Boaventura da Silva Filho (Itaberaba, Bahia, Brasil, 7 de novembro de 1929 – Cachoeira, Bahia, Brasil, 26 de janeiro de 1992), mais conhecido como Louco, foi um artista naif brasileiro. Considerado primitivista, suas obras são conhecidas como personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconografia católica e afro-baiana. Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos.
Biografia Resumida
Nascido em Itaberaba, cidade do Recôncavo Baiano, mudou-se para Cachoeira, Bahia, entre os anos 1930 e 1940. Ambas cidades são impregnadas de religiosidade, onde o catolicismo tem fácil releitura africana, como no caso da Irmandade da Boa Morte.
A temática religiosa católica do escultor produz obras em estilo fantástico, onde se destacam cristos, anjos e santos. Há também tocadores de atabaque, figuras bíblicas, invenções onde se funde o fantástico e o místico, marca de expressões populares na Bahia. Daí resultam as composições complexas do artista.
O artista começou a esculpir nos anos 1960 junto com seu irmão Clóvis Cardoso da Silva. Eles trabalhavam como barbeiros e, enquanto esperavam seus clientes para cortar cabelo, começaram a fazer pequenos cachimbos em “cascas de cajá”, aos quais foram acrescentando rostos e retratando, em miniatura, personagens e cenas, como jogos de futebol que mobilizavam a cidade.
Alice, sua esposa, era a responsável por coletar galhos de cajazeiras para fabricação dos cachimbos. A ideia deu certo. Louco começou a fazer sucesso na cidade com seus cachimbos e se tornou um sucesso de vendas.
Ainda nos anos 1960, Boaventura foi apelidado de Louco por freiras de um colégio tradicional da cidade de Cachoeira que, ao passar por perto da barbearia de Boaventura e Clóvis e ver aqueles trabalhos pouco convencionais, expostos na janela, diziam às crianças: “Isso é trabalho de louco”, e assim ele começou a ser chamado por outras pessoas da cidade.
Na mesma década, Boaventura decidiu levar as suas peças para tentar vendê-las no Mercado Modelo, em Salvador, onde conheceu Carlos da Silva Teixeira, comerciante que passou a viajar, com frequência, a Muritiba, cidade perto de Cachoeira – onde o escultor residia com sua esposa Alice Gama das Neves e seus filhos, a fim de buscar as peças de Louco para revender no Mercado.
Carlos Teixeira aconselhou-lhe a assinar o nome “Louco”, que estava sendo bem aceito pelo público. A partir de então, seu irmão Clóvis adotou o cognome Maluco e seus sobrinhos, Maluco Filho e Doidão Bahia. Seus filhos assinam Louco Filho e Mário Filho do Louco.
Foi aí que ele decidiu partir para projetos maiores, entalhando portas e mesas e esculpindo peças de até dois metros, sempre em madeira de lei – jacarandá, vinhático, sucupira e jaqueira.
As adaptações das formas ao suporte, que pode chegar a mais de três metros, levaram Lélia Coêlho Frota a comparar as composições do escultor com a escultura românica espanhola e com produções africanas, por fugirem ao realismo das proporções da figura humana. O que se destaca é o arranjo das formas, que surgem no suporte de modo inesperado. Além de esculturas, fez móveis de madeira decorados, que eram vendidos por antiquários locais, pois também são trabalhados com signos visuais.
Nas figuras humanas criadas pelo escultor, sobretudo nos anos 70, predominam figuras com olhos horizontalmente rasgados, quase fechados, nariz fino e longo, e cabelos escamados ou estriados. Essas características são acompanhadas das livres proporções dos corpos. Já nos anos 80, Louco passou a esculpir figuras de olhos esbugalhados, característica que marcou diversos trabalhos que realizou nesta década, dando vazão à sua criatividade.
Ao longo de sua vida como escultor, além da barbearia e da sua própria casa, teve oficina ou ateliê em diferentes lugares da cidade de Cachoeira: na Praça 25, na Pitanga e no Alecrim (zona rural de Cachoeira). A sua preferência era por lugares tranquilos, o que pode ser constatado: “Trabalho com inspiração e amor. Às vezes me afasto de tudo – vou para o mato, fico lá sozinho, sem zuada, só com o meu radinho e os troncos de madeira, longe da mulher, dos dez filhos, dos fregueses. [...]”
Nos anos 70 e 80, o apoio de Aloísio Berto da Silva e esposa foi fundamental para o Louco e descendentes. O casal tocava um bar muito frequentado por artistas e turistas, a Cabana do Pai Thomaz, na Praça 25 de Junho, onde podiam ser adquiridas cerâmicas de Tamba Xavier e esculturas de Louco, filhos e sobrinhos.
Nos anos 80, foi aberta a pousada com o mesmo nome do bar, para a qual “Pai Thomaz” encomendou aos escultores da família de Louco grandes painéis e móveis. A ascensão artística da família também contou com o incentivo da artista plástica Noelice da Costa Pinto, discípula de Hansen Bahia, e que atuou promovendo a cultura em Cachoeira.
Já em Salvador, foram os contatos feitos no Mercado Modelo nos anos 1960 que lhe proporcionaram uma inserção no mercado e o contato com artistas. Além de Carlos Teixeira, de quem foi “compadre” e amigo, estabeleceu aproximação com Jorge Amado, Carybé e outros artistas. Amado o incluiu no livro Bahia de Todos os Santos:
No Mercado, nas galerias, em seu atelier na cidade de Cachoeira, encontram-se as ceias e os Cristos de Louco, o excelente Boaventura que de louco nada tem, mas em troca tem um talento e uma vocação sem limites. Entre os escultores primitivos da Bahia, o primeiro, realmente impressiona (AMADO, 1986, p. 316).
Na Bahia, “arte primitiva” era o termo usado pela crítica baiana dessa época como contrário à “arte erudita”. Sabe-se, contudo, que os limites entre essas categorias são fluidos, sobretudo, no século XX, quando tantos movimentos quebraram com padrões estabelecidos.
Louco participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro (1972) da coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília.
Integrou a exposição 7 Brasileiros e seu universo (1974), com curadoria de Clarival do Prado Valladares.
No exterior, expôs na mostra no Centro Domus, de Milão (1972). Foi um dos escultores escolhidos para representar o Brasil no II Festival de Arte Negra em Dakar (Senegal), com sete trabalhos datados de 1973 encaminhados pela Campanha Nacional de Defesa do Folclore.
Participou da Mostra Brésil, Arts Populaires (1987), no Grand Palais (Paris), com curadoria de Lélia Coelho Frota.
