Sebastião Theodoro Paulino da Silva (7 de janeiro de 1923, Oscar Bressane, SP, Brasil — 2 de fevereiro de 2003, Assis, SP, Brasil), mais conhecido como Ranchinho, foi um pintor naïf brasileiro. Autodidata e analfabeto, iniciou sua produção artística de forma intuitiva, utilizando materiais improvisados até receber incentivo do artista José Nazareno Mimessi, fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, que o introduziu às técnicas de guache e tinta acrílica sobre madeira. Suas composições simples, de cores intensas, perspectiva livre e cenas do cotidiano rural, retratam personagens populares e elementos oníricos. Suas obras traduzem tanto a vida interiorana quanto sua visão singular do mundo. Participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo (1973) e da Bienal Nacional de Artes (1976), consolidando-se no circuito nacional. Realizou inúmeras exposições individuais em Assis, Bauru, Presidente Prudente e São Paulo, incluindo a Galeria Brasiliana (1982) e a Assembleia Legislativa de São Paulo (1985). Protagonizou um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto em 1978. Após sua morte, em 2013, recebeu homenagem com uma exposição póstuma no Museu de Arte Primitiva de Assis, reafirmando sua relevância para a arte popular brasileira. Suas obras integram acervos públicos e privados e são consideradas importantes registros da arte espontânea e marginal brasileira.
Ranchinho | Arremate Arte
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, nasceu em 7 de janeiro de 1923, no município de Oscar Bressane, interior de São Paulo. De origem humilde, cresceu em meio a privações e analfabetismo, vivendo grande parte da vida como catador e sobrevivendo de trabalhos informais. A arte, entretanto, surgiria como a grande virada em sua trajetória, transformando sua existência marcada pela marginalidade em um percurso de reconhecimento cultural.
Autodidata, Ranchinho descobriu no desenho e na pintura a possibilidade de traduzir seu universo interno e o cotidiano ao redor. Sua produção começou de forma rudimentar, utilizando materiais improvisados até ser incentivado por José Nazareno Mimessi, artista e fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis. Foi Mimessi quem lhe apresentou técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira, fornecendo-lhe ferramentas para aprimorar a expressão plástica e inserindo-o no circuito artístico local.
Foi em Assis que começou a exibir seus trabalhos em espaços comunitários, clubes e instituições de ensino, revelando uma estética fortemente associada à arte naïf. Suas telas retratavam cenas rurais, personagens populares, animais e situações oníricas, sempre com cores intensas e formas simples, carregadas de espontaneidade e expressividade.
Em 1973, Ranchinho participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, um marco decisivo que o projetou para além do interior paulista. Três anos depois, esteve também na Bienal Nacional de Artes, consolidando sua presença no cenário nacional. Ao longo das décadas de 1970 a 1990, realizou diversas exposições individuais, principalmente em Assis, mas também em São Paulo, Bauru e Presidente Prudente, sempre reforçando sua identidade como cronista visual do cotidiano popular.
Na década de 1980, Ranchinho alcançou maior visibilidade em instituições culturais da capital paulista, como a Galeria Brasiliana e a Assembleia Legislativa, que acolheram suas exposições individuais. Mesmo mantendo a simplicidade de vida, o artista passou a ser visto como um nome central da pintura naïf brasileira, dialogando com um público cada vez mais amplo e diversificado.
Em 1978, foi protagonista de um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto, que registrou sua figura e sua arte como parte da cultura popular. Esse reconhecimento midiático reforçou sua condição de símbolo de resistência e autenticidade, mostrando que a arte poderia nascer dos lugares mais marginalizados da sociedade e ainda assim alcançar relevância.
Ranchinho faleceu em 2 de fevereiro de 2003, em Assis, cidade onde consolidou sua trajetória e deixou um legado artístico profundamente ligado à memória cultural do interior paulista. Em 2013, o Museu de Arte Primitiva de Assis realizou uma exposição póstuma homenageando o artista, reafirmando sua importância e mantendo viva sua contribuição para a arte brasileira.
Ranchinho | Wikipédia
Ranchinho de Assis, como era conhecido Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, 7 de janeiro de 1923 - Assis, 2 de fevereiro de 2003) foi um pintor e desenhista brasileiro.
Nascido órfão de pai, com dois anos a família mudou-se para Assis. Analfabeto e com necessidades especiais, não teve nenhuma formação escolar. Desenvolveu habilidades de pintor e desenhista autodidata.
Sobreviveu também como catador de papéis. Pintava ou desenhava em papelão ou madeira, com lápis ou canetinhas que conseguia encontrar. Somente aos 24 anos conseguiu emprego como ajudante de um vendedor de garapa com o senhor João Romero, que ficou seu amigo e protetor.
Influenciado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, aprendeu técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira aglomerada. E em 2017, uma rua no residencial Villa Bella recebeu seu nome. Com a ajuda dele, Ranchinho se tornou muito conhecido se apresentando em diversa exposições.
O apelido Ranchinho, de início pejorativo, foi com o tempo assimilado por ele, passando a assinar seus trabalhos como "RancHinho", com uma das letras H capitular.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto.
Pintou até bem próximo a sua morte, em 2003, vítima de um AVC. Ao longo de sua vida produziu mais de 3000 obras.
Exposições
1974 - Assis - Primeira individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis
1976 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1979 - Assis - Individual, na Concha Acústica de Assis
1981 - Bauru - Individual, no Sesc
1981 - Presidente Prudente - Individual, no Palácio da Cultura
1982 - São Paulo - Individual, na Galeria Brasiliana
1985 - São Paulo - Individual na Assembléia Legislativa
1988 - São Paulo - Individual, na Galeria de Arte Paulo Vasconcello
1990 - Assis - Individual, na Casa dos Médicos de Assis/APM
1990 - Assis - Individual, no Centro Cultural Dona Pimpa
2013 - Assis - Museu de Arte Primitiva
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho | Itaú Cultural
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, São Paulo, 1923 - Assis, São Paulo, 2003). Pintor e desenhista. Filho de agricultores, muda-se com a família para Assis, São Paulo, após a morte do pai em 1925. Analfabeto e apresentando desvios comportamentais, somente aos 24 anos consegue o primeiro trabalho, auxiliando na produção de garapa. Com a morte do seu patrão e protetor, João Romero, conhecido como João Garapeiro, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. É incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, a aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira.
Realiza várias individuais, entre 1974 e 1976, no Clube Recreativo de Assis; em 1975, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, e em 1981, no SESC Bauru, São Paulo. Em 1982, expõe ainda na galeria Brasiliana, e, em 1988, na Galeria de Arte Paulo Vasconcelos, em São Paulo. Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também em São Paulo.
É premiado na 1ª Exposição de Artes Plásticas de Assis, em 1971; no 1º Salão de Artes Plásticas de Assis, em 1980; na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba, São Paulo, em 1998, participando ainda das edições de 1994, 2000 e 2002 da mesma mostra.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto. Na Cidade do México, participa das exposições Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil, no Instituto Nacional de Belas Artes, e Pintura Primitiva de Brasil, no Museu Carrillo Gil, ambas em 1980.
Apresenta telas na mostra Gente da Terra e na exposição 10 anos de Paço das Artes em 1980 e 1981, respectivamente, no Paço das Artes, em São Paulo. Na mesma cidade, integra as mostras Brasiliana: o homem e a terra, na Pinacoteca do Estado, em 1988; Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal, em 2000; e Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, em 2002. Apresenta trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior do estado de São Paulo, entre 1978 e 1994.
Análise
A bibliografia sobre o pintor Ranchinho enfatiza com frequência o autodidatismo do artista, bem como sua dificuldade desde a infância com o ensino formal e seu desconhecimento de obras de arte eruditas, aproximando-o da produção dita naïf ou popular.
Entretanto, o conjunto de sua obra demonstra se tratar de um pintor que dialoga com a tradição à sua maneira, atualizando sua fatura, utilizando a perspectiva e buscando referências fora de sua realidade cotidiana.
É interessante observar ainda a inserção do próprio Ranchinho como personagem nas suas composições. Ele aparece, às vezes, como passageiro, como ator, projetado na tela do cinema, ou como espectador de um filme do comediante Amácio Mazzaropi (1912 - 1981) - ator que imortaliza a figura do jeca. Dessa forma, o pintor demonstra interesse pela identidade do caipira, indicando inclusive compreender a sua dimensão como representação - na tela da pintura ou do cinema.
A temática de Ranchinho aponta tanto para o mundo rural do interior paulista, como para as cenas urbanas. São frequentes figuras de mulheres que lavam roupas na bica de água, recolhem o milho no paiol, socam café no pilão, fazem artesanato, alimentam os animais, costuram e cozinham. Entre os temas urbanos, estão cenas da Assis antiga, onde passa a maior parte de sua vida - a igreja, a prefeitura, o cinema, o museu -; da Assis e de outras cidades na atualidade - a televisão, o cinema, o avião, o trem, São Paulo, parques de diversão e o circo.
Ranchinho dedica várias pinturas a aspectos do circo. Em Sem Título, 1980, na qual retrata um palhaço que brinca com um adestrador de cavalos no picadeiro, ensaia um tratamento em perspectiva e a presença marcante do desenho sob a pincelada rápida, aplicada com agilidade e que foge à contenção da linha em diversos momentos.
Em seus trabalhos, são recorrentes gatos, galinhas, sapos, lagartos e cobras, muitas vezes agigantados. O uso de dimensões avantajadas para acentuar os protagonistas das cenas, faz pensar numa dimensão simbólica de proporções. O leão também aparece, porém nem sempre no ambiente circense; está, às vezes, ameaçando mulheres. Esse dado leva a crer que Ranchinho não se limita apenas à observação dos animais de seu convívio no campo, diferentemente de outros pintores populares, mas trabalha com imagens coletadas em revistas e jornais, nos quais provavelmente escolhe referências que extravasam a realidade de seu entorno.
No que concerne à técnica de sua pintura, a obra de Ranchinho costuma ser interpretada como uma espécie de "impressionismo expressionista". Apesar de não haver qualquer ligação entre o pintor e esses movimentos artísticos, a associação serve como forma de descrever a configuração formal dos trabalhos. Em A Chuva (s.d.), por exemplo, a paisagem - figuras humanas, cerca, árvores - parece diluir-se por meio das pinceladas evidentes, curtas, soltas e justapostas. Apenas uma das paredes da casa central da composição permanece intacta: uma forma definida que se destaca pelo tipo distinto de fatura.
Ranchinho faz uso variado dos expedientes pictóricos: alguns trabalhos sugerem alguma profundidade, outras composições são planas; as cores utilizadas nem sempre correspondem à realidade. Segundo comentadores, não costumava fazer retoques e o trabalho final é produzido rapidamente, apesar de o pintor realizar tanto esboços como estudos de cor previamente.
Exposições Individuais
1988 – Individual de Ranchinho
Exposições Coletivas
1976 – Bienal Nacional
1980 – Gente da Terra
1980 – Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil
1985 – 7º Salão de Artes Plásticas de Presidente Prudente
1986 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1986 – 1ª Bienal Artoeste de Presidente Prudente
1987 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1988 – Brasiliana: o homem e a terra
1994 – 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1998 – Bienal Naifs do Brasil
1999 – Gênios Ingênuos 70/80
2000 – Almeida Júnior: um artista revisitado
2000 – Arte Popular Brasileira
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Cultura Brasileira 1
2002 – Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 – Ópera aberta: celebração
2002 – Bienal Naifs do Brasil
Exposições Póstumas
2004 – Forma, Cor e Expressão: uma coleção de arte brasileira
2005 – O Prazer é Nosso
2006 – Viva Cultura Viva
2016 – Entreolhares: poéticas d’alma brasileira
2018 – Acervo em transformação: comodato Masp B3
2019 – Vaivém (São Paulo)
2023 – Reversos e Transversos: artistas fora do eixo (e amigos) nas bienais
2025 – Coleção Vilma Eid – Em cada canto
Fonte: RANCHINHO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 01 de setembro de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Ranchinho | Arte Popular do Brasil
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, é um dos mais importantes e celebrados pintores populares que o Brasil já teve. Ele nasceu no dia 7 de janeiro de 1923 no município de Óscar Bressane, SP. Ranchinho era filho de bóias-frias e mudou-se com a família para Assis após a morte do pai em 1925. Deficiente mental desde a infância, não falava nem ouvia direito, engatinhou até os quatro anos de idade e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas e só aos 24 anos conseguiu o primeiro trabalho, como auxiliar de João Romero (ou João Garapeiro). Com a morte do irmão mais velho e da mãe, em 1948, o Ranchinho se vê inteiramente só. Seu João Garapeiro leva-o para morar com a família e lhe confia novas funções. Até 1954 Ranchinho viveu assim. Os filhos de João Garapeiro o abasteciam de cadernos velhos e tocos de lápis e desde essa época ele não parou mais de desenhar. Desenhava as coisas que via e 'contava histórias' através dos seus desenhos. Com a morte do seu patrão e protetor, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, e mora em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. Completamente marginalizado e hostilizado pela sociedade local, é incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi a aprender técnicas de guache e de acrílica sobre eucatex.
Marcado por hábitos, como freqüentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes. Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo.
Sua pintura possui uma variedade de cores e intensidade criativa semelhantes ao do pintor holandês Vicent Van Gogh. A comparação não foi feita por nenhum entusiasta da arte naif. A interpretação de que Ranchinho se equipara ao gênio holandês, em talento e qualidade, é de Oscar D’Ambrosio, crítico da Associação Internacional de Críticos de Artes. O que mais impressiona na obra de Ranchinho é que ele retrata uma Assis que não existia na época que ele passou a desenvolver suas telas. A catedral que ele imprime nas telas não é a de hoje, que qualquer pessoa que visita a cidade observará. É a anterior, nas décadas de 1950 e 1960, conta D’Ambrosio. A comparação de Ranchinho e Van Gogh está na obra escrita por D’Ambrosio, ‘O Van Gogh Feliz – Vida e Obra do pintor Ranchinho de Assis’, publicado pela editora Unesp.
