Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 7 de agosto de 1894 — Rio de Janeiro, 27 de março de 1973) foi uma escultora, desenhista, gravurista, pintora, escritora e musicista brasileira. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira, por vezes chamada de vezes chamada de Frida Kahlo brasileira, sendo aclamada no exterior e abraçada por surrealistas. Maria colaborou para a realização das primeiras Bienais Internacionais de São Paulo e é figura importante no processo de criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras.
Biografia - Itaú Cultural
Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.
Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins (1884-1965). Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se com o escultor belga Oscar Jespers (1887-1970). Em 1939, muda-se para os Estados Unidos; inicialmente para Washington e, depois, para Nova York, onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York, onde apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, produzidos em materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano, estabelece ateliê em Nova York. Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas ao seu trabalho.
A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Por causa dessa mostra, conhece expoentes do surrealismo, como o crítico e escritor francês André Breton (1896-1966), o pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968) e o artista alemão Max Ernst (1891-1976). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazônia, é um verdadeiro sucesso. A artista continua a trabalhar com temas advindos de tradições e mitos brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, procedimento característico de outros artistas surrealistas.
Na obra Impossível (1944), que ganha várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, sugerindo os limites da união plena entre os seres3. Nesse sentido, certos animais, como a cobra e a aranha, saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista.
Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery. A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que escreve: "Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. [...] Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente"4. A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês.
Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Ajuda na organização da I Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não é bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata.
Sua última exposição individual transcorre em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa se dá em clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista5. No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900-1981) e Murilo Mendes (1901-1975). Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica, entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China.
Com uma carreira nacional e internacional sólida, Maria Martins se inscreve como um nome de referência da arte brasileira.
Críticas
"As esculturas que Maria expõe atualmente em Nova York acusam ainda mais a preocupação de despojamento e não deixam de situá-la nos antípodas de uma arte que - ao lado de Brancusi, Arp e Giacometti - não cessou nestes trinta anos de ressecar o intelectualismo. Em Hasard Hagard, Sur Doute, a despedida dada ao anedótico é tal que não se poderia de modo algum interpretar como uma mudança de orientação sua. E sim que (o importante é que) a démarche de Maria a trouxe do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazê-la percorrer o caminho inverso, o qual, sabe-se, só possui emboscadas e engodos. É, nunca se repetirá o suficiente, o universo que deve ser interrogado em primeiro lugar e a partir do homem e não o homem a partir do universo. O que prenuncia os grandes acordes acrobáticos de Maria, o tour de force dessa maleabilidade total no rígido, não é a 'cera perdida', SÃO AS SEIVAS" — André Breton (Maria Martins. A Phala - Revista do Movimento Surrealismo. v. 1, p. 112-113.)
"As expansões e contrações orgânicas da escultura de Maria Martins - ela, de fato, a única a ter tido ligação com o movimento surrealista - apontam para outra área de interesse do fantástico. Importa, antes de tudo, reconhecer a obstinação dessa obra marcada pelo excesso, pela profusão incontrolável de uma figuração discursiva num contexto - o do Brasil dos anos 50 - que se esforça por impor uma visualidade regida por princípios abstratos, racionais e generalizantes, que devem dar conta da desordem originária da realidade brasileira.
A obra de Maria faz o trabalho inverso: expressa ingenuamente essa desordem em dois tipos de figuração. A primeira, apresentando-se como inconsciente mítico da própria alma brasileira, surgida do esforço tortuoso de materialização de uma natureza generosa e exuberante, mas ao mesmo tempo inculta e indomável. É significativo observar aqui a série de obras que a artista dedicou à Amazônia. A segunda, irrompendo como o desrepresamento do inconsciente psicológico, entregue despudoradamente à transcrição quase retórica de suas imagens. Em ambas, a crença de poder materializar imediatamente o inconsciente transbordante, uma natureza primordial que se vai instalar como viscosidade insondável num mundo ordenado e controlado. Por essa falta de comedimento, essa quase deselegância, Mário Pedrosa apontou a ausência de monumentalidade em sua escultura. Aspira a algo grande, majestoso, mas se dilacera na impossibilidade da própria grandeza de seu discurso. Por isso, vive nesse limiar, sempre a um passo além ou aquém da escultura: vive nessa dúvida, desejando incessantemente ostentar uma potência que a ultrapasse até o infinito" — Sônia Salzstein e Ivo Mesquita (Imaginários singulares. In: IMAGINÁRIOS singulares. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987. p. 18.)
"Os volumes na sua escultura, em bronze, metal polido ou madeira, não têm consistência, articulação ou hierarquia de planos. Tendem a igualar-se uns aos outros, tratados como se fossem apenas uma superfície escorrida ou uma superfície porosa. (...) Em fases posteriores, os volumes maciços esvaziam-se, abrem-se brechas neles e o espaço circundante tende a penetrá-los. É quando a escultora melhor se realiza. Dá-nos, então, uma trama feita de galhos, de lianas, de troncos em que a sensualidade do material escolhido, poroso, verdoengo, numa consistência de pau podre, exprime, com menos derrames sentimentais e mais plasticamente, seu espírito torturado" — Mário Pedrosa (Maria a escultora. In: BIENAL BRASIL SÉCULO XX. Catálogo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994. p. 145-146.)
Depoimentos
"Pouco importa essa ou aquela forma de expressão desde que o artista transmita a mensagem que é sua e em seu idioma próprio, e não use essa espécie de 'modismo', muitas vezes responsável pela grande pobreza de artistas de real valor. Para melhor me explicar diria que, para mim, quando em uma pintura ou escultura ressalta à primeira vista a escola ou movimento a que pretende filiar o seu autor, sem que tal escultura ou tal pintura desperte maior interesse de admiração ou mesmo de repulsa, essa obra não passa de 'modismo' e morrerá, ainda que conheça sucesso momentâneo." — Maria Martins (Rio de Janeiro: MAM, 1956)
Exposições Individuais
1941 - Washington (Estados Unidos) - Individual, na Corcoram Art Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1944 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1946 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Julien Lery Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Maria: recent sculptures, na Julien Lery Gallery
1949 - Paris (França) - Individual, na Galerie René Drouin
1950 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na ABI/RJ
1950 - São Paulo SP - Individual, no MAM/SP
1956 - Rio de Janeiro RJ - Maria, no MAM/RJ
Exposições Coletivas
1940 - Filadélfia (Estados Unidos) - Coletiva, na International Philadelphia
1941 - Nova York (Estados Unidos) - 3ª Latin America Exhibition of Fine Arts
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Hommage Fait à Rodin, na Buchhlz Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1944 - Ohio (Estados Unidos) - Religious Art of Today, na Dayton Ohio
1946 - Saint Louis (Estados Unidos) - Origins of Modern Sculpture, na City Art of St. Louis
1947 - Paris (França) - Exposition International e Surréaliste, na Galerie Maeght
1949 - Paris (França) - De Rodin à Nos Jours, na Maison de la Culture Française
1949 - Salzburgo (Áustria) - A Música e as Artes Plásticas
1951 - São Paulo SP - 1ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão do Trianon - artista convidada
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - 2º prêmio escultura
1954 - São Paulo SP - Arte Contemporânea: exposição do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1955 - São Paulo SP - 3ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - prêmio melhor escultor nacional
1959 - Leverkusen (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1959 - Munique (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa, no Kunsthaus
1959 - Viena (Áustria) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Hamburgo (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Lisboa (Portugal) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Madri (Espanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Paris (França) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Utrecht (Holanda) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1967 - São Paulo SP - 1ª Exposição Surrealista, no Teatro Itália
Exposições Póstumas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1978 - Rio de Janeiro RJ - Escultura Brasileira no Espaço Urbano: 50 anos
1979 - São Paulo SP - 15ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1982 - São Paulo SP - Um Século de Escultura no Brasil, no Masp
1984 - Petrópolis RJ - Individual, no Palácio de Cristal
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1985 - Belo Horizonte MG - Rio: vertente construtiva, no MAP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Rio: vertente surrealista, na Galeria de Arte Banerj
1985 - São Paulo SP - A Arte do Imaginário, na Galeria Encontro das Artes
1985 - São Paulo SP - Rio: vertente construtiva, no MAC/USP
1987 - São Paulo SP - 19ª Bienal Internacional de São Paulo - Sala Imaginários Singulares, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - As Bienais no Acervo do MAC: 1951 a 1985, no MAC/USP
1987 - Paris (França) - Modernidade: arte brasileira do século XX, no Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
1988 - Nova York (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no The Bronx Museum of the Arts
1988 - São Paulo SP - MAC 25 anos: destaques da coleção inicial, no MAC/USP
1988 - São Paulo SP - Modernidade: arte brasileira do século XX, no MAM/SP
1989 - El Paso (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no El Paso Museum of Art
1989 - San Diego (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no San Diego Museum of Art
1989 - San Juan (Porto Rico) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Instituto de Cultura Puertorriqueña
1990 - Miami (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Center for the Fine Arts Miami Art Museum of Date
1992 - Poços de Caldas MG - Arte Moderna Brasileira: acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, na Casa da Cultura de Poços de Caldas
1992 - São Paulo SP - A Sedução dos Volumes: os tridimensionais do MAC, no MAC/USP
1992 - Zurique (Suíça) - Brasilien: entdeckung und selbstentdeckung, no Kunsthaus
1993 - Rio de Janeiro RJ - Brasil 100 Anos de Arte Moderna, no MNBA
1994 - São Paulo SP - Arte Moderna Brasileira: uma seleção da Coleção Roberto Marinho, no Masp
1994 - São Paulo SP - Bienal Brasil Século XX, na Fundação Bienal
1996 - São Paulo SP - Arte Brasileira: 50 anos de história no acervo MAC/USP: 1920-1970, no MAC/USP
1996 - São Paulo SP - Mulheres Artistas no Acervo do MAC, no MAC/USP
1997 - Florianópolis SC - 5º Salão Nacional Victor Meirelles, no Masc
1997 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: retrospectiva, na Galeria Jean Boghici
1997 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Espaço Cultural Safra
1997 - São Paulo SP - Maria Martins, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1997 - São Paulo SP - O Mistério das Formas, no MAC/USP
1997 - São Paulo SP - Tridimensionalidade na Arte Brasileira do Século XX, no Itaú Cultural
1997 - Washington D. C. (Estados Unidos) - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Centro Cultural do BID
1998 - Nova York (Estados Unidos) - The Surrealist Sculpture of Maria Martins, na André Emmerich Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no MAM/RJ
1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - Lima (Peru) - Mostra Brasil 500 Anos, no Museu Pedro de Osma
1999 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: Les sculptures surréalistes des annés 40, na Galeria Jean Boghici
2000 - Brasília DF - Exposição Brasil Europa: encontros no século XX, no Conjunto Cultural da Caixa
2000 - Lisboa (Portugal) - Século 20: arte do Brasil, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Arte Moderna, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: da pinacoteca ao Jardim da Luz, na Pinacoteca do Estado
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Guggenheim Museum
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum
2001 - Rio de Janeiro RJ - Surrealismo, no CCBB
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2004 - Rio de Janeiro RJ - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial
2004 - São Paulo SP - O Preço da Sedução: do espartilho ao silicone, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no MAM/SP
Fonte: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: Itaú Cultural. Acesso em: 10 de setembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Biografia - Wikipédia
Nasceu em Campanha (Minas Gerais) em 07 de agosto de 1894, filha de Cosmo, Senador, Ministro da Justiça da Velha República e membro da Academia Brasileira de Letras, e Fernandina de Faria Alves, sendo avós paternos João Luís Alves e Bárbara Luísa Barbosa Alves e avós maternos Fernando Antônio de Faria e Maria Vitória Pereira de Faria tendo sido declarante o Pai e testemunha Dr. Euclides da Cunha e Otávio Barbosa Carneiro.