No Museu da Cidade (Salvador), há uma escultura (“Sem Título”) de Louco datada de 1978, na qual se misturam à imagem de Cristo, santos e orixás.
Ele participou de exposições permanentes (1980, 1984 e 1994) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP, Rio de Janeiro), que conserva várias obras de sua autoria e na Galeria Estação em São Paulo.
Uma das preocupações de Boaventura era que seus filhos tivessem um ofício, pois, além de ter uma família numerosa, as oportunidades de mercado de trabalho eram muito limitadas para os jovens da região.
Dos onze filhos, sete eram homens. Quatro deles se tornaram escultores (Celestino, Mário, José e João), mas a sua influência também foi grande sobre seus sobrinhos (Bolão, Doidão, Dory, Maluco Filho, Filho de Maluco), além de ter despertado o interesse pela escultura em outros jovens de Cachoeira (Fory e Mimo). Atualmente seus netos Leonardo (Léo) e Wallace (Téo), representam a terceira geração de escultores da família.
Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos. Segundo Giulio Carlo Argan:
O conceito de “escola” implica a concepção do artista como “mestre”: aquele que não só elabora um estilo próprio, mas também transmite as suas características ao círculo de discípulos, dos quais alguns serão meros repetidores e continuadores, outros desenvolverão de maneira original e inovadora o ensinamento recebido, apresentando-se por sua vez como mestre de uma nova escola. A extensão do campo de relações explica a extensão do termo “escola” muito para além do sentido original, isto é, de um círculo de artistas formados pelo mesmo mestre.
A ideia de escola está muito ligada à noção de estilo. De fato, há uma preocupação por parte de seus descendentes em dar continuidade à sua obra, através de técnicas, temas e processos de criação. Mas também têm as suas preferências e inovam com soluções plásticas que vão sendo absorvidas entre eles. A arte resulta de um processo natural, no qual não há preocupação com a originalidade.
À medida que surgem novas situações diante do suporte ou uma ideia nova, podem aparecer novos modelos que vão sendo incorporados à iconografia e repetidos, assim como utilizados pelos diversos escultores da família. Nem sempre é fácil distinguir a autoria, o que sinaliza que é preciso desconstruir conceitos rígidos de arte como produção individual, porque esculpir como o mestre é um dos parâmetros para esses escultores. Por outro lado, a colocação da assinatura é parte de um processo de individualização presente desde a projeção de Louco no sistema das artes.
O mundo fantástico de Louco misturava-se ao real e ele explodiu, produzindo obras de uma força e sedução tamanhas que mexem com a emoção de quem quer que seja. As obras de Louco são magistrais porque ou se gosta muito ou não. Não existe meio-termo.
Sobrinho de Louco, Doidão Bahia – José Cardoso de Araújo – nascido em Cachoeira, em 1950, é hoje uma espécie de guardião das obras do tio. “Meu tio começou fazendo cachimbos de madeira de cajá. Depois a gente passou a esculpir em pedaços de raízes, mas logo a coisa mudou. A gente pegava um pedaço de pau para trabalhar e só saía orixá.” Doidão Bahia começou a esculpir em Salvador, no Mercado Modelo, onde trabalhava, já sob influência dos trabalhos de seu tio. “Eu gosto de fazer peças muito grandes.
Muitos parentes e outras pessoas também esculpiram e aprenderam com a gente, como meu irmão Dory (Lourival Cardoso de Araújo). Acho que aqui em Cachoeira criamos uma escola com desenhos muito próprios.” Doidão está preparando, em Cachoeira, uma espécie de acervo público, com peças do tio, dele próprio e de alguns parentes.
Louco faleceu, precocemente, aos 68 anos, em um acidente de carro. Deixou quatro filhos como seus seguidores, entre eles o mais conhecido é o Celestino. João é o filho de Boaventura com uma produção muito intensa com traços muito semelhantes ao seu pai; o Mário — que já não trabalha mais com esculturas — e o José.
O artista deixou muitos seguidores e obras surpreendentes espalhadas pelo Brasil e pelo exterior.
Exposições individuais
1972 – Recife, PE – O Espírito Criador do Povo Brasileiro, através da Coleção Abelardo Rodrigues.
1972 – Milão, Itália. Mostra Centro Domus.
1974 – Brasília, Brasil. Sete Brasileiros e seu universo.
1976 – Cachoeira, BA – Artista Convidado. Exposição de Artes Plásticas. I Festival de Inverno de Cachoeira. Galeria Amanda Costa Pinto.
1977 – Lagos, Nigéria. Brazilian Exhibition no II World Black and African Festival of Arts and Culture (II FESTAC).
1987 – Cachoeira, BA – Exposição em Homenagem a Tamba e Bolão, no SPHAN.
1987 – Paris, França – Exposição Brésil, Arts Populairs, no Grand Palais.
1988 – Salvador, BA – Exposição Influência da Cultura Africana nas Artes Visuais, no MAB/MAMB.
1991 – São Félix, BA – I Bienal do Recôncavo, na Fundação Dannemann.
1992 – Rio de Janeiro, RJ – Viva o Povo Brasileiro – Artesanato e Arte Popular, no Museu de Arte Moderna.
Exposições póstumas
1993 – Salvador, BA – Exposição In Memoriam do Escultor Boaventura da Silva Filho – o “Louco”, no Museu Afro-Brasileiro. (Organização: CEAO-UFBA e AAACC).
2008 – Piracicaba, SP – Sala Especial da 9ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba.
2009 – Salvador, BA – “Cidade Histórica, uma Cachoeira de emoções”, no Instituto Mauá, no Pelourinho.
2010 – São Paulo, SP – Coleção Domingos Giobbi: arte, uma relação afetiva (São Paulo, SP), na Estação Pinacoteca (São Paulo, SP).
2011 – Recife, PE – “Boaventuranças: um elogio da loucura”, na galeria do Sesc Casa Amarela.
2012 – Cachoeira, BA – Artista Homenageado (In Memoriam). Exposição Coletiva Escultores de Cachoeira, no Espaço Cultural Fundação Hansen Bahia.
Fontes:
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Arte do Brasil, "Boaventura". Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Sociedade Plural - Paulo Sérgio | Notícias de Cachoeira, "São mais de 5 décadas do movimento de artistas afro-descendente de Cachoeira e região" escrito por Paulo Sérgio Souza, em 24 de janeiro de 2021. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Louco Escultor, escrito por Carlos Gama. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Crédito fotográfico: Dicionário de Belas Artes da UFBA. Retrato do artista Louco. Detalhe extraído de fotografia publicada em: VALLADARES, 1976, p. 47.
