Maurino de Araújo (Rio Casca, MG, 28 de maio de 1943 — Belo Horizonte, MG, 30 de julho de 2020) foi um pintor e escultor brasileiro. Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente.
Biografia - Museu Afro Brasil
Foi criado em uma família camponesa em Minas Gerais, mas mudou-se para o Paraná ainda criança. Começou a produzir peças de barro na infância em companhia do avô, que era oleiro, e aprendeu a desenhar com a avó.
Nos anos 1950, mudou-se para Belo Horizonte. Entrou em contato com a escultura de Aleijadinho, que o impressionou e o motivou a procurar instrução artística formal na Escola de Belas Artes; contudo, não encontrou cursos de torêutica.
Ingressou no seminário em São João del-Rei (MG), onde começou a praticar a escultura em madeira, abandonando a carreira eclesiástica em 1965 e retornando a Belo Horizonte como artista. Começou expondo na feira de artesanato da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde sua obra ganhou a atenção de críticos de arte.
Em 1977, viajou à África e participou do II Festival de Arte Negra da Nigéria. Sobre esta viagem, afirmou: “ali, parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor”. Realizou exposições individuais a partir de 1972, em Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo, e participou de exposições coletivas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Bruxelas (Bélgica), Lagos (Nigéria) e Nova York (EUA). Conquistou o Prêmio de Aquisição no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e teve uma sala especial dedicada à sua obra na Bienal Nacional de São Paulo de 1976.
Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca.
Ângelo Oswaldo de Araújo define sua obra: “Corpo opulento, cara arredondada, em rebatimentos arredondados, olhos esbugalhados e cabeleira basta fazem parte do vocabulário de formas copiosas praticado por Maurino de Araújo.”
Para Olívio Tavares de Araújo, o que caracteriza sua obra é “a concentração (no sentido químico do termo) e a intensificação de certos estilemas, certos procedimentos formais do barroco, tratados, porém, com uma rusticidade que lhes potencializa o impacto, a dramaticidade, a estranheza. [...] Ao invés de proselitismo faz exorcismo, e sua obra na verdade fornece [...] a atualíssima metáfora de uma humanidade machucada e grotesca".
Exposições
Individual - Centro Cultural Banco do Brasil (São Paulo, SP, 2005)
Coletiva - Bienal Nacional 76 (São Paulo, SP, 1976 )
Fundação Bienal - Panorama de Arte Atual Brasileira (São Paulo, SP, 1981)
Museu de Arte Moderna (Ibirapuera, São Paulo, SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Fundação Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ, 1981)
Um Século de Escultura no Brasil - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1982)
Os Herdeiros da Noite: fragmentos do imaginário negro (Belo Horizonte, MG, 1995)
Centro de Cultura de Belo Horizonte (MG, 1996)
Galeria Tina Zappoli - Natureza Humana (Porto Alegre, RS, 1996)
Sete Mostras Especiais - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 1998)
+ 500 Mostra do Redescobrimento - Fundação Bienal (São Paulo, SP, 2000)
Brazil: body and soul - Solomon R. Guggenheim Museum (Nova York, Estados Unidos, 2001)
Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro - Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 2001)
Humanidades - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2003)
A Reunião - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2005)
Fonte: Museu Afro Brasil,
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Maurino Araujo: Um artista singular
Considerado por muitos como um expressionista barroco, é um artista emocionalmente contemporâneo dos mestres escultores mineiros do século XVIII.
Maurino nasceu na cidade mineira de Rio Casca, como membro de uma família que, segundo ele, fazia de tudo: “Nós plantávamos, fazíamos nossas casas, nossos utensílios e tudo o mais necessário”, diz. Autodidata, foi operário, servente de pedreiro, ajudante de balcão e contador em obras. Sob a influência de seus avós, que eram ceramistas, Maurino começou a trabalhar com o barro. Ainda criança, mudou-se para o Paraná. Distante do barro começou a desenhar; na escola que frequentou no Paraná a professora mandava-o desenhar no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno.
Na sua adolescência o artista descobriu a madeira e logo foi influenciado pelo estilo barroco; no barro não encontrava a firmeza que buscava. Maurino estudou durante seis anos em um seminário franciscano em São João del-Rei-MG e foi ali que conheceu as obras do Aleijadinho. Encantado pela obra do mestre passou a estudá-las minuciosamente. Das expressões ao corte da madeira, nada escapou da sua visão. A impressão foi tanta que ficou gravada em sua mente durante todos esses anos, deixando em suas obras leves resquícios dessa poderosa influência. Em 1965 Maurino se transfere para a capital Belo Horizonte.
Somente em 1970 Maurino passou a se dedicar exclusivamente à sua arte. Como muitos outros artistas brasileiros, começou mostrando suas obras em uma feira de artesanato na belíssima Praça da Liberdade em Belo Horizonte. Gradativamente foi ganhando notoriedade entre os críticos e apreciadores de arte popular. Sem preocupações com estilos ou classificações acadêmicas seu trabalho começa a “ganhar” o Brasil e o mundo. No final da década de 70 sua obra dá uma reviravolta ao conhecer a África. “... ali parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor...”, diz o artista. Hoje é fácil saber o que esse “acordar” fez com a obra de Maurino, basta ver seus trabalhos, neles, a África se expressa em cada corte da madeira.
Sob a influência do tempo em que passou no seminário, a obra de Maurino é formada em sua maioria por esculturas sacras. Com o desencanto que se apoderou dele, Maurino deixou o seminário e passou a se dedicar somente à sua arte. O tema sacro, segundo ele, não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. De enormes blocos de madeira Maurino fazia surgir Santanas, Franciscanos, Cristos e Madonas, esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias. Maurino até hoje trabalha preferencialmente com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se gradativamente a expressão do seu íntimo e uma necessidade do seu espírito. É possível notar em sua obra uma intensa expressão de sofrimento. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras. "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum", diz o artista.
Ao longo destes anos, Maurino expôs seus trabalhos em inúmeras exposições individuais e coletivas pelo mundo e recebeu vários prêmios como: Prêmio Legião Brasileira de Assistência; Destaque nas Artes, promoção Diário Associados (1976); Melhor do Ano, no setor de artes, promoção Diário Associados (1981). Participou da XV BISP (1979); V SAP de BH (1982); I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, Palácio das Artes, BH (1984).
Fonte: The Brazilian Times, por David Faria e Albertina Moura, publicado em 1 de fevereiro de 2019.
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Maurino Araújo: expressionista barroco
I - O Artista
Maurino Araújo é caso único na atualidade plástica. De estilo expressionista barroco, é, artística e emocionalmente, contemporâneo dos mestres escultores do século 18. Não lhes copia o estilo, mas cria e se aprofunda dentro da escola que se afigura viva. A arte contemporânea não o influencia, aflorando em cada peça que executa a vitalidade intensa do barroco.
Deformados, inquietantes, inquisitivos são os santos e as mulheres que suas mãos fazem surgir do cedro ou da peroba. Com sentido profundamente religioso, marca as figuras, em blocos ou isoladas, com o selo místico de sua alma. Contorcidas em proposital deformação, sofrem e gemem ante o peso da própria humanidade.
De onde tamanha carga de sofrimento? Aparentemente, não do tranqüilo e modesto escultor. Não será por passagem direta, sem interrupção, como que um mensageiro de uma época marcada pela intransigência, pelo misticismo fanático e anseios abafados? A mostra palpitante de um mundo que sobreviveu incólume à ação dos séculos.
Ao falarmos das obras de Maurino Araújo, precisamos fazer um breve retorno ao passado, não só pelo percurso estilístico do artista como pela própria formação cultural brasileira. Observamos a presença do barroco que ainda vive e rege a obra de muitos artistas contemporâneos, seja na identificação de estilo, seja no espírito da profunda religiosidade popular vigente em Minas Gerais e no caráter mestiço que o torna singular ante o praticado em diferentes lugares do país.
2 - O Artista e a trajetória
Através deste processo podemos observar a trajetória de Maurino como a da própria história da arte mineira. A primeira fase da obra escultóricade Maurino é intimamente ligada aos cânones do barroco com as rocailles, formas redondas, volutas, dramas. A estilização da forma estética expressionista — carregada de emoção e sentimento. Posteriormente seu processo criativo se modifica ao entrar em contato direto com a arte da Nigéria, sobretudo a praticada em Ifê, durante o período em que esteve na África e também através de livros e visitas a museus europeus e brasileiros.
A descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, ocasiona profundas modificações no cenário brasileiro e para a cultura que começa a se instalar, mescla de portugueses, cristãos-novos, ciganos e a massiva presença de africanos. Com a proibição de se instalarem ordens religiosas nos Campos das Minas Gerais, frutificam as confrarias de leigos brancos, pardos e negros, competindo entre si pelo apuro e desenvolvimento artístico em seus monumentos religiosos. O século 18 se caracteriza socialmente pela presença de mestiços, notadamente mulatos, no ofício das artes — o que representava um caminho de afirmação profissional e de ascensão social para eles, desde que a sociedade não previa o seu aparecimento e tão pouco a sua inserção no meio. Aos negros eram destinados os trabalhos dos eitos e das lavras; aos brancos era vedado, por questão de status "social", qualquer trabalho exercido com as mãos, exceto escrever, atividade considerada como intelectual e proibida aos demais.
Música, arquitetura e escultura religiosas se desenvolveram muito nos séculos 17 e 18 e com elas puderam os negros e, notadamente, os mestiços afirmar sua criatividade na arte e na manufatura, sendo que estas últimas lhes eram oficialmente vedadas pelos Decretos Reais, como o de 20 de outubro de 1621, que dizia textualmente: "Nenhum negro, mulato ou índio pode trabalhar como ourives".
Isso na região das lavras de ouro que usava, entre tantas, a técnica dos bantus na extração de minério e das pedras preciosas. "Além dessas restrições, cuidadosamente desleixadas, aos negros e seus descendentes não foram permitidos o exercício da artesania e o uso de símbolos nas esculturas e objetos de cultos originais. Só lhes restava integrar-se aos trabalhos de talha, esculpir os adornos e imagens ou pintar e dourar os templos e símbolos da religião dominante – a católica. Exatamente por aí, pelas brechas e pelos desvãos por eles criados é que, sorrateiramente, passam a herança simbólica, os caprichos de estilo e a herança humana destes cativos. Todas as leis e contigências vedavam-lhes qualquer expressão de sua gentilidade, forçando-os a integrar-se na religião que se confundia com a própria administração da colônia. Não se tratava portanto, do Brasil em autonomia e nem da África em continuidade" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Essa prática singular confere ao barroco mineiro, com seus artistas e oficiais, uma situação marcante entre os demais.
A forte presença do mestiço ainda é marcante na segunda metade do século 19. Começa a declinar quando o período barroco se obscurece sob o impacto da chegada da Missão Francesa, trazendo o neoclassicismo diretamente ligado à formação da elite européia e de pronto adotado pela nascente "elite" brasileira, como forma de expressão estética refinada em choque com o barroco do próprio "fazer acadêmico", prevendo anterior passagem e aceitação pelos Liceus de Artes e Ofícios ou pela Escola Nacional de Belas Artes. A arte se torna a expressão da nobreza. Poucos países incluídos na Diáspora Africana têm a história de suas artes tão marcadas por homens de etnias negras como o Brasil. Verificamos que as estéticas africanas, ou a sua tradição, constituem uma estrutura fundamental na obra de muitos artistas contemporâneos, assim como na criatividade popular.
Vivendo em meio à época (1960-1970) de pesquisas ambientais, conceituais e outras expressões da arte atual, Maurino conserva-se plenamente integrado ao mais autêntico e real sentido dos ideais estéticos barrocos.
A dramaticidade do corte é acentuada pelo sombrio das cores: o azul profundo, vermelho escuro, o sépia e o marrom invocam antigos dramas perdidos na escuridão dos tempos. "Maurino, em sua despretensão, traz a proposta do santeiro, entretanto, por seu extraordinário talento criativo, ele logo se identifica ao nível do escultor imaginário. Nenhuma de suas imagens imita, ou repele os padrões da hagiografia tradicional. Por ser um expressionista de grandes possibilidades, Maurino revisa o assunto, interpreta um atributo do texto hagiológico e nos oferece uma nova virtualidade da imagem. O acréscimo da policromia de suas peças é a sua contribuição como pintor, perenizando um recurso do expressionismo barroco" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Não apenas o barroco europeu, como cita Clarival, mas também da arte iorubá, notadamente a do século 16 na cidade de Ifé (Nigéria) com seus redondos, volutas, elipses, expressão dramática e emocional irmanados pela sensibilidade criativa de Maurino, nas décadas de 1980 e 1990.
Entre nós permaneceu viva a tradição santeira popular e com seus representantes temos Francisco Fátima de Araújo, Cláudio Gerais, Wilson Serrano, entre outros. O próprio Maurino, em sua primeira fase era, sem dúvida, o santeiro-mor das Minas Gerais. Começando a esculpir em um meio no qual a influência barroca e a arte santeira são historicamente significativas, Maurino não fugiria dessas influências iniciais.
A ênfase na beleza, a impressão de volumes nos mantos, o atarracado das figuras, o movimento retorcido dos corpos, a tensão de forças na escultura, quase sempre com movimentos circulares, a forte expressividade, a dor, as peles claras, a expressão sofrida e angustiada de seus santos e anjos fazem de Maurino um significativo nome do expressionismo barroco: a alma fala e fere a madeira em cada talhe do artista. Somente na figuração de Jesus, São Francisco e Nossa Senhora da Conceição, o artista atenua a expressão de dramaticidade. Nessas, suas devoções iniciais, confere um maior plano à calma e à espiritualidade, enquanto os demais se revolvem num plano mais humano e terreno, desde que seus santos têm muito mais ligação com a terra do que com o céu.
3 - O Artistas, o homem e a trajetória
Maurino Araújo nasceu no dia 28 de maio na cidade de Rio Casca, na Zona da Mata, Mina Geral, em 1943. Passou parte de sua infância no Paraná, onde, na escolinha rural em que estudou, a professora mandava-o desenhar, no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno. Estudou seis anos no Seminário de São João del Rei, MG, transferindo-se em 1965 para Belo Horizonte.
Trazia a necessidade íntima de se expressar através da arte. Necessitando de um material resistente para suas peças recorre à madeira e, nessa ocasião, toma como mestre o Aleijadinho (1730-1814). Estuda minuciosamente suas obras. A expressão da face e do corpo, o corte da madeira, nada escapa da sua visão aguçada. A impressão é profunda e sentida. Fica gravada na mente, deixando em suas obras leves resquícios dessa influência poderosa. Trabalha de preferência com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se paulatinamente a expressão do seu íntimo, uma necessidade imprescindível do espírito.
Apenas em 1970, passou a dedicar-se exclusivamente à arte. Nota-se em várias de suas obras, uma intensa expressão de sofrimento contido, como se não pudesse suportar o fardo de suas revelações. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras.
Cursou o seminário franciscano, decidido a seguir os passos do santo de sua devoção: São Francisco de Assis. Mas, os tempos mudaram e com eles as ordens. Desencantado, Maurino deixa o recolhimento do convento, dedica-se com maior afinco ao exercício da escultura já iniciada. O tema sacro não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. Santanas, franciscanos, mulheres de Jerusalém, o Cristo e a Madona se processam numa maravilhosa sucessão de blocos esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias: sépia, azul-escuro, vermelho-grená e verde acentuando a dramaticidade das peças.
Dessa fase diz o próprio artista: "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum".
Começou expondo na Feira de Arte da Praça da Liberdade (1969/70), em Belo Horizonte. Ali o conheci em 1969. Gradativamente, passei a perceber que da sua lavra não mais saíam santos, apesar de continuar na simbologia inerente a cada um e os nomes indicarem que sim. À medida que amadurece como artista e pessoa, Maurino muda não apenas de traço, mas de intenção e postura artística. O fato de viajar muito, manter contato com artistas de outros estados e tendências diversas, enfim, os encontros e o convívio com representações culturais distintas do meio inicial ocasionam uma profunda mudança na sua obra. Falamos de transformação, da passagem de uma estética a outra, de uma sorte de modificações que perpassam pela obra de Maurino, o abandono do tratamento laudatório e santeiro do passado (sempre com fragmentos críticos) faz surgir do cedro a figura naturalista, altiva, elegante e simbólica dos ancestrais africanos. É o artista pensando consigo mesmo, incomodado com a posição contraditória em que, como pessoa, se encontra nesta sociedade mestiça e, no entanto, tão preconceituosa.