A obra de Ranchinho tem a capacidade de organizar uma visão totalizante, numa fluência que é difícil de encontrar em pintores e em artistas em geral. Sua pintura não se parece em nada com a pintura naif tradicionalmente conhecida. Muitas vezes se pensa na pintura popular como algo espontâneo, mas na verdade o que se vê são pinturas muito esquemáticas e Ranchinho escapa completamente disso. Ele tem um universo e um jeito de pintar completamente sui generis e peculiar.
Ranchinho fez mais de 2.000 obras entre guaches, desenhos, acrílicos e óleos. Ele expôs pela primeira vez três de seus trabalhos na 1ª exposição de Artes Plásticas de Assis em 1971, quando recebeu Menção Honrosa. Participou de outras exposições individuais e coletivas de grande importância, como Bienal de São Paulo de 1976. Nesse mesmo ano foi tema de uma crônica de Lourenço Diaféria editada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo. Em 1977 foi objeto de análise de Américo Pellegrini filho em seu livro Crônica Informativa de Cinco Pintores Folclóricos. Também foi apreciado por uma das maiores crítica de arte do país, Radha Abramo, numa matéria editada no caderno ilustrada do Jornal Folha São Paulo em julho de 1985. Participou também da exposição Brasil 500 Anos na Bienal de São Paulo. Seu trabalho foi tema de uma matéria escrita por Rui Moreira Leite para a revista Veja de 30 de julho de 1986. Desde então, participou de mais ou menos 20 exposições. Ele faleceu no dia 2 de fevereiro de 2003 na cidade onde viveu a maior parte de sua vida, Assis, interior de São Paulo.
Fonte: Arte Popular do Brasil, "Ranchinho”. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal | Estância Turística de Avaré
O patrimônio artístico da Estância Turística de Avaré foi enriquecido esta semana pela doação de uma série de óleos sobre tela do pintor Ranchinho.
“Decidi oferecer essas obras para o acervo do Museu Municipal “Anita Ferreira De Maria”, pois são telas que podem futuramente integrar a pinacoteca que já está sendo projetada pela Secretaria da Cultura”, declarou o juiz federal aposentado Benjamin Flávio de Almeida Ferreira.
Ao todo, são seis quadros, os quais em breve serão exibidos ao público. “Agradecemos ao doutor Benjamin, nosso amigo benfeitor, que já contemplou o nosso acervo com obras de Agostinho Batista de Freitas e de Clóvis Graciano, outros importantes artistas plásticos. Agora a arte do Ranchinho vai encantar muita gente pela sua originalidade”, afirmou o diretor Gesiel Theodoro Neto.
Numa das telas doadas, Ranchinho pintou a sede da Fazenda Olaria, antiga propriedade rural de Avaré, que pertenceu aos avós do doador, dona Mariquinha Lopes e coronel Diamantino Ferreira Inocêncio.
Trajetória
Pintor e desenhista autodidata, Sebastião Theodoro Paulino da Silva (1923-2003) era filho de agricultores radicados em Assis.
Analfabeto, sobreviveu como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe valeu o apelido de Ranchinho.
Depois de aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira e participar de mostras individuais em Assis, Ranchinho expôs em galerias paulistanas e participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também na capital paulista.
Apresentou trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior paulista entre as décadas de 1970 e 1990, sendo premiado na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba em 1998.
Fonte: Estância Turística de Avaré, “Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal", publicado em 29 de agosto de 2019. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho: a arte resgata a cidadania | GNotícias
Poéticas telas noturnas com janelas de casas iluminadas em dourado e cenas cinzentas em que as figuras parecem se desfazer em meio à chuva torrencial são constantes no mundo imagético de Sebastião Theodoro Paulino da Silva, celebrizado como Ranchinho, pintor radicado em Assis, interior de São Paulo, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2003. Basta observar esse tipo de tela para perceber que se está perante um artista de composições bem definidas, cores marcantes e temas geralmente ligadas ao interior, com numerosas imagens de Assis, como trens, circo, galinhas, caminhões e cenas de colheita e rodeio.
No entanto, em vez de observar esses atributos do artista, a maioria dos jornalistas e críticos que conhece a sua obra prefere acentuar a biografia do pintor, não o seu talento com formas, cores e tintas. Por isso, já foram escritas dezenas de páginas sobre a deficiência mental do artista, seu analfabetismo, dificuldade de falar e exibicionismo sexual, contornado a partir do momento em que ele se dedicou em tempo integral à arte, mas pouco se analisou seu estilo ora impressionista ora expressionista, mas sempre vigoroso, dotado de uma linguagem própria.
Marcado por hábitos, como frequentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes.
Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo. Para entender esse alheamento, é preciso conhecer o perfil do artista. Nascido em 1923, na fazenda Santo Humberto Lameu, município de Oscar Bressane, próximo a Assis, Sebastião era filho de um casal de boias-frias. Sem falar ou ouvir direito, engatinhou até os quatro anos e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Com esse histórico, foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas, e só arrumou um trabalho fixo: auxiliar de João Romeiro, vendedor de garapa em Assis.
Para piorar, Sebastião perdeu o pai com dois anos; o irmão mais velho e a mãe, com 25 anos; e o patrão e amigo João Romeiro, conhecido como Garapeiro, com 31 anos. Passou então a morar em pequenos ranchos abandonados, de onde veio o apelido Ranchinho, que detestava no começo, mas o qual assumiu ao perceber que era esse nome com o qual era identificado como pintor de talento. Para subsistir, ele vendia papéis, latas e garrafas, além de receber comida e roupas de alguns caridosos moradores de Assis.
Sebastião, que, desde a escola, costumava realizar desenhos, com tocos de lápis e giz de cera, continuou a criar imagens em cadernos velhos que ganhava de crianças, e entrou definitivamente para o mundo da pintura pelas mãos do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, um assissense apaixonado pela arte de raízes populares, que estimulou o então artista em potencial a pintar em guache, promovendo, nos anos 1970, uma série de exposições na cidade, com ampla repercussão, rendendo mostras em São Paulo, uma crônica emocionada e emocionante de Lourenço Diaféria, mestre do gênero, e um artigo exaltando seu talento na revista semanal Veja.
Com esse sucesso da crítica, o artista passou a ser respeitado enquanto pessoa, mas ganhou a incômoda fama de artista excêntrico, que impediu suas telas de serem analisadas por si mesmas, deixando de lado sua biografia. As telas de Ranchinho, que após realizar experiências com óleo, se fixou na tinta acrílica, diluída de modo a acompanhar o tempo de composição do artista, são autênticas narrativas. Isso ficava evidente ao se visitar o seu ateliê, em Assis, onde morava com o sobrinho Juvenil José da Silva, que foi seu curador e tutor.
Ao mostrar os próprios quadros, Ranchinho se entusiasmava. Embora com sérias dificuldades de articulação de sons, identificava figuras (auto-retratos, Mimessi, Juvenil e a esposa, políticos e padres da cidade) e temas (delegacia, igrejas de Assis, a unidade da Universidade Estadual Paulista da cidade), com visível prazer, consciente de que a arte é que o livrava da marginalidade e o tornava o centro das atenções.
A obra de Ranchinho merece, portanto, no mínimo, duas leituras. Primeiro, temos admiração pelos seus quadros. Depois, pela sua trajetória de vida. Com a simplicidade de uma criança e o talento de um gênio artístico, suas obras nos azem refletir sobre a fragilidade da condição humana.
Assim, o Ranchinho pintor reabilitou o cidadão Sebastião. Por meio das telas, o primeiro se comunicou com o mundo e, graças e elas, foi aceito. Antes impedido de entrar na cidade, que visitava à noite em busca de comida, o artista ganhou respeito pelo seu talento. E ele, sabendo disso, mostrava com orgulho as fotos que tirou em São Paulo, quando ali esteve expondo.
Pinceladas firmes, imagens noturnas repletas de vida e alegres circos tiraram Ranchinho da marginalidade e do anonimato. Muito além do batido trocadilho de que é um excepcional artista, não um artista excepcional, o autodidata Ranchinho dominava de forma admirável a técnica da perspectiva, que utilizava em cenas de casamento – um deles, engraçadíssimo, em que é servido ovo frito na festa –, quintais com animais domésticos e moças pulando cercas ao se deparar com bois ou cobras.
Ranchinho, portanto, não é apenas um grande artista. Ele também oferece uma lição de vida. Especificamente no âmbito artístico, ao recriar o mundo com seus pincéis, coloca-se como um exímio pintor. E, enquanto ser humano, com sua simplicidade e sorriso aberto, faz lembrar que a vida pode ser simples, embora nós a compliquemos a cada instante.
Fonte: GNotícia, “Ranchinho: a arte resgata a cidadania”, publicado por Oscar D’Ambrósio, em 21 de julho de 2025.
Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho | AssisCity
Na última sexta-feira, dia 4 de julho, o Museu de Arte Primitiva de Assis (MAPA) recebeu uma cerimônia especial que marcou o descerramento da primeira placa do Projeto Personalidades, idealizado pelo Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho. A primeira homenagem foi dedicada ao artista plástico e pintor de arte naïf assisense Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, um dos nomes mais expressivos da cultura assisense.
A placa instalada no MAPA, onde diversas obras do artista estão expostas, conta com um QR CODE que direciona os visitantes a uma reportagem especial produzida pela jornalista Ana Almeida. O conteúdo traz relatos inéditos, como uma entrevista exclusiva com o sobrinho do artista, Juvenil José da Silva, e foi realizado em vídeo com coordenação de Bruna Fernandes e edição de Giovana Machado.
Bruna Fernandes, gestora do Portal AssisCity e idealizadora do projeto, destacou a emoção do momento. “Para nós, hoje é um dia muito feliz porque estamos realmente concretizando um sonho e um trabalho maravilhoso que foi feito a muitas mãos, com muita pesquisa e dedicação. A ideia surgiu da vontade de valorizar a história das pessoas que ajudaram a construir a identidade de Assis — e nada melhor do que fazer isso no mês em que celebramos os 120 anos da nossa cidade. Começamos com cinco personalidades marcantes e escolhemos espaços simbólicos para que essas histórias ganhem ainda mais visibilidade. Iniciar pelo MAPA, homenageando o Ranchinho, é extremamente significativo, pois suas obras estão aqui, e agora sua trajetória também está eternizada em forma de memória afetiva e acessível. A recepção do público tem sido linda, e esse é só o começo.” afirmou.
A reportagem completa será publicada oficialmente na próxima quarta-feira, 9 de julho, mas quem visitar o MAPA já pode acessar o conteúdo por meio do QR CODE instalado na placa.
A cerimônia contou com a presença da equipe do Portal AssisCity, do jornalista Walter Gonçalves Filho, do professor e colunista Elielton de Oliveira — que também contribuiu para uma das reportagens do projeto —, além de representantes da imprensa local, como a Voz do Vale, TV Câmara de Assis e Interativa FM, a equipe responsável pelo museu e outros convidados.
Durante o evento, o filósofo e professor assisense Zé Sanabria ressaltou a importância da iniciativa. “A nossa região ficou por muito tempo sem registros escritos. O que a gente está fazendo aqui é transformar memórias orais em documentos concretos, como essas placas, livros e documentários. Isso é essencial para que a cidade saiba de onde veio, onde está e para onde vai. O Juvenil, por exemplo, sobrinho do Ranchinho, carrega em si uma memória viva que não se encontra em lugar nenhum. É preciso registrar isso antes que se perca”, declarou.
Além de Ranchinho, também serão homenageadas outras figuras de relevância histórica para Assis: o professor Antônio Cândido, fundador da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis; a jogadora de basquete Magic Paula, com trajetória consagrada no esporte mundial; o bailarino Joshey Leão, que chegou a ser considerado o quinto maior do mundo; e Helenira Resende, estudante e guerrilheira brasileira morta pela Ditadura Militar e que viveu em Assis.
As placas serão instaladas ao longo do mês de julho em locais emblemáticos da cidade, como o Ginásio Municipal de Esportes de Assis (GEMA), a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis, o Teatro Municipal e a casa onde viveu Helenira Resende.
Para o jornalista Walter Gonçalves Filho, o projeto tem um valor histórico inestimável. “As novas gerações precisam saber que o que há de mais importante em Assis é a sua gente. E muita gente que nasceu ou viveu aqui brilhou pelo Brasil e pelo mundo. A placa é uma maneira simbólica e eficaz de preservar essas histórias, como já é feito em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Paris. Ranchinho é nosso primeiro homenageado, e iniciar esse projeto com ele, aqui no MAPA, foi um pontapé inicial de ouro”, disse.
O Projeto Personalidades é uma realização do Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Assis.