Boaventura da Silva Filho (Itaberaba, Bahia, Brasil, 7 de novembro de 1929 – Cachoeira, Bahia, Brasil, 26 de janeiro de 1992), mais conhecido como Louco, foi um artista naif brasileiro. Considerado primitivista, suas obras são conhecidas como personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconografia católica e afro-baiana. Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos.
Biografia Resumida
Nascido em Itaberaba, cidade do Recôncavo Baiano, mudou-se para Cachoeira, Bahia, entre os anos 1930 e 1940. Ambas cidades são impregnadas de religiosidade, onde o catolicismo tem fácil releitura africana, como no caso da Irmandade da Boa Morte.
A temática religiosa católica do escultor produz obras em estilo fantástico, onde se destacam cristos, anjos e santos. Há também tocadores de atabaque, figuras bíblicas, invenções onde se funde o fantástico e o místico, marca de expressões populares na Bahia. Daí resultam as composições complexas do artista.
O artista começou a esculpir nos anos 1960 junto com seu irmão Clóvis Cardoso da Silva. Eles trabalhavam como barbeiros e, enquanto esperavam seus clientes para cortar cabelo, começaram a fazer pequenos cachimbos em “cascas de cajá”, aos quais foram acrescentando rostos e retratando, em miniatura, personagens e cenas, como jogos de futebol que mobilizavam a cidade.
Alice, sua esposa, era a responsável por coletar galhos de cajazeiras para fabricação dos cachimbos. A ideia deu certo. Louco começou a fazer sucesso na cidade com seus cachimbos e se tornou um sucesso de vendas.
Ainda nos anos 1960, Boaventura foi apelidado de Louco por freiras de um colégio tradicional da cidade de Cachoeira que, ao passar por perto da barbearia de Boaventura e Clóvis e ver aqueles trabalhos pouco convencionais, expostos na janela, diziam às crianças: “Isso é trabalho de louco”, e assim ele começou a ser chamado por outras pessoas da cidade.
Na mesma década, Boaventura decidiu levar as suas peças para tentar vendê-las no Mercado Modelo, em Salvador, onde conheceu Carlos da Silva Teixeira, comerciante que passou a viajar, com frequência, a Muritiba, cidade perto de Cachoeira – onde o escultor residia com sua esposa Alice Gama das Neves e seus filhos, a fim de buscar as peças de Louco para revender no Mercado.
Carlos Teixeira aconselhou-lhe a assinar o nome “Louco”, que estava sendo bem aceito pelo público. A partir de então, seu irmão Clóvis adotou o cognome Maluco e seus sobrinhos, Maluco Filho e Doidão Bahia. Seus filhos assinam Louco Filho e Mário Filho do Louco.
Foi aí que ele decidiu partir para projetos maiores, entalhando portas e mesas e esculpindo peças de até dois metros, sempre em madeira de lei – jacarandá, vinhático, sucupira e jaqueira.
As adaptações das formas ao suporte, que pode chegar a mais de três metros, levaram Lélia Coêlho Frota a comparar as composições do escultor com a escultura românica espanhola e com produções africanas, por fugirem ao realismo das proporções da figura humana. O que se destaca é o arranjo das formas, que surgem no suporte de modo inesperado. Além de esculturas, fez móveis de madeira decorados, que eram vendidos por antiquários locais, pois também são trabalhados com signos visuais.
Nas figuras humanas criadas pelo escultor, sobretudo nos anos 70, predominam figuras com olhos horizontalmente rasgados, quase fechados, nariz fino e longo, e cabelos escamados ou estriados. Essas características são acompanhadas das livres proporções dos corpos. Já nos anos 80, Louco passou a esculpir figuras de olhos esbugalhados, característica que marcou diversos trabalhos que realizou nesta década, dando vazão à sua criatividade.
Ao longo de sua vida como escultor, além da barbearia e da sua própria casa, teve oficina ou ateliê em diferentes lugares da cidade de Cachoeira: na Praça 25, na Pitanga e no Alecrim (zona rural de Cachoeira). A sua preferência era por lugares tranquilos, o que pode ser constatado: “Trabalho com inspiração e amor. Às vezes me afasto de tudo – vou para o mato, fico lá sozinho, sem zuada, só com o meu radinho e os troncos de madeira, longe da mulher, dos dez filhos, dos fregueses. [...]”
Nos anos 70 e 80, o apoio de Aloísio Berto da Silva e esposa foi fundamental para o Louco e descendentes. O casal tocava um bar muito frequentado por artistas e turistas, a Cabana do Pai Thomaz, na Praça 25 de Junho, onde podiam ser adquiridas cerâmicas de Tamba Xavier e esculturas de Louco, filhos e sobrinhos.
Nos anos 80, foi aberta a pousada com o mesmo nome do bar, para a qual “Pai Thomaz” encomendou aos escultores da família de Louco grandes painéis e móveis. A ascensão artística da família também contou com o incentivo da artista plástica Noelice da Costa Pinto, discípula de Hansen Bahia, e que atuou promovendo a cultura em Cachoeira.
Já em Salvador, foram os contatos feitos no Mercado Modelo nos anos 1960 que lhe proporcionaram uma inserção no mercado e o contato com artistas. Além de Carlos Teixeira, de quem foi “compadre” e amigo, estabeleceu aproximação com Jorge Amado, Carybé e outros artistas. Amado o incluiu no livro Bahia de Todos os Santos:
No Mercado, nas galerias, em seu atelier na cidade de Cachoeira, encontram-se as ceias e os Cristos de Louco, o excelente Boaventura que de louco nada tem, mas em troca tem um talento e uma vocação sem limites. Entre os escultores primitivos da Bahia, o primeiro, realmente impressiona (AMADO, 1986, p. 316).
Na Bahia, “arte primitiva” era o termo usado pela crítica baiana dessa época como contrário à “arte erudita”. Sabe-se, contudo, que os limites entre essas categorias são fluidos, sobretudo, no século XX, quando tantos movimentos quebraram com padrões estabelecidos.
Louco participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro (1972) da coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília.
Integrou a exposição 7 Brasileiros e seu universo (1974), com curadoria de Clarival do Prado Valladares.
No exterior, expôs na mostra no Centro Domus, de Milão (1972). Foi um dos escultores escolhidos para representar o Brasil no II Festival de Arte Negra em Dakar (Senegal), com sete trabalhos datados de 1973 encaminhados pela Campanha Nacional de Defesa do Folclore.
Participou da Mostra Brésil, Arts Populaires (1987), no Grand Palais (Paris), com curadoria de Lélia Coelho Frota.
No Museu da Cidade (Salvador), há uma escultura (“Sem Título”) de Louco datada de 1978, na qual se misturam à imagem de Cristo, santos e orixás.
