com presença do objeto encontrado, são a marca de seu trabalho. Por que a forma impressa tem presença quase nula?
Nestes primeiros trabalhos, embora a forma verbal possa reforçar as ideias contidas no livro, achei que no momento não eram essenciais aos significados expressos por estar mais ansiosa pelo desenho, pintura e colagens.
8. Como você se definiria formalmente?
Sempre fui uma expressionista, mesmo desde quando nem sabia o que isto representava.
9. Como foi a recepção de seus livros pelo público? [A entrevistada prefere que a resposta a esta pergunta não seja divulgada. Ela relata as dificuldades encontradas nas suas exposições, criticando alguns órgãos ou pessoas envolvidos.]
10. Que diferença você apontaria entre as possibilidades do livro de artista e outros meios tradicionais?
O livro de artista é um objeto ainda estranho, que não se coloca na parede como uma pintura ou desenho. Fica distante, por vezes, como que à espreita, do observador desacostumado com uma obra mais reflexiva, embora se ofereça cheio de possibilidades no espaço tridimensional. Em suas formas interdisciplinares, técnicas variadas, sintaxes inesperadas, mensagens engajadas social, politicamente ou apenas poesia em si mesma, reflexivo, ele deverá se impor cada vez mais.
11. Você gostaria de fazer algum outro esclarecimento?
O livro de artista está envolto na névoa, com algum passado possuindo um elo conosco, como Ithaca avistada ao longe, envolta em névoa, enquanto Ulysses retornava.
Após é necessário vergar o arco de Ulysses, para reconquistar seu território de vestígios misteriosos, completar a face do mito que nos é ofertado e que somente cada um dos espectadores tem a possibilidade de fazer, tudo isto, atualmente, do outro lado da fria e sintética mente eletrônica.
Se me perguntas o que contém cada imagem, já não poderei dizer com precisão, pois elas foram depositadas imagens sobre imagens, signos após signos, algo que foi se perdendo na névoa, mas que é sempre procurado, oculto que está em tantas memórias, imaginários, um desencadeamento sígnico infinito, uma semiose. Eis como surge a linguagem artística, expressa também nos livros de artista.
Assim, voltar ao antigo gesto de volver uma página, descortinar a névoa da memória, envolvendo-se no tato e no tempo proporcionado pelos mais variados elementos, como objetos anexos, desenhos, pinturas, complexas estruturas formais, envolvendo a disposição e o fluxo das páginas dentro da forma de livro, cujo conteúdo foge a objetivas informações. Geralmente um signo em si mesmo, quando se refere apenas às suas questões poéticas.
Mesmo engajado em questões sociais políticas, é um signo, uma obra de arte, que atinge o imaginário do espectador. Ele abre um fluxo subconsciente, uma viagem não proporcionada por meios eletrônicos.
Qual o significado de cada página? Que realidade encerra-se na passagem do tempo de contato como signo exposto no corpo da matéria? Direi que cada livro tem seus mistérios de longas peregrinações, “...após incalculáveis éons de peregrinações, retornaria...” (Ulysses/lthaca-Joyce). Memórias depositadas sob densas neblinas, página após página, acenam ao retomo de cada um de nós, até fluírem com nossas vidas mais cotidianas, mescladas em vivências sobrepostas (técnicas acopladas), linguagem joyceana.
Em cada livro de artista, signo após signo nos fazem estes passageiros, nas justaposições de elementos aparentemente desconexos, desenhos de conotações míticas, emblemático, com objetos banais tais como um coador de cozinha. E assim vai este relato subconsciente em forma de livro de artista. Realmente um desafio ao imaginário acomodado em universos do microchip. O livro de artista é este espantoso encontro entre duas sensibilidades que se cruzam, imediatamente vinculadas, descobrindo-se mutuamente: a do artista e do destinatário, caminhante apressado.
Todavia, aqui não pode-se deixar de falar do paradoxo que se apresenta: ao lado da linguagem cibernética vamos no sentido inverso, no descobrimento desta memória primitiva, um signo precário colocado ao alcance do antigo manuseio. Interferir manual e mentalmente no silencioso objeto ancestral e à espreita, como um objeto soterrado e inacabado, domínio inconsciente à espera do viajante explorador.
Como disse Joyce: todo livro tem seus mistérios.
Não sabemos qual o desfecho deste paradoxo: do universo virtual ao universo tátil do livro de artista sua histórica, seus códigos ancestrais.
Fonte: Issue, publicada originalmente em “A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista”, publicada em dezembro de 1997. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Acervo UFRGS. Consultado pela última vez em 28 de abril de 2025.
Lenir Garcia de Miranda (1945, Pedro Osório, Brasil), mais conhecida como Lenir de Miranda, é uma artista visual brasileira. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões (1967), Lenir expandiu seus estudos com bacharelado em Comunicação Social (PUCRS, 1975), especializações em História da Arte (1980) e em Desenho (1983) pela UFPel, além de concluir o mestrado em Poéticas Visuais na UFRGS em 2003. Contemporânea e conceitual, Lenir de Miranda desenvolve suas obras combinando imagem e palavra em obras experimentais, sensíveis e profundamente narrativas. Sua produção transita entre livros de artista, instalações, desenhos e vídeos, sempre explorando a materialidade do texto e da imagem. Trabalha com técnicas como pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista, utilizando paletas variadas e materiais experimentais. Recebeu prêmios em importantes salões nacionais, como o Salão Paranaense (1982) e o Salão de Pernambuco (1984). Suas obras fazem parte de acervos de museus como o MARGS (RS), o Museu Nacional de Belas Artes (RJ), o James Joyce Centre (Dublin) e o State Darwin Museum (Moscou), consolidando seu nome na arte contemporânea brasileira.
Lenir de Miranda | Arremate Arte
Nascida em 1945 na cidade de Pedro Osório, no Rio Grande do Sul, Lenir Garcia de Miranda cresceu em meio a paisagens que mais tarde ecoariam nos deslocamentos simbólicos de sua obra. Desde jovem, demonstrou uma inquietação artística que a levou a estudar Pintura na Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões, em Pelotas, onde se graduou em 1967. Esse primeiro mergulho nas artes visuais não seria o único. Lenir seguiria expandindo sua formação com o bacharelado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 1975, especializando-se em História da Arte em 1980 e em Desenho em 1983, ambos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em 2003, sua trajetória acadêmica alcançou um novo patamar com o mestrado em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A obra de Lenir de Miranda sempre dialogou com referências literárias profundas, especialmente com o romance Ulisses, de James Joyce. Essa influência atravessou décadas de produção, manifestando-se em projetos emblemáticos como Projeto Ulisses e Passaporte de Ulisses, nos quais texto e imagem se entrelaçam para dar corpo a narrativas visuais carregadas de simbolismo. Seus trabalhos revelam uma capacidade rara de transformar migrações míticas em experiências contemporâneas, conectando histórias ancestrais aos deslocamentos da subjetividade moderna.
Transitando entre diversas linguagens – pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista –, Lenir construiu um repertório expressivo caracterizado pela experimentação formal e pela fusão de técnicas mistas. Utilizando materiais como colagens, assemblagens e papéis especiais, sua paleta de cores varia entre tons vibrantes e atmosferas mais densas, sempre em função dos conteúdos abordados. Na série Pintura Périplo, por exemplo, Lenir revisita o mito de Ulisses sob o prisma das migrações atuais, propondo uma reflexão poética e crítica sobre as jornadas humanas.
A trajetória da artista é marcada por uma presença constante em salões e premiações importantes. Recebeu distinções no Salão de Artes Plásticas de Pelotas (1972 e 1980), no 39º Salão Paranaense em Curitiba (1982) e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em Recife (1984), consolidando sua reputação como uma das vozes mais originais da arte contemporânea brasileira.
As obras de Lenir de Miranda integram acervos de instituições renomadas, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, o James Joyce Centre em Dublin e o State Darwin Museum em Moscou, evidenciando seu reconhecimento internacional. Com mais de 40 exposições individuais e mais de 120 participações em mostras coletivas, a artista construiu um percurso sólido, ancorado em pesquisa, sensibilidade e vigor criativo.
Ao longo de sua carreira, Lenir manteve-se fiel a uma investigação artística que resiste a categorizações simplistas. Sua obra é atravessada por tensões entre figuração e abstração, palavra e imagem, memória e presente, configurando uma poética visual que espelha as complexidades do ser humano em trânsito. Hoje, sua produção é considerada referência para as novas gerações que buscam expandir os limites da pintura e da palavra na arte contemporânea.
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Lenir de Miranda | Itaú Cultural
Lenir Garcia de Miranda (Pedro Osório RS 1945). Pintora e desenhista. Forma-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Críticas
"Lenir de Miranda é uma artista de grande talento. Ela se expressa numa linguagem profundamente pessoal e contemporânea. Lenir valoriza a nossa pintura" — Iberê Camargo (ARTE gaúcha contemporânea. Texto de Gaudêncio Fidelis. Porto Alegre: Casa de Cultura Mário Quintana, Instituto Estadual de Artes Visuais, 1991).
"Penso que é uma concepção muito interessante e, visualmente, um estimulante método de exploração dos trabalhos de Joyce. Eu admiro a pesquisa, o esforço artístico e a energia criativa que foi utilizada para a produção do Passaporte de Ulisses e é com imenso prazer que eu assino este Passaporte, representando o James Joyce Centre" — Robert Joyce (JOYCE, Robert. Passaporte de Ulisses. Dublin, 2002).
Acervos
Atelier Livre. Secretaria Municipal da Cultura - Porto Alegre RS
Centro de Cultura Inah Martensen - Rio Grande RS
Centro de Teledifusão Educativa - UFRGS - Porto Alegre RS
Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte
Fundação Vera Chaves Barcellos, Porto Alegre, RS
James Joyce Centre, Dublin, Irlanda
Museu da Gravura Brasileira, Bagé, RS
Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas, RS
Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Passo Fundo, RS
Museu do Estado de Pernambuco, Recife, PE
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ
Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, RS
Prefeitura Municipal de Piracicaba, SP
Secretaria de Estado da Cultura, Curitiba, PR
Secretaria Municipal de Pelotas, RS
SESC Pompéia, São Paulo, SP
University of New México, Estados Unidos
Exposições Individuais
1967 - Pelotas RS - Individual, na Galeria Crítica Nova da Escola de Belas-Artes de Pelotas
1983 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1983 - São Carlos SP - Individual, na UFSCar
1983 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1984 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1986 - Cuiabá MT - Individual, na Fundação Cultural do Mato Grosso
1986 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1987 - Rio Grande RS - Individual, no Espaço de Arte Oficina
1988 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1988 - Porto Alegre RS - Projeto Ulisses, no Margs
1989 - Edewecht (Alemanha) - Projeto Ulisses, no Micro Hall Art Center
1989 - Milão (Itália) - Projeto Ulisses, no Centro Lavoro Arte
1989 - Sunderland (Inglaterra) - Projeto Ulisses, na Gallery 2, Nardy Arts Foundation
1990 - Curitiba PR - Individual, na Fundação Cultural de Curitiba
1990 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1994 - Pelotas RS - Autobiografia de Todos Nós, no Museu Leopoldo Gotuzzo
2001 - Porto Alegre RS - Pintura, Texto, Livro de Artista, Joyceanamente, na Galeria Chaves
Exposições Coletivas
1972 - Pelotas RS - 1º Salão de Artes Plásticas - Terceiro Prêmio - pintura
1972 - São Paulo SP - Mostra de Arte Sesquicentenário da Independência e Brasil Plástica - 72, na Fundação Bienal
1980 - Pelotas RS - 4º Salão de Artes de Pelotas - menção honrosa
1982 - Curitiba PR - 39º. Salão Paranaense - Prêmio Assembléia Legislativa - desenho
1983 - Indianópolis (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Lafayette (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Porto Alegre RS - 15 Desenhistas Gaúchos, na Toque Final Casa de Arte
1983 - Porto Alegre RS - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Washington (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1984 - Fortaleza CE - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas
1984 - Goiânia GO - Salão Nacional de Artes Plásticas de Goiânia
1984 - Recife PE - 37º. Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Prêmio Aquisição - pintura
1984 - Rio de Janeiro RJ - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Campinas SP - 12º Salão de Arte Contemporânea de Campinas
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - Porto Alegre RS - Projeto Releitura, no Margs
1987 - Assunção (Paraguai) - 1ª Semana de Arte Brasileira, na Galeria do Centro de Estudos Brasileiros - artista convidada
1987 - Buenos Aires (Argentina) - 1º Salão Latino-Americano de Arte Sobre Papel
1987 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1989 - Havana (Cuba) - 3ª Bienal Internacional de Havana
1989 - Milão (Itália) - Rassegna Internazionale di Libri d´Artista, no Milan Art Center
1989 - Porto Alegre RS - Arte Sul 89, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
1989 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1990 - Porto Alegre RS - O Vermelho e o Negro, na Galeria Arte & Fato
1991 - Florianópolis SC - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFSC
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, na Casa de Cultura Mário Quintana
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Chico Lisboa Agora, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Dores e Cores, no Margs
1991 - Salvador BA - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFBA
1991 - São Paulo SP - Projeto: 100 anos de Paulista, na Casa das Rosas
1994 - Madrid (Espanha) - Artistas Iberoamericanos, na Iberoamericana Sala de Arte
1994 - Porto Alegre RS - Coletiva, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
1998 - Porto Alegre RS - Projeto Rio Grande da Arte, no Instituto Estadual de Artes Visuais
1998 - Caxias do Sul RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Passo Fundo RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Pelotas RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Rio Grande RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santa Maria RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santo Ângelo RS - Projeto Rio Grande da Arte
2000 - Porto Alegre RS - [bah]Zart Contemporâneo, na Galeria Chaves
Fonte: LENIR de Miranda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 25 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Lenir de Miranda | Site Oficial
Formação
2003 Mestrado em Poéticas Visuais. Instituto de Artes UFRGS. Porto Alegre, RS.
1994 International Seminar on Educational Systems in Israel. Kibbutz Chain. Israel Government.
1989 Artista e Professora Visitante / School of Art and Design, Sunderland Polytechnic, England.
1985 Especialização em Artes Plásticas, Teoria e Práxis. Pontifícia Universidade Católica do RS. Porto Alegre, RS.
1983 Especialização em Desenho. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas, RS.
1980 Especialização em História da Arte. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL.
1975 Graduação em Comunicação Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
1967 Graduação em Pintura. Escola de Belas Artes, Pelotas, RS.
Trabalha com pintura, desenho, imagens digitalizadas, vídeo, poemas, livros-de-artista, instalação. Vários prêmios de pintura e desenho, no Brasil. Exposições coletivas, individuais e obras em acervos públicos, no Brasil e exterior. Citações em bibliografias.
Resumo Exposições Individuais
2014 - Fragments of Land (painting, installation). State Darwin Museum, Moscow, Russia.
2012 - Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Terra Desolada (pinturas, fragmentos, instalação). Artista convidada. Porto Alegre, RS.
2011 - Centro Cultural Da Maya. Quem Vem Lá? Pinturas, livros, Passaporte de Ulisses. Bagé, RS.
2009 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS). Pinturas Meu Nome é Ninguém. Lançamento de livro homônimo. Porto Alegre, RS.
2008 - Instalação Fastfoods com Poemáticos Conturbados, vídeo, pintura. Museu de Arte de Joinville, SC. Galeria Breche. Pintura 20 anos, artista homenageada, Prefeitura Municipal de Rio Grande, RS.
2007 - Instalação Visão Pós-traumática do Déjeuner sur l´Herbe. Paço Municipal, Sec. Municipal de Cultura, Porto Alegre.
2004 - Passaporte de Ulisses e Uma Sobra de Guerra. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre e Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas.
2003 - Lançamento do Passaporte de Ulisses. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre - RS
2001 - Pinturas, livros, joyceanamente. Galeria Obra Aberta, Porto Alegre. Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Livros-de-artista, Passo Fundo, RS. Artista convidada para abertura Galeria Sete ao Cubo, Secret. Municipal de Cultura, Pelotas, RS. Livros-de-Artista.
1998 - MARGS, Porto Alegre. Lançamento livro Fim de Expediente (literatura/ artes visuais). Feira do Livro de Porto Alegre, Livraria Palmarinca, livro Fim de Expediente.
1994 - Solar dos Câmara, Diretoria de Cultura, Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Livros de Artista e lançamento do livro Autobiografia de Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS, Porto Alegre. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Pelotas, RS.
1990 - Galeria Arte & Fato. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Curitiba, desenhos. Curitiba, PR.
1988 - Projeto ULISSES. MARGS, Porto Alegre, RS. Gallery 2, Vardy Arts Foundation. Sunderland, Inglaterra. Centro Lavoro Arte. Milão, Itália. Micro Hall Art Center. Edewecht, Alemanha.
1987 - Espaço Oficina. Pinturas. Rio Grande, RS.
1986 - Galeria Arte & Fato. Pinturas. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Mato Grosso. Galeria de Arte Dalva de Barros. Pinturas. Cuiabá, MT.
1984 - Itaú Galeria, Desenhos. São Paulo, SP.
1983 - Desenhos série Sobre/vivências. Universidade Federal de São Carlos, SP. Itaú Galeria, São Carlos, SP. MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.
1982 - Espaço Livros & Artes. Desenhos. Porto Alegre, RS.
Resumo Exposições Coletivas / Premiações / Outros
2014 - O Cânone Podre. Museu de Arte do Rui Grande do Sul. Porto Alegre – RS.
2013 - Forapalavradentro. Espaço Cultural Campus II – Teatro FEEVALE. Novo Hamburgo - RS. A Medida do Gesto. Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Porto Alegre – RS. Lugares-Livros Exposição Feira 2013. Secretaria Municipal de Cultura. Pelotas – RS Oceans Project – Tania Kovats. Fruitmarket Gallery. Edinbugh, Scotland.
2012 - Fundação Vera Chaves Barcellos. Des / Estruturas. Sala dos Pomares. Viamão, RS. Assista Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O Museu Sensível. Porto Alegre, RS. 20 Anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - O Triunfo do Contemporâneo. MAC-RS e Santander Cultural. Porto Alegre, RS.
2011 - 8º Bienal do Mercosul. Além Fronteiras. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Porto Alegre, RS. Brasil. Fundação Vera Chaves Barcellos. Pintura - da matéria à representação. Viamão, RS. Museu de Arte Contemporânea. A Medida do Gesto. Porto Alegre, RS. Time/Bank. Stroom Den Haag. MASS MOCA – Massachusetts Museum of Contemporary Arts, EU. An exchange with Sol Lewitt. Fundação Vera Chaves Barcellos. Um Ponto de Ironia. Viamão, RS. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Labirintos da Iconografia. Porto Alegre, RS. Book Aguilar Branch of the New York Public Library. The Last Book (L. Camnitzer). NY, EU.
2010 - 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Terreiro Longe Daqui, Aqui Mesmo (curadoria Fábio Morais/Marilá Dardot. Livros de artista. São Paulo, SP. Pintura: da matéria à representação. Fundação Vera Chaves Barcellos. Viamão, RS. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Zentral Bibliothek, Zurich. Livros de Artistas. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, RJ.
