Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Brasil — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Brasil), mais conhecido como Ziraldo, foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador e escritor brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1957, mas dedicou sua carreira às artes gráficas, à imprensa e à literatura. Trabalhou em publicações como O Cruzeiro e Jornal do Brasil e participou da criação de O Pasquim. Entre suas principais obras estão A Turma do Pererê, Flicts e O Menino Maluquinho. Seu trabalho caracteriza-se pelo traço expressivo, síntese das formas, humor e uso marcante das cores, combinando desenho e texto em uma linguagem visual própria. Ao longo da carreira, recebeu reconhecimentos como o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha de Honra da UFMG, além de premiações internacionais relacionadas ao humor gráfico. Participou de numerosas exposições dedicadas ao desenho, à caricatura e às artes gráficas, e sua produção integra acervos e projetos de instituições culturais brasileiras, entre elas o Museu Histórico Nacional.
Ziraldo | Arremate Arte
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Minas Gerais — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador, escritor e artista gráfico brasileiro, considerado um dos nomes de destaque das artes gráficas e da literatura infantojuvenil no país. Interessado pelo desenho desde a infância, teve um de seus primeiros trabalhos publicado ainda menino no jornal Folha de Minas. Mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formando-se em 1957, embora sua trajetória profissional já estivesse direcionada à criação artística e à imprensa. Trabalhou em importantes veículos de comunicação, entre eles O Cruzeiro e Jornal do Brasil, desenvolvendo charges, cartuns, caricaturas e ilustrações que contribuíram para tornar seu traço conhecido pelo público.
No final dos anos 1950, Ziraldo criou o personagem Pererê, inspirado no Saci-Pererê do folclore brasileiro, que deu origem à revista A Turma do Pererê, publicada a partir de 1960. A obra tornou-se uma referência dos quadrinhos nacionais ao valorizar personagens, paisagens, costumes e elementos da cultura brasileira. Durante a década de 1960, o artista também se destacou pela produção de cartazes para o cinema e outros eventos culturais, além de criar personagens como Jeremias, o Bom e Supermãe. Com a ditadura militar, sua produção incorporou de maneira marcante a crítica política e social. Em 1969, participou da criação de O Pasquim, um dos principais jornais da imprensa alternativa do período, no qual o humor e a sátira foram utilizados como formas de crítica ao autoritarismo. No mesmo período, alcançou reconhecimento internacional por sua produção de humor gráfico e recebeu importantes premiações relacionadas à caricatura e à liberdade de imprensa.
Também em 1969, Ziraldo publicou Flicts, seu primeiro livro infantil e uma obra fundamental de sua carreira. Ao narrar a história de uma cor que procura seu lugar no mundo, o artista integrou texto, desenho, cor, tipografia e composição gráfica, estabelecendo uma linguagem visual que se tornaria característica de sua produção. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, seu maior sucesso editorial e vencedor do Prêmio Jabuti. O personagem da panela na cabeça tornou-se um símbolo da literatura infantil brasileira e posteriormente ganhou versões para histórias em quadrinhos, teatro, cinema e televisão. Ziraldo publicou ainda obras como O Bichinho da Maçã, O Joelho Juvenal, O Menino Marrom, O Menino Quadradinho, Uma Professora Muito Maluquinha e Menina Nina, consolidando uma produção em que palavra e imagem atuam de maneira complementar.
Como artista visual, Ziraldo desenvolveu uma linguagem reconhecível pela síntese do desenho, linhas expressivas, humor, dinamismo e uso marcante das cores. Sua experiência como caricaturista, chargista, cartazista e ilustrador permitiu que transitasse entre imprensa, literatura, quadrinhos e artes gráficas. Ao longo da carreira, participou de exposições como Humoristas (1961), O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa (1968), Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos (1981), Universo do Futebol (1982), Velha Mania: desenho brasileiro (1985), Futebol Arte (1998), Caricaturistas Brasileiros (2001), A História do Futebol no Brasil Através da Charge (2006), O Cinema em Cartaz (2008) e Zeróis: Ziraldo na tela grande (2010 e 2012). Sua produção recebeu diferentes distinções ao longo das décadas, entre elas o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e, em 2016, a Medalha de Honra da UFMG.
Ziraldo morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra que atravessa mais de seis décadas da cultura visual brasileira. Embora tenha se tornado amplamente conhecido como criador do Menino Maluquinho, sua trajetória ultrapassa a literatura infantil e compreende desenhos, charges, caricaturas, cartazes, quadrinhos, ilustrações e projetos editoriais. A presença de seus trabalhos em exposições e instituições culturais evidencia a amplitude de uma produção situada no encontro entre arte, comunicação, humor e literatura. Por sua capacidade de transformar temas brasileiros, questões sociais e experiências da infância em imagens de forte poder comunicativo, Ziraldo estabeleceu uma linguagem própria e deixou uma contribuição significativa para a história do desenho, da ilustração e das artes gráficas no Brasil.
Ziraldo | Wikipédia
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, 24 de outubro de 1932 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024) foi um cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista, advogado e jornalista brasileiro.
Foi o criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e foi um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis de seu tempo. Ziraldo foi pai de três filhos, a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antonio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Faleceu em sua residência no estado do Rio de Janeiro, Lagoa Rodrigo de Freitas em 6 de abril de 2024 aos 91 anos.
Infância
Ziraldo passou toda a infância em Caratinga. Era irmão do também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto e também de Ziralzi Alves Pinto. Estudou dois anos no Rio de Janeiro e voltou a Caratinga, tendo concluído o módulo científico (atual ensino médio). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1957. Seu talento no desenho já se manifestava desde essa época, tendo publicado um desenho no jornal Folha de Minas com apenas 6 anos de idade.
Carreira
Começou a trabalhar no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), em 1954, com uma coluna dedicada ao humor. Ganhou notoriedade nacional ao se estabelecer na revista O Cruzeiro em 1957 e, posteriormente, no Jornal do Brasil, em 1963. Alguns de seus personagens desta época foram Jeremias, o Bom; Supermãe e Mirinho.
Em 1960, lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, A Turma do Pererê, que também foi a primeira história em quadrinhos a cores totalmente produzida no Brasil. Embora tenha alcançado uma das maiores tiragens da época, Turma do Pererê foi cancelada em 1964, logo após o início do regime militar no Brasil. Nos anos 1970, a Editora Abril relançou a revista, desta vez, porém, sem o sucesso inicial. A revista da Turma do Pererê teve outras passagens pelas bancas numa edição encadernada pela Editora Primor no ano de 1986 e em formato de almanaque pela Editora Abril na década de 1990.
Em 1960 recebeu o "Nobel" Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina.
Foi fundador e posteriormente diretor do periódico O Pasquim, tabloide de oposição ao regime militar, uma das prováveis razões de sua prisão, ocorrida um dia após a promulgação do AI-5.
Em 1980 lançou o livro "O Menino Maluquinho", seu maior sucesso editorial, o qual foi mais tarde adaptado na televisão e no cinema. Para televisão, foi adaptado em 2006 pela TV Brasil, chamada Um Menino muito Maluquinho, que durou uma temporada com vinte e seis episódios sob a direção de Anna Muylaert e Cao Hamburger. No cinema, foi adaptado três vezes, a primeira em Menino Maluquinho - O Filme em 1995 dirigida por Helvécio Ratton e uma sequência em 1998 dirigida por Fernando Meirelles, Menino Maluquinho 2 - A Aventura. A adaptação mais recente da série é Uma Professora Muito Maluquinha de 2010, estrelado por Paolla Oliveira.
Em 1989, criou a Família Folhas para uma campanha de reciclagem da Prefeitura de Curitiba. Ele reformulou a família e criou novos personagens em 2022.
Em 1999 lançou a revista Bundas", uma publicação de humor sobre o cotidiano que faz uma brincadeira com a revista Caras, esta voltada para o dia a dia de festas e ostentação da elite brasileira. Ziraldo foi também o fundador da revista "A Palavra" em 1999.
Ilustrações de Ziraldo já figuraram em publicações internacionais como as revistas "Private Eye" da Inglaterra, "Plexus" da França e "Mad", dos Estados Unidos.
A partir do ano de 2000, participou da "Oficina do Texto", maior iniciativa de coautoria de livros do Mundo, criada por Samuel Ferrari Lago, então diretor do Portal Educacional, na qual ilustrou histórias que ganharam textos de alunos de escolas do Brasil todo, totalizando aproximadamente 1 milhão de diferentes obras editadas em coautoria com igual número de crianças.
Ziraldo foi homenageado por escolas de samba e afirmou que essa é a maior homenagem que um brasileiro pode receber. No carnaval de São Paulo, foi a Nenê de Vila Matilde em 2003 que celebrou a trajetória do artista. Na Sapucaí, Ziraldo foi enredo da Tradição em 2012.
No dia 3 de outubro de 2016 recebeu a Medalha de Honra da Universidade Federal de Minas Gerais em cerimônia presidida pelo reitor Jaime Arturo Ramírez no auditório da reitoria da universidade.
Vida pessoal
O cartunista foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto de 1958 até a morte dela em 2000, quando aos 66 anos ela sofreu um infarto enquanto dormia. Ziraldo casou-se novamente, dessa vez com Márcia Martins da Silva.
Ziraldo foi fumante durante 40 anos, mas conseguiu abandonar o vício.
Em 2013, Ziraldo concedeu entrevista para o Museu da Pessoa, na qual comentou sobre a sua vida, principalmente sobre a sua infância. Descobriu que tinha tino para o humor ainda muito novo em meio a uma epidemia de esquistossomose, em Caratinga, onde nasceu.
Segundo vizinhos, Ziraldo tinha o hábito de, de vez em quando, descer para o térreo do seu prédio durante a madrugada assobiando, o que eles entendiam como sendo um sinal de que ele iria criar algo novo.
Posicionamento político
Ziraldo, Roger Mello e Marta Suplicy
Ziraldo era uma figura pública ligada à esquerda. Foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) juntamente com amigos como o arquiteto Oscar Niemeyer. Após o fim da Ditadura, em 1989, o grupo liderado por Roberto Freire no PCB transferiu a estrutura partidária para uma nova legenda, o Partido Popular Socialista (PPS), como forma de enfrentar o desgaste com a experiência socialista soviética e a queda do muro de Berlim.
Em 2005, o cartunista filiou-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo partidário. No ano seguinte, apoiou no primeiro turno a candidata Heloísa Helena para a presidência da República, e ao segundo turno fez apoio para reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No ano de 2010, participou de atos em prol da eleição de Dilma Rousseff (PT) para o cargo de Presidente da República. Em 2014, apoiou novamente a candidatura de Dilma para reeleição. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Ziraldo posicionou-se de maneira contrária ao processo, participando de comícios e fazendo elogios à presidente. Em 2018, também declarou voto ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad. Nas eleições de 2022, apoiou a candidatura vitoriosa de Lula (PT).
Indenização por conta da ditadura militar
Em 5 de abril de 2008, Ziraldo — juntamente com mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura militar brasileira — teve seu processo de anistia aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e foi indenizado em mais de 1 milhão de reais, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de 4,3 mil reais. Ele e o cartunista Jaguar receberam as maiores indenizações. À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" a indenização declarando:
Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando.
O episódio foi comentado por seu antigo colega Millôr Fernandes, que se negou a exigir indenização, questionando: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?".
Problemas de saúde e morte
Em 2013, durante uma viagem a Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, necessitando fazer um cateterismo. Em 2018, sofreu um AVC e chegou a ficar internado em estado grave. Nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, o que o fez ficar com a saúde debilitada. Por causa disso, passou a aparecer em público em poucas ocasiões. Nos últimos meses, Ziraldo passava a maior parte do tempo acamado e se alimentando por sonda.
Na tarde do dia 6 de abril de 2024, em torno das 15h, aos 91 anos, Ziraldo morreu em sua casa enquanto dormia, segundo a sua família. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte de Ziraldo e afirmou que "O Brasil perdeu neste sábado, 6/4, um de seus maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".Várias instituições prestaram homenagens ao cartunista, como os clubes de futebol Flamengo, Atlético Mineiro e Corinthians. Mais tarde, no mesmo dia, uma de suas filhas revelou que a causa da morte foi a falência de múltiplos órgãos. No dia seguinte, o corpo de Ziraldo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e sepultado no Cemitério de São João Batista.
Controvérsias
Condenação por improbidade administrativa
Em 31 de março de 2011, Ziraldo, seu irmão Zélio Alves Pinto e mais 9 pessoas foram condenados por improbidade administrativa na realização, em 2003, do primeiro Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor) e no "Fantur - Iguaçu dê uma volta por aqui", em ação movida em 2006 pelo Ministério Público Federal. A ação relata que o dinheiro público municipal e federal foi mal utilizado porque, segundo a sentença, para o primeiro Festhumor, houve contratações sem licitação e pagamentos em duplicidade, o que corresponde a remuneração dupla pelo serviço prestado uma vez. O processo relata ainda desvio de verba no Fantur, que foi uma ação promovida pela Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu para levar jornalistas e cartunistas para cidade, com todas as despesas custeadas pela prefeitura. Além disso, Ziraldo registrou indevidamente a marca do festival em seu nome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), contrariando o edital (que previa a cessão perpétua do desenho), caracterizando assim a intenção de utilizar a marca comercialmente. Em 24 de novembro de 2011, a pena de Ziraldo foi fixada em dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa de cerca de 87,3 mil reais. O juiz substituiu a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário-mínimo mensal pelo mesmo período da pena. Ziraldo e os demais réus podiam recorrer da decisão.
Declaração sobre homossexuais
Em uma entrevista concedida ao site Hoje em Dia em maio de 2015, Ziraldo criticou a TV Globo por abordar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na telenovela Babilônia. "A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais... Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?", afirmou. Ele ainda fez uma comparação com a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ao alegar que o escritor "não teve coragem de fazer Riobaldo assumir a homossexualidade dele" e que "inventou que Diadorim era uma mulher vestida de homem", concluindo que manter a sexualidade dos homossexuais escondida seria "uma coisa mineira", já que "aceitar a homossexualidade em Ipanema é uma coisa, aceitar a homossexualidade em Caratinga é outra".
Ziraldo também esteve envolvido em um debate sobre racismo, devido à uma declaração de fevereiro de 2011, onde afirmava que "racismo sem ódio não é racismo". Esta declaração provocou a reação da escritora Ana Maria Gonçalves, que chegou a escrever uma carta aberta ao autor. Ainda, junto com Ana Maria Machado e Ruth Rocha, Ziraldo se envolveu na polêmica acerca do conteúdo racista da obra de Monteiro Lobato. Todavia, em época anterior, em 2002, Ziraldo denunciou que os livros de Monteiro Lobato continham preconceitos, além de ter ilustrado a camiseta de um bloco de Carnaval carioca, com a figura de Lobato abraçado a uma mulata, ironizando as posições daquele escritor.
Prêmios
1969 - Nobel Internacional do Humor
1969 - Prêmio Merghantealler
1980 - Prêmio Jabuti de Literatura
2004 - Premio Andersen - Il mondo dell'infanzia
2005 - Ordem do Mérito Cultural
2008 - Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico
2012 - Prêmio Jabuti de Literatura
Obra
Quadrinhos
A Turma do Pererê (1959 – 1976)
Jeremias, O Bom (1965-1969)
The Supermãe (1968-1984)
O Menino Maluquinho (1988-2007)
Livros
Flicts (1969)
O Planeta Lilás (1979)
O Menino Maluquinho series
O Menino Maluquinho (1980)
Uma Menina Chamada Julieta (2009)
Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica (2018)
O Bebê que Sabia Brincar (2020)
O Bichinho da Maçã / Bichim series
O Bichinho da Maçã (1982)
Como ir ao Mundo da Lua (1995)
Cada um Mora Onde Pode (2008)
As Anedotinhas do Bichinho da Maçã (2011)
As Flores da Primavera (2020)
Um Amor de Família (2020)
O Bichinho que Queria Crescer (2020)
As Cores e os Dias da Semana (2020)
A Fábula das Três Cores (1985)
O Pequeno Planeta Perdido (1985)
O Menino Marrom (1986)
Corpim series
Pelegrino & Petrônio
Os Dez Amigos
Um Sorriso Chamado Luiz
Rolim
Dodó
O Joelho Juvenal
O Calcanhar de Aquiles
O Menino Quadradinho (1989)
Professora Maluquinha series
Uma Professora Muito Maluquinha (1995)
As Aventuras da Professora Maluquinha em Quadrinhos (2010)
Vito Grandam: Uma História de Vôos (1995)
O Menino do Rio Doce (1996)
Tia Nota Dez (1996)
Menina Nina: Duas Razões Para Não Chorar (2002)
O Menino e seu Amigo (2003)
Os Meninos Morenos (2004)
O Aspite (2005)
Os Meninos dos Planetas series
O Menino da Lua
O Namorado da Fada ou Menino de Urano
O Menino da Terra
O Capetinha do Espaço: ou o Menino de Mercúrio
Os Meninos de Marte
O Menino Que Veio de Vênus
Nino, o Menino de Saturno
O Menino D´Água e o Planeta Netuno
Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo
As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão
Menina das Estrelas (2007)
A Bela Borboleta (2009)
Meninas (2016)
Ilustrações
Chapeuzinho Amarelo (1970)
Pra Boi Dormir (1992)
Noções de Coisas (1995)
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo | Itaú Cultural
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, Minas Gerais, 1932 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024). Desenhista, caricaturista, cartunista, ilustrador, jornalista, escritor. Além de dono de um dos mais conhecidos traços de sua geração, é criador de personagens de grande popularidade, como o Menino Maluquinho e o Bichinho da Maçã.
Apresentou seu primeiro desenho aos sete anos de idade no jornal Folha de Minas, em 1939. Em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou nos periódicos infantis Vida Infantil, Vida Juvenil e Sesinho e começou a publicar trabalhos na revista A Cigarra. Em 1952, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realiza trabalhos mensais na revista "Era uma vez". Em 1954, substitui o caricaturista Borjalo (1925-2004) no jornal Folha de Minas e colabora no jornal Binômio. Em 1957, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Criou o personagem Pererê em 1958, para a revista O Cruzeiro. Com o sucesso desse personagem, a empresa passa a publicar uma revista mensal, em cores, apenas com suas histórias. Nesses trabalhos, são apresentados temas e personagens brasileiros – principalmente o Saci – e, de maneira indireta, injustiças e iniquidades que afligem o Brasil. A revista circulou entre 1960 e 1964, alcançando grande popularidade.
No ano de 1963, começa a trabalhar no Jornal do Brasil e, em 1964, na revista Pif-Paf, dirigida por Millôr Fernandes (1923-2012). Em 1967, editou o suplemento dominical Cartum JS, do Jornal dos Sports. No ano seguinte, ganha destaque internacional e tem seus desenhos publicados em revistas estrangeiras.
Em 1964, participou da criação do jornal O Pasquim. O próprio artista define a publicação como um centro difusor do jornalismo crítico que pretende fazer resistência à ditadura. Para o historiador Herman Lima (1897-1981), Ziraldo integra o grupo de artistas cujo trabalho sucede, na imprensa ilustrada do Brasil, ao grupo dos que se dedicam à caricatura política ou pessoal, desde o momento em que esse gênero perde força, durante o Estado Novo (1937-1945), com as restrições impostas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O estudioso Gilberto Maringoni (1958) destaca a relação de suas obras, assim como as de Millôr Fernandes e Fortuna (1931-1994), entre outros, com a produção dos cartunistas europeus do pós-guerra.
Seus personagens tornam-se muito conhecidos, como, por exemplo, a Supermãe, cujas histórias são publicadas no Jornal do Brasil e na revista Claudia. Nesses trabalhos, o artista satiriza a imagem da mãe superprotetora.
Em 1969, publica seu primeiro livro infantil: Flicts, que conta a história de uma cor que procura seu lugar no mundo. Com O menino maluquinho, publicado em 1980, explora o universo criativo da infância. Em 1982, abandona a direção de O Pasquim para se dedicar principalmente à literatura infantil. Entre muitos de seus títulos, destaca-se ainda O bichinho da maçã (1982). Sua produção inclui também diversas paródias de atores famosos de cinema e de super-heróis de histórias em quadrinhos, como Super-Homem, Dick Tracy e Batman e Robin.
Em 1999, fundou as revistas Bundas – paródia da revista Caras – e Palavra. Em 2002, torna-se um dos responsáveis pela volta da publicação de O Pasquim, que recebe o nome de Pasquim 21 em alusão ao novo século.
Tendo como eixo de seus trabalhos a resistência aos abusos de poder, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985)1, e o mergulho no universo infantil, Ziraldo é, entre os caricaturistas surgidos na segunda metade do século XX no Brasil, aquele com um dos traços mais imediatamente reconhecíveis pelo público, junto ao qual alcança grande popularidade.
Espetáculos
1968 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1970 - Flicts
1970 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1971 - As Garotas da Banda
1972 - Flicts
1973 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1974 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1975 - A feira do adultério
1976 - Flicts
1977 - Flicts
1980 - Flicts
1980 - O Último dos Nukupyrus
1980 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1980 - Flicts
1981 - Flicts, a Cor
1983 - Belas Figuras
1984 - O Menino Maluquinho
1985 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1986 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - O Menino Maluquinho
2002 - Bonequinha de Pano
2003 - Bonequinha de Pano
Livros
1980 - O Menino Maluquinho
1980 - A Bela Borboleta
1981 - O pipoqueiro da esquina
1983 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1985 - História de dois amores
1985 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - Ave Jorge
1991 - Como ir ao Mundo da Lua
2005 - Papo de Sapato
Obras
1964 - 4. Dama, Rei, Valete
1964 - Capa e Espada
1964 - E as Meias Sexy
1964 - - Aí... Hem, Pai!
1964 - Povo Amigo do Paquistão
1964 - Dê Ouro para o Brasil
1964 - O Corvo
1964 - - Minha Gravata?
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1969 - Do You Spasquinglish? - Mifo, Sifo, Aqui, Del Rey...
1969 - Do You Spasquinglish? - Duca, Pô, Ica-cilda...
1969 - Só Doi Quando Eu Rio
1969 - [Iiiaaaauuuuu]
1970 - [Sem Título]
1970 - Poster dos Pobres nº 1-Barra-72
1970 - Antipatriótica, Antipática
1970 - Equipada, Constipada, Antecipada, Participante, Estereotipada
1970 - Poster dos Pobres
1970 - [Deus é Brasileiro]
1970 - Ame-o ou... Deixe-o
1996 - [Rumo à Capital]
1999 - [Maastricht]
2000 - "Tava Jogando Sinuca, Uma Nega Maluca Me Apareceu"...
2000 - Crônicas das Conversas Brasileiras no Limiar do Século XXI
Exposições
1961 - Humoristas
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1963 - Individual de Ziraldo
1968 - O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa
1981 - A Arte de Playboy
1981 - Pablo, Pablo!:uma interpretação brasileira de Guernica
1981 - Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos
1982 - Universo do Futebol
1985 - Velha Mania: desenho brasileiro
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte 98
2000 - Um Coração, Um Mundo
2001 - Caricaturistas Brasileiros
2003 - Traço, Humor e Cia
2006 - Cartunistas da América do Sul
2006 - A História do Futebol no Brasil Através da Charge
2006 - A Imagem do Som de Dorival Caymmi
2008 - O Cinema em Cartaz
2009 - Brasil - O Cinema em Cartaz
2010 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2012 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2017 - O pipoqueiro da esquina
2018 - Quadrinhos
Fonte: ZIRALDO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Acesso em: 15 de setembro de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira? | Educa Mais Brasil
Ziraldo Alves Pinto, renomado cartunista, desenhista, escritor e jornalista brasileiro, teve sua morte confirmada pela família em 6 de abril de 2024. Ele faleceu aos 91 anos em sua casa no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde foi encontrado sem vida enquanto dormia. Desde setembro de 2018, quando sofreu um AVC, estava fora da vida pública e criativa.