Ele participou de exposições permanentes (1980, 1984 e 1994) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP, Rio de Janeiro), que conserva várias obras de sua autoria e na Galeria Estação em São Paulo.
Uma das preocupações de Boaventura era que seus filhos tivessem um ofício, pois, além de ter uma família numerosa, as oportunidades de mercado de trabalho eram muito limitadas para os jovens da região.
Dos onze filhos, sete eram homens. Quatro deles se tornaram escultores (Celestino, Mário, José e João), mas a sua influência também foi grande sobre seus sobrinhos (Bolão, Doidão, Dory, Maluco Filho, Filho de Maluco), além de ter despertado o interesse pela escultura em outros jovens de Cachoeira (Fory e Mimo). Atualmente seus netos Leonardo (Léo) e Wallace (Téo), representam a terceira geração de escultores da família.
Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos. Segundo Giulio Carlo Argan:
O conceito de “escola” implica a concepção do artista como “mestre”: aquele que não só elabora um estilo próprio, mas também transmite as suas características ao círculo de discípulos, dos quais alguns serão meros repetidores e continuadores, outros desenvolverão de maneira original e inovadora o ensinamento recebido, apresentando-se por sua vez como mestre de uma nova escola. A extensão do campo de relações explica a extensão do termo “escola” muito para além do sentido original, isto é, de um círculo de artistas formados pelo mesmo mestre.
A ideia de escola está muito ligada à noção de estilo. De fato, há uma preocupação por parte de seus descendentes em dar continuidade à sua obra, através de técnicas, temas e processos de criação. Mas também têm as suas preferências e inovam com soluções plásticas que vão sendo absorvidas entre eles. A arte resulta de um processo natural, no qual não há preocupação com a originalidade.
À medida que surgem novas situações diante do suporte ou uma ideia nova, podem aparecer novos modelos que vão sendo incorporados à iconografia e repetidos, assim como utilizados pelos diversos escultores da família. Nem sempre é fácil distinguir a autoria, o que sinaliza que é preciso desconstruir conceitos rígidos de arte como produção individual, porque esculpir como o mestre é um dos parâmetros para esses escultores. Por outro lado, a colocação da assinatura é parte de um processo de individualização presente desde a projeção de Louco no sistema das artes.
O mundo fantástico de Louco misturava-se ao real e ele explodiu, produzindo obras de uma força e sedução tamanhas que mexem com a emoção de quem quer que seja. As obras de Louco são magistrais porque ou se gosta muito ou não. Não existe meio-termo.
Sobrinho de Louco, Doidão Bahia – José Cardoso de Araújo – nascido em Cachoeira, em 1950, é hoje uma espécie de guardião das obras do tio. “Meu tio começou fazendo cachimbos de madeira de cajá. Depois a gente passou a esculpir em pedaços de raízes, mas logo a coisa mudou. A gente pegava um pedaço de pau para trabalhar e só saía orixá.” Doidão Bahia começou a esculpir em Salvador, no Mercado Modelo, onde trabalhava, já sob influência dos trabalhos de seu tio. “Eu gosto de fazer peças muito grandes.
Muitos parentes e outras pessoas também esculpiram e aprenderam com a gente, como meu irmão Dory (Lourival Cardoso de Araújo). Acho que aqui em Cachoeira criamos uma escola com desenhos muito próprios.” Doidão está preparando, em Cachoeira, uma espécie de acervo público, com peças do tio, dele próprio e de alguns parentes.
Louco faleceu, precocemente, aos 68 anos, em um acidente de carro. Deixou quatro filhos como seus seguidores, entre eles o mais conhecido é o Celestino. João é o filho de Boaventura com uma produção muito intensa com traços muito semelhantes ao seu pai; o Mário — que já não trabalha mais com esculturas — e o José.
O artista deixou muitos seguidores e obras surpreendentes espalhadas pelo Brasil e pelo exterior.
Exposições individuais
1972 – Recife, PE – O Espírito Criador do Povo Brasileiro, através da Coleção Abelardo Rodrigues.
1972 – Milão, Itália. Mostra Centro Domus.
1974 – Brasília, Brasil. Sete Brasileiros e seu universo.
1976 – Cachoeira, BA – Artista Convidado. Exposição de Artes Plásticas. I Festival de Inverno de Cachoeira. Galeria Amanda Costa Pinto.
1977 – Lagos, Nigéria. Brazilian Exhibition no II World Black and African Festival of Arts and Culture (II FESTAC).
1987 – Cachoeira, BA – Exposição em Homenagem a Tamba e Bolão, no SPHAN.
1987 – Paris, França – Exposição Brésil, Arts Populairs, no Grand Palais.
1988 – Salvador, BA – Exposição Influência da Cultura Africana nas Artes Visuais, no MAB/MAMB.
1991 – São Félix, BA – I Bienal do Recôncavo, na Fundação Dannemann.
1992 – Rio de Janeiro, RJ – Viva o Povo Brasileiro – Artesanato e Arte Popular, no Museu de Arte Moderna.
Exposições póstumas
1993 – Salvador, BA – Exposição In Memoriam do Escultor Boaventura da Silva Filho – o “Louco”, no Museu Afro-Brasileiro. (Organização: CEAO-UFBA e AAACC).
2008 – Piracicaba, SP – Sala Especial da 9ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba.
2009 – Salvador, BA – “Cidade Histórica, uma Cachoeira de emoções”, no Instituto Mauá, no Pelourinho.
2010 – São Paulo, SP – Coleção Domingos Giobbi: arte, uma relação afetiva (São Paulo, SP), na Estação Pinacoteca (São Paulo, SP).
2011 – Recife, PE – “Boaventuranças: um elogio da loucura”, na galeria do Sesc Casa Amarela.
2012 – Cachoeira, BA – Artista Homenageado (In Memoriam). Exposição Coletiva Escultores de Cachoeira, no Espaço Cultural Fundação Hansen Bahia.
Fontes:
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Arte do Brasil, "Boaventura". Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Sociedade Plural - Paulo Sérgio | Notícias de Cachoeira, "São mais de 5 décadas do movimento de artistas afro-descendente de Cachoeira e região" escrito por Paulo Sérgio Souza, em 24 de janeiro de 2021. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Louco Escultor, escrito por Carlos Gama. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Crédito fotográfico: Dicionário de Belas Artes da UFBA. Retrato do artista Louco. Detalhe extraído de fotografia publicada em: VALLADARES, 1976, p. 47.
Boaventura da Silva Filho (Itaberaba, Bahia, Brasil, 7 de novembro de 1929 – Cachoeira, Bahia, Brasil, 26 de janeiro de 1992), mais conhecido como Louco, foi um artista naif brasileiro. Considerado primitivista, suas obras são conhecidas como personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconografia católica e afro-baiana. Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos.