2009 - NBP (R. Basbaum) 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre. Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro. Aluga-se. Galeria Subterrânea, Tempo Contaminado, Porto Alegre. MAC, Museum. Wien, Áustria. Colors Book-Fabrica. Galeria da Associação Cultural Brasil/E.U. Doce de Santo, Salvador, BA. Exposição Perspectivas do livro de artista. Seminário de Pós-Graduação da EBA/UFMG, Belo Horizonte, MG.
2008 - El Último Libro. Biblioteca Nacional de la República Argentina, Buenos Aires. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Appel Project, Florean Museum. Baia Mare, Romania. VazioOff Bienal Online (TomLisboa), Curitiba, PR. Feevale, Novo Hamburgo, RS. IX Congresso Internacional/Pesquisadores da Crítica Genética – palestra (O Cascudo na Bandeja), Universidade Fed. do Espírito Santo, Vitória. ArtLine, Pinturas, Kiev, Embassy of Ukraine.
2007 - Colóquio Internacional Mestiçagens na Arte Contemporânea: Fastfoods com Poemáticos Conturbados. MARGS - Porto Alegre, RS. Associações Livres - Ler é Acreditar. Curadoria Gaudêncio Fidelis. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre, RS. Documenta12 Magazine Online, Kassel, Alemanha. Vídeo: Post-Traumatic Vision of Déjeuner sur l´herbe (après Manet).
2006 - MEMEFEST 2006 International Festival of Radical Communication. Eslovênia, Canadá, Colômbia, Emirados Árabes, Brasil. XX Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
2004 - Bloomsday, 2004. Talismã Batatal. 3º lugar júri popular. Oficcina Multimedia, Fund. Educ. Artística. Belo Horizonte, MG. São Paulo 450 anos. SESC Pompéia, SP.
2002 - Ulysses´s Passport. XVIII Internat. James Joyce Symposium, Bloomsday. University of Trieste, Itália. Angústia de um Tomate e Trajetória Artística com a Nostalgia de Ulisses: palestra. Instit. de Letras e Artes. UFPEL, Pelotas. VII Biennial of Experimental Poetry, México City.
2001 - XV Festival de Arte Cidade de Porto Alegre. Secr. Municipal de Cultura.
2000 - Olhando Desenhos. MARGS, Porto Alegre, RS. Desenho e Novas Linguagens. MARGS, Porto Alegre, RS.
1999 - MAC, Mostra itinerante. Museu de Arte Contemporânea. Instituto Estadual de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1997 - Bloomscyberday 97. The Irish Times on the Web. Dublin, Irlanda. Folha de São Paulo, SP.
1994 - Sala de Arte Iberoamericana. Madri, Espanha. Nossos bosques têm mais vida? Museu de Arte do Rio Grande do Sul MARGS e Parceria Internacional de Museus.
1993 - Salão Latino-americano de Artes Plásticas, Santa Maria, RS.
1992 - 360 Graus de Pintura Agora. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre. Arte Contemporânea. Edel Trade Center, Instit. Est. de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1991 - Último Decênio Dores e Cores. MARGS, Porto Alegre, RS. Arte Gaúcha Contemporânea, Univ. Federal da Bahia, Salvador, BA.
1990 - RS sobre Papel, MARGS, Porto Alegre, RS. IV Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
1989 - III Bienal de Havana, Cuba. Rassegna Internazionale di Libri d`Artista, Milan Art Center. Milão, Itália. Conselheira (ad hoc) FAPERGS, Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1988 - Salão de Arte Contemporânea, Sto. André, SP. Projeto Ulisses/mail-art. MARGS, Porto Alegre, RS. Galeria Metropolitana de Artes, Recife, PE. .
1987 - Salão Latino-americano Arte sobre Papel. Buenos Aires, Argentina. Olhar Contemporâneo. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre, RS. Releituras 86. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre, RS.
1986 - Mostra do Desenho Brasileiro. Curitiba, PR.
1985 - Escrituras e Caligrafias. Funarte, Rio de Janeiro, RJ. Salão de Arte Contemporânea. Campinas, SP. 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Funarte. Rio de Janeiro, RJ.
1984 - Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, PE. Prêmio Aquisição Pintura. Salão de Arte Contemporânea. Prêmio Aquisição Pintura. Piracicaba, SP.
1983 - III Salão de Arte de Sta. Maria. Menção Honrosa Desenho. Santa Maria, RS. Arte sobre papel. Intercâmbio RS/Indianópolis, USA. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre e Indianópolis, Lafayette, Washington DC (USA).
1980 - IV Salão de Artes Plásticas, Pelotas, RS. Menção Honrosa Desenho. Salão Paranaense. Curitiba, PR. Prêmio Assembléia Legislativa - Desenho. I Salão de Arte Cidade de Novo Hamburgo, RS. Prêmio Aquisição Desenho. II Salão de Arte de Santa Maria, RS. Menção Honrosa Desenho. Ingresso na Univ. Federal Pelotas-UFPEL, ingressa como professora.
1972 - I Salão de Artes Plásticas de Pelotas. III Prêmio Pintura. Pelotas, RS. II Bienal Nacional de Artes Plásticas. São Paulo, SP.
Textos
Há algum tempo envolvido com livros, textos e edições muitas, cultivava e seguia disfarçando uma vontade de ver editado em Pelotas um trabalho que ousasse diferenciar o que tem acontecido, tanto na forma, como em conteúdo. Um livro de forma (quase) quadrada por que não? De conteúdo que muito bem poderia estar noutro meio de expressão cultural – por que não? – e a autoria fosse de alguém cuja postura, proposta e talento não se submetessem ao conforto de uma idéia e à vaidade de escrever um livro – por que não?… Já perceberam, então, porque estou com Lenir nesta sua obra: simplesmente por que Lenir e tudo a que está se propondo enquadra-se perfeitamente no que nos faltava. E se assim é, tê-la com o selo de nossa editora é como sentir os prazeres da Pasárgada, ou arriscar os extremos e as surpresas de uma Liliputh… Foi um caso de sintonia quase perfeita (e digo quase porque, se total, talvez não precisas se acontecer), já que tanto já sei e espero do que ela traz, que tenho certeza, Lenir, vocês, eu, nós, todos sairemos acrescidos. Lenir reinventa a experiência européia do livro-de-artista, e nestes primeiros produtos ela mesma se envolve, diagrama, imprime e supervisiona a encadernação, dando de si e de seu tempo, à procura do produto final. E Lenir, da idéia do LIVRO DE ARTISTA, torna-se a ARTISTA DO LIVRO, guardando a simetria de um livro, mas trazendo esta proposta nova/antiga (papiro/manuscritos) num momento em que estamos todos ávidos por algo de essência: a essência do artista na sensibilidade do fruidor.
ps: Sobre Lenir e o que ela admite, gosta, empreende, inquieta ou intui, ver neste livro na sequência das páginas. Muito de Lenir, pouco sobre Lenir.
A integração não tem a ver com a ilustração da escrita pela imagem, nem com a “explicação” da imagem pela escrita: elas andam juntas, correspondem-se sem se explicarem mutuamente, complementam-se sem se fundirem. Cada linguagem permanece íntegra nela mesma, num diálogo tenso com a outra; tenso, porque não se traduzem mutuamente; porque não se equivalem; porque seus elementos constitutivos são únicos e irredutíveis um ao outro. Segundo Foucault,
“ … a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.” (Foucault, 1992 , p.25).
Não há fusão entre texto e imagem, mas há “contaminação” de um pelo outro. Eles não se justapõem apenas, como em livros ilustrados tradicionais, mas se sobrepõem. A escrita é recoberta por manchas de tinta, ou por grafismos gestuais. O desenho possui, frequentemente, frases ou palavras soltas: nem títulos, nem explicações, mas elementos formais que interagem com as imagens:
“A imagem vai nascendo, e ela mesma exige respostas. Vou traçando e vou enxergando. A figura fica ali, me olhando, me desafiando. Ou eu acho o que ela quer, ou perco tudo.” (Miranda, 2000)
Perde tudo, ou se perde? A arte é como a esfinge: “decifra-me, ou te devoro.”
Lenir anseia pelas palavras como anseia pelas formas, cores, gestos que a pintura e o desenho permitem. Seu Ulisses é o herói narrado, sua trajetória, mas é também o mundo de paisagens, cenas, figuras que a própria narrativa desencadeia em sua imaginação. Assim, o oceano: que vai e vem, num retorno cíclico, tal como Ulisses. O círculo da vida, representado pelo fluxo da água, que, no seu ir e vir, nunca é a mesma. Do mesmo modo, o grafismo que a representa nunca é igual, pois o gesto sempre muda, de forma quase automática, inconsciente. A água é que conduz a mão, como as ondas conduzem Ulisses. O Ulisses de Lenir é seu Ulisses, que só existe na totalidade da palavra com a imagem. De suas palavras com suas imagens. É sem dúvida por isso (sendo a arte, sempre, uma forma de auto-retrato), que, neste último livro, Lenir substituiu o Ulisses-Leopold Bloom de James Joyce por Agnes Bloom. O outro lado do mito, sua face escura. O feminino, identitário e marginal simultaneamente. Dual: mito e anti-mítico, herói e anti-heróico. Aquele que se desloca aleatoriamente, mas não cumpre uma trajetória circular. Aquele que espera: é sempre o feminino que espera, que conta o tempo (o que passou, o que virá, o que falta passar). Aquele que se ocupa dos pequenos fatos do cotidiano. Aquele que exerce a repetição, essa sim, efetiva, das incontornáveis tarefas do dia a dia.
O CORPO-ESCRITA, O CORPO ESCRITO
A escrita sempre forma um corpo. Conjunto de signos que imprimem sobre o suporte uma tessitura, como uma tapeçaria. A mão que escreve, e o olho que lê executam um movimento regular, linear, rítmico, como tecendo e retecendo um corpo feito de tramas.
No caso deste livro, esse corpo é irregular: variam os espaçamentos, os tipos dos caracteres, seu tamanho; às vezes, a escrita manual rompe a regularidade das letras impressas e introduz o tocante tremor do corpo que cria, o corpo da artista.
Rasuras, vazios, notas à margem, sublinhas também constituem esse corpo textual, negando sua vocação à uniformidade e evidenciando-o como um organismo vivo: com suas cicatrizes, imperfeições, irregularidades. Ele reconstitui a gênese dos mitos: a narrativa oral, com seus ritmos irregulares, suas ênfases, suas pausas. E a presença indispensável do corpo que narra. A narrativa de Lenir, mesmo quando impressa em caracteres mecânicos, cria um ritmo que evoca os grafismos de seus desenhos: rapidez, urgência, a necessidade de registrar à medida que a idéia “sai” de sua mente e escorre para a mão.
Ele traduz, assim, com mais força, o corpo escrito, de Agnes. Exposto com seus cansaços, seus fluídos e fluxos, sua pele e pêlos. Desvelado com seus sentimentos, reflexões e observações. Desvendado, sobretudo, por seu olhar.
Esse corpo olha os dos outros e é por eles olhado. Vê-se refletido no espelho de um outro passageiro do ônibus, bem como nos vidros embaçados das janelas. Encontra-se projetado do corpo da artista e rebate em nossos próprios corpos, nós leitores – espectadores – voyeurs. Todos somos Agnes, todos somos Ulisses. A névoa de Ítaca nos invade a todos.
Agnes está nas quinas dos muros, bem como nas ondulações das águas. A cela e o mar representam, para Lenir, duas simbolizações antagônicas do corpo, encerrado e livre simultaneamente. O corpo está, pois, presente (embora, não figurado) nos desenhos desses lugares”.
Agnes, secretamente, transborda.
Como Lenir. Como todos nós, que sempre tentamos ir para muito mais além dos limites de nossos corpos: através dos mitos, ou do imaginário, ou da arte — Icleia Cattani (CATTANI, Icleia. A Escrita Pintada, A Pintura Escrita. Catálogo da Exposição Pintura Livro Joyceanamente. Galeria Obra Aberta : Porto Alegre, 2001).
"Sobre isso, e fomentando os debates, que são o centro do próximo capítulo, o artista plástico, curador independente e professor do Instituto de Artes da UFRGS, Paulo Gomes, indica que esta limitação do edital parece “bairrista”, excluindo boas exposições da possibilidade de serem agraciadas com o Prêmio.
[…] Tem um critério de bairrismo no Prêmio que eu acho lamentável; por exemplo, artistas que não moram em Porto Alegre, mas que são do Rio Grande do Sul, não concorrem a prêmios, o que eu acho, de uma certa maneira, injusto. A gente não pode colocar Porto Alegre como um centro, mas como é um Prêmio do município, a justificativa é que é um prêmio do município, então até aí eu aceito. Só que houve duas exposições este ano [referindo-se a 2009] que foram excepcionais e que não concorreram ao Prêmio: a exposição da Nara Amélia, de gravura, lá na Usina do Gasômetro, e a exposição de pintura da Lenir de Miranda, que é de Pelotas, no MARGS. Elas não concorreram ao prêmio, o que eu acho injustiça. A Lenir fez a melhor exposição de pintura nos últimos dez anos em Porto Alegre. Então, são os problemas dos limites municipais do Prêmio.
Acerca do exemplo levantado por Gomes, vale comentar que, na noite de premiação do quarto Açorianos, no dia 8 de maio de 2010, a artista plástica Maria Tomaselli, agraciada com o Destaque de Melhor Exposição Individual pela mostra Magia da Semelhança, junto ao Margs Ado Malagoli, também se manifestou, sugerindo, na sua breve fala, uma certa “injustiça”, pelo fato de que nem Lenir de Miranda, nem Heloisa Schneiders (exposição póstuma também no Margs), haviam sido indicadas na categoria Pintura (as três artistas haviam exposto no Margs no mesmo período, entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010). Tomaselli provavelmente se manifestou dessa forma, inclusive, por desconhecer o edital; o fato é que a maioria dos artistas, agraciados ou não, ignoram as “normas” do Açorianos, bem como os critérios dos membros do júri.” — Yasmine Mazzoni (Monografia. Instituto de Artes -UFRGS. Porto Alegre, 2009).
O Contexto dos Livros de Lenir de Miranda
O texto que tem acompanhado as artes visuais no século XX, por sua presença ou pelo enaltecimento de sua ausência, é uma entidade ambígua, uma ferramenta pouco ergonômica. Ele faz a apologia do artista, ele o acossa, julga o produto artístico, busca uma distância crítica… Também pode fazer parte da obra… ou não. Caso se proponha uma situação primeira, onde a escrita legitima a arte (ou faz seu comentário escrito), imediatamente se imporia uma segunda situação, em que o artista visual se apropriaria do texto (descritivo e narrativo). O inter-relacionamento dessas situações deverá gerar uma terceira, onde será a obra que perverterá a escrita. E cada vez mais o artista avançará até o epílogo adivinhado: a quarta situação, a escrita expulsa de seu próprio suporte. E, enfim, o que se tem é o volume. Em que região entre esses quatro vértices estamos nós, que temos as páginas de Lenir de Miranda nas mãos? E elas mesmas, as páginas de Lenir, onde estão?
Existem ocasiões em que é prudente reduzir o espaço gasto com palavras. Vou omitir as perguntas e deixar que as dúvidas enfeitem minhas convicções. Porque hoje existem tessituras mais ricas entre os mundos da estética literária e da plástica, queiram ou não os escrevinhadores. As inteligências que constroem a teorização do objeto artístico do agora são mais amadurecidas. São maiores e mais conscientes que suas antecessoras. O envolvimento é mais comprometido. Por outro lado, esse espaço disponível à reflexão
textual às vezes deixa a mostra certa escrita gratuita, apressada pela ansiedade. Talvez porque a palavra que julgava e interpretava a arte agora é sua refeição diária, comum, degustada em círculos maiores. [….]
No Brasil, o livro de artista estrito (um produto diferente do livro-objeto, ainda que ambos pertençam à grande categoria do livro de artista) teve e ainda tem pouca divulgação. E o livro-objeto, por sua vez, sofre da pequena atenção recebida dos próprios artistas. É nesse contexto semi-árido que os trabalhos de Lenir de Miranda se multiplicam, indiferentes ao desamparo crítico que isola os fazedores de livros. A maior parte da produção da artista é de livros-objetos em exemplares únicos, produzidos a partir de meados dos anos 90, ainda no refluxo da arte matérica.
Apresentam-se como obras quase inteiramente plásticas. Têm normalmente a materialidade e a sensualidade como características dominantes, com a presença eloqüente de uma ampla gama de pigmentos e substâncias (com destaque para a cera de abelha e a laca), mesclando, manchando ou revestindo materiais como o pano, a lixa ou a madeira. Mas neles o texto não é integralmente ausente. Aqui e ali aparecem frases esparsas, às vezes parágrafos inteiros, associados direta ou indiretamente às construções literárias de James Joyce (Ulisses). Também podem ser encontradas outras anotações ou anexações físicas, como tíquetes, rótulos ou outros impressos, além de objetos diversos, como dados de jogar, arames, interruptores elétricos, enfim tudo que se puder imaginar. Os livros, aqui, são sobretudo coisas. Seus títulos são por vezes mais ou menos objetivos, citando suas características (Livro da pintura ou Livro com funil de Buchner e decantação); outras vezes são subjetivos, embora proponham a sua função (Livro para ligar ou Livro para Beuys ver); ou são francamente ambíguos (Livro com todas as páginas oceânicas ou Livro induzido). Todos menos um são peças únicas.
Autobiografia de todos nós foi produzido para acompanhar a exposição homônima de livros-objetos únicos em 1994, dentre eles alguns dos já citados. Poderia ser originalmente um catálogo. Mas por permanecer vivo independente da exposição ele se recusa como tal. E essa recusa é sua mais interessante característica. Ele se impõe como livro de artista stricto sensu, múltiplo e satisfeito com sua condição simultânea de obra gráfica e plástica. A totalidade (a proposição) de sua tiragem é, também, coisa. Essa é uma dimensão exclusiva do mundo industrial, aqui subvertida ao propósito artístico. Ou seja, ter uma tiragem é um propósito estético. A relativização do industrial fica estabelecida pela inclusão em cada exemplar de fragmentos de tecido pigmentado e/ou tratado com cera. Essa indefinição entre o único e o múltiplo retornaria na primeira versão de Fim de Expediente, 1998, onde o texto permaneceria essencialmente imutável em doze exemplares, individualizados por colagens, montagens e pátinas matéricas. Paradoxalmente ou não (para quem visa ao livro semi-industrial) a mão plástica continuava sendo dominadora, muito mais eloqüente que a intenção multiplicadora. Isso se confirmaria pelos exemplares adicionais realizados depois, persistentemente híbridos.