O cartunista ficou conhecido por seu estilo irreverente e criativo, destacando-se com desenhos e charges. Como um dos fundadores do jornal humorístico "O Pasquim", ele marcou época durante a ditadura militar, utilizando o humor como forma de resistência política e social. Sua contribuição para a imprensa e a literatura infantil é amplamente reconhecida, deixando um legado duradouro na cultura brasileira.
Importância de Ziraldo para a cultura brasileira
O cartunista foi uma figura de extrema importância para a cultura brasileira, deixando um legado marcante em várias áreas. Ziraldo contribuiu significativamente para o cenário artístico e cultural do Brasil. Seus desenhos e charges, marcados por um estilo único e irreverente, abordavam questões sociais, políticas e cotidianas com humor e inteligência, conquistando uma legião de fãs ao longo de décadas. Como criador do icônico personagem "O Menino Maluquinho", Ziraldo deixou sua marca na literatura infantil brasileira, oferecendo às crianças histórias cativantes e cheias de ensinamentos.
Além disso, Ziraldo foi um importante ativista pelos direitos das crianças, lutando por uma educação de qualidade e pela valorização da infância. Sua atuação como defensor dos direitos humanos e da liberdade de expressão também deixou um impacto significativo na sociedade brasileira.
Por meio de suas obras e de sua personalidade carismática, Ziraldo inspirou gerações de brasileiros, deixando um legado de criatividade, humor e humanidade que continua a influenciar artistas e leitores até os dias de hoje. Sua importância para a cultura brasileira é inegável, e seu nome será sempre lembrado com carinho e admiração.
Contribuições de Ziraldo para a literatura infantil
Ziraldo foi um dos mais importantes escritores e ilustradores da literatura infantil brasileira. Sua contribuição para esse campo foi imensurável. Com seu estilo único e criativo, Ziraldo encantou crianças de todas as idades ao criar obras que abordavam temas importantes de forma lúdica e acessível. Seus livros não apenas entretinham, mas também educavam, transmitindo valores como amizade, solidariedade, imaginação e autoestima.
O grande destaque de sua carreira na literatura infantil é o livro "O Menino Maluquinho", publicado em 1980. Essa obra se tornou um verdadeiro marco na literatura brasileira, conquistando leitores de todas as idades com sua história leve, divertida e cheia de aventuras. Sua capacidade de dialogar com as crianças de forma direta e inteligente fez dele um dos autores mais queridos do Brasil, deixando um legado duradouro na literatura infantil nacional.
Fonte: Educa Mais Brasil, “Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira?”, publicado por Samara Rodrigues em 09 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo | CNN Brasil
Cartunista, ilustrador, escritor e um dos grandes nomes da cultura brasileira, Ziraldo morreu neste sábado (6), aos 91 anos.
A informação da morte foi confirmada pela família. Ele faleceu enquanto dormia em sua residência, no Rio de Janeiro.
O artista deixa como legado livros infantis, charges afiadas e alguns dos personagens mais famosos do Brasil -- dentre eles, o Menino Maluquinho, amado por gerações de crianças.
Relembre algumas das principais obras que marcaram a carreira de Ziraldo:
"O Menino Maluquinho"
Neste clássico da literatura infantil brasileira, Ziraldo nos apresenta seu personagem mais famoso: o Menino Maluquinho. O livro de 1980 conta a história de um garoto traquina e alegre, que gosta de inventar brincadeiras e tem o costume de usar uma panela na cabeça.
Desde então, a obra já ganhou filmes e séries inspirados no personagem.
"A Turma do Pererê"
Foi com "A Turma do Pererê" que Ziraldo pulicou a primeira revista em quadrinhos com um só autor no Brasil, em 1960. As histórias eram inspiradas em personagens do folclore brasileiro, como o saci pererê, e foram publicadas até 1964, ano no qual a ditadura militar suspendeu a revista por considerá-la "subversiva".
"Flicts"
O primeiro livro infantil publicado por Ziraldo, de 1969, conta a história de uma cor que não se encaixa no arco-íris, chamada "flicts". A obra traz reflexões para as crianças sobre aceitar as diferenças e promover a igualdade.
"Uma Professora Muito Maluquinha"
Neste livro, publicado em 1995, Ziraldo conta a história de uma professora diferente do normal, que com sua didática e seus métodos divertidos pode ser mal interpretada pelos adultos, mas encanta os alunos e faz com que eles aprendam enquanto se divertem. A obra também já ganhou adaptação para os cinemas, estrelando Paolla Oliveira.
"O Bichinho da Maçã"
O livro de 1982 conta a história de um bichinho que morava dentro de uma maçã e contava histórias incríveis, que faziam os animais se reunirem debaixo da macieira só para ouvir. Um dia, a maçã que ele chama de casa é colhida, e o bicho tem que usar sua inteligência para escapar.
"O Joelho Juvenal"
De 1983, neste livro de Ziraldo conhecemos Juvenal, o joelho de um menino que adorava brincar e, por isso mesmo, vive sempre ralado, esfolado e machucado. Mesmo assim, Juvenal é muito feliz e gosta de se divertir com seu dono.
"Meninas"
Para escrever "Meninas", Ziraldo se inspirou em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, que traz no centro da narrativa uma menina curiosa que decide explorar outro mundo. Neste livro, o cartunista brasileiro decide retratar as meninas, seres encantados que duram apenas dos 7 aos 11 anos, mas ao invés de sumir dão origem às mulheres.
"O Menino Marrom"
De 1986, o livro de Ziraldo conta a história de um menino marrom e de seu amigo, um menino cor-de-rosa. Os dois querem descobrir juntos o mistério das cores, e acabam por aprender sobre diversidade, respeito e a amizade entre pessoas diferentes.
Fonte: CNN Brasil, “Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo”, publicado por Fernanda Pinotti em 06 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho' | BBC
O Menino Maluquinho, Flicts,O Joelho Juvenal… São inúmeras as criações de Ziraldo que não só povoam o imaginário infantil por gerações como têm um reconhecimento acadêmico de grandeza e qualidade.
Para especialistas, ele já é um clássico e sua obra pertence ao primeiro escalão do cânone cultural brasileiro.
Nascido em Caratinga (MG) há exatos 90 anos, Ziraldo Alves Pinto está recluso. Sua saúde debilitou-se bastante depois de três acidentes vasculares cerebrais sofrido de 2018 para cá.
De acordo com a família, por ordens médicas, ele não pode conceder entrevistas.
O que não impede que amigos e fãs celebrem seu aniversário com alegria e, principalmente, reconhecimento.
Neste mês O Menino Maluquinho se tornou série de animação do serviço de streaming Netflix, há o relançamento, em edições especial, de duas de suas obras — O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
E ainda um livro-homenagem, preparado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Em um dos seus mais recentes vídeos, gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatido. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
Ziraldo virou "o Velhinho Maluquinho".
Em depoimento por escrito enviado à reportagem, o quadrinista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica comentou que "falar do Ziraldo é chover no molhado", já que "todo mundo tem um grande carinho por ele e seus personagens".
Mauricio cita a obra de ambos para ressaltar que "nossa história se entrelaça junto com as crianças e nossos personagens".
"Ziraldo sempre diz que o mais importante é ler. Mas para que isso aconteça, cada vez mais, é preciso ter autores como ele para arrebatar milhões de crianças leitoras", comenta ele, desejando "90 anos de sorrisos e muito mais" ao amigo e colega de profissão.
A cartunista Laerte define Ziraldo como "uma referência total, um mestre".
"Por todos os motivos possíveis. Ele é alguém que fez parte da formação de todos nós, cartunistas e quadrinistas da geração seguinte, vamos dizer", comenta.
"E sempre foi uma pessoa muito disponível: sempre nos recebeu, sempre nos ajudou, sempre nos apoiou e deu opinião. É uma pessoa que sempre foi muito aberta."
Ela diz que Ziraldo é alguém "que nunca se atrapalhou com nada, jamais teve qualquer empecilho como autor, como artista gráfico, como pessoa absolutamente genial". "Ele presta atenção aos detalhes em que é bom prestar atenção. E ensinou a gente a prestar atenção nessas coisas", afirma.
Renomado autor de best-sellers infantojuvenis, Pedro Bandeira acredita que "o talento, o patriotismo e a coragem de Ziraldo construíram um Brasil bem maior".
Bandeira diz que acompanha o trabalho do cartunista desde a sua própria infância.
"Até tornar-me seu amigo, acompanho os talentos deste artista desde meus 10 anos, curtindo seus trabalhos como quadrinista, escritor, jornalista, caricaturista, ilustrador e, principalmente, como patriota. E olhe que, quando eu tinha 10 anos, Ziraldo tinha apenas 20 e já era um quadrinista de primeira!", afirma.
"Logo, quando a ditadura arrasava e dentre seus ataques impunha-nos uma censura que me prejudicava especialmente, porque eu vivia do jornalismo e atuava como ator de teatro, Ziraldo publicou o mais lindo poema gráfico da história do Brasil: Flicts, que veio para dar força aos injustiçados, aos exilados, aos expropriados pelo fascismo brasileiro", acrescenta Bandeira, sobre o livro que conta a história de uma cor que não era aceita pelas outras.
Segundo o escritor, em Flicts Ziraldo enxugou "nossa lágrima, ao dizer que, em algum lugar, talvez na Lua, ainda haveria esperança para nosso desespero".
"Quando eu lia o livro para meu filho, parecia ouvir a voz do Ziraldo: 'Calma, a arte um dia vencerá a injustiça'. Eu entendi, Ziraldo. E há de vencer novamente", diz.
Bandeira avalia que "Ziraldo é mestre, mas não é imitável".
"Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica. Numa Bienal ou numa feira de livros, Ziraldo é cercado pelas crianças e adultos que o leem como se fosse um Papai Noel distribuindo brinquedos", analisa.
"E ele aceita ficar por horas autografando para seus leitores, tirando fotos e fazendo caricaturas nos livrinhos."
"Todos nós, escritores para crianças e jovens, somos fãs do auditório do Ziraldo", acrescenta.
"Os textos de Ziraldo não têm vilões. Todos seus pequenos heróis, como o Menino Maluquinho, flutuam pelas histórias como se dançassem em seus próprios sonhos. Só Ziraldo sabe como as crianças sonham", comenta Bandeira.
O escritor comenta que desde a pandemia está "enfurnado" mas que tem saudades de conviver com o amigo.
"Falamos por telefone, trocamos carinhos, mas nada consola minha vontade de ouvir novamente sua voz, ver seu sorriso quando acolhe algum leitorzinho de olhos arregalados de admiração", diz.
"Nós, que o amamos, jamais poderemos oferecer tanto amor quanto ele já espalhou pelo Brasil."
Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, José Alberto Lovetro, mais conhecido como JAL, define Ziraldo como alguém que "tem o DNA da cultura brasileira".
"Não só por sua arte no humor gráfico, mas também por criar personagens que invadem a vida das pessoas como se fossem da família de cada um. Agrada crianças de até 100 anos de idade", comenta.
JAL conta que quando era bastante jovem encantou-se pelo jornal 'O Pasquim', semanário alternativo que circulou durante a ditadura militar e que teve Ziraldo no time.
"Quando eu era ainda garoto já era absorvido pelo Pasquim. De ameba fui descobrindo o que era política. E Ziraldo sabe conquistar a inteligência das pessoas", recorda.
"Fiquei inebriado por aquela linguagem engraçada e ao mesmo tempo cheia de estilo. Virei desenhista."
Trajetória de sucesso
Responsável pela publicação da obra dele na Editora Melhoramentos, a editora Leila Bortolazzi avalia que trabalhar com ele "nunca foi muito complicado".
"Mas claro que, como todo artista compulsivo, obsessivo em atingir a perfeição, ele costumava fazer várias revisões em textos e ilustrações", lembra ela.
"Tudo era muito bem cuidado, ia e voltava, sempre era assim."
Ela recorda que antes de o trabalho ser feito por meio de digitalização, "era sempre um evento" quando, com a pastinha debaixo do braço, o autor ia pessoalmente até a editora para levar seu trabalho e defender as ilustrações.
"Quando chegava um livro novo dele era sempre uma novidade, porque ele sempre foi muito criativo, muito original, muito único. Acho que isso faz a obra dele ser tão perene: a originalidade, a criatividade dele", comenta.
"Fica até difícil comparar, não tem como falar 'tem influência disso e daquilo'. Ele é muito original mesmo, seu trabalho e seu traço é único e bem marcante."
Bortolazzi começou a trabalhar na Melhoramentos em 1981, ou seja, sua trajetória na empresa é praticamente tão longa quanto o sucesso de Ziraldo no mundo dos livros — O Menino Maluquinho, seu maior sucesso, foi lançado em 1980; hoje acumula 18 edições, 135 reimpressões e já vendeu mais de 4,1 milhões de exemplares.
Com mais de 200 livros publicados, Ziraldo tem diversos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de 500 mil exemplares. Menina Nina, de 2002, 140 mil. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. O Planeta Lilás, de 1984, 200 mil. O Menino Quadradinho, de 1989, 120 mil. Flicts, de 1984, mais de meio milhão de exemplares.
Ziraldo começou sua carreira em 1954 no jornal Folha da Manhã — hoje Folha de S. Paulo. Ele tinha uma coluna de humor. Depois passou pela revista O Cruzeiro e pelo Jornal do Brasil. Em 1960 lançou o primeiro gibi brasileiro feito por um só autor, a Turma do Pererê — a publicação acabou descontinuada a partir de 1964, por conta da ditadura militar.
Durante o regime autoritário, foi um dos idealizadores e parte integrante da equipe do semanário de contracultura O Pasquim, que fez sucesso e acabou marcando uma geração. Ele acabou sendo preso no dia seguinte à promulgação do Ato Institucional Número 5, em dezembro de 1968.
Figura sempre ligada à esquerda, ele foi membro do Partido Comunista Brasileira. Em 2005 ele se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e desenhou o logo da agremiação. Nas últimas eleições, declarou apoio a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e, na última, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Sucesso de crítica
Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Articulação Textual na Literatura Infantil e Juvenil, Leonor Werneck dos Santos considera "impossível falar de literatura infantil brasileira sem falar de Ziraldo".
"Ele deu grande impulso à literatura infantil no Brasil, trouxe a literatura infantil para um lugar de destaque, inclusive academicamente", avalia.
Ela acredita que isso se deu por um conjunto de fatores, como a criatividade, a atualidade dos temas, a "linguagem que toca fundo no leitor de todas as idades, "o traço e o projeto gráfico que parecem tão simples mas são cuidadosamente pensados e dialogam com a proposta de cada livro".
"Tudo faz com que a obra ultrapasse a época em que é produzida. Por isso se torna um clássico", afirma Santos.
Criadora do projeto Grandes Livrinhos, no Instagram (@grandeslivrinhos), a jornalista Giovana Franzolin acredita que são muitas as razões que fazem da obra de Ziraldo tão importante para as crianças — e resistentes ao tempo, conseguindo ter o mesmo peso hoje que tinha quando os sucessos foram criados, décadas atrás.
"Entendo que isso acontece porque os personagens retratam uma infância atemporal, de criança arteira, feliz, com alegrias, dificuldades... não é tão somente a infância dele próprio ou uma infância datada, tem um pouco da infância de todo mundo", comenta ela.
"Além disso, ele fala com a criança sem didatismo, sem ser moralizante, mesmo abordando temas mais 'cabeludos'. Ele consegue desenvolver qualquer temática com leveza, sensibilidade e criatividade. Por exemplo, vejo que o Menino Maluquinho, o personagem mais emblemático e mais conhecido, é uma alegoria da infância, a criança sapeca e 'maluquinha', que não era nada mais que uma criança feliz."
Franzolin aponta algumas características do autor como fundamentais para definir sua genialidade. Primeiro, o pioneirismo, pois ele escreveu "para o universo da literatura infantil numa década em que o mercado mal existia". E também pelo cuidado com os aspectos gráficos. Nesse sentido, ela ressalta que Flicts foi uma obra "disruptiva, ousada para a época".
"Além disso, pelo conjunto da obra. São dezenas e dezenas de títulos representando uma densidade impressionante para qualquer autor", aponta a jornalista.
"Mas mais do que tudo, creio que Ziraldo se consolidou por saber como nenhum outro representar a infância, com seus prazeres e agruras. Ele consegue representá-la com seriedade e leveza, ao mesmo tempo em que não foge de temas mais difíceis ou tabus, como morte, separação dos pais, rejeição... Ele toca a alma das crianças e dialoga com elas como nenhum outro, no meu ponto de vista. E ao fazer isso, emociona também os adultos, reacende neles as memórias das próprias infâncias."
A jornalista comenta que Ziraldo, mesmo com 90 anos, "parece um eterno menino".
"Escreve com naturalidade, fala da infância sem esforço", diz.
"Interesso-me em especial pelo texto, me emociona toda vez que leio. Apresenta camadas de interpretação, de subjetividade, que captamos conforme a maturidade e o momento da vida."
Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a professora de literatura Vânia Maria Resende diz que a "grandeza de Ziraldo está na singularidade da linguagem plástica genial, vibrante, forte, exuberante". E, não só. Também "na força da poesia e do humor em equilíbrio", na "dimensão lúdica que flui em sintonia com a naturalidade infantil".
"Acrescente-se a isso, o diálogo versátil de seus livros com repertório de textos visuais, gráficos, verbais dos mais diferentes autores e fontes, não restritamente infantis, o que abre amplas perspectivas culturais para os leitores", diz ela, que é autora dos livros Ziraldo e o Livro para Crianças e Jovens no Brasil e O Menino na Literatura Brasileira.
"Além da beleza visual que é fator de sedução estética, importante observar a riqueza simbólica, até mesmo de narrativas aparentemente mais simples, o que significa dizer que sua literatura não se reduz a mero entretenimento. Finalmente, destaco a grandeza do poder de comunicação da obra do artista com leitores de diferentes idades, não apenas os infantis."
Resende acredita que "a concepção peculiar de livro infantil de Ziraldo" é o seu maior legado. Esse conceito foi favorecido "por traços específicos da sua formação de escritor-desenhista-artista gráfico" e, ao mesmo tempo, compatível "com o pensamento complexo da contemporaneidade". Para ela, Flicts é o marco desse formato, afirmando-se com "a peculiaridade do estilo verbo-visual, de direcionamento de leitura simultaneísta, com apoio semiótico, diferentemente da pura leitura linguística."
Para a pesquisadora Monica Rebecca Ferrari Nunes, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutora em semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "Ziraldo trabalha com personagens que têm universalidade". E isso explica a "força de seus personagens", de "forma que esses textos que ele constrói são longevos na cultura".
"Há uma emoção quase que universal que possibilita a permanência através do tempo", comenta ela.
Nunes ainda ressalta a habilidade do autor na "hibridização da linguagem".
"Ele faz a mistura de signos em que o verbal vai se misturando ao imagético, e o imagético ao verbal. E constrói uma linguagem de alta complexidade que, ao mesmo tempo, tem um efeito muito rápido na compreensão", comenta ela.
Fonte: BBC, “Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho'”, publicado por Edison Veiga, em 24 de outubro de 2022.
Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país | BBC
Morreu neste sábado (6/4), aos 91 anos, Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário infantil há gerações.
Ziraldo morreu em sua casa, um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro, de acordo com canal Globonews, que cita informações de sua família.
Formado em direito, ele foi cartunista, chargista, escritor, pintor, dramaturgo, cronista, apresentador e humorista, entre outras atividades ao longo de mais de seis décadas de carreira.
Sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica.
Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatida. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
No mesmo ano, negou ele mesmo um boato de que teria morrido ao publicar uma foto em sua conta no Instagram, dizendo estar “firme e forte”. Ao ser procurado por jornais para comentar o boato, disse estar “ocupado demais celebrando a vida”.
De Caratinga para o mundo
Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.
O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos.
O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.
Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.
Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.
Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
Charge política
Se 1968 ficou conhecido como “o ano que não acabou”, nas palavras do contemporâneo Zuenir Ventura, o de 1969 marcaria para sempre a carreira de Ziraldo.
Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.
Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.
Ziraldo ainda se tornaria o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.
Antes do fim daquele ano, publicaria ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.
Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.
O pai do Menino Maluquinho
Nas décadas seguintes, Ziraldo passaria a se dedicar mais a sua outra grande paixão, as histórias para crianças, que devorava desde menino em Caratinga. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras.
O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.
Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers.
Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.
Atuação política
Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo.
Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Em 2008, Ziraldo e mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura, entre os quais o colega Jaguar, tiveram seu processo de indenização aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
O cartunista foi indenizado em mais de R$ 1 milhão, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de R$ 4 mil reais. Criticado por alguns colunistas na época, disse que o Brasil lhe devia indenização.
“Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o [ex-presidente João] Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery [do Couto e Silva, general chefe da Casa Civil no governo Geisel]. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando”, disse na época ao jornal O Globo.
Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.
Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.
Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.
Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.
Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.
Combate à ditadura e prisões
Durante a ditadura militar (1964-1985), Ziraldo continuou a publicar suas charges e cartuns políticos e, mais do que isso, tornou-se uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia.
Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.
No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral O Pasquim, semanário de humor que virou um fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.
No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal seriam presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu.
Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. "Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo", disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.
Na ocasião, o cartunista também comentou sobre sua tentativa de ressuscitar o jornal em 2002, como “O Pasquim 21”. Apesar de ter durado até 2004, o projeto se somaria à lista de fiascos editoriais em que investiu, como as revistas "Palavra" e "Bundas", uma sátira ao sucesso da “Caras”, em 1999. Depois dessas experiências, disse ter desistido do jornalismo. "Cansei de levar porrada. Eu sou o rei dos bons projetos e dos fracassos econômicos."
Reconhecimento internacional
Dois anos depois, o cartunista, seu irmão, Zélio Alves Pinto, e outras dez pessoas foram condenadas pela Justiça Federal do Paraná por improbidade administrativa e registro indevido de marca durante a realização do Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor), em 2003.
Ziraldo foi condenado a dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa. Mas o juiz trocou a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário mínimo mensal pelo mesmo período da pena. "É uma dessas desgraças que acontecem na vida. Um sujeito com a minha biografia tem de enfrentar uma praga dessas", disse ele ao G1.
Legado
Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos. Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins.
Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins.
A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.
"O Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai", disse Daniela durante o lançamento. "Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva."
Autor de best-sellers infanto-juvenis, Pedro Bandeira definiu Ziraldo à época como “um mestre, mas não imitável". "Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica”.
Homenagens
Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo neste sábado.
O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos "maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".
"São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão", escreveu o presidente.
O criador da Turma da Mônica, Maurício de Souza, também lamentou a morte de Ziraldo. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!", escreveu.
Alguns times de futebol do país também prestaram homenagem ao cartunista nas redes sociais, como Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista.
Fonte: BBC, “Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país”, publicado por Amauri Arrais, em 6 de abril de 2024.
Crédito fotográfico: UOL, imagem de Ana Colla. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Brasil — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Brasil), mais conhecido como Ziraldo, foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador e escritor brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1957, mas dedicou sua carreira às artes gráficas, à imprensa e à literatura. Trabalhou em publicações como O Cruzeiro e Jornal do Brasil e participou da criação de O Pasquim. Entre suas principais obras estão A Turma do Pererê, Flicts e O Menino Maluquinho. Seu trabalho caracteriza-se pelo traço expressivo, síntese das formas, humor e uso marcante das cores, combinando desenho e texto em uma linguagem visual própria. Ao longo da carreira, recebeu reconhecimentos como o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha de Honra da UFMG, além de premiações internacionais relacionadas ao humor gráfico. Participou de numerosas exposições dedicadas ao desenho, à caricatura e às artes gráficas, e sua produção integra acervos e projetos de instituições culturais brasileiras, entre elas o Museu Histórico Nacional.