Fonte: AssisCity, “Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho”, publicado em 6 de julho de 2025. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Crédito fotográfico: AssisCity, imagem reprodução do livro "A Arte Visionária de Ranchinho". Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (7 de janeiro de 1923, Oscar Bressane, SP, Brasil — 2 de fevereiro de 2003, Assis, SP, Brasil), mais conhecido como Ranchinho, foi um pintor naïf brasileiro. Autodidata e analfabeto, iniciou sua produção artística de forma intuitiva, utilizando materiais improvisados até receber incentivo do artista José Nazareno Mimessi, fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, que o introduziu às técnicas de guache e tinta acrílica sobre madeira. Suas composições simples, de cores intensas, perspectiva livre e cenas do cotidiano rural, retratam personagens populares e elementos oníricos. Suas obras traduzem tanto a vida interiorana quanto sua visão singular do mundo. Participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo (1973) e da Bienal Nacional de Artes (1976), consolidando-se no circuito nacional. Realizou inúmeras exposições individuais em Assis, Bauru, Presidente Prudente e São Paulo, incluindo a Galeria Brasiliana (1982) e a Assembleia Legislativa de São Paulo (1985). Protagonizou um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto em 1978. Após sua morte, em 2013, recebeu homenagem com uma exposição póstuma no Museu de Arte Primitiva de Assis, reafirmando sua relevância para a arte popular brasileira. Suas obras integram acervos públicos e privados e são consideradas importantes registros da arte espontânea e marginal brasileira.
Ranchinho | Arremate Arte
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, nasceu em 7 de janeiro de 1923, no município de Oscar Bressane, interior de São Paulo. De origem humilde, cresceu em meio a privações e analfabetismo, vivendo grande parte da vida como catador e sobrevivendo de trabalhos informais. A arte, entretanto, surgiria como a grande virada em sua trajetória, transformando sua existência marcada pela marginalidade em um percurso de reconhecimento cultural.
Autodidata, Ranchinho descobriu no desenho e na pintura a possibilidade de traduzir seu universo interno e o cotidiano ao redor. Sua produção começou de forma rudimentar, utilizando materiais improvisados até ser incentivado por José Nazareno Mimessi, artista e fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis. Foi Mimessi quem lhe apresentou técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira, fornecendo-lhe ferramentas para aprimorar a expressão plástica e inserindo-o no circuito artístico local.
Foi em Assis que começou a exibir seus trabalhos em espaços comunitários, clubes e instituições de ensino, revelando uma estética fortemente associada à arte naïf. Suas telas retratavam cenas rurais, personagens populares, animais e situações oníricas, sempre com cores intensas e formas simples, carregadas de espontaneidade e expressividade.
Em 1973, Ranchinho participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, um marco decisivo que o projetou para além do interior paulista. Três anos depois, esteve também na Bienal Nacional de Artes, consolidando sua presença no cenário nacional. Ao longo das décadas de 1970 a 1990, realizou diversas exposições individuais, principalmente em Assis, mas também em São Paulo, Bauru e Presidente Prudente, sempre reforçando sua identidade como cronista visual do cotidiano popular.
Na década de 1980, Ranchinho alcançou maior visibilidade em instituições culturais da capital paulista, como a Galeria Brasiliana e a Assembleia Legislativa, que acolheram suas exposições individuais. Mesmo mantendo a simplicidade de vida, o artista passou a ser visto como um nome central da pintura naïf brasileira, dialogando com um público cada vez mais amplo e diversificado.
Em 1978, foi protagonista de um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto, que registrou sua figura e sua arte como parte da cultura popular. Esse reconhecimento midiático reforçou sua condição de símbolo de resistência e autenticidade, mostrando que a arte poderia nascer dos lugares mais marginalizados da sociedade e ainda assim alcançar relevância.
Ranchinho faleceu em 2 de fevereiro de 2003, em Assis, cidade onde consolidou sua trajetória e deixou um legado artístico profundamente ligado à memória cultural do interior paulista. Em 2013, o Museu de Arte Primitiva de Assis realizou uma exposição póstuma homenageando o artista, reafirmando sua importância e mantendo viva sua contribuição para a arte brasileira.
Ranchinho | Wikipédia
Ranchinho de Assis, como era conhecido Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, 7 de janeiro de 1923 - Assis, 2 de fevereiro de 2003) foi um pintor e desenhista brasileiro.
Nascido órfão de pai, com dois anos a família mudou-se para Assis. Analfabeto e com necessidades especiais, não teve nenhuma formação escolar. Desenvolveu habilidades de pintor e desenhista autodidata.
Sobreviveu também como catador de papéis. Pintava ou desenhava em papelão ou madeira, com lápis ou canetinhas que conseguia encontrar. Somente aos 24 anos conseguiu emprego como ajudante de um vendedor de garapa com o senhor João Romero, que ficou seu amigo e protetor.
Influenciado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, aprendeu técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira aglomerada. E em 2017, uma rua no residencial Villa Bella recebeu seu nome. Com a ajuda dele, Ranchinho se tornou muito conhecido se apresentando em diversa exposições.
O apelido Ranchinho, de início pejorativo, foi com o tempo assimilado por ele, passando a assinar seus trabalhos como "RancHinho", com uma das letras H capitular.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto.
Pintou até bem próximo a sua morte, em 2003, vítima de um AVC. Ao longo de sua vida produziu mais de 3000 obras.
Exposições
1974 - Assis - Primeira individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis
1976 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1979 - Assis - Individual, na Concha Acústica de Assis
1981 - Bauru - Individual, no Sesc
1981 - Presidente Prudente - Individual, no Palácio da Cultura
1982 - São Paulo - Individual, na Galeria Brasiliana
1985 - São Paulo - Individual na Assembléia Legislativa
1988 - São Paulo - Individual, na Galeria de Arte Paulo Vasconcello
1990 - Assis - Individual, na Casa dos Médicos de Assis/APM
1990 - Assis - Individual, no Centro Cultural Dona Pimpa
2013 - Assis - Museu de Arte Primitiva
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho | Itaú Cultural
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, São Paulo, 1923 - Assis, São Paulo, 2003). Pintor e desenhista. Filho de agricultores, muda-se com a família para Assis, São Paulo, após a morte do pai em 1925. Analfabeto e apresentando desvios comportamentais, somente aos 24 anos consegue o primeiro trabalho, auxiliando na produção de garapa. Com a morte do seu patrão e protetor, João Romero, conhecido como João Garapeiro, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. É incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, a aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira.
Realiza várias individuais, entre 1974 e 1976, no Clube Recreativo de Assis; em 1975, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, e em 1981, no SESC Bauru, São Paulo. Em 1982, expõe ainda na galeria Brasiliana, e, em 1988, na Galeria de Arte Paulo Vasconcelos, em São Paulo. Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também em São Paulo.
É premiado na 1ª Exposição de Artes Plásticas de Assis, em 1971; no 1º Salão de Artes Plásticas de Assis, em 1980; na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba, São Paulo, em 1998, participando ainda das edições de 1994, 2000 e 2002 da mesma mostra.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto. Na Cidade do México, participa das exposições Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil, no Instituto Nacional de Belas Artes, e Pintura Primitiva de Brasil, no Museu Carrillo Gil, ambas em 1980.
Apresenta telas na mostra Gente da Terra e na exposição 10 anos de Paço das Artes em 1980 e 1981, respectivamente, no Paço das Artes, em São Paulo. Na mesma cidade, integra as mostras Brasiliana: o homem e a terra, na Pinacoteca do Estado, em 1988; Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal, em 2000; e Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, em 2002. Apresenta trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior do estado de São Paulo, entre 1978 e 1994.
Análise
A bibliografia sobre o pintor Ranchinho enfatiza com frequência o autodidatismo do artista, bem como sua dificuldade desde a infância com o ensino formal e seu desconhecimento de obras de arte eruditas, aproximando-o da produção dita naïf ou popular.
Entretanto, o conjunto de sua obra demonstra se tratar de um pintor que dialoga com a tradição à sua maneira, atualizando sua fatura, utilizando a perspectiva e buscando referências fora de sua realidade cotidiana.
É interessante observar ainda a inserção do próprio Ranchinho como personagem nas suas composições. Ele aparece, às vezes, como passageiro, como ator, projetado na tela do cinema, ou como espectador de um filme do comediante Amácio Mazzaropi (1912 - 1981) - ator que imortaliza a figura do jeca. Dessa forma, o pintor demonstra interesse pela identidade do caipira, indicando inclusive compreender a sua dimensão como representação - na tela da pintura ou do cinema.
A temática de Ranchinho aponta tanto para o mundo rural do interior paulista, como para as cenas urbanas. São frequentes figuras de mulheres que lavam roupas na bica de água, recolhem o milho no paiol, socam café no pilão, fazem artesanato, alimentam os animais, costuram e cozinham. Entre os temas urbanos, estão cenas da Assis antiga, onde passa a maior parte de sua vida - a igreja, a prefeitura, o cinema, o museu -; da Assis e de outras cidades na atualidade - a televisão, o cinema, o avião, o trem, São Paulo, parques de diversão e o circo.
Ranchinho dedica várias pinturas a aspectos do circo. Em Sem Título, 1980, na qual retrata um palhaço que brinca com um adestrador de cavalos no picadeiro, ensaia um tratamento em perspectiva e a presença marcante do desenho sob a pincelada rápida, aplicada com agilidade e que foge à contenção da linha em diversos momentos.
Em seus trabalhos, são recorrentes gatos, galinhas, sapos, lagartos e cobras, muitas vezes agigantados. O uso de dimensões avantajadas para acentuar os protagonistas das cenas, faz pensar numa dimensão simbólica de proporções. O leão também aparece, porém nem sempre no ambiente circense; está, às vezes, ameaçando mulheres. Esse dado leva a crer que Ranchinho não se limita apenas à observação dos animais de seu convívio no campo, diferentemente de outros pintores populares, mas trabalha com imagens coletadas em revistas e jornais, nos quais provavelmente escolhe referências que extravasam a realidade de seu entorno.
No que concerne à técnica de sua pintura, a obra de Ranchinho costuma ser interpretada como uma espécie de "impressionismo expressionista". Apesar de não haver qualquer ligação entre o pintor e esses movimentos artísticos, a associação serve como forma de descrever a configuração formal dos trabalhos. Em A Chuva (s.d.), por exemplo, a paisagem - figuras humanas, cerca, árvores - parece diluir-se por meio das pinceladas evidentes, curtas, soltas e justapostas. Apenas uma das paredes da casa central da composição permanece intacta: uma forma definida que se destaca pelo tipo distinto de fatura.
Ranchinho faz uso variado dos expedientes pictóricos: alguns trabalhos sugerem alguma profundidade, outras composições são planas; as cores utilizadas nem sempre correspondem à realidade. Segundo comentadores, não costumava fazer retoques e o trabalho final é produzido rapidamente, apesar de o pintor realizar tanto esboços como estudos de cor previamente.
Exposições Individuais
1988 – Individual de Ranchinho
Exposições Coletivas
1976 – Bienal Nacional
1980 – Gente da Terra
1980 – Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil
1985 – 7º Salão de Artes Plásticas de Presidente Prudente
1986 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1986 – 1ª Bienal Artoeste de Presidente Prudente
1987 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1988 – Brasiliana: o homem e a terra
1994 – 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1998 – Bienal Naifs do Brasil
1999 – Gênios Ingênuos 70/80
2000 – Almeida Júnior: um artista revisitado
2000 – Arte Popular Brasileira
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Cultura Brasileira 1
2002 – Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 – Ópera aberta: celebração
2002 – Bienal Naifs do Brasil
Exposições Póstumas
2004 – Forma, Cor e Expressão: uma coleção de arte brasileira
2005 – O Prazer é Nosso
2006 – Viva Cultura Viva
2016 – Entreolhares: poéticas d’alma brasileira
2018 – Acervo em transformação: comodato Masp B3
2019 – Vaivém (São Paulo)
2023 – Reversos e Transversos: artistas fora do eixo (e amigos) nas bienais
2025 – Coleção Vilma Eid – Em cada canto
Fonte: RANCHINHO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 01 de setembro de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Ranchinho | Arte Popular do Brasil
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, é um dos mais importantes e celebrados pintores populares que o Brasil já teve. Ele nasceu no dia 7 de janeiro de 1923 no município de Óscar Bressane, SP. Ranchinho era filho de bóias-frias e mudou-se com a família para Assis após a morte do pai em 1925. Deficiente mental desde a infância, não falava nem ouvia direito, engatinhou até os quatro anos de idade e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas e só aos 24 anos conseguiu o primeiro trabalho, como auxiliar de João Romero (ou João Garapeiro). Com a morte do irmão mais velho e da mãe, em 1948, o Ranchinho se vê inteiramente só. Seu João Garapeiro leva-o para morar com a família e lhe confia novas funções. Até 1954 Ranchinho viveu assim. Os filhos de João Garapeiro o abasteciam de cadernos velhos e tocos de lápis e desde essa época ele não parou mais de desenhar. Desenhava as coisas que via e 'contava histórias' através dos seus desenhos. Com a morte do seu patrão e protetor, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, e mora em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. Completamente marginalizado e hostilizado pela sociedade local, é incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi a aprender técnicas de guache e de acrílica sobre eucatex.
Marcado por hábitos, como freqüentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes. Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo.
Sua pintura possui uma variedade de cores e intensidade criativa semelhantes ao do pintor holandês Vicent Van Gogh. A comparação não foi feita por nenhum entusiasta da arte naif. A interpretação de que Ranchinho se equipara ao gênio holandês, em talento e qualidade, é de Oscar D’Ambrosio, crítico da Associação Internacional de Críticos de Artes. O que mais impressiona na obra de Ranchinho é que ele retrata uma Assis que não existia na época que ele passou a desenvolver suas telas. A catedral que ele imprime nas telas não é a de hoje, que qualquer pessoa que visita a cidade observará. É a anterior, nas décadas de 1950 e 1960, conta D’Ambrosio. A comparação de Ranchinho e Van Gogh está na obra escrita por D’Ambrosio, ‘O Van Gogh Feliz – Vida e Obra do pintor Ranchinho de Assis’, publicado pela editora Unesp.