Casou-se, a primeira vez com o jurista e historiador Otávio Tarquínio de Sousa, de quem se separou, casando a segunda vez com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, gaúcho que era colega de infância de Getúlio Vargas - de quem a artista se tornaria amiga - e que, tal qual ela, gostava de festas e da vida mundana. Carlos Martins foi embaixador do Brasil, no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial, tendo servido no Japão e também na Europa. Carlos e Maria tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro. Mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos.
Inicialmente, interessou-se pela música. Depois, estudou pintura em Paris; mas, aos trinta anos, se interessou pela escultura. Ainda na França, começou a trabalhar a madeira e, no Japão, aprendeu a modelar terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, realizou estudos de escultura com Oscar Jesper, em Bruxelas, passando a utilizar o bronze, que tornou, daí em diante, a ser o principal suporte à sua obra. No Brasil, sua presença maior se deu na Bienal de São Paulo, da qual participou desde o primeiro evento, em 1951. Na Bienal de 1955, chegou o reconhecimento, ao ser premiada com o título de melhor escultor nacional, com a obra om “A soma dos nossos dias”. Contudo, foi no exterior que se destacou. Em 1941 teve sua primeira mostra, em Washington, e, no mesmo ano, expôs em Paris e no Rio de Janeiro. Fixou seu ateliê em Nova Iorque e foi destaque na Corcoran Gallery of Art, em Washington, sendo que um dos trabalhos expostos foi adquirido pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Estava aberto o caminho. Nomes influentes passaram a se interessar por ela e, em breve, suas esculturas começaram a fazer parte do acervo de importantes colecionadores, como Max Jimenez, da Costa Rica, Federico Cantu, do México e Mário Carreño, de Cuba.
Em 1968, numa entrevista dada a Clarice Lispector, declarou: "Um dia me deu vontade de talhar madeira e saiu um objeto que eu amei. E depois desse dia me entreguei de corpo e alma à escultura. Primeiro, em terracota, depois mármore, depois cera perdida que não tem limitações". Suas esculturas apresentam formas orgânicas, contorcidas, sensuais, que evocam culturas arcaicas, inspiradas em lendas e na natureza amazônica, com o que atraíram a atenção de surrealistas como André Breton, o autor do Manifesto surrealista, que escreve apresentação de exposição e convida a mineira a integrar-se ao grupo, Max Ernest, Roberto Matta, Yves Tanguy, Chagall, entre outros. Marcel Duchamp lhe dedicou duas obras, como testemunho do impacto da beleza e da sensibilidade vibrante da artista. Artista influenciada pelo surrealismo, as suas obras foram reconhecidas internacionalmente, possuindo obras na seção de Arte Moderna do Museu de Arte da Filadélfia e também no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), Museu de Arte Moderna Do Rio de Janeiro (MAM) , Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Paço das Artes da USP; também encontram-se trabalhos no Rio de Janeiro, Palácio do Planalto em Brasília e ainda em países como a França e a Bélgica. No Palácio Itamaraty, em Brasília, há duas esculturas de sua autoria: "A mulher e sua sombra" e "O canto da noite".
No Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) está exposto "O Impossível", escultura de sua autoria datada de 1945.
Foi amante do pintor e escultor franco-estadunidense Marcel Duchamp e de Benito Mussolini, amiga de Picasso e Mondrian, entrevistou Mao Tsé Tung e fez, no início do século XX, coisas que eram impensáveis para uma mulher.
Tal dualidade é tangível na belíssima mostra Maria Martins: Desejo Imaginante, em cartaz no Masp, em São Paulo, até janeiro de 2022 — e, a partir de março seguinte, na Casa Roberto Marinho, no Rio. Em vez de domar os opostos dentro de si, Maria os alimentou e fez deles personagens. Inicialmente inspirada por lendas amazônicas, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, ela talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios e vulvas aparentes, ou serpentes lhes atando o corpo, num vislumbre da repressão que acaba vertida em tentação. “O trabalho da Maria é de um erotismo visceral. Ela lidou com questões do inconsciente e do desejo pela óptica da mulher, tema ainda caro à sociedade”, diz a curadora da mostra, Isabella Rjeille.
Chamada por apelidos descabidos, como “Frida Kahlo brasileira” ou “surrealista dos trópicos”, ou ainda reduzida ao posto de “amante de Duchamp” (manteve um caso por dez anos com o iconoclástico francês que transformou mictórios em arte), Maria foi uma artista singular e original. Com o perdão do clichê, estava à frente de seu tempo nos costumes e na arte — ela própria dizia não querer ser rotulada com “ismos”, em resposta à sua classificação compulsória entre os surrealistas após ser abraçada pelo pai do movimento, André Breton (1896-1966). A estética criada por ela era inédita para a época, mas compartilhava com amigos surrealistas como o espanhol Salvador Dalí e o francês Yves Tanguy a representação onírica de sonhos e pesadelos, que espelhavam os horrores da II Guerra Mundial. Décadas mais tarde, curiosamente, o terror pop de produções como o filme
O Labirinto do Fauno e a série Stranger Things exibiria uma notável correspondência com o visual de suas deusas e monstros.
Aluna do escultor belga Oscar Jespers e do lituano Jacques Lipchitz, Maria flertou no início da carreira no exterior com o desejo de reafirmar sua nacionalidade. Esculpiu lendas folclóricas e criou seres inspirados em lianas — os cipós tão comuns em florestas tropicais. Era arte para gringo ver. Ao se desprender do estereótipo de estrangeira no Primeiro Mundo, ela enfim mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico. É sua melhor fase.
Nasce então uma marcante série de peças chamada O Impossível (1944 a 1949) — duas das quais integram a exposição do Masp. As esculturas consistem em uma criatura feminina e outra masculina lançando tentáculos de suas cabeças em busca de conexão. O encaixe não acontece. A alegoria de uma relação insaciável, mas proibida, é associada ao romance com Marcel Duchamp (1887-1968), com quem ela teve uma prolífica relação profissional de apoio e influência mútuos. Ao voltar para o Brasil, na década de 50, já consagrada nos Estados Unidos, Maria se impôs como um nome incontornável da produção artística mundial. Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais inicialmente torceram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel que Maria viria a exercer como mediadora entre artistas europeus e museus brasileiros: ela viabilizou a vinda de quadros de Picasso para a II Bienal de Arte, de 1953.
Foi só no século XXI que Maria alcançou um lugar de deferência no Brasil. “Há um resgate das obras dela pelo olhar de mulheres, que hoje ocupam o lugar da crítica masculina da época”, diz a curadora. Uma das peças mais impressionantes da mostra é a imponente
However!!, figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura. Um monstro sagrado que exige respeito — assim como sua criadora.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Biografia - E-biografia
Maria Martins (1894-1973) foi uma escultora brasileira que chocou o país com suas figuras sensuais e perturbadoras. Foi apelidada de “surrealista dos trópicos” e “Frida Kahlo brasileira”.
Maria de Lourdes Alves Martins nasceu em Campanha, Minas Gerais, no dia 7 de agosto de 1894. Seu pai, Cosmo, foi senador, Ministro da Justiça da Velha República e Membro da Academia Brasileira de Letras. Sua mãe, Fernandina de Faria Alves era pianista.
Maria Martins foi aluna do Colégio Sion em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde aprendeu francês. Estudou também música e pintura.
Em 1915, casou-se com o historiador Otávio Tarquino de Souza, autor de obras sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. O casal teve duas filhas, mas apenas uma delas sobreviveu. A relação do casal terminou em 1925.
Carreira no exterior
Em 1926, Maria Martins perdeu o pai, iniciou-se na escultura e casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza a quem acompanhou em seus deslocamentos profissionais. No governo de Getúlio Vargas, o diplomata foi nomeado embaixador em Compenhague e depois em Tóquio, onde Maria se apaixonou pela cerâmica japonesa.
Em 1936, morando na Bélgica, Maria Martins aperfeiçoou-se na escultura estudando com o escultor belga Oscar Jespers.
Entre 1939 e 1948 o casal viveu em Washington, onde Maria decidiu se dedicar totalmente à escultura. Das 7 da manhã às seis da tarde, se instalava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira.
Maria Martins fez trabalhos de grandes dimensões em madeira, além de prosseguir com a cerâmica. Suas primeiras exposições foram realizadas em instituições públicas na Filadélfia e em Nova Iorque em 1940.
Em 1941, Maria Martins fez sua primeira exposição individual, intitulada “Maria”, na Corcoran Gallery of Art, em Washington. Na mostra, apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos usando diversos materiais, como gesso, madeira, terracota e bronze.
Em 1942, Maria alugou um estúdio na Park Avenue em Nova Iorque. Expôs na Valentine Gallery na qual apresentou formas oníricas de inspiração surrealista em bronze. Sua obra “São Francisco” foi adquirida pelo Museum of Art e “Yara” foi adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
No ano seguinte, a Valentine Gallery fez outra exposição da artista intitulada “Maria: News Sculptures”, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela escultora também chamado Amazônia. Entre elas destaca-se Uirapuru:
Nessa época, a artista conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova Iorque, durante os anos de guerra, que se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim, entre eles estavam Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian
Entre 1944, Maria deu início a uma série de peças chamada “O Impossível”, entre elas, destaca-se Amor Proibido, uma figura masculina e outra feminina que lançam tentáculos de suas cabeças em busca de conexão.