Mal acomodada na sua tensa mas zombeteira insatisfação fim-de-século, Lenir tenta agora uma nova e mais definitiva inserção no mundo plural, deixando o singular no âmbito do ateliê. Talvez intromissão, melhor dizendo, já que prescinde de convite. O trabalho resultante agora é gráfico e industrial, não mais obra única. No seu projeto mais recente ela junta num só volume dois exercícios originalmente avulsos: uma nova versão de Fim de expediente com o inédito A Sinalização. Ambos são produtos da interação entre imagem, texto em prosa e palavra impressa. No primeiro caso o texto é abundante, enquanto no segundo ele é mais escasso, por vezes apenas indicial. Anexado ao conjunto, está um livreto com artigos suplementares, entre eles este que o leitor tem em mãos (ao meu ver intromissões dispensáveis, ainda que possam ter alguma utilidade num ou noutro ponto; de minha parte, eu peço desculpas). A artista quer um público maior, muito maior… e uma arte mais acessível. Com o auxílio do computador, que alternadamente a seduz e irrita, ela digitaliza o que era na sua origem objetivamente real e manipulável. Levada à condição de ser agora apenas uma etapa de um processo mais complexo, a superfície pictórica matriz, com panos, pigmentos e colagens, se submete ao achatamento inerente à página gráfica, unidade plana multiplicada pelos rolos de impressão. Como afirmação da bidimensionalidade, a imagem resultante correria o risco de ser apenas ilustração, o que infere uma relação hierárquica da página, principalmente quando acompanhada de um bloco de texto. Lenir não permite que isso aconteça, ao menos até a fase de impressão doméstica artesanal com impressora a jato de tinta (sabemos que uma imagem pode sofrer sérias alterações na passagem de um processo de provas para sua impressão final em offset). As cores obtidas nos seus primeiros protótipos são vívidas, recriando as texturas originais. Não acontece aqui uma emulação pela emulação, porque o recurso à mídia é um propósito. A consciência da multiplicação é patente, mesmo que seja buscada a fidelidade de reprodução. Neste aspecto, quase que se pode sentir a textura graxa da parafina utilizada na composição original. O plano é, por isso, mais que afirmado, sublinhado. A página é página mesmo, despretensiosa e amiga de quem a manuseia, mas impõe-nos o poder de citação das tintas que as tocaram. A letra impressa é macerada nas manchas de cor (originalmente laca, em muitos casos). Quase morre afogada. As colunas de texto ou são imagens muito pobres para sobrepujarem o estilo tenso do traço de Lenir, ou são feridas até quase a morte por traços, nódoas e as próprias marcas de sua colagem.
Reitero o afirmado acima. A qualidade tátil da imagem impressa é resultado do profundo desejo de que o público compreenda a origem plástica do projeto. A imagem se torna presente em três estados. Ela existe da origem plástica, matérica, com textura e cheiro, um evento da percepção imediata. Ou seja, a imagem e sua coisa. Ela é, então, digitalizada, passando por uma existência virtual, despregada do objeto. Importante acrescentar que Lenir usa a própria matriz no digitalizador, sem a intermediação da câmera fotográfica: o vidro do scanner toca por nós a epiderme original. A imagem só existirá se for seguida uma série de procedimentos de uso do equipamento. Será reconstruída no monitor ou em sua impressora, aditiva ou subtrativamente. E estará apta a ser traduzida para o fotolito de artes gráficas, podendo antes disso sofrer alguns retoques e pequenas alterações. Finalmente impressa, ela ressurgirá exponencialmente em seu terceiro estado, como estampa, estando o livro aberto aos nossos olhos ou fechado em algum canto. Mas multiplicado em cem ou em mil, mesmo que seja praticamente impossível reproduzir toda a tessitura do apelo tátil e visual característico na obra de Lenir.
Mas a artista quer chegar aos nossos olhos (e às nossas mãos). Restaria como possibilidade uma tradução? Melhor seria chamar de versão. A artista quer e parte em nossa direção a partir de suas próprias ferramentas. A obra é outra, com identidade própria, mas sem perder seu espírito. Alma e corpo não podem estar separados, não importa suas falências, porque juntos precisam sobrepujar suas próprias razões, a consciência de sua possível comunhão quase eterna.
O livro de Lenir é a reconstrução de seus muitos espelhos. Porém é mais estratificado, com muitas camadas de espectros, como se fossem tomografias de um espaço comum ao seu universo pessoal e ao nosso mundo cultural. Ele é o duplo que com as apreensões da artista dividiu a gênese e que conosco agora troca olhares, emitindo seus afetos em nossa direção. É a imagem que pelo processo pode ser distendida e reelaborada, pode ser prolixa, reiterativa. Insiste (suplica) pela nossa atenção. Ela quer ser um agora, sim, físico e antropológico, mas também quer metaforizar muitos extratos do tempo. Quer (precisa) a nossa companhia. De todos nós. E que sejamos muitos. Mas certamente seu livro não traz a mera confidência, e sim a cooptação íntima. Lenir nos quer ao seu lado, dentro de seus mares perspectivados, por vezes inutilmente contidos por linhas escuras, em vão decididas em delimitar compartimentos vitais […]
Cindida entre a memória viva do Canal de São Gonçalo e a memória emprestada dos canais de Dublin. Quantos mares entre eles! Para pictografá-los, Lenir escolheu uma mídia que por si só já é mal entendida, mas que gosta e se orgulha dessa situação torta. O lugar artístico do livro de artista é o lugar das margens de um universo de duplos ora em cisão, ora em comunhão. Dois como par ou como a soma dos ímpares. Onde se pode perguntar se a função é mesmo pervertida nos objetos híbridos e se a dúvida não seria a melhor e a mais desejável das respostas.
(fragmento do livro-texto de A Sinalização – edição de Lenir de Miranda)
[…] Lenir de Miranda, primeiramente desenhista e pintora, ela parece ter sido uma das mais prolíferas produtoras de livros de artista do sul do país nos anos 90. […]
A cumplicidade inevitável entre o homem e o livro seria uma armadilha? E ao que é da psique deve ser permitido o toque? […] talvez vislumbremos aí a alma metafísica dos livros de Lenir de Miranda.
(fragmento do livro A Página Violada)
Porto Alegre, 2000
Fonte: Lenir de Miranda Site Oficial. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Sobre Lenir de Miranda | MAC RS
Pintora e desenhista. Lenir Garcia de Miranda formou-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Fonte: MAC RS. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Entrevista Lenir de Miranda |
1. Por que você escolheu, num momento específico de sua vida artística, o livro de artista?
Não lembro qual foi o primeiro livro que fiz. Mas em 1994 fiz um grande livro para a exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Nossos bosques têm mais vida?, dentro do Programa Parceria Internacional de Museus, evocando a consciência ecológica. Neste livro (80x60x17cm) está escrito o poema de Gonçalves Dias que dá nome à exposição, tendo além das pinturas e grafias um visor mágico com fragmento de planta. Chamou-se Livro do exílio e da nostalgia. O que motivou foi a vontade de experienciar algo mais íntimo que a simples pintura bidimensional. Também a possibilidade de exploração manual, uma viagem, a criação do tempo na obra. Isso era o passar de páginas num livro de artista.
Vale acrescentar a informação de que trabalhei com artes gráficas, planejamento visual e supervisão gráfica, que é uma experiência apaixonante ver o surgimento do material impresso (por uns dezesseis anos). Transpus, também, essa experiência para uma forma estética, com vida própria, em seu espaço sígnico, de início utilizando mais a pintura, o desenho, colagem de objetos aparentemente desconexos, embora se saiba que sempre existem os nexos secretos.
2. O período de tempo em que você se dedicou ao livro de artista está encerrado?
Não. Estou totalmente envolvida com livro de artista neste momento. Nesta cultura cada vez mais saturada pelos meios eletrônicos de comunicação instantânea o livro de artista é o objeto paradoxo que convida o homem a uma pausa diante de si mesmo ao convidá-lo a penetrar na sua trama íntima (guiado pelo fio de Ariadne?).
3. Que artistas influenciaram o seu trabalho?
M. Duchamp ensinou-me que a obra se dá como forma de conhecimento, uma gnose, um procedimento ético.
J. Beuys que dizia que toda obra de arte intenta demonstrar ao homem sua própria imagem (por isso falo em autobiografia de todos nós como título de meu livro sobre os meus vinte livros de artista). Rauschemberg, com suas assemblagens, unindo a arte à vida. Anselm Kiefer. Iberê Camargo, quando estudava pintura em Pelotas. Sempre fui uma expressionista.
4. Qual o papel de James Joyce nas suas obras?
Se fores na Biblioteca da Faculdade de Direito de Pelotas, encontrarás livros de literatura internacional cujas fichas contêm minha assinatura desde 1967. Naquela época eu conheci J. Joyce. Ulysses. Era a forma de literatura que eu queria descobrir, intrigante, que me fazia criar uma infinidade de coisas em minha mente. Era uma literatura que extrapolava os limites da realidade banal das historinhas. Kafka, Eliot e alguns malditos marcavam encontro comigo mas Joyce predominava. Ele proporcionava uma experiência interativa única, ao “fluxo da consciência”, que me levava a completar a obra com imagens que nem saberia afirmar de onde vinham, elas aconteciam subconscientemente. Isso era Ulysses para mim, que trabalhava com a visualidade, algo poderoso em comunicar vivências míticas dentro de mim numa pluralidade de outras vivências sobrepostas, cotidianas, da minha realidade contemporânea.
A transposição da linguagem verbal para a plástica se faz através da sobreposição, da mescla de técnicas, conjugação de vários elementos como desenho, pintura, colagem, ao fluir das exigências da plasticidade em formação ou de uma ideia, um conceito em desenvolvimento.
5. O conjunto de vinte livros da sua exposição de 1994 em Porto Alegre foi elaborado a partir de um projeto ou método?
Cada livro ia surgindo a partir das suas exigências íntimas, próprias de um ou de vários dos componentes iniciais que ditavam suas solicitações plásticas. Cabia a mim descobrir qual a reposta mais adequada diante da forma do livro que se revelava. Parafraseando F. Bacon, que disse que a pintura exige do artista a sua solução.
Assim, no livro, o tempo e o espaço justapostos e sobrepostos vão criando infinidades de outras realidades, que irão acenar à participação do “leitor” ao qual ele será entregue. O que determinou a criação destes vinte livros foram suas relações sintáticas, ocorridas em cada livro individualmente, elementos significantes inseridos com outros elementos, formando um código rico de ambiguidades.
6. Por que você optou por peças únicas?
Seu mistério não deverá ser duplicável, nem sua solidão, assim vejo o livro de artista como peça única, algo muito original.
7. Componentes físicos do desenho, da pintura e da escultura, com presença do objeto encontrado, são a marca de seu trabalho. Por que a forma impressa tem presença quase nula?
Nestes primeiros trabalhos, embora a forma verbal possa reforçar as ideias contidas no livro, achei que no momento não eram essenciais aos significados expressos por estar mais ansiosa pelo desenho, pintura e colagens.
8. Como você se definiria formalmente?
Sempre fui uma expressionista, mesmo desde quando nem sabia o que isto representava.
9. Como foi a recepção de seus livros pelo público? [A entrevistada prefere que a resposta a esta pergunta não seja divulgada. Ela relata as dificuldades encontradas nas suas exposições, criticando alguns órgãos ou pessoas envolvidos.]
10. Que diferença você apontaria entre as possibilidades do livro de artista e outros meios tradicionais?
O livro de artista é um objeto ainda estranho, que não se coloca na parede como uma pintura ou desenho. Fica distante, por vezes, como que à espreita, do observador desacostumado com uma obra mais reflexiva, embora se ofereça cheio de possibilidades no espaço tridimensional. Em suas formas interdisciplinares, técnicas variadas, sintaxes inesperadas, mensagens engajadas social, politicamente ou apenas poesia em si mesma, reflexivo, ele deverá se impor cada vez mais.
11. Você gostaria de fazer algum outro esclarecimento?
O livro de artista está envolto na névoa, com algum passado possuindo um elo conosco, como Ithaca avistada ao longe, envolta em névoa, enquanto Ulysses retornava.
Após é necessário vergar o arco de Ulysses, para reconquistar seu território de vestígios misteriosos, completar a face do mito que nos é ofertado e que somente cada um dos espectadores tem a possibilidade de fazer, tudo isto, atualmente, do outro lado da fria e sintética mente eletrônica.
Se me perguntas o que contém cada imagem, já não poderei dizer com precisão, pois elas foram depositadas imagens sobre imagens, signos após signos, algo que foi se perdendo na névoa, mas que é sempre procurado, oculto que está em tantas memórias, imaginários, um desencadeamento sígnico infinito, uma semiose. Eis como surge a linguagem artística, expressa também nos livros de artista.
Assim, voltar ao antigo gesto de volver uma página, descortinar a névoa da memória, envolvendo-se no tato e no tempo proporcionado pelos mais variados elementos, como objetos anexos, desenhos, pinturas, complexas estruturas formais, envolvendo a disposição e o fluxo das páginas dentro da forma de livro, cujo conteúdo foge a objetivas informações. Geralmente um signo em si mesmo, quando se refere apenas às suas questões poéticas.
Mesmo engajado em questões sociais políticas, é um signo, uma obra de arte, que atinge o imaginário do espectador. Ele abre um fluxo subconsciente, uma viagem não proporcionada por meios eletrônicos.
Qual o significado de cada página? Que realidade encerra-se na passagem do tempo de contato como signo exposto no corpo da matéria? Direi que cada livro tem seus mistérios de longas peregrinações, “...após incalculáveis éons de peregrinações, retornaria...” (Ulysses/lthaca-Joyce). Memórias depositadas sob densas neblinas, página após página, acenam ao retomo de cada um de nós, até fluírem com nossas vidas mais cotidianas, mescladas em vivências sobrepostas (técnicas acopladas), linguagem joyceana.
Em cada livro de artista, signo após signo nos fazem estes passageiros, nas justaposições de elementos aparentemente desconexos, desenhos de conotações míticas, emblemático, com objetos banais tais como um coador de cozinha. E assim vai este relato subconsciente em forma de livro de artista. Realmente um desafio ao imaginário acomodado em universos do microchip. O livro de artista é este espantoso encontro entre duas sensibilidades que se cruzam, imediatamente vinculadas, descobrindo-se mutuamente: a do artista e do destinatário, caminhante apressado.
Todavia, aqui não pode-se deixar de falar do paradoxo que se apresenta: ao lado da linguagem cibernética vamos no sentido inverso, no descobrimento desta memória primitiva, um signo precário colocado ao alcance do antigo manuseio. Interferir manual e mentalmente no silencioso objeto ancestral e à espreita, como um objeto soterrado e inacabado, domínio inconsciente à espera do viajante explorador.
Como disse Joyce: todo livro tem seus mistérios.
Não sabemos qual o desfecho deste paradoxo: do universo virtual ao universo tátil do livro de artista sua histórica, seus códigos ancestrais.
Fonte: Issue, publicada originalmente em “A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista”, publicada em dezembro de 1997. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Acervo UFRGS. Consultado pela última vez em 28 de abril de 2025.
Lenir Garcia de Miranda (1945, Pedro Osório, Brasil), mais conhecida como Lenir de Miranda, é uma artista visual brasileira. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões (1967), Lenir expandiu seus estudos com bacharelado em Comunicação Social (PUCRS, 1975), especializações em História da Arte (1980) e em Desenho (1983) pela UFPel, além de concluir o mestrado em Poéticas Visuais na UFRGS em 2003. Contemporânea e conceitual, Lenir de Miranda desenvolve suas obras combinando imagem e palavra em obras experimentais, sensíveis e profundamente narrativas. Sua produção transita entre livros de artista, instalações, desenhos e vídeos, sempre explorando a materialidade do texto e da imagem. Trabalha com técnicas como pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista, utilizando paletas variadas e materiais experimentais. Recebeu prêmios em importantes salões nacionais, como o Salão Paranaense (1982) e o Salão de Pernambuco (1984). Suas obras fazem parte de acervos de museus como o MARGS (RS), o Museu Nacional de Belas Artes (RJ), o James Joyce Centre (Dublin) e o State Darwin Museum (Moscou), consolidando seu nome na arte contemporânea brasileira.
Lenir de Miranda | Arremate Arte
Nascida em 1945 na cidade de Pedro Osório, no Rio Grande do Sul, Lenir Garcia de Miranda cresceu em meio a paisagens que mais tarde ecoariam nos deslocamentos simbólicos de sua obra. Desde jovem, demonstrou uma inquietação artística que a levou a estudar Pintura na Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões, em Pelotas, onde se graduou em 1967. Esse primeiro mergulho nas artes visuais não seria o único. Lenir seguiria expandindo sua formação com o bacharelado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 1975, especializando-se em História da Arte em 1980 e em Desenho em 1983, ambos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em 2003, sua trajetória acadêmica alcançou um novo patamar com o mestrado em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A obra de Lenir de Miranda sempre dialogou com referências literárias profundas, especialmente com o romance Ulisses, de James Joyce. Essa influência atravessou décadas de produção, manifestando-se em projetos emblemáticos como Projeto Ulisses e Passaporte de Ulisses, nos quais texto e imagem se entrelaçam para dar corpo a narrativas visuais carregadas de simbolismo. Seus trabalhos revelam uma capacidade rara de transformar migrações míticas em experiências contemporâneas, conectando histórias ancestrais aos deslocamentos da subjetividade moderna.
Transitando entre diversas linguagens – pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista –, Lenir construiu um repertório expressivo caracterizado pela experimentação formal e pela fusão de técnicas mistas. Utilizando materiais como colagens, assemblagens e papéis especiais, sua paleta de cores varia entre tons vibrantes e atmosferas mais densas, sempre em função dos conteúdos abordados. Na série Pintura Périplo, por exemplo, Lenir revisita o mito de Ulisses sob o prisma das migrações atuais, propondo uma reflexão poética e crítica sobre as jornadas humanas.
A trajetória da artista é marcada por uma presença constante em salões e premiações importantes. Recebeu distinções no Salão de Artes Plásticas de Pelotas (1972 e 1980), no 39º Salão Paranaense em Curitiba (1982) e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em Recife (1984), consolidando sua reputação como uma das vozes mais originais da arte contemporânea brasileira.
As obras de Lenir de Miranda integram acervos de instituições renomadas, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, o James Joyce Centre em Dublin e o State Darwin Museum em Moscou, evidenciando seu reconhecimento internacional. Com mais de 40 exposições individuais e mais de 120 participações em mostras coletivas, a artista construiu um percurso sólido, ancorado em pesquisa, sensibilidade e vigor criativo.
Ao longo de sua carreira, Lenir manteve-se fiel a uma investigação artística que resiste a categorizações simplistas. Sua obra é atravessada por tensões entre figuração e abstração, palavra e imagem, memória e presente, configurando uma poética visual que espelha as complexidades do ser humano em trânsito. Hoje, sua produção é considerada referência para as novas gerações que buscam expandir os limites da pintura e da palavra na arte contemporânea.