Biografia Resumida
Nascido em Itaberaba, cidade do Recôncavo Baiano, mudou-se para Cachoeira, Bahia, entre os anos 1930 e 1940. Ambas cidades são impregnadas de religiosidade, onde o catolicismo tem fácil releitura africana, como no caso da Irmandade da Boa Morte.
A temática religiosa católica do escultor produz obras em estilo fantástico, onde se destacam cristos, anjos e santos. Há também tocadores de atabaque, figuras bíblicas, invenções onde se funde o fantástico e o místico, marca de expressões populares na Bahia. Daí resultam as composições complexas do artista.
O artista começou a esculpir nos anos 1960 junto com seu irmão Clóvis Cardoso da Silva. Eles trabalhavam como barbeiros e, enquanto esperavam seus clientes para cortar cabelo, começaram a fazer pequenos cachimbos em “cascas de cajá”, aos quais foram acrescentando rostos e retratando, em miniatura, personagens e cenas, como jogos de futebol que mobilizavam a cidade.
Alice, sua esposa, era a responsável por coletar galhos de cajazeiras para fabricação dos cachimbos. A ideia deu certo. Louco começou a fazer sucesso na cidade com seus cachimbos e se tornou um sucesso de vendas.
Ainda nos anos 1960, Boaventura foi apelidado de Louco por freiras de um colégio tradicional da cidade de Cachoeira que, ao passar por perto da barbearia de Boaventura e Clóvis e ver aqueles trabalhos pouco convencionais, expostos na janela, diziam às crianças: “Isso é trabalho de louco”, e assim ele começou a ser chamado por outras pessoas da cidade.
Na mesma década, Boaventura decidiu levar as suas peças para tentar vendê-las no Mercado Modelo, em Salvador, onde conheceu Carlos da Silva Teixeira, comerciante que passou a viajar, com frequência, a Muritiba, cidade perto de Cachoeira – onde o escultor residia com sua esposa Alice Gama das Neves e seus filhos, a fim de buscar as peças de Louco para revender no Mercado.
Carlos Teixeira aconselhou-lhe a assinar o nome “Louco”, que estava sendo bem aceito pelo público. A partir de então, seu irmão Clóvis adotou o cognome Maluco e seus sobrinhos, Maluco Filho e Doidão Bahia. Seus filhos assinam Louco Filho e Mário Filho do Louco.
Foi aí que ele decidiu partir para projetos maiores, entalhando portas e mesas e esculpindo peças de até dois metros, sempre em madeira de lei – jacarandá, vinhático, sucupira e jaqueira.
As adaptações das formas ao suporte, que pode chegar a mais de três metros, levaram Lélia Coêlho Frota a comparar as composições do escultor com a escultura românica espanhola e com produções africanas, por fugirem ao realismo das proporções da figura humana. O que se destaca é o arranjo das formas, que surgem no suporte de modo inesperado. Além de esculturas, fez móveis de madeira decorados, que eram vendidos por antiquários locais, pois também são trabalhados com signos visuais.
Nas figuras humanas criadas pelo escultor, sobretudo nos anos 70, predominam figuras com olhos horizontalmente rasgados, quase fechados, nariz fino e longo, e cabelos escamados ou estriados. Essas características são acompanhadas das livres proporções dos corpos. Já nos anos 80, Louco passou a esculpir figuras de olhos esbugalhados, característica que marcou diversos trabalhos que realizou nesta década, dando vazão à sua criatividade.
Ao longo de sua vida como escultor, além da barbearia e da sua própria casa, teve oficina ou ateliê em diferentes lugares da cidade de Cachoeira: na Praça 25, na Pitanga e no Alecrim (zona rural de Cachoeira). A sua preferência era por lugares tranquilos, o que pode ser constatado: “Trabalho com inspiração e amor. Às vezes me afasto de tudo – vou para o mato, fico lá sozinho, sem zuada, só com o meu radinho e os troncos de madeira, longe da mulher, dos dez filhos, dos fregueses. [...]”
Nos anos 70 e 80, o apoio de Aloísio Berto da Silva e esposa foi fundamental para o Louco e descendentes. O casal tocava um bar muito frequentado por artistas e turistas, a Cabana do Pai Thomaz, na Praça 25 de Junho, onde podiam ser adquiridas cerâmicas de Tamba Xavier e esculturas de Louco, filhos e sobrinhos.
Nos anos 80, foi aberta a pousada com o mesmo nome do bar, para a qual “Pai Thomaz” encomendou aos escultores da família de Louco grandes painéis e móveis. A ascensão artística da família também contou com o incentivo da artista plástica Noelice da Costa Pinto, discípula de Hansen Bahia, e que atuou promovendo a cultura em Cachoeira.
Já em Salvador, foram os contatos feitos no Mercado Modelo nos anos 1960 que lhe proporcionaram uma inserção no mercado e o contato com artistas. Além de Carlos Teixeira, de quem foi “compadre” e amigo, estabeleceu aproximação com Jorge Amado, Carybé e outros artistas. Amado o incluiu no livro Bahia de Todos os Santos:
No Mercado, nas galerias, em seu atelier na cidade de Cachoeira, encontram-se as ceias e os Cristos de Louco, o excelente Boaventura que de louco nada tem, mas em troca tem um talento e uma vocação sem limites. Entre os escultores primitivos da Bahia, o primeiro, realmente impressiona (AMADO, 1986, p. 316).
Na Bahia, “arte primitiva” era o termo usado pela crítica baiana dessa época como contrário à “arte erudita”. Sabe-se, contudo, que os limites entre essas categorias são fluidos, sobretudo, no século XX, quando tantos movimentos quebraram com padrões estabelecidos.
Louco participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro (1972) da coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília.
Integrou a exposição 7 Brasileiros e seu universo (1974), com curadoria de Clarival do Prado Valladares.
No exterior, expôs na mostra no Centro Domus, de Milão (1972). Foi um dos escultores escolhidos para representar o Brasil no II Festival de Arte Negra em Dakar (Senegal), com sete trabalhos datados de 1973 encaminhados pela Campanha Nacional de Defesa do Folclore.
Participou da Mostra Brésil, Arts Populaires (1987), no Grand Palais (Paris), com curadoria de Lélia Coelho Frota.
No Museu da Cidade (Salvador), há uma escultura (“Sem Título”) de Louco datada de 1978, na qual se misturam à imagem de Cristo, santos e orixás.
Ele participou de exposições permanentes (1980, 1984 e 1994) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP, Rio de Janeiro), que conserva várias obras de sua autoria e na Galeria Estação em São Paulo.