A obra de Ranchinho tem a capacidade de organizar uma visão totalizante, numa fluência que é difícil de encontrar em pintores e em artistas em geral. Sua pintura não se parece em nada com a pintura naif tradicionalmente conhecida. Muitas vezes se pensa na pintura popular como algo espontâneo, mas na verdade o que se vê são pinturas muito esquemáticas e Ranchinho escapa completamente disso. Ele tem um universo e um jeito de pintar completamente sui generis e peculiar.
Ranchinho fez mais de 2.000 obras entre guaches, desenhos, acrílicos e óleos. Ele expôs pela primeira vez três de seus trabalhos na 1ª exposição de Artes Plásticas de Assis em 1971, quando recebeu Menção Honrosa. Participou de outras exposições individuais e coletivas de grande importância, como Bienal de São Paulo de 1976. Nesse mesmo ano foi tema de uma crônica de Lourenço Diaféria editada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo. Em 1977 foi objeto de análise de Américo Pellegrini filho em seu livro Crônica Informativa de Cinco Pintores Folclóricos. Também foi apreciado por uma das maiores crítica de arte do país, Radha Abramo, numa matéria editada no caderno ilustrada do Jornal Folha São Paulo em julho de 1985. Participou também da exposição Brasil 500 Anos na Bienal de São Paulo. Seu trabalho foi tema de uma matéria escrita por Rui Moreira Leite para a revista Veja de 30 de julho de 1986. Desde então, participou de mais ou menos 20 exposições. Ele faleceu no dia 2 de fevereiro de 2003 na cidade onde viveu a maior parte de sua vida, Assis, interior de São Paulo.
Fonte: Arte Popular do Brasil, "Ranchinho”. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal | Estância Turística de Avaré
O patrimônio artístico da Estância Turística de Avaré foi enriquecido esta semana pela doação de uma série de óleos sobre tela do pintor Ranchinho.
“Decidi oferecer essas obras para o acervo do Museu Municipal “Anita Ferreira De Maria”, pois são telas que podem futuramente integrar a pinacoteca que já está sendo projetada pela Secretaria da Cultura”, declarou o juiz federal aposentado Benjamin Flávio de Almeida Ferreira.
Ao todo, são seis quadros, os quais em breve serão exibidos ao público. “Agradecemos ao doutor Benjamin, nosso amigo benfeitor, que já contemplou o nosso acervo com obras de Agostinho Batista de Freitas e de Clóvis Graciano, outros importantes artistas plásticos. Agora a arte do Ranchinho vai encantar muita gente pela sua originalidade”, afirmou o diretor Gesiel Theodoro Neto.
Numa das telas doadas, Ranchinho pintou a sede da Fazenda Olaria, antiga propriedade rural de Avaré, que pertenceu aos avós do doador, dona Mariquinha Lopes e coronel Diamantino Ferreira Inocêncio.
Trajetória
Pintor e desenhista autodidata, Sebastião Theodoro Paulino da Silva (1923-2003) era filho de agricultores radicados em Assis.
Analfabeto, sobreviveu como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe valeu o apelido de Ranchinho.
Depois de aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira e participar de mostras individuais em Assis, Ranchinho expôs em galerias paulistanas e participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também na capital paulista.
Apresentou trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior paulista entre as décadas de 1970 e 1990, sendo premiado na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba em 1998.
Fonte: Estância Turística de Avaré, “Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal", publicado em 29 de agosto de 2019. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho: a arte resgata a cidadania | GNotícias
Poéticas telas noturnas com janelas de casas iluminadas em dourado e cenas cinzentas em que as figuras parecem se desfazer em meio à chuva torrencial são constantes no mundo imagético de Sebastião Theodoro Paulino da Silva, celebrizado como Ranchinho, pintor radicado em Assis, interior de São Paulo, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2003. Basta observar esse tipo de tela para perceber que se está perante um artista de composições bem definidas, cores marcantes e temas geralmente ligadas ao interior, com numerosas imagens de Assis, como trens, circo, galinhas, caminhões e cenas de colheita e rodeio.
No entanto, em vez de observar esses atributos do artista, a maioria dos jornalistas e críticos que conhece a sua obra prefere acentuar a biografia do pintor, não o seu talento com formas, cores e tintas. Por isso, já foram escritas dezenas de páginas sobre a deficiência mental do artista, seu analfabetismo, dificuldade de falar e exibicionismo sexual, contornado a partir do momento em que ele se dedicou em tempo integral à arte, mas pouco se analisou seu estilo ora impressionista ora expressionista, mas sempre vigoroso, dotado de uma linguagem própria.
Marcado por hábitos, como frequentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes.
Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo. Para entender esse alheamento, é preciso conhecer o perfil do artista. Nascido em 1923, na fazenda Santo Humberto Lameu, município de Oscar Bressane, próximo a Assis, Sebastião era filho de um casal de boias-frias. Sem falar ou ouvir direito, engatinhou até os quatro anos e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Com esse histórico, foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas, e só arrumou um trabalho fixo: auxiliar de João Romeiro, vendedor de garapa em Assis.
Para piorar, Sebastião perdeu o pai com dois anos; o irmão mais velho e a mãe, com 25 anos; e o patrão e amigo João Romeiro, conhecido como Garapeiro, com 31 anos. Passou então a morar em pequenos ranchos abandonados, de onde veio o apelido Ranchinho, que detestava no começo, mas o qual assumiu ao perceber que era esse nome com o qual era identificado como pintor de talento. Para subsistir, ele vendia papéis, latas e garrafas, além de receber comida e roupas de alguns caridosos moradores de Assis.
Sebastião, que, desde a escola, costumava realizar desenhos, com tocos de lápis e giz de cera, continuou a criar imagens em cadernos velhos que ganhava de crianças, e entrou definitivamente para o mundo da pintura pelas mãos do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, um assissense apaixonado pela arte de raízes populares, que estimulou o então artista em potencial a pintar em guache, promovendo, nos anos 1970, uma série de exposições na cidade, com ampla repercussão, rendendo mostras em São Paulo, uma crônica emocionada e emocionante de Lourenço Diaféria, mestre do gênero, e um artigo exaltando seu talento na revista semanal Veja.
Com esse sucesso da crítica, o artista passou a ser respeitado enquanto pessoa, mas ganhou a incômoda fama de artista excêntrico, que impediu suas telas de serem analisadas por si mesmas, deixando de lado sua biografia. As telas de Ranchinho, que após realizar experiências com óleo, se fixou na tinta acrílica, diluída de modo a acompanhar o tempo de composição do artista, são autênticas narrativas. Isso ficava evidente ao se visitar o seu ateliê, em Assis, onde morava com o sobrinho Juvenil José da Silva, que foi seu curador e tutor.
Ao mostrar os próprios quadros, Ranchinho se entusiasmava. Embora com sérias dificuldades de articulação de sons, identificava figuras (auto-retratos, Mimessi, Juvenil e a esposa, políticos e padres da cidade) e temas (delegacia, igrejas de Assis, a unidade da Universidade Estadual Paulista da cidade), com visível prazer, consciente de que a arte é que o livrava da marginalidade e o tornava o centro das atenções.
A obra de Ranchinho merece, portanto, no mínimo, duas leituras. Primeiro, temos admiração pelos seus quadros. Depois, pela sua trajetória de vida. Com a simplicidade de uma criança e o talento de um gênio artístico, suas obras nos azem refletir sobre a fragilidade da condição humana.
Assim, o Ranchinho pintor reabilitou o cidadão Sebastião. Por meio das telas, o primeiro se comunicou com o mundo e, graças e elas, foi aceito. Antes impedido de entrar na cidade, que visitava à noite em busca de comida, o artista ganhou respeito pelo seu talento. E ele, sabendo disso, mostrava com orgulho as fotos que tirou em São Paulo, quando ali esteve expondo.
Pinceladas firmes, imagens noturnas repletas de vida e alegres circos tiraram Ranchinho da marginalidade e do anonimato. Muito além do batido trocadilho de que é um excepcional artista, não um artista excepcional, o autodidata Ranchinho dominava de forma admirável a técnica da perspectiva, que utilizava em cenas de casamento – um deles, engraçadíssimo, em que é servido ovo frito na festa –, quintais com animais domésticos e moças pulando cercas ao se deparar com bois ou cobras.
Ranchinho, portanto, não é apenas um grande artista. Ele também oferece uma lição de vida. Especificamente no âmbito artístico, ao recriar o mundo com seus pincéis, coloca-se como um exímio pintor. E, enquanto ser humano, com sua simplicidade e sorriso aberto, faz lembrar que a vida pode ser simples, embora nós a compliquemos a cada instante.
Fonte: GNotícia, “Ranchinho: a arte resgata a cidadania”, publicado por Oscar D’Ambrósio, em 21 de julho de 2025.
Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho | AssisCity
Na última sexta-feira, dia 4 de julho, o Museu de Arte Primitiva de Assis (MAPA) recebeu uma cerimônia especial que marcou o descerramento da primeira placa do Projeto Personalidades, idealizado pelo Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho. A primeira homenagem foi dedicada ao artista plástico e pintor de arte naïf assisense Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, um dos nomes mais expressivos da cultura assisense.
A placa instalada no MAPA, onde diversas obras do artista estão expostas, conta com um QR CODE que direciona os visitantes a uma reportagem especial produzida pela jornalista Ana Almeida. O conteúdo traz relatos inéditos, como uma entrevista exclusiva com o sobrinho do artista, Juvenil José da Silva, e foi realizado em vídeo com coordenação de Bruna Fernandes e edição de Giovana Machado.
Bruna Fernandes, gestora do Portal AssisCity e idealizadora do projeto, destacou a emoção do momento. “Para nós, hoje é um dia muito feliz porque estamos realmente concretizando um sonho e um trabalho maravilhoso que foi feito a muitas mãos, com muita pesquisa e dedicação. A ideia surgiu da vontade de valorizar a história das pessoas que ajudaram a construir a identidade de Assis — e nada melhor do que fazer isso no mês em que celebramos os 120 anos da nossa cidade. Começamos com cinco personalidades marcantes e escolhemos espaços simbólicos para que essas histórias ganhem ainda mais visibilidade. Iniciar pelo MAPA, homenageando o Ranchinho, é extremamente significativo, pois suas obras estão aqui, e agora sua trajetória também está eternizada em forma de memória afetiva e acessível. A recepção do público tem sido linda, e esse é só o começo.” afirmou.
A reportagem completa será publicada oficialmente na próxima quarta-feira, 9 de julho, mas quem visitar o MAPA já pode acessar o conteúdo por meio do QR CODE instalado na placa.
A cerimônia contou com a presença da equipe do Portal AssisCity, do jornalista Walter Gonçalves Filho, do professor e colunista Elielton de Oliveira — que também contribuiu para uma das reportagens do projeto —, além de representantes da imprensa local, como a Voz do Vale, TV Câmara de Assis e Interativa FM, a equipe responsável pelo museu e outros convidados.
Durante o evento, o filósofo e professor assisense Zé Sanabria ressaltou a importância da iniciativa. “A nossa região ficou por muito tempo sem registros escritos. O que a gente está fazendo aqui é transformar memórias orais em documentos concretos, como essas placas, livros e documentários. Isso é essencial para que a cidade saiba de onde veio, onde está e para onde vai. O Juvenil, por exemplo, sobrinho do Ranchinho, carrega em si uma memória viva que não se encontra em lugar nenhum. É preciso registrar isso antes que se perca”, declarou.
Além de Ranchinho, também serão homenageadas outras figuras de relevância histórica para Assis: o professor Antônio Cândido, fundador da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis; a jogadora de basquete Magic Paula, com trajetória consagrada no esporte mundial; o bailarino Joshey Leão, que chegou a ser considerado o quinto maior do mundo; e Helenira Resende, estudante e guerrilheira brasileira morta pela Ditadura Militar e que viveu em Assis.
As placas serão instaladas ao longo do mês de julho em locais emblemáticos da cidade, como o Ginásio Municipal de Esportes de Assis (GEMA), a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis, o Teatro Municipal e a casa onde viveu Helenira Resende.
Para o jornalista Walter Gonçalves Filho, o projeto tem um valor histórico inestimável. “As novas gerações precisam saber que o que há de mais importante em Assis é a sua gente. E muita gente que nasceu ou viveu aqui brilhou pelo Brasil e pelo mundo. A placa é uma maneira simbólica e eficaz de preservar essas histórias, como já é feito em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Paris. Ranchinho é nosso primeiro homenageado, e iniciar esse projeto com ele, aqui no MAPA, foi um pontapé inicial de ouro”, disse.
O Projeto Personalidades é uma realização do Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Assis.
Fonte: AssisCity, “Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho”, publicado em 6 de julho de 2025. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Crédito fotográfico: AssisCity, imagem reprodução do livro "A Arte Visionária de Ranchinho". Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (7 de janeiro de 1923, Oscar Bressane, SP, Brasil — 2 de fevereiro de 2003, Assis, SP, Brasil), mais conhecido como Ranchinho, foi um pintor naïf brasileiro. Autodidata e analfabeto, iniciou sua produção artística de forma intuitiva, utilizando materiais improvisados até receber incentivo do artista José Nazareno Mimessi, fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, que o introduziu às técnicas de guache e tinta acrílica sobre madeira. Suas composições simples, de cores intensas, perspectiva livre e cenas do cotidiano rural, retratam personagens populares e elementos oníricos. Suas obras traduzem tanto a vida interiorana quanto sua visão singular do mundo. Participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo (1973) e da Bienal Nacional de Artes (1976), consolidando-se no circuito nacional. Realizou inúmeras exposições individuais em Assis, Bauru, Presidente Prudente e São Paulo, incluindo a Galeria Brasiliana (1982) e a Assembleia Legislativa de São Paulo (1985). Protagonizou um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto em 1978. Após sua morte, em 2013, recebeu homenagem com uma exposição póstuma no Museu de Arte Primitiva de Assis, reafirmando sua relevância para a arte popular brasileira. Suas obras integram acervos públicos e privados e são consideradas importantes registros da arte espontânea e marginal brasileira.