4 - O artista, a trajetória, o homem e o encontro com a África
Maurino absorve uma profunda identificação entre o que sente e a antiga arte exercida na cidade de Ifé (Nigéria), abrindo-se para novas influências e abordagens. No consenso dos pesquisadores contemporâneos, os estilos de arte praticados em Ifé e Benin são totalmente diferentes do que se criava nos demais países africanos. Alguns teóricos buscam a origem dessa arte nos antigos povos mesopotâmicos, nos fenícios, no Egito Antigo ou, talvez, em povos anteriores. Muito já se escreveu sobre essas esculturas naturalistas e a técnica de "cera perdida", inclusive Frobenius (Leo Frobenius, 1873-1938), antropólogo alemão, diz que "essa arte de Ifé e Benin está relacionada com o mundo mediterrâneo, datando do primeiro milênio antes da era cristã".
Nessas esculturas se ressaltam a diversidade e as faculdades plásticas do africano sendo por isso consideradas a "arte clássica" da África, falando-se, na atualidade, da real existência do "mundo iorubá" em contraponto ao "mundo grego" dos ocidentais. As proporções são conservadas dentro de uma estética que busca uma beleza ideal. É inegável que a liberdade plástica das etnias africanas proporcionou ao ocidente a criação de uma arte nova e surpreendente.
Não se trata de transposição pura da estética ou busca do Ethos, mas da influência que trouxe, à escultura ocidental, uma série de elementos novos com a liberdade criativa, visão do essencial impulso livre de expressão simbólica. Sob a influência dos entrechoques culturais, neste ethosmelting-pot brasileiro, Maurino passa a situar sua nova fase. Não mais a hagiografia cristã, não mais personagens brancos, mas figuras negras — sobas, reis, mulheres e homens do povo. Também mudam o trato da madeira e a encarnação das figuras.
Na junção do naturalismo de Ifé e a conseqüente herança do barroco mestiço, Maurino nos apresenta os personagens do seu mundo interior. As peças que anteriormente mostravam, nítidas, as marcas da goiva e do formão agora são lisas, amaciadas como no trato das cerâmicas. As cores mudaram, não apenas da pele, também as dos trajes, a encarnação torna-se menos dourada e decorativa (o barroco mineiro) e passa a ser mais sintética e com os tons rebaixados (a arte nigeriana).
As figuras não trazem a angústia de um barroco tardio, mas apresentam severidade e força interior ancestral. Na confluência dos estilos de Ifé e Benin e do barroco mestiço de Minas Gerais, Maurino conseguiu um estilo fundamental e pessoal com a afirmação das tão diferentes origens e a compreensão de que a arte é o grande amortecedor desses choques, encerrando em si o próprio conceito de universalidade.
Teria Maurino intencionado a transformação? Seria espontânea? Algumas vezes tocamos neste assunto, que poderia ser um ponto de vista pessoal ou, quem sabe, estaria vendo algo que só existia para mim. A essa pergunta Maurino, muito do seu jeito, apenas sorria manso e desconversava. O assunto não lhe agradava por ainda não estar maduro. A pergunta persistia, pairava no ar. Por que Maurino insistia no imaginário sacro, se, na verdade, o que esculpe é uma revisão dos próprios valores?
O santeiro-mor de Minas Gerais não mais o era, pois suas esculturas humanizaram-se, o que o reposiciona como um dos maiores escultores brasileiros contemporâneos. Maurino apenas sorria e nada afirmava ou desmentia até que ouvi de seus lábios a espontânea declaração que passo integralmente: "Os meus santos não tem nada de santos. O que vejo, o que faço são pessoas humanas. O que me interessa são as pessoas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele pode ser". Estava aí, madura e segura, a afirmação do que pressentíamos há muito tempo.
A sensibilidade do negro tem expressiva presença na cultura brasileira, vitalizando significativamente as manifestações artísticas. Especialmente no que se refere às linguagens plástico-visuais não se buscou ainda estudar em profundidade a contribuição das culturas africanas, embora sejam abundantes, na bibliografia brasileira, as referências à presença do negro e do mestiço na conformação dos fundamentos de uma arte nacional no período colonial. A importância dessa contribuição, que vem sendo dada ainda hoje com igual vitalidade, merece aprofundado estudo a fim de que possamos reabrir certos caminhos fundamentais da criação artística. É possível que, a partir destes fatos, os produtores de arte encontrem novas alternativas de expressão, tal como aconteceu com a arte européia no início do século 20, que, a partir das influências negras, iniciou um processo revolucionário como o cubismo.
Maurino Araújo participou de várias exposições individuais e coletivas. As principais: Artistas Latino-Americanos, Bruxelas, Bélgica (1973); Bienal de São Paulo (1976); Festival de Arte, Cultura Negra e Africana, Lagos, Nigéria (1977); Museu de Arte Moderna, São Paulo (1981); V Salão Nacional de Artes Plásticas, Belo Horizonte, (1982); Galeria Bonino, Rio de Janeiro (1983); Artistas Populares de Belo Horizonte, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte (1996); Negro de Corpo e Alma, Mostra do Redescobrimento, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera, São Paulo (2000); Quatro Aquarelistas e Um Escultor, sala especial Maurino Araújo, Galeria Agnus Dei, Belo Horizonte (2003). É o único artista brasileiro com obra no Museu do Vaticano (báculo oferecido ao papa João Paulo II, pelo governo brasileiro). Roberto Burle Marx (1909-1994) construiu uma ala em seu sítio, na antiga estrada da Barra da Guaratiba, Rio de Janeiro, especialmente para abrigar as esculturas de Maurino Araújo. O escultor mineiro tem obras no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG, museus nacionais e internacionais, fundações, instituições públicas e privadas. Está presente em inúmeras coleções particulares de artes plásticas no Brasil e exterior.
Bate-papo com Maurino Araujo por Maria do Carmo Arantes
Aquilo que vinha lá de dentro
"Toda vida, a tendência para a arte parece que era nascente. Menino ainda, comecei a buscar em todos os meios alguma coisa que pudesse expressar aquilo que vinha lá de dentro. Primeiro eu desenhei muito, depois foi à experiência com argila, com pintura e por fim a escultura — uma nova tentativa, um novo caminho. Esculpi um Cristo, o resultado não foi decepcionante. O Cristo encontra-se hoje numa capela de um dos bairros de Belo Horizonte. Tudo que sei foi à vida que me ensinou, alguma coisa que veio lá do fundo, intuição, sei lá! Alguma coisa parecida. Talvez seja a inquietação interior. Aquela vontade de buscar alguma coisa. (...) Não tenho escola de arte, o que tenho é amor pelo o que eu faço, pelas minhas esculturas. Mas não foram santos as minhas primeiras criações. Quando comecei a entalhar, a primeira peça foi uma figura de Adão e Eva".
Tudo é humano e sofrido
"No ambiente em que fui criado, a gente acaba se ligando ao problema dos outros e parece que há um laço estreito entre as classes menos favorecidas. Então, talvez seja isso que tenha tido também tanta influência na minha vida, pois na minha obra tudo é humano e sofrido, reflexo do que tenho dentro de mim. Tenho muito amor pela arte. Quando crio não penso em vender. Nunca cheguei a pensar que um dia iria vender um trabalho meu. Nunca acreditei que pudesse viver disto; do que eu gosto de fazer. Mas aconteceu".
A figura negra
"Os 'Anjos Negros', de uma certa forma, aconteceram no momento certo. Há tempos esperava uma oportunidade de explorar a figura negra. Pensava muito em fazer madonas negras, mas não havia ainda chegado a oportunidade. Aproveitando o convite para o Festival de Arte, Cultura Negra e Africana (Lagos, Nigéria, 1977) pude explorar a figura negra. No caso, os Anjos (ou Reis) Negros. Por outro lado tornou-se uma coisa meio monótona, pois são dez peças, dentro de um mesmo tema, embora ache que tenha conseguido um bom resultado. Falar dessa inspiração é difícil, porque quando trabalho me envolvo de tal forma que tudo entra por conta deste envolvimento. O talhe é resultado do favorecimento do que quero com o próprio talhar em si. Um golpe na madeira é, muitas vezes, a sugestão. Quanto às feições são resultados de observação nas diversas faces negras que vejo".
Busco no homem o Deus que ele tem dentro de si
"Torno a afirmar que os meus santos não têm nada de santos. O que faço são pessoas, sejam velhas, novas, pretas ou brancas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele tem dentro de si. Sempre tive medo que pudessem benzer ou rezar para uma escultura que faço, pois elas representam figuras humanas".
Fonte: Germina literatura, publicado em junho de 2009, por José Aloise Bahia e Maria do Carmo Arantes (Falecida em 2006. Membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Artes) e da AICA (Associação Internacional de Críticos de Artes/UNESCO). Prêmio ABCA 2004 pelos 30 anos de atividades como curadora, pesquisadora, ensaísta e crítica.)
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Artista plástico mineiro Maurino de Araújo afirma que está vivendo um de seus melhores momentos
Perto de completar 70 anos, artista faz planos de uma exposição
“A saúde não está 100%, mas a cabeça, a vida e o trabalho vão bem.” Assim o artista plástico Maurino de Araújo explica seu momento atual, ele que completa 70 anos em 28 de maio. “Estou vendo novo tempo de alegria. Sentir-se velho é querer encostar as ferramentas antes da hora”, ironiza. “Não tenho inveja de quem tem 20, 40 anos. Estou achando bom fazer 70 anos. A concentração no trabalho ficou mais agradável. Estou vivendo frenesi de desenhar e esculpir. E continuo rastejando atrás da pintura.”
Mineiro de Rio Casca, Maurino vive em Belo Horizonte desde 1965. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente. Dedicar a vida inteira à arte exige sacrifício, admite. “O trabalho faz com que a gente renuncie a algumas coisas. Em troca você ganha um pedacinho do céu”, garante. A arte, exemplifica, deu distinção a ele e recursos para ir levando a vida. “Mas não vou levar ouro no caixão”, conclui com bom humor.
Dançando Maurino avisa que ficar rico com a atividade nunca foi seu projeto. Motivo de satisfação é o respeito que desfruta como artista. Ele se incomoda, inclusive, com a imagem de figura excêntrica que dança pelas ruas. “Tenho natureza de recolhimento. Sou mais monge do que dançarino. Foi a vida que me forçou a descobrir que a dança é uma maravilhosa terapia. Os africanos têm nela uma sustentação. Todos deviam dançar”, defende.
Ano dramático, recorda Maurino, foi 1984. “Um tratamento de dentes acabou destruindo minha boca”, conta. Isso o obrigou a um longo período de recuperação física e da depressão, que ainda hoje combate. “Eu era um homem feliz, com saúde. E de repente estava mal. Reagi dançando”, lembra, acrescentando que se assusta com a cidade grande. “Preferia a Belo Horizonte pequena, onde se podia andar pelas ruas alegre e tranquilo, a este gigante que estamos vendo surgir”, avalia.
Momento feliz, afirma, é mesmo o atual. Maurino está se sentindo bem e curtindo os netos Letícia e Adrian. Uma coloca balas na boca dele; outro “nasceu artista”, avisa. “O céu deve ser mais ou menos assim como a alegria que as crianças passam”, especula o cidadão, que nem é de comemorar aniversário. Apesar disso, está com vontade de celebrar os 70 anos. “Quero trabalhar muito para descontar o tempo que fiquei parado. E talvez fazer uma exposição”, avisa o artista, torcendo para que se concretize o projeto de uma mostra com obras de colecionadores, no Museu de Artes e Ofícios.
Palavra de especialista
Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil (SP).
Raízes africanas
Maurino de Araújo criou uma obra muito original. A escultura dele está fundamentada no barroco mineiro e tem ligação ancestral, introduzida inconscientemente, com a África. São peças impactantes, com expressionismo que aproxima a produção de Maurino à de Aleijadinho. É arte que, no modo como são construídas as obras e sintetizadas as figuras, tem profundas ligações com os dogmas da arte africana, com caminhos não eurocêntricos. É artista incompreendido, que recebe a pecha de primitivo, mas está longe disso. Trata-se de grande e requintado escultor. Sempre tive paixão pelo que ele faz e apresentei em várias exposições. É um artista inspirador. Temos, no nosso acervo, várias obras dele.
Alma e sentimento
Maurino de Araújo já mostrou suas esculturas em importantes mostras dedicadas à arte brasileira realizadas no Brasil e no exterior. Esteve em duas edições da Bienal de São Paulo e chegou a expor no Museu Guggenheim (EUA). O interesse pela arte veio aos 5 anos, vendo mãe e pai (Maurílio Leôncio de Araújo e Conceição Gonçalves Pereira) trabalhando em olaria, em Espraiado, “uma rocinha perto de Rio Casca”, diz.
A primeira escultura de Maurino, feita em madeira, é do final dos anos 1960. A dedicação à arte sacra vem da formação em um seminário franciscano em São João del-Rei, onde conheceu as obras do Aleijadinho. Em 1965, depois de morar no Paraná, se transferiu de vez para Belo Horizonte, mas continuou na mesma linha de trabalho.
A arte sacra, cristã, diz Maurino, é influência importante da estética do Ocidente. “Permite criar ícones com conteúdo espiritual, expressão dos sentimentos e da alma e ligado aos dramas que a vida apresenta”, observa. Recorrentes são os anjos negros, madonas, cristos e santos. O artista não divide em fases o muito que realizou ao longo do tempo. “É um conjunto. Sou fiel a mim mesmo. E para ser fiel, as mudanças são leves, com naturalidade que as torna quase imperceptíveis”, ensina.
Um mestre? “O padre holandês Hank Kamps. Jovem, recém-chegado ao Bairro 1º de Maio, sem amigos, morando em lugar pobre, sem água, sem luz, foi com surpresa que vi ele me procurar por causa de um desenho que tinha visto. E me disse que eu era artista nato, que a beleza da arte está na criação, não na cópia. Foi o maior e mais importante ensinamento que recebi”, recorda. Maurino de Araújo vive e trabalha no Bairro 1º de Maio, na Região Nordeste de Belo Horizonte.
Fonte: Uai, por Walter Sebastião, publicado em 29 de abril de 2013.
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Maurino Araújo: Minas e a cultura perdem um mestre
Faleceu de leucemia em Belo Horizonte, no dia 30 de julho, aos 77 anos, o escultor e artista Maurino Araujo. Com o recolhimento de todos nesta época tão difícil, seu sepultamento foi privativo da família. Merecia uma multidão ao seu lado se tratássemos melhor nossos filhos ilustres e talentosos.
Nascido de família pobre e humilde viveu experiências amargas ao longo de uma vida dura à procura de sobrevivência até encontrar o caminho da escultura. De agricultor de subsistência familiar a servente de pedreiro e escultor de peças de barro e de madeira, ele fez de tudo. E que esculturas!
Começou a brilhar a partir da década de 1970, quando começou a esculpir objetos sacros, santos, Cristo e uma infinidade de imagens nas quais o sentimento dos seus personagens trazia em cada peça o registro de sua autobiografia, que ele julgava ser da própria humanidade, em especial das pessoas que vivem e viveram na sua mesma estratificação social. Seu domínio sobre os formões era tão grande que com três ou quatro cortes profundos na madeira, rápidos e seguros, fazia magicamente um rosto de um personagem cheio de emoções.
Maurino era conhecido como um artista barroco e expressionista ao mesmo tempo, designação que pode estranhar os conhecedores dos dois estilos. Imagino que isso seja privilégio de escultores mineiros que herdam toda a força e beleza do nosso barroco e o adiciona ao expressionismo do século XX.
Jovem ainda e vivendo alguns anos em seminário de São João del Rey, Maurino descobriu as esculturas de Aleijadinho, peças que o deixaram encantado. A partir daí parecia reviver com suas próprias obras o século XVIII em pleno século XX e XXI, criando peças que não tinham a riqueza de detalhes do velho mestre maior, mas cujos sentimentos estavam estampados para qualquer neófito em arte, tanto quanto daquele mestre de Vila Rica. Imagino que, se Antônio Francisco Lisboa vivesse nos dias de hoje, não somente o aplaudiria como o transformaria no seu discípulo favorito tão grandes eram seu talento, garra e determinação no que fazia.
Ele passava pelas ruas da cidade sem ser reconhecido pelo grande público, vinha a pé de longe ao centro da cidade, dançando “I dance, man, I dance”, dizia ele para este seu admirador. Quem o visse nessas ocasiões, daria um diagnóstico psicopatológico, mas era apenas uma forma de viver a vida e se exercitar. Durou pouco seu período de dança. Tragado pela doença, seus últimos meses foram de recolhimento e poucas visitas. Enterramos um gênio criador, e pouquíssimas pessoas perceberam.
Carlos Perktold é integrante da e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)
Fonte: O tempo, publicado em 30 de julho de 2020.
Crédito fotográfico: Uai, por Beto Novaes/EM/D.A Press, 20 de dezembro de 2009.
Maurino de Araújo (Rio Casca, MG, 28 de maio de 1943 — Belo Horizonte, MG, 30 de julho de 2020) foi um pintor e escultor brasileiro. Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente.
Biografia - Museu Afro Brasil
Foi criado em uma família camponesa em Minas Gerais, mas mudou-se para o Paraná ainda criança. Começou a produzir peças de barro na infância em companhia do avô, que era oleiro, e aprendeu a desenhar com a avó.