Uma das preocupações de Boaventura era que seus filhos tivessem um ofício, pois, além de ter uma família numerosa, as oportunidades de mercado de trabalho eram muito limitadas para os jovens da região.
Dos onze filhos, sete eram homens. Quatro deles se tornaram escultores (Celestino, Mário, José e João), mas a sua influência também foi grande sobre seus sobrinhos (Bolão, Doidão, Dory, Maluco Filho, Filho de Maluco), além de ter despertado o interesse pela escultura em outros jovens de Cachoeira (Fory e Mimo). Atualmente seus netos Leonardo (Léo) e Wallace (Téo), representam a terceira geração de escultores da família.
Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos. Segundo Giulio Carlo Argan:
O conceito de “escola” implica a concepção do artista como “mestre”: aquele que não só elabora um estilo próprio, mas também transmite as suas características ao círculo de discípulos, dos quais alguns serão meros repetidores e continuadores, outros desenvolverão de maneira original e inovadora o ensinamento recebido, apresentando-se por sua vez como mestre de uma nova escola. A extensão do campo de relações explica a extensão do termo “escola” muito para além do sentido original, isto é, de um círculo de artistas formados pelo mesmo mestre.
A ideia de escola está muito ligada à noção de estilo. De fato, há uma preocupação por parte de seus descendentes em dar continuidade à sua obra, através de técnicas, temas e processos de criação. Mas também têm as suas preferências e inovam com soluções plásticas que vão sendo absorvidas entre eles. A arte resulta de um processo natural, no qual não há preocupação com a originalidade.
À medida que surgem novas situações diante do suporte ou uma ideia nova, podem aparecer novos modelos que vão sendo incorporados à iconografia e repetidos, assim como utilizados pelos diversos escultores da família. Nem sempre é fácil distinguir a autoria, o que sinaliza que é preciso desconstruir conceitos rígidos de arte como produção individual, porque esculpir como o mestre é um dos parâmetros para esses escultores. Por outro lado, a colocação da assinatura é parte de um processo de individualização presente desde a projeção de Louco no sistema das artes.
O mundo fantástico de Louco misturava-se ao real e ele explodiu, produzindo obras de uma força e sedução tamanhas que mexem com a emoção de quem quer que seja. As obras de Louco são magistrais porque ou se gosta muito ou não. Não existe meio-termo.
Sobrinho de Louco, Doidão Bahia – José Cardoso de Araújo – nascido em Cachoeira, em 1950, é hoje uma espécie de guardião das obras do tio. “Meu tio começou fazendo cachimbos de madeira de cajá. Depois a gente passou a esculpir em pedaços de raízes, mas logo a coisa mudou. A gente pegava um pedaço de pau para trabalhar e só saía orixá.” Doidão Bahia começou a esculpir em Salvador, no Mercado Modelo, onde trabalhava, já sob influência dos trabalhos de seu tio. “Eu gosto de fazer peças muito grandes.
Muitos parentes e outras pessoas também esculpiram e aprenderam com a gente, como meu irmão Dory (Lourival Cardoso de Araújo). Acho que aqui em Cachoeira criamos uma escola com desenhos muito próprios.” Doidão está preparando, em Cachoeira, uma espécie de acervo público, com peças do tio, dele próprio e de alguns parentes.
Louco faleceu, precocemente, aos 68 anos, em um acidente de carro. Deixou quatro filhos como seus seguidores, entre eles o mais conhecido é o Celestino. João é o filho de Boaventura com uma produção muito intensa com traços muito semelhantes ao seu pai; o Mário — que já não trabalha mais com esculturas — e o José.
O artista deixou muitos seguidores e obras surpreendentes espalhadas pelo Brasil e pelo exterior.
Exposições individuais
1972 – Recife, PE – O Espírito Criador do Povo Brasileiro, através da Coleção Abelardo Rodrigues.
1972 – Milão, Itália. Mostra Centro Domus.
1974 – Brasília, Brasil. Sete Brasileiros e seu universo.
1976 – Cachoeira, BA – Artista Convidado. Exposição de Artes Plásticas. I Festival de Inverno de Cachoeira. Galeria Amanda Costa Pinto.
1977 – Lagos, Nigéria. Brazilian Exhibition no II World Black and African Festival of Arts and Culture (II FESTAC).
1987 – Cachoeira, BA – Exposição em Homenagem a Tamba e Bolão, no SPHAN.
1987 – Paris, França – Exposição Brésil, Arts Populairs, no Grand Palais.
1988 – Salvador, BA – Exposição Influência da Cultura Africana nas Artes Visuais, no MAB/MAMB.
1991 – São Félix, BA – I Bienal do Recôncavo, na Fundação Dannemann.
1992 – Rio de Janeiro, RJ – Viva o Povo Brasileiro – Artesanato e Arte Popular, no Museu de Arte Moderna.
Exposições póstumas
1993 – Salvador, BA – Exposição In Memoriam do Escultor Boaventura da Silva Filho – o “Louco”, no Museu Afro-Brasileiro. (Organização: CEAO-UFBA e AAACC).
2008 – Piracicaba, SP – Sala Especial da 9ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba.
2009 – Salvador, BA – “Cidade Histórica, uma Cachoeira de emoções”, no Instituto Mauá, no Pelourinho.
2010 – São Paulo, SP – Coleção Domingos Giobbi: arte, uma relação afetiva (São Paulo, SP), na Estação Pinacoteca (São Paulo, SP).
2011 – Recife, PE – “Boaventuranças: um elogio da loucura”, na galeria do Sesc Casa Amarela.
2012 – Cachoeira, BA – Artista Homenageado (In Memoriam). Exposição Coletiva Escultores de Cachoeira, no Espaço Cultural Fundação Hansen Bahia.
Fontes:
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Arte do Brasil, "Boaventura". Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Sociedade Plural - Paulo Sérgio | Notícias de Cachoeira, "São mais de 5 décadas do movimento de artistas afro-descendente de Cachoeira e região" escrito por Paulo Sérgio Souza, em 24 de janeiro de 2021. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Louco Escultor, escrito por Carlos Gama. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Crédito fotográfico: Dicionário de Belas Artes da UFBA. Retrato do artista Louco. Detalhe extraído de fotografia publicada em: VALLADARES, 1976, p. 47.
Boaventura da Silva Filho (Itaberaba, Bahia, Brasil, 7 de novembro de 1929 – Cachoeira, Bahia, Brasil, 26 de janeiro de 1992), mais conhecido como Louco, foi um artista naif brasileiro. Considerado primitivista, suas obras são conhecidas como personagens sobrenaturais, que se distribuem entre a iconografia católica e afro-baiana. Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos.