Ranchinho | Arremate Arte
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, nasceu em 7 de janeiro de 1923, no município de Oscar Bressane, interior de São Paulo. De origem humilde, cresceu em meio a privações e analfabetismo, vivendo grande parte da vida como catador e sobrevivendo de trabalhos informais. A arte, entretanto, surgiria como a grande virada em sua trajetória, transformando sua existência marcada pela marginalidade em um percurso de reconhecimento cultural.
Autodidata, Ranchinho descobriu no desenho e na pintura a possibilidade de traduzir seu universo interno e o cotidiano ao redor. Sua produção começou de forma rudimentar, utilizando materiais improvisados até ser incentivado por José Nazareno Mimessi, artista e fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis. Foi Mimessi quem lhe apresentou técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira, fornecendo-lhe ferramentas para aprimorar a expressão plástica e inserindo-o no circuito artístico local.
Foi em Assis que começou a exibir seus trabalhos em espaços comunitários, clubes e instituições de ensino, revelando uma estética fortemente associada à arte naïf. Suas telas retratavam cenas rurais, personagens populares, animais e situações oníricas, sempre com cores intensas e formas simples, carregadas de espontaneidade e expressividade.
Em 1973, Ranchinho participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, um marco decisivo que o projetou para além do interior paulista. Três anos depois, esteve também na Bienal Nacional de Artes, consolidando sua presença no cenário nacional. Ao longo das décadas de 1970 a 1990, realizou diversas exposições individuais, principalmente em Assis, mas também em São Paulo, Bauru e Presidente Prudente, sempre reforçando sua identidade como cronista visual do cotidiano popular.
Na década de 1980, Ranchinho alcançou maior visibilidade em instituições culturais da capital paulista, como a Galeria Brasiliana e a Assembleia Legislativa, que acolheram suas exposições individuais. Mesmo mantendo a simplicidade de vida, o artista passou a ser visto como um nome central da pintura naïf brasileira, dialogando com um público cada vez mais amplo e diversificado.
Em 1978, foi protagonista de um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto, que registrou sua figura e sua arte como parte da cultura popular. Esse reconhecimento midiático reforçou sua condição de símbolo de resistência e autenticidade, mostrando que a arte poderia nascer dos lugares mais marginalizados da sociedade e ainda assim alcançar relevância.
Ranchinho faleceu em 2 de fevereiro de 2003, em Assis, cidade onde consolidou sua trajetória e deixou um legado artístico profundamente ligado à memória cultural do interior paulista. Em 2013, o Museu de Arte Primitiva de Assis realizou uma exposição póstuma homenageando o artista, reafirmando sua importância e mantendo viva sua contribuição para a arte brasileira.
Ranchinho | Wikipédia
Ranchinho de Assis, como era conhecido Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, 7 de janeiro de 1923 - Assis, 2 de fevereiro de 2003) foi um pintor e desenhista brasileiro.
Nascido órfão de pai, com dois anos a família mudou-se para Assis. Analfabeto e com necessidades especiais, não teve nenhuma formação escolar. Desenvolveu habilidades de pintor e desenhista autodidata.
Sobreviveu também como catador de papéis. Pintava ou desenhava em papelão ou madeira, com lápis ou canetinhas que conseguia encontrar. Somente aos 24 anos conseguiu emprego como ajudante de um vendedor de garapa com o senhor João Romero, que ficou seu amigo e protetor.
Influenciado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, aprendeu técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira aglomerada. E em 2017, uma rua no residencial Villa Bella recebeu seu nome. Com a ajuda dele, Ranchinho se tornou muito conhecido se apresentando em diversa exposições.
O apelido Ranchinho, de início pejorativo, foi com o tempo assimilado por ele, passando a assinar seus trabalhos como "RancHinho", com uma das letras H capitular.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto.
Pintou até bem próximo a sua morte, em 2003, vítima de um AVC. Ao longo de sua vida produziu mais de 3000 obras.
Exposições
1974 - Assis - Primeira individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis
1976 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1979 - Assis - Individual, na Concha Acústica de Assis
1981 - Bauru - Individual, no Sesc
1981 - Presidente Prudente - Individual, no Palácio da Cultura
1982 - São Paulo - Individual, na Galeria Brasiliana
1985 - São Paulo - Individual na Assembléia Legislativa
1988 - São Paulo - Individual, na Galeria de Arte Paulo Vasconcello
1990 - Assis - Individual, na Casa dos Médicos de Assis/APM
1990 - Assis - Individual, no Centro Cultural Dona Pimpa
2013 - Assis - Museu de Arte Primitiva
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho | Itaú Cultural
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, São Paulo, 1923 - Assis, São Paulo, 2003). Pintor e desenhista. Filho de agricultores, muda-se com a família para Assis, São Paulo, após a morte do pai em 1925. Analfabeto e apresentando desvios comportamentais, somente aos 24 anos consegue o primeiro trabalho, auxiliando na produção de garapa. Com a morte do seu patrão e protetor, João Romero, conhecido como João Garapeiro, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. É incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, a aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira.
Realiza várias individuais, entre 1974 e 1976, no Clube Recreativo de Assis; em 1975, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, e em 1981, no SESC Bauru, São Paulo. Em 1982, expõe ainda na galeria Brasiliana, e, em 1988, na Galeria de Arte Paulo Vasconcelos, em São Paulo. Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também em São Paulo.
É premiado na 1ª Exposição de Artes Plásticas de Assis, em 1971; no 1º Salão de Artes Plásticas de Assis, em 1980; na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba, São Paulo, em 1998, participando ainda das edições de 1994, 2000 e 2002 da mesma mostra.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto. Na Cidade do México, participa das exposições Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil, no Instituto Nacional de Belas Artes, e Pintura Primitiva de Brasil, no Museu Carrillo Gil, ambas em 1980.
Apresenta telas na mostra Gente da Terra e na exposição 10 anos de Paço das Artes em 1980 e 1981, respectivamente, no Paço das Artes, em São Paulo. Na mesma cidade, integra as mostras Brasiliana: o homem e a terra, na Pinacoteca do Estado, em 1988; Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal, em 2000; e Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, em 2002. Apresenta trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior do estado de São Paulo, entre 1978 e 1994.
Análise
A bibliografia sobre o pintor Ranchinho enfatiza com frequência o autodidatismo do artista, bem como sua dificuldade desde a infância com o ensino formal e seu desconhecimento de obras de arte eruditas, aproximando-o da produção dita naïf ou popular.
Entretanto, o conjunto de sua obra demonstra se tratar de um pintor que dialoga com a tradição à sua maneira, atualizando sua fatura, utilizando a perspectiva e buscando referências fora de sua realidade cotidiana.
É interessante observar ainda a inserção do próprio Ranchinho como personagem nas suas composições. Ele aparece, às vezes, como passageiro, como ator, projetado na tela do cinema, ou como espectador de um filme do comediante Amácio Mazzaropi (1912 - 1981) - ator que imortaliza a figura do jeca. Dessa forma, o pintor demonstra interesse pela identidade do caipira, indicando inclusive compreender a sua dimensão como representação - na tela da pintura ou do cinema.
A temática de Ranchinho aponta tanto para o mundo rural do interior paulista, como para as cenas urbanas. São frequentes figuras de mulheres que lavam roupas na bica de água, recolhem o milho no paiol, socam café no pilão, fazem artesanato, alimentam os animais, costuram e cozinham. Entre os temas urbanos, estão cenas da Assis antiga, onde passa a maior parte de sua vida - a igreja, a prefeitura, o cinema, o museu -; da Assis e de outras cidades na atualidade - a televisão, o cinema, o avião, o trem, São Paulo, parques de diversão e o circo.
Ranchinho dedica várias pinturas a aspectos do circo. Em Sem Título, 1980, na qual retrata um palhaço que brinca com um adestrador de cavalos no picadeiro, ensaia um tratamento em perspectiva e a presença marcante do desenho sob a pincelada rápida, aplicada com agilidade e que foge à contenção da linha em diversos momentos.
Em seus trabalhos, são recorrentes gatos, galinhas, sapos, lagartos e cobras, muitas vezes agigantados. O uso de dimensões avantajadas para acentuar os protagonistas das cenas, faz pensar numa dimensão simbólica de proporções. O leão também aparece, porém nem sempre no ambiente circense; está, às vezes, ameaçando mulheres. Esse dado leva a crer que Ranchinho não se limita apenas à observação dos animais de seu convívio no campo, diferentemente de outros pintores populares, mas trabalha com imagens coletadas em revistas e jornais, nos quais provavelmente escolhe referências que extravasam a realidade de seu entorno.
No que concerne à técnica de sua pintura, a obra de Ranchinho costuma ser interpretada como uma espécie de "impressionismo expressionista". Apesar de não haver qualquer ligação entre o pintor e esses movimentos artísticos, a associação serve como forma de descrever a configuração formal dos trabalhos. Em A Chuva (s.d.), por exemplo, a paisagem - figuras humanas, cerca, árvores - parece diluir-se por meio das pinceladas evidentes, curtas, soltas e justapostas. Apenas uma das paredes da casa central da composição permanece intacta: uma forma definida que se destaca pelo tipo distinto de fatura.
Ranchinho faz uso variado dos expedientes pictóricos: alguns trabalhos sugerem alguma profundidade, outras composições são planas; as cores utilizadas nem sempre correspondem à realidade. Segundo comentadores, não costumava fazer retoques e o trabalho final é produzido rapidamente, apesar de o pintor realizar tanto esboços como estudos de cor previamente.
Exposições Individuais
1988 – Individual de Ranchinho
Exposições Coletivas
1976 – Bienal Nacional
1980 – Gente da Terra
1980 – Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil
1985 – 7º Salão de Artes Plásticas de Presidente Prudente
1986 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1986 – 1ª Bienal Artoeste de Presidente Prudente
1987 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1988 – Brasiliana: o homem e a terra
1994 – 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1998 – Bienal Naifs do Brasil
1999 – Gênios Ingênuos 70/80
2000 – Almeida Júnior: um artista revisitado
2000 – Arte Popular Brasileira
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Cultura Brasileira 1
2002 – Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 – Ópera aberta: celebração
2002 – Bienal Naifs do Brasil
Exposições Póstumas
2004 – Forma, Cor e Expressão: uma coleção de arte brasileira
2005 – O Prazer é Nosso
2006 – Viva Cultura Viva
2016 – Entreolhares: poéticas d’alma brasileira
2018 – Acervo em transformação: comodato Masp B3
2019 – Vaivém (São Paulo)
2023 – Reversos e Transversos: artistas fora do eixo (e amigos) nas bienais
2025 – Coleção Vilma Eid – Em cada canto
Fonte: RANCHINHO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 01 de setembro de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Ranchinho | Arte Popular do Brasil
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, é um dos mais importantes e celebrados pintores populares que o Brasil já teve. Ele nasceu no dia 7 de janeiro de 1923 no município de Óscar Bressane, SP. Ranchinho era filho de bóias-frias e mudou-se com a família para Assis após a morte do pai em 1925. Deficiente mental desde a infância, não falava nem ouvia direito, engatinhou até os quatro anos de idade e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas e só aos 24 anos conseguiu o primeiro trabalho, como auxiliar de João Romero (ou João Garapeiro). Com a morte do irmão mais velho e da mãe, em 1948, o Ranchinho se vê inteiramente só. Seu João Garapeiro leva-o para morar com a família e lhe confia novas funções. Até 1954 Ranchinho viveu assim. Os filhos de João Garapeiro o abasteciam de cadernos velhos e tocos de lápis e desde essa época ele não parou mais de desenhar. Desenhava as coisas que via e 'contava histórias' através dos seus desenhos. Com a morte do seu patrão e protetor, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, e mora em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. Completamente marginalizado e hostilizado pela sociedade local, é incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi a aprender técnicas de guache e de acrílica sobre eucatex.
Marcado por hábitos, como freqüentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes. Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo.
Sua pintura possui uma variedade de cores e intensidade criativa semelhantes ao do pintor holandês Vicent Van Gogh. A comparação não foi feita por nenhum entusiasta da arte naif. A interpretação de que Ranchinho se equipara ao gênio holandês, em talento e qualidade, é de Oscar D’Ambrosio, crítico da Associação Internacional de Críticos de Artes. O que mais impressiona na obra de Ranchinho é que ele retrata uma Assis que não existia na época que ele passou a desenvolver suas telas. A catedral que ele imprime nas telas não é a de hoje, que qualquer pessoa que visita a cidade observará. É a anterior, nas décadas de 1950 e 1960, conta D’Ambrosio. A comparação de Ranchinho e Van Gogh está na obra escrita por D’Ambrosio, ‘O Van Gogh Feliz – Vida e Obra do pintor Ranchinho de Assis’, publicado pela editora Unesp.
A obra de Ranchinho tem a capacidade de organizar uma visão totalizante, numa fluência que é difícil de encontrar em pintores e em artistas em geral. Sua pintura não se parece em nada com a pintura naif tradicionalmente conhecida. Muitas vezes se pensa na pintura popular como algo espontâneo, mas na verdade o que se vê são pinturas muito esquemáticas e Ranchinho escapa completamente disso. Ele tem um universo e um jeito de pintar completamente sui generis e peculiar.