Nos anos 1950, mudou-se para Belo Horizonte. Entrou em contato com a escultura de Aleijadinho, que o impressionou e o motivou a procurar instrução artística formal na Escola de Belas Artes; contudo, não encontrou cursos de torêutica.
Ingressou no seminário em São João del-Rei (MG), onde começou a praticar a escultura em madeira, abandonando a carreira eclesiástica em 1965 e retornando a Belo Horizonte como artista. Começou expondo na feira de artesanato da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde sua obra ganhou a atenção de críticos de arte.
Em 1977, viajou à África e participou do II Festival de Arte Negra da Nigéria. Sobre esta viagem, afirmou: “ali, parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor”. Realizou exposições individuais a partir de 1972, em Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo, e participou de exposições coletivas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Bruxelas (Bélgica), Lagos (Nigéria) e Nova York (EUA). Conquistou o Prêmio de Aquisição no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e teve uma sala especial dedicada à sua obra na Bienal Nacional de São Paulo de 1976.
Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca.
Ângelo Oswaldo de Araújo define sua obra: “Corpo opulento, cara arredondada, em rebatimentos arredondados, olhos esbugalhados e cabeleira basta fazem parte do vocabulário de formas copiosas praticado por Maurino de Araújo.”
Para Olívio Tavares de Araújo, o que caracteriza sua obra é “a concentração (no sentido químico do termo) e a intensificação de certos estilemas, certos procedimentos formais do barroco, tratados, porém, com uma rusticidade que lhes potencializa o impacto, a dramaticidade, a estranheza. [...] Ao invés de proselitismo faz exorcismo, e sua obra na verdade fornece [...] a atualíssima metáfora de uma humanidade machucada e grotesca".
Exposições
Individual - Centro Cultural Banco do Brasil (São Paulo, SP, 2005)
Coletiva - Bienal Nacional 76 (São Paulo, SP, 1976 )
Fundação Bienal - Panorama de Arte Atual Brasileira (São Paulo, SP, 1981)
Museu de Arte Moderna (Ibirapuera, São Paulo, SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Fundação Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ, 1981)
Um Século de Escultura no Brasil - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1982)
Os Herdeiros da Noite: fragmentos do imaginário negro (Belo Horizonte, MG, 1995)
Centro de Cultura de Belo Horizonte (MG, 1996)
Galeria Tina Zappoli - Natureza Humana (Porto Alegre, RS, 1996)
Sete Mostras Especiais - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 1998)
+ 500 Mostra do Redescobrimento - Fundação Bienal (São Paulo, SP, 2000)
Brazil: body and soul - Solomon R. Guggenheim Museum (Nova York, Estados Unidos, 2001)
Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro - Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 2001)
Humanidades - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2003)
A Reunião - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2005)
Fonte: Museu Afro Brasil,
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Maurino Araujo: Um artista singular
Considerado por muitos como um expressionista barroco, é um artista emocionalmente contemporâneo dos mestres escultores mineiros do século XVIII.
Maurino nasceu na cidade mineira de Rio Casca, como membro de uma família que, segundo ele, fazia de tudo: “Nós plantávamos, fazíamos nossas casas, nossos utensílios e tudo o mais necessário”, diz. Autodidata, foi operário, servente de pedreiro, ajudante de balcão e contador em obras. Sob a influência de seus avós, que eram ceramistas, Maurino começou a trabalhar com o barro. Ainda criança, mudou-se para o Paraná. Distante do barro começou a desenhar; na escola que frequentou no Paraná a professora mandava-o desenhar no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno.
Na sua adolescência o artista descobriu a madeira e logo foi influenciado pelo estilo barroco; no barro não encontrava a firmeza que buscava. Maurino estudou durante seis anos em um seminário franciscano em São João del-Rei-MG e foi ali que conheceu as obras do Aleijadinho. Encantado pela obra do mestre passou a estudá-las minuciosamente. Das expressões ao corte da madeira, nada escapou da sua visão. A impressão foi tanta que ficou gravada em sua mente durante todos esses anos, deixando em suas obras leves resquícios dessa poderosa influência. Em 1965 Maurino se transfere para a capital Belo Horizonte.
Somente em 1970 Maurino passou a se dedicar exclusivamente à sua arte. Como muitos outros artistas brasileiros, começou mostrando suas obras em uma feira de artesanato na belíssima Praça da Liberdade em Belo Horizonte. Gradativamente foi ganhando notoriedade entre os críticos e apreciadores de arte popular. Sem preocupações com estilos ou classificações acadêmicas seu trabalho começa a “ganhar” o Brasil e o mundo. No final da década de 70 sua obra dá uma reviravolta ao conhecer a África. “... ali parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor...”, diz o artista. Hoje é fácil saber o que esse “acordar” fez com a obra de Maurino, basta ver seus trabalhos, neles, a África se expressa em cada corte da madeira.
Sob a influência do tempo em que passou no seminário, a obra de Maurino é formada em sua maioria por esculturas sacras. Com o desencanto que se apoderou dele, Maurino deixou o seminário e passou a se dedicar somente à sua arte. O tema sacro, segundo ele, não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. De enormes blocos de madeira Maurino fazia surgir Santanas, Franciscanos, Cristos e Madonas, esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias. Maurino até hoje trabalha preferencialmente com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se gradativamente a expressão do seu íntimo e uma necessidade do seu espírito. É possível notar em sua obra uma intensa expressão de sofrimento. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras. "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum", diz o artista.
Ao longo destes anos, Maurino expôs seus trabalhos em inúmeras exposições individuais e coletivas pelo mundo e recebeu vários prêmios como: Prêmio Legião Brasileira de Assistência; Destaque nas Artes, promoção Diário Associados (1976); Melhor do Ano, no setor de artes, promoção Diário Associados (1981). Participou da XV BISP (1979); V SAP de BH (1982); I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, Palácio das Artes, BH (1984).
Fonte: The Brazilian Times, por David Faria e Albertina Moura, publicado em 1 de fevereiro de 2019.
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Maurino Araújo: expressionista barroco
I - O Artista
Maurino Araújo é caso único na atualidade plástica. De estilo expressionista barroco, é, artística e emocionalmente, contemporâneo dos mestres escultores do século 18. Não lhes copia o estilo, mas cria e se aprofunda dentro da escola que se afigura viva. A arte contemporânea não o influencia, aflorando em cada peça que executa a vitalidade intensa do barroco.
Deformados, inquietantes, inquisitivos são os santos e as mulheres que suas mãos fazem surgir do cedro ou da peroba. Com sentido profundamente religioso, marca as figuras, em blocos ou isoladas, com o selo místico de sua alma. Contorcidas em proposital deformação, sofrem e gemem ante o peso da própria humanidade.
De onde tamanha carga de sofrimento? Aparentemente, não do tranqüilo e modesto escultor. Não será por passagem direta, sem interrupção, como que um mensageiro de uma época marcada pela intransigência, pelo misticismo fanático e anseios abafados? A mostra palpitante de um mundo que sobreviveu incólume à ação dos séculos.
Ao falarmos das obras de Maurino Araújo, precisamos fazer um breve retorno ao passado, não só pelo percurso estilístico do artista como pela própria formação cultural brasileira. Observamos a presença do barroco que ainda vive e rege a obra de muitos artistas contemporâneos, seja na identificação de estilo, seja no espírito da profunda religiosidade popular vigente em Minas Gerais e no caráter mestiço que o torna singular ante o praticado em diferentes lugares do país.
2 - O Artista e a trajetória
Através deste processo podemos observar a trajetória de Maurino como a da própria história da arte mineira. A primeira fase da obra escultóricade Maurino é intimamente ligada aos cânones do barroco com as rocailles, formas redondas, volutas, dramas. A estilização da forma estética expressionista — carregada de emoção e sentimento. Posteriormente seu processo criativo se modifica ao entrar em contato direto com a arte da Nigéria, sobretudo a praticada em Ifê, durante o período em que esteve na África e também através de livros e visitas a museus europeus e brasileiros.
A descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, ocasiona profundas modificações no cenário brasileiro e para a cultura que começa a se instalar, mescla de portugueses, cristãos-novos, ciganos e a massiva presença de africanos. Com a proibição de se instalarem ordens religiosas nos Campos das Minas Gerais, frutificam as confrarias de leigos brancos, pardos e negros, competindo entre si pelo apuro e desenvolvimento artístico em seus monumentos religiosos. O século 18 se caracteriza socialmente pela presença de mestiços, notadamente mulatos, no ofício das artes — o que representava um caminho de afirmação profissional e de ascensão social para eles, desde que a sociedade não previa o seu aparecimento e tão pouco a sua inserção no meio. Aos negros eram destinados os trabalhos dos eitos e das lavras; aos brancos era vedado, por questão de status "social", qualquer trabalho exercido com as mãos, exceto escrever, atividade considerada como intelectual e proibida aos demais.
Música, arquitetura e escultura religiosas se desenvolveram muito nos séculos 17 e 18 e com elas puderam os negros e, notadamente, os mestiços afirmar sua criatividade na arte e na manufatura, sendo que estas últimas lhes eram oficialmente vedadas pelos Decretos Reais, como o de 20 de outubro de 1621, que dizia textualmente: "Nenhum negro, mulato ou índio pode trabalhar como ourives".
Isso na região das lavras de ouro que usava, entre tantas, a técnica dos bantus na extração de minério e das pedras preciosas. "Além dessas restrições, cuidadosamente desleixadas, aos negros e seus descendentes não foram permitidos o exercício da artesania e o uso de símbolos nas esculturas e objetos de cultos originais. Só lhes restava integrar-se aos trabalhos de talha, esculpir os adornos e imagens ou pintar e dourar os templos e símbolos da religião dominante – a católica. Exatamente por aí, pelas brechas e pelos desvãos por eles criados é que, sorrateiramente, passam a herança simbólica, os caprichos de estilo e a herança humana destes cativos. Todas as leis e contigências vedavam-lhes qualquer expressão de sua gentilidade, forçando-os a integrar-se na religião que se confundia com a própria administração da colônia. Não se tratava portanto, do Brasil em autonomia e nem da África em continuidade" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Essa prática singular confere ao barroco mineiro, com seus artistas e oficiais, uma situação marcante entre os demais.
A forte presença do mestiço ainda é marcante na segunda metade do século 19. Começa a declinar quando o período barroco se obscurece sob o impacto da chegada da Missão Francesa, trazendo o neoclassicismo diretamente ligado à formação da elite européia e de pronto adotado pela nascente "elite" brasileira, como forma de expressão estética refinada em choque com o barroco do próprio "fazer acadêmico", prevendo anterior passagem e aceitação pelos Liceus de Artes e Ofícios ou pela Escola Nacional de Belas Artes. A arte se torna a expressão da nobreza. Poucos países incluídos na Diáspora Africana têm a história de suas artes tão marcadas por homens de etnias negras como o Brasil. Verificamos que as estéticas africanas, ou a sua tradição, constituem uma estrutura fundamental na obra de muitos artistas contemporâneos, assim como na criatividade popular.
Vivendo em meio à época (1960-1970) de pesquisas ambientais, conceituais e outras expressões da arte atual, Maurino conserva-se plenamente integrado ao mais autêntico e real sentido dos ideais estéticos barrocos.
A dramaticidade do corte é acentuada pelo sombrio das cores: o azul profundo, vermelho escuro, o sépia e o marrom invocam antigos dramas perdidos na escuridão dos tempos. "Maurino, em sua despretensão, traz a proposta do santeiro, entretanto, por seu extraordinário talento criativo, ele logo se identifica ao nível do escultor imaginário. Nenhuma de suas imagens imita, ou repele os padrões da hagiografia tradicional. Por ser um expressionista de grandes possibilidades, Maurino revisa o assunto, interpreta um atributo do texto hagiológico e nos oferece uma nova virtualidade da imagem. O acréscimo da policromia de suas peças é a sua contribuição como pintor, perenizando um recurso do expressionismo barroco" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Não apenas o barroco europeu, como cita Clarival, mas também da arte iorubá, notadamente a do século 16 na cidade de Ifé (Nigéria) com seus redondos, volutas, elipses, expressão dramática e emocional irmanados pela sensibilidade criativa de Maurino, nas décadas de 1980 e 1990.
Entre nós permaneceu viva a tradição santeira popular e com seus representantes temos Francisco Fátima de Araújo, Cláudio Gerais, Wilson Serrano, entre outros. O próprio Maurino, em sua primeira fase era, sem dúvida, o santeiro-mor das Minas Gerais. Começando a esculpir em um meio no qual a influência barroca e a arte santeira são historicamente significativas, Maurino não fugiria dessas influências iniciais.
A ênfase na beleza, a impressão de volumes nos mantos, o atarracado das figuras, o movimento retorcido dos corpos, a tensão de forças na escultura, quase sempre com movimentos circulares, a forte expressividade, a dor, as peles claras, a expressão sofrida e angustiada de seus santos e anjos fazem de Maurino um significativo nome do expressionismo barroco: a alma fala e fere a madeira em cada talhe do artista. Somente na figuração de Jesus, São Francisco e Nossa Senhora da Conceição, o artista atenua a expressão de dramaticidade. Nessas, suas devoções iniciais, confere um maior plano à calma e à espiritualidade, enquanto os demais se revolvem num plano mais humano e terreno, desde que seus santos têm muito mais ligação com a terra do que com o céu.
3 - O Artistas, o homem e a trajetória
Maurino Araújo nasceu no dia 28 de maio na cidade de Rio Casca, na Zona da Mata, Mina Geral, em 1943. Passou parte de sua infância no Paraná, onde, na escolinha rural em que estudou, a professora mandava-o desenhar, no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno. Estudou seis anos no Seminário de São João del Rei, MG, transferindo-se em 1965 para Belo Horizonte.
Trazia a necessidade íntima de se expressar através da arte. Necessitando de um material resistente para suas peças recorre à madeira e, nessa ocasião, toma como mestre o Aleijadinho (1730-1814). Estuda minuciosamente suas obras. A expressão da face e do corpo, o corte da madeira, nada escapa da sua visão aguçada. A impressão é profunda e sentida. Fica gravada na mente, deixando em suas obras leves resquícios dessa influência poderosa. Trabalha de preferência com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se paulatinamente a expressão do seu íntimo, uma necessidade imprescindível do espírito.
Apenas em 1970, passou a dedicar-se exclusivamente à arte. Nota-se em várias de suas obras, uma intensa expressão de sofrimento contido, como se não pudesse suportar o fardo de suas revelações. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras.
Cursou o seminário franciscano, decidido a seguir os passos do santo de sua devoção: São Francisco de Assis. Mas, os tempos mudaram e com eles as ordens. Desencantado, Maurino deixa o recolhimento do convento, dedica-se com maior afinco ao exercício da escultura já iniciada. O tema sacro não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. Santanas, franciscanos, mulheres de Jerusalém, o Cristo e a Madona se processam numa maravilhosa sucessão de blocos esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias: sépia, azul-escuro, vermelho-grená e verde acentuando a dramaticidade das peças.
Dessa fase diz o próprio artista: "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum".
Começou expondo na Feira de Arte da Praça da Liberdade (1969/70), em Belo Horizonte. Ali o conheci em 1969. Gradativamente, passei a perceber que da sua lavra não mais saíam santos, apesar de continuar na simbologia inerente a cada um e os nomes indicarem que sim. À medida que amadurece como artista e pessoa, Maurino muda não apenas de traço, mas de intenção e postura artística. O fato de viajar muito, manter contato com artistas de outros estados e tendências diversas, enfim, os encontros e o convívio com representações culturais distintas do meio inicial ocasionam uma profunda mudança na sua obra. Falamos de transformação, da passagem de uma estética a outra, de uma sorte de modificações que perpassam pela obra de Maurino, o abandono do tratamento laudatório e santeiro do passado (sempre com fragmentos críticos) faz surgir do cedro a figura naturalista, altiva, elegante e simbólica dos ancestrais africanos. É o artista pensando consigo mesmo, incomodado com a posição contraditória em que, como pessoa, se encontra nesta sociedade mestiça e, no entanto, tão preconceituosa.
4 - O artista, a trajetória, o homem e o encontro com a África
Maurino absorve uma profunda identificação entre o que sente e a antiga arte exercida na cidade de Ifé (Nigéria), abrindo-se para novas influências e abordagens. No consenso dos pesquisadores contemporâneos, os estilos de arte praticados em Ifé e Benin são totalmente diferentes do que se criava nos demais países africanos. Alguns teóricos buscam a origem dessa arte nos antigos povos mesopotâmicos, nos fenícios, no Egito Antigo ou, talvez, em povos anteriores. Muito já se escreveu sobre essas esculturas naturalistas e a técnica de "cera perdida", inclusive Frobenius (Leo Frobenius, 1873-1938), antropólogo alemão, diz que "essa arte de Ifé e Benin está relacionada com o mundo mediterrâneo, datando do primeiro milênio antes da era cristã".