A relação de Maria com Duchamp se intensificou e ela se tornou modelo de diversas obra, entre elas, Étant Donnés. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme, na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
A inspiração vinda das lendas amazônicas evoluiu para uma mitologia própria e composições imponentes, como However, uma figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura.
Em 1948, Carlos Martins foi nomeado embaixador em Paris. Maria alugou um ateliê na Villa d’Alesia, que se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Sua primeira exposição individual em Paris foi acompanhada da publicação do livro “Les Statues Magiques de Marie, com ensaios de André Breton e Michel Tapié. Na França, Maria teve mais duas filhas.
Retorno ao Brasil
Em 1949, Carlos Martins se aposentou e o casal retornou para o Brasil. No ano seguinte, Maria preparou sua primeira grande exposição no país, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com 36 esculturas.
Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais viraram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel de mediadora que exerceu entre os artistas europeus e os museus brasileiros.
Sua última individual foi realizada em 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), instituição que ajudou a fundar.
Em 1959, ela concluiu a grande escultura O Rito do Ritmo, que foi instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Outras de suas obras estão instaladas nos jardins do Palácio do Itamaraty.
Em 1960 começou a escrever uma coluna para o jornal Correio da Manhã, chamada “Poeiras da Vida”, quando entrevistava figuras notáveis da sociedade. Em 1964 ficou viúva. Em 1970 foi convidada para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília, mas não chegou a concluir a obra
Características da obra de Maria Martins
Inicialmente Maria Martins esculpiu lendas amazônicas e criou seres inspirados nos cipós tão comuns em florestas tropicais, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, quando talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios aparentes ou serpentes lhe atando o corpo.
Ao de desprender das características, Maria mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico, atingindo sua melhor fase e a série “O Impossível”. Foi só no século XXI que Maria alcançou seu lugar de destaque no Brasil. Maria Martins faleceu no Rio de Janeiro, no dia 27 de março de 1973.
Fonte: Ebiografia, Por Dilva Frazão, bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental. Última atualização em 23 de maio de 2022. Consultado pela última vez em 9 de setembro de 2022.
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Revista Cult - Primeira escultora a explorar sexualidade no Brasil, Maria Martins é tema de documentário
“Maria é um exemplo bem sucedido do que foi um processo de libertação, autorrealização e emancipação de uma mulher na primeira metade do século 20, é uma pré-feminista”. Assim o diretor e roteirista Francisco Martins define a escultora Maria Martins (1894-1973). Ao lado da produtora e co-diretora Elisa Gomes, ele é responsável pelo documentário Maria, não esqueça que eu venho dos trópicos, que chegou neste mês aos cinemas brasileiros.
“Não existia um debate de afirmação de gênero, como existe hoje. Quando ela se divorciou a mulher nem votava no Brasil”, diz o diretor. “Maria teve uma força impressionante porque conseguiu romper esses cercos de opressão praticamente sozinha, com seus próprios meios, e colocou-se de igual para igual com outros artistas homens.”
A qualidade e radicalidade de sua obra são motivos que a tornam a maior escultora brasileira da primeira metade do século 20, diz o crítico Paulo Herkenhof. Maria foi uma das primeiras artistas brasieleiras a experimentar o caminho da sexualidade nas artes plásticas.
Suas esculturas são pouco convencionais, há figuras antropomórficas com tentáculos, deformações, membros alongados, genitálias desproporcionais, corpos tentando se fundir. Também são recorrentes as figuras de mitos, deuses e monstros das mitologias amazonenses e yorubás.
Elas são vistas por Herkenhoff como expressões da procura pela essência do desejo: “Ela aponta o vazio do qual somos feitos, a incompletude, a impossibilidade de nos completarmos e sempre tentarmos entender o mistério da sexualidade, da devoração mútua”, afirma o crítico durante o filme.
Essa busca pela essência erótica não pode ser separada da sua trajetória de vida, afirma a co-diretora e produtora Elisa Gomes. “Maria foi uma mulher que brigou pelo espaço dela porque era livre. O desejo que ela trabalha tem a ver não com o desejo relacionado ao sexo, mas como pulsão da vida. Ela vivia o desejo como essência.” O documentário caminha entre uma apresentação da sua biografia e de suas obras. A intenção foi apresentar Maria Martins a um público que, fora do meio especializado, a desconhece.
As duas vidas de Maria
Na França, a artista aprendeu a modelar na madeira; no Japão, em terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, em Bruxelas, passou a usar o bronze, principal matéria-prima adotada em suas obras posteriores. Casada com o embaixador Carlos Martins, estava acostumada a viajar o mundo, e ainda no início dos anos 1940 organizou suas primeiras exposições, montou um ateliê em Nova York e teve aulas com o escultor lituano Jacques Lipchitz.
Foi nessa época, inclusive, que conheceu Marcel Duchamp, com quem manteve um relacionamento amoroso e trocas artísticas. Maria Martins serviu, inclusive, de modelo para sua última obra, Étant donnés, e para a capa do catálogo Prière de toucher.
Apesar da vida em países estrangeiros, a artista nunca se esqueceu de onde veio, na opinião de Francisco Martins – daí o subtítulo do filme. “Desde 1922, havia essa proposta de descobrir o que seria uma cultura brasileira. Mas isso era feito dentro do estereótipo, no fundo de uma matriz colonizada europeia. Maria vai além e realmente registra essa exuberância de formas e de sexualidade num nível mais original, afirma o diretor Francisco Martins.
Quando retornou ao Brasil, na década de 1950, sua obra foi tratada com certa hostilidade pela crítica, que a considerava muito próxima do surrealismo e chegou a classificá-la como obscena. Em sua última individual, em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, teve inclusive que publicar um texto defendendo a liberdade de expressão do artista.
“Maria era uma mulher esclarecida e ficaria escandalizada com o que está acontecendo hoje no Brasil, pois mesmo que suas obras em certo momento fossem chamadas de obscenas, não eram censuradas e havia o espaço para o debate”, afirma Elisa Gomes.
Maria Martins também tem obras expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York e de São Francisco; no Museu de Arte da Filadélfia, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Fonte: Revista Cult, por Paulo Henrique Pompermaier em 24 de novembro de 2017. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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MAM - Maria Martins, A escultora dos trópicos e do surrealismo
A escultora Maria Martins (1894-1973) é uma artista importante do modernismo internacional. Começou sua carreira tardiamente, mas sua presença no cenário artístico foi marcante principalmente nos anos 1940 e 1950, quando viveu entre os EUA e a França e manteve colaboração com figuras como André Breton, Marcel Duchamp e Piet Mondrian. O crítico e historiador da arte Michel Seuphor se referiu a Maria Martins em livro de 1959 como “a grande escultora do surrealismo”. Seu trabalho, que inclui temática indígena brasileira, foi descrito como “poesia tropical”.
Ela nasceu em Campanha (MG), filha de mãe pianista e um advogado autodidata que se tornou senador e ministro da Justiça. Estudou em escola católica em Petrópolis (RJ), o Colégio Sion, com aulas em francês. Casou-se em 1915 com o historiador Otavio Tarquinio de Souza, autor de volumes sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. Teve duas filhas, Lucia Maria e Maísa, que morreu criança com meningite. Separou-se do marido em 1925.
No ano seguinte, perdeu o pai e casou-se com Carlos Martins Pereira e Souza, um diplomata brasileiro de carreira, a quem acompanha em seus deslocamentos profissionais. Tem uma terceira filha com ele, Theresa, que morre ao nascer. Nora Yolanda e Anna Maria Pia são as filhas que o casal tem nos anos seguintes, quando já morava na França.
No Governo Vargas, Carlos Martins se torna embaixador em Copenhagen e depois em Tóquio, onde Maria se apaixona pela cerâmica japonesa e estuda Zen Budismo. Em 1936, morando na Bélgica, Maria estuda escultura com Oscar Jespers e começa a trabalhar com terracota e fazer retratos.
Em 1939, Carlos é nomeado embaixador nos Estados Unidos, onde serve até 1948. Em Washington D.C., Maria decide se dedicar seriamente à escultura. Faz trabalhos de grandes dimensões em jacarandá e outras madeiras nativas do Brasil, além de prosseguir com a cerâmica. Em 1940, começa a expor em instituições públicas, na Filadélfia e em Nova York.
No ano seguinte, faz sua primeira exposição individual importante, intitulada apenas Maria, na Corcoran Gallery of Art, em Washington, recebendo críticas positivas. Nelson Rockefeller compra a escultura Christ para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Foi sua primeira obra a entrar na coleção de um museu norte-americano. Começa a aprender a esculpir em bronze com Jacques Lipchitz, recém-chegado de Paris, e quem ela conheceu numa viagem.
Em 1942, Maria aluga um estúdio na Park Avenue em Nova York. Torna-se amiga da escultora Mary Callery, através de quem conhece os arquitetos Mies van der Rohe e Philip Johnson. Faz sua primeira individual na cidade, na Valentine Gallery. Sua obra St. Francis é comprada pelo Metropolitan Museum of Art e outra, Yara, é adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
Em 1943, a Valentine Gallery faz duas exposições simultâneas: uma de Mondrian, intitulada Mondrian: New Paintings, e outra de Maria Martins, chamada Maria: News Sculptures, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela artista também chamado Amazônia. A maioria das esculturas foram vendidas e ela mesma adquiriu Broadway Boogie Woogie, de Mondrian, por US$ 800, que no mesmo ano doou para a coleção do MoMA.
Nessa época, conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova York que, durante os anos de guerra, se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim. Entre eles estavam Yves Tanguy, Max Ernst, Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian. Fernand Léger tornou-se um amigo próximo e desenhou esculturas dela numa visita a Maria em Washington.
Entre novas exposições individuais e estudos de impressão, a relação de Maria com Duchamp se intensifica e ela se torna modelo da obra Étant donnés, entre outras. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
Em 1948, Carlos passa a ser o embaixador do Brasil na França e o casal se muda para Paris. Maria aluga um estúdio na Villa d’Alesia, em frente ao estúdio de Brancusi, de quem se torna amiga próxima. Sua primeira exposição individual em Paris mereceu a publicação de um livro, Les Statues Magiques de Maria, com ensaios de André Breton e Michel Tapié.