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Lenir de Miranda | Itaú Cultural
Lenir Garcia de Miranda (Pedro Osório RS 1945). Pintora e desenhista. Forma-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Críticas
"Lenir de Miranda é uma artista de grande talento. Ela se expressa numa linguagem profundamente pessoal e contemporânea. Lenir valoriza a nossa pintura" — Iberê Camargo (ARTE gaúcha contemporânea. Texto de Gaudêncio Fidelis. Porto Alegre: Casa de Cultura Mário Quintana, Instituto Estadual de Artes Visuais, 1991).
"Penso que é uma concepção muito interessante e, visualmente, um estimulante método de exploração dos trabalhos de Joyce. Eu admiro a pesquisa, o esforço artístico e a energia criativa que foi utilizada para a produção do Passaporte de Ulisses e é com imenso prazer que eu assino este Passaporte, representando o James Joyce Centre" — Robert Joyce (JOYCE, Robert. Passaporte de Ulisses. Dublin, 2002).
Acervos
Atelier Livre. Secretaria Municipal da Cultura - Porto Alegre RS
Centro de Cultura Inah Martensen - Rio Grande RS
Centro de Teledifusão Educativa - UFRGS - Porto Alegre RS
Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte
Fundação Vera Chaves Barcellos, Porto Alegre, RS
James Joyce Centre, Dublin, Irlanda
Museu da Gravura Brasileira, Bagé, RS
Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas, RS
Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Passo Fundo, RS
Museu do Estado de Pernambuco, Recife, PE
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ
Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, RS
Prefeitura Municipal de Piracicaba, SP
Secretaria de Estado da Cultura, Curitiba, PR
Secretaria Municipal de Pelotas, RS
SESC Pompéia, São Paulo, SP
University of New México, Estados Unidos
Exposições Individuais
1967 - Pelotas RS - Individual, na Galeria Crítica Nova da Escola de Belas-Artes de Pelotas
1983 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1983 - São Carlos SP - Individual, na UFSCar
1983 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1984 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1986 - Cuiabá MT - Individual, na Fundação Cultural do Mato Grosso
1986 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1987 - Rio Grande RS - Individual, no Espaço de Arte Oficina
1988 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1988 - Porto Alegre RS - Projeto Ulisses, no Margs
1989 - Edewecht (Alemanha) - Projeto Ulisses, no Micro Hall Art Center
1989 - Milão (Itália) - Projeto Ulisses, no Centro Lavoro Arte
1989 - Sunderland (Inglaterra) - Projeto Ulisses, na Gallery 2, Nardy Arts Foundation
1990 - Curitiba PR - Individual, na Fundação Cultural de Curitiba
1990 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1994 - Pelotas RS - Autobiografia de Todos Nós, no Museu Leopoldo Gotuzzo
2001 - Porto Alegre RS - Pintura, Texto, Livro de Artista, Joyceanamente, na Galeria Chaves
Exposições Coletivas
1972 - Pelotas RS - 1º Salão de Artes Plásticas - Terceiro Prêmio - pintura
1972 - São Paulo SP - Mostra de Arte Sesquicentenário da Independência e Brasil Plástica - 72, na Fundação Bienal
1980 - Pelotas RS - 4º Salão de Artes de Pelotas - menção honrosa
1982 - Curitiba PR - 39º. Salão Paranaense - Prêmio Assembléia Legislativa - desenho
1983 - Indianópolis (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Lafayette (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Porto Alegre RS - 15 Desenhistas Gaúchos, na Toque Final Casa de Arte
1983 - Porto Alegre RS - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Washington (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1984 - Fortaleza CE - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas
1984 - Goiânia GO - Salão Nacional de Artes Plásticas de Goiânia
1984 - Recife PE - 37º. Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Prêmio Aquisição - pintura
1984 - Rio de Janeiro RJ - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Campinas SP - 12º Salão de Arte Contemporânea de Campinas
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - Porto Alegre RS - Projeto Releitura, no Margs
1987 - Assunção (Paraguai) - 1ª Semana de Arte Brasileira, na Galeria do Centro de Estudos Brasileiros - artista convidada
1987 - Buenos Aires (Argentina) - 1º Salão Latino-Americano de Arte Sobre Papel
1987 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1989 - Havana (Cuba) - 3ª Bienal Internacional de Havana
1989 - Milão (Itália) - Rassegna Internazionale di Libri d´Artista, no Milan Art Center
1989 - Porto Alegre RS - Arte Sul 89, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
1989 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1990 - Porto Alegre RS - O Vermelho e o Negro, na Galeria Arte & Fato
1991 - Florianópolis SC - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFSC
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, na Casa de Cultura Mário Quintana
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Chico Lisboa Agora, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Dores e Cores, no Margs
1991 - Salvador BA - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFBA
1991 - São Paulo SP - Projeto: 100 anos de Paulista, na Casa das Rosas
1994 - Madrid (Espanha) - Artistas Iberoamericanos, na Iberoamericana Sala de Arte
1994 - Porto Alegre RS - Coletiva, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
1998 - Porto Alegre RS - Projeto Rio Grande da Arte, no Instituto Estadual de Artes Visuais
1998 - Caxias do Sul RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Passo Fundo RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Pelotas RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Rio Grande RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santa Maria RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santo Ângelo RS - Projeto Rio Grande da Arte
2000 - Porto Alegre RS - [bah]Zart Contemporâneo, na Galeria Chaves
Fonte: LENIR de Miranda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 25 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Lenir de Miranda | Site Oficial
Formação
2003 Mestrado em Poéticas Visuais. Instituto de Artes UFRGS. Porto Alegre, RS.
1994 International Seminar on Educational Systems in Israel. Kibbutz Chain. Israel Government.
1989 Artista e Professora Visitante / School of Art and Design, Sunderland Polytechnic, England.
1985 Especialização em Artes Plásticas, Teoria e Práxis. Pontifícia Universidade Católica do RS. Porto Alegre, RS.
1983 Especialização em Desenho. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas, RS.
1980 Especialização em História da Arte. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL.
1975 Graduação em Comunicação Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
1967 Graduação em Pintura. Escola de Belas Artes, Pelotas, RS.
Trabalha com pintura, desenho, imagens digitalizadas, vídeo, poemas, livros-de-artista, instalação. Vários prêmios de pintura e desenho, no Brasil. Exposições coletivas, individuais e obras em acervos públicos, no Brasil e exterior. Citações em bibliografias.
Resumo Exposições Individuais
2014 - Fragments of Land (painting, installation). State Darwin Museum, Moscow, Russia.
2012 - Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Terra Desolada (pinturas, fragmentos, instalação). Artista convidada. Porto Alegre, RS.
2011 - Centro Cultural Da Maya. Quem Vem Lá? Pinturas, livros, Passaporte de Ulisses. Bagé, RS.
2009 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS). Pinturas Meu Nome é Ninguém. Lançamento de livro homônimo. Porto Alegre, RS.
2008 - Instalação Fastfoods com Poemáticos Conturbados, vídeo, pintura. Museu de Arte de Joinville, SC. Galeria Breche. Pintura 20 anos, artista homenageada, Prefeitura Municipal de Rio Grande, RS.
2007 - Instalação Visão Pós-traumática do Déjeuner sur l´Herbe. Paço Municipal, Sec. Municipal de Cultura, Porto Alegre.
2004 - Passaporte de Ulisses e Uma Sobra de Guerra. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre e Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas.
2003 - Lançamento do Passaporte de Ulisses. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre - RS
2001 - Pinturas, livros, joyceanamente. Galeria Obra Aberta, Porto Alegre. Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Livros-de-artista, Passo Fundo, RS. Artista convidada para abertura Galeria Sete ao Cubo, Secret. Municipal de Cultura, Pelotas, RS. Livros-de-Artista.
1998 - MARGS, Porto Alegre. Lançamento livro Fim de Expediente (literatura/ artes visuais). Feira do Livro de Porto Alegre, Livraria Palmarinca, livro Fim de Expediente.
1994 - Solar dos Câmara, Diretoria de Cultura, Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Livros de Artista e lançamento do livro Autobiografia de Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS, Porto Alegre. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Pelotas, RS.
1990 - Galeria Arte & Fato. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Curitiba, desenhos. Curitiba, PR.
1988 - Projeto ULISSES. MARGS, Porto Alegre, RS. Gallery 2, Vardy Arts Foundation. Sunderland, Inglaterra. Centro Lavoro Arte. Milão, Itália. Micro Hall Art Center. Edewecht, Alemanha.
1987 - Espaço Oficina. Pinturas. Rio Grande, RS.
1986 - Galeria Arte & Fato. Pinturas. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Mato Grosso. Galeria de Arte Dalva de Barros. Pinturas. Cuiabá, MT.
1984 - Itaú Galeria, Desenhos. São Paulo, SP.
1983 - Desenhos série Sobre/vivências. Universidade Federal de São Carlos, SP. Itaú Galeria, São Carlos, SP. MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.
1982 - Espaço Livros & Artes. Desenhos. Porto Alegre, RS.
Resumo Exposições Coletivas / Premiações / Outros
2014 - O Cânone Podre. Museu de Arte do Rui Grande do Sul. Porto Alegre – RS.
2013 - Forapalavradentro. Espaço Cultural Campus II – Teatro FEEVALE. Novo Hamburgo - RS. A Medida do Gesto. Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Porto Alegre – RS. Lugares-Livros Exposição Feira 2013. Secretaria Municipal de Cultura. Pelotas – RS Oceans Project – Tania Kovats. Fruitmarket Gallery. Edinbugh, Scotland.
2012 - Fundação Vera Chaves Barcellos. Des / Estruturas. Sala dos Pomares. Viamão, RS. Assista Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O Museu Sensível. Porto Alegre, RS. 20 Anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - O Triunfo do Contemporâneo. MAC-RS e Santander Cultural. Porto Alegre, RS.
2011 - 8º Bienal do Mercosul. Além Fronteiras. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Porto Alegre, RS. Brasil. Fundação Vera Chaves Barcellos. Pintura - da matéria à representação. Viamão, RS. Museu de Arte Contemporânea. A Medida do Gesto. Porto Alegre, RS. Time/Bank. Stroom Den Haag. MASS MOCA – Massachusetts Museum of Contemporary Arts, EU. An exchange with Sol Lewitt. Fundação Vera Chaves Barcellos. Um Ponto de Ironia. Viamão, RS. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Labirintos da Iconografia. Porto Alegre, RS. Book Aguilar Branch of the New York Public Library. The Last Book (L. Camnitzer). NY, EU.
2010 - 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Terreiro Longe Daqui, Aqui Mesmo (curadoria Fábio Morais/Marilá Dardot. Livros de artista. São Paulo, SP. Pintura: da matéria à representação. Fundação Vera Chaves Barcellos. Viamão, RS. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Zentral Bibliothek, Zurich. Livros de Artistas. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, RJ.
2009 - NBP (R. Basbaum) 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre. Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro. Aluga-se. Galeria Subterrânea, Tempo Contaminado, Porto Alegre. MAC, Museum. Wien, Áustria. Colors Book-Fabrica. Galeria da Associação Cultural Brasil/E.U. Doce de Santo, Salvador, BA. Exposição Perspectivas do livro de artista. Seminário de Pós-Graduação da EBA/UFMG, Belo Horizonte, MG.
2008 - El Último Libro. Biblioteca Nacional de la República Argentina, Buenos Aires. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Appel Project, Florean Museum. Baia Mare, Romania. VazioOff Bienal Online (TomLisboa), Curitiba, PR. Feevale, Novo Hamburgo, RS. IX Congresso Internacional/Pesquisadores da Crítica Genética – palestra (O Cascudo na Bandeja), Universidade Fed. do Espírito Santo, Vitória. ArtLine, Pinturas, Kiev, Embassy of Ukraine.
2007 - Colóquio Internacional Mestiçagens na Arte Contemporânea: Fastfoods com Poemáticos Conturbados. MARGS - Porto Alegre, RS. Associações Livres - Ler é Acreditar. Curadoria Gaudêncio Fidelis. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre, RS. Documenta12 Magazine Online, Kassel, Alemanha. Vídeo: Post-Traumatic Vision of Déjeuner sur l´herbe (après Manet).
2006 - MEMEFEST 2006 International Festival of Radical Communication. Eslovênia, Canadá, Colômbia, Emirados Árabes, Brasil. XX Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
2004 - Bloomsday, 2004. Talismã Batatal. 3º lugar júri popular. Oficcina Multimedia, Fund. Educ. Artística. Belo Horizonte, MG. São Paulo 450 anos. SESC Pompéia, SP.
2002 - Ulysses´s Passport. XVIII Internat. James Joyce Symposium, Bloomsday. University of Trieste, Itália. Angústia de um Tomate e Trajetória Artística com a Nostalgia de Ulisses: palestra. Instit. de Letras e Artes. UFPEL, Pelotas. VII Biennial of Experimental Poetry, México City.
2001 - XV Festival de Arte Cidade de Porto Alegre. Secr. Municipal de Cultura.
2000 - Olhando Desenhos. MARGS, Porto Alegre, RS. Desenho e Novas Linguagens. MARGS, Porto Alegre, RS.
1999 - MAC, Mostra itinerante. Museu de Arte Contemporânea. Instituto Estadual de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1997 - Bloomscyberday 97. The Irish Times on the Web. Dublin, Irlanda. Folha de São Paulo, SP.
1994 - Sala de Arte Iberoamericana. Madri, Espanha. Nossos bosques têm mais vida? Museu de Arte do Rio Grande do Sul MARGS e Parceria Internacional de Museus.
1993 - Salão Latino-americano de Artes Plásticas, Santa Maria, RS.
1992 - 360 Graus de Pintura Agora. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre. Arte Contemporânea. Edel Trade Center, Instit. Est. de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1991 - Último Decênio Dores e Cores. MARGS, Porto Alegre, RS. Arte Gaúcha Contemporânea, Univ. Federal da Bahia, Salvador, BA.
1990 - RS sobre Papel, MARGS, Porto Alegre, RS. IV Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
1989 - III Bienal de Havana, Cuba. Rassegna Internazionale di Libri d`Artista, Milan Art Center. Milão, Itália. Conselheira (ad hoc) FAPERGS, Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1988 - Salão de Arte Contemporânea, Sto. André, SP. Projeto Ulisses/mail-art. MARGS, Porto Alegre, RS. Galeria Metropolitana de Artes, Recife, PE. .
1987 - Salão Latino-americano Arte sobre Papel. Buenos Aires, Argentina. Olhar Contemporâneo. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre, RS. Releituras 86. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre, RS.
1986 - Mostra do Desenho Brasileiro. Curitiba, PR.
1985 - Escrituras e Caligrafias. Funarte, Rio de Janeiro, RJ. Salão de Arte Contemporânea. Campinas, SP. 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Funarte. Rio de Janeiro, RJ.
1984 - Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, PE. Prêmio Aquisição Pintura. Salão de Arte Contemporânea. Prêmio Aquisição Pintura. Piracicaba, SP.
1983 - III Salão de Arte de Sta. Maria. Menção Honrosa Desenho. Santa Maria, RS. Arte sobre papel. Intercâmbio RS/Indianópolis, USA. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre e Indianópolis, Lafayette, Washington DC (USA).
1980 - IV Salão de Artes Plásticas, Pelotas, RS. Menção Honrosa Desenho. Salão Paranaense. Curitiba, PR. Prêmio Assembléia Legislativa - Desenho. I Salão de Arte Cidade de Novo Hamburgo, RS. Prêmio Aquisição Desenho. II Salão de Arte de Santa Maria, RS. Menção Honrosa Desenho. Ingresso na Univ. Federal Pelotas-UFPEL, ingressa como professora.
1972 - I Salão de Artes Plásticas de Pelotas. III Prêmio Pintura. Pelotas, RS. II Bienal Nacional de Artes Plásticas. São Paulo, SP.
Textos
Há algum tempo envolvido com livros, textos e edições muitas, cultivava e seguia disfarçando uma vontade de ver editado em Pelotas um trabalho que ousasse diferenciar o que tem acontecido, tanto na forma, como em conteúdo. Um livro de forma (quase) quadrada por que não? De conteúdo que muito bem poderia estar noutro meio de expressão cultural – por que não? – e a autoria fosse de alguém cuja postura, proposta e talento não se submetessem ao conforto de uma idéia e à vaidade de escrever um livro – por que não?… Já perceberam, então, porque estou com Lenir nesta sua obra: simplesmente por que Lenir e tudo a que está se propondo enquadra-se perfeitamente no que nos faltava. E se assim é, tê-la com o selo de nossa editora é como sentir os prazeres da Pasárgada, ou arriscar os extremos e as surpresas de uma Liliputh… Foi um caso de sintonia quase perfeita (e digo quase porque, se total, talvez não precisas se acontecer), já que tanto já sei e espero do que ela traz, que tenho certeza, Lenir, vocês, eu, nós, todos sairemos acrescidos. Lenir reinventa a experiência européia do livro-de-artista, e nestes primeiros produtos ela mesma se envolve, diagrama, imprime e supervisiona a encadernação, dando de si e de seu tempo, à procura do produto final. E Lenir, da idéia do LIVRO DE ARTISTA, torna-se a ARTISTA DO LIVRO, guardando a simetria de um livro, mas trazendo esta proposta nova/antiga (papiro/manuscritos) num momento em que estamos todos ávidos por algo de essência: a essência do artista na sensibilidade do fruidor.
ps: Sobre Lenir e o que ela admite, gosta, empreende, inquieta ou intui, ver neste livro na sequência das páginas. Muito de Lenir, pouco sobre Lenir.
A integração não tem a ver com a ilustração da escrita pela imagem, nem com a “explicação” da imagem pela escrita: elas andam juntas, correspondem-se sem se explicarem mutuamente, complementam-se sem se fundirem. Cada linguagem permanece íntegra nela mesma, num diálogo tenso com a outra; tenso, porque não se traduzem mutuamente; porque não se equivalem; porque seus elementos constitutivos são únicos e irredutíveis um ao outro. Segundo Foucault,
“ … a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.” (Foucault, 1992 , p.25).
Não há fusão entre texto e imagem, mas há “contaminação” de um pelo outro. Eles não se justapõem apenas, como em livros ilustrados tradicionais, mas se sobrepõem. A escrita é recoberta por manchas de tinta, ou por grafismos gestuais. O desenho possui, frequentemente, frases ou palavras soltas: nem títulos, nem explicações, mas elementos formais que interagem com as imagens:
“A imagem vai nascendo, e ela mesma exige respostas. Vou traçando e vou enxergando. A figura fica ali, me olhando, me desafiando. Ou eu acho o que ela quer, ou perco tudo.” (Miranda, 2000)
Perde tudo, ou se perde? A arte é como a esfinge: “decifra-me, ou te devoro.”