Nessas esculturas se ressaltam a diversidade e as faculdades plásticas do africano sendo por isso consideradas a "arte clássica" da África, falando-se, na atualidade, da real existência do "mundo iorubá" em contraponto ao "mundo grego" dos ocidentais. As proporções são conservadas dentro de uma estética que busca uma beleza ideal. É inegável que a liberdade plástica das etnias africanas proporcionou ao ocidente a criação de uma arte nova e surpreendente.
Não se trata de transposição pura da estética ou busca do Ethos, mas da influência que trouxe, à escultura ocidental, uma série de elementos novos com a liberdade criativa, visão do essencial impulso livre de expressão simbólica. Sob a influência dos entrechoques culturais, neste ethosmelting-pot brasileiro, Maurino passa a situar sua nova fase. Não mais a hagiografia cristã, não mais personagens brancos, mas figuras negras — sobas, reis, mulheres e homens do povo. Também mudam o trato da madeira e a encarnação das figuras.
Na junção do naturalismo de Ifé e a conseqüente herança do barroco mestiço, Maurino nos apresenta os personagens do seu mundo interior. As peças que anteriormente mostravam, nítidas, as marcas da goiva e do formão agora são lisas, amaciadas como no trato das cerâmicas. As cores mudaram, não apenas da pele, também as dos trajes, a encarnação torna-se menos dourada e decorativa (o barroco mineiro) e passa a ser mais sintética e com os tons rebaixados (a arte nigeriana).
As figuras não trazem a angústia de um barroco tardio, mas apresentam severidade e força interior ancestral. Na confluência dos estilos de Ifé e Benin e do barroco mestiço de Minas Gerais, Maurino conseguiu um estilo fundamental e pessoal com a afirmação das tão diferentes origens e a compreensão de que a arte é o grande amortecedor desses choques, encerrando em si o próprio conceito de universalidade.
Teria Maurino intencionado a transformação? Seria espontânea? Algumas vezes tocamos neste assunto, que poderia ser um ponto de vista pessoal ou, quem sabe, estaria vendo algo que só existia para mim. A essa pergunta Maurino, muito do seu jeito, apenas sorria manso e desconversava. O assunto não lhe agradava por ainda não estar maduro. A pergunta persistia, pairava no ar. Por que Maurino insistia no imaginário sacro, se, na verdade, o que esculpe é uma revisão dos próprios valores?
O santeiro-mor de Minas Gerais não mais o era, pois suas esculturas humanizaram-se, o que o reposiciona como um dos maiores escultores brasileiros contemporâneos. Maurino apenas sorria e nada afirmava ou desmentia até que ouvi de seus lábios a espontânea declaração que passo integralmente: "Os meus santos não tem nada de santos. O que vejo, o que faço são pessoas humanas. O que me interessa são as pessoas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele pode ser". Estava aí, madura e segura, a afirmação do que pressentíamos há muito tempo.
A sensibilidade do negro tem expressiva presença na cultura brasileira, vitalizando significativamente as manifestações artísticas. Especialmente no que se refere às linguagens plástico-visuais não se buscou ainda estudar em profundidade a contribuição das culturas africanas, embora sejam abundantes, na bibliografia brasileira, as referências à presença do negro e do mestiço na conformação dos fundamentos de uma arte nacional no período colonial. A importância dessa contribuição, que vem sendo dada ainda hoje com igual vitalidade, merece aprofundado estudo a fim de que possamos reabrir certos caminhos fundamentais da criação artística. É possível que, a partir destes fatos, os produtores de arte encontrem novas alternativas de expressão, tal como aconteceu com a arte européia no início do século 20, que, a partir das influências negras, iniciou um processo revolucionário como o cubismo.
Maurino Araújo participou de várias exposições individuais e coletivas. As principais: Artistas Latino-Americanos, Bruxelas, Bélgica (1973); Bienal de São Paulo (1976); Festival de Arte, Cultura Negra e Africana, Lagos, Nigéria (1977); Museu de Arte Moderna, São Paulo (1981); V Salão Nacional de Artes Plásticas, Belo Horizonte, (1982); Galeria Bonino, Rio de Janeiro (1983); Artistas Populares de Belo Horizonte, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte (1996); Negro de Corpo e Alma, Mostra do Redescobrimento, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera, São Paulo (2000); Quatro Aquarelistas e Um Escultor, sala especial Maurino Araújo, Galeria Agnus Dei, Belo Horizonte (2003). É o único artista brasileiro com obra no Museu do Vaticano (báculo oferecido ao papa João Paulo II, pelo governo brasileiro). Roberto Burle Marx (1909-1994) construiu uma ala em seu sítio, na antiga estrada da Barra da Guaratiba, Rio de Janeiro, especialmente para abrigar as esculturas de Maurino Araújo. O escultor mineiro tem obras no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG, museus nacionais e internacionais, fundações, instituições públicas e privadas. Está presente em inúmeras coleções particulares de artes plásticas no Brasil e exterior.
Bate-papo com Maurino Araujo por Maria do Carmo Arantes
Aquilo que vinha lá de dentro
"Toda vida, a tendência para a arte parece que era nascente. Menino ainda, comecei a buscar em todos os meios alguma coisa que pudesse expressar aquilo que vinha lá de dentro. Primeiro eu desenhei muito, depois foi à experiência com argila, com pintura e por fim a escultura — uma nova tentativa, um novo caminho. Esculpi um Cristo, o resultado não foi decepcionante. O Cristo encontra-se hoje numa capela de um dos bairros de Belo Horizonte. Tudo que sei foi à vida que me ensinou, alguma coisa que veio lá do fundo, intuição, sei lá! Alguma coisa parecida. Talvez seja a inquietação interior. Aquela vontade de buscar alguma coisa. (...) Não tenho escola de arte, o que tenho é amor pelo o que eu faço, pelas minhas esculturas. Mas não foram santos as minhas primeiras criações. Quando comecei a entalhar, a primeira peça foi uma figura de Adão e Eva".
Tudo é humano e sofrido
"No ambiente em que fui criado, a gente acaba se ligando ao problema dos outros e parece que há um laço estreito entre as classes menos favorecidas. Então, talvez seja isso que tenha tido também tanta influência na minha vida, pois na minha obra tudo é humano e sofrido, reflexo do que tenho dentro de mim. Tenho muito amor pela arte. Quando crio não penso em vender. Nunca cheguei a pensar que um dia iria vender um trabalho meu. Nunca acreditei que pudesse viver disto; do que eu gosto de fazer. Mas aconteceu".
A figura negra
"Os 'Anjos Negros', de uma certa forma, aconteceram no momento certo. Há tempos esperava uma oportunidade de explorar a figura negra. Pensava muito em fazer madonas negras, mas não havia ainda chegado a oportunidade. Aproveitando o convite para o Festival de Arte, Cultura Negra e Africana (Lagos, Nigéria, 1977) pude explorar a figura negra. No caso, os Anjos (ou Reis) Negros. Por outro lado tornou-se uma coisa meio monótona, pois são dez peças, dentro de um mesmo tema, embora ache que tenha conseguido um bom resultado. Falar dessa inspiração é difícil, porque quando trabalho me envolvo de tal forma que tudo entra por conta deste envolvimento. O talhe é resultado do favorecimento do que quero com o próprio talhar em si. Um golpe na madeira é, muitas vezes, a sugestão. Quanto às feições são resultados de observação nas diversas faces negras que vejo".
Busco no homem o Deus que ele tem dentro de si
"Torno a afirmar que os meus santos não têm nada de santos. O que faço são pessoas, sejam velhas, novas, pretas ou brancas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele tem dentro de si. Sempre tive medo que pudessem benzer ou rezar para uma escultura que faço, pois elas representam figuras humanas".
Fonte: Germina literatura, publicado em junho de 2009, por José Aloise Bahia e Maria do Carmo Arantes (Falecida em 2006. Membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Artes) e da AICA (Associação Internacional de Críticos de Artes/UNESCO). Prêmio ABCA 2004 pelos 30 anos de atividades como curadora, pesquisadora, ensaísta e crítica.)
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Artista plástico mineiro Maurino de Araújo afirma que está vivendo um de seus melhores momentos
Perto de completar 70 anos, artista faz planos de uma exposição
“A saúde não está 100%, mas a cabeça, a vida e o trabalho vão bem.” Assim o artista plástico Maurino de Araújo explica seu momento atual, ele que completa 70 anos em 28 de maio. “Estou vendo novo tempo de alegria. Sentir-se velho é querer encostar as ferramentas antes da hora”, ironiza. “Não tenho inveja de quem tem 20, 40 anos. Estou achando bom fazer 70 anos. A concentração no trabalho ficou mais agradável. Estou vivendo frenesi de desenhar e esculpir. E continuo rastejando atrás da pintura.”
Mineiro de Rio Casca, Maurino vive em Belo Horizonte desde 1965. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente. Dedicar a vida inteira à arte exige sacrifício, admite. “O trabalho faz com que a gente renuncie a algumas coisas. Em troca você ganha um pedacinho do céu”, garante. A arte, exemplifica, deu distinção a ele e recursos para ir levando a vida. “Mas não vou levar ouro no caixão”, conclui com bom humor.
Dançando Maurino avisa que ficar rico com a atividade nunca foi seu projeto. Motivo de satisfação é o respeito que desfruta como artista. Ele se incomoda, inclusive, com a imagem de figura excêntrica que dança pelas ruas. “Tenho natureza de recolhimento. Sou mais monge do que dançarino. Foi a vida que me forçou a descobrir que a dança é uma maravilhosa terapia. Os africanos têm nela uma sustentação. Todos deviam dançar”, defende.
Ano dramático, recorda Maurino, foi 1984. “Um tratamento de dentes acabou destruindo minha boca”, conta. Isso o obrigou a um longo período de recuperação física e da depressão, que ainda hoje combate. “Eu era um homem feliz, com saúde. E de repente estava mal. Reagi dançando”, lembra, acrescentando que se assusta com a cidade grande. “Preferia a Belo Horizonte pequena, onde se podia andar pelas ruas alegre e tranquilo, a este gigante que estamos vendo surgir”, avalia.
Momento feliz, afirma, é mesmo o atual. Maurino está se sentindo bem e curtindo os netos Letícia e Adrian. Uma coloca balas na boca dele; outro “nasceu artista”, avisa. “O céu deve ser mais ou menos assim como a alegria que as crianças passam”, especula o cidadão, que nem é de comemorar aniversário. Apesar disso, está com vontade de celebrar os 70 anos. “Quero trabalhar muito para descontar o tempo que fiquei parado. E talvez fazer uma exposição”, avisa o artista, torcendo para que se concretize o projeto de uma mostra com obras de colecionadores, no Museu de Artes e Ofícios.
Palavra de especialista
Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil (SP).
Raízes africanas
Maurino de Araújo criou uma obra muito original. A escultura dele está fundamentada no barroco mineiro e tem ligação ancestral, introduzida inconscientemente, com a África. São peças impactantes, com expressionismo que aproxima a produção de Maurino à de Aleijadinho. É arte que, no modo como são construídas as obras e sintetizadas as figuras, tem profundas ligações com os dogmas da arte africana, com caminhos não eurocêntricos. É artista incompreendido, que recebe a pecha de primitivo, mas está longe disso. Trata-se de grande e requintado escultor. Sempre tive paixão pelo que ele faz e apresentei em várias exposições. É um artista inspirador. Temos, no nosso acervo, várias obras dele.
Alma e sentimento
Maurino de Araújo já mostrou suas esculturas em importantes mostras dedicadas à arte brasileira realizadas no Brasil e no exterior. Esteve em duas edições da Bienal de São Paulo e chegou a expor no Museu Guggenheim (EUA). O interesse pela arte veio aos 5 anos, vendo mãe e pai (Maurílio Leôncio de Araújo e Conceição Gonçalves Pereira) trabalhando em olaria, em Espraiado, “uma rocinha perto de Rio Casca”, diz.
A primeira escultura de Maurino, feita em madeira, é do final dos anos 1960. A dedicação à arte sacra vem da formação em um seminário franciscano em São João del-Rei, onde conheceu as obras do Aleijadinho. Em 1965, depois de morar no Paraná, se transferiu de vez para Belo Horizonte, mas continuou na mesma linha de trabalho.
A arte sacra, cristã, diz Maurino, é influência importante da estética do Ocidente. “Permite criar ícones com conteúdo espiritual, expressão dos sentimentos e da alma e ligado aos dramas que a vida apresenta”, observa. Recorrentes são os anjos negros, madonas, cristos e santos. O artista não divide em fases o muito que realizou ao longo do tempo. “É um conjunto. Sou fiel a mim mesmo. E para ser fiel, as mudanças são leves, com naturalidade que as torna quase imperceptíveis”, ensina.
Um mestre? “O padre holandês Hank Kamps. Jovem, recém-chegado ao Bairro 1º de Maio, sem amigos, morando em lugar pobre, sem água, sem luz, foi com surpresa que vi ele me procurar por causa de um desenho que tinha visto. E me disse que eu era artista nato, que a beleza da arte está na criação, não na cópia. Foi o maior e mais importante ensinamento que recebi”, recorda. Maurino de Araújo vive e trabalha no Bairro 1º de Maio, na Região Nordeste de Belo Horizonte.
Fonte: Uai, por Walter Sebastião, publicado em 29 de abril de 2013.
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Maurino Araújo: Minas e a cultura perdem um mestre
Faleceu de leucemia em Belo Horizonte, no dia 30 de julho, aos 77 anos, o escultor e artista Maurino Araujo. Com o recolhimento de todos nesta época tão difícil, seu sepultamento foi privativo da família. Merecia uma multidão ao seu lado se tratássemos melhor nossos filhos ilustres e talentosos.
Nascido de família pobre e humilde viveu experiências amargas ao longo de uma vida dura à procura de sobrevivência até encontrar o caminho da escultura. De agricultor de subsistência familiar a servente de pedreiro e escultor de peças de barro e de madeira, ele fez de tudo. E que esculturas!
Começou a brilhar a partir da década de 1970, quando começou a esculpir objetos sacros, santos, Cristo e uma infinidade de imagens nas quais o sentimento dos seus personagens trazia em cada peça o registro de sua autobiografia, que ele julgava ser da própria humanidade, em especial das pessoas que vivem e viveram na sua mesma estratificação social. Seu domínio sobre os formões era tão grande que com três ou quatro cortes profundos na madeira, rápidos e seguros, fazia magicamente um rosto de um personagem cheio de emoções.
Maurino era conhecido como um artista barroco e expressionista ao mesmo tempo, designação que pode estranhar os conhecedores dos dois estilos. Imagino que isso seja privilégio de escultores mineiros que herdam toda a força e beleza do nosso barroco e o adiciona ao expressionismo do século XX.
Jovem ainda e vivendo alguns anos em seminário de São João del Rey, Maurino descobriu as esculturas de Aleijadinho, peças que o deixaram encantado. A partir daí parecia reviver com suas próprias obras o século XVIII em pleno século XX e XXI, criando peças que não tinham a riqueza de detalhes do velho mestre maior, mas cujos sentimentos estavam estampados para qualquer neófito em arte, tanto quanto daquele mestre de Vila Rica. Imagino que, se Antônio Francisco Lisboa vivesse nos dias de hoje, não somente o aplaudiria como o transformaria no seu discípulo favorito tão grandes eram seu talento, garra e determinação no que fazia.
Ele passava pelas ruas da cidade sem ser reconhecido pelo grande público, vinha a pé de longe ao centro da cidade, dançando “I dance, man, I dance”, dizia ele para este seu admirador. Quem o visse nessas ocasiões, daria um diagnóstico psicopatológico, mas era apenas uma forma de viver a vida e se exercitar. Durou pouco seu período de dança. Tragado pela doença, seus últimos meses foram de recolhimento e poucas visitas. Enterramos um gênio criador, e pouquíssimas pessoas perceberam.
Carlos Perktold é integrante da e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)
Fonte: O tempo, publicado em 30 de julho de 2020.
Crédito fotográfico: Uai, por Beto Novaes/EM/D.A Press, 20 de dezembro de 2009.
2 artistas relacionados
Maurino de Araújo (Rio Casca, MG, 28 de maio de 1943 — Belo Horizonte, MG, 30 de julho de 2020) foi um pintor e escultor brasileiro. Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente.
Biografia - Museu Afro Brasil
Foi criado em uma família camponesa em Minas Gerais, mas mudou-se para o Paraná ainda criança. Começou a produzir peças de barro na infância em companhia do avô, que era oleiro, e aprendeu a desenhar com a avó.
Nos anos 1950, mudou-se para Belo Horizonte. Entrou em contato com a escultura de Aleijadinho, que o impressionou e o motivou a procurar instrução artística formal na Escola de Belas Artes; contudo, não encontrou cursos de torêutica.