Em 1949, Carlos se aposenta, o casal volta ao Brasil e Maria se prepara para sua primeira grande exposição no país, que acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1950, com 36 esculturas. Naqueles anos ela ajuda a organizar a primeira Bienal Internacional de São Paulo. Ganharia o primeiro prêmio na terceira Bienal.
Em 1952 Maria foi sócia benemérita e fez parte do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, exercendo um papel chave na formação de seu acervo. Uma retrospectiva de sua obra acontece no MAM Rio em 1956. Em 1959, ela conclui a grande escultura O Rito do ritmo, instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Uma miniatura dessa escultura foi distribuída como lembrança na inauguração da nova capital federal.
Outras obras suas estão nos jardins do Palácio Itamaraty. Nos anos 1960, Maria escreve uma coluna chamada “Poeiras da vida”, entrevistando figuras notáveis para o jornal “Correio da Manhã”. Fica viúva em 1964. Em 1970, é comissionada por Oscar Niemeyer para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília. Realiza os esboços, mas não chega a concluir a escultura. Morre aos 78 anos em sua casa no Rio de Janeiro.
De Maria Martins o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro possui uma obra-prima, a escultura em bronze O impossível (1945), em que duas figuras femininas de abraçam por tentáculos pontiagudos. Entre 1944 e 1949, ela criou diversas versões dessa escultura, em vários tamanhos e materiais. O exemplar que está no Museu de Arte Moderna de Nova York é O impossível, III, de 1946. Outra obra de Maria também está em comodato de longa duração no MAM. É uma escultura sem título, de bronze e mármore, de cerca de 1940, que faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio.
Em 22 de março de 1943, Maria Martins inaugurou sua terceira exposição individual, na Valentine Gallery, em Nova York. Maria: New Sculptures dividia o espaço da galeria com Mondrian: New Paintings. Às límpidas linhas verticais e horizontais, então coloridas e fragmentadas de Mondrian, Maria contrapunha suas escuras formas enredadas. Era a Amazônia que ela buscava figurar nesta mostra, não apenas em imagens, mas também em palavras: para acompanhar a exibição das peças, preparou um catálogo, em inglês, no qual narrava brevemente os mitos que envolviam as oito personagens apresentadas: Amazônia, Cobra Grande, Boiúna, Yara, Yemenjá, Aiokâ, Iacy e Boto.
Este conjunto de esculturas demarca uma mudança decisiva na concepção formal dos trabalhos de Maria Martins. Se antes suas peças tendiam a uma representação mais tradicional da figura humana, com contornos definidos, agora suas personagens, embora ainda reconhecíveis, se fundem a um emaranhado de folhas e galhos que fazem as vezes da floresta tropical. A figura humana começa, a partir de então, a se integrar à natureza, confundindo-se com esta e, em última instância, metamorfoseando-se nela.
Esta exposição busca flagrar as contínuas transformações da forma ao longo do desenvolvimento artístico de Maria Martins, não apenas nas esculturas, mas também nas pinturas, nos desenhos, nas gravuras que com aquelas dialogam. A ideia é mostrar como a desfiguração do humano, nesta obra, é sempre já o início da figuração de outra forma, que se aproxima ora do vegetal, ora do animal. Para tal, dividiu-se a exposição em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos, Esqueletos − determinados a partir de uma comunicação formal antes que cronológica. Os núcleos não se pretendem estanques, mas, pelo contrário, fluidos (a metamorfose não tem fim). Há obras que se encontram nas passagens de um a outro, que oscilam entre cá e lá.
Pontuam a exposição citações de Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Mário de Andrade, Raul Bopp, Flávio de Carvalho e Clarice Lispector. Quer-se, com elas, mostrar como a obra de Maria Martins estava em sintonia com todo um pensamento brasileiro moderno (não só modernista) da forma como formação incessante.
Completando a exibição das esculturas, das pinturas, dos desenhos e das gravuras, apresentam-se uma joia desenhada por Maria Martins e uma série de 17 cerâmicas, que pertenciam à sua casa de Petrópolis. A atividade da artista como escritora também está aqui contemplada, com seus três livros e os artigos publicados por ela no Correio da Manhã, estes últimos praticamente desconhecidos atualmente.
Trópicos
Antes da exposição de 1943, Maria Martins já vinha voltando sua atenção para temas brasileiros, mas ainda moldava seus Samba, Negra, Yara em formas convencionais. Obras como Yemenjá e Iacy, aqui exibidas, já sinalizam o entrelaçamento do elemento humano ao vegetal, embora as figuras representadas sejam ainda claramente discerníveis. Na passagem para o núcleo seguinte, N’oublies pas que je viens des tropiques e Glèbe-ailes, muito parecidas entre si, são variações de um corpo em plena transformação.
Lianas
Neste segundo conjunto de esculturas, há certa concentração nos elementos que eram secundários no primeiro: as formas enredadas que circundavam as figuras principais. Em Comme une liane, é a própria figura feminina que tem seus membros convertidos em algo semelhante a galhos flexíveis ou cipós. Prometheus e Orpheus – que fogem ao tema da floresta, mas não à forma ali ensaiada – se confundem com o entorno emaranhado do qual fazem parte. Na passagem, Hasard hagard e Sûr doute apontam para o estranhamento das formas do núcleo seguinte.
Deusas e Monstros
“Sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros / sempre te parecerão sensuais e bárbaros”, escreve Maria Martins no poema Explication, que integra a tiragem especial do catálogo da mostra de 1946, aqui exibido. Ao longo de sua carreira, Maria produziu uma série de deusas e monstros, nos quais a figura humana aparece transformada. Em Impossible, a escultura mais célebre deste núcleo, o caráter erótico da metamorfose se explicita: dois corpos, um feminino e um masculino, são impedidos de se aproximar totalmente em função das estranhas formas pontiagudas de suas cabeças, ao mesmo tempo em que parecem magneticamente – amorosamente – ligados para sempre. Na passagem, as bocas abertas de A tue-tête, O galo e Chanson en suspens antecipam os cantos mudos do próximo núcleo.
Cantos
Em seu livro sobre Nietzsche, Maria Martins demonstra especial admiração pelos cantos de Zaratustra. Em O canto da noite (título que ela toma emprestado para uma de suas esculturas), Nietzsche escreve: “Uma sede está em mim, insaciada e insaciável, que busca erguer a voz”. Em O canto do mar e na escultura sem título, as formas se tornam mais arredondadas, mais indefinidas, mais abstratas, numa possível tentativa de dar forma ao que não é palpável, como a voz. Calendário da eternidade e Très avide, por sua vez, sugerem as aberturas do corpo, pontos de dissolução da forma nos mistérios da profundeza informe: talvez bocas, talvez vulvas.
Esqueletos
De uma maneira geral, a obra de Maria Martins se voltou sobretudo para as formas orgânicas. No entanto, há um conjunto de trabalhos que tendem à forma do esqueleto, ou seja, que se concentram naquilo que, no organismo, bordeja o inorgânico. Brouillard noir e Tamba-tajá perdem corporalidade, se comparadas com outras esculturas suas, e se reduzem a ossaturas. Pourquoi toujours, que pode lembrar a forma de uma planta, é toda pontuada por pequenas caveiras. É como se Maria, barrocamente (e ironicamente), nos recordasse que o que resta do humano, ao fim das metamorfoses, são os ossos. Somente a eles corresponde talvez a utopia de uma forma final.
Fontes: MAM e MAM Rio, texto de Márion Strecker, curadoria Veronica Stigger, publicado em 10 de julho de 2013, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Revista Quem: Uma mulher de talentos
Maria Martins é mais lembrada por seus casos com Marcel Duchamp e Benito Mussolini e amizades com artistas como Picasso, André Breton e Mondrian. Uma biografia resgata a imagem da maior escultora brasileira
Alguns artistas acabam mais famosos por suas peripécias públicas e privadas do que por sua obra. A escultora Maria Martins (1895-1973) é um desses casos. Grã-fina e meio hippie, foi embaixatriz, amante do artista plástico francês Marcel Duchamp e do ditador italiano Benito Mussolini, amiga de artistas como Picasso, Fernand Léger, André Breton, Constantin Brancusi, Mondrian e do milionário Nelson Rockefeller. Ela entrevistou o chinês Mao Tsé-tung em Pequim, foi amiga dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Doou obras ao MAM do Rio e intermediou para o museu a aquisição de obras de Picasso, Alberto Giacometti e Léger. E em 1925 teve a coragem de se separar do primeiro marido, Octavio Tarquinio de Sousa.
Agora o livro Maria Martins - Uma Biografia, da jornalista Ana Arruda Callado, quer resgatar no Brasil a figura de Maria Martins como uma artista genial. Mesmo sendo a escultora brasileira mais conhecida no exterior, aqui ela ainda não é vista como deveria.
Em 2001, ao visitar uma mostra sobre surrealismo no Rio, Ana viu 18 esculturas de Maria Martins. "Depois de ver, mirar, admirar, saborear cada uma daquelas peças, uma indagação me ocorre e me dá uma sensação de revolta: por que até aquele momento mágico só ouvira falar de Maria Martins como embaixatriz ou amante de Marcel Duchamp?", escreve a autora na biografia.
Após iniciar suas pesquisas, Ana descobriu não ser a primeira a se encantar pelas obras da artista. O colecionador Gilberto Chateaubriand disse: 'As esculturas de Maria Martins são perfeitos retratos de sua autora: belas, exuberantes, sofisticadas e misteriosas.' Nada como o tempo para fazer justiça.
Fonte: Revista Época, por Guilherme Ravache. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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VEJA - A deusa e seus monstros: mostra no Masp resgata obra de Maria Martins
A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras
Em uma entrevista com ares de papo entre amigas, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e a escultora Maria Martins (1894-1973) trocaram experiências sobre a “carreira” de mulher de diplomata. Ambas se casaram com embaixadores da era Getúlio Vargas, no começo dos anos 40, e passaram anos fora do Brasil. O ambiente social rigoroso exigia que as embaixatrizes ostentassem decoro e simpatia. Clarice e Maria, porém, optaram pela fama de “diferentes”. “Como você, eu me refugiei na arte”, disse a artista mineira à autora. Das 7 da manhã às 6 da tarde, Maria se trancafiava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos — antes de alugar um espaço só dela em Nova York. À noite, dedicava-se aos compromissos sociais do marido, o embaixador Carlos Martins Pereira e Sousa. A vida dividida em duas partes, com a obrigação das aparências de um lado e seu “excesso de personalidade” (como viria a ser criticada) do outro, fez de Maria uma figura que, assim como suas esculturas de formas monstruosas e sensuais, hipnotizava e repelia com a mesma intensidade.