Ranchinho fez mais de 2.000 obras entre guaches, desenhos, acrílicos e óleos. Ele expôs pela primeira vez três de seus trabalhos na 1ª exposição de Artes Plásticas de Assis em 1971, quando recebeu Menção Honrosa. Participou de outras exposições individuais e coletivas de grande importância, como Bienal de São Paulo de 1976. Nesse mesmo ano foi tema de uma crônica de Lourenço Diaféria editada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo. Em 1977 foi objeto de análise de Américo Pellegrini filho em seu livro Crônica Informativa de Cinco Pintores Folclóricos. Também foi apreciado por uma das maiores crítica de arte do país, Radha Abramo, numa matéria editada no caderno ilustrada do Jornal Folha São Paulo em julho de 1985. Participou também da exposição Brasil 500 Anos na Bienal de São Paulo. Seu trabalho foi tema de uma matéria escrita por Rui Moreira Leite para a revista Veja de 30 de julho de 1986. Desde então, participou de mais ou menos 20 exposições. Ele faleceu no dia 2 de fevereiro de 2003 na cidade onde viveu a maior parte de sua vida, Assis, interior de São Paulo.
Fonte: Arte Popular do Brasil, "Ranchinho”. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal | Estância Turística de Avaré
O patrimônio artístico da Estância Turística de Avaré foi enriquecido esta semana pela doação de uma série de óleos sobre tela do pintor Ranchinho.
“Decidi oferecer essas obras para o acervo do Museu Municipal “Anita Ferreira De Maria”, pois são telas que podem futuramente integrar a pinacoteca que já está sendo projetada pela Secretaria da Cultura”, declarou o juiz federal aposentado Benjamin Flávio de Almeida Ferreira.
Ao todo, são seis quadros, os quais em breve serão exibidos ao público. “Agradecemos ao doutor Benjamin, nosso amigo benfeitor, que já contemplou o nosso acervo com obras de Agostinho Batista de Freitas e de Clóvis Graciano, outros importantes artistas plásticos. Agora a arte do Ranchinho vai encantar muita gente pela sua originalidade”, afirmou o diretor Gesiel Theodoro Neto.
Numa das telas doadas, Ranchinho pintou a sede da Fazenda Olaria, antiga propriedade rural de Avaré, que pertenceu aos avós do doador, dona Mariquinha Lopes e coronel Diamantino Ferreira Inocêncio.
Trajetória
Pintor e desenhista autodidata, Sebastião Theodoro Paulino da Silva (1923-2003) era filho de agricultores radicados em Assis.
Analfabeto, sobreviveu como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe valeu o apelido de Ranchinho.
Depois de aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira e participar de mostras individuais em Assis, Ranchinho expôs em galerias paulistanas e participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também na capital paulista.
Apresentou trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior paulista entre as décadas de 1970 e 1990, sendo premiado na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba em 1998.
Fonte: Estância Turística de Avaré, “Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal", publicado em 29 de agosto de 2019. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho: a arte resgata a cidadania | GNotícias
Poéticas telas noturnas com janelas de casas iluminadas em dourado e cenas cinzentas em que as figuras parecem se desfazer em meio à chuva torrencial são constantes no mundo imagético de Sebastião Theodoro Paulino da Silva, celebrizado como Ranchinho, pintor radicado em Assis, interior de São Paulo, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2003. Basta observar esse tipo de tela para perceber que se está perante um artista de composições bem definidas, cores marcantes e temas geralmente ligadas ao interior, com numerosas imagens de Assis, como trens, circo, galinhas, caminhões e cenas de colheita e rodeio.
No entanto, em vez de observar esses atributos do artista, a maioria dos jornalistas e críticos que conhece a sua obra prefere acentuar a biografia do pintor, não o seu talento com formas, cores e tintas. Por isso, já foram escritas dezenas de páginas sobre a deficiência mental do artista, seu analfabetismo, dificuldade de falar e exibicionismo sexual, contornado a partir do momento em que ele se dedicou em tempo integral à arte, mas pouco se analisou seu estilo ora impressionista ora expressionista, mas sempre vigoroso, dotado de uma linguagem própria.
Marcado por hábitos, como frequentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes.
Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo. Para entender esse alheamento, é preciso conhecer o perfil do artista. Nascido em 1923, na fazenda Santo Humberto Lameu, município de Oscar Bressane, próximo a Assis, Sebastião era filho de um casal de boias-frias. Sem falar ou ouvir direito, engatinhou até os quatro anos e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Com esse histórico, foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas, e só arrumou um trabalho fixo: auxiliar de João Romeiro, vendedor de garapa em Assis.
Para piorar, Sebastião perdeu o pai com dois anos; o irmão mais velho e a mãe, com 25 anos; e o patrão e amigo João Romeiro, conhecido como Garapeiro, com 31 anos. Passou então a morar em pequenos ranchos abandonados, de onde veio o apelido Ranchinho, que detestava no começo, mas o qual assumiu ao perceber que era esse nome com o qual era identificado como pintor de talento. Para subsistir, ele vendia papéis, latas e garrafas, além de receber comida e roupas de alguns caridosos moradores de Assis.
Sebastião, que, desde a escola, costumava realizar desenhos, com tocos de lápis e giz de cera, continuou a criar imagens em cadernos velhos que ganhava de crianças, e entrou definitivamente para o mundo da pintura pelas mãos do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, um assissense apaixonado pela arte de raízes populares, que estimulou o então artista em potencial a pintar em guache, promovendo, nos anos 1970, uma série de exposições na cidade, com ampla repercussão, rendendo mostras em São Paulo, uma crônica emocionada e emocionante de Lourenço Diaféria, mestre do gênero, e um artigo exaltando seu talento na revista semanal Veja.
Com esse sucesso da crítica, o artista passou a ser respeitado enquanto pessoa, mas ganhou a incômoda fama de artista excêntrico, que impediu suas telas de serem analisadas por si mesmas, deixando de lado sua biografia. As telas de Ranchinho, que após realizar experiências com óleo, se fixou na tinta acrílica, diluída de modo a acompanhar o tempo de composição do artista, são autênticas narrativas. Isso ficava evidente ao se visitar o seu ateliê, em Assis, onde morava com o sobrinho Juvenil José da Silva, que foi seu curador e tutor.
Ao mostrar os próprios quadros, Ranchinho se entusiasmava. Embora com sérias dificuldades de articulação de sons, identificava figuras (auto-retratos, Mimessi, Juvenil e a esposa, políticos e padres da cidade) e temas (delegacia, igrejas de Assis, a unidade da Universidade Estadual Paulista da cidade), com visível prazer, consciente de que a arte é que o livrava da marginalidade e o tornava o centro das atenções.
A obra de Ranchinho merece, portanto, no mínimo, duas leituras. Primeiro, temos admiração pelos seus quadros. Depois, pela sua trajetória de vida. Com a simplicidade de uma criança e o talento de um gênio artístico, suas obras nos azem refletir sobre a fragilidade da condição humana.
Assim, o Ranchinho pintor reabilitou o cidadão Sebastião. Por meio das telas, o primeiro se comunicou com o mundo e, graças e elas, foi aceito. Antes impedido de entrar na cidade, que visitava à noite em busca de comida, o artista ganhou respeito pelo seu talento. E ele, sabendo disso, mostrava com orgulho as fotos que tirou em São Paulo, quando ali esteve expondo.
Pinceladas firmes, imagens noturnas repletas de vida e alegres circos tiraram Ranchinho da marginalidade e do anonimato. Muito além do batido trocadilho de que é um excepcional artista, não um artista excepcional, o autodidata Ranchinho dominava de forma admirável a técnica da perspectiva, que utilizava em cenas de casamento – um deles, engraçadíssimo, em que é servido ovo frito na festa –, quintais com animais domésticos e moças pulando cercas ao se deparar com bois ou cobras.
Ranchinho, portanto, não é apenas um grande artista. Ele também oferece uma lição de vida. Especificamente no âmbito artístico, ao recriar o mundo com seus pincéis, coloca-se como um exímio pintor. E, enquanto ser humano, com sua simplicidade e sorriso aberto, faz lembrar que a vida pode ser simples, embora nós a compliquemos a cada instante.
Fonte: GNotícia, “Ranchinho: a arte resgata a cidadania”, publicado por Oscar D’Ambrósio, em 21 de julho de 2025.
Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho | AssisCity
Na última sexta-feira, dia 4 de julho, o Museu de Arte Primitiva de Assis (MAPA) recebeu uma cerimônia especial que marcou o descerramento da primeira placa do Projeto Personalidades, idealizado pelo Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho. A primeira homenagem foi dedicada ao artista plástico e pintor de arte naïf assisense Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, um dos nomes mais expressivos da cultura assisense.
A placa instalada no MAPA, onde diversas obras do artista estão expostas, conta com um QR CODE que direciona os visitantes a uma reportagem especial produzida pela jornalista Ana Almeida. O conteúdo traz relatos inéditos, como uma entrevista exclusiva com o sobrinho do artista, Juvenil José da Silva, e foi realizado em vídeo com coordenação de Bruna Fernandes e edição de Giovana Machado.
Bruna Fernandes, gestora do Portal AssisCity e idealizadora do projeto, destacou a emoção do momento. “Para nós, hoje é um dia muito feliz porque estamos realmente concretizando um sonho e um trabalho maravilhoso que foi feito a muitas mãos, com muita pesquisa e dedicação. A ideia surgiu da vontade de valorizar a história das pessoas que ajudaram a construir a identidade de Assis — e nada melhor do que fazer isso no mês em que celebramos os 120 anos da nossa cidade. Começamos com cinco personalidades marcantes e escolhemos espaços simbólicos para que essas histórias ganhem ainda mais visibilidade. Iniciar pelo MAPA, homenageando o Ranchinho, é extremamente significativo, pois suas obras estão aqui, e agora sua trajetória também está eternizada em forma de memória afetiva e acessível. A recepção do público tem sido linda, e esse é só o começo.” afirmou.
A reportagem completa será publicada oficialmente na próxima quarta-feira, 9 de julho, mas quem visitar o MAPA já pode acessar o conteúdo por meio do QR CODE instalado na placa.
A cerimônia contou com a presença da equipe do Portal AssisCity, do jornalista Walter Gonçalves Filho, do professor e colunista Elielton de Oliveira — que também contribuiu para uma das reportagens do projeto —, além de representantes da imprensa local, como a Voz do Vale, TV Câmara de Assis e Interativa FM, a equipe responsável pelo museu e outros convidados.
Durante o evento, o filósofo e professor assisense Zé Sanabria ressaltou a importância da iniciativa. “A nossa região ficou por muito tempo sem registros escritos. O que a gente está fazendo aqui é transformar memórias orais em documentos concretos, como essas placas, livros e documentários. Isso é essencial para que a cidade saiba de onde veio, onde está e para onde vai. O Juvenil, por exemplo, sobrinho do Ranchinho, carrega em si uma memória viva que não se encontra em lugar nenhum. É preciso registrar isso antes que se perca”, declarou.
Além de Ranchinho, também serão homenageadas outras figuras de relevância histórica para Assis: o professor Antônio Cândido, fundador da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis; a jogadora de basquete Magic Paula, com trajetória consagrada no esporte mundial; o bailarino Joshey Leão, que chegou a ser considerado o quinto maior do mundo; e Helenira Resende, estudante e guerrilheira brasileira morta pela Ditadura Militar e que viveu em Assis.
As placas serão instaladas ao longo do mês de julho em locais emblemáticos da cidade, como o Ginásio Municipal de Esportes de Assis (GEMA), a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis, o Teatro Municipal e a casa onde viveu Helenira Resende.
Para o jornalista Walter Gonçalves Filho, o projeto tem um valor histórico inestimável. “As novas gerações precisam saber que o que há de mais importante em Assis é a sua gente. E muita gente que nasceu ou viveu aqui brilhou pelo Brasil e pelo mundo. A placa é uma maneira simbólica e eficaz de preservar essas histórias, como já é feito em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Paris. Ranchinho é nosso primeiro homenageado, e iniciar esse projeto com ele, aqui no MAPA, foi um pontapé inicial de ouro”, disse.
O Projeto Personalidades é uma realização do Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Assis.
Fonte: AssisCity, “Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho”, publicado em 6 de julho de 2025. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Crédito fotográfico: AssisCity, imagem reprodução do livro "A Arte Visionária de Ranchinho". Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (7 de janeiro de 1923, Oscar Bressane, SP, Brasil — 2 de fevereiro de 2003, Assis, SP, Brasil), mais conhecido como Ranchinho, foi um pintor naïf brasileiro. Autodidata e analfabeto, iniciou sua produção artística de forma intuitiva, utilizando materiais improvisados até receber incentivo do artista José Nazareno Mimessi, fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, que o introduziu às técnicas de guache e tinta acrílica sobre madeira. Suas composições simples, de cores intensas, perspectiva livre e cenas do cotidiano rural, retratam personagens populares e elementos oníricos. Suas obras traduzem tanto a vida interiorana quanto sua visão singular do mundo. Participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo (1973) e da Bienal Nacional de Artes (1976), consolidando-se no circuito nacional. Realizou inúmeras exposições individuais em Assis, Bauru, Presidente Prudente e São Paulo, incluindo a Galeria Brasiliana (1982) e a Assembleia Legislativa de São Paulo (1985). Protagonizou um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto em 1978. Após sua morte, em 2013, recebeu homenagem com uma exposição póstuma no Museu de Arte Primitiva de Assis, reafirmando sua relevância para a arte popular brasileira. Suas obras integram acervos públicos e privados e são consideradas importantes registros da arte espontânea e marginal brasileira.
Ranchinho | Arremate Arte
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, nasceu em 7 de janeiro de 1923, no município de Oscar Bressane, interior de São Paulo. De origem humilde, cresceu em meio a privações e analfabetismo, vivendo grande parte da vida como catador e sobrevivendo de trabalhos informais. A arte, entretanto, surgiria como a grande virada em sua trajetória, transformando sua existência marcada pela marginalidade em um percurso de reconhecimento cultural.