Ingressou no seminário em São João del-Rei (MG), onde começou a praticar a escultura em madeira, abandonando a carreira eclesiástica em 1965 e retornando a Belo Horizonte como artista. Começou expondo na feira de artesanato da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde sua obra ganhou a atenção de críticos de arte.
Em 1977, viajou à África e participou do II Festival de Arte Negra da Nigéria. Sobre esta viagem, afirmou: “ali, parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor”. Realizou exposições individuais a partir de 1972, em Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo, e participou de exposições coletivas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Bruxelas (Bélgica), Lagos (Nigéria) e Nova York (EUA). Conquistou o Prêmio de Aquisição no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e teve uma sala especial dedicada à sua obra na Bienal Nacional de São Paulo de 1976.
Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca.
Ângelo Oswaldo de Araújo define sua obra: “Corpo opulento, cara arredondada, em rebatimentos arredondados, olhos esbugalhados e cabeleira basta fazem parte do vocabulário de formas copiosas praticado por Maurino de Araújo.”
Para Olívio Tavares de Araújo, o que caracteriza sua obra é “a concentração (no sentido químico do termo) e a intensificação de certos estilemas, certos procedimentos formais do barroco, tratados, porém, com uma rusticidade que lhes potencializa o impacto, a dramaticidade, a estranheza. [...] Ao invés de proselitismo faz exorcismo, e sua obra na verdade fornece [...] a atualíssima metáfora de uma humanidade machucada e grotesca".
Exposições
Individual - Centro Cultural Banco do Brasil (São Paulo, SP, 2005)
Coletiva - Bienal Nacional 76 (São Paulo, SP, 1976 )
Fundação Bienal - Panorama de Arte Atual Brasileira (São Paulo, SP, 1981)
Museu de Arte Moderna (Ibirapuera, São Paulo, SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Fundação Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ, 1981)
Um Século de Escultura no Brasil - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1982)
Os Herdeiros da Noite: fragmentos do imaginário negro (Belo Horizonte, MG, 1995)
Centro de Cultura de Belo Horizonte (MG, 1996)
Galeria Tina Zappoli - Natureza Humana (Porto Alegre, RS, 1996)
Sete Mostras Especiais - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 1998)
+ 500 Mostra do Redescobrimento - Fundação Bienal (São Paulo, SP, 2000)
Brazil: body and soul - Solomon R. Guggenheim Museum (Nova York, Estados Unidos, 2001)
Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro - Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 2001)
Humanidades - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2003)
A Reunião - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2005)
Fonte: Museu Afro Brasil,
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Maurino Araujo: Um artista singular
Considerado por muitos como um expressionista barroco, é um artista emocionalmente contemporâneo dos mestres escultores mineiros do século XVIII.
Maurino nasceu na cidade mineira de Rio Casca, como membro de uma família que, segundo ele, fazia de tudo: “Nós plantávamos, fazíamos nossas casas, nossos utensílios e tudo o mais necessário”, diz. Autodidata, foi operário, servente de pedreiro, ajudante de balcão e contador em obras. Sob a influência de seus avós, que eram ceramistas, Maurino começou a trabalhar com o barro. Ainda criança, mudou-se para o Paraná. Distante do barro começou a desenhar; na escola que frequentou no Paraná a professora mandava-o desenhar no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno.
Na sua adolescência o artista descobriu a madeira e logo foi influenciado pelo estilo barroco; no barro não encontrava a firmeza que buscava. Maurino estudou durante seis anos em um seminário franciscano em São João del-Rei-MG e foi ali que conheceu as obras do Aleijadinho. Encantado pela obra do mestre passou a estudá-las minuciosamente. Das expressões ao corte da madeira, nada escapou da sua visão. A impressão foi tanta que ficou gravada em sua mente durante todos esses anos, deixando em suas obras leves resquícios dessa poderosa influência. Em 1965 Maurino se transfere para a capital Belo Horizonte.
Somente em 1970 Maurino passou a se dedicar exclusivamente à sua arte. Como muitos outros artistas brasileiros, começou mostrando suas obras em uma feira de artesanato na belíssima Praça da Liberdade em Belo Horizonte. Gradativamente foi ganhando notoriedade entre os críticos e apreciadores de arte popular. Sem preocupações com estilos ou classificações acadêmicas seu trabalho começa a “ganhar” o Brasil e o mundo. No final da década de 70 sua obra dá uma reviravolta ao conhecer a África. “... ali parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor...”, diz o artista. Hoje é fácil saber o que esse “acordar” fez com a obra de Maurino, basta ver seus trabalhos, neles, a África se expressa em cada corte da madeira.
Sob a influência do tempo em que passou no seminário, a obra de Maurino é formada em sua maioria por esculturas sacras. Com o desencanto que se apoderou dele, Maurino deixou o seminário e passou a se dedicar somente à sua arte. O tema sacro, segundo ele, não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. De enormes blocos de madeira Maurino fazia surgir Santanas, Franciscanos, Cristos e Madonas, esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias. Maurino até hoje trabalha preferencialmente com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se gradativamente a expressão do seu íntimo e uma necessidade do seu espírito. É possível notar em sua obra uma intensa expressão de sofrimento. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras. "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum", diz o artista.
Ao longo destes anos, Maurino expôs seus trabalhos em inúmeras exposições individuais e coletivas pelo mundo e recebeu vários prêmios como: Prêmio Legião Brasileira de Assistência; Destaque nas Artes, promoção Diário Associados (1976); Melhor do Ano, no setor de artes, promoção Diário Associados (1981). Participou da XV BISP (1979); V SAP de BH (1982); I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, Palácio das Artes, BH (1984).
Fonte: The Brazilian Times, por David Faria e Albertina Moura, publicado em 1 de fevereiro de 2019.
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Maurino Araújo: expressionista barroco
I - O Artista
Maurino Araújo é caso único na atualidade plástica. De estilo expressionista barroco, é, artística e emocionalmente, contemporâneo dos mestres escultores do século 18. Não lhes copia o estilo, mas cria e se aprofunda dentro da escola que se afigura viva. A arte contemporânea não o influencia, aflorando em cada peça que executa a vitalidade intensa do barroco.
Deformados, inquietantes, inquisitivos são os santos e as mulheres que suas mãos fazem surgir do cedro ou da peroba. Com sentido profundamente religioso, marca as figuras, em blocos ou isoladas, com o selo místico de sua alma. Contorcidas em proposital deformação, sofrem e gemem ante o peso da própria humanidade.
De onde tamanha carga de sofrimento? Aparentemente, não do tranqüilo e modesto escultor. Não será por passagem direta, sem interrupção, como que um mensageiro de uma época marcada pela intransigência, pelo misticismo fanático e anseios abafados? A mostra palpitante de um mundo que sobreviveu incólume à ação dos séculos.
Ao falarmos das obras de Maurino Araújo, precisamos fazer um breve retorno ao passado, não só pelo percurso estilístico do artista como pela própria formação cultural brasileira. Observamos a presença do barroco que ainda vive e rege a obra de muitos artistas contemporâneos, seja na identificação de estilo, seja no espírito da profunda religiosidade popular vigente em Minas Gerais e no caráter mestiço que o torna singular ante o praticado em diferentes lugares do país.
2 - O Artista e a trajetória
Através deste processo podemos observar a trajetória de Maurino como a da própria história da arte mineira. A primeira fase da obra escultóricade Maurino é intimamente ligada aos cânones do barroco com as rocailles, formas redondas, volutas, dramas. A estilização da forma estética expressionista — carregada de emoção e sentimento. Posteriormente seu processo criativo se modifica ao entrar em contato direto com a arte da Nigéria, sobretudo a praticada em Ifê, durante o período em que esteve na África e também através de livros e visitas a museus europeus e brasileiros.
A descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, ocasiona profundas modificações no cenário brasileiro e para a cultura que começa a se instalar, mescla de portugueses, cristãos-novos, ciganos e a massiva presença de africanos. Com a proibição de se instalarem ordens religiosas nos Campos das Minas Gerais, frutificam as confrarias de leigos brancos, pardos e negros, competindo entre si pelo apuro e desenvolvimento artístico em seus monumentos religiosos. O século 18 se caracteriza socialmente pela presença de mestiços, notadamente mulatos, no ofício das artes — o que representava um caminho de afirmação profissional e de ascensão social para eles, desde que a sociedade não previa o seu aparecimento e tão pouco a sua inserção no meio. Aos negros eram destinados os trabalhos dos eitos e das lavras; aos brancos era vedado, por questão de status "social", qualquer trabalho exercido com as mãos, exceto escrever, atividade considerada como intelectual e proibida aos demais.
Música, arquitetura e escultura religiosas se desenvolveram muito nos séculos 17 e 18 e com elas puderam os negros e, notadamente, os mestiços afirmar sua criatividade na arte e na manufatura, sendo que estas últimas lhes eram oficialmente vedadas pelos Decretos Reais, como o de 20 de outubro de 1621, que dizia textualmente: "Nenhum negro, mulato ou índio pode trabalhar como ourives".
Isso na região das lavras de ouro que usava, entre tantas, a técnica dos bantus na extração de minério e das pedras preciosas. "Além dessas restrições, cuidadosamente desleixadas, aos negros e seus descendentes não foram permitidos o exercício da artesania e o uso de símbolos nas esculturas e objetos de cultos originais. Só lhes restava integrar-se aos trabalhos de talha, esculpir os adornos e imagens ou pintar e dourar os templos e símbolos da religião dominante – a católica. Exatamente por aí, pelas brechas e pelos desvãos por eles criados é que, sorrateiramente, passam a herança simbólica, os caprichos de estilo e a herança humana destes cativos. Todas as leis e contigências vedavam-lhes qualquer expressão de sua gentilidade, forçando-os a integrar-se na religião que se confundia com a própria administração da colônia. Não se tratava portanto, do Brasil em autonomia e nem da África em continuidade" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Essa prática singular confere ao barroco mineiro, com seus artistas e oficiais, uma situação marcante entre os demais.
A forte presença do mestiço ainda é marcante na segunda metade do século 19. Começa a declinar quando o período barroco se obscurece sob o impacto da chegada da Missão Francesa, trazendo o neoclassicismo diretamente ligado à formação da elite européia e de pronto adotado pela nascente "elite" brasileira, como forma de expressão estética refinada em choque com o barroco do próprio "fazer acadêmico", prevendo anterior passagem e aceitação pelos Liceus de Artes e Ofícios ou pela Escola Nacional de Belas Artes. A arte se torna a expressão da nobreza. Poucos países incluídos na Diáspora Africana têm a história de suas artes tão marcadas por homens de etnias negras como o Brasil. Verificamos que as estéticas africanas, ou a sua tradição, constituem uma estrutura fundamental na obra de muitos artistas contemporâneos, assim como na criatividade popular.
Vivendo em meio à época (1960-1970) de pesquisas ambientais, conceituais e outras expressões da arte atual, Maurino conserva-se plenamente integrado ao mais autêntico e real sentido dos ideais estéticos barrocos.
A dramaticidade do corte é acentuada pelo sombrio das cores: o azul profundo, vermelho escuro, o sépia e o marrom invocam antigos dramas perdidos na escuridão dos tempos. "Maurino, em sua despretensão, traz a proposta do santeiro, entretanto, por seu extraordinário talento criativo, ele logo se identifica ao nível do escultor imaginário. Nenhuma de suas imagens imita, ou repele os padrões da hagiografia tradicional. Por ser um expressionista de grandes possibilidades, Maurino revisa o assunto, interpreta um atributo do texto hagiológico e nos oferece uma nova virtualidade da imagem. O acréscimo da policromia de suas peças é a sua contribuição como pintor, perenizando um recurso do expressionismo barroco" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Não apenas o barroco europeu, como cita Clarival, mas também da arte iorubá, notadamente a do século 16 na cidade de Ifé (Nigéria) com seus redondos, volutas, elipses, expressão dramática e emocional irmanados pela sensibilidade criativa de Maurino, nas décadas de 1980 e 1990.
Entre nós permaneceu viva a tradição santeira popular e com seus representantes temos Francisco Fátima de Araújo, Cláudio Gerais, Wilson Serrano, entre outros. O próprio Maurino, em sua primeira fase era, sem dúvida, o santeiro-mor das Minas Gerais. Começando a esculpir em um meio no qual a influência barroca e a arte santeira são historicamente significativas, Maurino não fugiria dessas influências iniciais.
A ênfase na beleza, a impressão de volumes nos mantos, o atarracado das figuras, o movimento retorcido dos corpos, a tensão de forças na escultura, quase sempre com movimentos circulares, a forte expressividade, a dor, as peles claras, a expressão sofrida e angustiada de seus santos e anjos fazem de Maurino um significativo nome do expressionismo barroco: a alma fala e fere a madeira em cada talhe do artista. Somente na figuração de Jesus, São Francisco e Nossa Senhora da Conceição, o artista atenua a expressão de dramaticidade. Nessas, suas devoções iniciais, confere um maior plano à calma e à espiritualidade, enquanto os demais se revolvem num plano mais humano e terreno, desde que seus santos têm muito mais ligação com a terra do que com o céu.
3 - O Artistas, o homem e a trajetória
Maurino Araújo nasceu no dia 28 de maio na cidade de Rio Casca, na Zona da Mata, Mina Geral, em 1943. Passou parte de sua infância no Paraná, onde, na escolinha rural em que estudou, a professora mandava-o desenhar, no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno. Estudou seis anos no Seminário de São João del Rei, MG, transferindo-se em 1965 para Belo Horizonte.
Trazia a necessidade íntima de se expressar através da arte. Necessitando de um material resistente para suas peças recorre à madeira e, nessa ocasião, toma como mestre o Aleijadinho (1730-1814). Estuda minuciosamente suas obras. A expressão da face e do corpo, o corte da madeira, nada escapa da sua visão aguçada. A impressão é profunda e sentida. Fica gravada na mente, deixando em suas obras leves resquícios dessa influência poderosa. Trabalha de preferência com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se paulatinamente a expressão do seu íntimo, uma necessidade imprescindível do espírito.
Apenas em 1970, passou a dedicar-se exclusivamente à arte. Nota-se em várias de suas obras, uma intensa expressão de sofrimento contido, como se não pudesse suportar o fardo de suas revelações. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras.
Cursou o seminário franciscano, decidido a seguir os passos do santo de sua devoção: São Francisco de Assis. Mas, os tempos mudaram e com eles as ordens. Desencantado, Maurino deixa o recolhimento do convento, dedica-se com maior afinco ao exercício da escultura já iniciada. O tema sacro não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. Santanas, franciscanos, mulheres de Jerusalém, o Cristo e a Madona se processam numa maravilhosa sucessão de blocos esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias: sépia, azul-escuro, vermelho-grená e verde acentuando a dramaticidade das peças.
Dessa fase diz o próprio artista: "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum".
Começou expondo na Feira de Arte da Praça da Liberdade (1969/70), em Belo Horizonte. Ali o conheci em 1969. Gradativamente, passei a perceber que da sua lavra não mais saíam santos, apesar de continuar na simbologia inerente a cada um e os nomes indicarem que sim. À medida que amadurece como artista e pessoa, Maurino muda não apenas de traço, mas de intenção e postura artística. O fato de viajar muito, manter contato com artistas de outros estados e tendências diversas, enfim, os encontros e o convívio com representações culturais distintas do meio inicial ocasionam uma profunda mudança na sua obra. Falamos de transformação, da passagem de uma estética a outra, de uma sorte de modificações que perpassam pela obra de Maurino, o abandono do tratamento laudatório e santeiro do passado (sempre com fragmentos críticos) faz surgir do cedro a figura naturalista, altiva, elegante e simbólica dos ancestrais africanos. É o artista pensando consigo mesmo, incomodado com a posição contraditória em que, como pessoa, se encontra nesta sociedade mestiça e, no entanto, tão preconceituosa.
4 - O artista, a trajetória, o homem e o encontro com a África
Maurino absorve uma profunda identificação entre o que sente e a antiga arte exercida na cidade de Ifé (Nigéria), abrindo-se para novas influências e abordagens. No consenso dos pesquisadores contemporâneos, os estilos de arte praticados em Ifé e Benin são totalmente diferentes do que se criava nos demais países africanos. Alguns teóricos buscam a origem dessa arte nos antigos povos mesopotâmicos, nos fenícios, no Egito Antigo ou, talvez, em povos anteriores. Muito já se escreveu sobre essas esculturas naturalistas e a técnica de "cera perdida", inclusive Frobenius (Leo Frobenius, 1873-1938), antropólogo alemão, diz que "essa arte de Ifé e Benin está relacionada com o mundo mediterrâneo, datando do primeiro milênio antes da era cristã".