Ziraldo | Arremate Arte
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Minas Gerais — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador, escritor e artista gráfico brasileiro, considerado um dos nomes de destaque das artes gráficas e da literatura infantojuvenil no país. Interessado pelo desenho desde a infância, teve um de seus primeiros trabalhos publicado ainda menino no jornal Folha de Minas. Mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formando-se em 1957, embora sua trajetória profissional já estivesse direcionada à criação artística e à imprensa. Trabalhou em importantes veículos de comunicação, entre eles O Cruzeiro e Jornal do Brasil, desenvolvendo charges, cartuns, caricaturas e ilustrações que contribuíram para tornar seu traço conhecido pelo público.
No final dos anos 1950, Ziraldo criou o personagem Pererê, inspirado no Saci-Pererê do folclore brasileiro, que deu origem à revista A Turma do Pererê, publicada a partir de 1960. A obra tornou-se uma referência dos quadrinhos nacionais ao valorizar personagens, paisagens, costumes e elementos da cultura brasileira. Durante a década de 1960, o artista também se destacou pela produção de cartazes para o cinema e outros eventos culturais, além de criar personagens como Jeremias, o Bom e Supermãe. Com a ditadura militar, sua produção incorporou de maneira marcante a crítica política e social. Em 1969, participou da criação de O Pasquim, um dos principais jornais da imprensa alternativa do período, no qual o humor e a sátira foram utilizados como formas de crítica ao autoritarismo. No mesmo período, alcançou reconhecimento internacional por sua produção de humor gráfico e recebeu importantes premiações relacionadas à caricatura e à liberdade de imprensa.
Também em 1969, Ziraldo publicou Flicts, seu primeiro livro infantil e uma obra fundamental de sua carreira. Ao narrar a história de uma cor que procura seu lugar no mundo, o artista integrou texto, desenho, cor, tipografia e composição gráfica, estabelecendo uma linguagem visual que se tornaria característica de sua produção. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, seu maior sucesso editorial e vencedor do Prêmio Jabuti. O personagem da panela na cabeça tornou-se um símbolo da literatura infantil brasileira e posteriormente ganhou versões para histórias em quadrinhos, teatro, cinema e televisão. Ziraldo publicou ainda obras como O Bichinho da Maçã, O Joelho Juvenal, O Menino Marrom, O Menino Quadradinho, Uma Professora Muito Maluquinha e Menina Nina, consolidando uma produção em que palavra e imagem atuam de maneira complementar.
Como artista visual, Ziraldo desenvolveu uma linguagem reconhecível pela síntese do desenho, linhas expressivas, humor, dinamismo e uso marcante das cores. Sua experiência como caricaturista, chargista, cartazista e ilustrador permitiu que transitasse entre imprensa, literatura, quadrinhos e artes gráficas. Ao longo da carreira, participou de exposições como Humoristas (1961), O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa (1968), Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos (1981), Universo do Futebol (1982), Velha Mania: desenho brasileiro (1985), Futebol Arte (1998), Caricaturistas Brasileiros (2001), A História do Futebol no Brasil Através da Charge (2006), O Cinema em Cartaz (2008) e Zeróis: Ziraldo na tela grande (2010 e 2012). Sua produção recebeu diferentes distinções ao longo das décadas, entre elas o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e, em 2016, a Medalha de Honra da UFMG.
Ziraldo morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra que atravessa mais de seis décadas da cultura visual brasileira. Embora tenha se tornado amplamente conhecido como criador do Menino Maluquinho, sua trajetória ultrapassa a literatura infantil e compreende desenhos, charges, caricaturas, cartazes, quadrinhos, ilustrações e projetos editoriais. A presença de seus trabalhos em exposições e instituições culturais evidencia a amplitude de uma produção situada no encontro entre arte, comunicação, humor e literatura. Por sua capacidade de transformar temas brasileiros, questões sociais e experiências da infância em imagens de forte poder comunicativo, Ziraldo estabeleceu uma linguagem própria e deixou uma contribuição significativa para a história do desenho, da ilustração e das artes gráficas no Brasil.
Ziraldo | Wikipédia
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, 24 de outubro de 1932 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024) foi um cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista, advogado e jornalista brasileiro.
Foi o criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e foi um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis de seu tempo. Ziraldo foi pai de três filhos, a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antonio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Faleceu em sua residência no estado do Rio de Janeiro, Lagoa Rodrigo de Freitas em 6 de abril de 2024 aos 91 anos.
Infância
Ziraldo passou toda a infância em Caratinga. Era irmão do também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto e também de Ziralzi Alves Pinto. Estudou dois anos no Rio de Janeiro e voltou a Caratinga, tendo concluído o módulo científico (atual ensino médio). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1957. Seu talento no desenho já se manifestava desde essa época, tendo publicado um desenho no jornal Folha de Minas com apenas 6 anos de idade.
Carreira
Começou a trabalhar no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), em 1954, com uma coluna dedicada ao humor. Ganhou notoriedade nacional ao se estabelecer na revista O Cruzeiro em 1957 e, posteriormente, no Jornal do Brasil, em 1963. Alguns de seus personagens desta época foram Jeremias, o Bom; Supermãe e Mirinho.
Em 1960, lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, A Turma do Pererê, que também foi a primeira história em quadrinhos a cores totalmente produzida no Brasil. Embora tenha alcançado uma das maiores tiragens da época, Turma do Pererê foi cancelada em 1964, logo após o início do regime militar no Brasil. Nos anos 1970, a Editora Abril relançou a revista, desta vez, porém, sem o sucesso inicial. A revista da Turma do Pererê teve outras passagens pelas bancas numa edição encadernada pela Editora Primor no ano de 1986 e em formato de almanaque pela Editora Abril na década de 1990.
Em 1960 recebeu o "Nobel" Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina.
Foi fundador e posteriormente diretor do periódico O Pasquim, tabloide de oposição ao regime militar, uma das prováveis razões de sua prisão, ocorrida um dia após a promulgação do AI-5.
Em 1980 lançou o livro "O Menino Maluquinho", seu maior sucesso editorial, o qual foi mais tarde adaptado na televisão e no cinema. Para televisão, foi adaptado em 2006 pela TV Brasil, chamada Um Menino muito Maluquinho, que durou uma temporada com vinte e seis episódios sob a direção de Anna Muylaert e Cao Hamburger. No cinema, foi adaptado três vezes, a primeira em Menino Maluquinho - O Filme em 1995 dirigida por Helvécio Ratton e uma sequência em 1998 dirigida por Fernando Meirelles, Menino Maluquinho 2 - A Aventura. A adaptação mais recente da série é Uma Professora Muito Maluquinha de 2010, estrelado por Paolla Oliveira.
Em 1989, criou a Família Folhas para uma campanha de reciclagem da Prefeitura de Curitiba. Ele reformulou a família e criou novos personagens em 2022.
Em 1999 lançou a revista Bundas", uma publicação de humor sobre o cotidiano que faz uma brincadeira com a revista Caras, esta voltada para o dia a dia de festas e ostentação da elite brasileira. Ziraldo foi também o fundador da revista "A Palavra" em 1999.
Ilustrações de Ziraldo já figuraram em publicações internacionais como as revistas "Private Eye" da Inglaterra, "Plexus" da França e "Mad", dos Estados Unidos.
A partir do ano de 2000, participou da "Oficina do Texto", maior iniciativa de coautoria de livros do Mundo, criada por Samuel Ferrari Lago, então diretor do Portal Educacional, na qual ilustrou histórias que ganharam textos de alunos de escolas do Brasil todo, totalizando aproximadamente 1 milhão de diferentes obras editadas em coautoria com igual número de crianças.
Ziraldo foi homenageado por escolas de samba e afirmou que essa é a maior homenagem que um brasileiro pode receber. No carnaval de São Paulo, foi a Nenê de Vila Matilde em 2003 que celebrou a trajetória do artista. Na Sapucaí, Ziraldo foi enredo da Tradição em 2012.
No dia 3 de outubro de 2016 recebeu a Medalha de Honra da Universidade Federal de Minas Gerais em cerimônia presidida pelo reitor Jaime Arturo Ramírez no auditório da reitoria da universidade.
Vida pessoal
O cartunista foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto de 1958 até a morte dela em 2000, quando aos 66 anos ela sofreu um infarto enquanto dormia. Ziraldo casou-se novamente, dessa vez com Márcia Martins da Silva.
Ziraldo foi fumante durante 40 anos, mas conseguiu abandonar o vício.
Em 2013, Ziraldo concedeu entrevista para o Museu da Pessoa, na qual comentou sobre a sua vida, principalmente sobre a sua infância. Descobriu que tinha tino para o humor ainda muito novo em meio a uma epidemia de esquistossomose, em Caratinga, onde nasceu.
Segundo vizinhos, Ziraldo tinha o hábito de, de vez em quando, descer para o térreo do seu prédio durante a madrugada assobiando, o que eles entendiam como sendo um sinal de que ele iria criar algo novo.
Posicionamento político
Ziraldo, Roger Mello e Marta Suplicy
Ziraldo era uma figura pública ligada à esquerda. Foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) juntamente com amigos como o arquiteto Oscar Niemeyer. Após o fim da Ditadura, em 1989, o grupo liderado por Roberto Freire no PCB transferiu a estrutura partidária para uma nova legenda, o Partido Popular Socialista (PPS), como forma de enfrentar o desgaste com a experiência socialista soviética e a queda do muro de Berlim.
Em 2005, o cartunista filiou-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo partidário. No ano seguinte, apoiou no primeiro turno a candidata Heloísa Helena para a presidência da República, e ao segundo turno fez apoio para reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No ano de 2010, participou de atos em prol da eleição de Dilma Rousseff (PT) para o cargo de Presidente da República. Em 2014, apoiou novamente a candidatura de Dilma para reeleição. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Ziraldo posicionou-se de maneira contrária ao processo, participando de comícios e fazendo elogios à presidente. Em 2018, também declarou voto ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad. Nas eleições de 2022, apoiou a candidatura vitoriosa de Lula (PT).
Indenização por conta da ditadura militar
Em 5 de abril de 2008, Ziraldo — juntamente com mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura militar brasileira — teve seu processo de anistia aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e foi indenizado em mais de 1 milhão de reais, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de 4,3 mil reais. Ele e o cartunista Jaguar receberam as maiores indenizações. À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" a indenização declarando:
Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando.
O episódio foi comentado por seu antigo colega Millôr Fernandes, que se negou a exigir indenização, questionando: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?".
Problemas de saúde e morte
Em 2013, durante uma viagem a Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, necessitando fazer um cateterismo. Em 2018, sofreu um AVC e chegou a ficar internado em estado grave. Nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, o que o fez ficar com a saúde debilitada. Por causa disso, passou a aparecer em público em poucas ocasiões. Nos últimos meses, Ziraldo passava a maior parte do tempo acamado e se alimentando por sonda.
Na tarde do dia 6 de abril de 2024, em torno das 15h, aos 91 anos, Ziraldo morreu em sua casa enquanto dormia, segundo a sua família. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte de Ziraldo e afirmou que "O Brasil perdeu neste sábado, 6/4, um de seus maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".Várias instituições prestaram homenagens ao cartunista, como os clubes de futebol Flamengo, Atlético Mineiro e Corinthians. Mais tarde, no mesmo dia, uma de suas filhas revelou que a causa da morte foi a falência de múltiplos órgãos. No dia seguinte, o corpo de Ziraldo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e sepultado no Cemitério de São João Batista.
Controvérsias
Condenação por improbidade administrativa
Em 31 de março de 2011, Ziraldo, seu irmão Zélio Alves Pinto e mais 9 pessoas foram condenados por improbidade administrativa na realização, em 2003, do primeiro Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor) e no "Fantur - Iguaçu dê uma volta por aqui", em ação movida em 2006 pelo Ministério Público Federal. A ação relata que o dinheiro público municipal e federal foi mal utilizado porque, segundo a sentença, para o primeiro Festhumor, houve contratações sem licitação e pagamentos em duplicidade, o que corresponde a remuneração dupla pelo serviço prestado uma vez. O processo relata ainda desvio de verba no Fantur, que foi uma ação promovida pela Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu para levar jornalistas e cartunistas para cidade, com todas as despesas custeadas pela prefeitura. Além disso, Ziraldo registrou indevidamente a marca do festival em seu nome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), contrariando o edital (que previa a cessão perpétua do desenho), caracterizando assim a intenção de utilizar a marca comercialmente. Em 24 de novembro de 2011, a pena de Ziraldo foi fixada em dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa de cerca de 87,3 mil reais. O juiz substituiu a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário-mínimo mensal pelo mesmo período da pena. Ziraldo e os demais réus podiam recorrer da decisão.
Declaração sobre homossexuais
Em uma entrevista concedida ao site Hoje em Dia em maio de 2015, Ziraldo criticou a TV Globo por abordar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na telenovela Babilônia. "A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais... Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?", afirmou. Ele ainda fez uma comparação com a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ao alegar que o escritor "não teve coragem de fazer Riobaldo assumir a homossexualidade dele" e que "inventou que Diadorim era uma mulher vestida de homem", concluindo que manter a sexualidade dos homossexuais escondida seria "uma coisa mineira", já que "aceitar a homossexualidade em Ipanema é uma coisa, aceitar a homossexualidade em Caratinga é outra".
Ziraldo também esteve envolvido em um debate sobre racismo, devido à uma declaração de fevereiro de 2011, onde afirmava que "racismo sem ódio não é racismo". Esta declaração provocou a reação da escritora Ana Maria Gonçalves, que chegou a escrever uma carta aberta ao autor. Ainda, junto com Ana Maria Machado e Ruth Rocha, Ziraldo se envolveu na polêmica acerca do conteúdo racista da obra de Monteiro Lobato. Todavia, em época anterior, em 2002, Ziraldo denunciou que os livros de Monteiro Lobato continham preconceitos, além de ter ilustrado a camiseta de um bloco de Carnaval carioca, com a figura de Lobato abraçado a uma mulata, ironizando as posições daquele escritor.
Prêmios
1969 - Nobel Internacional do Humor
1969 - Prêmio Merghantealler
1980 - Prêmio Jabuti de Literatura
2004 - Premio Andersen - Il mondo dell'infanzia
2005 - Ordem do Mérito Cultural
2008 - Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico
2012 - Prêmio Jabuti de Literatura
Obra
Quadrinhos
A Turma do Pererê (1959 – 1976)
Jeremias, O Bom (1965-1969)
The Supermãe (1968-1984)
O Menino Maluquinho (1988-2007)
Livros
Flicts (1969)
O Planeta Lilás (1979)
O Menino Maluquinho series
O Menino Maluquinho (1980)
Uma Menina Chamada Julieta (2009)
Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica (2018)
O Bebê que Sabia Brincar (2020)
O Bichinho da Maçã / Bichim series
O Bichinho da Maçã (1982)
Como ir ao Mundo da Lua (1995)
Cada um Mora Onde Pode (2008)
As Anedotinhas do Bichinho da Maçã (2011)
As Flores da Primavera (2020)
Um Amor de Família (2020)
O Bichinho que Queria Crescer (2020)
As Cores e os Dias da Semana (2020)
A Fábula das Três Cores (1985)
O Pequeno Planeta Perdido (1985)
O Menino Marrom (1986)
Corpim series
Pelegrino & Petrônio
Os Dez Amigos
Um Sorriso Chamado Luiz
Rolim
Dodó
O Joelho Juvenal
O Calcanhar de Aquiles
O Menino Quadradinho (1989)
Professora Maluquinha series
Uma Professora Muito Maluquinha (1995)
As Aventuras da Professora Maluquinha em Quadrinhos (2010)
Vito Grandam: Uma História de Vôos (1995)
O Menino do Rio Doce (1996)
Tia Nota Dez (1996)
Menina Nina: Duas Razões Para Não Chorar (2002)
O Menino e seu Amigo (2003)
Os Meninos Morenos (2004)
O Aspite (2005)
Os Meninos dos Planetas series
O Menino da Lua
O Namorado da Fada ou Menino de Urano
O Menino da Terra
O Capetinha do Espaço: ou o Menino de Mercúrio
Os Meninos de Marte
O Menino Que Veio de Vênus
Nino, o Menino de Saturno
O Menino D´Água e o Planeta Netuno
Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo
As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão
Menina das Estrelas (2007)
A Bela Borboleta (2009)
Meninas (2016)
Ilustrações
Chapeuzinho Amarelo (1970)
Pra Boi Dormir (1992)
Noções de Coisas (1995)
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo | Itaú Cultural
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, Minas Gerais, 1932 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024). Desenhista, caricaturista, cartunista, ilustrador, jornalista, escritor. Além de dono de um dos mais conhecidos traços de sua geração, é criador de personagens de grande popularidade, como o Menino Maluquinho e o Bichinho da Maçã.
Apresentou seu primeiro desenho aos sete anos de idade no jornal Folha de Minas, em 1939. Em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou nos periódicos infantis Vida Infantil, Vida Juvenil e Sesinho e começou a publicar trabalhos na revista A Cigarra. Em 1952, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realiza trabalhos mensais na revista "Era uma vez". Em 1954, substitui o caricaturista Borjalo (1925-2004) no jornal Folha de Minas e colabora no jornal Binômio. Em 1957, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Criou o personagem Pererê em 1958, para a revista O Cruzeiro. Com o sucesso desse personagem, a empresa passa a publicar uma revista mensal, em cores, apenas com suas histórias. Nesses trabalhos, são apresentados temas e personagens brasileiros – principalmente o Saci – e, de maneira indireta, injustiças e iniquidades que afligem o Brasil. A revista circulou entre 1960 e 1964, alcançando grande popularidade.
No ano de 1963, começa a trabalhar no Jornal do Brasil e, em 1964, na revista Pif-Paf, dirigida por Millôr Fernandes (1923-2012). Em 1967, editou o suplemento dominical Cartum JS, do Jornal dos Sports. No ano seguinte, ganha destaque internacional e tem seus desenhos publicados em revistas estrangeiras.
Em 1964, participou da criação do jornal O Pasquim. O próprio artista define a publicação como um centro difusor do jornalismo crítico que pretende fazer resistência à ditadura. Para o historiador Herman Lima (1897-1981), Ziraldo integra o grupo de artistas cujo trabalho sucede, na imprensa ilustrada do Brasil, ao grupo dos que se dedicam à caricatura política ou pessoal, desde o momento em que esse gênero perde força, durante o Estado Novo (1937-1945), com as restrições impostas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O estudioso Gilberto Maringoni (1958) destaca a relação de suas obras, assim como as de Millôr Fernandes e Fortuna (1931-1994), entre outros, com a produção dos cartunistas europeus do pós-guerra.
Seus personagens tornam-se muito conhecidos, como, por exemplo, a Supermãe, cujas histórias são publicadas no Jornal do Brasil e na revista Claudia. Nesses trabalhos, o artista satiriza a imagem da mãe superprotetora.
Em 1969, publica seu primeiro livro infantil: Flicts, que conta a história de uma cor que procura seu lugar no mundo. Com O menino maluquinho, publicado em 1980, explora o universo criativo da infância. Em 1982, abandona a direção de O Pasquim para se dedicar principalmente à literatura infantil. Entre muitos de seus títulos, destaca-se ainda O bichinho da maçã (1982). Sua produção inclui também diversas paródias de atores famosos de cinema e de super-heróis de histórias em quadrinhos, como Super-Homem, Dick Tracy e Batman e Robin.
Em 1999, fundou as revistas Bundas – paródia da revista Caras – e Palavra. Em 2002, torna-se um dos responsáveis pela volta da publicação de O Pasquim, que recebe o nome de Pasquim 21 em alusão ao novo século.
Tendo como eixo de seus trabalhos a resistência aos abusos de poder, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985)1, e o mergulho no universo infantil, Ziraldo é, entre os caricaturistas surgidos na segunda metade do século XX no Brasil, aquele com um dos traços mais imediatamente reconhecíveis pelo público, junto ao qual alcança grande popularidade.
Espetáculos
1968 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1970 - Flicts
1970 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1971 - As Garotas da Banda
1972 - Flicts
1973 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1974 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1975 - A feira do adultério
1976 - Flicts
1977 - Flicts
1980 - Flicts
1980 - O Último dos Nukupyrus
1980 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1980 - Flicts
1981 - Flicts, a Cor
1983 - Belas Figuras
1984 - O Menino Maluquinho
1985 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1986 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - O Menino Maluquinho
2002 - Bonequinha de Pano
2003 - Bonequinha de Pano
Livros
1980 - O Menino Maluquinho
1980 - A Bela Borboleta
1981 - O pipoqueiro da esquina
1983 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1985 - História de dois amores
1985 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - Ave Jorge
1991 - Como ir ao Mundo da Lua
2005 - Papo de Sapato
Obras
1964 - 4. Dama, Rei, Valete
1964 - Capa e Espada
1964 - E as Meias Sexy
1964 - - Aí... Hem, Pai!
1964 - Povo Amigo do Paquistão
1964 - Dê Ouro para o Brasil
1964 - O Corvo
1964 - - Minha Gravata?
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1969 - Do You Spasquinglish? - Mifo, Sifo, Aqui, Del Rey...
1969 - Do You Spasquinglish? - Duca, Pô, Ica-cilda...
1969 - Só Doi Quando Eu Rio
1969 - [Iiiaaaauuuuu]
1970 - [Sem Título]
1970 - Poster dos Pobres nº 1-Barra-72
1970 - Antipatriótica, Antipática
1970 - Equipada, Constipada, Antecipada, Participante, Estereotipada
1970 - Poster dos Pobres
1970 - [Deus é Brasileiro]
1970 - Ame-o ou... Deixe-o
1996 - [Rumo à Capital]
1999 - [Maastricht]
2000 - "Tava Jogando Sinuca, Uma Nega Maluca Me Apareceu"...
2000 - Crônicas das Conversas Brasileiras no Limiar do Século XXI
Exposições
1961 - Humoristas
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1963 - Individual de Ziraldo
1968 - O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa
1981 - A Arte de Playboy
1981 - Pablo, Pablo!:uma interpretação brasileira de Guernica
1981 - Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos
1982 - Universo do Futebol
1985 - Velha Mania: desenho brasileiro
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte 98
2000 - Um Coração, Um Mundo
2001 - Caricaturistas Brasileiros
2003 - Traço, Humor e Cia
2006 - Cartunistas da América do Sul
2006 - A História do Futebol no Brasil Através da Charge
2006 - A Imagem do Som de Dorival Caymmi
2008 - O Cinema em Cartaz
2009 - Brasil - O Cinema em Cartaz
2010 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2012 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2017 - O pipoqueiro da esquina
2018 - Quadrinhos
Fonte: ZIRALDO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Acesso em: 15 de setembro de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira? | Educa Mais Brasil
Ziraldo Alves Pinto, renomado cartunista, desenhista, escritor e jornalista brasileiro, teve sua morte confirmada pela família em 6 de abril de 2024. Ele faleceu aos 91 anos em sua casa no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde foi encontrado sem vida enquanto dormia. Desde setembro de 2018, quando sofreu um AVC, estava fora da vida pública e criativa.
O cartunista ficou conhecido por seu estilo irreverente e criativo, destacando-se com desenhos e charges. Como um dos fundadores do jornal humorístico "O Pasquim", ele marcou época durante a ditadura militar, utilizando o humor como forma de resistência política e social. Sua contribuição para a imprensa e a literatura infantil é amplamente reconhecida, deixando um legado duradouro na cultura brasileira.