Autodidata, Ranchinho descobriu no desenho e na pintura a possibilidade de traduzir seu universo interno e o cotidiano ao redor. Sua produção começou de forma rudimentar, utilizando materiais improvisados até ser incentivado por José Nazareno Mimessi, artista e fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis. Foi Mimessi quem lhe apresentou técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira, fornecendo-lhe ferramentas para aprimorar a expressão plástica e inserindo-o no circuito artístico local.
Foi em Assis que começou a exibir seus trabalhos em espaços comunitários, clubes e instituições de ensino, revelando uma estética fortemente associada à arte naïf. Suas telas retratavam cenas rurais, personagens populares, animais e situações oníricas, sempre com cores intensas e formas simples, carregadas de espontaneidade e expressividade.
Em 1973, Ranchinho participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, um marco decisivo que o projetou para além do interior paulista. Três anos depois, esteve também na Bienal Nacional de Artes, consolidando sua presença no cenário nacional. Ao longo das décadas de 1970 a 1990, realizou diversas exposições individuais, principalmente em Assis, mas também em São Paulo, Bauru e Presidente Prudente, sempre reforçando sua identidade como cronista visual do cotidiano popular.
Na década de 1980, Ranchinho alcançou maior visibilidade em instituições culturais da capital paulista, como a Galeria Brasiliana e a Assembleia Legislativa, que acolheram suas exposições individuais. Mesmo mantendo a simplicidade de vida, o artista passou a ser visto como um nome central da pintura naïf brasileira, dialogando com um público cada vez mais amplo e diversificado.
Em 1978, foi protagonista de um filme em Super 8 dirigido por Antônio Carlos L. Belotto, que registrou sua figura e sua arte como parte da cultura popular. Esse reconhecimento midiático reforçou sua condição de símbolo de resistência e autenticidade, mostrando que a arte poderia nascer dos lugares mais marginalizados da sociedade e ainda assim alcançar relevância.
Ranchinho faleceu em 2 de fevereiro de 2003, em Assis, cidade onde consolidou sua trajetória e deixou um legado artístico profundamente ligado à memória cultural do interior paulista. Em 2013, o Museu de Arte Primitiva de Assis realizou uma exposição póstuma homenageando o artista, reafirmando sua importância e mantendo viva sua contribuição para a arte brasileira.
Ranchinho | Wikipédia
Ranchinho de Assis, como era conhecido Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, 7 de janeiro de 1923 - Assis, 2 de fevereiro de 2003) foi um pintor e desenhista brasileiro.
Nascido órfão de pai, com dois anos a família mudou-se para Assis. Analfabeto e com necessidades especiais, não teve nenhuma formação escolar. Desenvolveu habilidades de pintor e desenhista autodidata.
Sobreviveu também como catador de papéis. Pintava ou desenhava em papelão ou madeira, com lápis ou canetinhas que conseguia encontrar. Somente aos 24 anos conseguiu emprego como ajudante de um vendedor de garapa com o senhor João Romero, que ficou seu amigo e protetor.
Influenciado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, aprendeu técnicas de pintura em guache e tinta acrílica sobre madeira aglomerada. E em 2017, uma rua no residencial Villa Bella recebeu seu nome. Com a ajuda dele, Ranchinho se tornou muito conhecido se apresentando em diversa exposições.
O apelido Ranchinho, de início pejorativo, foi com o tempo assimilado por ele, passando a assinar seus trabalhos como "RancHinho", com uma das letras H capitular.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto.
Pintou até bem próximo a sua morte, em 2003, vítima de um AVC. Ao longo de sua vida produziu mais de 3000 obras.
Exposições
1974 - Assis - Primeira individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1975 - Assis - Individual, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis
1976 - Assis - Individual, no Clube Recreativo de Assis
1979 - Assis - Individual, na Concha Acústica de Assis
1981 - Bauru - Individual, no Sesc
1981 - Presidente Prudente - Individual, no Palácio da Cultura
1982 - São Paulo - Individual, na Galeria Brasiliana
1985 - São Paulo - Individual na Assembléia Legislativa
1988 - São Paulo - Individual, na Galeria de Arte Paulo Vasconcello
1990 - Assis - Individual, na Casa dos Médicos de Assis/APM
1990 - Assis - Individual, no Centro Cultural Dona Pimpa
2013 - Assis - Museu de Arte Primitiva
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho | Itaú Cultural
Sebastião Theodoro Paulino da Silva (Oscar Bressane, São Paulo, 1923 - Assis, São Paulo, 2003). Pintor e desenhista. Filho de agricultores, muda-se com a família para Assis, São Paulo, após a morte do pai em 1925. Analfabeto e apresentando desvios comportamentais, somente aos 24 anos consegue o primeiro trabalho, auxiliando na produção de garapa. Com a morte do seu patrão e protetor, João Romero, conhecido como João Garapeiro, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. É incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi (1925-1991), fundador do Museu de Arte Primitiva de Assis, a aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira.
Realiza várias individuais, entre 1974 e 1976, no Clube Recreativo de Assis; em 1975, no Centro de Artes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, e em 1981, no SESC Bauru, São Paulo. Em 1982, expõe ainda na galeria Brasiliana, e, em 1988, na Galeria de Arte Paulo Vasconcelos, em São Paulo. Participa da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também em São Paulo.
É premiado na 1ª Exposição de Artes Plásticas de Assis, em 1971; no 1º Salão de Artes Plásticas de Assis, em 1980; na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba, São Paulo, em 1998, participando ainda das edições de 1994, 2000 e 2002 da mesma mostra.
Em 1978, torna-se personagem principal de um filme super-8 realizado por Antônio Carlos L. Belotto. Na Cidade do México, participa das exposições Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil, no Instituto Nacional de Belas Artes, e Pintura Primitiva de Brasil, no Museu Carrillo Gil, ambas em 1980.
Apresenta telas na mostra Gente da Terra e na exposição 10 anos de Paço das Artes em 1980 e 1981, respectivamente, no Paço das Artes, em São Paulo. Na mesma cidade, integra as mostras Brasiliana: o homem e a terra, na Pinacoteca do Estado, em 1988; Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal, em 2000; e Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, em 2002. Apresenta trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior do estado de São Paulo, entre 1978 e 1994.
Análise
A bibliografia sobre o pintor Ranchinho enfatiza com frequência o autodidatismo do artista, bem como sua dificuldade desde a infância com o ensino formal e seu desconhecimento de obras de arte eruditas, aproximando-o da produção dita naïf ou popular.
Entretanto, o conjunto de sua obra demonstra se tratar de um pintor que dialoga com a tradição à sua maneira, atualizando sua fatura, utilizando a perspectiva e buscando referências fora de sua realidade cotidiana.
É interessante observar ainda a inserção do próprio Ranchinho como personagem nas suas composições. Ele aparece, às vezes, como passageiro, como ator, projetado na tela do cinema, ou como espectador de um filme do comediante Amácio Mazzaropi (1912 - 1981) - ator que imortaliza a figura do jeca. Dessa forma, o pintor demonstra interesse pela identidade do caipira, indicando inclusive compreender a sua dimensão como representação - na tela da pintura ou do cinema.
A temática de Ranchinho aponta tanto para o mundo rural do interior paulista, como para as cenas urbanas. São frequentes figuras de mulheres que lavam roupas na bica de água, recolhem o milho no paiol, socam café no pilão, fazem artesanato, alimentam os animais, costuram e cozinham. Entre os temas urbanos, estão cenas da Assis antiga, onde passa a maior parte de sua vida - a igreja, a prefeitura, o cinema, o museu -; da Assis e de outras cidades na atualidade - a televisão, o cinema, o avião, o trem, São Paulo, parques de diversão e o circo.
Ranchinho dedica várias pinturas a aspectos do circo. Em Sem Título, 1980, na qual retrata um palhaço que brinca com um adestrador de cavalos no picadeiro, ensaia um tratamento em perspectiva e a presença marcante do desenho sob a pincelada rápida, aplicada com agilidade e que foge à contenção da linha em diversos momentos.
Em seus trabalhos, são recorrentes gatos, galinhas, sapos, lagartos e cobras, muitas vezes agigantados. O uso de dimensões avantajadas para acentuar os protagonistas das cenas, faz pensar numa dimensão simbólica de proporções. O leão também aparece, porém nem sempre no ambiente circense; está, às vezes, ameaçando mulheres. Esse dado leva a crer que Ranchinho não se limita apenas à observação dos animais de seu convívio no campo, diferentemente de outros pintores populares, mas trabalha com imagens coletadas em revistas e jornais, nos quais provavelmente escolhe referências que extravasam a realidade de seu entorno.
No que concerne à técnica de sua pintura, a obra de Ranchinho costuma ser interpretada como uma espécie de "impressionismo expressionista". Apesar de não haver qualquer ligação entre o pintor e esses movimentos artísticos, a associação serve como forma de descrever a configuração formal dos trabalhos. Em A Chuva (s.d.), por exemplo, a paisagem - figuras humanas, cerca, árvores - parece diluir-se por meio das pinceladas evidentes, curtas, soltas e justapostas. Apenas uma das paredes da casa central da composição permanece intacta: uma forma definida que se destaca pelo tipo distinto de fatura.
Ranchinho faz uso variado dos expedientes pictóricos: alguns trabalhos sugerem alguma profundidade, outras composições são planas; as cores utilizadas nem sempre correspondem à realidade. Segundo comentadores, não costumava fazer retoques e o trabalho final é produzido rapidamente, apesar de o pintor realizar tanto esboços como estudos de cor previamente.
Exposições Individuais
1988 – Individual de Ranchinho
Exposições Coletivas
1976 – Bienal Nacional
1980 – Gente da Terra
1980 – Pintores Populares y 3 Grabadores de Brasil
1985 – 7º Salão de Artes Plásticas de Presidente Prudente
1986 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1986 – 1ª Bienal Artoeste de Presidente Prudente
1987 – Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1988 – Brasiliana: o homem e a terra
1994 – 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1998 – Bienal Naifs do Brasil
1999 – Gênios Ingênuos 70/80
2000 – Almeida Júnior: um artista revisitado
2000 – Arte Popular Brasileira
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Forma-e-Cor como Luz nos Naïfs
2001 – Cultura Brasileira 1
2002 – Pop Brasil: a arte popular e o popular na arte
2002 – Ópera aberta: celebração
2002 – Bienal Naifs do Brasil
Exposições Póstumas
2004 – Forma, Cor e Expressão: uma coleção de arte brasileira
2005 – O Prazer é Nosso
2006 – Viva Cultura Viva
2016 – Entreolhares: poéticas d’alma brasileira
2018 – Acervo em transformação: comodato Masp B3
2019 – Vaivém (São Paulo)
2023 – Reversos e Transversos: artistas fora do eixo (e amigos) nas bienais
2025 – Coleção Vilma Eid – Em cada canto
Fonte: RANCHINHO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 01 de setembro de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Ranchinho | Arte Popular do Brasil
Sebastião Theodoro Paulino da Silva, mais conhecido como Ranchinho, é um dos mais importantes e celebrados pintores populares que o Brasil já teve. Ele nasceu no dia 7 de janeiro de 1923 no município de Óscar Bressane, SP. Ranchinho era filho de bóias-frias e mudou-se com a família para Assis após a morte do pai em 1925. Deficiente mental desde a infância, não falava nem ouvia direito, engatinhou até os quatro anos de idade e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas e só aos 24 anos conseguiu o primeiro trabalho, como auxiliar de João Romero (ou João Garapeiro). Com a morte do irmão mais velho e da mãe, em 1948, o Ranchinho se vê inteiramente só. Seu João Garapeiro leva-o para morar com a família e lhe confia novas funções. Até 1954 Ranchinho viveu assim. Os filhos de João Garapeiro o abasteciam de cadernos velhos e tocos de lápis e desde essa época ele não parou mais de desenhar. Desenhava as coisas que via e 'contava histórias' através dos seus desenhos. Com a morte do seu patrão e protetor, passa a sobreviver como catador de papéis, latas e garrafas, e mora em ranchos abandonados, o que lhe vale o apelido de Ranchinho. Completamente marginalizado e hostilizado pela sociedade local, é incentivado pelo escritor José Nazareno Mimessi a aprender técnicas de guache e de acrílica sobre eucatex.
Marcado por hábitos, como freqüentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes. Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo.
Sua pintura possui uma variedade de cores e intensidade criativa semelhantes ao do pintor holandês Vicent Van Gogh. A comparação não foi feita por nenhum entusiasta da arte naif. A interpretação de que Ranchinho se equipara ao gênio holandês, em talento e qualidade, é de Oscar D’Ambrosio, crítico da Associação Internacional de Críticos de Artes. O que mais impressiona na obra de Ranchinho é que ele retrata uma Assis que não existia na época que ele passou a desenvolver suas telas. A catedral que ele imprime nas telas não é a de hoje, que qualquer pessoa que visita a cidade observará. É a anterior, nas décadas de 1950 e 1960, conta D’Ambrosio. A comparação de Ranchinho e Van Gogh está na obra escrita por D’Ambrosio, ‘O Van Gogh Feliz – Vida e Obra do pintor Ranchinho de Assis’, publicado pela editora Unesp.
A obra de Ranchinho tem a capacidade de organizar uma visão totalizante, numa fluência que é difícil de encontrar em pintores e em artistas em geral. Sua pintura não se parece em nada com a pintura naif tradicionalmente conhecida. Muitas vezes se pensa na pintura popular como algo espontâneo, mas na verdade o que se vê são pinturas muito esquemáticas e Ranchinho escapa completamente disso. Ele tem um universo e um jeito de pintar completamente sui generis e peculiar.