Nessas esculturas se ressaltam a diversidade e as faculdades plásticas do africano sendo por isso consideradas a "arte clássica" da África, falando-se, na atualidade, da real existência do "mundo iorubá" em contraponto ao "mundo grego" dos ocidentais. As proporções são conservadas dentro de uma estética que busca uma beleza ideal. É inegável que a liberdade plástica das etnias africanas proporcionou ao ocidente a criação de uma arte nova e surpreendente.
Não se trata de transposição pura da estética ou busca do Ethos, mas da influência que trouxe, à escultura ocidental, uma série de elementos novos com a liberdade criativa, visão do essencial impulso livre de expressão simbólica. Sob a influência dos entrechoques culturais, neste ethosmelting-pot brasileiro, Maurino passa a situar sua nova fase. Não mais a hagiografia cristã, não mais personagens brancos, mas figuras negras — sobas, reis, mulheres e homens do povo. Também mudam o trato da madeira e a encarnação das figuras.
Na junção do naturalismo de Ifé e a conseqüente herança do barroco mestiço, Maurino nos apresenta os personagens do seu mundo interior. As peças que anteriormente mostravam, nítidas, as marcas da goiva e do formão agora são lisas, amaciadas como no trato das cerâmicas. As cores mudaram, não apenas da pele, também as dos trajes, a encarnação torna-se menos dourada e decorativa (o barroco mineiro) e passa a ser mais sintética e com os tons rebaixados (a arte nigeriana).
As figuras não trazem a angústia de um barroco tardio, mas apresentam severidade e força interior ancestral. Na confluência dos estilos de Ifé e Benin e do barroco mestiço de Minas Gerais, Maurino conseguiu um estilo fundamental e pessoal com a afirmação das tão diferentes origens e a compreensão de que a arte é o grande amortecedor desses choques, encerrando em si o próprio conceito de universalidade.
Teria Maurino intencionado a transformação? Seria espontânea? Algumas vezes tocamos neste assunto, que poderia ser um ponto de vista pessoal ou, quem sabe, estaria vendo algo que só existia para mim. A essa pergunta Maurino, muito do seu jeito, apenas sorria manso e desconversava. O assunto não lhe agradava por ainda não estar maduro. A pergunta persistia, pairava no ar. Por que Maurino insistia no imaginário sacro, se, na verdade, o que esculpe é uma revisão dos próprios valores?
O santeiro-mor de Minas Gerais não mais o era, pois suas esculturas humanizaram-se, o que o reposiciona como um dos maiores escultores brasileiros contemporâneos. Maurino apenas sorria e nada afirmava ou desmentia até que ouvi de seus lábios a espontânea declaração que passo integralmente: "Os meus santos não tem nada de santos. O que vejo, o que faço são pessoas humanas. O que me interessa são as pessoas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele pode ser". Estava aí, madura e segura, a afirmação do que pressentíamos há muito tempo.
A sensibilidade do negro tem expressiva presença na cultura brasileira, vitalizando significativamente as manifestações artísticas. Especialmente no que se refere às linguagens plástico-visuais não se buscou ainda estudar em profundidade a contribuição das culturas africanas, embora sejam abundantes, na bibliografia brasileira, as referências à presença do negro e do mestiço na conformação dos fundamentos de uma arte nacional no período colonial. A importância dessa contribuição, que vem sendo dada ainda hoje com igual vitalidade, merece aprofundado estudo a fim de que possamos reabrir certos caminhos fundamentais da criação artística. É possível que, a partir destes fatos, os produtores de arte encontrem novas alternativas de expressão, tal como aconteceu com a arte européia no início do século 20, que, a partir das influências negras, iniciou um processo revolucionário como o cubismo.
Maurino Araújo participou de várias exposições individuais e coletivas. As principais: Artistas Latino-Americanos, Bruxelas, Bélgica (1973); Bienal de São Paulo (1976); Festival de Arte, Cultura Negra e Africana, Lagos, Nigéria (1977); Museu de Arte Moderna, São Paulo (1981); V Salão Nacional de Artes Plásticas, Belo Horizonte, (1982); Galeria Bonino, Rio de Janeiro (1983); Artistas Populares de Belo Horizonte, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte (1996); Negro de Corpo e Alma, Mostra do Redescobrimento, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera, São Paulo (2000); Quatro Aquarelistas e Um Escultor, sala especial Maurino Araújo, Galeria Agnus Dei, Belo Horizonte (2003). É o único artista brasileiro com obra no Museu do Vaticano (báculo oferecido ao papa João Paulo II, pelo governo brasileiro). Roberto Burle Marx (1909-1994) construiu uma ala em seu sítio, na antiga estrada da Barra da Guaratiba, Rio de Janeiro, especialmente para abrigar as esculturas de Maurino Araújo. O escultor mineiro tem obras no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG, museus nacionais e internacionais, fundações, instituições públicas e privadas. Está presente em inúmeras coleções particulares de artes plásticas no Brasil e exterior.
Bate-papo com Maurino Araujo por Maria do Carmo Arantes
Aquilo que vinha lá de dentro
"Toda vida, a tendência para a arte parece que era nascente. Menino ainda, comecei a buscar em todos os meios alguma coisa que pudesse expressar aquilo que vinha lá de dentro. Primeiro eu desenhei muito, depois foi à experiência com argila, com pintura e por fim a escultura — uma nova tentativa, um novo caminho. Esculpi um Cristo, o resultado não foi decepcionante. O Cristo encontra-se hoje numa capela de um dos bairros de Belo Horizonte. Tudo que sei foi à vida que me ensinou, alguma coisa que veio lá do fundo, intuição, sei lá! Alguma coisa parecida. Talvez seja a inquietação interior. Aquela vontade de buscar alguma coisa. (...) Não tenho escola de arte, o que tenho é amor pelo o que eu faço, pelas minhas esculturas. Mas não foram santos as minhas primeiras criações. Quando comecei a entalhar, a primeira peça foi uma figura de Adão e Eva".
Tudo é humano e sofrido
"No ambiente em que fui criado, a gente acaba se ligando ao problema dos outros e parece que há um laço estreito entre as classes menos favorecidas. Então, talvez seja isso que tenha tido também tanta influência na minha vida, pois na minha obra tudo é humano e sofrido, reflexo do que tenho dentro de mim. Tenho muito amor pela arte. Quando crio não penso em vender. Nunca cheguei a pensar que um dia iria vender um trabalho meu. Nunca acreditei que pudesse viver disto; do que eu gosto de fazer. Mas aconteceu".
A figura negra
"Os 'Anjos Negros', de uma certa forma, aconteceram no momento certo. Há tempos esperava uma oportunidade de explorar a figura negra. Pensava muito em fazer madonas negras, mas não havia ainda chegado a oportunidade. Aproveitando o convite para o Festival de Arte, Cultura Negra e Africana (Lagos, Nigéria, 1977) pude explorar a figura negra. No caso, os Anjos (ou Reis) Negros. Por outro lado tornou-se uma coisa meio monótona, pois são dez peças, dentro de um mesmo tema, embora ache que tenha conseguido um bom resultado. Falar dessa inspiração é difícil, porque quando trabalho me envolvo de tal forma que tudo entra por conta deste envolvimento. O talhe é resultado do favorecimento do que quero com o próprio talhar em si. Um golpe na madeira é, muitas vezes, a sugestão. Quanto às feições são resultados de observação nas diversas faces negras que vejo".
Busco no homem o Deus que ele tem dentro de si
"Torno a afirmar que os meus santos não têm nada de santos. O que faço são pessoas, sejam velhas, novas, pretas ou brancas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele tem dentro de si. Sempre tive medo que pudessem benzer ou rezar para uma escultura que faço, pois elas representam figuras humanas".
Fonte: Germina literatura, publicado em junho de 2009, por José Aloise Bahia e Maria do Carmo Arantes (Falecida em 2006. Membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Artes) e da AICA (Associação Internacional de Críticos de Artes/UNESCO). Prêmio ABCA 2004 pelos 30 anos de atividades como curadora, pesquisadora, ensaísta e crítica.)
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Artista plástico mineiro Maurino de Araújo afirma que está vivendo um de seus melhores momentos
Perto de completar 70 anos, artista faz planos de uma exposição
“A saúde não está 100%, mas a cabeça, a vida e o trabalho vão bem.” Assim o artista plástico Maurino de Araújo explica seu momento atual, ele que completa 70 anos em 28 de maio. “Estou vendo novo tempo de alegria. Sentir-se velho é querer encostar as ferramentas antes da hora”, ironiza. “Não tenho inveja de quem tem 20, 40 anos. Estou achando bom fazer 70 anos. A concentração no trabalho ficou mais agradável. Estou vivendo frenesi de desenhar e esculpir. E continuo rastejando atrás da pintura.”
Mineiro de Rio Casca, Maurino vive em Belo Horizonte desde 1965. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente. Dedicar a vida inteira à arte exige sacrifício, admite. “O trabalho faz com que a gente renuncie a algumas coisas. Em troca você ganha um pedacinho do céu”, garante. A arte, exemplifica, deu distinção a ele e recursos para ir levando a vida. “Mas não vou levar ouro no caixão”, conclui com bom humor.
Dançando Maurino avisa que ficar rico com a atividade nunca foi seu projeto. Motivo de satisfação é o respeito que desfruta como artista. Ele se incomoda, inclusive, com a imagem de figura excêntrica que dança pelas ruas. “Tenho natureza de recolhimento. Sou mais monge do que dançarino. Foi a vida que me forçou a descobrir que a dança é uma maravilhosa terapia. Os africanos têm nela uma sustentação. Todos deviam dançar”, defende.
Ano dramático, recorda Maurino, foi 1984. “Um tratamento de dentes acabou destruindo minha boca”, conta. Isso o obrigou a um longo período de recuperação física e da depressão, que ainda hoje combate. “Eu era um homem feliz, com saúde. E de repente estava mal. Reagi dançando”, lembra, acrescentando que se assusta com a cidade grande. “Preferia a Belo Horizonte pequena, onde se podia andar pelas ruas alegre e tranquilo, a este gigante que estamos vendo surgir”, avalia.
Momento feliz, afirma, é mesmo o atual. Maurino está se sentindo bem e curtindo os netos Letícia e Adrian. Uma coloca balas na boca dele; outro “nasceu artista”, avisa. “O céu deve ser mais ou menos assim como a alegria que as crianças passam”, especula o cidadão, que nem é de comemorar aniversário. Apesar disso, está com vontade de celebrar os 70 anos. “Quero trabalhar muito para descontar o tempo que fiquei parado. E talvez fazer uma exposição”, avisa o artista, torcendo para que se concretize o projeto de uma mostra com obras de colecionadores, no Museu de Artes e Ofícios.
Palavra de especialista
Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil (SP).
Raízes africanas
Maurino de Araújo criou uma obra muito original. A escultura dele está fundamentada no barroco mineiro e tem ligação ancestral, introduzida inconscientemente, com a África. São peças impactantes, com expressionismo que aproxima a produção de Maurino à de Aleijadinho. É arte que, no modo como são construídas as obras e sintetizadas as figuras, tem profundas ligações com os dogmas da arte africana, com caminhos não eurocêntricos. É artista incompreendido, que recebe a pecha de primitivo, mas está longe disso. Trata-se de grande e requintado escultor. Sempre tive paixão pelo que ele faz e apresentei em várias exposições. É um artista inspirador. Temos, no nosso acervo, várias obras dele.
Alma e sentimento
Maurino de Araújo já mostrou suas esculturas em importantes mostras dedicadas à arte brasileira realizadas no Brasil e no exterior. Esteve em duas edições da Bienal de São Paulo e chegou a expor no Museu Guggenheim (EUA). O interesse pela arte veio aos 5 anos, vendo mãe e pai (Maurílio Leôncio de Araújo e Conceição Gonçalves Pereira) trabalhando em olaria, em Espraiado, “uma rocinha perto de Rio Casca”, diz.
A primeira escultura de Maurino, feita em madeira, é do final dos anos 1960. A dedicação à arte sacra vem da formação em um seminário franciscano em São João del-Rei, onde conheceu as obras do Aleijadinho. Em 1965, depois de morar no Paraná, se transferiu de vez para Belo Horizonte, mas continuou na mesma linha de trabalho.
A arte sacra, cristã, diz Maurino, é influência importante da estética do Ocidente. “Permite criar ícones com conteúdo espiritual, expressão dos sentimentos e da alma e ligado aos dramas que a vida apresenta”, observa. Recorrentes são os anjos negros, madonas, cristos e santos. O artista não divide em fases o muito que realizou ao longo do tempo. “É um conjunto. Sou fiel a mim mesmo. E para ser fiel, as mudanças são leves, com naturalidade que as torna quase imperceptíveis”, ensina.
Um mestre? “O padre holandês Hank Kamps. Jovem, recém-chegado ao Bairro 1º de Maio, sem amigos, morando em lugar pobre, sem água, sem luz, foi com surpresa que vi ele me procurar por causa de um desenho que tinha visto. E me disse que eu era artista nato, que a beleza da arte está na criação, não na cópia. Foi o maior e mais importante ensinamento que recebi”, recorda. Maurino de Araújo vive e trabalha no Bairro 1º de Maio, na Região Nordeste de Belo Horizonte.
Fonte: Uai, por Walter Sebastião, publicado em 29 de abril de 2013.
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Maurino Araújo: Minas e a cultura perdem um mestre
Faleceu de leucemia em Belo Horizonte, no dia 30 de julho, aos 77 anos, o escultor e artista Maurino Araujo. Com o recolhimento de todos nesta época tão difícil, seu sepultamento foi privativo da família. Merecia uma multidão ao seu lado se tratássemos melhor nossos filhos ilustres e talentosos.
Nascido de família pobre e humilde viveu experiências amargas ao longo de uma vida dura à procura de sobrevivência até encontrar o caminho da escultura. De agricultor de subsistência familiar a servente de pedreiro e escultor de peças de barro e de madeira, ele fez de tudo. E que esculturas!
Começou a brilhar a partir da década de 1970, quando começou a esculpir objetos sacros, santos, Cristo e uma infinidade de imagens nas quais o sentimento dos seus personagens trazia em cada peça o registro de sua autobiografia, que ele julgava ser da própria humanidade, em especial das pessoas que vivem e viveram na sua mesma estratificação social. Seu domínio sobre os formões era tão grande que com três ou quatro cortes profundos na madeira, rápidos e seguros, fazia magicamente um rosto de um personagem cheio de emoções.
Maurino era conhecido como um artista barroco e expressionista ao mesmo tempo, designação que pode estranhar os conhecedores dos dois estilos. Imagino que isso seja privilégio de escultores mineiros que herdam toda a força e beleza do nosso barroco e o adiciona ao expressionismo do século XX.
Jovem ainda e vivendo alguns anos em seminário de São João del Rey, Maurino descobriu as esculturas de Aleijadinho, peças que o deixaram encantado. A partir daí parecia reviver com suas próprias obras o século XVIII em pleno século XX e XXI, criando peças que não tinham a riqueza de detalhes do velho mestre maior, mas cujos sentimentos estavam estampados para qualquer neófito em arte, tanto quanto daquele mestre de Vila Rica. Imagino que, se Antônio Francisco Lisboa vivesse nos dias de hoje, não somente o aplaudiria como o transformaria no seu discípulo favorito tão grandes eram seu talento, garra e determinação no que fazia.
Ele passava pelas ruas da cidade sem ser reconhecido pelo grande público, vinha a pé de longe ao centro da cidade, dançando “I dance, man, I dance”, dizia ele para este seu admirador. Quem o visse nessas ocasiões, daria um diagnóstico psicopatológico, mas era apenas uma forma de viver a vida e se exercitar. Durou pouco seu período de dança. Tragado pela doença, seus últimos meses foram de recolhimento e poucas visitas. Enterramos um gênio criador, e pouquíssimas pessoas perceberam.
Carlos Perktold é integrante da e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)
Fonte: O tempo, publicado em 30 de julho de 2020.
Crédito fotográfico: Uai, por Beto Novaes/EM/D.A Press, 20 de dezembro de 2009.
Maurino de Araújo (Rio Casca, MG, 28 de maio de 1943 — Belo Horizonte, MG, 30 de julho de 2020) foi um pintor e escultor brasileiro. Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente.
Biografia - Museu Afro Brasil
Foi criado em uma família camponesa em Minas Gerais, mas mudou-se para o Paraná ainda criança. Começou a produzir peças de barro na infância em companhia do avô, que era oleiro, e aprendeu a desenhar com a avó.
Nos anos 1950, mudou-se para Belo Horizonte. Entrou em contato com a escultura de Aleijadinho, que o impressionou e o motivou a procurar instrução artística formal na Escola de Belas Artes; contudo, não encontrou cursos de torêutica.
Ingressou no seminário em São João del-Rei (MG), onde começou a praticar a escultura em madeira, abandonando a carreira eclesiástica em 1965 e retornando a Belo Horizonte como artista. Começou expondo na feira de artesanato da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde sua obra ganhou a atenção de críticos de arte.