Lenir anseia pelas palavras como anseia pelas formas, cores, gestos que a pintura e o desenho permitem. Seu Ulisses é o herói narrado, sua trajetória, mas é também o mundo de paisagens, cenas, figuras que a própria narrativa desencadeia em sua imaginação. Assim, o oceano: que vai e vem, num retorno cíclico, tal como Ulisses. O círculo da vida, representado pelo fluxo da água, que, no seu ir e vir, nunca é a mesma. Do mesmo modo, o grafismo que a representa nunca é igual, pois o gesto sempre muda, de forma quase automática, inconsciente. A água é que conduz a mão, como as ondas conduzem Ulisses. O Ulisses de Lenir é seu Ulisses, que só existe na totalidade da palavra com a imagem. De suas palavras com suas imagens. É sem dúvida por isso (sendo a arte, sempre, uma forma de auto-retrato), que, neste último livro, Lenir substituiu o Ulisses-Leopold Bloom de James Joyce por Agnes Bloom. O outro lado do mito, sua face escura. O feminino, identitário e marginal simultaneamente. Dual: mito e anti-mítico, herói e anti-heróico. Aquele que se desloca aleatoriamente, mas não cumpre uma trajetória circular. Aquele que espera: é sempre o feminino que espera, que conta o tempo (o que passou, o que virá, o que falta passar). Aquele que se ocupa dos pequenos fatos do cotidiano. Aquele que exerce a repetição, essa sim, efetiva, das incontornáveis tarefas do dia a dia.
O CORPO-ESCRITA, O CORPO ESCRITO
A escrita sempre forma um corpo. Conjunto de signos que imprimem sobre o suporte uma tessitura, como uma tapeçaria. A mão que escreve, e o olho que lê executam um movimento regular, linear, rítmico, como tecendo e retecendo um corpo feito de tramas.
No caso deste livro, esse corpo é irregular: variam os espaçamentos, os tipos dos caracteres, seu tamanho; às vezes, a escrita manual rompe a regularidade das letras impressas e introduz o tocante tremor do corpo que cria, o corpo da artista.
Rasuras, vazios, notas à margem, sublinhas também constituem esse corpo textual, negando sua vocação à uniformidade e evidenciando-o como um organismo vivo: com suas cicatrizes, imperfeições, irregularidades. Ele reconstitui a gênese dos mitos: a narrativa oral, com seus ritmos irregulares, suas ênfases, suas pausas. E a presença indispensável do corpo que narra. A narrativa de Lenir, mesmo quando impressa em caracteres mecânicos, cria um ritmo que evoca os grafismos de seus desenhos: rapidez, urgência, a necessidade de registrar à medida que a idéia “sai” de sua mente e escorre para a mão.
Ele traduz, assim, com mais força, o corpo escrito, de Agnes. Exposto com seus cansaços, seus fluídos e fluxos, sua pele e pêlos. Desvelado com seus sentimentos, reflexões e observações. Desvendado, sobretudo, por seu olhar.
Esse corpo olha os dos outros e é por eles olhado. Vê-se refletido no espelho de um outro passageiro do ônibus, bem como nos vidros embaçados das janelas. Encontra-se projetado do corpo da artista e rebate em nossos próprios corpos, nós leitores – espectadores – voyeurs. Todos somos Agnes, todos somos Ulisses. A névoa de Ítaca nos invade a todos.
Agnes está nas quinas dos muros, bem como nas ondulações das águas. A cela e o mar representam, para Lenir, duas simbolizações antagônicas do corpo, encerrado e livre simultaneamente. O corpo está, pois, presente (embora, não figurado) nos desenhos desses lugares”.
Agnes, secretamente, transborda.
Como Lenir. Como todos nós, que sempre tentamos ir para muito mais além dos limites de nossos corpos: através dos mitos, ou do imaginário, ou da arte — Icleia Cattani (CATTANI, Icleia. A Escrita Pintada, A Pintura Escrita. Catálogo da Exposição Pintura Livro Joyceanamente. Galeria Obra Aberta : Porto Alegre, 2001).
"Sobre isso, e fomentando os debates, que são o centro do próximo capítulo, o artista plástico, curador independente e professor do Instituto de Artes da UFRGS, Paulo Gomes, indica que esta limitação do edital parece “bairrista”, excluindo boas exposições da possibilidade de serem agraciadas com o Prêmio.
[…] Tem um critério de bairrismo no Prêmio que eu acho lamentável; por exemplo, artistas que não moram em Porto Alegre, mas que são do Rio Grande do Sul, não concorrem a prêmios, o que eu acho, de uma certa maneira, injusto. A gente não pode colocar Porto Alegre como um centro, mas como é um Prêmio do município, a justificativa é que é um prêmio do município, então até aí eu aceito. Só que houve duas exposições este ano [referindo-se a 2009] que foram excepcionais e que não concorreram ao Prêmio: a exposição da Nara Amélia, de gravura, lá na Usina do Gasômetro, e a exposição de pintura da Lenir de Miranda, que é de Pelotas, no MARGS. Elas não concorreram ao prêmio, o que eu acho injustiça. A Lenir fez a melhor exposição de pintura nos últimos dez anos em Porto Alegre. Então, são os problemas dos limites municipais do Prêmio.
Acerca do exemplo levantado por Gomes, vale comentar que, na noite de premiação do quarto Açorianos, no dia 8 de maio de 2010, a artista plástica Maria Tomaselli, agraciada com o Destaque de Melhor Exposição Individual pela mostra Magia da Semelhança, junto ao Margs Ado Malagoli, também se manifestou, sugerindo, na sua breve fala, uma certa “injustiça”, pelo fato de que nem Lenir de Miranda, nem Heloisa Schneiders (exposição póstuma também no Margs), haviam sido indicadas na categoria Pintura (as três artistas haviam exposto no Margs no mesmo período, entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010). Tomaselli provavelmente se manifestou dessa forma, inclusive, por desconhecer o edital; o fato é que a maioria dos artistas, agraciados ou não, ignoram as “normas” do Açorianos, bem como os critérios dos membros do júri.” — Yasmine Mazzoni (Monografia. Instituto de Artes -UFRGS. Porto Alegre, 2009).
O Contexto dos Livros de Lenir de Miranda
O texto que tem acompanhado as artes visuais no século XX, por sua presença ou pelo enaltecimento de sua ausência, é uma entidade ambígua, uma ferramenta pouco ergonômica. Ele faz a apologia do artista, ele o acossa, julga o produto artístico, busca uma distância crítica… Também pode fazer parte da obra… ou não. Caso se proponha uma situação primeira, onde a escrita legitima a arte (ou faz seu comentário escrito), imediatamente se imporia uma segunda situação, em que o artista visual se apropriaria do texto (descritivo e narrativo). O inter-relacionamento dessas situações deverá gerar uma terceira, onde será a obra que perverterá a escrita. E cada vez mais o artista avançará até o epílogo adivinhado: a quarta situação, a escrita expulsa de seu próprio suporte. E, enfim, o que se tem é o volume. Em que região entre esses quatro vértices estamos nós, que temos as páginas de Lenir de Miranda nas mãos? E elas mesmas, as páginas de Lenir, onde estão?
Existem ocasiões em que é prudente reduzir o espaço gasto com palavras. Vou omitir as perguntas e deixar que as dúvidas enfeitem minhas convicções. Porque hoje existem tessituras mais ricas entre os mundos da estética literária e da plástica, queiram ou não os escrevinhadores. As inteligências que constroem a teorização do objeto artístico do agora são mais amadurecidas. São maiores e mais conscientes que suas antecessoras. O envolvimento é mais comprometido. Por outro lado, esse espaço disponível à reflexão
textual às vezes deixa a mostra certa escrita gratuita, apressada pela ansiedade. Talvez porque a palavra que julgava e interpretava a arte agora é sua refeição diária, comum, degustada em círculos maiores. [….]
No Brasil, o livro de artista estrito (um produto diferente do livro-objeto, ainda que ambos pertençam à grande categoria do livro de artista) teve e ainda tem pouca divulgação. E o livro-objeto, por sua vez, sofre da pequena atenção recebida dos próprios artistas. É nesse contexto semi-árido que os trabalhos de Lenir de Miranda se multiplicam, indiferentes ao desamparo crítico que isola os fazedores de livros. A maior parte da produção da artista é de livros-objetos em exemplares únicos, produzidos a partir de meados dos anos 90, ainda no refluxo da arte matérica.
Apresentam-se como obras quase inteiramente plásticas. Têm normalmente a materialidade e a sensualidade como características dominantes, com a presença eloqüente de uma ampla gama de pigmentos e substâncias (com destaque para a cera de abelha e a laca), mesclando, manchando ou revestindo materiais como o pano, a lixa ou a madeira. Mas neles o texto não é integralmente ausente. Aqui e ali aparecem frases esparsas, às vezes parágrafos inteiros, associados direta ou indiretamente às construções literárias de James Joyce (Ulisses). Também podem ser encontradas outras anotações ou anexações físicas, como tíquetes, rótulos ou outros impressos, além de objetos diversos, como dados de jogar, arames, interruptores elétricos, enfim tudo que se puder imaginar. Os livros, aqui, são sobretudo coisas. Seus títulos são por vezes mais ou menos objetivos, citando suas características (Livro da pintura ou Livro com funil de Buchner e decantação); outras vezes são subjetivos, embora proponham a sua função (Livro para ligar ou Livro para Beuys ver); ou são francamente ambíguos (Livro com todas as páginas oceânicas ou Livro induzido). Todos menos um são peças únicas.
Autobiografia de todos nós foi produzido para acompanhar a exposição homônima de livros-objetos únicos em 1994, dentre eles alguns dos já citados. Poderia ser originalmente um catálogo. Mas por permanecer vivo independente da exposição ele se recusa como tal. E essa recusa é sua mais interessante característica. Ele se impõe como livro de artista stricto sensu, múltiplo e satisfeito com sua condição simultânea de obra gráfica e plástica. A totalidade (a proposição) de sua tiragem é, também, coisa. Essa é uma dimensão exclusiva do mundo industrial, aqui subvertida ao propósito artístico. Ou seja, ter uma tiragem é um propósito estético. A relativização do industrial fica estabelecida pela inclusão em cada exemplar de fragmentos de tecido pigmentado e/ou tratado com cera. Essa indefinição entre o único e o múltiplo retornaria na primeira versão de Fim de Expediente, 1998, onde o texto permaneceria essencialmente imutável em doze exemplares, individualizados por colagens, montagens e pátinas matéricas. Paradoxalmente ou não (para quem visa ao livro semi-industrial) a mão plástica continuava sendo dominadora, muito mais eloqüente que a intenção multiplicadora. Isso se confirmaria pelos exemplares adicionais realizados depois, persistentemente híbridos.
Mal acomodada na sua tensa mas zombeteira insatisfação fim-de-século, Lenir tenta agora uma nova e mais definitiva inserção no mundo plural, deixando o singular no âmbito do ateliê. Talvez intromissão, melhor dizendo, já que prescinde de convite. O trabalho resultante agora é gráfico e industrial, não mais obra única. No seu projeto mais recente ela junta num só volume dois exercícios originalmente avulsos: uma nova versão de Fim de expediente com o inédito A Sinalização. Ambos são produtos da interação entre imagem, texto em prosa e palavra impressa. No primeiro caso o texto é abundante, enquanto no segundo ele é mais escasso, por vezes apenas indicial. Anexado ao conjunto, está um livreto com artigos suplementares, entre eles este que o leitor tem em mãos (ao meu ver intromissões dispensáveis, ainda que possam ter alguma utilidade num ou noutro ponto; de minha parte, eu peço desculpas). A artista quer um público maior, muito maior… e uma arte mais acessível. Com o auxílio do computador, que alternadamente a seduz e irrita, ela digitaliza o que era na sua origem objetivamente real e manipulável. Levada à condição de ser agora apenas uma etapa de um processo mais complexo, a superfície pictórica matriz, com panos, pigmentos e colagens, se submete ao achatamento inerente à página gráfica, unidade plana multiplicada pelos rolos de impressão. Como afirmação da bidimensionalidade, a imagem resultante correria o risco de ser apenas ilustração, o que infere uma relação hierárquica da página, principalmente quando acompanhada de um bloco de texto. Lenir não permite que isso aconteça, ao menos até a fase de impressão doméstica artesanal com impressora a jato de tinta (sabemos que uma imagem pode sofrer sérias alterações na passagem de um processo de provas para sua impressão final em offset). As cores obtidas nos seus primeiros protótipos são vívidas, recriando as texturas originais. Não acontece aqui uma emulação pela emulação, porque o recurso à mídia é um propósito. A consciência da multiplicação é patente, mesmo que seja buscada a fidelidade de reprodução. Neste aspecto, quase que se pode sentir a textura graxa da parafina utilizada na composição original. O plano é, por isso, mais que afirmado, sublinhado. A página é página mesmo, despretensiosa e amiga de quem a manuseia, mas impõe-nos o poder de citação das tintas que as tocaram. A letra impressa é macerada nas manchas de cor (originalmente laca, em muitos casos). Quase morre afogada. As colunas de texto ou são imagens muito pobres para sobrepujarem o estilo tenso do traço de Lenir, ou são feridas até quase a morte por traços, nódoas e as próprias marcas de sua colagem.
Reitero o afirmado acima. A qualidade tátil da imagem impressa é resultado do profundo desejo de que o público compreenda a origem plástica do projeto. A imagem se torna presente em três estados. Ela existe da origem plástica, matérica, com textura e cheiro, um evento da percepção imediata. Ou seja, a imagem e sua coisa. Ela é, então, digitalizada, passando por uma existência virtual, despregada do objeto. Importante acrescentar que Lenir usa a própria matriz no digitalizador, sem a intermediação da câmera fotográfica: o vidro do scanner toca por nós a epiderme original. A imagem só existirá se for seguida uma série de procedimentos de uso do equipamento. Será reconstruída no monitor ou em sua impressora, aditiva ou subtrativamente. E estará apta a ser traduzida para o fotolito de artes gráficas, podendo antes disso sofrer alguns retoques e pequenas alterações. Finalmente impressa, ela ressurgirá exponencialmente em seu terceiro estado, como estampa, estando o livro aberto aos nossos olhos ou fechado em algum canto. Mas multiplicado em cem ou em mil, mesmo que seja praticamente impossível reproduzir toda a tessitura do apelo tátil e visual característico na obra de Lenir.
Mas a artista quer chegar aos nossos olhos (e às nossas mãos). Restaria como possibilidade uma tradução? Melhor seria chamar de versão. A artista quer e parte em nossa direção a partir de suas próprias ferramentas. A obra é outra, com identidade própria, mas sem perder seu espírito. Alma e corpo não podem estar separados, não importa suas falências, porque juntos precisam sobrepujar suas próprias razões, a consciência de sua possível comunhão quase eterna.
O livro de Lenir é a reconstrução de seus muitos espelhos. Porém é mais estratificado, com muitas camadas de espectros, como se fossem tomografias de um espaço comum ao seu universo pessoal e ao nosso mundo cultural. Ele é o duplo que com as apreensões da artista dividiu a gênese e que conosco agora troca olhares, emitindo seus afetos em nossa direção. É a imagem que pelo processo pode ser distendida e reelaborada, pode ser prolixa, reiterativa. Insiste (suplica) pela nossa atenção. Ela quer ser um agora, sim, físico e antropológico, mas também quer metaforizar muitos extratos do tempo. Quer (precisa) a nossa companhia. De todos nós. E que sejamos muitos. Mas certamente seu livro não traz a mera confidência, e sim a cooptação íntima. Lenir nos quer ao seu lado, dentro de seus mares perspectivados, por vezes inutilmente contidos por linhas escuras, em vão decididas em delimitar compartimentos vitais […]
Cindida entre a memória viva do Canal de São Gonçalo e a memória emprestada dos canais de Dublin. Quantos mares entre eles! Para pictografá-los, Lenir escolheu uma mídia que por si só já é mal entendida, mas que gosta e se orgulha dessa situação torta. O lugar artístico do livro de artista é o lugar das margens de um universo de duplos ora em cisão, ora em comunhão. Dois como par ou como a soma dos ímpares. Onde se pode perguntar se a função é mesmo pervertida nos objetos híbridos e se a dúvida não seria a melhor e a mais desejável das respostas.
(fragmento do livro-texto de A Sinalização – edição de Lenir de Miranda)
[…] Lenir de Miranda, primeiramente desenhista e pintora, ela parece ter sido uma das mais prolíferas produtoras de livros de artista do sul do país nos anos 90. […]
A cumplicidade inevitável entre o homem e o livro seria uma armadilha? E ao que é da psique deve ser permitido o toque? […] talvez vislumbremos aí a alma metafísica dos livros de Lenir de Miranda.
(fragmento do livro A Página Violada)
Porto Alegre, 2000
Fonte: Lenir de Miranda Site Oficial. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Sobre Lenir de Miranda | MAC RS
Pintora e desenhista. Lenir Garcia de Miranda formou-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Fonte: MAC RS. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Entrevista Lenir de Miranda |
1. Por que você escolheu, num momento específico de sua vida artística, o livro de artista?
Não lembro qual foi o primeiro livro que fiz. Mas em 1994 fiz um grande livro para a exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Nossos bosques têm mais vida?, dentro do Programa Parceria Internacional de Museus, evocando a consciência ecológica. Neste livro (80x60x17cm) está escrito o poema de Gonçalves Dias que dá nome à exposição, tendo além das pinturas e grafias um visor mágico com fragmento de planta. Chamou-se Livro do exílio e da nostalgia. O que motivou foi a vontade de experienciar algo mais íntimo que a simples pintura bidimensional. Também a possibilidade de exploração manual, uma viagem, a criação do tempo na obra. Isso era o passar de páginas num livro de artista.
Vale acrescentar a informação de que trabalhei com artes gráficas, planejamento visual e supervisão gráfica, que é uma experiência apaixonante ver o surgimento do material impresso (por uns dezesseis anos). Transpus, também, essa experiência para uma forma estética, com vida própria, em seu espaço sígnico, de início utilizando mais a pintura, o desenho, colagem de objetos aparentemente desconexos, embora se saiba que sempre existem os nexos secretos.
2. O período de tempo em que você se dedicou ao livro de artista está encerrado?
Não. Estou totalmente envolvida com livro de artista neste momento. Nesta cultura cada vez mais saturada pelos meios eletrônicos de comunicação instantânea o livro de artista é o objeto paradoxo que convida o homem a uma pausa diante de si mesmo ao convidá-lo a penetrar na sua trama íntima (guiado pelo fio de Ariadne?).
3. Que artistas influenciaram o seu trabalho?
M. Duchamp ensinou-me que a obra se dá como forma de conhecimento, uma gnose, um procedimento ético.
J. Beuys que dizia que toda obra de arte intenta demonstrar ao homem sua própria imagem (por isso falo em autobiografia de todos nós como título de meu livro sobre os meus vinte livros de artista). Rauschemberg, com suas assemblagens, unindo a arte à vida. Anselm Kiefer. Iberê Camargo, quando estudava pintura em Pelotas. Sempre fui uma expressionista.