Ranchinho fez mais de 2.000 obras entre guaches, desenhos, acrílicos e óleos. Ele expôs pela primeira vez três de seus trabalhos na 1ª exposição de Artes Plásticas de Assis em 1971, quando recebeu Menção Honrosa. Participou de outras exposições individuais e coletivas de grande importância, como Bienal de São Paulo de 1976. Nesse mesmo ano foi tema de uma crônica de Lourenço Diaféria editada no caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo. Em 1977 foi objeto de análise de Américo Pellegrini filho em seu livro Crônica Informativa de Cinco Pintores Folclóricos. Também foi apreciado por uma das maiores crítica de arte do país, Radha Abramo, numa matéria editada no caderno ilustrada do Jornal Folha São Paulo em julho de 1985. Participou também da exposição Brasil 500 Anos na Bienal de São Paulo. Seu trabalho foi tema de uma matéria escrita por Rui Moreira Leite para a revista Veja de 30 de julho de 1986. Desde então, participou de mais ou menos 20 exposições. Ele faleceu no dia 2 de fevereiro de 2003 na cidade onde viveu a maior parte de sua vida, Assis, interior de São Paulo.
Fonte: Arte Popular do Brasil, "Ranchinho”. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal | Estância Turística de Avaré
O patrimônio artístico da Estância Turística de Avaré foi enriquecido esta semana pela doação de uma série de óleos sobre tela do pintor Ranchinho.
“Decidi oferecer essas obras para o acervo do Museu Municipal “Anita Ferreira De Maria”, pois são telas que podem futuramente integrar a pinacoteca que já está sendo projetada pela Secretaria da Cultura”, declarou o juiz federal aposentado Benjamin Flávio de Almeida Ferreira.
Ao todo, são seis quadros, os quais em breve serão exibidos ao público. “Agradecemos ao doutor Benjamin, nosso amigo benfeitor, que já contemplou o nosso acervo com obras de Agostinho Batista de Freitas e de Clóvis Graciano, outros importantes artistas plásticos. Agora a arte do Ranchinho vai encantar muita gente pela sua originalidade”, afirmou o diretor Gesiel Theodoro Neto.
Numa das telas doadas, Ranchinho pintou a sede da Fazenda Olaria, antiga propriedade rural de Avaré, que pertenceu aos avós do doador, dona Mariquinha Lopes e coronel Diamantino Ferreira Inocêncio.
Trajetória
Pintor e desenhista autodidata, Sebastião Theodoro Paulino da Silva (1923-2003) era filho de agricultores radicados em Assis.
Analfabeto, sobreviveu como catador de papéis, latas e garrafas, morando em ranchos abandonados, o que lhe valeu o apelido de Ranchinho.
Depois de aprender técnicas de guache e acrílica sobre aglomerado de madeira e participar de mostras individuais em Assis, Ranchinho expôs em galerias paulistanas e participou da 12ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1973, e da Bienal Nacional 76, também na capital paulista.
Apresentou trabalhos em várias mostras de arte ingênua no interior paulista entre as décadas de 1970 e 1990, sendo premiado na Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva, na Galeria de Arte SESC de Piracicaba, em 1987; e na 4ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba em 1998.
Fonte: Estância Turística de Avaré, “Telas do pintor Ranchinho são doadas ao Museu Municipal", publicado em 29 de agosto de 2019. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Ranchinho: a arte resgata a cidadania | GNotícias
Poéticas telas noturnas com janelas de casas iluminadas em dourado e cenas cinzentas em que as figuras parecem se desfazer em meio à chuva torrencial são constantes no mundo imagético de Sebastião Theodoro Paulino da Silva, celebrizado como Ranchinho, pintor radicado em Assis, interior de São Paulo, onde faleceu em 2 de fevereiro de 2003. Basta observar esse tipo de tela para perceber que se está perante um artista de composições bem definidas, cores marcantes e temas geralmente ligadas ao interior, com numerosas imagens de Assis, como trens, circo, galinhas, caminhões e cenas de colheita e rodeio.
No entanto, em vez de observar esses atributos do artista, a maioria dos jornalistas e críticos que conhece a sua obra prefere acentuar a biografia do pintor, não o seu talento com formas, cores e tintas. Por isso, já foram escritas dezenas de páginas sobre a deficiência mental do artista, seu analfabetismo, dificuldade de falar e exibicionismo sexual, contornado a partir do momento em que ele se dedicou em tempo integral à arte, mas pouco se analisou seu estilo ora impressionista ora expressionista, mas sempre vigoroso, dotado de uma linguagem própria.
Marcado por hábitos, como frequentar a missa duas vezes por dia, além de acompanhar velórios e casamentos, Ranchinho ganhou a fama de artista exótico, repleto de manias, que decorriam, provavelmente, do fato de essas ocasiões solenes serem as únicas em que o artista podia estar presente sem ser expulso ou humilhado, marginalizado que foi na cidade por fugir aos padrões de normalidade comumente aceitos, tanto em termos de aparência como de atitudes.
Em missas, enterros e casamentos, Ranchinho teve a sua única oportunidade de se inserir numa sociedade que tendia a excluí-lo. Para entender esse alheamento, é preciso conhecer o perfil do artista. Nascido em 1923, na fazenda Santo Humberto Lameu, município de Oscar Bressane, próximo a Assis, Sebastião era filho de um casal de boias-frias. Sem falar ou ouvir direito, engatinhou até os quatro anos e, quando começou a andar, o fez de maneira desajeitada. Com esse histórico, foi expulso da escola, já que não conseguiu acompanhar as aulas, e só arrumou um trabalho fixo: auxiliar de João Romeiro, vendedor de garapa em Assis.
Para piorar, Sebastião perdeu o pai com dois anos; o irmão mais velho e a mãe, com 25 anos; e o patrão e amigo João Romeiro, conhecido como Garapeiro, com 31 anos. Passou então a morar em pequenos ranchos abandonados, de onde veio o apelido Ranchinho, que detestava no começo, mas o qual assumiu ao perceber que era esse nome com o qual era identificado como pintor de talento. Para subsistir, ele vendia papéis, latas e garrafas, além de receber comida e roupas de alguns caridosos moradores de Assis.
Sebastião, que, desde a escola, costumava realizar desenhos, com tocos de lápis e giz de cera, continuou a criar imagens em cadernos velhos que ganhava de crianças, e entrou definitivamente para o mundo da pintura pelas mãos do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, um assissense apaixonado pela arte de raízes populares, que estimulou o então artista em potencial a pintar em guache, promovendo, nos anos 1970, uma série de exposições na cidade, com ampla repercussão, rendendo mostras em São Paulo, uma crônica emocionada e emocionante de Lourenço Diaféria, mestre do gênero, e um artigo exaltando seu talento na revista semanal Veja.
Com esse sucesso da crítica, o artista passou a ser respeitado enquanto pessoa, mas ganhou a incômoda fama de artista excêntrico, que impediu suas telas de serem analisadas por si mesmas, deixando de lado sua biografia. As telas de Ranchinho, que após realizar experiências com óleo, se fixou na tinta acrílica, diluída de modo a acompanhar o tempo de composição do artista, são autênticas narrativas. Isso ficava evidente ao se visitar o seu ateliê, em Assis, onde morava com o sobrinho Juvenil José da Silva, que foi seu curador e tutor.
Ao mostrar os próprios quadros, Ranchinho se entusiasmava. Embora com sérias dificuldades de articulação de sons, identificava figuras (auto-retratos, Mimessi, Juvenil e a esposa, políticos e padres da cidade) e temas (delegacia, igrejas de Assis, a unidade da Universidade Estadual Paulista da cidade), com visível prazer, consciente de que a arte é que o livrava da marginalidade e o tornava o centro das atenções.
A obra de Ranchinho merece, portanto, no mínimo, duas leituras. Primeiro, temos admiração pelos seus quadros. Depois, pela sua trajetória de vida. Com a simplicidade de uma criança e o talento de um gênio artístico, suas obras nos azem refletir sobre a fragilidade da condição humana.
Assim, o Ranchinho pintor reabilitou o cidadão Sebastião. Por meio das telas, o primeiro se comunicou com o mundo e, graças e elas, foi aceito. Antes impedido de entrar na cidade, que visitava à noite em busca de comida, o artista ganhou respeito pelo seu talento. E ele, sabendo disso, mostrava com orgulho as fotos que tirou em São Paulo, quando ali esteve expondo.
Pinceladas firmes, imagens noturnas repletas de vida e alegres circos tiraram Ranchinho da marginalidade e do anonimato. Muito além do batido trocadilho de que é um excepcional artista, não um artista excepcional, o autodidata Ranchinho dominava de forma admirável a técnica da perspectiva, que utilizava em cenas de casamento – um deles, engraçadíssimo, em que é servido ovo frito na festa –, quintais com animais domésticos e moças pulando cercas ao se deparar com bois ou cobras.
Ranchinho, portanto, não é apenas um grande artista. Ele também oferece uma lição de vida. Especificamente no âmbito artístico, ao recriar o mundo com seus pincéis, coloca-se como um exímio pintor. E, enquanto ser humano, com sua simplicidade e sorriso aberto, faz lembrar que a vida pode ser simples, embora nós a compliquemos a cada instante.
Fonte: GNotícia, “Ranchinho: a arte resgata a cidadania”, publicado por Oscar D’Ambrósio, em 21 de julho de 2025.
Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho | AssisCity
Na última sexta-feira, dia 4 de julho, o Museu de Arte Primitiva de Assis (MAPA) recebeu uma cerimônia especial que marcou o descerramento da primeira placa do Projeto Personalidades, idealizado pelo Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho. A primeira homenagem foi dedicada ao artista plástico e pintor de arte naïf assisense Sebastião Theodoro Paulino da Silva, conhecido como Ranchinho, um dos nomes mais expressivos da cultura assisense.
A placa instalada no MAPA, onde diversas obras do artista estão expostas, conta com um QR CODE que direciona os visitantes a uma reportagem especial produzida pela jornalista Ana Almeida. O conteúdo traz relatos inéditos, como uma entrevista exclusiva com o sobrinho do artista, Juvenil José da Silva, e foi realizado em vídeo com coordenação de Bruna Fernandes e edição de Giovana Machado.
Bruna Fernandes, gestora do Portal AssisCity e idealizadora do projeto, destacou a emoção do momento. “Para nós, hoje é um dia muito feliz porque estamos realmente concretizando um sonho e um trabalho maravilhoso que foi feito a muitas mãos, com muita pesquisa e dedicação. A ideia surgiu da vontade de valorizar a história das pessoas que ajudaram a construir a identidade de Assis — e nada melhor do que fazer isso no mês em que celebramos os 120 anos da nossa cidade. Começamos com cinco personalidades marcantes e escolhemos espaços simbólicos para que essas histórias ganhem ainda mais visibilidade. Iniciar pelo MAPA, homenageando o Ranchinho, é extremamente significativo, pois suas obras estão aqui, e agora sua trajetória também está eternizada em forma de memória afetiva e acessível. A recepção do público tem sido linda, e esse é só o começo.” afirmou.
A reportagem completa será publicada oficialmente na próxima quarta-feira, 9 de julho, mas quem visitar o MAPA já pode acessar o conteúdo por meio do QR CODE instalado na placa.
A cerimônia contou com a presença da equipe do Portal AssisCity, do jornalista Walter Gonçalves Filho, do professor e colunista Elielton de Oliveira — que também contribuiu para uma das reportagens do projeto —, além de representantes da imprensa local, como a Voz do Vale, TV Câmara de Assis e Interativa FM, a equipe responsável pelo museu e outros convidados.
Durante o evento, o filósofo e professor assisense Zé Sanabria ressaltou a importância da iniciativa. “A nossa região ficou por muito tempo sem registros escritos. O que a gente está fazendo aqui é transformar memórias orais em documentos concretos, como essas placas, livros e documentários. Isso é essencial para que a cidade saiba de onde veio, onde está e para onde vai. O Juvenil, por exemplo, sobrinho do Ranchinho, carrega em si uma memória viva que não se encontra em lugar nenhum. É preciso registrar isso antes que se perca”, declarou.
Além de Ranchinho, também serão homenageadas outras figuras de relevância histórica para Assis: o professor Antônio Cândido, fundador da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis; a jogadora de basquete Magic Paula, com trajetória consagrada no esporte mundial; o bailarino Joshey Leão, que chegou a ser considerado o quinto maior do mundo; e Helenira Resende, estudante e guerrilheira brasileira morta pela Ditadura Militar e que viveu em Assis.
As placas serão instaladas ao longo do mês de julho em locais emblemáticos da cidade, como o Ginásio Municipal de Esportes de Assis (GEMA), a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Assis, o Teatro Municipal e a casa onde viveu Helenira Resende.
Para o jornalista Walter Gonçalves Filho, o projeto tem um valor histórico inestimável. “As novas gerações precisam saber que o que há de mais importante em Assis é a sua gente. E muita gente que nasceu ou viveu aqui brilhou pelo Brasil e pelo mundo. A placa é uma maneira simbólica e eficaz de preservar essas histórias, como já é feito em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Paris. Ranchinho é nosso primeiro homenageado, e iniciar esse projeto com ele, aqui no MAPA, foi um pontapé inicial de ouro”, disse.
O Projeto Personalidades é uma realização do Portal AssisCity em parceria com o jornalista Walter Gonçalves Filho e conta com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Assis.
Fonte: AssisCity, “Primeira placa do Projeto Personalidades é instalada no MAPA em homenagem ao artista Ranchinho”, publicado em 6 de julho de 2025. Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.
Crédito fotográfico: AssisCity, imagem reprodução do livro "A Arte Visionária de Ranchinho". Consultado pela última vez em 1 de setembro de 2025.