Fonte: Revista Veja, por Raquel Carneiro Atualizado em 27 ago 2021, Publicado em 27 ago 2021. Consultado pela última vez em 8 de setembro de 2022.
Crédito fotográfico: Revista Veja, foto por Elisa Gomes, de Maria Martins, escultora dos trópicos.
Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 7 de agosto de 1894 — Rio de Janeiro, 27 de março de 1973) foi uma escultora, desenhista, gravurista, pintora, escritora e musicista brasileira. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira, por vezes chamada de vezes chamada de Frida Kahlo brasileira, sendo aclamada no exterior e abraçada por surrealistas. Maria colaborou para a realização das primeiras Bienais Internacionais de São Paulo e é figura importante no processo de criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras.
Biografia - Itaú Cultural
Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.
Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins (1884-1965). Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se com o escultor belga Oscar Jespers (1887-1970). Em 1939, muda-se para os Estados Unidos; inicialmente para Washington e, depois, para Nova York, onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York, onde apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, produzidos em materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano, estabelece ateliê em Nova York. Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas ao seu trabalho.
A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Por causa dessa mostra, conhece expoentes do surrealismo, como o crítico e escritor francês André Breton (1896-1966), o pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968) e o artista alemão Max Ernst (1891-1976). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazônia, é um verdadeiro sucesso. A artista continua a trabalhar com temas advindos de tradições e mitos brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, procedimento característico de outros artistas surrealistas.
Na obra Impossível (1944), que ganha várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, sugerindo os limites da união plena entre os seres3. Nesse sentido, certos animais, como a cobra e a aranha, saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista.
Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery. A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que escreve: "Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. [...] Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente"4. A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês.
Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Ajuda na organização da I Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não é bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata.
Sua última exposição individual transcorre em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa se dá em clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista5. No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900-1981) e Murilo Mendes (1901-1975). Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica, entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China.
Com uma carreira nacional e internacional sólida, Maria Martins se inscreve como um nome de referência da arte brasileira.
Críticas
"As esculturas que Maria expõe atualmente em Nova York acusam ainda mais a preocupação de despojamento e não deixam de situá-la nos antípodas de uma arte que - ao lado de Brancusi, Arp e Giacometti - não cessou nestes trinta anos de ressecar o intelectualismo. Em Hasard Hagard, Sur Doute, a despedida dada ao anedótico é tal que não se poderia de modo algum interpretar como uma mudança de orientação sua. E sim que (o importante é que) a démarche de Maria a trouxe do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazê-la percorrer o caminho inverso, o qual, sabe-se, só possui emboscadas e engodos. É, nunca se repetirá o suficiente, o universo que deve ser interrogado em primeiro lugar e a partir do homem e não o homem a partir do universo. O que prenuncia os grandes acordes acrobáticos de Maria, o tour de force dessa maleabilidade total no rígido, não é a 'cera perdida', SÃO AS SEIVAS" — André Breton (Maria Martins. A Phala - Revista do Movimento Surrealismo. v. 1, p. 112-113.)
"As expansões e contrações orgânicas da escultura de Maria Martins - ela, de fato, a única a ter tido ligação com o movimento surrealista - apontam para outra área de interesse do fantástico. Importa, antes de tudo, reconhecer a obstinação dessa obra marcada pelo excesso, pela profusão incontrolável de uma figuração discursiva num contexto - o do Brasil dos anos 50 - que se esforça por impor uma visualidade regida por princípios abstratos, racionais e generalizantes, que devem dar conta da desordem originária da realidade brasileira.
A obra de Maria faz o trabalho inverso: expressa ingenuamente essa desordem em dois tipos de figuração. A primeira, apresentando-se como inconsciente mítico da própria alma brasileira, surgida do esforço tortuoso de materialização de uma natureza generosa e exuberante, mas ao mesmo tempo inculta e indomável. É significativo observar aqui a série de obras que a artista dedicou à Amazônia. A segunda, irrompendo como o desrepresamento do inconsciente psicológico, entregue despudoradamente à transcrição quase retórica de suas imagens. Em ambas, a crença de poder materializar imediatamente o inconsciente transbordante, uma natureza primordial que se vai instalar como viscosidade insondável num mundo ordenado e controlado. Por essa falta de comedimento, essa quase deselegância, Mário Pedrosa apontou a ausência de monumentalidade em sua escultura. Aspira a algo grande, majestoso, mas se dilacera na impossibilidade da própria grandeza de seu discurso. Por isso, vive nesse limiar, sempre a um passo além ou aquém da escultura: vive nessa dúvida, desejando incessantemente ostentar uma potência que a ultrapasse até o infinito" — Sônia Salzstein e Ivo Mesquita (Imaginários singulares. In: IMAGINÁRIOS singulares. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987. p. 18.)
"Os volumes na sua escultura, em bronze, metal polido ou madeira, não têm consistência, articulação ou hierarquia de planos. Tendem a igualar-se uns aos outros, tratados como se fossem apenas uma superfície escorrida ou uma superfície porosa. (...) Em fases posteriores, os volumes maciços esvaziam-se, abrem-se brechas neles e o espaço circundante tende a penetrá-los. É quando a escultora melhor se realiza. Dá-nos, então, uma trama feita de galhos, de lianas, de troncos em que a sensualidade do material escolhido, poroso, verdoengo, numa consistência de pau podre, exprime, com menos derrames sentimentais e mais plasticamente, seu espírito torturado" — Mário Pedrosa (Maria a escultora. In: BIENAL BRASIL SÉCULO XX. Catálogo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994. p. 145-146.)
Depoimentos
"Pouco importa essa ou aquela forma de expressão desde que o artista transmita a mensagem que é sua e em seu idioma próprio, e não use essa espécie de 'modismo', muitas vezes responsável pela grande pobreza de artistas de real valor. Para melhor me explicar diria que, para mim, quando em uma pintura ou escultura ressalta à primeira vista a escola ou movimento a que pretende filiar o seu autor, sem que tal escultura ou tal pintura desperte maior interesse de admiração ou mesmo de repulsa, essa obra não passa de 'modismo' e morrerá, ainda que conheça sucesso momentâneo." — Maria Martins (Rio de Janeiro: MAM, 1956)
Exposições Individuais
1941 - Washington (Estados Unidos) - Individual, na Corcoram Art Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1944 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1946 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Julien Lery Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Maria: recent sculptures, na Julien Lery Gallery
1949 - Paris (França) - Individual, na Galerie René Drouin
1950 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na ABI/RJ
1950 - São Paulo SP - Individual, no MAM/SP
1956 - Rio de Janeiro RJ - Maria, no MAM/RJ
Exposições Coletivas
1940 - Filadélfia (Estados Unidos) - Coletiva, na International Philadelphia
1941 - Nova York (Estados Unidos) - 3ª Latin America Exhibition of Fine Arts
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Hommage Fait à Rodin, na Buchhlz Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1944 - Ohio (Estados Unidos) - Religious Art of Today, na Dayton Ohio
1946 - Saint Louis (Estados Unidos) - Origins of Modern Sculpture, na City Art of St. Louis
1947 - Paris (França) - Exposition International e Surréaliste, na Galerie Maeght
1949 - Paris (França) - De Rodin à Nos Jours, na Maison de la Culture Française
1949 - Salzburgo (Áustria) - A Música e as Artes Plásticas
1951 - São Paulo SP - 1ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão do Trianon - artista convidada
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - 2º prêmio escultura
1954 - São Paulo SP - Arte Contemporânea: exposição do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1955 - São Paulo SP - 3ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - prêmio melhor escultor nacional
1959 - Leverkusen (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1959 - Munique (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa, no Kunsthaus
1959 - Viena (Áustria) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Hamburgo (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Lisboa (Portugal) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Madri (Espanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Paris (França) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Utrecht (Holanda) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1967 - São Paulo SP - 1ª Exposição Surrealista, no Teatro Itália
Exposições Póstumas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1978 - Rio de Janeiro RJ - Escultura Brasileira no Espaço Urbano: 50 anos
1979 - São Paulo SP - 15ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1982 - São Paulo SP - Um Século de Escultura no Brasil, no Masp
1984 - Petrópolis RJ - Individual, no Palácio de Cristal
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1985 - Belo Horizonte MG - Rio: vertente construtiva, no MAP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Rio: vertente surrealista, na Galeria de Arte Banerj
1985 - São Paulo SP - A Arte do Imaginário, na Galeria Encontro das Artes
1985 - São Paulo SP - Rio: vertente construtiva, no MAC/USP
1987 - São Paulo SP - 19ª Bienal Internacional de São Paulo - Sala Imaginários Singulares, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - As Bienais no Acervo do MAC: 1951 a 1985, no MAC/USP
1987 - Paris (França) - Modernidade: arte brasileira do século XX, no Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
1988 - Nova York (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no The Bronx Museum of the Arts
1988 - São Paulo SP - MAC 25 anos: destaques da coleção inicial, no MAC/USP
1988 - São Paulo SP - Modernidade: arte brasileira do século XX, no MAM/SP
1989 - El Paso (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no El Paso Museum of Art
1989 - San Diego (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no San Diego Museum of Art
1989 - San Juan (Porto Rico) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Instituto de Cultura Puertorriqueña
1990 - Miami (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Center for the Fine Arts Miami Art Museum of Date
1992 - Poços de Caldas MG - Arte Moderna Brasileira: acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, na Casa da Cultura de Poços de Caldas
1992 - São Paulo SP - A Sedução dos Volumes: os tridimensionais do MAC, no MAC/USP
1992 - Zurique (Suíça) - Brasilien: entdeckung und selbstentdeckung, no Kunsthaus
1993 - Rio de Janeiro RJ - Brasil 100 Anos de Arte Moderna, no MNBA
1994 - São Paulo SP - Arte Moderna Brasileira: uma seleção da Coleção Roberto Marinho, no Masp
1994 - São Paulo SP - Bienal Brasil Século XX, na Fundação Bienal
1996 - São Paulo SP - Arte Brasileira: 50 anos de história no acervo MAC/USP: 1920-1970, no MAC/USP
1996 - São Paulo SP - Mulheres Artistas no Acervo do MAC, no MAC/USP
1997 - Florianópolis SC - 5º Salão Nacional Victor Meirelles, no Masc
1997 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: retrospectiva, na Galeria Jean Boghici
1997 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Espaço Cultural Safra
1997 - São Paulo SP - Maria Martins, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1997 - São Paulo SP - O Mistério das Formas, no MAC/USP
1997 - São Paulo SP - Tridimensionalidade na Arte Brasileira do Século XX, no Itaú Cultural
1997 - Washington D. C. (Estados Unidos) - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Centro Cultural do BID
1998 - Nova York (Estados Unidos) - The Surrealist Sculpture of Maria Martins, na André Emmerich Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no MAM/RJ
1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - Lima (Peru) - Mostra Brasil 500 Anos, no Museu Pedro de Osma
1999 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: Les sculptures surréalistes des annés 40, na Galeria Jean Boghici
2000 - Brasília DF - Exposição Brasil Europa: encontros no século XX, no Conjunto Cultural da Caixa
2000 - Lisboa (Portugal) - Século 20: arte do Brasil, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Arte Moderna, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: da pinacoteca ao Jardim da Luz, na Pinacoteca do Estado
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Guggenheim Museum
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum
2001 - Rio de Janeiro RJ - Surrealismo, no CCBB
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2004 - Rio de Janeiro RJ - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial
2004 - São Paulo SP - O Preço da Sedução: do espartilho ao silicone, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no MAM/SP
Fonte: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: Itaú Cultural. Acesso em: 10 de setembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Biografia - Wikipédia
Nasceu em Campanha (Minas Gerais) em 07 de agosto de 1894, filha de Cosmo, Senador, Ministro da Justiça da Velha República e membro da Academia Brasileira de Letras, e Fernandina de Faria Alves, sendo avós paternos João Luís Alves e Bárbara Luísa Barbosa Alves e avós maternos Fernando Antônio de Faria e Maria Vitória Pereira de Faria tendo sido declarante o Pai e testemunha Dr. Euclides da Cunha e Otávio Barbosa Carneiro.