4. Qual o papel de James Joyce nas suas obras?
Se fores na Biblioteca da Faculdade de Direito de Pelotas, encontrarás livros de literatura internacional cujas fichas contêm minha assinatura desde 1967. Naquela época eu conheci J. Joyce. Ulysses. Era a forma de literatura que eu queria descobrir, intrigante, que me fazia criar uma infinidade de coisas em minha mente. Era uma literatura que extrapolava os limites da realidade banal das historinhas. Kafka, Eliot e alguns malditos marcavam encontro comigo mas Joyce predominava. Ele proporcionava uma experiência interativa única, ao “fluxo da consciência”, que me levava a completar a obra com imagens que nem saberia afirmar de onde vinham, elas aconteciam subconscientemente. Isso era Ulysses para mim, que trabalhava com a visualidade, algo poderoso em comunicar vivências míticas dentro de mim numa pluralidade de outras vivências sobrepostas, cotidianas, da minha realidade contemporânea.
A transposição da linguagem verbal para a plástica se faz através da sobreposição, da mescla de técnicas, conjugação de vários elementos como desenho, pintura, colagem, ao fluir das exigências da plasticidade em formação ou de uma ideia, um conceito em desenvolvimento.
5. O conjunto de vinte livros da sua exposição de 1994 em Porto Alegre foi elaborado a partir de um projeto ou método?
Cada livro ia surgindo a partir das suas exigências íntimas, próprias de um ou de vários dos componentes iniciais que ditavam suas solicitações plásticas. Cabia a mim descobrir qual a reposta mais adequada diante da forma do livro que se revelava. Parafraseando F. Bacon, que disse que a pintura exige do artista a sua solução.
Assim, no livro, o tempo e o espaço justapostos e sobrepostos vão criando infinidades de outras realidades, que irão acenar à participação do “leitor” ao qual ele será entregue. O que determinou a criação destes vinte livros foram suas relações sintáticas, ocorridas em cada livro individualmente, elementos significantes inseridos com outros elementos, formando um código rico de ambiguidades.
6. Por que você optou por peças únicas?
Seu mistério não deverá ser duplicável, nem sua solidão, assim vejo o livro de artista como peça única, algo muito original.
7. Componentes físicos do desenho, da pintura e da escultura, com presença do objeto encontrado, são a marca de seu trabalho. Por que a forma impressa tem presença quase nula?
Nestes primeiros trabalhos, embora a forma verbal possa reforçar as ideias contidas no livro, achei que no momento não eram essenciais aos significados expressos por estar mais ansiosa pelo desenho, pintura e colagens.
8. Como você se definiria formalmente?
Sempre fui uma expressionista, mesmo desde quando nem sabia o que isto representava.
9. Como foi a recepção de seus livros pelo público? [A entrevistada prefere que a resposta a esta pergunta não seja divulgada. Ela relata as dificuldades encontradas nas suas exposições, criticando alguns órgãos ou pessoas envolvidos.]
10. Que diferença você apontaria entre as possibilidades do livro de artista e outros meios tradicionais?
O livro de artista é um objeto ainda estranho, que não se coloca na parede como uma pintura ou desenho. Fica distante, por vezes, como que à espreita, do observador desacostumado com uma obra mais reflexiva, embora se ofereça cheio de possibilidades no espaço tridimensional. Em suas formas interdisciplinares, técnicas variadas, sintaxes inesperadas, mensagens engajadas social, politicamente ou apenas poesia em si mesma, reflexivo, ele deverá se impor cada vez mais.
11. Você gostaria de fazer algum outro esclarecimento?
O livro de artista está envolto na névoa, com algum passado possuindo um elo conosco, como Ithaca avistada ao longe, envolta em névoa, enquanto Ulysses retornava.
Após é necessário vergar o arco de Ulysses, para reconquistar seu território de vestígios misteriosos, completar a face do mito que nos é ofertado e que somente cada um dos espectadores tem a possibilidade de fazer, tudo isto, atualmente, do outro lado da fria e sintética mente eletrônica.
Se me perguntas o que contém cada imagem, já não poderei dizer com precisão, pois elas foram depositadas imagens sobre imagens, signos após signos, algo que foi se perdendo na névoa, mas que é sempre procurado, oculto que está em tantas memórias, imaginários, um desencadeamento sígnico infinito, uma semiose. Eis como surge a linguagem artística, expressa também nos livros de artista.
Assim, voltar ao antigo gesto de volver uma página, descortinar a névoa da memória, envolvendo-se no tato e no tempo proporcionado pelos mais variados elementos, como objetos anexos, desenhos, pinturas, complexas estruturas formais, envolvendo a disposição e o fluxo das páginas dentro da forma de livro, cujo conteúdo foge a objetivas informações. Geralmente um signo em si mesmo, quando se refere apenas às suas questões poéticas.
Mesmo engajado em questões sociais políticas, é um signo, uma obra de arte, que atinge o imaginário do espectador. Ele abre um fluxo subconsciente, uma viagem não proporcionada por meios eletrônicos.
Qual o significado de cada página? Que realidade encerra-se na passagem do tempo de contato como signo exposto no corpo da matéria? Direi que cada livro tem seus mistérios de longas peregrinações, “...após incalculáveis éons de peregrinações, retornaria...” (Ulysses/lthaca-Joyce). Memórias depositadas sob densas neblinas, página após página, acenam ao retomo de cada um de nós, até fluírem com nossas vidas mais cotidianas, mescladas em vivências sobrepostas (técnicas acopladas), linguagem joyceana.
Em cada livro de artista, signo após signo nos fazem estes passageiros, nas justaposições de elementos aparentemente desconexos, desenhos de conotações míticas, emblemático, com objetos banais tais como um coador de cozinha. E assim vai este relato subconsciente em forma de livro de artista. Realmente um desafio ao imaginário acomodado em universos do microchip. O livro de artista é este espantoso encontro entre duas sensibilidades que se cruzam, imediatamente vinculadas, descobrindo-se mutuamente: a do artista e do destinatário, caminhante apressado.
Todavia, aqui não pode-se deixar de falar do paradoxo que se apresenta: ao lado da linguagem cibernética vamos no sentido inverso, no descobrimento desta memória primitiva, um signo precário colocado ao alcance do antigo manuseio. Interferir manual e mentalmente no silencioso objeto ancestral e à espreita, como um objeto soterrado e inacabado, domínio inconsciente à espera do viajante explorador.
Como disse Joyce: todo livro tem seus mistérios.
Não sabemos qual o desfecho deste paradoxo: do universo virtual ao universo tátil do livro de artista sua histórica, seus códigos ancestrais.
Fonte: Issue, publicada originalmente em “A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista”, publicada em dezembro de 1997. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Acervo UFRGS. Consultado pela última vez em 28 de abril de 2025.
Lenir Garcia de Miranda (1945, Pedro Osório, Brasil), mais conhecida como Lenir de Miranda, é uma artista visual brasileira. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões (1967), Lenir expandiu seus estudos com bacharelado em Comunicação Social (PUCRS, 1975), especializações em História da Arte (1980) e em Desenho (1983) pela UFPel, além de concluir o mestrado em Poéticas Visuais na UFRGS em 2003. Contemporânea e conceitual, Lenir de Miranda desenvolve suas obras combinando imagem e palavra em obras experimentais, sensíveis e profundamente narrativas. Sua produção transita entre livros de artista, instalações, desenhos e vídeos, sempre explorando a materialidade do texto e da imagem. Trabalha com técnicas como pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista, utilizando paletas variadas e materiais experimentais. Recebeu prêmios em importantes salões nacionais, como o Salão Paranaense (1982) e o Salão de Pernambuco (1984). Suas obras fazem parte de acervos de museus como o MARGS (RS), o Museu Nacional de Belas Artes (RJ), o James Joyce Centre (Dublin) e o State Darwin Museum (Moscou), consolidando seu nome na arte contemporânea brasileira.
Lenir de Miranda | Arremate Arte
Nascida em 1945 na cidade de Pedro Osório, no Rio Grande do Sul, Lenir Garcia de Miranda cresceu em meio a paisagens que mais tarde ecoariam nos deslocamentos simbólicos de sua obra. Desde jovem, demonstrou uma inquietação artística que a levou a estudar Pintura na Escola de Belas Artes D. Carmen Trápaga Simões, em Pelotas, onde se graduou em 1967. Esse primeiro mergulho nas artes visuais não seria o único. Lenir seguiria expandindo sua formação com o bacharelado em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 1975, especializando-se em História da Arte em 1980 e em Desenho em 1983, ambos pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Em 2003, sua trajetória acadêmica alcançou um novo patamar com o mestrado em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A obra de Lenir de Miranda sempre dialogou com referências literárias profundas, especialmente com o romance Ulisses, de James Joyce. Essa influência atravessou décadas de produção, manifestando-se em projetos emblemáticos como Projeto Ulisses e Passaporte de Ulisses, nos quais texto e imagem se entrelaçam para dar corpo a narrativas visuais carregadas de simbolismo. Seus trabalhos revelam uma capacidade rara de transformar migrações míticas em experiências contemporâneas, conectando histórias ancestrais aos deslocamentos da subjetividade moderna.
Transitando entre diversas linguagens – pintura, desenho, instalação, vídeo e livros de artista –, Lenir construiu um repertório expressivo caracterizado pela experimentação formal e pela fusão de técnicas mistas. Utilizando materiais como colagens, assemblagens e papéis especiais, sua paleta de cores varia entre tons vibrantes e atmosferas mais densas, sempre em função dos conteúdos abordados. Na série Pintura Périplo, por exemplo, Lenir revisita o mito de Ulisses sob o prisma das migrações atuais, propondo uma reflexão poética e crítica sobre as jornadas humanas.
A trajetória da artista é marcada por uma presença constante em salões e premiações importantes. Recebeu distinções no Salão de Artes Plásticas de Pelotas (1972 e 1980), no 39º Salão Paranaense em Curitiba (1982) e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em Recife (1984), consolidando sua reputação como uma das vozes mais originais da arte contemporânea brasileira.
As obras de Lenir de Miranda integram acervos de instituições renomadas, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, o James Joyce Centre em Dublin e o State Darwin Museum em Moscou, evidenciando seu reconhecimento internacional. Com mais de 40 exposições individuais e mais de 120 participações em mostras coletivas, a artista construiu um percurso sólido, ancorado em pesquisa, sensibilidade e vigor criativo.
Ao longo de sua carreira, Lenir manteve-se fiel a uma investigação artística que resiste a categorizações simplistas. Sua obra é atravessada por tensões entre figuração e abstração, palavra e imagem, memória e presente, configurando uma poética visual que espelha as complexidades do ser humano em trânsito. Hoje, sua produção é considerada referência para as novas gerações que buscam expandir os limites da pintura e da palavra na arte contemporânea.
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Lenir de Miranda | Itaú Cultural
Lenir Garcia de Miranda (Pedro Osório RS 1945). Pintora e desenhista. Forma-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Críticas
"Lenir de Miranda é uma artista de grande talento. Ela se expressa numa linguagem profundamente pessoal e contemporânea. Lenir valoriza a nossa pintura" — Iberê Camargo (ARTE gaúcha contemporânea. Texto de Gaudêncio Fidelis. Porto Alegre: Casa de Cultura Mário Quintana, Instituto Estadual de Artes Visuais, 1991).
"Penso que é uma concepção muito interessante e, visualmente, um estimulante método de exploração dos trabalhos de Joyce. Eu admiro a pesquisa, o esforço artístico e a energia criativa que foi utilizada para a produção do Passaporte de Ulisses e é com imenso prazer que eu assino este Passaporte, representando o James Joyce Centre" — Robert Joyce (JOYCE, Robert. Passaporte de Ulisses. Dublin, 2002).
Acervos
Atelier Livre. Secretaria Municipal da Cultura - Porto Alegre RS
Centro de Cultura Inah Martensen - Rio Grande RS
Centro de Teledifusão Educativa - UFRGS - Porto Alegre RS
Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte
Fundação Vera Chaves Barcellos, Porto Alegre, RS
James Joyce Centre, Dublin, Irlanda
Museu da Gravura Brasileira, Bagé, RS
Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas, RS
Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Passo Fundo, RS
Museu do Estado de Pernambuco, Recife, PE
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ
Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, RS
Prefeitura Municipal de Piracicaba, SP
Secretaria de Estado da Cultura, Curitiba, PR
Secretaria Municipal de Pelotas, RS
SESC Pompéia, São Paulo, SP
University of New México, Estados Unidos
Exposições Individuais
1967 - Pelotas RS - Individual, na Galeria Crítica Nova da Escola de Belas-Artes de Pelotas
1983 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1983 - São Carlos SP - Individual, na UFSCar
1983 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1984 - São Paulo SP - Individual, na Itaugaleria
1986 - Cuiabá MT - Individual, na Fundação Cultural do Mato Grosso
1986 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1987 - Rio Grande RS - Individual, no Espaço de Arte Oficina
1988 - Porto Alegre RS - Individual, no Margs
1988 - Porto Alegre RS - Projeto Ulisses, no Margs
1989 - Edewecht (Alemanha) - Projeto Ulisses, no Micro Hall Art Center
1989 - Milão (Itália) - Projeto Ulisses, no Centro Lavoro Arte
1989 - Sunderland (Inglaterra) - Projeto Ulisses, na Gallery 2, Nardy Arts Foundation
1990 - Curitiba PR - Individual, na Fundação Cultural de Curitiba
1990 - Porto Alegre RS - Individual, na Galeria Arte & Fato
1994 - Pelotas RS - Autobiografia de Todos Nós, no Museu Leopoldo Gotuzzo
2001 - Porto Alegre RS - Pintura, Texto, Livro de Artista, Joyceanamente, na Galeria Chaves
Exposições Coletivas
1972 - Pelotas RS - 1º Salão de Artes Plásticas - Terceiro Prêmio - pintura
1972 - São Paulo SP - Mostra de Arte Sesquicentenário da Independência e Brasil Plástica - 72, na Fundação Bienal
1980 - Pelotas RS - 4º Salão de Artes de Pelotas - menção honrosa
1982 - Curitiba PR - 39º. Salão Paranaense - Prêmio Assembléia Legislativa - desenho
1983 - Indianópolis (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Lafayette (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Porto Alegre RS - 15 Desenhistas Gaúchos, na Toque Final Casa de Arte
1983 - Porto Alegre RS - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1983 - Washington (Estados Unidos) - Mostra do Serviço de Divulgação Cultural dos EUA
1984 - Fortaleza CE - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas
1984 - Goiânia GO - Salão Nacional de Artes Plásticas de Goiânia
1984 - Recife PE - 37º. Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Prêmio Aquisição - pintura
1984 - Rio de Janeiro RJ - 7º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1985 - Campinas SP - 12º Salão de Arte Contemporânea de Campinas
1986 - Curitiba PR - 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, no MAC/PR
1986 - Porto Alegre RS - Projeto Releitura, no Margs
1987 - Assunção (Paraguai) - 1ª Semana de Arte Brasileira, na Galeria do Centro de Estudos Brasileiros - artista convidada
1987 - Buenos Aires (Argentina) - 1º Salão Latino-Americano de Arte Sobre Papel
1987 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1989 - Havana (Cuba) - 3ª Bienal Internacional de Havana
1989 - Milão (Itália) - Rassegna Internazionale di Libri d´Artista, no Milan Art Center
1989 - Porto Alegre RS - Arte Sul 89, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
1989 - Porto Alegre RS - Mostra, na Galeria Arte & Fato
1990 - Porto Alegre RS - O Vermelho e o Negro, na Galeria Arte & Fato
1991 - Florianópolis SC - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFSC
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, na Casa de Cultura Mário Quintana
1991 - Porto Alegre RS - Arte Gaúcha Contemporânea, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Chico Lisboa Agora, no Margs
1991 - Porto Alegre RS - Dores e Cores, no Margs
1991 - Salvador BA - Arte Gaúcha Contemporânea, na UFBA
1991 - São Paulo SP - Projeto: 100 anos de Paulista, na Casa das Rosas
1994 - Madrid (Espanha) - Artistas Iberoamericanos, na Iberoamericana Sala de Arte
1994 - Porto Alegre RS - Coletiva, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
1998 - Porto Alegre RS - Projeto Rio Grande da Arte, no Instituto Estadual de Artes Visuais
1998 - Caxias do Sul RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Passo Fundo RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Pelotas RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Rio Grande RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santa Maria RS - Projeto Rio Grande da Arte
1998 - Santo Ângelo RS - Projeto Rio Grande da Arte
2000 - Porto Alegre RS - [bah]Zart Contemporâneo, na Galeria Chaves
Fonte: LENIR de Miranda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 25 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Lenir de Miranda | Site Oficial
Formação
2003 Mestrado em Poéticas Visuais. Instituto de Artes UFRGS. Porto Alegre, RS.
1994 International Seminar on Educational Systems in Israel. Kibbutz Chain. Israel Government.
1989 Artista e Professora Visitante / School of Art and Design, Sunderland Polytechnic, England.
1985 Especialização em Artes Plásticas, Teoria e Práxis. Pontifícia Universidade Católica do RS. Porto Alegre, RS.
1983 Especialização em Desenho. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas, RS.
1980 Especialização em História da Arte. Instituto de Letras e Artes. Universidade Federal de Pelotas - UFPEL.
1975 Graduação em Comunicação Social. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
1967 Graduação em Pintura. Escola de Belas Artes, Pelotas, RS.
Trabalha com pintura, desenho, imagens digitalizadas, vídeo, poemas, livros-de-artista, instalação. Vários prêmios de pintura e desenho, no Brasil. Exposições coletivas, individuais e obras em acervos públicos, no Brasil e exterior. Citações em bibliografias.
Resumo Exposições Individuais
2014 - Fragments of Land (painting, installation). State Darwin Museum, Moscow, Russia.
2012 - Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Terra Desolada (pinturas, fragmentos, instalação). Artista convidada. Porto Alegre, RS.
2011 - Centro Cultural Da Maya. Quem Vem Lá? Pinturas, livros, Passaporte de Ulisses. Bagé, RS.
2009 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS). Pinturas Meu Nome é Ninguém. Lançamento de livro homônimo. Porto Alegre, RS.
2008 - Instalação Fastfoods com Poemáticos Conturbados, vídeo, pintura. Museu de Arte de Joinville, SC. Galeria Breche. Pintura 20 anos, artista homenageada, Prefeitura Municipal de Rio Grande, RS.
2007 - Instalação Visão Pós-traumática do Déjeuner sur l´Herbe. Paço Municipal, Sec. Municipal de Cultura, Porto Alegre.
2004 - Passaporte de Ulisses e Uma Sobra de Guerra. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre e Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas.
2003 - Lançamento do Passaporte de Ulisses. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre - RS
2001 - Pinturas, livros, joyceanamente. Galeria Obra Aberta, Porto Alegre. Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, Livros-de-artista, Passo Fundo, RS. Artista convidada para abertura Galeria Sete ao Cubo, Secret. Municipal de Cultura, Pelotas, RS. Livros-de-Artista.
1998 - MARGS, Porto Alegre. Lançamento livro Fim de Expediente (literatura/ artes visuais). Feira do Livro de Porto Alegre, Livraria Palmarinca, livro Fim de Expediente.
1994 - Solar dos Câmara, Diretoria de Cultura, Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Livros de Artista e lançamento do livro Autobiografia de Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS, Porto Alegre. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Pelotas, RS.