Importância de Ziraldo para a cultura brasileira
O cartunista foi uma figura de extrema importância para a cultura brasileira, deixando um legado marcante em várias áreas. Ziraldo contribuiu significativamente para o cenário artístico e cultural do Brasil. Seus desenhos e charges, marcados por um estilo único e irreverente, abordavam questões sociais, políticas e cotidianas com humor e inteligência, conquistando uma legião de fãs ao longo de décadas. Como criador do icônico personagem "O Menino Maluquinho", Ziraldo deixou sua marca na literatura infantil brasileira, oferecendo às crianças histórias cativantes e cheias de ensinamentos.
Além disso, Ziraldo foi um importante ativista pelos direitos das crianças, lutando por uma educação de qualidade e pela valorização da infância. Sua atuação como defensor dos direitos humanos e da liberdade de expressão também deixou um impacto significativo na sociedade brasileira.
Por meio de suas obras e de sua personalidade carismática, Ziraldo inspirou gerações de brasileiros, deixando um legado de criatividade, humor e humanidade que continua a influenciar artistas e leitores até os dias de hoje. Sua importância para a cultura brasileira é inegável, e seu nome será sempre lembrado com carinho e admiração.
Contribuições de Ziraldo para a literatura infantil
Ziraldo foi um dos mais importantes escritores e ilustradores da literatura infantil brasileira. Sua contribuição para esse campo foi imensurável. Com seu estilo único e criativo, Ziraldo encantou crianças de todas as idades ao criar obras que abordavam temas importantes de forma lúdica e acessível. Seus livros não apenas entretinham, mas também educavam, transmitindo valores como amizade, solidariedade, imaginação e autoestima.
O grande destaque de sua carreira na literatura infantil é o livro "O Menino Maluquinho", publicado em 1980. Essa obra se tornou um verdadeiro marco na literatura brasileira, conquistando leitores de todas as idades com sua história leve, divertida e cheia de aventuras. Sua capacidade de dialogar com as crianças de forma direta e inteligente fez dele um dos autores mais queridos do Brasil, deixando um legado duradouro na literatura infantil nacional.
Fonte: Educa Mais Brasil, “Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira?”, publicado por Samara Rodrigues em 09 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo | CNN Brasil
Cartunista, ilustrador, escritor e um dos grandes nomes da cultura brasileira, Ziraldo morreu neste sábado (6), aos 91 anos.
A informação da morte foi confirmada pela família. Ele faleceu enquanto dormia em sua residência, no Rio de Janeiro.
O artista deixa como legado livros infantis, charges afiadas e alguns dos personagens mais famosos do Brasil -- dentre eles, o Menino Maluquinho, amado por gerações de crianças.
Relembre algumas das principais obras que marcaram a carreira de Ziraldo:
"O Menino Maluquinho"
Neste clássico da literatura infantil brasileira, Ziraldo nos apresenta seu personagem mais famoso: o Menino Maluquinho. O livro de 1980 conta a história de um garoto traquina e alegre, que gosta de inventar brincadeiras e tem o costume de usar uma panela na cabeça.
Desde então, a obra já ganhou filmes e séries inspirados no personagem.
"A Turma do Pererê"
Foi com "A Turma do Pererê" que Ziraldo pulicou a primeira revista em quadrinhos com um só autor no Brasil, em 1960. As histórias eram inspiradas em personagens do folclore brasileiro, como o saci pererê, e foram publicadas até 1964, ano no qual a ditadura militar suspendeu a revista por considerá-la "subversiva".
"Flicts"
O primeiro livro infantil publicado por Ziraldo, de 1969, conta a história de uma cor que não se encaixa no arco-íris, chamada "flicts". A obra traz reflexões para as crianças sobre aceitar as diferenças e promover a igualdade.
"Uma Professora Muito Maluquinha"
Neste livro, publicado em 1995, Ziraldo conta a história de uma professora diferente do normal, que com sua didática e seus métodos divertidos pode ser mal interpretada pelos adultos, mas encanta os alunos e faz com que eles aprendam enquanto se divertem. A obra também já ganhou adaptação para os cinemas, estrelando Paolla Oliveira.
"O Bichinho da Maçã"
O livro de 1982 conta a história de um bichinho que morava dentro de uma maçã e contava histórias incríveis, que faziam os animais se reunirem debaixo da macieira só para ouvir. Um dia, a maçã que ele chama de casa é colhida, e o bicho tem que usar sua inteligência para escapar.
"O Joelho Juvenal"
De 1983, neste livro de Ziraldo conhecemos Juvenal, o joelho de um menino que adorava brincar e, por isso mesmo, vive sempre ralado, esfolado e machucado. Mesmo assim, Juvenal é muito feliz e gosta de se divertir com seu dono.
"Meninas"
Para escrever "Meninas", Ziraldo se inspirou em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, que traz no centro da narrativa uma menina curiosa que decide explorar outro mundo. Neste livro, o cartunista brasileiro decide retratar as meninas, seres encantados que duram apenas dos 7 aos 11 anos, mas ao invés de sumir dão origem às mulheres.
"O Menino Marrom"
De 1986, o livro de Ziraldo conta a história de um menino marrom e de seu amigo, um menino cor-de-rosa. Os dois querem descobrir juntos o mistério das cores, e acabam por aprender sobre diversidade, respeito e a amizade entre pessoas diferentes.
Fonte: CNN Brasil, “Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo”, publicado por Fernanda Pinotti em 06 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho' | BBC
O Menino Maluquinho, Flicts,O Joelho Juvenal… São inúmeras as criações de Ziraldo que não só povoam o imaginário infantil por gerações como têm um reconhecimento acadêmico de grandeza e qualidade.
Para especialistas, ele já é um clássico e sua obra pertence ao primeiro escalão do cânone cultural brasileiro.
Nascido em Caratinga (MG) há exatos 90 anos, Ziraldo Alves Pinto está recluso. Sua saúde debilitou-se bastante depois de três acidentes vasculares cerebrais sofrido de 2018 para cá.
De acordo com a família, por ordens médicas, ele não pode conceder entrevistas.
O que não impede que amigos e fãs celebrem seu aniversário com alegria e, principalmente, reconhecimento.
Neste mês O Menino Maluquinho se tornou série de animação do serviço de streaming Netflix, há o relançamento, em edições especial, de duas de suas obras — O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
E ainda um livro-homenagem, preparado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Em um dos seus mais recentes vídeos, gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatido. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
Ziraldo virou "o Velhinho Maluquinho".
Em depoimento por escrito enviado à reportagem, o quadrinista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica comentou que "falar do Ziraldo é chover no molhado", já que "todo mundo tem um grande carinho por ele e seus personagens".
Mauricio cita a obra de ambos para ressaltar que "nossa história se entrelaça junto com as crianças e nossos personagens".
"Ziraldo sempre diz que o mais importante é ler. Mas para que isso aconteça, cada vez mais, é preciso ter autores como ele para arrebatar milhões de crianças leitoras", comenta ele, desejando "90 anos de sorrisos e muito mais" ao amigo e colega de profissão.
A cartunista Laerte define Ziraldo como "uma referência total, um mestre".
"Por todos os motivos possíveis. Ele é alguém que fez parte da formação de todos nós, cartunistas e quadrinistas da geração seguinte, vamos dizer", comenta.
"E sempre foi uma pessoa muito disponível: sempre nos recebeu, sempre nos ajudou, sempre nos apoiou e deu opinião. É uma pessoa que sempre foi muito aberta."
Ela diz que Ziraldo é alguém "que nunca se atrapalhou com nada, jamais teve qualquer empecilho como autor, como artista gráfico, como pessoa absolutamente genial". "Ele presta atenção aos detalhes em que é bom prestar atenção. E ensinou a gente a prestar atenção nessas coisas", afirma.
Renomado autor de best-sellers infantojuvenis, Pedro Bandeira acredita que "o talento, o patriotismo e a coragem de Ziraldo construíram um Brasil bem maior".
Bandeira diz que acompanha o trabalho do cartunista desde a sua própria infância.
"Até tornar-me seu amigo, acompanho os talentos deste artista desde meus 10 anos, curtindo seus trabalhos como quadrinista, escritor, jornalista, caricaturista, ilustrador e, principalmente, como patriota. E olhe que, quando eu tinha 10 anos, Ziraldo tinha apenas 20 e já era um quadrinista de primeira!", afirma.
"Logo, quando a ditadura arrasava e dentre seus ataques impunha-nos uma censura que me prejudicava especialmente, porque eu vivia do jornalismo e atuava como ator de teatro, Ziraldo publicou o mais lindo poema gráfico da história do Brasil: Flicts, que veio para dar força aos injustiçados, aos exilados, aos expropriados pelo fascismo brasileiro", acrescenta Bandeira, sobre o livro que conta a história de uma cor que não era aceita pelas outras.
Segundo o escritor, em Flicts Ziraldo enxugou "nossa lágrima, ao dizer que, em algum lugar, talvez na Lua, ainda haveria esperança para nosso desespero".
"Quando eu lia o livro para meu filho, parecia ouvir a voz do Ziraldo: 'Calma, a arte um dia vencerá a injustiça'. Eu entendi, Ziraldo. E há de vencer novamente", diz.
Bandeira avalia que "Ziraldo é mestre, mas não é imitável".
"Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica. Numa Bienal ou numa feira de livros, Ziraldo é cercado pelas crianças e adultos que o leem como se fosse um Papai Noel distribuindo brinquedos", analisa.
"E ele aceita ficar por horas autografando para seus leitores, tirando fotos e fazendo caricaturas nos livrinhos."
"Todos nós, escritores para crianças e jovens, somos fãs do auditório do Ziraldo", acrescenta.
"Os textos de Ziraldo não têm vilões. Todos seus pequenos heróis, como o Menino Maluquinho, flutuam pelas histórias como se dançassem em seus próprios sonhos. Só Ziraldo sabe como as crianças sonham", comenta Bandeira.
O escritor comenta que desde a pandemia está "enfurnado" mas que tem saudades de conviver com o amigo.
"Falamos por telefone, trocamos carinhos, mas nada consola minha vontade de ouvir novamente sua voz, ver seu sorriso quando acolhe algum leitorzinho de olhos arregalados de admiração", diz.
"Nós, que o amamos, jamais poderemos oferecer tanto amor quanto ele já espalhou pelo Brasil."
Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, José Alberto Lovetro, mais conhecido como JAL, define Ziraldo como alguém que "tem o DNA da cultura brasileira".
"Não só por sua arte no humor gráfico, mas também por criar personagens que invadem a vida das pessoas como se fossem da família de cada um. Agrada crianças de até 100 anos de idade", comenta.
JAL conta que quando era bastante jovem encantou-se pelo jornal 'O Pasquim', semanário alternativo que circulou durante a ditadura militar e que teve Ziraldo no time.
"Quando eu era ainda garoto já era absorvido pelo Pasquim. De ameba fui descobrindo o que era política. E Ziraldo sabe conquistar a inteligência das pessoas", recorda.
"Fiquei inebriado por aquela linguagem engraçada e ao mesmo tempo cheia de estilo. Virei desenhista."
Trajetória de sucesso
Responsável pela publicação da obra dele na Editora Melhoramentos, a editora Leila Bortolazzi avalia que trabalhar com ele "nunca foi muito complicado".
"Mas claro que, como todo artista compulsivo, obsessivo em atingir a perfeição, ele costumava fazer várias revisões em textos e ilustrações", lembra ela.
"Tudo era muito bem cuidado, ia e voltava, sempre era assim."
Ela recorda que antes de o trabalho ser feito por meio de digitalização, "era sempre um evento" quando, com a pastinha debaixo do braço, o autor ia pessoalmente até a editora para levar seu trabalho e defender as ilustrações.
"Quando chegava um livro novo dele era sempre uma novidade, porque ele sempre foi muito criativo, muito original, muito único. Acho que isso faz a obra dele ser tão perene: a originalidade, a criatividade dele", comenta.
"Fica até difícil comparar, não tem como falar 'tem influência disso e daquilo'. Ele é muito original mesmo, seu trabalho e seu traço é único e bem marcante."
Bortolazzi começou a trabalhar na Melhoramentos em 1981, ou seja, sua trajetória na empresa é praticamente tão longa quanto o sucesso de Ziraldo no mundo dos livros — O Menino Maluquinho, seu maior sucesso, foi lançado em 1980; hoje acumula 18 edições, 135 reimpressões e já vendeu mais de 4,1 milhões de exemplares.
Com mais de 200 livros publicados, Ziraldo tem diversos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de 500 mil exemplares. Menina Nina, de 2002, 140 mil. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. O Planeta Lilás, de 1984, 200 mil. O Menino Quadradinho, de 1989, 120 mil. Flicts, de 1984, mais de meio milhão de exemplares.
Ziraldo começou sua carreira em 1954 no jornal Folha da Manhã — hoje Folha de S. Paulo. Ele tinha uma coluna de humor. Depois passou pela revista O Cruzeiro e pelo Jornal do Brasil. Em 1960 lançou o primeiro gibi brasileiro feito por um só autor, a Turma do Pererê — a publicação acabou descontinuada a partir de 1964, por conta da ditadura militar.
Durante o regime autoritário, foi um dos idealizadores e parte integrante da equipe do semanário de contracultura O Pasquim, que fez sucesso e acabou marcando uma geração. Ele acabou sendo preso no dia seguinte à promulgação do Ato Institucional Número 5, em dezembro de 1968.
Figura sempre ligada à esquerda, ele foi membro do Partido Comunista Brasileira. Em 2005 ele se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e desenhou o logo da agremiação. Nas últimas eleições, declarou apoio a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e, na última, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Sucesso de crítica
Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Articulação Textual na Literatura Infantil e Juvenil, Leonor Werneck dos Santos considera "impossível falar de literatura infantil brasileira sem falar de Ziraldo".
"Ele deu grande impulso à literatura infantil no Brasil, trouxe a literatura infantil para um lugar de destaque, inclusive academicamente", avalia.
Ela acredita que isso se deu por um conjunto de fatores, como a criatividade, a atualidade dos temas, a "linguagem que toca fundo no leitor de todas as idades, "o traço e o projeto gráfico que parecem tão simples mas são cuidadosamente pensados e dialogam com a proposta de cada livro".
"Tudo faz com que a obra ultrapasse a época em que é produzida. Por isso se torna um clássico", afirma Santos.
Criadora do projeto Grandes Livrinhos, no Instagram (@grandeslivrinhos), a jornalista Giovana Franzolin acredita que são muitas as razões que fazem da obra de Ziraldo tão importante para as crianças — e resistentes ao tempo, conseguindo ter o mesmo peso hoje que tinha quando os sucessos foram criados, décadas atrás.
"Entendo que isso acontece porque os personagens retratam uma infância atemporal, de criança arteira, feliz, com alegrias, dificuldades... não é tão somente a infância dele próprio ou uma infância datada, tem um pouco da infância de todo mundo", comenta ela.
"Além disso, ele fala com a criança sem didatismo, sem ser moralizante, mesmo abordando temas mais 'cabeludos'. Ele consegue desenvolver qualquer temática com leveza, sensibilidade e criatividade. Por exemplo, vejo que o Menino Maluquinho, o personagem mais emblemático e mais conhecido, é uma alegoria da infância, a criança sapeca e 'maluquinha', que não era nada mais que uma criança feliz."
Franzolin aponta algumas características do autor como fundamentais para definir sua genialidade. Primeiro, o pioneirismo, pois ele escreveu "para o universo da literatura infantil numa década em que o mercado mal existia". E também pelo cuidado com os aspectos gráficos. Nesse sentido, ela ressalta que Flicts foi uma obra "disruptiva, ousada para a época".
"Além disso, pelo conjunto da obra. São dezenas e dezenas de títulos representando uma densidade impressionante para qualquer autor", aponta a jornalista.
"Mas mais do que tudo, creio que Ziraldo se consolidou por saber como nenhum outro representar a infância, com seus prazeres e agruras. Ele consegue representá-la com seriedade e leveza, ao mesmo tempo em que não foge de temas mais difíceis ou tabus, como morte, separação dos pais, rejeição... Ele toca a alma das crianças e dialoga com elas como nenhum outro, no meu ponto de vista. E ao fazer isso, emociona também os adultos, reacende neles as memórias das próprias infâncias."
A jornalista comenta que Ziraldo, mesmo com 90 anos, "parece um eterno menino".
"Escreve com naturalidade, fala da infância sem esforço", diz.
"Interesso-me em especial pelo texto, me emociona toda vez que leio. Apresenta camadas de interpretação, de subjetividade, que captamos conforme a maturidade e o momento da vida."
Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a professora de literatura Vânia Maria Resende diz que a "grandeza de Ziraldo está na singularidade da linguagem plástica genial, vibrante, forte, exuberante". E, não só. Também "na força da poesia e do humor em equilíbrio", na "dimensão lúdica que flui em sintonia com a naturalidade infantil".
"Acrescente-se a isso, o diálogo versátil de seus livros com repertório de textos visuais, gráficos, verbais dos mais diferentes autores e fontes, não restritamente infantis, o que abre amplas perspectivas culturais para os leitores", diz ela, que é autora dos livros Ziraldo e o Livro para Crianças e Jovens no Brasil e O Menino na Literatura Brasileira.
"Além da beleza visual que é fator de sedução estética, importante observar a riqueza simbólica, até mesmo de narrativas aparentemente mais simples, o que significa dizer que sua literatura não se reduz a mero entretenimento. Finalmente, destaco a grandeza do poder de comunicação da obra do artista com leitores de diferentes idades, não apenas os infantis."
Resende acredita que "a concepção peculiar de livro infantil de Ziraldo" é o seu maior legado. Esse conceito foi favorecido "por traços específicos da sua formação de escritor-desenhista-artista gráfico" e, ao mesmo tempo, compatível "com o pensamento complexo da contemporaneidade". Para ela, Flicts é o marco desse formato, afirmando-se com "a peculiaridade do estilo verbo-visual, de direcionamento de leitura simultaneísta, com apoio semiótico, diferentemente da pura leitura linguística."
Para a pesquisadora Monica Rebecca Ferrari Nunes, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutora em semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "Ziraldo trabalha com personagens que têm universalidade". E isso explica a "força de seus personagens", de "forma que esses textos que ele constrói são longevos na cultura".
"Há uma emoção quase que universal que possibilita a permanência através do tempo", comenta ela.
Nunes ainda ressalta a habilidade do autor na "hibridização da linguagem".
"Ele faz a mistura de signos em que o verbal vai se misturando ao imagético, e o imagético ao verbal. E constrói uma linguagem de alta complexidade que, ao mesmo tempo, tem um efeito muito rápido na compreensão", comenta ela.
Fonte: BBC, “Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho'”, publicado por Edison Veiga, em 24 de outubro de 2022.
Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país | BBC
Morreu neste sábado (6/4), aos 91 anos, Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário infantil há gerações.
Ziraldo morreu em sua casa, um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro, de acordo com canal Globonews, que cita informações de sua família.
Formado em direito, ele foi cartunista, chargista, escritor, pintor, dramaturgo, cronista, apresentador e humorista, entre outras atividades ao longo de mais de seis décadas de carreira.
Sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica.
Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatida. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
No mesmo ano, negou ele mesmo um boato de que teria morrido ao publicar uma foto em sua conta no Instagram, dizendo estar “firme e forte”. Ao ser procurado por jornais para comentar o boato, disse estar “ocupado demais celebrando a vida”.
De Caratinga para o mundo
Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.
O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos.
O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.
Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.
Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.
Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
Charge política
Se 1968 ficou conhecido como “o ano que não acabou”, nas palavras do contemporâneo Zuenir Ventura, o de 1969 marcaria para sempre a carreira de Ziraldo.
Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.
Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.
Ziraldo ainda se tornaria o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.
Antes do fim daquele ano, publicaria ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.
Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.
O pai do Menino Maluquinho
Nas décadas seguintes, Ziraldo passaria a se dedicar mais a sua outra grande paixão, as histórias para crianças, que devorava desde menino em Caratinga. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras.
O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.
Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers.
Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.
Atuação política
Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo.
Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Em 2008, Ziraldo e mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura, entre os quais o colega Jaguar, tiveram seu processo de indenização aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
O cartunista foi indenizado em mais de R$ 1 milhão, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de R$ 4 mil reais. Criticado por alguns colunistas na época, disse que o Brasil lhe devia indenização.
“Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o [ex-presidente João] Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery [do Couto e Silva, general chefe da Casa Civil no governo Geisel]. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando”, disse na época ao jornal O Globo.
Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.
Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.
Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.
Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.
Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.
Combate à ditadura e prisões
Durante a ditadura militar (1964-1985), Ziraldo continuou a publicar suas charges e cartuns políticos e, mais do que isso, tornou-se uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia.
Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.
No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral O Pasquim, semanário de humor que virou um fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.
No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal seriam presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu.
Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. "Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo", disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.
Na ocasião, o cartunista também comentou sobre sua tentativa de ressuscitar o jornal em 2002, como “O Pasquim 21”. Apesar de ter durado até 2004, o projeto se somaria à lista de fiascos editoriais em que investiu, como as revistas "Palavra" e "Bundas", uma sátira ao sucesso da “Caras”, em 1999. Depois dessas experiências, disse ter desistido do jornalismo. "Cansei de levar porrada. Eu sou o rei dos bons projetos e dos fracassos econômicos."
Reconhecimento internacional
Dois anos depois, o cartunista, seu irmão, Zélio Alves Pinto, e outras dez pessoas foram condenadas pela Justiça Federal do Paraná por improbidade administrativa e registro indevido de marca durante a realização do Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor), em 2003.
Ziraldo foi condenado a dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa. Mas o juiz trocou a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário mínimo mensal pelo mesmo período da pena. "É uma dessas desgraças que acontecem na vida. Um sujeito com a minha biografia tem de enfrentar uma praga dessas", disse ele ao G1.
Legado
Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos. Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins.
Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins.
A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.
"O Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai", disse Daniela durante o lançamento. "Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva."
Autor de best-sellers infanto-juvenis, Pedro Bandeira definiu Ziraldo à época como “um mestre, mas não imitável". "Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica”.
Homenagens
Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo neste sábado.
O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos "maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".
"São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão", escreveu o presidente.
O criador da Turma da Mônica, Maurício de Souza, também lamentou a morte de Ziraldo. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!", escreveu.
Alguns times de futebol do país também prestaram homenagem ao cartunista nas redes sociais, como Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista.
Fonte: BBC, “Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país”, publicado por Amauri Arrais, em 6 de abril de 2024.
Crédito fotográfico: UOL, imagem de Ana Colla. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Brasil — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Brasil), mais conhecido como Ziraldo, foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador e escritor brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1957, mas dedicou sua carreira às artes gráficas, à imprensa e à literatura. Trabalhou em publicações como O Cruzeiro e Jornal do Brasil e participou da criação de O Pasquim. Entre suas principais obras estão A Turma do Pererê, Flicts e O Menino Maluquinho. Seu trabalho caracteriza-se pelo traço expressivo, síntese das formas, humor e uso marcante das cores, combinando desenho e texto em uma linguagem visual própria. Ao longo da carreira, recebeu reconhecimentos como o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha de Honra da UFMG, além de premiações internacionais relacionadas ao humor gráfico. Participou de numerosas exposições dedicadas ao desenho, à caricatura e às artes gráficas, e sua produção integra acervos e projetos de instituições culturais brasileiras, entre elas o Museu Histórico Nacional.
Ziraldo | Arremate Arte
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Minas Gerais — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador, escritor e artista gráfico brasileiro, considerado um dos nomes de destaque das artes gráficas e da literatura infantojuvenil no país. Interessado pelo desenho desde a infância, teve um de seus primeiros trabalhos publicado ainda menino no jornal Folha de Minas. Mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formando-se em 1957, embora sua trajetória profissional já estivesse direcionada à criação artística e à imprensa. Trabalhou em importantes veículos de comunicação, entre eles O Cruzeiro e Jornal do Brasil, desenvolvendo charges, cartuns, caricaturas e ilustrações que contribuíram para tornar seu traço conhecido pelo público.