Biografia Resumida
Nascido em Itaberaba, cidade do Recôncavo Baiano, mudou-se para Cachoeira, Bahia, entre os anos 1930 e 1940. Ambas cidades são impregnadas de religiosidade, onde o catolicismo tem fácil releitura africana, como no caso da Irmandade da Boa Morte.
A temática religiosa católica do escultor produz obras em estilo fantástico, onde se destacam cristos, anjos e santos. Há também tocadores de atabaque, figuras bíblicas, invenções onde se funde o fantástico e o místico, marca de expressões populares na Bahia. Daí resultam as composições complexas do artista.
O artista começou a esculpir nos anos 1960 junto com seu irmão Clóvis Cardoso da Silva. Eles trabalhavam como barbeiros e, enquanto esperavam seus clientes para cortar cabelo, começaram a fazer pequenos cachimbos em “cascas de cajá”, aos quais foram acrescentando rostos e retratando, em miniatura, personagens e cenas, como jogos de futebol que mobilizavam a cidade.
Alice, sua esposa, era a responsável por coletar galhos de cajazeiras para fabricação dos cachimbos. A ideia deu certo. Louco começou a fazer sucesso na cidade com seus cachimbos e se tornou um sucesso de vendas.
Ainda nos anos 1960, Boaventura foi apelidado de Louco por freiras de um colégio tradicional da cidade de Cachoeira que, ao passar por perto da barbearia de Boaventura e Clóvis e ver aqueles trabalhos pouco convencionais, expostos na janela, diziam às crianças: “Isso é trabalho de louco”, e assim ele começou a ser chamado por outras pessoas da cidade.
Na mesma década, Boaventura decidiu levar as suas peças para tentar vendê-las no Mercado Modelo, em Salvador, onde conheceu Carlos da Silva Teixeira, comerciante que passou a viajar, com frequência, a Muritiba, cidade perto de Cachoeira – onde o escultor residia com sua esposa Alice Gama das Neves e seus filhos, a fim de buscar as peças de Louco para revender no Mercado.
Carlos Teixeira aconselhou-lhe a assinar o nome “Louco”, que estava sendo bem aceito pelo público. A partir de então, seu irmão Clóvis adotou o cognome Maluco e seus sobrinhos, Maluco Filho e Doidão Bahia. Seus filhos assinam Louco Filho e Mário Filho do Louco.
Foi aí que ele decidiu partir para projetos maiores, entalhando portas e mesas e esculpindo peças de até dois metros, sempre em madeira de lei – jacarandá, vinhático, sucupira e jaqueira.
As adaptações das formas ao suporte, que pode chegar a mais de três metros, levaram Lélia Coêlho Frota a comparar as composições do escultor com a escultura românica espanhola e com produções africanas, por fugirem ao realismo das proporções da figura humana. O que se destaca é o arranjo das formas, que surgem no suporte de modo inesperado. Além de esculturas, fez móveis de madeira decorados, que eram vendidos por antiquários locais, pois também são trabalhados com signos visuais.
Nas figuras humanas criadas pelo escultor, sobretudo nos anos 70, predominam figuras com olhos horizontalmente rasgados, quase fechados, nariz fino e longo, e cabelos escamados ou estriados. Essas características são acompanhadas das livres proporções dos corpos. Já nos anos 80, Louco passou a esculpir figuras de olhos esbugalhados, característica que marcou diversos trabalhos que realizou nesta década, dando vazão à sua criatividade.
Ao longo de sua vida como escultor, além da barbearia e da sua própria casa, teve oficina ou ateliê em diferentes lugares da cidade de Cachoeira: na Praça 25, na Pitanga e no Alecrim (zona rural de Cachoeira). A sua preferência era por lugares tranquilos, o que pode ser constatado: “Trabalho com inspiração e amor. Às vezes me afasto de tudo – vou para o mato, fico lá sozinho, sem zuada, só com o meu radinho e os troncos de madeira, longe da mulher, dos dez filhos, dos fregueses. [...]”
Nos anos 70 e 80, o apoio de Aloísio Berto da Silva e esposa foi fundamental para o Louco e descendentes. O casal tocava um bar muito frequentado por artistas e turistas, a Cabana do Pai Thomaz, na Praça 25 de Junho, onde podiam ser adquiridas cerâmicas de Tamba Xavier e esculturas de Louco, filhos e sobrinhos.
Nos anos 80, foi aberta a pousada com o mesmo nome do bar, para a qual “Pai Thomaz” encomendou aos escultores da família de Louco grandes painéis e móveis. A ascensão artística da família também contou com o incentivo da artista plástica Noelice da Costa Pinto, discípula de Hansen Bahia, e que atuou promovendo a cultura em Cachoeira.
Já em Salvador, foram os contatos feitos no Mercado Modelo nos anos 1960 que lhe proporcionaram uma inserção no mercado e o contato com artistas. Além de Carlos Teixeira, de quem foi “compadre” e amigo, estabeleceu aproximação com Jorge Amado, Carybé e outros artistas. Amado o incluiu no livro Bahia de Todos os Santos:
No Mercado, nas galerias, em seu atelier na cidade de Cachoeira, encontram-se as ceias e os Cristos de Louco, o excelente Boaventura que de louco nada tem, mas em troca tem um talento e uma vocação sem limites. Entre os escultores primitivos da Bahia, o primeiro, realmente impressiona (AMADO, 1986, p. 316).
Na Bahia, “arte primitiva” era o termo usado pela crítica baiana dessa época como contrário à “arte erudita”. Sabe-se, contudo, que os limites entre essas categorias são fluidos, sobretudo, no século XX, quando tantos movimentos quebraram com padrões estabelecidos.
Louco participou da exposição O Espírito Criador do Povo Brasileiro (1972) da coleção Abelardo Rodrigues, em Brasília.
Integrou a exposição 7 Brasileiros e seu universo (1974), com curadoria de Clarival do Prado Valladares.
No exterior, expôs na mostra no Centro Domus, de Milão (1972). Foi um dos escultores escolhidos para representar o Brasil no II Festival de Arte Negra em Dakar (Senegal), com sete trabalhos datados de 1973 encaminhados pela Campanha Nacional de Defesa do Folclore.
Participou da Mostra Brésil, Arts Populaires (1987), no Grand Palais (Paris), com curadoria de Lélia Coelho Frota.
No Museu da Cidade (Salvador), há uma escultura (“Sem Título”) de Louco datada de 1978, na qual se misturam à imagem de Cristo, santos e orixás.
Ele participou de exposições permanentes (1980, 1984 e 1994) no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP, Rio de Janeiro), que conserva várias obras de sua autoria e na Galeria Estação em São Paulo.