1990 - Galeria Arte & Fato. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Curitiba, desenhos. Curitiba, PR.
1988 - Projeto ULISSES. MARGS, Porto Alegre, RS. Gallery 2, Vardy Arts Foundation. Sunderland, Inglaterra. Centro Lavoro Arte. Milão, Itália. Micro Hall Art Center. Edewecht, Alemanha.
1987 - Espaço Oficina. Pinturas. Rio Grande, RS.
1986 - Galeria Arte & Fato. Pinturas. Porto Alegre, RS. Fundação Cultural de Mato Grosso. Galeria de Arte Dalva de Barros. Pinturas. Cuiabá, MT.
1984 - Itaú Galeria, Desenhos. São Paulo, SP.
1983 - Desenhos série Sobre/vivências. Universidade Federal de São Carlos, SP. Itaú Galeria, São Carlos, SP. MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.
1982 - Espaço Livros & Artes. Desenhos. Porto Alegre, RS.
Resumo Exposições Coletivas / Premiações / Outros
2014 - O Cânone Podre. Museu de Arte do Rui Grande do Sul. Porto Alegre – RS.
2013 - Forapalavradentro. Espaço Cultural Campus II – Teatro FEEVALE. Novo Hamburgo - RS. A Medida do Gesto. Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - MACRS. Porto Alegre – RS. Lugares-Livros Exposição Feira 2013. Secretaria Municipal de Cultura. Pelotas – RS Oceans Project – Tania Kovats. Fruitmarket Gallery. Edinbugh, Scotland.
2012 - Fundação Vera Chaves Barcellos. Des / Estruturas. Sala dos Pomares. Viamão, RS. Assista Museu de Arte do Rio Grande do Sul. O Museu Sensível. Porto Alegre, RS. 20 Anos do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul - O Triunfo do Contemporâneo. MAC-RS e Santander Cultural. Porto Alegre, RS.
2011 - 8º Bienal do Mercosul. Além Fronteiras. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Porto Alegre, RS. Brasil. Fundação Vera Chaves Barcellos. Pintura - da matéria à representação. Viamão, RS. Museu de Arte Contemporânea. A Medida do Gesto. Porto Alegre, RS. Time/Bank. Stroom Den Haag. MASS MOCA – Massachusetts Museum of Contemporary Arts, EU. An exchange with Sol Lewitt. Fundação Vera Chaves Barcellos. Um Ponto de Ironia. Viamão, RS. Museu de Arte do Rio Grande do Sul -MARGS. Labirintos da Iconografia. Porto Alegre, RS. Book Aguilar Branch of the New York Public Library. The Last Book (L. Camnitzer). NY, EU.
2010 - 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Terreiro Longe Daqui, Aqui Mesmo (curadoria Fábio Morais/Marilá Dardot. Livros de artista. São Paulo, SP. Pintura: da matéria à representação. Fundação Vera Chaves Barcellos. Viamão, RS. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Zentral Bibliothek, Zurich. Livros de Artistas. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, RJ.
2009 - NBP (R. Basbaum) 7ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre. Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro. Aluga-se. Galeria Subterrânea, Tempo Contaminado, Porto Alegre. MAC, Museum. Wien, Áustria. Colors Book-Fabrica. Galeria da Associação Cultural Brasil/E.U. Doce de Santo, Salvador, BA. Exposição Perspectivas do livro de artista. Seminário de Pós-Graduação da EBA/UFMG, Belo Horizonte, MG.
2008 - El Último Libro. Biblioteca Nacional de la República Argentina, Buenos Aires. El Ùltimo Libro (L. Camnitzer). Appel Project, Florean Museum. Baia Mare, Romania. VazioOff Bienal Online (TomLisboa), Curitiba, PR. Feevale, Novo Hamburgo, RS. IX Congresso Internacional/Pesquisadores da Crítica Genética – palestra (O Cascudo na Bandeja), Universidade Fed. do Espírito Santo, Vitória. ArtLine, Pinturas, Kiev, Embassy of Ukraine.
2007 - Colóquio Internacional Mestiçagens na Arte Contemporânea: Fastfoods com Poemáticos Conturbados. MARGS - Porto Alegre, RS. Associações Livres - Ler é Acreditar. Curadoria Gaudêncio Fidelis. Museu de Arte Contemporânea. Porto Alegre, RS. Documenta12 Magazine Online, Kassel, Alemanha. Vídeo: Post-Traumatic Vision of Déjeuner sur l´herbe (après Manet).
2006 - MEMEFEST 2006 International Festival of Radical Communication. Eslovênia, Canadá, Colômbia, Emirados Árabes, Brasil. XX Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
2004 - Bloomsday, 2004. Talismã Batatal. 3º lugar júri popular. Oficcina Multimedia, Fund. Educ. Artística. Belo Horizonte, MG. São Paulo 450 anos. SESC Pompéia, SP.
2002 - Ulysses´s Passport. XVIII Internat. James Joyce Symposium, Bloomsday. University of Trieste, Itália. Angústia de um Tomate e Trajetória Artística com a Nostalgia de Ulisses: palestra. Instit. de Letras e Artes. UFPEL, Pelotas. VII Biennial of Experimental Poetry, México City.
2001 - XV Festival de Arte Cidade de Porto Alegre. Secr. Municipal de Cultura.
2000 - Olhando Desenhos. MARGS, Porto Alegre, RS. Desenho e Novas Linguagens. MARGS, Porto Alegre, RS.
1999 - MAC, Mostra itinerante. Museu de Arte Contemporânea. Instituto Estadual de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1997 - Bloomscyberday 97. The Irish Times on the Web. Dublin, Irlanda. Folha de São Paulo, SP.
1994 - Sala de Arte Iberoamericana. Madri, Espanha. Nossos bosques têm mais vida? Museu de Arte do Rio Grande do Sul MARGS e Parceria Internacional de Museus.
1993 - Salão Latino-americano de Artes Plásticas, Santa Maria, RS.
1992 - 360 Graus de Pintura Agora. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre. Arte Contemporânea. Edel Trade Center, Instit. Est. de Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1991 - Último Decênio Dores e Cores. MARGS, Porto Alegre, RS. Arte Gaúcha Contemporânea, Univ. Federal da Bahia, Salvador, BA.
1990 - RS sobre Papel, MARGS, Porto Alegre, RS. IV Festival de Arte de Porto Alegre. Secretaria Municipal de Cultura, Atelier Livre. Ministrante de curso. Porto Alegre, RS.
1989 - III Bienal de Havana, Cuba. Rassegna Internazionale di Libri d`Artista, Milan Art Center. Milão, Itália. Conselheira (ad hoc) FAPERGS, Artes Visuais. Porto Alegre, RS.
1988 - Salão de Arte Contemporânea, Sto. André, SP. Projeto Ulisses/mail-art. MARGS, Porto Alegre, RS. Galeria Metropolitana de Artes, Recife, PE. .
1987 - Salão Latino-americano Arte sobre Papel. Buenos Aires, Argentina. Olhar Contemporâneo. Museu de Arte Contemporânea, Porto Alegre, RS. Releituras 86. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre, RS.
1986 - Mostra do Desenho Brasileiro. Curitiba, PR.
1985 - Escrituras e Caligrafias. Funarte, Rio de Janeiro, RJ. Salão de Arte Contemporânea. Campinas, SP. 8º Salão Nacional de Artes Plásticas. Funarte. Rio de Janeiro, RJ.
1984 - Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, PE. Prêmio Aquisição Pintura. Salão de Arte Contemporânea. Prêmio Aquisição Pintura. Piracicaba, SP.
1983 - III Salão de Arte de Sta. Maria. Menção Honrosa Desenho. Santa Maria, RS. Arte sobre papel. Intercâmbio RS/Indianópolis, USA. Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS. Porto Alegre e Indianópolis, Lafayette, Washington DC (USA).
1980 - IV Salão de Artes Plásticas, Pelotas, RS. Menção Honrosa Desenho. Salão Paranaense. Curitiba, PR. Prêmio Assembléia Legislativa - Desenho. I Salão de Arte Cidade de Novo Hamburgo, RS. Prêmio Aquisição Desenho. II Salão de Arte de Santa Maria, RS. Menção Honrosa Desenho. Ingresso na Univ. Federal Pelotas-UFPEL, ingressa como professora.
1972 - I Salão de Artes Plásticas de Pelotas. III Prêmio Pintura. Pelotas, RS. II Bienal Nacional de Artes Plásticas. São Paulo, SP.
Textos
Há algum tempo envolvido com livros, textos e edições muitas, cultivava e seguia disfarçando uma vontade de ver editado em Pelotas um trabalho que ousasse diferenciar o que tem acontecido, tanto na forma, como em conteúdo. Um livro de forma (quase) quadrada por que não? De conteúdo que muito bem poderia estar noutro meio de expressão cultural – por que não? – e a autoria fosse de alguém cuja postura, proposta e talento não se submetessem ao conforto de uma idéia e à vaidade de escrever um livro – por que não?… Já perceberam, então, porque estou com Lenir nesta sua obra: simplesmente por que Lenir e tudo a que está se propondo enquadra-se perfeitamente no que nos faltava. E se assim é, tê-la com o selo de nossa editora é como sentir os prazeres da Pasárgada, ou arriscar os extremos e as surpresas de uma Liliputh… Foi um caso de sintonia quase perfeita (e digo quase porque, se total, talvez não precisas se acontecer), já que tanto já sei e espero do que ela traz, que tenho certeza, Lenir, vocês, eu, nós, todos sairemos acrescidos. Lenir reinventa a experiência européia do livro-de-artista, e nestes primeiros produtos ela mesma se envolve, diagrama, imprime e supervisiona a encadernação, dando de si e de seu tempo, à procura do produto final. E Lenir, da idéia do LIVRO DE ARTISTA, torna-se a ARTISTA DO LIVRO, guardando a simetria de um livro, mas trazendo esta proposta nova/antiga (papiro/manuscritos) num momento em que estamos todos ávidos por algo de essência: a essência do artista na sensibilidade do fruidor.
ps: Sobre Lenir e o que ela admite, gosta, empreende, inquieta ou intui, ver neste livro na sequência das páginas. Muito de Lenir, pouco sobre Lenir.
A integração não tem a ver com a ilustração da escrita pela imagem, nem com a “explicação” da imagem pela escrita: elas andam juntas, correspondem-se sem se explicarem mutuamente, complementam-se sem se fundirem. Cada linguagem permanece íntegra nela mesma, num diálogo tenso com a outra; tenso, porque não se traduzem mutuamente; porque não se equivalem; porque seus elementos constitutivos são únicos e irredutíveis um ao outro. Segundo Foucault,
“ … a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.” (Foucault, 1992 , p.25).
Não há fusão entre texto e imagem, mas há “contaminação” de um pelo outro. Eles não se justapõem apenas, como em livros ilustrados tradicionais, mas se sobrepõem. A escrita é recoberta por manchas de tinta, ou por grafismos gestuais. O desenho possui, frequentemente, frases ou palavras soltas: nem títulos, nem explicações, mas elementos formais que interagem com as imagens:
“A imagem vai nascendo, e ela mesma exige respostas. Vou traçando e vou enxergando. A figura fica ali, me olhando, me desafiando. Ou eu acho o que ela quer, ou perco tudo.” (Miranda, 2000)
Perde tudo, ou se perde? A arte é como a esfinge: “decifra-me, ou te devoro.”
Lenir anseia pelas palavras como anseia pelas formas, cores, gestos que a pintura e o desenho permitem. Seu Ulisses é o herói narrado, sua trajetória, mas é também o mundo de paisagens, cenas, figuras que a própria narrativa desencadeia em sua imaginação. Assim, o oceano: que vai e vem, num retorno cíclico, tal como Ulisses. O círculo da vida, representado pelo fluxo da água, que, no seu ir e vir, nunca é a mesma. Do mesmo modo, o grafismo que a representa nunca é igual, pois o gesto sempre muda, de forma quase automática, inconsciente. A água é que conduz a mão, como as ondas conduzem Ulisses. O Ulisses de Lenir é seu Ulisses, que só existe na totalidade da palavra com a imagem. De suas palavras com suas imagens. É sem dúvida por isso (sendo a arte, sempre, uma forma de auto-retrato), que, neste último livro, Lenir substituiu o Ulisses-Leopold Bloom de James Joyce por Agnes Bloom. O outro lado do mito, sua face escura. O feminino, identitário e marginal simultaneamente. Dual: mito e anti-mítico, herói e anti-heróico. Aquele que se desloca aleatoriamente, mas não cumpre uma trajetória circular. Aquele que espera: é sempre o feminino que espera, que conta o tempo (o que passou, o que virá, o que falta passar). Aquele que se ocupa dos pequenos fatos do cotidiano. Aquele que exerce a repetição, essa sim, efetiva, das incontornáveis tarefas do dia a dia.
O CORPO-ESCRITA, O CORPO ESCRITO
A escrita sempre forma um corpo. Conjunto de signos que imprimem sobre o suporte uma tessitura, como uma tapeçaria. A mão que escreve, e o olho que lê executam um movimento regular, linear, rítmico, como tecendo e retecendo um corpo feito de tramas.
No caso deste livro, esse corpo é irregular: variam os espaçamentos, os tipos dos caracteres, seu tamanho; às vezes, a escrita manual rompe a regularidade das letras impressas e introduz o tocante tremor do corpo que cria, o corpo da artista.
Rasuras, vazios, notas à margem, sublinhas também constituem esse corpo textual, negando sua vocação à uniformidade e evidenciando-o como um organismo vivo: com suas cicatrizes, imperfeições, irregularidades. Ele reconstitui a gênese dos mitos: a narrativa oral, com seus ritmos irregulares, suas ênfases, suas pausas. E a presença indispensável do corpo que narra. A narrativa de Lenir, mesmo quando impressa em caracteres mecânicos, cria um ritmo que evoca os grafismos de seus desenhos: rapidez, urgência, a necessidade de registrar à medida que a idéia “sai” de sua mente e escorre para a mão.
Ele traduz, assim, com mais força, o corpo escrito, de Agnes. Exposto com seus cansaços, seus fluídos e fluxos, sua pele e pêlos. Desvelado com seus sentimentos, reflexões e observações. Desvendado, sobretudo, por seu olhar.
Esse corpo olha os dos outros e é por eles olhado. Vê-se refletido no espelho de um outro passageiro do ônibus, bem como nos vidros embaçados das janelas. Encontra-se projetado do corpo da artista e rebate em nossos próprios corpos, nós leitores – espectadores – voyeurs. Todos somos Agnes, todos somos Ulisses. A névoa de Ítaca nos invade a todos.
Agnes está nas quinas dos muros, bem como nas ondulações das águas. A cela e o mar representam, para Lenir, duas simbolizações antagônicas do corpo, encerrado e livre simultaneamente. O corpo está, pois, presente (embora, não figurado) nos desenhos desses lugares”.
Agnes, secretamente, transborda.
Como Lenir. Como todos nós, que sempre tentamos ir para muito mais além dos limites de nossos corpos: através dos mitos, ou do imaginário, ou da arte — Icleia Cattani (CATTANI, Icleia. A Escrita Pintada, A Pintura Escrita. Catálogo da Exposição Pintura Livro Joyceanamente. Galeria Obra Aberta : Porto Alegre, 2001).
"Sobre isso, e fomentando os debates, que são o centro do próximo capítulo, o artista plástico, curador independente e professor do Instituto de Artes da UFRGS, Paulo Gomes, indica que esta limitação do edital parece “bairrista”, excluindo boas exposições da possibilidade de serem agraciadas com o Prêmio.
[…] Tem um critério de bairrismo no Prêmio que eu acho lamentável; por exemplo, artistas que não moram em Porto Alegre, mas que são do Rio Grande do Sul, não concorrem a prêmios, o que eu acho, de uma certa maneira, injusto. A gente não pode colocar Porto Alegre como um centro, mas como é um Prêmio do município, a justificativa é que é um prêmio do município, então até aí eu aceito. Só que houve duas exposições este ano [referindo-se a 2009] que foram excepcionais e que não concorreram ao Prêmio: a exposição da Nara Amélia, de gravura, lá na Usina do Gasômetro, e a exposição de pintura da Lenir de Miranda, que é de Pelotas, no MARGS. Elas não concorreram ao prêmio, o que eu acho injustiça. A Lenir fez a melhor exposição de pintura nos últimos dez anos em Porto Alegre. Então, são os problemas dos limites municipais do Prêmio.
Acerca do exemplo levantado por Gomes, vale comentar que, na noite de premiação do quarto Açorianos, no dia 8 de maio de 2010, a artista plástica Maria Tomaselli, agraciada com o Destaque de Melhor Exposição Individual pela mostra Magia da Semelhança, junto ao Margs Ado Malagoli, também se manifestou, sugerindo, na sua breve fala, uma certa “injustiça”, pelo fato de que nem Lenir de Miranda, nem Heloisa Schneiders (exposição póstuma também no Margs), haviam sido indicadas na categoria Pintura (as três artistas haviam exposto no Margs no mesmo período, entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010). Tomaselli provavelmente se manifestou dessa forma, inclusive, por desconhecer o edital; o fato é que a maioria dos artistas, agraciados ou não, ignoram as “normas” do Açorianos, bem como os critérios dos membros do júri.” — Yasmine Mazzoni (Monografia. Instituto de Artes -UFRGS. Porto Alegre, 2009).
O Contexto dos Livros de Lenir de Miranda
O texto que tem acompanhado as artes visuais no século XX, por sua presença ou pelo enaltecimento de sua ausência, é uma entidade ambígua, uma ferramenta pouco ergonômica. Ele faz a apologia do artista, ele o acossa, julga o produto artístico, busca uma distância crítica… Também pode fazer parte da obra… ou não. Caso se proponha uma situação primeira, onde a escrita legitima a arte (ou faz seu comentário escrito), imediatamente se imporia uma segunda situação, em que o artista visual se apropriaria do texto (descritivo e narrativo). O inter-relacionamento dessas situações deverá gerar uma terceira, onde será a obra que perverterá a escrita. E cada vez mais o artista avançará até o epílogo adivinhado: a quarta situação, a escrita expulsa de seu próprio suporte. E, enfim, o que se tem é o volume. Em que região entre esses quatro vértices estamos nós, que temos as páginas de Lenir de Miranda nas mãos? E elas mesmas, as páginas de Lenir, onde estão?
Existem ocasiões em que é prudente reduzir o espaço gasto com palavras. Vou omitir as perguntas e deixar que as dúvidas enfeitem minhas convicções. Porque hoje existem tessituras mais ricas entre os mundos da estética literária e da plástica, queiram ou não os escrevinhadores. As inteligências que constroem a teorização do objeto artístico do agora são mais amadurecidas. São maiores e mais conscientes que suas antecessoras. O envolvimento é mais comprometido. Por outro lado, esse espaço disponível à reflexão
textual às vezes deixa a mostra certa escrita gratuita, apressada pela ansiedade. Talvez porque a palavra que julgava e interpretava a arte agora é sua refeição diária, comum, degustada em círculos maiores. [….]