No final dos anos 1950, Ziraldo criou o personagem Pererê, inspirado no Saci-Pererê do folclore brasileiro, que deu origem à revista A Turma do Pererê, publicada a partir de 1960. A obra tornou-se uma referência dos quadrinhos nacionais ao valorizar personagens, paisagens, costumes e elementos da cultura brasileira. Durante a década de 1960, o artista também se destacou pela produção de cartazes para o cinema e outros eventos culturais, além de criar personagens como Jeremias, o Bom e Supermãe. Com a ditadura militar, sua produção incorporou de maneira marcante a crítica política e social. Em 1969, participou da criação de O Pasquim, um dos principais jornais da imprensa alternativa do período, no qual o humor e a sátira foram utilizados como formas de crítica ao autoritarismo. No mesmo período, alcançou reconhecimento internacional por sua produção de humor gráfico e recebeu importantes premiações relacionadas à caricatura e à liberdade de imprensa.
Também em 1969, Ziraldo publicou Flicts, seu primeiro livro infantil e uma obra fundamental de sua carreira. Ao narrar a história de uma cor que procura seu lugar no mundo, o artista integrou texto, desenho, cor, tipografia e composição gráfica, estabelecendo uma linguagem visual que se tornaria característica de sua produção. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, seu maior sucesso editorial e vencedor do Prêmio Jabuti. O personagem da panela na cabeça tornou-se um símbolo da literatura infantil brasileira e posteriormente ganhou versões para histórias em quadrinhos, teatro, cinema e televisão. Ziraldo publicou ainda obras como O Bichinho da Maçã, O Joelho Juvenal, O Menino Marrom, O Menino Quadradinho, Uma Professora Muito Maluquinha e Menina Nina, consolidando uma produção em que palavra e imagem atuam de maneira complementar.
Como artista visual, Ziraldo desenvolveu uma linguagem reconhecível pela síntese do desenho, linhas expressivas, humor, dinamismo e uso marcante das cores. Sua experiência como caricaturista, chargista, cartazista e ilustrador permitiu que transitasse entre imprensa, literatura, quadrinhos e artes gráficas. Ao longo da carreira, participou de exposições como Humoristas (1961), O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa (1968), Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos (1981), Universo do Futebol (1982), Velha Mania: desenho brasileiro (1985), Futebol Arte (1998), Caricaturistas Brasileiros (2001), A História do Futebol no Brasil Através da Charge (2006), O Cinema em Cartaz (2008) e Zeróis: Ziraldo na tela grande (2010 e 2012). Sua produção recebeu diferentes distinções ao longo das décadas, entre elas o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e, em 2016, a Medalha de Honra da UFMG.
Ziraldo morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra que atravessa mais de seis décadas da cultura visual brasileira. Embora tenha se tornado amplamente conhecido como criador do Menino Maluquinho, sua trajetória ultrapassa a literatura infantil e compreende desenhos, charges, caricaturas, cartazes, quadrinhos, ilustrações e projetos editoriais. A presença de seus trabalhos em exposições e instituições culturais evidencia a amplitude de uma produção situada no encontro entre arte, comunicação, humor e literatura. Por sua capacidade de transformar temas brasileiros, questões sociais e experiências da infância em imagens de forte poder comunicativo, Ziraldo estabeleceu uma linguagem própria e deixou uma contribuição significativa para a história do desenho, da ilustração e das artes gráficas no Brasil.
Ziraldo | Wikipédia
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, 24 de outubro de 1932 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024) foi um cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista, advogado e jornalista brasileiro.
Foi o criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e foi um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis de seu tempo. Ziraldo foi pai de três filhos, a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antonio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Faleceu em sua residência no estado do Rio de Janeiro, Lagoa Rodrigo de Freitas em 6 de abril de 2024 aos 91 anos.
Infância
Ziraldo passou toda a infância em Caratinga. Era irmão do também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto e também de Ziralzi Alves Pinto. Estudou dois anos no Rio de Janeiro e voltou a Caratinga, tendo concluído o módulo científico (atual ensino médio). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1957. Seu talento no desenho já se manifestava desde essa época, tendo publicado um desenho no jornal Folha de Minas com apenas 6 anos de idade.
Carreira
Começou a trabalhar no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), em 1954, com uma coluna dedicada ao humor. Ganhou notoriedade nacional ao se estabelecer na revista O Cruzeiro em 1957 e, posteriormente, no Jornal do Brasil, em 1963. Alguns de seus personagens desta época foram Jeremias, o Bom; Supermãe e Mirinho.
Em 1960, lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, A Turma do Pererê, que também foi a primeira história em quadrinhos a cores totalmente produzida no Brasil. Embora tenha alcançado uma das maiores tiragens da época, Turma do Pererê foi cancelada em 1964, logo após o início do regime militar no Brasil. Nos anos 1970, a Editora Abril relançou a revista, desta vez, porém, sem o sucesso inicial. A revista da Turma do Pererê teve outras passagens pelas bancas numa edição encadernada pela Editora Primor no ano de 1986 e em formato de almanaque pela Editora Abril na década de 1990.
Em 1960 recebeu o "Nobel" Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina.
Foi fundador e posteriormente diretor do periódico O Pasquim, tabloide de oposição ao regime militar, uma das prováveis razões de sua prisão, ocorrida um dia após a promulgação do AI-5.
Em 1980 lançou o livro "O Menino Maluquinho", seu maior sucesso editorial, o qual foi mais tarde adaptado na televisão e no cinema. Para televisão, foi adaptado em 2006 pela TV Brasil, chamada Um Menino muito Maluquinho, que durou uma temporada com vinte e seis episódios sob a direção de Anna Muylaert e Cao Hamburger. No cinema, foi adaptado três vezes, a primeira em Menino Maluquinho - O Filme em 1995 dirigida por Helvécio Ratton e uma sequência em 1998 dirigida por Fernando Meirelles, Menino Maluquinho 2 - A Aventura. A adaptação mais recente da série é Uma Professora Muito Maluquinha de 2010, estrelado por Paolla Oliveira.
Em 1989, criou a Família Folhas para uma campanha de reciclagem da Prefeitura de Curitiba. Ele reformulou a família e criou novos personagens em 2022.
Em 1999 lançou a revista Bundas", uma publicação de humor sobre o cotidiano que faz uma brincadeira com a revista Caras, esta voltada para o dia a dia de festas e ostentação da elite brasileira. Ziraldo foi também o fundador da revista "A Palavra" em 1999.
Ilustrações de Ziraldo já figuraram em publicações internacionais como as revistas "Private Eye" da Inglaterra, "Plexus" da França e "Mad", dos Estados Unidos.
A partir do ano de 2000, participou da "Oficina do Texto", maior iniciativa de coautoria de livros do Mundo, criada por Samuel Ferrari Lago, então diretor do Portal Educacional, na qual ilustrou histórias que ganharam textos de alunos de escolas do Brasil todo, totalizando aproximadamente 1 milhão de diferentes obras editadas em coautoria com igual número de crianças.
Ziraldo foi homenageado por escolas de samba e afirmou que essa é a maior homenagem que um brasileiro pode receber. No carnaval de São Paulo, foi a Nenê de Vila Matilde em 2003 que celebrou a trajetória do artista. Na Sapucaí, Ziraldo foi enredo da Tradição em 2012.
No dia 3 de outubro de 2016 recebeu a Medalha de Honra da Universidade Federal de Minas Gerais em cerimônia presidida pelo reitor Jaime Arturo Ramírez no auditório da reitoria da universidade.
Vida pessoal
O cartunista foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto de 1958 até a morte dela em 2000, quando aos 66 anos ela sofreu um infarto enquanto dormia. Ziraldo casou-se novamente, dessa vez com Márcia Martins da Silva.
Ziraldo foi fumante durante 40 anos, mas conseguiu abandonar o vício.
Em 2013, Ziraldo concedeu entrevista para o Museu da Pessoa, na qual comentou sobre a sua vida, principalmente sobre a sua infância. Descobriu que tinha tino para o humor ainda muito novo em meio a uma epidemia de esquistossomose, em Caratinga, onde nasceu.
Segundo vizinhos, Ziraldo tinha o hábito de, de vez em quando, descer para o térreo do seu prédio durante a madrugada assobiando, o que eles entendiam como sendo um sinal de que ele iria criar algo novo.
Posicionamento político
Ziraldo, Roger Mello e Marta Suplicy
Ziraldo era uma figura pública ligada à esquerda. Foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) juntamente com amigos como o arquiteto Oscar Niemeyer. Após o fim da Ditadura, em 1989, o grupo liderado por Roberto Freire no PCB transferiu a estrutura partidária para uma nova legenda, o Partido Popular Socialista (PPS), como forma de enfrentar o desgaste com a experiência socialista soviética e a queda do muro de Berlim.
Em 2005, o cartunista filiou-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo partidário. No ano seguinte, apoiou no primeiro turno a candidata Heloísa Helena para a presidência da República, e ao segundo turno fez apoio para reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No ano de 2010, participou de atos em prol da eleição de Dilma Rousseff (PT) para o cargo de Presidente da República. Em 2014, apoiou novamente a candidatura de Dilma para reeleição. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Ziraldo posicionou-se de maneira contrária ao processo, participando de comícios e fazendo elogios à presidente. Em 2018, também declarou voto ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad. Nas eleições de 2022, apoiou a candidatura vitoriosa de Lula (PT).
Indenização por conta da ditadura militar
Em 5 de abril de 2008, Ziraldo — juntamente com mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura militar brasileira — teve seu processo de anistia aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e foi indenizado em mais de 1 milhão de reais, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de 4,3 mil reais. Ele e o cartunista Jaguar receberam as maiores indenizações. À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" a indenização declarando:
Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando.
O episódio foi comentado por seu antigo colega Millôr Fernandes, que se negou a exigir indenização, questionando: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?".
Problemas de saúde e morte
Em 2013, durante uma viagem a Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, necessitando fazer um cateterismo. Em 2018, sofreu um AVC e chegou a ficar internado em estado grave. Nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, o que o fez ficar com a saúde debilitada. Por causa disso, passou a aparecer em público em poucas ocasiões. Nos últimos meses, Ziraldo passava a maior parte do tempo acamado e se alimentando por sonda.
Na tarde do dia 6 de abril de 2024, em torno das 15h, aos 91 anos, Ziraldo morreu em sua casa enquanto dormia, segundo a sua família. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte de Ziraldo e afirmou que "O Brasil perdeu neste sábado, 6/4, um de seus maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".Várias instituições prestaram homenagens ao cartunista, como os clubes de futebol Flamengo, Atlético Mineiro e Corinthians. Mais tarde, no mesmo dia, uma de suas filhas revelou que a causa da morte foi a falência de múltiplos órgãos. No dia seguinte, o corpo de Ziraldo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e sepultado no Cemitério de São João Batista.
Controvérsias
Condenação por improbidade administrativa
Em 31 de março de 2011, Ziraldo, seu irmão Zélio Alves Pinto e mais 9 pessoas foram condenados por improbidade administrativa na realização, em 2003, do primeiro Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor) e no "Fantur - Iguaçu dê uma volta por aqui", em ação movida em 2006 pelo Ministério Público Federal. A ação relata que o dinheiro público municipal e federal foi mal utilizado porque, segundo a sentença, para o primeiro Festhumor, houve contratações sem licitação e pagamentos em duplicidade, o que corresponde a remuneração dupla pelo serviço prestado uma vez. O processo relata ainda desvio de verba no Fantur, que foi uma ação promovida pela Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu para levar jornalistas e cartunistas para cidade, com todas as despesas custeadas pela prefeitura. Além disso, Ziraldo registrou indevidamente a marca do festival em seu nome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), contrariando o edital (que previa a cessão perpétua do desenho), caracterizando assim a intenção de utilizar a marca comercialmente. Em 24 de novembro de 2011, a pena de Ziraldo foi fixada em dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa de cerca de 87,3 mil reais. O juiz substituiu a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário-mínimo mensal pelo mesmo período da pena. Ziraldo e os demais réus podiam recorrer da decisão.
Declaração sobre homossexuais
Em uma entrevista concedida ao site Hoje em Dia em maio de 2015, Ziraldo criticou a TV Globo por abordar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na telenovela Babilônia. "A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais... Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?", afirmou. Ele ainda fez uma comparação com a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ao alegar que o escritor "não teve coragem de fazer Riobaldo assumir a homossexualidade dele" e que "inventou que Diadorim era uma mulher vestida de homem", concluindo que manter a sexualidade dos homossexuais escondida seria "uma coisa mineira", já que "aceitar a homossexualidade em Ipanema é uma coisa, aceitar a homossexualidade em Caratinga é outra".
Ziraldo também esteve envolvido em um debate sobre racismo, devido à uma declaração de fevereiro de 2011, onde afirmava que "racismo sem ódio não é racismo". Esta declaração provocou a reação da escritora Ana Maria Gonçalves, que chegou a escrever uma carta aberta ao autor. Ainda, junto com Ana Maria Machado e Ruth Rocha, Ziraldo se envolveu na polêmica acerca do conteúdo racista da obra de Monteiro Lobato. Todavia, em época anterior, em 2002, Ziraldo denunciou que os livros de Monteiro Lobato continham preconceitos, além de ter ilustrado a camiseta de um bloco de Carnaval carioca, com a figura de Lobato abraçado a uma mulata, ironizando as posições daquele escritor.
Prêmios
1969 - Nobel Internacional do Humor
1969 - Prêmio Merghantealler
1980 - Prêmio Jabuti de Literatura
2004 - Premio Andersen - Il mondo dell'infanzia
2005 - Ordem do Mérito Cultural
2008 - Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico
2012 - Prêmio Jabuti de Literatura
Obra
Quadrinhos
A Turma do Pererê (1959 – 1976)
Jeremias, O Bom (1965-1969)
The Supermãe (1968-1984)
O Menino Maluquinho (1988-2007)
Livros
Flicts (1969)
O Planeta Lilás (1979)
O Menino Maluquinho series
O Menino Maluquinho (1980)
Uma Menina Chamada Julieta (2009)
Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica (2018)
O Bebê que Sabia Brincar (2020)
O Bichinho da Maçã / Bichim series
O Bichinho da Maçã (1982)
Como ir ao Mundo da Lua (1995)
Cada um Mora Onde Pode (2008)
As Anedotinhas do Bichinho da Maçã (2011)
As Flores da Primavera (2020)
Um Amor de Família (2020)
O Bichinho que Queria Crescer (2020)
As Cores e os Dias da Semana (2020)
A Fábula das Três Cores (1985)
O Pequeno Planeta Perdido (1985)
O Menino Marrom (1986)
Corpim series
Pelegrino & Petrônio
Os Dez Amigos
Um Sorriso Chamado Luiz
Rolim
Dodó
O Joelho Juvenal
O Calcanhar de Aquiles
O Menino Quadradinho (1989)
Professora Maluquinha series
Uma Professora Muito Maluquinha (1995)
As Aventuras da Professora Maluquinha em Quadrinhos (2010)
Vito Grandam: Uma História de Vôos (1995)
O Menino do Rio Doce (1996)
Tia Nota Dez (1996)
Menina Nina: Duas Razões Para Não Chorar (2002)
O Menino e seu Amigo (2003)
Os Meninos Morenos (2004)
O Aspite (2005)
Os Meninos dos Planetas series
O Menino da Lua
O Namorado da Fada ou Menino de Urano
O Menino da Terra
O Capetinha do Espaço: ou o Menino de Mercúrio
Os Meninos de Marte
O Menino Que Veio de Vênus
Nino, o Menino de Saturno
O Menino D´Água e o Planeta Netuno
Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo
As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão
Menina das Estrelas (2007)
A Bela Borboleta (2009)
Meninas (2016)
Ilustrações
Chapeuzinho Amarelo (1970)
Pra Boi Dormir (1992)
Noções de Coisas (1995)
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo | Itaú Cultural
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, Minas Gerais, 1932 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024). Desenhista, caricaturista, cartunista, ilustrador, jornalista, escritor. Além de dono de um dos mais conhecidos traços de sua geração, é criador de personagens de grande popularidade, como o Menino Maluquinho e o Bichinho da Maçã.
Apresentou seu primeiro desenho aos sete anos de idade no jornal Folha de Minas, em 1939. Em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou nos periódicos infantis Vida Infantil, Vida Juvenil e Sesinho e começou a publicar trabalhos na revista A Cigarra. Em 1952, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realiza trabalhos mensais na revista "Era uma vez". Em 1954, substitui o caricaturista Borjalo (1925-2004) no jornal Folha de Minas e colabora no jornal Binômio. Em 1957, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Criou o personagem Pererê em 1958, para a revista O Cruzeiro. Com o sucesso desse personagem, a empresa passa a publicar uma revista mensal, em cores, apenas com suas histórias. Nesses trabalhos, são apresentados temas e personagens brasileiros – principalmente o Saci – e, de maneira indireta, injustiças e iniquidades que afligem o Brasil. A revista circulou entre 1960 e 1964, alcançando grande popularidade.
No ano de 1963, começa a trabalhar no Jornal do Brasil e, em 1964, na revista Pif-Paf, dirigida por Millôr Fernandes (1923-2012). Em 1967, editou o suplemento dominical Cartum JS, do Jornal dos Sports. No ano seguinte, ganha destaque internacional e tem seus desenhos publicados em revistas estrangeiras.
Em 1964, participou da criação do jornal O Pasquim. O próprio artista define a publicação como um centro difusor do jornalismo crítico que pretende fazer resistência à ditadura. Para o historiador Herman Lima (1897-1981), Ziraldo integra o grupo de artistas cujo trabalho sucede, na imprensa ilustrada do Brasil, ao grupo dos que se dedicam à caricatura política ou pessoal, desde o momento em que esse gênero perde força, durante o Estado Novo (1937-1945), com as restrições impostas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O estudioso Gilberto Maringoni (1958) destaca a relação de suas obras, assim como as de Millôr Fernandes e Fortuna (1931-1994), entre outros, com a produção dos cartunistas europeus do pós-guerra.
Seus personagens tornam-se muito conhecidos, como, por exemplo, a Supermãe, cujas histórias são publicadas no Jornal do Brasil e na revista Claudia. Nesses trabalhos, o artista satiriza a imagem da mãe superprotetora.
Em 1969, publica seu primeiro livro infantil: Flicts, que conta a história de uma cor que procura seu lugar no mundo. Com O menino maluquinho, publicado em 1980, explora o universo criativo da infância. Em 1982, abandona a direção de O Pasquim para se dedicar principalmente à literatura infantil. Entre muitos de seus títulos, destaca-se ainda O bichinho da maçã (1982). Sua produção inclui também diversas paródias de atores famosos de cinema e de super-heróis de histórias em quadrinhos, como Super-Homem, Dick Tracy e Batman e Robin.
Em 1999, fundou as revistas Bundas – paródia da revista Caras – e Palavra. Em 2002, torna-se um dos responsáveis pela volta da publicação de O Pasquim, que recebe o nome de Pasquim 21 em alusão ao novo século.
Tendo como eixo de seus trabalhos a resistência aos abusos de poder, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985)1, e o mergulho no universo infantil, Ziraldo é, entre os caricaturistas surgidos na segunda metade do século XX no Brasil, aquele com um dos traços mais imediatamente reconhecíveis pelo público, junto ao qual alcança grande popularidade.
Espetáculos
1968 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1970 - Flicts
1970 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1971 - As Garotas da Banda
1972 - Flicts
1973 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1974 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1975 - A feira do adultério
1976 - Flicts
1977 - Flicts
1980 - Flicts
1980 - O Último dos Nukupyrus
1980 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1980 - Flicts
1981 - Flicts, a Cor
1983 - Belas Figuras
1984 - O Menino Maluquinho
1985 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1986 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - O Menino Maluquinho
2002 - Bonequinha de Pano
2003 - Bonequinha de Pano
Livros
1980 - O Menino Maluquinho
1980 - A Bela Borboleta
1981 - O pipoqueiro da esquina
1983 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1985 - História de dois amores
1985 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - Ave Jorge
1991 - Como ir ao Mundo da Lua
2005 - Papo de Sapato
Obras
1964 - 4. Dama, Rei, Valete
1964 - Capa e Espada
1964 - E as Meias Sexy
1964 - - Aí... Hem, Pai!
1964 - Povo Amigo do Paquistão
1964 - Dê Ouro para o Brasil
1964 - O Corvo
1964 - - Minha Gravata?
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1969 - Do You Spasquinglish? - Mifo, Sifo, Aqui, Del Rey...
1969 - Do You Spasquinglish? - Duca, Pô, Ica-cilda...
1969 - Só Doi Quando Eu Rio
1969 - [Iiiaaaauuuuu]
1970 - [Sem Título]
1970 - Poster dos Pobres nº 1-Barra-72
1970 - Antipatriótica, Antipática
1970 - Equipada, Constipada, Antecipada, Participante, Estereotipada
1970 - Poster dos Pobres
1970 - [Deus é Brasileiro]
1970 - Ame-o ou... Deixe-o
1996 - [Rumo à Capital]
1999 - [Maastricht]
2000 - "Tava Jogando Sinuca, Uma Nega Maluca Me Apareceu"...
2000 - Crônicas das Conversas Brasileiras no Limiar do Século XXI
Exposições
1961 - Humoristas
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1963 - Individual de Ziraldo
1968 - O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa
1981 - A Arte de Playboy
1981 - Pablo, Pablo!:uma interpretação brasileira de Guernica
1981 - Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos
1982 - Universo do Futebol
1985 - Velha Mania: desenho brasileiro
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte 98
2000 - Um Coração, Um Mundo
2001 - Caricaturistas Brasileiros
2003 - Traço, Humor e Cia
2006 - Cartunistas da América do Sul
2006 - A História do Futebol no Brasil Através da Charge
2006 - A Imagem do Som de Dorival Caymmi
2008 - O Cinema em Cartaz
2009 - Brasil - O Cinema em Cartaz
2010 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2012 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2017 - O pipoqueiro da esquina
2018 - Quadrinhos
Fonte: ZIRALDO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Acesso em: 15 de setembro de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira? | Educa Mais Brasil
Ziraldo Alves Pinto, renomado cartunista, desenhista, escritor e jornalista brasileiro, teve sua morte confirmada pela família em 6 de abril de 2024. Ele faleceu aos 91 anos em sua casa no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde foi encontrado sem vida enquanto dormia. Desde setembro de 2018, quando sofreu um AVC, estava fora da vida pública e criativa.
O cartunista ficou conhecido por seu estilo irreverente e criativo, destacando-se com desenhos e charges. Como um dos fundadores do jornal humorístico "O Pasquim", ele marcou época durante a ditadura militar, utilizando o humor como forma de resistência política e social. Sua contribuição para a imprensa e a literatura infantil é amplamente reconhecida, deixando um legado duradouro na cultura brasileira.
Importância de Ziraldo para a cultura brasileira
O cartunista foi uma figura de extrema importância para a cultura brasileira, deixando um legado marcante em várias áreas. Ziraldo contribuiu significativamente para o cenário artístico e cultural do Brasil. Seus desenhos e charges, marcados por um estilo único e irreverente, abordavam questões sociais, políticas e cotidianas com humor e inteligência, conquistando uma legião de fãs ao longo de décadas. Como criador do icônico personagem "O Menino Maluquinho", Ziraldo deixou sua marca na literatura infantil brasileira, oferecendo às crianças histórias cativantes e cheias de ensinamentos.