Casou-se, a primeira vez com o jurista e historiador Otávio Tarquínio de Sousa, de quem se separou, casando a segunda vez com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, gaúcho que era colega de infância de Getúlio Vargas - de quem a artista se tornaria amiga - e que, tal qual ela, gostava de festas e da vida mundana. Carlos Martins foi embaixador do Brasil, no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial, tendo servido no Japão e também na Europa. Carlos e Maria tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro. Mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos.
Inicialmente, interessou-se pela música. Depois, estudou pintura em Paris; mas, aos trinta anos, se interessou pela escultura. Ainda na França, começou a trabalhar a madeira e, no Japão, aprendeu a modelar terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, realizou estudos de escultura com Oscar Jesper, em Bruxelas, passando a utilizar o bronze, que tornou, daí em diante, a ser o principal suporte à sua obra. No Brasil, sua presença maior se deu na Bienal de São Paulo, da qual participou desde o primeiro evento, em 1951. Na Bienal de 1955, chegou o reconhecimento, ao ser premiada com o título de melhor escultor nacional, com a obra om “A soma dos nossos dias”. Contudo, foi no exterior que se destacou. Em 1941 teve sua primeira mostra, em Washington, e, no mesmo ano, expôs em Paris e no Rio de Janeiro. Fixou seu ateliê em Nova Iorque e foi destaque na Corcoran Gallery of Art, em Washington, sendo que um dos trabalhos expostos foi adquirido pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Estava aberto o caminho. Nomes influentes passaram a se interessar por ela e, em breve, suas esculturas começaram a fazer parte do acervo de importantes colecionadores, como Max Jimenez, da Costa Rica, Federico Cantu, do México e Mário Carreño, de Cuba.
Em 1968, numa entrevista dada a Clarice Lispector, declarou: "Um dia me deu vontade de talhar madeira e saiu um objeto que eu amei. E depois desse dia me entreguei de corpo e alma à escultura. Primeiro, em terracota, depois mármore, depois cera perdida que não tem limitações". Suas esculturas apresentam formas orgânicas, contorcidas, sensuais, que evocam culturas arcaicas, inspiradas em lendas e na natureza amazônica, com o que atraíram a atenção de surrealistas como André Breton, o autor do Manifesto surrealista, que escreve apresentação de exposição e convida a mineira a integrar-se ao grupo, Max Ernest, Roberto Matta, Yves Tanguy, Chagall, entre outros. Marcel Duchamp lhe dedicou duas obras, como testemunho do impacto da beleza e da sensibilidade vibrante da artista. Artista influenciada pelo surrealismo, as suas obras foram reconhecidas internacionalmente, possuindo obras na seção de Arte Moderna do Museu de Arte da Filadélfia e também no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), Museu de Arte Moderna Do Rio de Janeiro (MAM) , Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Paço das Artes da USP; também encontram-se trabalhos no Rio de Janeiro, Palácio do Planalto em Brasília e ainda em países como a França e a Bélgica. No Palácio Itamaraty, em Brasília, há duas esculturas de sua autoria: "A mulher e sua sombra" e "O canto da noite".
No Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) está exposto "O Impossível", escultura de sua autoria datada de 1945.
Foi amante do pintor e escultor franco-estadunidense Marcel Duchamp e de Benito Mussolini, amiga de Picasso e Mondrian, entrevistou Mao Tsé Tung e fez, no início do século XX, coisas que eram impensáveis para uma mulher.
Tal dualidade é tangível na belíssima mostra Maria Martins: Desejo Imaginante, em cartaz no Masp, em São Paulo, até janeiro de 2022 — e, a partir de março seguinte, na Casa Roberto Marinho, no Rio. Em vez de domar os opostos dentro de si, Maria os alimentou e fez deles personagens. Inicialmente inspirada por lendas amazônicas, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, ela talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios e vulvas aparentes, ou serpentes lhes atando o corpo, num vislumbre da repressão que acaba vertida em tentação. “O trabalho da Maria é de um erotismo visceral. Ela lidou com questões do inconsciente e do desejo pela óptica da mulher, tema ainda caro à sociedade”, diz a curadora da mostra, Isabella Rjeille.
Chamada por apelidos descabidos, como “Frida Kahlo brasileira” ou “surrealista dos trópicos”, ou ainda reduzida ao posto de “amante de Duchamp” (manteve um caso por dez anos com o iconoclástico francês que transformou mictórios em arte), Maria foi uma artista singular e original. Com o perdão do clichê, estava à frente de seu tempo nos costumes e na arte — ela própria dizia não querer ser rotulada com “ismos”, em resposta à sua classificação compulsória entre os surrealistas após ser abraçada pelo pai do movimento, André Breton (1896-1966). A estética criada por ela era inédita para a época, mas compartilhava com amigos surrealistas como o espanhol Salvador Dalí e o francês Yves Tanguy a representação onírica de sonhos e pesadelos, que espelhavam os horrores da II Guerra Mundial. Décadas mais tarde, curiosamente, o terror pop de produções como o filme
O Labirinto do Fauno e a série Stranger Things exibiria uma notável correspondência com o visual de suas deusas e monstros.
Aluna do escultor belga Oscar Jespers e do lituano Jacques Lipchitz, Maria flertou no início da carreira no exterior com o desejo de reafirmar sua nacionalidade. Esculpiu lendas folclóricas e criou seres inspirados em lianas — os cipós tão comuns em florestas tropicais. Era arte para gringo ver. Ao se desprender do estereótipo de estrangeira no Primeiro Mundo, ela enfim mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico. É sua melhor fase.
Nasce então uma marcante série de peças chamada O Impossível (1944 a 1949) — duas das quais integram a exposição do Masp. As esculturas consistem em uma criatura feminina e outra masculina lançando tentáculos de suas cabeças em busca de conexão. O encaixe não acontece. A alegoria de uma relação insaciável, mas proibida, é associada ao romance com Marcel Duchamp (1887-1968), com quem ela teve uma prolífica relação profissional de apoio e influência mútuos. Ao voltar para o Brasil, na década de 50, já consagrada nos Estados Unidos, Maria se impôs como um nome incontornável da produção artística mundial. Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais inicialmente torceram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel que Maria viria a exercer como mediadora entre artistas europeus e museus brasileiros: ela viabilizou a vinda de quadros de Picasso para a II Bienal de Arte, de 1953.
Foi só no século XXI que Maria alcançou um lugar de deferência no Brasil. “Há um resgate das obras dela pelo olhar de mulheres, que hoje ocupam o lugar da crítica masculina da época”, diz a curadora. Uma das peças mais impressionantes da mostra é a imponente
However!!, figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura. Um monstro sagrado que exige respeito — assim como sua criadora.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Biografia - E-biografia
Maria Martins (1894-1973) foi uma escultora brasileira que chocou o país com suas figuras sensuais e perturbadoras. Foi apelidada de “surrealista dos trópicos” e “Frida Kahlo brasileira”.
Maria de Lourdes Alves Martins nasceu em Campanha, Minas Gerais, no dia 7 de agosto de 1894. Seu pai, Cosmo, foi senador, Ministro da Justiça da Velha República e Membro da Academia Brasileira de Letras. Sua mãe, Fernandina de Faria Alves era pianista.
Maria Martins foi aluna do Colégio Sion em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde aprendeu francês. Estudou também música e pintura.
Em 1915, casou-se com o historiador Otávio Tarquino de Souza, autor de obras sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. O casal teve duas filhas, mas apenas uma delas sobreviveu. A relação do casal terminou em 1925.
Carreira no exterior
Em 1926, Maria Martins perdeu o pai, iniciou-se na escultura e casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza a quem acompanhou em seus deslocamentos profissionais. No governo de Getúlio Vargas, o diplomata foi nomeado embaixador em Compenhague e depois em Tóquio, onde Maria se apaixonou pela cerâmica japonesa.
Em 1936, morando na Bélgica, Maria Martins aperfeiçoou-se na escultura estudando com o escultor belga Oscar Jespers.
Entre 1939 e 1948 o casal viveu em Washington, onde Maria decidiu se dedicar totalmente à escultura. Das 7 da manhã às seis da tarde, se instalava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira.
Maria Martins fez trabalhos de grandes dimensões em madeira, além de prosseguir com a cerâmica. Suas primeiras exposições foram realizadas em instituições públicas na Filadélfia e em Nova Iorque em 1940.