No Brasil, o livro de artista estrito (um produto diferente do livro-objeto, ainda que ambos pertençam à grande categoria do livro de artista) teve e ainda tem pouca divulgação. E o livro-objeto, por sua vez, sofre da pequena atenção recebida dos próprios artistas. É nesse contexto semi-árido que os trabalhos de Lenir de Miranda se multiplicam, indiferentes ao desamparo crítico que isola os fazedores de livros. A maior parte da produção da artista é de livros-objetos em exemplares únicos, produzidos a partir de meados dos anos 90, ainda no refluxo da arte matérica.
Apresentam-se como obras quase inteiramente plásticas. Têm normalmente a materialidade e a sensualidade como características dominantes, com a presença eloqüente de uma ampla gama de pigmentos e substâncias (com destaque para a cera de abelha e a laca), mesclando, manchando ou revestindo materiais como o pano, a lixa ou a madeira. Mas neles o texto não é integralmente ausente. Aqui e ali aparecem frases esparsas, às vezes parágrafos inteiros, associados direta ou indiretamente às construções literárias de James Joyce (Ulisses). Também podem ser encontradas outras anotações ou anexações físicas, como tíquetes, rótulos ou outros impressos, além de objetos diversos, como dados de jogar, arames, interruptores elétricos, enfim tudo que se puder imaginar. Os livros, aqui, são sobretudo coisas. Seus títulos são por vezes mais ou menos objetivos, citando suas características (Livro da pintura ou Livro com funil de Buchner e decantação); outras vezes são subjetivos, embora proponham a sua função (Livro para ligar ou Livro para Beuys ver); ou são francamente ambíguos (Livro com todas as páginas oceânicas ou Livro induzido). Todos menos um são peças únicas.
Autobiografia de todos nós foi produzido para acompanhar a exposição homônima de livros-objetos únicos em 1994, dentre eles alguns dos já citados. Poderia ser originalmente um catálogo. Mas por permanecer vivo independente da exposição ele se recusa como tal. E essa recusa é sua mais interessante característica. Ele se impõe como livro de artista stricto sensu, múltiplo e satisfeito com sua condição simultânea de obra gráfica e plástica. A totalidade (a proposição) de sua tiragem é, também, coisa. Essa é uma dimensão exclusiva do mundo industrial, aqui subvertida ao propósito artístico. Ou seja, ter uma tiragem é um propósito estético. A relativização do industrial fica estabelecida pela inclusão em cada exemplar de fragmentos de tecido pigmentado e/ou tratado com cera. Essa indefinição entre o único e o múltiplo retornaria na primeira versão de Fim de Expediente, 1998, onde o texto permaneceria essencialmente imutável em doze exemplares, individualizados por colagens, montagens e pátinas matéricas. Paradoxalmente ou não (para quem visa ao livro semi-industrial) a mão plástica continuava sendo dominadora, muito mais eloqüente que a intenção multiplicadora. Isso se confirmaria pelos exemplares adicionais realizados depois, persistentemente híbridos.
Mal acomodada na sua tensa mas zombeteira insatisfação fim-de-século, Lenir tenta agora uma nova e mais definitiva inserção no mundo plural, deixando o singular no âmbito do ateliê. Talvez intromissão, melhor dizendo, já que prescinde de convite. O trabalho resultante agora é gráfico e industrial, não mais obra única. No seu projeto mais recente ela junta num só volume dois exercícios originalmente avulsos: uma nova versão de Fim de expediente com o inédito A Sinalização. Ambos são produtos da interação entre imagem, texto em prosa e palavra impressa. No primeiro caso o texto é abundante, enquanto no segundo ele é mais escasso, por vezes apenas indicial. Anexado ao conjunto, está um livreto com artigos suplementares, entre eles este que o leitor tem em mãos (ao meu ver intromissões dispensáveis, ainda que possam ter alguma utilidade num ou noutro ponto; de minha parte, eu peço desculpas). A artista quer um público maior, muito maior… e uma arte mais acessível. Com o auxílio do computador, que alternadamente a seduz e irrita, ela digitaliza o que era na sua origem objetivamente real e manipulável. Levada à condição de ser agora apenas uma etapa de um processo mais complexo, a superfície pictórica matriz, com panos, pigmentos e colagens, se submete ao achatamento inerente à página gráfica, unidade plana multiplicada pelos rolos de impressão. Como afirmação da bidimensionalidade, a imagem resultante correria o risco de ser apenas ilustração, o que infere uma relação hierárquica da página, principalmente quando acompanhada de um bloco de texto. Lenir não permite que isso aconteça, ao menos até a fase de impressão doméstica artesanal com impressora a jato de tinta (sabemos que uma imagem pode sofrer sérias alterações na passagem de um processo de provas para sua impressão final em offset). As cores obtidas nos seus primeiros protótipos são vívidas, recriando as texturas originais. Não acontece aqui uma emulação pela emulação, porque o recurso à mídia é um propósito. A consciência da multiplicação é patente, mesmo que seja buscada a fidelidade de reprodução. Neste aspecto, quase que se pode sentir a textura graxa da parafina utilizada na composição original. O plano é, por isso, mais que afirmado, sublinhado. A página é página mesmo, despretensiosa e amiga de quem a manuseia, mas impõe-nos o poder de citação das tintas que as tocaram. A letra impressa é macerada nas manchas de cor (originalmente laca, em muitos casos). Quase morre afogada. As colunas de texto ou são imagens muito pobres para sobrepujarem o estilo tenso do traço de Lenir, ou são feridas até quase a morte por traços, nódoas e as próprias marcas de sua colagem.
Reitero o afirmado acima. A qualidade tátil da imagem impressa é resultado do profundo desejo de que o público compreenda a origem plástica do projeto. A imagem se torna presente em três estados. Ela existe da origem plástica, matérica, com textura e cheiro, um evento da percepção imediata. Ou seja, a imagem e sua coisa. Ela é, então, digitalizada, passando por uma existência virtual, despregada do objeto. Importante acrescentar que Lenir usa a própria matriz no digitalizador, sem a intermediação da câmera fotográfica: o vidro do scanner toca por nós a epiderme original. A imagem só existirá se for seguida uma série de procedimentos de uso do equipamento. Será reconstruída no monitor ou em sua impressora, aditiva ou subtrativamente. E estará apta a ser traduzida para o fotolito de artes gráficas, podendo antes disso sofrer alguns retoques e pequenas alterações. Finalmente impressa, ela ressurgirá exponencialmente em seu terceiro estado, como estampa, estando o livro aberto aos nossos olhos ou fechado em algum canto. Mas multiplicado em cem ou em mil, mesmo que seja praticamente impossível reproduzir toda a tessitura do apelo tátil e visual característico na obra de Lenir.
Mas a artista quer chegar aos nossos olhos (e às nossas mãos). Restaria como possibilidade uma tradução? Melhor seria chamar de versão. A artista quer e parte em nossa direção a partir de suas próprias ferramentas. A obra é outra, com identidade própria, mas sem perder seu espírito. Alma e corpo não podem estar separados, não importa suas falências, porque juntos precisam sobrepujar suas próprias razões, a consciência de sua possível comunhão quase eterna.
O livro de Lenir é a reconstrução de seus muitos espelhos. Porém é mais estratificado, com muitas camadas de espectros, como se fossem tomografias de um espaço comum ao seu universo pessoal e ao nosso mundo cultural. Ele é o duplo que com as apreensões da artista dividiu a gênese e que conosco agora troca olhares, emitindo seus afetos em nossa direção. É a imagem que pelo processo pode ser distendida e reelaborada, pode ser prolixa, reiterativa. Insiste (suplica) pela nossa atenção. Ela quer ser um agora, sim, físico e antropológico, mas também quer metaforizar muitos extratos do tempo. Quer (precisa) a nossa companhia. De todos nós. E que sejamos muitos. Mas certamente seu livro não traz a mera confidência, e sim a cooptação íntima. Lenir nos quer ao seu lado, dentro de seus mares perspectivados, por vezes inutilmente contidos por linhas escuras, em vão decididas em delimitar compartimentos vitais […]
Cindida entre a memória viva do Canal de São Gonçalo e a memória emprestada dos canais de Dublin. Quantos mares entre eles! Para pictografá-los, Lenir escolheu uma mídia que por si só já é mal entendida, mas que gosta e se orgulha dessa situação torta. O lugar artístico do livro de artista é o lugar das margens de um universo de duplos ora em cisão, ora em comunhão. Dois como par ou como a soma dos ímpares. Onde se pode perguntar se a função é mesmo pervertida nos objetos híbridos e se a dúvida não seria a melhor e a mais desejável das respostas.
(fragmento do livro-texto de A Sinalização – edição de Lenir de Miranda)
[…] Lenir de Miranda, primeiramente desenhista e pintora, ela parece ter sido uma das mais prolíferas produtoras de livros de artista do sul do país nos anos 90. […]
A cumplicidade inevitável entre o homem e o livro seria uma armadilha? E ao que é da psique deve ser permitido o toque? […] talvez vislumbremos aí a alma metafísica dos livros de Lenir de Miranda.
(fragmento do livro A Página Violada)
Porto Alegre, 2000
Fonte: Lenir de Miranda Site Oficial. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Sobre Lenir de Miranda | MAC RS
Pintora e desenhista. Lenir Garcia de Miranda formou-se em pintura em 1967 pela Escola de Belas-Artes D. Carmem T. Simões, Pelotas, e em comunicação social pela PUC/RS, Porto Alegre, em 1975. Faz cursos de especialização em desenho e história da arte na Universidade Federal de Pelotas - Ufpel, e, em 1989, trabalha como professora visitante na School of Art and Design, Sunderland, Inglaterra. Mais tarde, torna-se professora na Ufpel. Paralelamente aos estudos e à carreira universitária, expõe em salões de arte e mostras individuais, sendo premiada em duas edições do Salão de Artes Plásticas de Pelotas, 1972 e 1980, no 39º Salão Paranaense, Curitiba, 1982, e no 37º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Recife, 1984. Em 1994, lança o livro Autobiografia de todos nós, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Pelotas. Em 1998 lança o livro de artista Fim de Expediente, no Margs, Porto Alegre.
Fonte: MAC RS. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
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Entrevista Lenir de Miranda |
1. Por que você escolheu, num momento específico de sua vida artística, o livro de artista?
Não lembro qual foi o primeiro livro que fiz. Mas em 1994 fiz um grande livro para a exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Nossos bosques têm mais vida?, dentro do Programa Parceria Internacional de Museus, evocando a consciência ecológica. Neste livro (80x60x17cm) está escrito o poema de Gonçalves Dias que dá nome à exposição, tendo além das pinturas e grafias um visor mágico com fragmento de planta. Chamou-se Livro do exílio e da nostalgia. O que motivou foi a vontade de experienciar algo mais íntimo que a simples pintura bidimensional. Também a possibilidade de exploração manual, uma viagem, a criação do tempo na obra. Isso era o passar de páginas num livro de artista.
Vale acrescentar a informação de que trabalhei com artes gráficas, planejamento visual e supervisão gráfica, que é uma experiência apaixonante ver o surgimento do material impresso (por uns dezesseis anos). Transpus, também, essa experiência para uma forma estética, com vida própria, em seu espaço sígnico, de início utilizando mais a pintura, o desenho, colagem de objetos aparentemente desconexos, embora se saiba que sempre existem os nexos secretos.
2. O período de tempo em que você se dedicou ao livro de artista está encerrado?
Não. Estou totalmente envolvida com livro de artista neste momento. Nesta cultura cada vez mais saturada pelos meios eletrônicos de comunicação instantânea o livro de artista é o objeto paradoxo que convida o homem a uma pausa diante de si mesmo ao convidá-lo a penetrar na sua trama íntima (guiado pelo fio de Ariadne?).
3. Que artistas influenciaram o seu trabalho?
M. Duchamp ensinou-me que a obra se dá como forma de conhecimento, uma gnose, um procedimento ético.
J. Beuys que dizia que toda obra de arte intenta demonstrar ao homem sua própria imagem (por isso falo em autobiografia de todos nós como título de meu livro sobre os meus vinte livros de artista). Rauschemberg, com suas assemblagens, unindo a arte à vida. Anselm Kiefer. Iberê Camargo, quando estudava pintura em Pelotas. Sempre fui uma expressionista.
4. Qual o papel de James Joyce nas suas obras?
Se fores na Biblioteca da Faculdade de Direito de Pelotas, encontrarás livros de literatura internacional cujas fichas contêm minha assinatura desde 1967. Naquela época eu conheci J. Joyce. Ulysses. Era a forma de literatura que eu queria descobrir, intrigante, que me fazia criar uma infinidade de coisas em minha mente. Era uma literatura que extrapolava os limites da realidade banal das historinhas. Kafka, Eliot e alguns malditos marcavam encontro comigo mas Joyce predominava. Ele proporcionava uma experiência interativa única, ao “fluxo da consciência”, que me levava a completar a obra com imagens que nem saberia afirmar de onde vinham, elas aconteciam subconscientemente. Isso era Ulysses para mim, que trabalhava com a visualidade, algo poderoso em comunicar vivências míticas dentro de mim numa pluralidade de outras vivências sobrepostas, cotidianas, da minha realidade contemporânea.
A transposição da linguagem verbal para a plástica se faz através da sobreposição, da mescla de técnicas, conjugação de vários elementos como desenho, pintura, colagem, ao fluir das exigências da plasticidade em formação ou de uma ideia, um conceito em desenvolvimento.
5. O conjunto de vinte livros da sua exposição de 1994 em Porto Alegre foi elaborado a partir de um projeto ou método?
Cada livro ia surgindo a partir das suas exigências íntimas, próprias de um ou de vários dos componentes iniciais que ditavam suas solicitações plásticas. Cabia a mim descobrir qual a reposta mais adequada diante da forma do livro que se revelava. Parafraseando F. Bacon, que disse que a pintura exige do artista a sua solução.
Assim, no livro, o tempo e o espaço justapostos e sobrepostos vão criando infinidades de outras realidades, que irão acenar à participação do “leitor” ao qual ele será entregue. O que determinou a criação destes vinte livros foram suas relações sintáticas, ocorridas em cada livro individualmente, elementos significantes inseridos com outros elementos, formando um código rico de ambiguidades.
6. Por que você optou por peças únicas?
Seu mistério não deverá ser duplicável, nem sua solidão, assim vejo o livro de artista como peça única, algo muito original.
7. Componentes físicos do desenho, da pintura e da escultura, com presença do objeto encontrado, são a marca de seu trabalho. Por que a forma impressa tem presença quase nula?
Nestes primeiros trabalhos, embora a forma verbal possa reforçar as ideias contidas no livro, achei que no momento não eram essenciais aos significados expressos por estar mais ansiosa pelo desenho, pintura e colagens.
8. Como você se definiria formalmente?
Sempre fui uma expressionista, mesmo desde quando nem sabia o que isto representava.
9. Como foi a recepção de seus livros pelo público? [A entrevistada prefere que a resposta a esta pergunta não seja divulgada. Ela relata as dificuldades encontradas nas suas exposições, criticando alguns órgãos ou pessoas envolvidos.]
10. Que diferença você apontaria entre as possibilidades do livro de artista e outros meios tradicionais?
O livro de artista é um objeto ainda estranho, que não se coloca na parede como uma pintura ou desenho. Fica distante, por vezes, como que à espreita, do observador desacostumado com uma obra mais reflexiva, embora se ofereça cheio de possibilidades no espaço tridimensional. Em suas formas interdisciplinares, técnicas variadas, sintaxes inesperadas, mensagens engajadas social, politicamente ou apenas poesia em si mesma, reflexivo, ele deverá se impor cada vez mais.
11. Você gostaria de fazer algum outro esclarecimento?
O livro de artista está envolto na névoa, com algum passado possuindo um elo conosco, como Ithaca avistada ao longe, envolta em névoa, enquanto Ulysses retornava.
Após é necessário vergar o arco de Ulysses, para reconquistar seu território de vestígios misteriosos, completar a face do mito que nos é ofertado e que somente cada um dos espectadores tem a possibilidade de fazer, tudo isto, atualmente, do outro lado da fria e sintética mente eletrônica.
Se me perguntas o que contém cada imagem, já não poderei dizer com precisão, pois elas foram depositadas imagens sobre imagens, signos após signos, algo que foi se perdendo na névoa, mas que é sempre procurado, oculto que está em tantas memórias, imaginários, um desencadeamento sígnico infinito, uma semiose. Eis como surge a linguagem artística, expressa também nos livros de artista.
Assim, voltar ao antigo gesto de volver uma página, descortinar a névoa da memória, envolvendo-se no tato e no tempo proporcionado pelos mais variados elementos, como objetos anexos, desenhos, pinturas, complexas estruturas formais, envolvendo a disposição e o fluxo das páginas dentro da forma de livro, cujo conteúdo foge a objetivas informações. Geralmente um signo em si mesmo, quando se refere apenas às suas questões poéticas.
Mesmo engajado em questões sociais políticas, é um signo, uma obra de arte, que atinge o imaginário do espectador. Ele abre um fluxo subconsciente, uma viagem não proporcionada por meios eletrônicos.
Qual o significado de cada página? Que realidade encerra-se na passagem do tempo de contato como signo exposto no corpo da matéria? Direi que cada livro tem seus mistérios de longas peregrinações, “...após incalculáveis éons de peregrinações, retornaria...” (Ulysses/lthaca-Joyce). Memórias depositadas sob densas neblinas, página após página, acenam ao retomo de cada um de nós, até fluírem com nossas vidas mais cotidianas, mescladas em vivências sobrepostas (técnicas acopladas), linguagem joyceana.
Em cada livro de artista, signo após signo nos fazem estes passageiros, nas justaposições de elementos aparentemente desconexos, desenhos de conotações míticas, emblemático, com objetos banais tais como um coador de cozinha. E assim vai este relato subconsciente em forma de livro de artista. Realmente um desafio ao imaginário acomodado em universos do microchip. O livro de artista é este espantoso encontro entre duas sensibilidades que se cruzam, imediatamente vinculadas, descobrindo-se mutuamente: a do artista e do destinatário, caminhante apressado.
Todavia, aqui não pode-se deixar de falar do paradoxo que se apresenta: ao lado da linguagem cibernética vamos no sentido inverso, no descobrimento desta memória primitiva, um signo precário colocado ao alcance do antigo manuseio. Interferir manual e mentalmente no silencioso objeto ancestral e à espreita, como um objeto soterrado e inacabado, domínio inconsciente à espera do viajante explorador.
Como disse Joyce: todo livro tem seus mistérios.
Não sabemos qual o desfecho deste paradoxo: do universo virtual ao universo tátil do livro de artista sua histórica, seus códigos ancestrais.
Fonte: Issue, publicada originalmente em “A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista”, publicada em dezembro de 1997. Consultado pela última vez em 25 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: Acervo UFRGS. Consultado pela última vez em 28 de abril de 2025.