Em 1977, viajou à África e participou do II Festival de Arte Negra da Nigéria. Sobre esta viagem, afirmou: “ali, parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor”. Realizou exposições individuais a partir de 1972, em Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo, e participou de exposições coletivas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Bruxelas (Bélgica), Lagos (Nigéria) e Nova York (EUA). Conquistou o Prêmio de Aquisição no IX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1977) e teve uma sala especial dedicada à sua obra na Bienal Nacional de São Paulo de 1976.
Sua produção é majoritariamente composta por esculturas em madeira retratando santos e figuras da tradição católica com evidente influência da escultura barroca.
Ângelo Oswaldo de Araújo define sua obra: “Corpo opulento, cara arredondada, em rebatimentos arredondados, olhos esbugalhados e cabeleira basta fazem parte do vocabulário de formas copiosas praticado por Maurino de Araújo.”
Para Olívio Tavares de Araújo, o que caracteriza sua obra é “a concentração (no sentido químico do termo) e a intensificação de certos estilemas, certos procedimentos formais do barroco, tratados, porém, com uma rusticidade que lhes potencializa o impacto, a dramaticidade, a estranheza. [...] Ao invés de proselitismo faz exorcismo, e sua obra na verdade fornece [...] a atualíssima metáfora de uma humanidade machucada e grotesca".
Exposições
Individual - Centro Cultural Banco do Brasil (São Paulo, SP, 2005)
Coletiva - Bienal Nacional 76 (São Paulo, SP, 1976 )
Fundação Bienal - Panorama de Arte Atual Brasileira (São Paulo, SP, 1981)
Museu de Arte Moderna (Ibirapuera, São Paulo, SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1981)
Salão Global de Inverno - Fundação Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 1981)
Salão Global de Inverno - Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ, 1981)
Um Século de Escultura no Brasil - Museu de Arte de São Paulo (SP, 1982)
Os Herdeiros da Noite: fragmentos do imaginário negro (Belo Horizonte, MG, 1995)
Centro de Cultura de Belo Horizonte (MG, 1996)
Galeria Tina Zappoli - Natureza Humana (Porto Alegre, RS, 1996)
Sete Mostras Especiais - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 1998)
+ 500 Mostra do Redescobrimento - Fundação Bienal (São Paulo, SP, 2000)
Brazil: body and soul - Solomon R. Guggenheim Museum (Nova York, Estados Unidos, 2001)
Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro - Palácio das Artes (Belo Horizonte, MG, 2001)
Humanidades - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2003)
A Reunião - Galeria Tina Zappoli (Porto Alegre, RS, 2005)
Fonte: Museu Afro Brasil,
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Maurino Araujo: Um artista singular
Considerado por muitos como um expressionista barroco, é um artista emocionalmente contemporâneo dos mestres escultores mineiros do século XVIII.
Maurino nasceu na cidade mineira de Rio Casca, como membro de uma família que, segundo ele, fazia de tudo: “Nós plantávamos, fazíamos nossas casas, nossos utensílios e tudo o mais necessário”, diz. Autodidata, foi operário, servente de pedreiro, ajudante de balcão e contador em obras. Sob a influência de seus avós, que eram ceramistas, Maurino começou a trabalhar com o barro. Ainda criança, mudou-se para o Paraná. Distante do barro começou a desenhar; na escola que frequentou no Paraná a professora mandava-o desenhar no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno.
Na sua adolescência o artista descobriu a madeira e logo foi influenciado pelo estilo barroco; no barro não encontrava a firmeza que buscava. Maurino estudou durante seis anos em um seminário franciscano em São João del-Rei-MG e foi ali que conheceu as obras do Aleijadinho. Encantado pela obra do mestre passou a estudá-las minuciosamente. Das expressões ao corte da madeira, nada escapou da sua visão. A impressão foi tanta que ficou gravada em sua mente durante todos esses anos, deixando em suas obras leves resquícios dessa poderosa influência. Em 1965 Maurino se transfere para a capital Belo Horizonte.
Somente em 1970 Maurino passou a se dedicar exclusivamente à sua arte. Como muitos outros artistas brasileiros, começou mostrando suas obras em uma feira de artesanato na belíssima Praça da Liberdade em Belo Horizonte. Gradativamente foi ganhando notoriedade entre os críticos e apreciadores de arte popular. Sem preocupações com estilos ou classificações acadêmicas seu trabalho começa a “ganhar” o Brasil e o mundo. No final da década de 70 sua obra dá uma reviravolta ao conhecer a África. “... ali parece que algo dentro de mim acorda, se rompe e começo a me entender melhor...”, diz o artista. Hoje é fácil saber o que esse “acordar” fez com a obra de Maurino, basta ver seus trabalhos, neles, a África se expressa em cada corte da madeira.
Sob a influência do tempo em que passou no seminário, a obra de Maurino é formada em sua maioria por esculturas sacras. Com o desencanto que se apoderou dele, Maurino deixou o seminário e passou a se dedicar somente à sua arte. O tema sacro, segundo ele, não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. De enormes blocos de madeira Maurino fazia surgir Santanas, Franciscanos, Cristos e Madonas, esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias. Maurino até hoje trabalha preferencialmente com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se gradativamente a expressão do seu íntimo e uma necessidade do seu espírito. É possível notar em sua obra uma intensa expressão de sofrimento. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras. "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum", diz o artista.
Ao longo destes anos, Maurino expôs seus trabalhos em inúmeras exposições individuais e coletivas pelo mundo e recebeu vários prêmios como: Prêmio Legião Brasileira de Assistência; Destaque nas Artes, promoção Diário Associados (1976); Melhor do Ano, no setor de artes, promoção Diário Associados (1981). Participou da XV BISP (1979); V SAP de BH (1982); I Salão de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado, Palácio das Artes, BH (1984).
Fonte: The Brazilian Times, por David Faria e Albertina Moura, publicado em 1 de fevereiro de 2019.
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Maurino Araújo: expressionista barroco
I - O Artista
Maurino Araújo é caso único na atualidade plástica. De estilo expressionista barroco, é, artística e emocionalmente, contemporâneo dos mestres escultores do século 18. Não lhes copia o estilo, mas cria e se aprofunda dentro da escola que se afigura viva. A arte contemporânea não o influencia, aflorando em cada peça que executa a vitalidade intensa do barroco.
Deformados, inquietantes, inquisitivos são os santos e as mulheres que suas mãos fazem surgir do cedro ou da peroba. Com sentido profundamente religioso, marca as figuras, em blocos ou isoladas, com o selo místico de sua alma. Contorcidas em proposital deformação, sofrem e gemem ante o peso da própria humanidade.
De onde tamanha carga de sofrimento? Aparentemente, não do tranqüilo e modesto escultor. Não será por passagem direta, sem interrupção, como que um mensageiro de uma época marcada pela intransigência, pelo misticismo fanático e anseios abafados? A mostra palpitante de um mundo que sobreviveu incólume à ação dos séculos.
Ao falarmos das obras de Maurino Araújo, precisamos fazer um breve retorno ao passado, não só pelo percurso estilístico do artista como pela própria formação cultural brasileira. Observamos a presença do barroco que ainda vive e rege a obra de muitos artistas contemporâneos, seja na identificação de estilo, seja no espírito da profunda religiosidade popular vigente em Minas Gerais e no caráter mestiço que o torna singular ante o praticado em diferentes lugares do país.
2 - O Artista e a trajetória
Através deste processo podemos observar a trajetória de Maurino como a da própria história da arte mineira. A primeira fase da obra escultóricade Maurino é intimamente ligada aos cânones do barroco com as rocailles, formas redondas, volutas, dramas. A estilização da forma estética expressionista — carregada de emoção e sentimento. Posteriormente seu processo criativo se modifica ao entrar em contato direto com a arte da Nigéria, sobretudo a praticada em Ifê, durante o período em que esteve na África e também através de livros e visitas a museus europeus e brasileiros.
A descoberta do ouro em Minas Gerais, no final do século 17, ocasiona profundas modificações no cenário brasileiro e para a cultura que começa a se instalar, mescla de portugueses, cristãos-novos, ciganos e a massiva presença de africanos. Com a proibição de se instalarem ordens religiosas nos Campos das Minas Gerais, frutificam as confrarias de leigos brancos, pardos e negros, competindo entre si pelo apuro e desenvolvimento artístico em seus monumentos religiosos. O século 18 se caracteriza socialmente pela presença de mestiços, notadamente mulatos, no ofício das artes — o que representava um caminho de afirmação profissional e de ascensão social para eles, desde que a sociedade não previa o seu aparecimento e tão pouco a sua inserção no meio. Aos negros eram destinados os trabalhos dos eitos e das lavras; aos brancos era vedado, por questão de status "social", qualquer trabalho exercido com as mãos, exceto escrever, atividade considerada como intelectual e proibida aos demais.
Música, arquitetura e escultura religiosas se desenvolveram muito nos séculos 17 e 18 e com elas puderam os negros e, notadamente, os mestiços afirmar sua criatividade na arte e na manufatura, sendo que estas últimas lhes eram oficialmente vedadas pelos Decretos Reais, como o de 20 de outubro de 1621, que dizia textualmente: "Nenhum negro, mulato ou índio pode trabalhar como ourives".
Isso na região das lavras de ouro que usava, entre tantas, a técnica dos bantus na extração de minério e das pedras preciosas. "Além dessas restrições, cuidadosamente desleixadas, aos negros e seus descendentes não foram permitidos o exercício da artesania e o uso de símbolos nas esculturas e objetos de cultos originais. Só lhes restava integrar-se aos trabalhos de talha, esculpir os adornos e imagens ou pintar e dourar os templos e símbolos da religião dominante – a católica. Exatamente por aí, pelas brechas e pelos desvãos por eles criados é que, sorrateiramente, passam a herança simbólica, os caprichos de estilo e a herança humana destes cativos. Todas as leis e contigências vedavam-lhes qualquer expressão de sua gentilidade, forçando-os a integrar-se na religião que se confundia com a própria administração da colônia. Não se tratava portanto, do Brasil em autonomia e nem da África em continuidade" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Essa prática singular confere ao barroco mineiro, com seus artistas e oficiais, uma situação marcante entre os demais.
A forte presença do mestiço ainda é marcante na segunda metade do século 19. Começa a declinar quando o período barroco se obscurece sob o impacto da chegada da Missão Francesa, trazendo o neoclassicismo diretamente ligado à formação da elite européia e de pronto adotado pela nascente "elite" brasileira, como forma de expressão estética refinada em choque com o barroco do próprio "fazer acadêmico", prevendo anterior passagem e aceitação pelos Liceus de Artes e Ofícios ou pela Escola Nacional de Belas Artes. A arte se torna a expressão da nobreza. Poucos países incluídos na Diáspora Africana têm a história de suas artes tão marcadas por homens de etnias negras como o Brasil. Verificamos que as estéticas africanas, ou a sua tradição, constituem uma estrutura fundamental na obra de muitos artistas contemporâneos, assim como na criatividade popular.
Vivendo em meio à época (1960-1970) de pesquisas ambientais, conceituais e outras expressões da arte atual, Maurino conserva-se plenamente integrado ao mais autêntico e real sentido dos ideais estéticos barrocos.
A dramaticidade do corte é acentuada pelo sombrio das cores: o azul profundo, vermelho escuro, o sépia e o marrom invocam antigos dramas perdidos na escuridão dos tempos. "Maurino, em sua despretensão, traz a proposta do santeiro, entretanto, por seu extraordinário talento criativo, ele logo se identifica ao nível do escultor imaginário. Nenhuma de suas imagens imita, ou repele os padrões da hagiografia tradicional. Por ser um expressionista de grandes possibilidades, Maurino revisa o assunto, interpreta um atributo do texto hagiológico e nos oferece uma nova virtualidade da imagem. O acréscimo da policromia de suas peças é a sua contribuição como pintor, perenizando um recurso do expressionismo barroco" (Clarival do Prado Valladares, 1979). Não apenas o barroco europeu, como cita Clarival, mas também da arte iorubá, notadamente a do século 16 na cidade de Ifé (Nigéria) com seus redondos, volutas, elipses, expressão dramática e emocional irmanados pela sensibilidade criativa de Maurino, nas décadas de 1980 e 1990.
Entre nós permaneceu viva a tradição santeira popular e com seus representantes temos Francisco Fátima de Araújo, Cláudio Gerais, Wilson Serrano, entre outros. O próprio Maurino, em sua primeira fase era, sem dúvida, o santeiro-mor das Minas Gerais. Começando a esculpir em um meio no qual a influência barroca e a arte santeira são historicamente significativas, Maurino não fugiria dessas influências iniciais.
A ênfase na beleza, a impressão de volumes nos mantos, o atarracado das figuras, o movimento retorcido dos corpos, a tensão de forças na escultura, quase sempre com movimentos circulares, a forte expressividade, a dor, as peles claras, a expressão sofrida e angustiada de seus santos e anjos fazem de Maurino um significativo nome do expressionismo barroco: a alma fala e fere a madeira em cada talhe do artista. Somente na figuração de Jesus, São Francisco e Nossa Senhora da Conceição, o artista atenua a expressão de dramaticidade. Nessas, suas devoções iniciais, confere um maior plano à calma e à espiritualidade, enquanto os demais se revolvem num plano mais humano e terreno, desde que seus santos têm muito mais ligação com a terra do que com o céu.
3 - O Artistas, o homem e a trajetória
Maurino Araújo nasceu no dia 28 de maio na cidade de Rio Casca, na Zona da Mata, Mina Geral, em 1943. Passou parte de sua infância no Paraná, onde, na escolinha rural em que estudou, a professora mandava-o desenhar, no quadro-negro, fascinada com o talento precoce do aluno. Estudou seis anos no Seminário de São João del Rei, MG, transferindo-se em 1965 para Belo Horizonte.
Trazia a necessidade íntima de se expressar através da arte. Necessitando de um material resistente para suas peças recorre à madeira e, nessa ocasião, toma como mestre o Aleijadinho (1730-1814). Estuda minuciosamente suas obras. A expressão da face e do corpo, o corte da madeira, nada escapa da sua visão aguçada. A impressão é profunda e sentida. Fica gravada na mente, deixando em suas obras leves resquícios dessa influência poderosa. Trabalha de preferência com o cedro, utilizando-se do formão e da grosa para retirar da madeira pesados blocos esculturais. Começando como distração, a escultura tornou-se paulatinamente a expressão do seu íntimo, uma necessidade imprescindível do espírito.
Apenas em 1970, passou a dedicar-se exclusivamente à arte. Nota-se em várias de suas obras, uma intensa expressão de sofrimento contido, como se não pudesse suportar o fardo de suas revelações. O corte rápido e preciso confere um tom dramático, aos agrupamentos de figuras.
Cursou o seminário franciscano, decidido a seguir os passos do santo de sua devoção: São Francisco de Assis. Mas, os tempos mudaram e com eles as ordens. Desencantado, Maurino deixa o recolhimento do convento, dedica-se com maior afinco ao exercício da escultura já iniciada. O tema sacro não foi escolha, mas imposição do próprio espírito. Santanas, franciscanos, mulheres de Jerusalém, o Cristo e a Madona se processam numa maravilhosa sucessão de blocos esculpidos e encarnados com um processo criado pelo próprio artista: cera, cola branca, tinta xadrez e até querosene para acentuar o envelhecimento das peças. As cores são escuras e sombrias: sépia, azul-escuro, vermelho-grená e verde acentuando a dramaticidade das peças.
Dessa fase diz o próprio artista: "Não nego que o sofrimento estampado na face dos meus santos seja o sofrimento da própria humanidade. Nas classes humildes, as pessoas são mais próximas, sentem e sofrem juntas uma dor que se torna comum".
Começou expondo na Feira de Arte da Praça da Liberdade (1969/70), em Belo Horizonte. Ali o conheci em 1969. Gradativamente, passei a perceber que da sua lavra não mais saíam santos, apesar de continuar na simbologia inerente a cada um e os nomes indicarem que sim. À medida que amadurece como artista e pessoa, Maurino muda não apenas de traço, mas de intenção e postura artística. O fato de viajar muito, manter contato com artistas de outros estados e tendências diversas, enfim, os encontros e o convívio com representações culturais distintas do meio inicial ocasionam uma profunda mudança na sua obra. Falamos de transformação, da passagem de uma estética a outra, de uma sorte de modificações que perpassam pela obra de Maurino, o abandono do tratamento laudatório e santeiro do passado (sempre com fragmentos críticos) faz surgir do cedro a figura naturalista, altiva, elegante e simbólica dos ancestrais africanos. É o artista pensando consigo mesmo, incomodado com a posição contraditória em que, como pessoa, se encontra nesta sociedade mestiça e, no entanto, tão preconceituosa.