Em 1941, Maria Martins fez sua primeira exposição individual, intitulada “Maria”, na Corcoran Gallery of Art, em Washington. Na mostra, apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos usando diversos materiais, como gesso, madeira, terracota e bronze.
Em 1942, Maria alugou um estúdio na Park Avenue em Nova Iorque. Expôs na Valentine Gallery na qual apresentou formas oníricas de inspiração surrealista em bronze. Sua obra “São Francisco” foi adquirida pelo Museum of Art e “Yara” foi adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
No ano seguinte, a Valentine Gallery fez outra exposição da artista intitulada “Maria: News Sculptures”, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela escultora também chamado Amazônia. Entre elas destaca-se Uirapuru:
Nessa época, a artista conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova Iorque, durante os anos de guerra, que se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim, entre eles estavam Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian
Entre 1944, Maria deu início a uma série de peças chamada “O Impossível”, entre elas, destaca-se Amor Proibido, uma figura masculina e outra feminina que lançam tentáculos de suas cabeças em busca de conexão.
A relação de Maria com Duchamp se intensificou e ela se tornou modelo de diversas obra, entre elas, Étant Donnés. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme, na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
A inspiração vinda das lendas amazônicas evoluiu para uma mitologia própria e composições imponentes, como However, uma figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura.
Em 1948, Carlos Martins foi nomeado embaixador em Paris. Maria alugou um ateliê na Villa d’Alesia, que se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Sua primeira exposição individual em Paris foi acompanhada da publicação do livro “Les Statues Magiques de Marie, com ensaios de André Breton e Michel Tapié. Na França, Maria teve mais duas filhas.
Retorno ao Brasil
Em 1949, Carlos Martins se aposentou e o casal retornou para o Brasil. No ano seguinte, Maria preparou sua primeira grande exposição no país, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com 36 esculturas.
Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais viraram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel de mediadora que exerceu entre os artistas europeus e os museus brasileiros.
Sua última individual foi realizada em 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), instituição que ajudou a fundar.
Em 1959, ela concluiu a grande escultura O Rito do Ritmo, que foi instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Outras de suas obras estão instaladas nos jardins do Palácio do Itamaraty.
Em 1960 começou a escrever uma coluna para o jornal Correio da Manhã, chamada “Poeiras da Vida”, quando entrevistava figuras notáveis da sociedade. Em 1964 ficou viúva. Em 1970 foi convidada para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília, mas não chegou a concluir a obra
Características da obra de Maria Martins
Inicialmente Maria Martins esculpiu lendas amazônicas e criou seres inspirados nos cipós tão comuns em florestas tropicais, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, quando talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios aparentes ou serpentes lhe atando o corpo.
Ao de desprender das características, Maria mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico, atingindo sua melhor fase e a série “O Impossível”. Foi só no século XXI que Maria alcançou seu lugar de destaque no Brasil. Maria Martins faleceu no Rio de Janeiro, no dia 27 de março de 1973.
Fonte: Ebiografia, Por Dilva Frazão, bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental. Última atualização em 23 de maio de 2022. Consultado pela última vez em 9 de setembro de 2022.
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Revista Cult - Primeira escultora a explorar sexualidade no Brasil, Maria Martins é tema de documentário
“Maria é um exemplo bem sucedido do que foi um processo de libertação, autorrealização e emancipação de uma mulher na primeira metade do século 20, é uma pré-feminista”. Assim o diretor e roteirista Francisco Martins define a escultora Maria Martins (1894-1973). Ao lado da produtora e co-diretora Elisa Gomes, ele é responsável pelo documentário Maria, não esqueça que eu venho dos trópicos, que chegou neste mês aos cinemas brasileiros.
“Não existia um debate de afirmação de gênero, como existe hoje. Quando ela se divorciou a mulher nem votava no Brasil”, diz o diretor. “Maria teve uma força impressionante porque conseguiu romper esses cercos de opressão praticamente sozinha, com seus próprios meios, e colocou-se de igual para igual com outros artistas homens.”
A qualidade e radicalidade de sua obra são motivos que a tornam a maior escultora brasileira da primeira metade do século 20, diz o crítico Paulo Herkenhof. Maria foi uma das primeiras artistas brasieleiras a experimentar o caminho da sexualidade nas artes plásticas.
Suas esculturas são pouco convencionais, há figuras antropomórficas com tentáculos, deformações, membros alongados, genitálias desproporcionais, corpos tentando se fundir. Também são recorrentes as figuras de mitos, deuses e monstros das mitologias amazonenses e yorubás.
Elas são vistas por Herkenhoff como expressões da procura pela essência do desejo: “Ela aponta o vazio do qual somos feitos, a incompletude, a impossibilidade de nos completarmos e sempre tentarmos entender o mistério da sexualidade, da devoração mútua”, afirma o crítico durante o filme.
Essa busca pela essência erótica não pode ser separada da sua trajetória de vida, afirma a co-diretora e produtora Elisa Gomes. “Maria foi uma mulher que brigou pelo espaço dela porque era livre. O desejo que ela trabalha tem a ver não com o desejo relacionado ao sexo, mas como pulsão da vida. Ela vivia o desejo como essência.” O documentário caminha entre uma apresentação da sua biografia e de suas obras. A intenção foi apresentar Maria Martins a um público que, fora do meio especializado, a desconhece.
As duas vidas de Maria
Na França, a artista aprendeu a modelar na madeira; no Japão, em terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, em Bruxelas, passou a usar o bronze, principal matéria-prima adotada em suas obras posteriores. Casada com o embaixador Carlos Martins, estava acostumada a viajar o mundo, e ainda no início dos anos 1940 organizou suas primeiras exposições, montou um ateliê em Nova York e teve aulas com o escultor lituano Jacques Lipchitz.
Foi nessa época, inclusive, que conheceu Marcel Duchamp, com quem manteve um relacionamento amoroso e trocas artísticas. Maria Martins serviu, inclusive, de modelo para sua última obra, Étant donnés, e para a capa do catálogo Prière de toucher.
Apesar da vida em países estrangeiros, a artista nunca se esqueceu de onde veio, na opinião de Francisco Martins – daí o subtítulo do filme. “Desde 1922, havia essa proposta de descobrir o que seria uma cultura brasileira. Mas isso era feito dentro do estereótipo, no fundo de uma matriz colonizada europeia. Maria vai além e realmente registra essa exuberância de formas e de sexualidade num nível mais original, afirma o diretor Francisco Martins.
Quando retornou ao Brasil, na década de 1950, sua obra foi tratada com certa hostilidade pela crítica, que a considerava muito próxima do surrealismo e chegou a classificá-la como obscena. Em sua última individual, em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, teve inclusive que publicar um texto defendendo a liberdade de expressão do artista.
“Maria era uma mulher esclarecida e ficaria escandalizada com o que está acontecendo hoje no Brasil, pois mesmo que suas obras em certo momento fossem chamadas de obscenas, não eram censuradas e havia o espaço para o debate”, afirma Elisa Gomes.
Maria Martins também tem obras expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York e de São Francisco; no Museu de Arte da Filadélfia, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Fonte: Revista Cult, por Paulo Henrique Pompermaier em 24 de novembro de 2017. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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MAM - Maria Martins, A escultora dos trópicos e do surrealismo
A escultora Maria Martins (1894-1973) é uma artista importante do modernismo internacional. Começou sua carreira tardiamente, mas sua presença no cenário artístico foi marcante principalmente nos anos 1940 e 1950, quando viveu entre os EUA e a França e manteve colaboração com figuras como André Breton, Marcel Duchamp e Piet Mondrian. O crítico e historiador da arte Michel Seuphor se referiu a Maria Martins em livro de 1959 como “a grande escultora do surrealismo”. Seu trabalho, que inclui temática indígena brasileira, foi descrito como “poesia tropical”.
Ela nasceu em Campanha (MG), filha de mãe pianista e um advogado autodidata que se tornou senador e ministro da Justiça. Estudou em escola católica em Petrópolis (RJ), o Colégio Sion, com aulas em francês. Casou-se em 1915 com o historiador Otavio Tarquinio de Souza, autor de volumes sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. Teve duas filhas, Lucia Maria e Maísa, que morreu criança com meningite. Separou-se do marido em 1925.
No ano seguinte, perdeu o pai e casou-se com Carlos Martins Pereira e Souza, um diplomata brasileiro de carreira, a quem acompanha em seus deslocamentos profissionais. Tem uma terceira filha com ele, Theresa, que morre ao nascer. Nora Yolanda e Anna Maria Pia são as filhas que o casal tem nos anos seguintes, quando já morava na França.
No Governo Vargas, Carlos Martins se torna embaixador em Copenhagen e depois em Tóquio, onde Maria se apaixona pela cerâmica japonesa e estuda Zen Budismo. Em 1936, morando na Bélgica, Maria estuda escultura com Oscar Jespers e começa a trabalhar com terracota e fazer retratos.
Em 1939, Carlos é nomeado embaixador nos Estados Unidos, onde serve até 1948. Em Washington D.C., Maria decide se dedicar seriamente à escultura. Faz trabalhos de grandes dimensões em jacarandá e outras madeiras nativas do Brasil, além de prosseguir com a cerâmica. Em 1940, começa a expor em instituições públicas, na Filadélfia e em Nova York.
No ano seguinte, faz sua primeira exposição individual importante, intitulada apenas Maria, na Corcoran Gallery of Art, em Washington, recebendo críticas positivas. Nelson Rockefeller compra a escultura Christ para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Foi sua primeira obra a entrar na coleção de um museu norte-americano. Começa a aprender a esculpir em bronze com Jacques Lipchitz, recém-chegado de Paris, e quem ela conheceu numa viagem.
Em 1942, Maria aluga um estúdio na Park Avenue em Nova York. Torna-se amiga da escultora Mary Callery, através de quem conhece os arquitetos Mies van der Rohe e Philip Johnson. Faz sua primeira individual na cidade, na Valentine Gallery. Sua obra St. Francis é comprada pelo Metropolitan Museum of Art e outra, Yara, é adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
Em 1943, a Valentine Gallery faz duas exposições simultâneas: uma de Mondrian, intitulada Mondrian: New Paintings, e outra de Maria Martins, chamada Maria: News Sculptures, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela artista também chamado Amazônia. A maioria das esculturas foram vendidas e ela mesma adquiriu Broadway Boogie Woogie, de Mondrian, por US$ 800, que no mesmo ano doou para a coleção do MoMA.