Além disso, Ziraldo foi um importante ativista pelos direitos das crianças, lutando por uma educação de qualidade e pela valorização da infância. Sua atuação como defensor dos direitos humanos e da liberdade de expressão também deixou um impacto significativo na sociedade brasileira.
Por meio de suas obras e de sua personalidade carismática, Ziraldo inspirou gerações de brasileiros, deixando um legado de criatividade, humor e humanidade que continua a influenciar artistas e leitores até os dias de hoje. Sua importância para a cultura brasileira é inegável, e seu nome será sempre lembrado com carinho e admiração.
Contribuições de Ziraldo para a literatura infantil
Ziraldo foi um dos mais importantes escritores e ilustradores da literatura infantil brasileira. Sua contribuição para esse campo foi imensurável. Com seu estilo único e criativo, Ziraldo encantou crianças de todas as idades ao criar obras que abordavam temas importantes de forma lúdica e acessível. Seus livros não apenas entretinham, mas também educavam, transmitindo valores como amizade, solidariedade, imaginação e autoestima.
O grande destaque de sua carreira na literatura infantil é o livro "O Menino Maluquinho", publicado em 1980. Essa obra se tornou um verdadeiro marco na literatura brasileira, conquistando leitores de todas as idades com sua história leve, divertida e cheia de aventuras. Sua capacidade de dialogar com as crianças de forma direta e inteligente fez dele um dos autores mais queridos do Brasil, deixando um legado duradouro na literatura infantil nacional.
Fonte: Educa Mais Brasil, “Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira?”, publicado por Samara Rodrigues em 09 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo | CNN Brasil
Cartunista, ilustrador, escritor e um dos grandes nomes da cultura brasileira, Ziraldo morreu neste sábado (6), aos 91 anos.
A informação da morte foi confirmada pela família. Ele faleceu enquanto dormia em sua residência, no Rio de Janeiro.
O artista deixa como legado livros infantis, charges afiadas e alguns dos personagens mais famosos do Brasil -- dentre eles, o Menino Maluquinho, amado por gerações de crianças.
Relembre algumas das principais obras que marcaram a carreira de Ziraldo:
"O Menino Maluquinho"
Neste clássico da literatura infantil brasileira, Ziraldo nos apresenta seu personagem mais famoso: o Menino Maluquinho. O livro de 1980 conta a história de um garoto traquina e alegre, que gosta de inventar brincadeiras e tem o costume de usar uma panela na cabeça.
Desde então, a obra já ganhou filmes e séries inspirados no personagem.
"A Turma do Pererê"
Foi com "A Turma do Pererê" que Ziraldo pulicou a primeira revista em quadrinhos com um só autor no Brasil, em 1960. As histórias eram inspiradas em personagens do folclore brasileiro, como o saci pererê, e foram publicadas até 1964, ano no qual a ditadura militar suspendeu a revista por considerá-la "subversiva".
"Flicts"
O primeiro livro infantil publicado por Ziraldo, de 1969, conta a história de uma cor que não se encaixa no arco-íris, chamada "flicts". A obra traz reflexões para as crianças sobre aceitar as diferenças e promover a igualdade.
"Uma Professora Muito Maluquinha"
Neste livro, publicado em 1995, Ziraldo conta a história de uma professora diferente do normal, que com sua didática e seus métodos divertidos pode ser mal interpretada pelos adultos, mas encanta os alunos e faz com que eles aprendam enquanto se divertem. A obra também já ganhou adaptação para os cinemas, estrelando Paolla Oliveira.
"O Bichinho da Maçã"
O livro de 1982 conta a história de um bichinho que morava dentro de uma maçã e contava histórias incríveis, que faziam os animais se reunirem debaixo da macieira só para ouvir. Um dia, a maçã que ele chama de casa é colhida, e o bicho tem que usar sua inteligência para escapar.
"O Joelho Juvenal"
De 1983, neste livro de Ziraldo conhecemos Juvenal, o joelho de um menino que adorava brincar e, por isso mesmo, vive sempre ralado, esfolado e machucado. Mesmo assim, Juvenal é muito feliz e gosta de se divertir com seu dono.
"Meninas"
Para escrever "Meninas", Ziraldo se inspirou em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, que traz no centro da narrativa uma menina curiosa que decide explorar outro mundo. Neste livro, o cartunista brasileiro decide retratar as meninas, seres encantados que duram apenas dos 7 aos 11 anos, mas ao invés de sumir dão origem às mulheres.
"O Menino Marrom"
De 1986, o livro de Ziraldo conta a história de um menino marrom e de seu amigo, um menino cor-de-rosa. Os dois querem descobrir juntos o mistério das cores, e acabam por aprender sobre diversidade, respeito e a amizade entre pessoas diferentes.
Fonte: CNN Brasil, “Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo”, publicado por Fernanda Pinotti em 06 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho' | BBC
O Menino Maluquinho, Flicts,O Joelho Juvenal… São inúmeras as criações de Ziraldo que não só povoam o imaginário infantil por gerações como têm um reconhecimento acadêmico de grandeza e qualidade.
Para especialistas, ele já é um clássico e sua obra pertence ao primeiro escalão do cânone cultural brasileiro.
Nascido em Caratinga (MG) há exatos 90 anos, Ziraldo Alves Pinto está recluso. Sua saúde debilitou-se bastante depois de três acidentes vasculares cerebrais sofrido de 2018 para cá.
De acordo com a família, por ordens médicas, ele não pode conceder entrevistas.
O que não impede que amigos e fãs celebrem seu aniversário com alegria e, principalmente, reconhecimento.
Neste mês O Menino Maluquinho se tornou série de animação do serviço de streaming Netflix, há o relançamento, em edições especial, de duas de suas obras — O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
E ainda um livro-homenagem, preparado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Em um dos seus mais recentes vídeos, gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatido. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
Ziraldo virou "o Velhinho Maluquinho".
Em depoimento por escrito enviado à reportagem, o quadrinista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica comentou que "falar do Ziraldo é chover no molhado", já que "todo mundo tem um grande carinho por ele e seus personagens".
Mauricio cita a obra de ambos para ressaltar que "nossa história se entrelaça junto com as crianças e nossos personagens".
"Ziraldo sempre diz que o mais importante é ler. Mas para que isso aconteça, cada vez mais, é preciso ter autores como ele para arrebatar milhões de crianças leitoras", comenta ele, desejando "90 anos de sorrisos e muito mais" ao amigo e colega de profissão.
A cartunista Laerte define Ziraldo como "uma referência total, um mestre".
"Por todos os motivos possíveis. Ele é alguém que fez parte da formação de todos nós, cartunistas e quadrinistas da geração seguinte, vamos dizer", comenta.
"E sempre foi uma pessoa muito disponível: sempre nos recebeu, sempre nos ajudou, sempre nos apoiou e deu opinião. É uma pessoa que sempre foi muito aberta."
Ela diz que Ziraldo é alguém "que nunca se atrapalhou com nada, jamais teve qualquer empecilho como autor, como artista gráfico, como pessoa absolutamente genial". "Ele presta atenção aos detalhes em que é bom prestar atenção. E ensinou a gente a prestar atenção nessas coisas", afirma.
Renomado autor de best-sellers infantojuvenis, Pedro Bandeira acredita que "o talento, o patriotismo e a coragem de Ziraldo construíram um Brasil bem maior".
Bandeira diz que acompanha o trabalho do cartunista desde a sua própria infância.
"Até tornar-me seu amigo, acompanho os talentos deste artista desde meus 10 anos, curtindo seus trabalhos como quadrinista, escritor, jornalista, caricaturista, ilustrador e, principalmente, como patriota. E olhe que, quando eu tinha 10 anos, Ziraldo tinha apenas 20 e já era um quadrinista de primeira!", afirma.
"Logo, quando a ditadura arrasava e dentre seus ataques impunha-nos uma censura que me prejudicava especialmente, porque eu vivia do jornalismo e atuava como ator de teatro, Ziraldo publicou o mais lindo poema gráfico da história do Brasil: Flicts, que veio para dar força aos injustiçados, aos exilados, aos expropriados pelo fascismo brasileiro", acrescenta Bandeira, sobre o livro que conta a história de uma cor que não era aceita pelas outras.
Segundo o escritor, em Flicts Ziraldo enxugou "nossa lágrima, ao dizer que, em algum lugar, talvez na Lua, ainda haveria esperança para nosso desespero".
"Quando eu lia o livro para meu filho, parecia ouvir a voz do Ziraldo: 'Calma, a arte um dia vencerá a injustiça'. Eu entendi, Ziraldo. E há de vencer novamente", diz.
Bandeira avalia que "Ziraldo é mestre, mas não é imitável".
"Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica. Numa Bienal ou numa feira de livros, Ziraldo é cercado pelas crianças e adultos que o leem como se fosse um Papai Noel distribuindo brinquedos", analisa.
"E ele aceita ficar por horas autografando para seus leitores, tirando fotos e fazendo caricaturas nos livrinhos."
"Todos nós, escritores para crianças e jovens, somos fãs do auditório do Ziraldo", acrescenta.
"Os textos de Ziraldo não têm vilões. Todos seus pequenos heróis, como o Menino Maluquinho, flutuam pelas histórias como se dançassem em seus próprios sonhos. Só Ziraldo sabe como as crianças sonham", comenta Bandeira.
O escritor comenta que desde a pandemia está "enfurnado" mas que tem saudades de conviver com o amigo.
"Falamos por telefone, trocamos carinhos, mas nada consola minha vontade de ouvir novamente sua voz, ver seu sorriso quando acolhe algum leitorzinho de olhos arregalados de admiração", diz.
"Nós, que o amamos, jamais poderemos oferecer tanto amor quanto ele já espalhou pelo Brasil."
Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, José Alberto Lovetro, mais conhecido como JAL, define Ziraldo como alguém que "tem o DNA da cultura brasileira".
"Não só por sua arte no humor gráfico, mas também por criar personagens que invadem a vida das pessoas como se fossem da família de cada um. Agrada crianças de até 100 anos de idade", comenta.
JAL conta que quando era bastante jovem encantou-se pelo jornal 'O Pasquim', semanário alternativo que circulou durante a ditadura militar e que teve Ziraldo no time.
"Quando eu era ainda garoto já era absorvido pelo Pasquim. De ameba fui descobrindo o que era política. E Ziraldo sabe conquistar a inteligência das pessoas", recorda.
"Fiquei inebriado por aquela linguagem engraçada e ao mesmo tempo cheia de estilo. Virei desenhista."
Trajetória de sucesso
Responsável pela publicação da obra dele na Editora Melhoramentos, a editora Leila Bortolazzi avalia que trabalhar com ele "nunca foi muito complicado".
"Mas claro que, como todo artista compulsivo, obsessivo em atingir a perfeição, ele costumava fazer várias revisões em textos e ilustrações", lembra ela.
"Tudo era muito bem cuidado, ia e voltava, sempre era assim."
Ela recorda que antes de o trabalho ser feito por meio de digitalização, "era sempre um evento" quando, com a pastinha debaixo do braço, o autor ia pessoalmente até a editora para levar seu trabalho e defender as ilustrações.
"Quando chegava um livro novo dele era sempre uma novidade, porque ele sempre foi muito criativo, muito original, muito único. Acho que isso faz a obra dele ser tão perene: a originalidade, a criatividade dele", comenta.
"Fica até difícil comparar, não tem como falar 'tem influência disso e daquilo'. Ele é muito original mesmo, seu trabalho e seu traço é único e bem marcante."
Bortolazzi começou a trabalhar na Melhoramentos em 1981, ou seja, sua trajetória na empresa é praticamente tão longa quanto o sucesso de Ziraldo no mundo dos livros — O Menino Maluquinho, seu maior sucesso, foi lançado em 1980; hoje acumula 18 edições, 135 reimpressões e já vendeu mais de 4,1 milhões de exemplares.
Com mais de 200 livros publicados, Ziraldo tem diversos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de 500 mil exemplares. Menina Nina, de 2002, 140 mil. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. O Planeta Lilás, de 1984, 200 mil. O Menino Quadradinho, de 1989, 120 mil. Flicts, de 1984, mais de meio milhão de exemplares.
Ziraldo começou sua carreira em 1954 no jornal Folha da Manhã — hoje Folha de S. Paulo. Ele tinha uma coluna de humor. Depois passou pela revista O Cruzeiro e pelo Jornal do Brasil. Em 1960 lançou o primeiro gibi brasileiro feito por um só autor, a Turma do Pererê — a publicação acabou descontinuada a partir de 1964, por conta da ditadura militar.
Durante o regime autoritário, foi um dos idealizadores e parte integrante da equipe do semanário de contracultura O Pasquim, que fez sucesso e acabou marcando uma geração. Ele acabou sendo preso no dia seguinte à promulgação do Ato Institucional Número 5, em dezembro de 1968.
Figura sempre ligada à esquerda, ele foi membro do Partido Comunista Brasileira. Em 2005 ele se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e desenhou o logo da agremiação. Nas últimas eleições, declarou apoio a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e, na última, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Sucesso de crítica
Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Articulação Textual na Literatura Infantil e Juvenil, Leonor Werneck dos Santos considera "impossível falar de literatura infantil brasileira sem falar de Ziraldo".
"Ele deu grande impulso à literatura infantil no Brasil, trouxe a literatura infantil para um lugar de destaque, inclusive academicamente", avalia.
Ela acredita que isso se deu por um conjunto de fatores, como a criatividade, a atualidade dos temas, a "linguagem que toca fundo no leitor de todas as idades, "o traço e o projeto gráfico que parecem tão simples mas são cuidadosamente pensados e dialogam com a proposta de cada livro".
"Tudo faz com que a obra ultrapasse a época em que é produzida. Por isso se torna um clássico", afirma Santos.
Criadora do projeto Grandes Livrinhos, no Instagram (@grandeslivrinhos), a jornalista Giovana Franzolin acredita que são muitas as razões que fazem da obra de Ziraldo tão importante para as crianças — e resistentes ao tempo, conseguindo ter o mesmo peso hoje que tinha quando os sucessos foram criados, décadas atrás.
"Entendo que isso acontece porque os personagens retratam uma infância atemporal, de criança arteira, feliz, com alegrias, dificuldades... não é tão somente a infância dele próprio ou uma infância datada, tem um pouco da infância de todo mundo", comenta ela.
"Além disso, ele fala com a criança sem didatismo, sem ser moralizante, mesmo abordando temas mais 'cabeludos'. Ele consegue desenvolver qualquer temática com leveza, sensibilidade e criatividade. Por exemplo, vejo que o Menino Maluquinho, o personagem mais emblemático e mais conhecido, é uma alegoria da infância, a criança sapeca e 'maluquinha', que não era nada mais que uma criança feliz."
Franzolin aponta algumas características do autor como fundamentais para definir sua genialidade. Primeiro, o pioneirismo, pois ele escreveu "para o universo da literatura infantil numa década em que o mercado mal existia". E também pelo cuidado com os aspectos gráficos. Nesse sentido, ela ressalta que Flicts foi uma obra "disruptiva, ousada para a época".
"Além disso, pelo conjunto da obra. São dezenas e dezenas de títulos representando uma densidade impressionante para qualquer autor", aponta a jornalista.
"Mas mais do que tudo, creio que Ziraldo se consolidou por saber como nenhum outro representar a infância, com seus prazeres e agruras. Ele consegue representá-la com seriedade e leveza, ao mesmo tempo em que não foge de temas mais difíceis ou tabus, como morte, separação dos pais, rejeição... Ele toca a alma das crianças e dialoga com elas como nenhum outro, no meu ponto de vista. E ao fazer isso, emociona também os adultos, reacende neles as memórias das próprias infâncias."
A jornalista comenta que Ziraldo, mesmo com 90 anos, "parece um eterno menino".
"Escreve com naturalidade, fala da infância sem esforço", diz.
"Interesso-me em especial pelo texto, me emociona toda vez que leio. Apresenta camadas de interpretação, de subjetividade, que captamos conforme a maturidade e o momento da vida."
Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a professora de literatura Vânia Maria Resende diz que a "grandeza de Ziraldo está na singularidade da linguagem plástica genial, vibrante, forte, exuberante". E, não só. Também "na força da poesia e do humor em equilíbrio", na "dimensão lúdica que flui em sintonia com a naturalidade infantil".
"Acrescente-se a isso, o diálogo versátil de seus livros com repertório de textos visuais, gráficos, verbais dos mais diferentes autores e fontes, não restritamente infantis, o que abre amplas perspectivas culturais para os leitores", diz ela, que é autora dos livros Ziraldo e o Livro para Crianças e Jovens no Brasil e O Menino na Literatura Brasileira.
"Além da beleza visual que é fator de sedução estética, importante observar a riqueza simbólica, até mesmo de narrativas aparentemente mais simples, o que significa dizer que sua literatura não se reduz a mero entretenimento. Finalmente, destaco a grandeza do poder de comunicação da obra do artista com leitores de diferentes idades, não apenas os infantis."
Resende acredita que "a concepção peculiar de livro infantil de Ziraldo" é o seu maior legado. Esse conceito foi favorecido "por traços específicos da sua formação de escritor-desenhista-artista gráfico" e, ao mesmo tempo, compatível "com o pensamento complexo da contemporaneidade". Para ela, Flicts é o marco desse formato, afirmando-se com "a peculiaridade do estilo verbo-visual, de direcionamento de leitura simultaneísta, com apoio semiótico, diferentemente da pura leitura linguística."
Para a pesquisadora Monica Rebecca Ferrari Nunes, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutora em semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "Ziraldo trabalha com personagens que têm universalidade". E isso explica a "força de seus personagens", de "forma que esses textos que ele constrói são longevos na cultura".
"Há uma emoção quase que universal que possibilita a permanência através do tempo", comenta ela.
Nunes ainda ressalta a habilidade do autor na "hibridização da linguagem".
"Ele faz a mistura de signos em que o verbal vai se misturando ao imagético, e o imagético ao verbal. E constrói uma linguagem de alta complexidade que, ao mesmo tempo, tem um efeito muito rápido na compreensão", comenta ela.
Fonte: BBC, “Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho'”, publicado por Edison Veiga, em 24 de outubro de 2022.
Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país | BBC
Morreu neste sábado (6/4), aos 91 anos, Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário infantil há gerações.
Ziraldo morreu em sua casa, um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro, de acordo com canal Globonews, que cita informações de sua família.
Formado em direito, ele foi cartunista, chargista, escritor, pintor, dramaturgo, cronista, apresentador e humorista, entre outras atividades ao longo de mais de seis décadas de carreira.
Sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica.
Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatida. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
No mesmo ano, negou ele mesmo um boato de que teria morrido ao publicar uma foto em sua conta no Instagram, dizendo estar “firme e forte”. Ao ser procurado por jornais para comentar o boato, disse estar “ocupado demais celebrando a vida”.
De Caratinga para o mundo
Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.
O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos.
O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.
Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.
Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.
Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
Charge política
Se 1968 ficou conhecido como “o ano que não acabou”, nas palavras do contemporâneo Zuenir Ventura, o de 1969 marcaria para sempre a carreira de Ziraldo.
Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.
Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.
Ziraldo ainda se tornaria o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.
Antes do fim daquele ano, publicaria ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.
Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.
O pai do Menino Maluquinho
Nas décadas seguintes, Ziraldo passaria a se dedicar mais a sua outra grande paixão, as histórias para crianças, que devorava desde menino em Caratinga. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras.
O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.
Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers.
Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.
Atuação política
Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo.
Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Em 2008, Ziraldo e mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura, entre os quais o colega Jaguar, tiveram seu processo de indenização aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
O cartunista foi indenizado em mais de R$ 1 milhão, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de R$ 4 mil reais. Criticado por alguns colunistas na época, disse que o Brasil lhe devia indenização.
“Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o [ex-presidente João] Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery [do Couto e Silva, general chefe da Casa Civil no governo Geisel]. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando”, disse na época ao jornal O Globo.
Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.
Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.
Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.
Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.
Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.
Combate à ditadura e prisões
Durante a ditadura militar (1964-1985), Ziraldo continuou a publicar suas charges e cartuns políticos e, mais do que isso, tornou-se uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia.
Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.
No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral O Pasquim, semanário de humor que virou um fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.
No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal seriam presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu.
Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. "Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo", disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.
Na ocasião, o cartunista também comentou sobre sua tentativa de ressuscitar o jornal em 2002, como “O Pasquim 21”. Apesar de ter durado até 2004, o projeto se somaria à lista de fiascos editoriais em que investiu, como as revistas "Palavra" e "Bundas", uma sátira ao sucesso da “Caras”, em 1999. Depois dessas experiências, disse ter desistido do jornalismo. "Cansei de levar porrada. Eu sou o rei dos bons projetos e dos fracassos econômicos."
Reconhecimento internacional
Dois anos depois, o cartunista, seu irmão, Zélio Alves Pinto, e outras dez pessoas foram condenadas pela Justiça Federal do Paraná por improbidade administrativa e registro indevido de marca durante a realização do Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor), em 2003.
Ziraldo foi condenado a dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa. Mas o juiz trocou a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário mínimo mensal pelo mesmo período da pena. "É uma dessas desgraças que acontecem na vida. Um sujeito com a minha biografia tem de enfrentar uma praga dessas", disse ele ao G1.
Legado
Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos. Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins.
Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins.
A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.
"O Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai", disse Daniela durante o lançamento. "Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva."
Autor de best-sellers infanto-juvenis, Pedro Bandeira definiu Ziraldo à época como “um mestre, mas não imitável". "Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica”.
Homenagens
Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo neste sábado.
O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos "maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".
"São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão", escreveu o presidente.
O criador da Turma da Mônica, Maurício de Souza, também lamentou a morte de Ziraldo. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!", escreveu.
Alguns times de futebol do país também prestaram homenagem ao cartunista nas redes sociais, como Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista.
Fonte: BBC, “Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país”, publicado por Amauri Arrais, em 6 de abril de 2024.
Crédito fotográfico: UOL, imagem de Ana Colla. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Brasil — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Brasil), mais conhecido como Ziraldo, foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador e escritor brasileiro. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1957, mas dedicou sua carreira às artes gráficas, à imprensa e à literatura. Trabalhou em publicações como O Cruzeiro e Jornal do Brasil e participou da criação de O Pasquim. Entre suas principais obras estão A Turma do Pererê, Flicts e O Menino Maluquinho. Seu trabalho caracteriza-se pelo traço expressivo, síntese das formas, humor e uso marcante das cores, combinando desenho e texto em uma linguagem visual própria. Ao longo da carreira, recebeu reconhecimentos como o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha de Honra da UFMG, além de premiações internacionais relacionadas ao humor gráfico. Participou de numerosas exposições dedicadas ao desenho, à caricatura e às artes gráficas, e sua produção integra acervos e projetos de instituições culturais brasileiras, entre elas o Museu Histórico Nacional.
Ziraldo | Arremate Arte
Ziraldo Alves Pinto (24 de outubro de 1932, Caratinga, Minas Gerais — 6 de abril de 2024, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) foi um desenhista, cartunista, caricaturista, ilustrador, escritor e artista gráfico brasileiro, considerado um dos nomes de destaque das artes gráficas e da literatura infantojuvenil no país. Interessado pelo desenho desde a infância, teve um de seus primeiros trabalhos publicado ainda menino no jornal Folha de Minas. Mais tarde, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formando-se em 1957, embora sua trajetória profissional já estivesse direcionada à criação artística e à imprensa. Trabalhou em importantes veículos de comunicação, entre eles O Cruzeiro e Jornal do Brasil, desenvolvendo charges, cartuns, caricaturas e ilustrações que contribuíram para tornar seu traço conhecido pelo público.