4 - O artista, a trajetória, o homem e o encontro com a África
Maurino absorve uma profunda identificação entre o que sente e a antiga arte exercida na cidade de Ifé (Nigéria), abrindo-se para novas influências e abordagens. No consenso dos pesquisadores contemporâneos, os estilos de arte praticados em Ifé e Benin são totalmente diferentes do que se criava nos demais países africanos. Alguns teóricos buscam a origem dessa arte nos antigos povos mesopotâmicos, nos fenícios, no Egito Antigo ou, talvez, em povos anteriores. Muito já se escreveu sobre essas esculturas naturalistas e a técnica de "cera perdida", inclusive Frobenius (Leo Frobenius, 1873-1938), antropólogo alemão, diz que "essa arte de Ifé e Benin está relacionada com o mundo mediterrâneo, datando do primeiro milênio antes da era cristã".
Nessas esculturas se ressaltam a diversidade e as faculdades plásticas do africano sendo por isso consideradas a "arte clássica" da África, falando-se, na atualidade, da real existência do "mundo iorubá" em contraponto ao "mundo grego" dos ocidentais. As proporções são conservadas dentro de uma estética que busca uma beleza ideal. É inegável que a liberdade plástica das etnias africanas proporcionou ao ocidente a criação de uma arte nova e surpreendente.
Não se trata de transposição pura da estética ou busca do Ethos, mas da influência que trouxe, à escultura ocidental, uma série de elementos novos com a liberdade criativa, visão do essencial impulso livre de expressão simbólica. Sob a influência dos entrechoques culturais, neste ethosmelting-pot brasileiro, Maurino passa a situar sua nova fase. Não mais a hagiografia cristã, não mais personagens brancos, mas figuras negras — sobas, reis, mulheres e homens do povo. Também mudam o trato da madeira e a encarnação das figuras.
Na junção do naturalismo de Ifé e a conseqüente herança do barroco mestiço, Maurino nos apresenta os personagens do seu mundo interior. As peças que anteriormente mostravam, nítidas, as marcas da goiva e do formão agora são lisas, amaciadas como no trato das cerâmicas. As cores mudaram, não apenas da pele, também as dos trajes, a encarnação torna-se menos dourada e decorativa (o barroco mineiro) e passa a ser mais sintética e com os tons rebaixados (a arte nigeriana).
As figuras não trazem a angústia de um barroco tardio, mas apresentam severidade e força interior ancestral. Na confluência dos estilos de Ifé e Benin e do barroco mestiço de Minas Gerais, Maurino conseguiu um estilo fundamental e pessoal com a afirmação das tão diferentes origens e a compreensão de que a arte é o grande amortecedor desses choques, encerrando em si o próprio conceito de universalidade.
Teria Maurino intencionado a transformação? Seria espontânea? Algumas vezes tocamos neste assunto, que poderia ser um ponto de vista pessoal ou, quem sabe, estaria vendo algo que só existia para mim. A essa pergunta Maurino, muito do seu jeito, apenas sorria manso e desconversava. O assunto não lhe agradava por ainda não estar maduro. A pergunta persistia, pairava no ar. Por que Maurino insistia no imaginário sacro, se, na verdade, o que esculpe é uma revisão dos próprios valores?
O santeiro-mor de Minas Gerais não mais o era, pois suas esculturas humanizaram-se, o que o reposiciona como um dos maiores escultores brasileiros contemporâneos. Maurino apenas sorria e nada afirmava ou desmentia até que ouvi de seus lábios a espontânea declaração que passo integralmente: "Os meus santos não tem nada de santos. O que vejo, o que faço são pessoas humanas. O que me interessa são as pessoas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele pode ser". Estava aí, madura e segura, a afirmação do que pressentíamos há muito tempo.
A sensibilidade do negro tem expressiva presença na cultura brasileira, vitalizando significativamente as manifestações artísticas. Especialmente no que se refere às linguagens plástico-visuais não se buscou ainda estudar em profundidade a contribuição das culturas africanas, embora sejam abundantes, na bibliografia brasileira, as referências à presença do negro e do mestiço na conformação dos fundamentos de uma arte nacional no período colonial. A importância dessa contribuição, que vem sendo dada ainda hoje com igual vitalidade, merece aprofundado estudo a fim de que possamos reabrir certos caminhos fundamentais da criação artística. É possível que, a partir destes fatos, os produtores de arte encontrem novas alternativas de expressão, tal como aconteceu com a arte européia no início do século 20, que, a partir das influências negras, iniciou um processo revolucionário como o cubismo.
Maurino Araújo participou de várias exposições individuais e coletivas. As principais: Artistas Latino-Americanos, Bruxelas, Bélgica (1973); Bienal de São Paulo (1976); Festival de Arte, Cultura Negra e Africana, Lagos, Nigéria (1977); Museu de Arte Moderna, São Paulo (1981); V Salão Nacional de Artes Plásticas, Belo Horizonte, (1982); Galeria Bonino, Rio de Janeiro (1983); Artistas Populares de Belo Horizonte, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte (1996); Negro de Corpo e Alma, Mostra do Redescobrimento, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque Ibirapuera, São Paulo (2000); Quatro Aquarelistas e Um Escultor, sala especial Maurino Araújo, Galeria Agnus Dei, Belo Horizonte (2003). É o único artista brasileiro com obra no Museu do Vaticano (báculo oferecido ao papa João Paulo II, pelo governo brasileiro). Roberto Burle Marx (1909-1994) construiu uma ala em seu sítio, na antiga estrada da Barra da Guaratiba, Rio de Janeiro, especialmente para abrigar as esculturas de Maurino Araújo. O escultor mineiro tem obras no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG, museus nacionais e internacionais, fundações, instituições públicas e privadas. Está presente em inúmeras coleções particulares de artes plásticas no Brasil e exterior.
Bate-papo com Maurino Araujo por Maria do Carmo Arantes
Aquilo que vinha lá de dentro
"Toda vida, a tendência para a arte parece que era nascente. Menino ainda, comecei a buscar em todos os meios alguma coisa que pudesse expressar aquilo que vinha lá de dentro. Primeiro eu desenhei muito, depois foi à experiência com argila, com pintura e por fim a escultura — uma nova tentativa, um novo caminho. Esculpi um Cristo, o resultado não foi decepcionante. O Cristo encontra-se hoje numa capela de um dos bairros de Belo Horizonte. Tudo que sei foi à vida que me ensinou, alguma coisa que veio lá do fundo, intuição, sei lá! Alguma coisa parecida. Talvez seja a inquietação interior. Aquela vontade de buscar alguma coisa. (...) Não tenho escola de arte, o que tenho é amor pelo o que eu faço, pelas minhas esculturas. Mas não foram santos as minhas primeiras criações. Quando comecei a entalhar, a primeira peça foi uma figura de Adão e Eva".
Tudo é humano e sofrido
"No ambiente em que fui criado, a gente acaba se ligando ao problema dos outros e parece que há um laço estreito entre as classes menos favorecidas. Então, talvez seja isso que tenha tido também tanta influência na minha vida, pois na minha obra tudo é humano e sofrido, reflexo do que tenho dentro de mim. Tenho muito amor pela arte. Quando crio não penso em vender. Nunca cheguei a pensar que um dia iria vender um trabalho meu. Nunca acreditei que pudesse viver disto; do que eu gosto de fazer. Mas aconteceu".
A figura negra
"Os 'Anjos Negros', de uma certa forma, aconteceram no momento certo. Há tempos esperava uma oportunidade de explorar a figura negra. Pensava muito em fazer madonas negras, mas não havia ainda chegado a oportunidade. Aproveitando o convite para o Festival de Arte, Cultura Negra e Africana (Lagos, Nigéria, 1977) pude explorar a figura negra. No caso, os Anjos (ou Reis) Negros. Por outro lado tornou-se uma coisa meio monótona, pois são dez peças, dentro de um mesmo tema, embora ache que tenha conseguido um bom resultado. Falar dessa inspiração é difícil, porque quando trabalho me envolvo de tal forma que tudo entra por conta deste envolvimento. O talhe é resultado do favorecimento do que quero com o próprio talhar em si. Um golpe na madeira é, muitas vezes, a sugestão. Quanto às feições são resultados de observação nas diversas faces negras que vejo".
Busco no homem o Deus que ele tem dentro de si
"Torno a afirmar que os meus santos não têm nada de santos. O que faço são pessoas, sejam velhas, novas, pretas ou brancas. Em vez de buscar um Deus invisível, busco no homem o Deus que ele tem dentro de si. Sempre tive medo que pudessem benzer ou rezar para uma escultura que faço, pois elas representam figuras humanas".
Fonte: Germina literatura, publicado em junho de 2009, por José Aloise Bahia e Maria do Carmo Arantes (Falecida em 2006. Membro da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Artes) e da AICA (Associação Internacional de Críticos de Artes/UNESCO). Prêmio ABCA 2004 pelos 30 anos de atividades como curadora, pesquisadora, ensaísta e crítica.)
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Artista plástico mineiro Maurino de Araújo afirma que está vivendo um de seus melhores momentos
Perto de completar 70 anos, artista faz planos de uma exposição
“A saúde não está 100%, mas a cabeça, a vida e o trabalho vão bem.” Assim o artista plástico Maurino de Araújo explica seu momento atual, ele que completa 70 anos em 28 de maio. “Estou vendo novo tempo de alegria. Sentir-se velho é querer encostar as ferramentas antes da hora”, ironiza. “Não tenho inveja de quem tem 20, 40 anos. Estou achando bom fazer 70 anos. A concentração no trabalho ficou mais agradável. Estou vivendo frenesi de desenhar e esculpir. E continuo rastejando atrás da pintura.”
Mineiro de Rio Casca, Maurino vive em Belo Horizonte desde 1965. É um dos mais importantes escultores brasileiros, com trabalho reconhecido internacionalmente. Dedicar a vida inteira à arte exige sacrifício, admite. “O trabalho faz com que a gente renuncie a algumas coisas. Em troca você ganha um pedacinho do céu”, garante. A arte, exemplifica, deu distinção a ele e recursos para ir levando a vida. “Mas não vou levar ouro no caixão”, conclui com bom humor.
Dançando Maurino avisa que ficar rico com a atividade nunca foi seu projeto. Motivo de satisfação é o respeito que desfruta como artista. Ele se incomoda, inclusive, com a imagem de figura excêntrica que dança pelas ruas. “Tenho natureza de recolhimento. Sou mais monge do que dançarino. Foi a vida que me forçou a descobrir que a dança é uma maravilhosa terapia. Os africanos têm nela uma sustentação. Todos deviam dançar”, defende.
Ano dramático, recorda Maurino, foi 1984. “Um tratamento de dentes acabou destruindo minha boca”, conta. Isso o obrigou a um longo período de recuperação física e da depressão, que ainda hoje combate. “Eu era um homem feliz, com saúde. E de repente estava mal. Reagi dançando”, lembra, acrescentando que se assusta com a cidade grande. “Preferia a Belo Horizonte pequena, onde se podia andar pelas ruas alegre e tranquilo, a este gigante que estamos vendo surgir”, avalia.
Momento feliz, afirma, é mesmo o atual. Maurino está se sentindo bem e curtindo os netos Letícia e Adrian. Uma coloca balas na boca dele; outro “nasceu artista”, avisa. “O céu deve ser mais ou menos assim como a alegria que as crianças passam”, especula o cidadão, que nem é de comemorar aniversário. Apesar disso, está com vontade de celebrar os 70 anos. “Quero trabalhar muito para descontar o tempo que fiquei parado. E talvez fazer uma exposição”, avisa o artista, torcendo para que se concretize o projeto de uma mostra com obras de colecionadores, no Museu de Artes e Ofícios.
Palavra de especialista
Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil (SP).
Raízes africanas
Maurino de Araújo criou uma obra muito original. A escultura dele está fundamentada no barroco mineiro e tem ligação ancestral, introduzida inconscientemente, com a África. São peças impactantes, com expressionismo que aproxima a produção de Maurino à de Aleijadinho. É arte que, no modo como são construídas as obras e sintetizadas as figuras, tem profundas ligações com os dogmas da arte africana, com caminhos não eurocêntricos. É artista incompreendido, que recebe a pecha de primitivo, mas está longe disso. Trata-se de grande e requintado escultor. Sempre tive paixão pelo que ele faz e apresentei em várias exposições. É um artista inspirador. Temos, no nosso acervo, várias obras dele.
Alma e sentimento
Maurino de Araújo já mostrou suas esculturas em importantes mostras dedicadas à arte brasileira realizadas no Brasil e no exterior. Esteve em duas edições da Bienal de São Paulo e chegou a expor no Museu Guggenheim (EUA). O interesse pela arte veio aos 5 anos, vendo mãe e pai (Maurílio Leôncio de Araújo e Conceição Gonçalves Pereira) trabalhando em olaria, em Espraiado, “uma rocinha perto de Rio Casca”, diz.
A primeira escultura de Maurino, feita em madeira, é do final dos anos 1960. A dedicação à arte sacra vem da formação em um seminário franciscano em São João del-Rei, onde conheceu as obras do Aleijadinho. Em 1965, depois de morar no Paraná, se transferiu de vez para Belo Horizonte, mas continuou na mesma linha de trabalho.
A arte sacra, cristã, diz Maurino, é influência importante da estética do Ocidente. “Permite criar ícones com conteúdo espiritual, expressão dos sentimentos e da alma e ligado aos dramas que a vida apresenta”, observa. Recorrentes são os anjos negros, madonas, cristos e santos. O artista não divide em fases o muito que realizou ao longo do tempo. “É um conjunto. Sou fiel a mim mesmo. E para ser fiel, as mudanças são leves, com naturalidade que as torna quase imperceptíveis”, ensina.
Um mestre? “O padre holandês Hank Kamps. Jovem, recém-chegado ao Bairro 1º de Maio, sem amigos, morando em lugar pobre, sem água, sem luz, foi com surpresa que vi ele me procurar por causa de um desenho que tinha visto. E me disse que eu era artista nato, que a beleza da arte está na criação, não na cópia. Foi o maior e mais importante ensinamento que recebi”, recorda. Maurino de Araújo vive e trabalha no Bairro 1º de Maio, na Região Nordeste de Belo Horizonte.
Fonte: Uai, por Walter Sebastião, publicado em 29 de abril de 2013.
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Maurino Araújo: Minas e a cultura perdem um mestre
Faleceu de leucemia em Belo Horizonte, no dia 30 de julho, aos 77 anos, o escultor e artista Maurino Araujo. Com o recolhimento de todos nesta época tão difícil, seu sepultamento foi privativo da família. Merecia uma multidão ao seu lado se tratássemos melhor nossos filhos ilustres e talentosos.
Nascido de família pobre e humilde viveu experiências amargas ao longo de uma vida dura à procura de sobrevivência até encontrar o caminho da escultura. De agricultor de subsistência familiar a servente de pedreiro e escultor de peças de barro e de madeira, ele fez de tudo. E que esculturas!
Começou a brilhar a partir da década de 1970, quando começou a esculpir objetos sacros, santos, Cristo e uma infinidade de imagens nas quais o sentimento dos seus personagens trazia em cada peça o registro de sua autobiografia, que ele julgava ser da própria humanidade, em especial das pessoas que vivem e viveram na sua mesma estratificação social. Seu domínio sobre os formões era tão grande que com três ou quatro cortes profundos na madeira, rápidos e seguros, fazia magicamente um rosto de um personagem cheio de emoções.
Maurino era conhecido como um artista barroco e expressionista ao mesmo tempo, designação que pode estranhar os conhecedores dos dois estilos. Imagino que isso seja privilégio de escultores mineiros que herdam toda a força e beleza do nosso barroco e o adiciona ao expressionismo do século XX.
Jovem ainda e vivendo alguns anos em seminário de São João del Rey, Maurino descobriu as esculturas de Aleijadinho, peças que o deixaram encantado. A partir daí parecia reviver com suas próprias obras o século XVIII em pleno século XX e XXI, criando peças que não tinham a riqueza de detalhes do velho mestre maior, mas cujos sentimentos estavam estampados para qualquer neófito em arte, tanto quanto daquele mestre de Vila Rica. Imagino que, se Antônio Francisco Lisboa vivesse nos dias de hoje, não somente o aplaudiria como o transformaria no seu discípulo favorito tão grandes eram seu talento, garra e determinação no que fazia.
Ele passava pelas ruas da cidade sem ser reconhecido pelo grande público, vinha a pé de longe ao centro da cidade, dançando “I dance, man, I dance”, dizia ele para este seu admirador. Quem o visse nessas ocasiões, daria um diagnóstico psicopatológico, mas era apenas uma forma de viver a vida e se exercitar. Durou pouco seu período de dança. Tragado pela doença, seus últimos meses foram de recolhimento e poucas visitas. Enterramos um gênio criador, e pouquíssimas pessoas perceberam.
Carlos Perktold é integrante da e integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)
Fonte: O tempo, publicado em 30 de julho de 2020.
Crédito fotográfico: Uai, por Beto Novaes/EM/D.A Press, 20 de dezembro de 2009.