Uma das preocupações de Boaventura era que seus filhos tivessem um ofício, pois, além de ter uma família numerosa, as oportunidades de mercado de trabalho eram muito limitadas para os jovens da região.
Dos onze filhos, sete eram homens. Quatro deles se tornaram escultores (Celestino, Mário, José e João), mas a sua influência também foi grande sobre seus sobrinhos (Bolão, Doidão, Dory, Maluco Filho, Filho de Maluco), além de ter despertado o interesse pela escultura em outros jovens de Cachoeira (Fory e Mimo). Atualmente seus netos Leonardo (Léo) e Wallace (Téo), representam a terceira geração de escultores da família.
Foi considerado formador de uma “escola” por diversos autores e de uma tradição por seus filhos e sobrinhos. Segundo Giulio Carlo Argan:
O conceito de “escola” implica a concepção do artista como “mestre”: aquele que não só elabora um estilo próprio, mas também transmite as suas características ao círculo de discípulos, dos quais alguns serão meros repetidores e continuadores, outros desenvolverão de maneira original e inovadora o ensinamento recebido, apresentando-se por sua vez como mestre de uma nova escola. A extensão do campo de relações explica a extensão do termo “escola” muito para além do sentido original, isto é, de um círculo de artistas formados pelo mesmo mestre.
A ideia de escola está muito ligada à noção de estilo. De fato, há uma preocupação por parte de seus descendentes em dar continuidade à sua obra, através de técnicas, temas e processos de criação. Mas também têm as suas preferências e inovam com soluções plásticas que vão sendo absorvidas entre eles. A arte resulta de um processo natural, no qual não há preocupação com a originalidade.
À medida que surgem novas situações diante do suporte ou uma ideia nova, podem aparecer novos modelos que vão sendo incorporados à iconografia e repetidos, assim como utilizados pelos diversos escultores da família. Nem sempre é fácil distinguir a autoria, o que sinaliza que é preciso desconstruir conceitos rígidos de arte como produção individual, porque esculpir como o mestre é um dos parâmetros para esses escultores. Por outro lado, a colocação da assinatura é parte de um processo de individualização presente desde a projeção de Louco no sistema das artes.
O mundo fantástico de Louco misturava-se ao real e ele explodiu, produzindo obras de uma força e sedução tamanhas que mexem com a emoção de quem quer que seja. As obras de Louco são magistrais porque ou se gosta muito ou não. Não existe meio-termo.
Sobrinho de Louco, Doidão Bahia – José Cardoso de Araújo – nascido em Cachoeira, em 1950, é hoje uma espécie de guardião das obras do tio. “Meu tio começou fazendo cachimbos de madeira de cajá. Depois a gente passou a esculpir em pedaços de raízes, mas logo a coisa mudou. A gente pegava um pedaço de pau para trabalhar e só saía orixá.” Doidão Bahia começou a esculpir em Salvador, no Mercado Modelo, onde trabalhava, já sob influência dos trabalhos de seu tio. “Eu gosto de fazer peças muito grandes.
Muitos parentes e outras pessoas também esculpiram e aprenderam com a gente, como meu irmão Dory (Lourival Cardoso de Araújo). Acho que aqui em Cachoeira criamos uma escola com desenhos muito próprios.” Doidão está preparando, em Cachoeira, uma espécie de acervo público, com peças do tio, dele próprio e de alguns parentes.
Louco faleceu, precocemente, aos 68 anos, em um acidente de carro. Deixou quatro filhos como seus seguidores, entre eles o mais conhecido é o Celestino. João é o filho de Boaventura com uma produção muito intensa com traços muito semelhantes ao seu pai; o Mário — que já não trabalha mais com esculturas — e o José.
O artista deixou muitos seguidores e obras surpreendentes espalhadas pelo Brasil e pelo exterior.
Exposições individuais
1972 – Recife, PE – O Espírito Criador do Povo Brasileiro, através da Coleção Abelardo Rodrigues.
1972 – Milão, Itália. Mostra Centro Domus.
1974 – Brasília, Brasil. Sete Brasileiros e seu universo.
1976 – Cachoeira, BA – Artista Convidado. Exposição de Artes Plásticas. I Festival de Inverno de Cachoeira. Galeria Amanda Costa Pinto.
1977 – Lagos, Nigéria. Brazilian Exhibition no II World Black and African Festival of Arts and Culture (II FESTAC).
1987 – Cachoeira, BA – Exposição em Homenagem a Tamba e Bolão, no SPHAN.
1987 – Paris, França – Exposição Brésil, Arts Populairs, no Grand Palais.
1988 – Salvador, BA – Exposição Influência da Cultura Africana nas Artes Visuais, no MAB/MAMB.
1991 – São Félix, BA – I Bienal do Recôncavo, na Fundação Dannemann.
1992 – Rio de Janeiro, RJ – Viva o Povo Brasileiro – Artesanato e Arte Popular, no Museu de Arte Moderna.
Exposições póstumas
1993 – Salvador, BA – Exposição In Memoriam do Escultor Boaventura da Silva Filho – o “Louco”, no Museu Afro-Brasileiro. (Organização: CEAO-UFBA e AAACC).
2008 – Piracicaba, SP – Sala Especial da 9ª Bienal Naïfs do Brasil, no SESC Piracicaba.
2009 – Salvador, BA – “Cidade Histórica, uma Cachoeira de emoções”, no Instituto Mauá, no Pelourinho.
2010 – São Paulo, SP – Coleção Domingos Giobbi: arte, uma relação afetiva (São Paulo, SP), na Estação Pinacoteca (São Paulo, SP).
2011 – Recife, PE – “Boaventuranças: um elogio da loucura”, na galeria do Sesc Casa Amarela.
2012 – Cachoeira, BA – Artista Homenageado (In Memoriam). Exposição Coletiva Escultores de Cachoeira, no Espaço Cultural Fundação Hansen Bahia.
Fontes:
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Arte do Brasil, "Boaventura". Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Sociedade Plural - Paulo Sérgio | Notícias de Cachoeira, "São mais de 5 décadas do movimento de artistas afro-descendente de Cachoeira e região" escrito por Paulo Sérgio Souza, em 24 de janeiro de 2021. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Louco Escultor, escrito por Carlos Gama. Consultado pela última vez em 27 de janeiro de 2022.
Dicionário Manuel Querino de Artes na Bahia - Belas Artes Universidade Federal da Bahia (UFBA) — Boaventura da Silva Filho. Escrito por Suzane Pinho Pêpe.
Crédito fotográfico: Dicionário de Belas Artes da UFBA. Retrato do artista Louco. Detalhe extraído de fotografia publicada em: VALLADARES, 1976, p. 47.