No final dos anos 1950, Ziraldo criou o personagem Pererê, inspirado no Saci-Pererê do folclore brasileiro, que deu origem à revista A Turma do Pererê, publicada a partir de 1960. A obra tornou-se uma referência dos quadrinhos nacionais ao valorizar personagens, paisagens, costumes e elementos da cultura brasileira. Durante a década de 1960, o artista também se destacou pela produção de cartazes para o cinema e outros eventos culturais, além de criar personagens como Jeremias, o Bom e Supermãe. Com a ditadura militar, sua produção incorporou de maneira marcante a crítica política e social. Em 1969, participou da criação de O Pasquim, um dos principais jornais da imprensa alternativa do período, no qual o humor e a sátira foram utilizados como formas de crítica ao autoritarismo. No mesmo período, alcançou reconhecimento internacional por sua produção de humor gráfico e recebeu importantes premiações relacionadas à caricatura e à liberdade de imprensa.
Também em 1969, Ziraldo publicou Flicts, seu primeiro livro infantil e uma obra fundamental de sua carreira. Ao narrar a história de uma cor que procura seu lugar no mundo, o artista integrou texto, desenho, cor, tipografia e composição gráfica, estabelecendo uma linguagem visual que se tornaria característica de sua produção. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, seu maior sucesso editorial e vencedor do Prêmio Jabuti. O personagem da panela na cabeça tornou-se um símbolo da literatura infantil brasileira e posteriormente ganhou versões para histórias em quadrinhos, teatro, cinema e televisão. Ziraldo publicou ainda obras como O Bichinho da Maçã, O Joelho Juvenal, O Menino Marrom, O Menino Quadradinho, Uma Professora Muito Maluquinha e Menina Nina, consolidando uma produção em que palavra e imagem atuam de maneira complementar.
Como artista visual, Ziraldo desenvolveu uma linguagem reconhecível pela síntese do desenho, linhas expressivas, humor, dinamismo e uso marcante das cores. Sua experiência como caricaturista, chargista, cartazista e ilustrador permitiu que transitasse entre imprensa, literatura, quadrinhos e artes gráficas. Ao longo da carreira, participou de exposições como Humoristas (1961), O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa (1968), Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos (1981), Universo do Futebol (1982), Velha Mania: desenho brasileiro (1985), Futebol Arte (1998), Caricaturistas Brasileiros (2001), A História do Futebol no Brasil Através da Charge (2006), O Cinema em Cartaz (2008) e Zeróis: Ziraldo na tela grande (2010 e 2012). Sua produção recebeu diferentes distinções ao longo das décadas, entre elas o Prêmio Jabuti, a Ordem do Mérito Cultural e, em 2016, a Medalha de Honra da UFMG.
Ziraldo morreu aos 91 anos, no Rio de Janeiro, deixando uma obra que atravessa mais de seis décadas da cultura visual brasileira. Embora tenha se tornado amplamente conhecido como criador do Menino Maluquinho, sua trajetória ultrapassa a literatura infantil e compreende desenhos, charges, caricaturas, cartazes, quadrinhos, ilustrações e projetos editoriais. A presença de seus trabalhos em exposições e instituições culturais evidencia a amplitude de uma produção situada no encontro entre arte, comunicação, humor e literatura. Por sua capacidade de transformar temas brasileiros, questões sociais e experiências da infância em imagens de forte poder comunicativo, Ziraldo estabeleceu uma linguagem própria e deixou uma contribuição significativa para a história do desenho, da ilustração e das artes gráficas no Brasil.
Ziraldo | Wikipédia
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, 24 de outubro de 1932 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 2024) foi um cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista, advogado e jornalista brasileiro.
Foi o criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e foi um dos mais conhecidos e aclamados escritores infantis de seu tempo. Ziraldo foi pai de três filhos, a cineasta Daniela Thomas, o compositor Antonio Pinto e a diretora de teatro Fabrízia Alves Pinto. Faleceu em sua residência no estado do Rio de Janeiro, Lagoa Rodrigo de Freitas em 6 de abril de 2024 aos 91 anos.
Infância
Ziraldo passou toda a infância em Caratinga. Era irmão do também desenhista, cartunista, jornalista e escritor Zélio Alves Pinto e também de Ziralzi Alves Pinto. Estudou dois anos no Rio de Janeiro e voltou a Caratinga, tendo concluído o módulo científico (atual ensino médio). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1957. Seu talento no desenho já se manifestava desde essa época, tendo publicado um desenho no jornal Folha de Minas com apenas 6 anos de idade.
Carreira
Começou a trabalhar no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), em 1954, com uma coluna dedicada ao humor. Ganhou notoriedade nacional ao se estabelecer na revista O Cruzeiro em 1957 e, posteriormente, no Jornal do Brasil, em 1963. Alguns de seus personagens desta época foram Jeremias, o Bom; Supermãe e Mirinho.
Em 1960, lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, A Turma do Pererê, que também foi a primeira história em quadrinhos a cores totalmente produzida no Brasil. Embora tenha alcançado uma das maiores tiragens da época, Turma do Pererê foi cancelada em 1964, logo após o início do regime militar no Brasil. Nos anos 1970, a Editora Abril relançou a revista, desta vez, porém, sem o sucesso inicial. A revista da Turma do Pererê teve outras passagens pelas bancas numa edição encadernada pela Editora Primor no ano de 1986 e em formato de almanaque pela Editora Abril na década de 1990.
Em 1960 recebeu o "Nobel" Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também o prêmio Merghantealler, principal premiação da imprensa livre da América Latina.
Foi fundador e posteriormente diretor do periódico O Pasquim, tabloide de oposição ao regime militar, uma das prováveis razões de sua prisão, ocorrida um dia após a promulgação do AI-5.
Em 1980 lançou o livro "O Menino Maluquinho", seu maior sucesso editorial, o qual foi mais tarde adaptado na televisão e no cinema. Para televisão, foi adaptado em 2006 pela TV Brasil, chamada Um Menino muito Maluquinho, que durou uma temporada com vinte e seis episódios sob a direção de Anna Muylaert e Cao Hamburger. No cinema, foi adaptado três vezes, a primeira em Menino Maluquinho - O Filme em 1995 dirigida por Helvécio Ratton e uma sequência em 1998 dirigida por Fernando Meirelles, Menino Maluquinho 2 - A Aventura. A adaptação mais recente da série é Uma Professora Muito Maluquinha de 2010, estrelado por Paolla Oliveira.
Em 1989, criou a Família Folhas para uma campanha de reciclagem da Prefeitura de Curitiba. Ele reformulou a família e criou novos personagens em 2022.
Em 1999 lançou a revista Bundas", uma publicação de humor sobre o cotidiano que faz uma brincadeira com a revista Caras, esta voltada para o dia a dia de festas e ostentação da elite brasileira. Ziraldo foi também o fundador da revista "A Palavra" em 1999.
Ilustrações de Ziraldo já figuraram em publicações internacionais como as revistas "Private Eye" da Inglaterra, "Plexus" da França e "Mad", dos Estados Unidos.
A partir do ano de 2000, participou da "Oficina do Texto", maior iniciativa de coautoria de livros do Mundo, criada por Samuel Ferrari Lago, então diretor do Portal Educacional, na qual ilustrou histórias que ganharam textos de alunos de escolas do Brasil todo, totalizando aproximadamente 1 milhão de diferentes obras editadas em coautoria com igual número de crianças.
Ziraldo foi homenageado por escolas de samba e afirmou que essa é a maior homenagem que um brasileiro pode receber. No carnaval de São Paulo, foi a Nenê de Vila Matilde em 2003 que celebrou a trajetória do artista. Na Sapucaí, Ziraldo foi enredo da Tradição em 2012.
No dia 3 de outubro de 2016 recebeu a Medalha de Honra da Universidade Federal de Minas Gerais em cerimônia presidida pelo reitor Jaime Arturo Ramírez no auditório da reitoria da universidade.
Vida pessoal
O cartunista foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto de 1958 até a morte dela em 2000, quando aos 66 anos ela sofreu um infarto enquanto dormia. Ziraldo casou-se novamente, dessa vez com Márcia Martins da Silva.
Ziraldo foi fumante durante 40 anos, mas conseguiu abandonar o vício.
Em 2013, Ziraldo concedeu entrevista para o Museu da Pessoa, na qual comentou sobre a sua vida, principalmente sobre a sua infância. Descobriu que tinha tino para o humor ainda muito novo em meio a uma epidemia de esquistossomose, em Caratinga, onde nasceu.
Segundo vizinhos, Ziraldo tinha o hábito de, de vez em quando, descer para o térreo do seu prédio durante a madrugada assobiando, o que eles entendiam como sendo um sinal de que ele iria criar algo novo.
Posicionamento político
Ziraldo, Roger Mello e Marta Suplicy
Ziraldo era uma figura pública ligada à esquerda. Foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) juntamente com amigos como o arquiteto Oscar Niemeyer. Após o fim da Ditadura, em 1989, o grupo liderado por Roberto Freire no PCB transferiu a estrutura partidária para uma nova legenda, o Partido Popular Socialista (PPS), como forma de enfrentar o desgaste com a experiência socialista soviética e a queda do muro de Berlim.
Em 2005, o cartunista filiou-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo partidário. No ano seguinte, apoiou no primeiro turno a candidata Heloísa Helena para a presidência da República, e ao segundo turno fez apoio para reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No ano de 2010, participou de atos em prol da eleição de Dilma Rousseff (PT) para o cargo de Presidente da República. Em 2014, apoiou novamente a candidatura de Dilma para reeleição. Durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Ziraldo posicionou-se de maneira contrária ao processo, participando de comícios e fazendo elogios à presidente. Em 2018, também declarou voto ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad. Nas eleições de 2022, apoiou a candidatura vitoriosa de Lula (PT).
Indenização por conta da ditadura militar
Em 5 de abril de 2008, Ziraldo — juntamente com mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura militar brasileira — teve seu processo de anistia aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e foi indenizado em mais de 1 milhão de reais, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de 4,3 mil reais. Ele e o cartunista Jaguar receberam as maiores indenizações. À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" a indenização declarando:
Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando.
O episódio foi comentado por seu antigo colega Millôr Fernandes, que se negou a exigir indenização, questionando: "Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento?".
Problemas de saúde e morte
Em 2013, durante uma viagem a Alemanha, Ziraldo teve um infarto leve, necessitando fazer um cateterismo. Em 2018, sofreu um AVC e chegou a ficar internado em estado grave. Nos quatro anos seguintes, sofreu outros dois AVCs, o que o fez ficar com a saúde debilitada. Por causa disso, passou a aparecer em público em poucas ocasiões. Nos últimos meses, Ziraldo passava a maior parte do tempo acamado e se alimentando por sonda.
Na tarde do dia 6 de abril de 2024, em torno das 15h, aos 91 anos, Ziraldo morreu em sua casa enquanto dormia, segundo a sua família. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou a morte de Ziraldo e afirmou que "O Brasil perdeu neste sábado, 6/4, um de seus maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".Várias instituições prestaram homenagens ao cartunista, como os clubes de futebol Flamengo, Atlético Mineiro e Corinthians. Mais tarde, no mesmo dia, uma de suas filhas revelou que a causa da morte foi a falência de múltiplos órgãos. No dia seguinte, o corpo de Ziraldo foi velado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e sepultado no Cemitério de São João Batista.
Controvérsias
Condenação por improbidade administrativa
Em 31 de março de 2011, Ziraldo, seu irmão Zélio Alves Pinto e mais 9 pessoas foram condenados por improbidade administrativa na realização, em 2003, do primeiro Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor) e no "Fantur - Iguaçu dê uma volta por aqui", em ação movida em 2006 pelo Ministério Público Federal. A ação relata que o dinheiro público municipal e federal foi mal utilizado porque, segundo a sentença, para o primeiro Festhumor, houve contratações sem licitação e pagamentos em duplicidade, o que corresponde a remuneração dupla pelo serviço prestado uma vez. O processo relata ainda desvio de verba no Fantur, que foi uma ação promovida pela Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu para levar jornalistas e cartunistas para cidade, com todas as despesas custeadas pela prefeitura. Além disso, Ziraldo registrou indevidamente a marca do festival em seu nome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), contrariando o edital (que previa a cessão perpétua do desenho), caracterizando assim a intenção de utilizar a marca comercialmente. Em 24 de novembro de 2011, a pena de Ziraldo foi fixada em dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa de cerca de 87,3 mil reais. O juiz substituiu a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário-mínimo mensal pelo mesmo período da pena. Ziraldo e os demais réus podiam recorrer da decisão.
Declaração sobre homossexuais
Em uma entrevista concedida ao site Hoje em Dia em maio de 2015, Ziraldo criticou a TV Globo por abordar relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo na telenovela Babilônia. "A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais... Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?", afirmou. Ele ainda fez uma comparação com a obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ao alegar que o escritor "não teve coragem de fazer Riobaldo assumir a homossexualidade dele" e que "inventou que Diadorim era uma mulher vestida de homem", concluindo que manter a sexualidade dos homossexuais escondida seria "uma coisa mineira", já que "aceitar a homossexualidade em Ipanema é uma coisa, aceitar a homossexualidade em Caratinga é outra".
Ziraldo também esteve envolvido em um debate sobre racismo, devido à uma declaração de fevereiro de 2011, onde afirmava que "racismo sem ódio não é racismo". Esta declaração provocou a reação da escritora Ana Maria Gonçalves, que chegou a escrever uma carta aberta ao autor. Ainda, junto com Ana Maria Machado e Ruth Rocha, Ziraldo se envolveu na polêmica acerca do conteúdo racista da obra de Monteiro Lobato. Todavia, em época anterior, em 2002, Ziraldo denunciou que os livros de Monteiro Lobato continham preconceitos, além de ter ilustrado a camiseta de um bloco de Carnaval carioca, com a figura de Lobato abraçado a uma mulata, ironizando as posições daquele escritor.
Prêmios
1969 - Nobel Internacional do Humor
1969 - Prêmio Merghantealler
1980 - Prêmio Jabuti de Literatura
2004 - Premio Andersen - Il mondo dell'infanzia
2005 - Ordem do Mérito Cultural
2008 - Prêmio Ibero-Americano de Humor Gráfico
2012 - Prêmio Jabuti de Literatura
Obra
Quadrinhos
A Turma do Pererê (1959 – 1976)
Jeremias, O Bom (1965-1969)
The Supermãe (1968-1984)
O Menino Maluquinho (1988-2007)
Livros
Flicts (1969)
O Planeta Lilás (1979)
O Menino Maluquinho series
O Menino Maluquinho (1980)
Uma Menina Chamada Julieta (2009)
Mônica e o Menino Maluquinho na Montanha Mágica (2018)
O Bebê que Sabia Brincar (2020)
O Bichinho da Maçã / Bichim series
O Bichinho da Maçã (1982)
Como ir ao Mundo da Lua (1995)
Cada um Mora Onde Pode (2008)
As Anedotinhas do Bichinho da Maçã (2011)
As Flores da Primavera (2020)
Um Amor de Família (2020)
O Bichinho que Queria Crescer (2020)
As Cores e os Dias da Semana (2020)
A Fábula das Três Cores (1985)
O Pequeno Planeta Perdido (1985)
O Menino Marrom (1986)
Corpim series
Pelegrino & Petrônio
Os Dez Amigos
Um Sorriso Chamado Luiz
Rolim
Dodó
O Joelho Juvenal
O Calcanhar de Aquiles
O Menino Quadradinho (1989)
Professora Maluquinha series
Uma Professora Muito Maluquinha (1995)
As Aventuras da Professora Maluquinha em Quadrinhos (2010)
Vito Grandam: Uma História de Vôos (1995)
O Menino do Rio Doce (1996)
Tia Nota Dez (1996)
Menina Nina: Duas Razões Para Não Chorar (2002)
O Menino e seu Amigo (2003)
Os Meninos Morenos (2004)
O Aspite (2005)
Os Meninos dos Planetas series
O Menino da Lua
O Namorado da Fada ou Menino de Urano
O Menino da Terra
O Capetinha do Espaço: ou o Menino de Mercúrio
Os Meninos de Marte
O Menino Que Veio de Vênus
Nino, o Menino de Saturno
O Menino D´Água e o Planeta Netuno
Ju, o Menino de Júpiter: O Maior Menino do Mundo
As Cores do Escuro e os Meninos de Plutão
Menina das Estrelas (2007)
A Bela Borboleta (2009)
Meninas (2016)
Ilustrações
Chapeuzinho Amarelo (1970)
Pra Boi Dormir (1992)
Noções de Coisas (1995)
Fonte: Wikipédia. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo | Itaú Cultural
Ziraldo Alves Pinto (Caratinga, Minas Gerais, 1932 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024). Desenhista, caricaturista, cartunista, ilustrador, jornalista, escritor. Além de dono de um dos mais conhecidos traços de sua geração, é criador de personagens de grande popularidade, como o Menino Maluquinho e o Bichinho da Maçã.
Apresentou seu primeiro desenho aos sete anos de idade no jornal Folha de Minas, em 1939. Em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde colaborou nos periódicos infantis Vida Infantil, Vida Juvenil e Sesinho e começou a publicar trabalhos na revista A Cigarra. Em 1952, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e realiza trabalhos mensais na revista "Era uma vez". Em 1954, substitui o caricaturista Borjalo (1925-2004) no jornal Folha de Minas e colabora no jornal Binômio. Em 1957, mudou-se para o Rio de Janeiro.
Criou o personagem Pererê em 1958, para a revista O Cruzeiro. Com o sucesso desse personagem, a empresa passa a publicar uma revista mensal, em cores, apenas com suas histórias. Nesses trabalhos, são apresentados temas e personagens brasileiros – principalmente o Saci – e, de maneira indireta, injustiças e iniquidades que afligem o Brasil. A revista circulou entre 1960 e 1964, alcançando grande popularidade.
No ano de 1963, começa a trabalhar no Jornal do Brasil e, em 1964, na revista Pif-Paf, dirigida por Millôr Fernandes (1923-2012). Em 1967, editou o suplemento dominical Cartum JS, do Jornal dos Sports. No ano seguinte, ganha destaque internacional e tem seus desenhos publicados em revistas estrangeiras.
Em 1964, participou da criação do jornal O Pasquim. O próprio artista define a publicação como um centro difusor do jornalismo crítico que pretende fazer resistência à ditadura. Para o historiador Herman Lima (1897-1981), Ziraldo integra o grupo de artistas cujo trabalho sucede, na imprensa ilustrada do Brasil, ao grupo dos que se dedicam à caricatura política ou pessoal, desde o momento em que esse gênero perde força, durante o Estado Novo (1937-1945), com as restrições impostas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O estudioso Gilberto Maringoni (1958) destaca a relação de suas obras, assim como as de Millôr Fernandes e Fortuna (1931-1994), entre outros, com a produção dos cartunistas europeus do pós-guerra.
Seus personagens tornam-se muito conhecidos, como, por exemplo, a Supermãe, cujas histórias são publicadas no Jornal do Brasil e na revista Claudia. Nesses trabalhos, o artista satiriza a imagem da mãe superprotetora.
Em 1969, publica seu primeiro livro infantil: Flicts, que conta a história de uma cor que procura seu lugar no mundo. Com O menino maluquinho, publicado em 1980, explora o universo criativo da infância. Em 1982, abandona a direção de O Pasquim para se dedicar principalmente à literatura infantil. Entre muitos de seus títulos, destaca-se ainda O bichinho da maçã (1982). Sua produção inclui também diversas paródias de atores famosos de cinema e de super-heróis de histórias em quadrinhos, como Super-Homem, Dick Tracy e Batman e Robin.
Em 1999, fundou as revistas Bundas – paródia da revista Caras – e Palavra. Em 2002, torna-se um dos responsáveis pela volta da publicação de O Pasquim, que recebe o nome de Pasquim 21 em alusão ao novo século.
Tendo como eixo de seus trabalhos a resistência aos abusos de poder, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985)1, e o mergulho no universo infantil, Ziraldo é, entre os caricaturistas surgidos na segunda metade do século XX no Brasil, aquele com um dos traços mais imediatamente reconhecíveis pelo público, junto ao qual alcança grande popularidade.
Espetáculos
1968 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1970 - Flicts
1970 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1971 - As Garotas da Banda
1972 - Flicts
1973 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1974 - Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá
1975 - A feira do adultério
1976 - Flicts
1977 - Flicts
1980 - Flicts
1980 - O Último dos Nukupyrus
1980 - Este Banheiro É Pequeno Demais para Nós Dois
1980 - Flicts
1981 - Flicts, a Cor
1983 - Belas Figuras
1984 - O Menino Maluquinho
1985 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1986 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - O Menino Maluquinho
2002 - Bonequinha de Pano
2003 - Bonequinha de Pano
Livros
1980 - O Menino Maluquinho
1980 - A Bela Borboleta
1981 - O pipoqueiro da esquina
1983 - O Menino Mais Bonito do Mundo
1985 - História de dois amores
1985 - O Pequeno Planeta Perdido
1987 - Ave Jorge
1991 - Como ir ao Mundo da Lua
2005 - Papo de Sapato
Obras
1964 - 4. Dama, Rei, Valete
1964 - Capa e Espada
1964 - E as Meias Sexy
1964 - - Aí... Hem, Pai!
1964 - Povo Amigo do Paquistão
1964 - Dê Ouro para o Brasil
1964 - O Corvo
1964 - - Minha Gravata?
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1964 - Napoleão Bonaparte (para pifãs)
1969 - Do You Spasquinglish? - Mifo, Sifo, Aqui, Del Rey...
1969 - Do You Spasquinglish? - Duca, Pô, Ica-cilda...
1969 - Só Doi Quando Eu Rio
1969 - [Iiiaaaauuuuu]
1970 - [Sem Título]
1970 - Poster dos Pobres nº 1-Barra-72
1970 - Antipatriótica, Antipática
1970 - Equipada, Constipada, Antecipada, Participante, Estereotipada
1970 - Poster dos Pobres
1970 - [Deus é Brasileiro]
1970 - Ame-o ou... Deixe-o
1996 - [Rumo à Capital]
1999 - [Maastricht]
2000 - "Tava Jogando Sinuca, Uma Nega Maluca Me Apareceu"...
2000 - Crônicas das Conversas Brasileiras no Limiar do Século XXI
Exposições
1961 - Humoristas
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1962 - Exposição de Artistas Brasileiros
1963 - Individual de Ziraldo
1968 - O Artista Brasileiro e a Iconografia de Massa
1981 - A Arte de Playboy
1981 - Pablo, Pablo!:uma interpretação brasileira de Guernica
1981 - Ziraldo, Mattar e Rezende: Desenhos
1982 - Universo do Futebol
1985 - Velha Mania: desenho brasileiro
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte
1998 - Futebol Arte 98
2000 - Um Coração, Um Mundo
2001 - Caricaturistas Brasileiros
2003 - Traço, Humor e Cia
2006 - Cartunistas da América do Sul
2006 - A História do Futebol no Brasil Através da Charge
2006 - A Imagem do Som de Dorival Caymmi
2008 - O Cinema em Cartaz
2009 - Brasil - O Cinema em Cartaz
2010 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2012 - Zeróis: Ziraldo na tela grande
2017 - O pipoqueiro da esquina
2018 - Quadrinhos
Fonte: ZIRALDO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Acesso em: 15 de setembro de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira? | Educa Mais Brasil
Ziraldo Alves Pinto, renomado cartunista, desenhista, escritor e jornalista brasileiro, teve sua morte confirmada pela família em 6 de abril de 2024. Ele faleceu aos 91 anos em sua casa no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde foi encontrado sem vida enquanto dormia. Desde setembro de 2018, quando sofreu um AVC, estava fora da vida pública e criativa.
O cartunista ficou conhecido por seu estilo irreverente e criativo, destacando-se com desenhos e charges. Como um dos fundadores do jornal humorístico "O Pasquim", ele marcou época durante a ditadura militar, utilizando o humor como forma de resistência política e social. Sua contribuição para a imprensa e a literatura infantil é amplamente reconhecida, deixando um legado duradouro na cultura brasileira.
Importância de Ziraldo para a cultura brasileira
O cartunista foi uma figura de extrema importância para a cultura brasileira, deixando um legado marcante em várias áreas. Ziraldo contribuiu significativamente para o cenário artístico e cultural do Brasil. Seus desenhos e charges, marcados por um estilo único e irreverente, abordavam questões sociais, políticas e cotidianas com humor e inteligência, conquistando uma legião de fãs ao longo de décadas. Como criador do icônico personagem "O Menino Maluquinho", Ziraldo deixou sua marca na literatura infantil brasileira, oferecendo às crianças histórias cativantes e cheias de ensinamentos.
Além disso, Ziraldo foi um importante ativista pelos direitos das crianças, lutando por uma educação de qualidade e pela valorização da infância. Sua atuação como defensor dos direitos humanos e da liberdade de expressão também deixou um impacto significativo na sociedade brasileira.
Por meio de suas obras e de sua personalidade carismática, Ziraldo inspirou gerações de brasileiros, deixando um legado de criatividade, humor e humanidade que continua a influenciar artistas e leitores até os dias de hoje. Sua importância para a cultura brasileira é inegável, e seu nome será sempre lembrado com carinho e admiração.
Contribuições de Ziraldo para a literatura infantil
Ziraldo foi um dos mais importantes escritores e ilustradores da literatura infantil brasileira. Sua contribuição para esse campo foi imensurável. Com seu estilo único e criativo, Ziraldo encantou crianças de todas as idades ao criar obras que abordavam temas importantes de forma lúdica e acessível. Seus livros não apenas entretinham, mas também educavam, transmitindo valores como amizade, solidariedade, imaginação e autoestima.
O grande destaque de sua carreira na literatura infantil é o livro "O Menino Maluquinho", publicado em 1980. Essa obra se tornou um verdadeiro marco na literatura brasileira, conquistando leitores de todas as idades com sua história leve, divertida e cheia de aventuras. Sua capacidade de dialogar com as crianças de forma direta e inteligente fez dele um dos autores mais queridos do Brasil, deixando um legado duradouro na literatura infantil nacional.
Fonte: Educa Mais Brasil, “Quem foi Ziraldo e qual a sua importância para a cultura brasileira?”, publicado por Samara Rodrigues em 09 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo | CNN Brasil
Cartunista, ilustrador, escritor e um dos grandes nomes da cultura brasileira, Ziraldo morreu neste sábado (6), aos 91 anos.
A informação da morte foi confirmada pela família. Ele faleceu enquanto dormia em sua residência, no Rio de Janeiro.
O artista deixa como legado livros infantis, charges afiadas e alguns dos personagens mais famosos do Brasil -- dentre eles, o Menino Maluquinho, amado por gerações de crianças.
Relembre algumas das principais obras que marcaram a carreira de Ziraldo:
"O Menino Maluquinho"
Neste clássico da literatura infantil brasileira, Ziraldo nos apresenta seu personagem mais famoso: o Menino Maluquinho. O livro de 1980 conta a história de um garoto traquina e alegre, que gosta de inventar brincadeiras e tem o costume de usar uma panela na cabeça.
Desde então, a obra já ganhou filmes e séries inspirados no personagem.
"A Turma do Pererê"
Foi com "A Turma do Pererê" que Ziraldo pulicou a primeira revista em quadrinhos com um só autor no Brasil, em 1960. As histórias eram inspiradas em personagens do folclore brasileiro, como o saci pererê, e foram publicadas até 1964, ano no qual a ditadura militar suspendeu a revista por considerá-la "subversiva".
"Flicts"
O primeiro livro infantil publicado por Ziraldo, de 1969, conta a história de uma cor que não se encaixa no arco-íris, chamada "flicts". A obra traz reflexões para as crianças sobre aceitar as diferenças e promover a igualdade.
"Uma Professora Muito Maluquinha"
Neste livro, publicado em 1995, Ziraldo conta a história de uma professora diferente do normal, que com sua didática e seus métodos divertidos pode ser mal interpretada pelos adultos, mas encanta os alunos e faz com que eles aprendam enquanto se divertem. A obra também já ganhou adaptação para os cinemas, estrelando Paolla Oliveira.
"O Bichinho da Maçã"
O livro de 1982 conta a história de um bichinho que morava dentro de uma maçã e contava histórias incríveis, que faziam os animais se reunirem debaixo da macieira só para ouvir. Um dia, a maçã que ele chama de casa é colhida, e o bicho tem que usar sua inteligência para escapar.
"O Joelho Juvenal"
De 1983, neste livro de Ziraldo conhecemos Juvenal, o joelho de um menino que adorava brincar e, por isso mesmo, vive sempre ralado, esfolado e machucado. Mesmo assim, Juvenal é muito feliz e gosta de se divertir com seu dono.
"Meninas"
Para escrever "Meninas", Ziraldo se inspirou em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, que traz no centro da narrativa uma menina curiosa que decide explorar outro mundo. Neste livro, o cartunista brasileiro decide retratar as meninas, seres encantados que duram apenas dos 7 aos 11 anos, mas ao invés de sumir dão origem às mulheres.
"O Menino Marrom"
De 1986, o livro de Ziraldo conta a história de um menino marrom e de seu amigo, um menino cor-de-rosa. Os dois querem descobrir juntos o mistério das cores, e acabam por aprender sobre diversidade, respeito e a amizade entre pessoas diferentes.
Fonte: CNN Brasil, “Além de "O Menino Maluquinho", relembre principais obras de Ziraldo”, publicado por Fernanda Pinotti em 06 de abril de 2024. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.
Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho' | BBC
O Menino Maluquinho, Flicts,O Joelho Juvenal… São inúmeras as criações de Ziraldo que não só povoam o imaginário infantil por gerações como têm um reconhecimento acadêmico de grandeza e qualidade.
Para especialistas, ele já é um clássico e sua obra pertence ao primeiro escalão do cânone cultural brasileiro.
Nascido em Caratinga (MG) há exatos 90 anos, Ziraldo Alves Pinto está recluso. Sua saúde debilitou-se bastante depois de três acidentes vasculares cerebrais sofrido de 2018 para cá.
De acordo com a família, por ordens médicas, ele não pode conceder entrevistas.
O que não impede que amigos e fãs celebrem seu aniversário com alegria e, principalmente, reconhecimento.
Neste mês O Menino Maluquinho se tornou série de animação do serviço de streaming Netflix, há o relançamento, em edições especial, de duas de suas obras — O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
E ainda um livro-homenagem, preparado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Em um dos seus mais recentes vídeos, gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatido. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
Ziraldo virou "o Velhinho Maluquinho".
Em depoimento por escrito enviado à reportagem, o quadrinista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica comentou que "falar do Ziraldo é chover no molhado", já que "todo mundo tem um grande carinho por ele e seus personagens".
Mauricio cita a obra de ambos para ressaltar que "nossa história se entrelaça junto com as crianças e nossos personagens".
"Ziraldo sempre diz que o mais importante é ler. Mas para que isso aconteça, cada vez mais, é preciso ter autores como ele para arrebatar milhões de crianças leitoras", comenta ele, desejando "90 anos de sorrisos e muito mais" ao amigo e colega de profissão.
A cartunista Laerte define Ziraldo como "uma referência total, um mestre".
"Por todos os motivos possíveis. Ele é alguém que fez parte da formação de todos nós, cartunistas e quadrinistas da geração seguinte, vamos dizer", comenta.
"E sempre foi uma pessoa muito disponível: sempre nos recebeu, sempre nos ajudou, sempre nos apoiou e deu opinião. É uma pessoa que sempre foi muito aberta."
Ela diz que Ziraldo é alguém "que nunca se atrapalhou com nada, jamais teve qualquer empecilho como autor, como artista gráfico, como pessoa absolutamente genial". "Ele presta atenção aos detalhes em que é bom prestar atenção. E ensinou a gente a prestar atenção nessas coisas", afirma.
Renomado autor de best-sellers infantojuvenis, Pedro Bandeira acredita que "o talento, o patriotismo e a coragem de Ziraldo construíram um Brasil bem maior".
Bandeira diz que acompanha o trabalho do cartunista desde a sua própria infância.
"Até tornar-me seu amigo, acompanho os talentos deste artista desde meus 10 anos, curtindo seus trabalhos como quadrinista, escritor, jornalista, caricaturista, ilustrador e, principalmente, como patriota. E olhe que, quando eu tinha 10 anos, Ziraldo tinha apenas 20 e já era um quadrinista de primeira!", afirma.
"Logo, quando a ditadura arrasava e dentre seus ataques impunha-nos uma censura que me prejudicava especialmente, porque eu vivia do jornalismo e atuava como ator de teatro, Ziraldo publicou o mais lindo poema gráfico da história do Brasil: Flicts, que veio para dar força aos injustiçados, aos exilados, aos expropriados pelo fascismo brasileiro", acrescenta Bandeira, sobre o livro que conta a história de uma cor que não era aceita pelas outras.
Segundo o escritor, em Flicts Ziraldo enxugou "nossa lágrima, ao dizer que, em algum lugar, talvez na Lua, ainda haveria esperança para nosso desespero".
"Quando eu lia o livro para meu filho, parecia ouvir a voz do Ziraldo: 'Calma, a arte um dia vencerá a injustiça'. Eu entendi, Ziraldo. E há de vencer novamente", diz.
Bandeira avalia que "Ziraldo é mestre, mas não é imitável".
"Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica. Numa Bienal ou numa feira de livros, Ziraldo é cercado pelas crianças e adultos que o leem como se fosse um Papai Noel distribuindo brinquedos", analisa.
"E ele aceita ficar por horas autografando para seus leitores, tirando fotos e fazendo caricaturas nos livrinhos."
"Todos nós, escritores para crianças e jovens, somos fãs do auditório do Ziraldo", acrescenta.
"Os textos de Ziraldo não têm vilões. Todos seus pequenos heróis, como o Menino Maluquinho, flutuam pelas histórias como se dançassem em seus próprios sonhos. Só Ziraldo sabe como as crianças sonham", comenta Bandeira.
O escritor comenta que desde a pandemia está "enfurnado" mas que tem saudades de conviver com o amigo.
"Falamos por telefone, trocamos carinhos, mas nada consola minha vontade de ouvir novamente sua voz, ver seu sorriso quando acolhe algum leitorzinho de olhos arregalados de admiração", diz.
"Nós, que o amamos, jamais poderemos oferecer tanto amor quanto ele já espalhou pelo Brasil."
Presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, José Alberto Lovetro, mais conhecido como JAL, define Ziraldo como alguém que "tem o DNA da cultura brasileira".
"Não só por sua arte no humor gráfico, mas também por criar personagens que invadem a vida das pessoas como se fossem da família de cada um. Agrada crianças de até 100 anos de idade", comenta.
JAL conta que quando era bastante jovem encantou-se pelo jornal 'O Pasquim', semanário alternativo que circulou durante a ditadura militar e que teve Ziraldo no time.
"Quando eu era ainda garoto já era absorvido pelo Pasquim. De ameba fui descobrindo o que era política. E Ziraldo sabe conquistar a inteligência das pessoas", recorda.
"Fiquei inebriado por aquela linguagem engraçada e ao mesmo tempo cheia de estilo. Virei desenhista."
Trajetória de sucesso
Responsável pela publicação da obra dele na Editora Melhoramentos, a editora Leila Bortolazzi avalia que trabalhar com ele "nunca foi muito complicado".
"Mas claro que, como todo artista compulsivo, obsessivo em atingir a perfeição, ele costumava fazer várias revisões em textos e ilustrações", lembra ela.
"Tudo era muito bem cuidado, ia e voltava, sempre era assim."
Ela recorda que antes de o trabalho ser feito por meio de digitalização, "era sempre um evento" quando, com a pastinha debaixo do braço, o autor ia pessoalmente até a editora para levar seu trabalho e defender as ilustrações.
"Quando chegava um livro novo dele era sempre uma novidade, porque ele sempre foi muito criativo, muito original, muito único. Acho que isso faz a obra dele ser tão perene: a originalidade, a criatividade dele", comenta.
"Fica até difícil comparar, não tem como falar 'tem influência disso e daquilo'. Ele é muito original mesmo, seu trabalho e seu traço é único e bem marcante."
Bortolazzi começou a trabalhar na Melhoramentos em 1981, ou seja, sua trajetória na empresa é praticamente tão longa quanto o sucesso de Ziraldo no mundo dos livros — O Menino Maluquinho, seu maior sucesso, foi lançado em 1980; hoje acumula 18 edições, 135 reimpressões e já vendeu mais de 4,1 milhões de exemplares.
Com mais de 200 livros publicados, Ziraldo tem diversos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de 500 mil exemplares. Menina Nina, de 2002, 140 mil. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. O Planeta Lilás, de 1984, 200 mil. O Menino Quadradinho, de 1989, 120 mil. Flicts, de 1984, mais de meio milhão de exemplares.
Ziraldo começou sua carreira em 1954 no jornal Folha da Manhã — hoje Folha de S. Paulo. Ele tinha uma coluna de humor. Depois passou pela revista O Cruzeiro e pelo Jornal do Brasil. Em 1960 lançou o primeiro gibi brasileiro feito por um só autor, a Turma do Pererê — a publicação acabou descontinuada a partir de 1964, por conta da ditadura militar.
Durante o regime autoritário, foi um dos idealizadores e parte integrante da equipe do semanário de contracultura O Pasquim, que fez sucesso e acabou marcando uma geração. Ele acabou sendo preso no dia seguinte à promulgação do Ato Institucional Número 5, em dezembro de 1968.
Figura sempre ligada à esquerda, ele foi membro do Partido Comunista Brasileira. Em 2005 ele se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e desenhou o logo da agremiação. Nas últimas eleições, declarou apoio a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e, na última, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Sucesso de crítica
Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro Articulação Textual na Literatura Infantil e Juvenil, Leonor Werneck dos Santos considera "impossível falar de literatura infantil brasileira sem falar de Ziraldo".
"Ele deu grande impulso à literatura infantil no Brasil, trouxe a literatura infantil para um lugar de destaque, inclusive academicamente", avalia.
Ela acredita que isso se deu por um conjunto de fatores, como a criatividade, a atualidade dos temas, a "linguagem que toca fundo no leitor de todas as idades, "o traço e o projeto gráfico que parecem tão simples mas são cuidadosamente pensados e dialogam com a proposta de cada livro".
"Tudo faz com que a obra ultrapasse a época em que é produzida. Por isso se torna um clássico", afirma Santos.
Criadora do projeto Grandes Livrinhos, no Instagram (@grandeslivrinhos), a jornalista Giovana Franzolin acredita que são muitas as razões que fazem da obra de Ziraldo tão importante para as crianças — e resistentes ao tempo, conseguindo ter o mesmo peso hoje que tinha quando os sucessos foram criados, décadas atrás.
"Entendo que isso acontece porque os personagens retratam uma infância atemporal, de criança arteira, feliz, com alegrias, dificuldades... não é tão somente a infância dele próprio ou uma infância datada, tem um pouco da infância de todo mundo", comenta ela.
"Além disso, ele fala com a criança sem didatismo, sem ser moralizante, mesmo abordando temas mais 'cabeludos'. Ele consegue desenvolver qualquer temática com leveza, sensibilidade e criatividade. Por exemplo, vejo que o Menino Maluquinho, o personagem mais emblemático e mais conhecido, é uma alegoria da infância, a criança sapeca e 'maluquinha', que não era nada mais que uma criança feliz."
Franzolin aponta algumas características do autor como fundamentais para definir sua genialidade. Primeiro, o pioneirismo, pois ele escreveu "para o universo da literatura infantil numa década em que o mercado mal existia". E também pelo cuidado com os aspectos gráficos. Nesse sentido, ela ressalta que Flicts foi uma obra "disruptiva, ousada para a época".
"Além disso, pelo conjunto da obra. São dezenas e dezenas de títulos representando uma densidade impressionante para qualquer autor", aponta a jornalista.
"Mas mais do que tudo, creio que Ziraldo se consolidou por saber como nenhum outro representar a infância, com seus prazeres e agruras. Ele consegue representá-la com seriedade e leveza, ao mesmo tempo em que não foge de temas mais difíceis ou tabus, como morte, separação dos pais, rejeição... Ele toca a alma das crianças e dialoga com elas como nenhum outro, no meu ponto de vista. E ao fazer isso, emociona também os adultos, reacende neles as memórias das próprias infâncias."
A jornalista comenta que Ziraldo, mesmo com 90 anos, "parece um eterno menino".
"Escreve com naturalidade, fala da infância sem esforço", diz.
"Interesso-me em especial pelo texto, me emociona toda vez que leio. Apresenta camadas de interpretação, de subjetividade, que captamos conforme a maturidade e o momento da vida."
Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a professora de literatura Vânia Maria Resende diz que a "grandeza de Ziraldo está na singularidade da linguagem plástica genial, vibrante, forte, exuberante". E, não só. Também "na força da poesia e do humor em equilíbrio", na "dimensão lúdica que flui em sintonia com a naturalidade infantil".
"Acrescente-se a isso, o diálogo versátil de seus livros com repertório de textos visuais, gráficos, verbais dos mais diferentes autores e fontes, não restritamente infantis, o que abre amplas perspectivas culturais para os leitores", diz ela, que é autora dos livros Ziraldo e o Livro para Crianças e Jovens no Brasil e O Menino na Literatura Brasileira.
"Além da beleza visual que é fator de sedução estética, importante observar a riqueza simbólica, até mesmo de narrativas aparentemente mais simples, o que significa dizer que sua literatura não se reduz a mero entretenimento. Finalmente, destaco a grandeza do poder de comunicação da obra do artista com leitores de diferentes idades, não apenas os infantis."
Resende acredita que "a concepção peculiar de livro infantil de Ziraldo" é o seu maior legado. Esse conceito foi favorecido "por traços específicos da sua formação de escritor-desenhista-artista gráfico" e, ao mesmo tempo, compatível "com o pensamento complexo da contemporaneidade". Para ela, Flicts é o marco desse formato, afirmando-se com "a peculiaridade do estilo verbo-visual, de direcionamento de leitura simultaneísta, com apoio semiótico, diferentemente da pura leitura linguística."
Para a pesquisadora Monica Rebecca Ferrari Nunes, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e doutora em semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), "Ziraldo trabalha com personagens que têm universalidade". E isso explica a "força de seus personagens", de "forma que esses textos que ele constrói são longevos na cultura".
"Há uma emoção quase que universal que possibilita a permanência através do tempo", comenta ela.
Nunes ainda ressalta a habilidade do autor na "hibridização da linguagem".
"Ele faz a mistura de signos em que o verbal vai se misturando ao imagético, e o imagético ao verbal. E constrói uma linguagem de alta complexidade que, ao mesmo tempo, tem um efeito muito rápido na compreensão", comenta ela.
Fonte: BBC, “Ziraldo, 90 anos: a genialidade da obra do 'velhinho maluquinho'”, publicado por Edison Veiga, em 24 de outubro de 2022.
Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país | BBC
Morreu neste sábado (6/4), aos 91 anos, Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário infantil há gerações.
Ziraldo morreu em sua casa, um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro, de acordo com canal Globonews, que cita informações de sua família.
Formado em direito, ele foi cartunista, chargista, escritor, pintor, dramaturgo, cronista, apresentador e humorista, entre outras atividades ao longo de mais de seis décadas de carreira.
Sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica.
Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele, Ziraldo comentou que não estava triste, ao se desculpar pela voz um tanto abatida. Era a idade que havia chegado.
"Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho", disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. "Mas eu estou alegre, estou feliz da vida."
No mesmo ano, negou ele mesmo um boato de que teria morrido ao publicar uma foto em sua conta no Instagram, dizendo estar “firme e forte”. Ao ser procurado por jornais para comentar o boato, disse estar “ocupado demais celebrando a vida”.
De Caratinga para o mundo
Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.
O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos.
O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.
Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.
Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.
Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
Charge política
Se 1968 ficou conhecido como “o ano que não acabou”, nas palavras do contemporâneo Zuenir Ventura, o de 1969 marcaria para sempre a carreira de Ziraldo.
Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.
Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.
Ziraldo ainda se tornaria o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.
Antes do fim daquele ano, publicaria ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.
Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.
O pai do Menino Maluquinho
Nas décadas seguintes, Ziraldo passaria a se dedicar mais a sua outra grande paixão, as histórias para crianças, que devorava desde menino em Caratinga. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras.
O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.
Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers.
Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.
Atuação política
Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo.
Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Em 2008, Ziraldo e mais vinte jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura, entre os quais o colega Jaguar, tiveram seu processo de indenização aprovado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.
O cartunista foi indenizado em mais de R$ 1 milhão, além de receber uma pensão vitalícia de cerca de R$ 4 mil reais. Criticado por alguns colunistas na época, disse que o Brasil lhe devia indenização.
“Eu quero que morra quem está me criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o [ex-presidente João] Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery [do Couto e Silva, general chefe da Casa Civil no governo Geisel]. Então, qualquer crítica que se fizer em relação ao que está acontecendo conosco eu estou me lixando”, disse na época ao jornal O Globo.
Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.
Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.
Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.
Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.
Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.
Combate à ditadura e prisões
Durante a ditadura militar (1964-1985), Ziraldo continuou a publicar suas charges e cartuns políticos e, mais do que isso, tornou-se uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia.
Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.
No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral O Pasquim, semanário de humor que virou um fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.
No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal seriam presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu.
Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. "Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo", disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.
Na ocasião, o cartunista também comentou sobre sua tentativa de ressuscitar o jornal em 2002, como “O Pasquim 21”. Apesar de ter durado até 2004, o projeto se somaria à lista de fiascos editoriais em que investiu, como as revistas "Palavra" e "Bundas", uma sátira ao sucesso da “Caras”, em 1999. Depois dessas experiências, disse ter desistido do jornalismo. "Cansei de levar porrada. Eu sou o rei dos bons projetos e dos fracassos econômicos."
Reconhecimento internacional
Dois anos depois, o cartunista, seu irmão, Zélio Alves Pinto, e outras dez pessoas foram condenadas pela Justiça Federal do Paraná por improbidade administrativa e registro indevido de marca durante a realização do Festival Internacional do Humor Gráfico das Cataratas do Iguaçu (Festhumor), em 2003.
Ziraldo foi condenado a dois anos, dois meses e 20 dias de reclusão, além do pagamento de multa. Mas o juiz trocou a prisão por prestação de serviço à comunidade ou entidades públicas, e o pagamento de um salário mínimo mensal pelo mesmo período da pena. "É uma dessas desgraças que acontecem na vida. Um sujeito com a minha biografia tem de enfrentar uma praga dessas", disse ele ao G1.
Legado
Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos. Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins.
Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo - Histórias e Causos.
Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins.
A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.
"O Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai", disse Daniela durante o lançamento. "Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva."
Autor de best-sellers infanto-juvenis, Pedro Bandeira definiu Ziraldo à época como “um mestre, mas não imitável". "Ninguém pode ser Ziraldo. Quando ele ilustra, o livro inteiro cresce, explode e se magnifica”.
Homenagens
Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo neste sábado.
O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos "maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país".
"São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão", escreveu o presidente.
O criador da Turma da Mônica, Maurício de Souza, também lamentou a morte de Ziraldo. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!", escreveu.
Alguns times de futebol do país também prestaram homenagem ao cartunista nas redes sociais, como Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista.
Fonte: BBC, “Morre Ziraldo, o pai do Menino Maluquinho e um dos maiores cartunistas do país”, publicado por Amauri Arrais, em 6 de abril de 2024.
Crédito fotográfico: UOL, imagem de Ana Colla. Consultado pela última vez em 15 de setembro de 2026.