Nessa época, conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova York que, durante os anos de guerra, se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim. Entre eles estavam Yves Tanguy, Max Ernst, Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian. Fernand Léger tornou-se um amigo próximo e desenhou esculturas dela numa visita a Maria em Washington.
Entre novas exposições individuais e estudos de impressão, a relação de Maria com Duchamp se intensifica e ela se torna modelo da obra Étant donnés, entre outras. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
Em 1948, Carlos passa a ser o embaixador do Brasil na França e o casal se muda para Paris. Maria aluga um estúdio na Villa d’Alesia, em frente ao estúdio de Brancusi, de quem se torna amiga próxima. Sua primeira exposição individual em Paris mereceu a publicação de um livro, Les Statues Magiques de Maria, com ensaios de André Breton e Michel Tapié.
Em 1949, Carlos se aposenta, o casal volta ao Brasil e Maria se prepara para sua primeira grande exposição no país, que acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1950, com 36 esculturas. Naqueles anos ela ajuda a organizar a primeira Bienal Internacional de São Paulo. Ganharia o primeiro prêmio na terceira Bienal.
Em 1952 Maria foi sócia benemérita e fez parte do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, exercendo um papel chave na formação de seu acervo. Uma retrospectiva de sua obra acontece no MAM Rio em 1956. Em 1959, ela conclui a grande escultura O Rito do ritmo, instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Uma miniatura dessa escultura foi distribuída como lembrança na inauguração da nova capital federal.
Outras obras suas estão nos jardins do Palácio Itamaraty. Nos anos 1960, Maria escreve uma coluna chamada “Poeiras da vida”, entrevistando figuras notáveis para o jornal “Correio da Manhã”. Fica viúva em 1964. Em 1970, é comissionada por Oscar Niemeyer para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília. Realiza os esboços, mas não chega a concluir a escultura. Morre aos 78 anos em sua casa no Rio de Janeiro.
De Maria Martins o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro possui uma obra-prima, a escultura em bronze O impossível (1945), em que duas figuras femininas de abraçam por tentáculos pontiagudos. Entre 1944 e 1949, ela criou diversas versões dessa escultura, em vários tamanhos e materiais. O exemplar que está no Museu de Arte Moderna de Nova York é O impossível, III, de 1946. Outra obra de Maria também está em comodato de longa duração no MAM. É uma escultura sem título, de bronze e mármore, de cerca de 1940, que faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio.
Em 22 de março de 1943, Maria Martins inaugurou sua terceira exposição individual, na Valentine Gallery, em Nova York. Maria: New Sculptures dividia o espaço da galeria com Mondrian: New Paintings. Às límpidas linhas verticais e horizontais, então coloridas e fragmentadas de Mondrian, Maria contrapunha suas escuras formas enredadas. Era a Amazônia que ela buscava figurar nesta mostra, não apenas em imagens, mas também em palavras: para acompanhar a exibição das peças, preparou um catálogo, em inglês, no qual narrava brevemente os mitos que envolviam as oito personagens apresentadas: Amazônia, Cobra Grande, Boiúna, Yara, Yemenjá, Aiokâ, Iacy e Boto.
Este conjunto de esculturas demarca uma mudança decisiva na concepção formal dos trabalhos de Maria Martins. Se antes suas peças tendiam a uma representação mais tradicional da figura humana, com contornos definidos, agora suas personagens, embora ainda reconhecíveis, se fundem a um emaranhado de folhas e galhos que fazem as vezes da floresta tropical. A figura humana começa, a partir de então, a se integrar à natureza, confundindo-se com esta e, em última instância, metamorfoseando-se nela.
Esta exposição busca flagrar as contínuas transformações da forma ao longo do desenvolvimento artístico de Maria Martins, não apenas nas esculturas, mas também nas pinturas, nos desenhos, nas gravuras que com aquelas dialogam. A ideia é mostrar como a desfiguração do humano, nesta obra, é sempre já o início da figuração de outra forma, que se aproxima ora do vegetal, ora do animal. Para tal, dividiu-se a exposição em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos, Esqueletos − determinados a partir de uma comunicação formal antes que cronológica. Os núcleos não se pretendem estanques, mas, pelo contrário, fluidos (a metamorfose não tem fim). Há obras que se encontram nas passagens de um a outro, que oscilam entre cá e lá.
Pontuam a exposição citações de Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Mário de Andrade, Raul Bopp, Flávio de Carvalho e Clarice Lispector. Quer-se, com elas, mostrar como a obra de Maria Martins estava em sintonia com todo um pensamento brasileiro moderno (não só modernista) da forma como formação incessante.
Completando a exibição das esculturas, das pinturas, dos desenhos e das gravuras, apresentam-se uma joia desenhada por Maria Martins e uma série de 17 cerâmicas, que pertenciam à sua casa de Petrópolis. A atividade da artista como escritora também está aqui contemplada, com seus três livros e os artigos publicados por ela no Correio da Manhã, estes últimos praticamente desconhecidos atualmente.
Trópicos
Antes da exposição de 1943, Maria Martins já vinha voltando sua atenção para temas brasileiros, mas ainda moldava seus Samba, Negra, Yara em formas convencionais. Obras como Yemenjá e Iacy, aqui exibidas, já sinalizam o entrelaçamento do elemento humano ao vegetal, embora as figuras representadas sejam ainda claramente discerníveis. Na passagem para o núcleo seguinte, N’oublies pas que je viens des tropiques e Glèbe-ailes, muito parecidas entre si, são variações de um corpo em plena transformação.
Lianas
Neste segundo conjunto de esculturas, há certa concentração nos elementos que eram secundários no primeiro: as formas enredadas que circundavam as figuras principais. Em Comme une liane, é a própria figura feminina que tem seus membros convertidos em algo semelhante a galhos flexíveis ou cipós. Prometheus e Orpheus – que fogem ao tema da floresta, mas não à forma ali ensaiada – se confundem com o entorno emaranhado do qual fazem parte. Na passagem, Hasard hagard e Sûr doute apontam para o estranhamento das formas do núcleo seguinte.
Deusas e Monstros
“Sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros / sempre te parecerão sensuais e bárbaros”, escreve Maria Martins no poema Explication, que integra a tiragem especial do catálogo da mostra de 1946, aqui exibido. Ao longo de sua carreira, Maria produziu uma série de deusas e monstros, nos quais a figura humana aparece transformada. Em Impossible, a escultura mais célebre deste núcleo, o caráter erótico da metamorfose se explicita: dois corpos, um feminino e um masculino, são impedidos de se aproximar totalmente em função das estranhas formas pontiagudas de suas cabeças, ao mesmo tempo em que parecem magneticamente – amorosamente – ligados para sempre. Na passagem, as bocas abertas de A tue-tête, O galo e Chanson en suspens antecipam os cantos mudos do próximo núcleo.
Cantos
Em seu livro sobre Nietzsche, Maria Martins demonstra especial admiração pelos cantos de Zaratustra. Em O canto da noite (título que ela toma emprestado para uma de suas esculturas), Nietzsche escreve: “Uma sede está em mim, insaciada e insaciável, que busca erguer a voz”. Em O canto do mar e na escultura sem título, as formas se tornam mais arredondadas, mais indefinidas, mais abstratas, numa possível tentativa de dar forma ao que não é palpável, como a voz. Calendário da eternidade e Très avide, por sua vez, sugerem as aberturas do corpo, pontos de dissolução da forma nos mistérios da profundeza informe: talvez bocas, talvez vulvas.
Esqueletos
De uma maneira geral, a obra de Maria Martins se voltou sobretudo para as formas orgânicas. No entanto, há um conjunto de trabalhos que tendem à forma do esqueleto, ou seja, que se concentram naquilo que, no organismo, bordeja o inorgânico. Brouillard noir e Tamba-tajá perdem corporalidade, se comparadas com outras esculturas suas, e se reduzem a ossaturas. Pourquoi toujours, que pode lembrar a forma de uma planta, é toda pontuada por pequenas caveiras. É como se Maria, barrocamente (e ironicamente), nos recordasse que o que resta do humano, ao fim das metamorfoses, são os ossos. Somente a eles corresponde talvez a utopia de uma forma final.
Fontes: MAM e MAM Rio, texto de Márion Strecker, curadoria Veronica Stigger, publicado em 10 de julho de 2013, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Revista Quem: Uma mulher de talentos
Maria Martins é mais lembrada por seus casos com Marcel Duchamp e Benito Mussolini e amizades com artistas como Picasso, André Breton e Mondrian. Uma biografia resgata a imagem da maior escultora brasileira
Alguns artistas acabam mais famosos por suas peripécias públicas e privadas do que por sua obra. A escultora Maria Martins (1895-1973) é um desses casos. Grã-fina e meio hippie, foi embaixatriz, amante do artista plástico francês Marcel Duchamp e do ditador italiano Benito Mussolini, amiga de artistas como Picasso, Fernand Léger, André Breton, Constantin Brancusi, Mondrian e do milionário Nelson Rockefeller. Ela entrevistou o chinês Mao Tsé-tung em Pequim, foi amiga dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Doou obras ao MAM do Rio e intermediou para o museu a aquisição de obras de Picasso, Alberto Giacometti e Léger. E em 1925 teve a coragem de se separar do primeiro marido, Octavio Tarquinio de Sousa.
Agora o livro Maria Martins - Uma Biografia, da jornalista Ana Arruda Callado, quer resgatar no Brasil a figura de Maria Martins como uma artista genial. Mesmo sendo a escultora brasileira mais conhecida no exterior, aqui ela ainda não é vista como deveria.
Em 2001, ao visitar uma mostra sobre surrealismo no Rio, Ana viu 18 esculturas de Maria Martins. "Depois de ver, mirar, admirar, saborear cada uma daquelas peças, uma indagação me ocorre e me dá uma sensação de revolta: por que até aquele momento mágico só ouvira falar de Maria Martins como embaixatriz ou amante de Marcel Duchamp?", escreve a autora na biografia.
Após iniciar suas pesquisas, Ana descobriu não ser a primeira a se encantar pelas obras da artista. O colecionador Gilberto Chateaubriand disse: 'As esculturas de Maria Martins são perfeitos retratos de sua autora: belas, exuberantes, sofisticadas e misteriosas.' Nada como o tempo para fazer justiça.
Fonte: Revista Época, por Guilherme Ravache. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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VEJA - A deusa e seus monstros: mostra no Masp resgata obra de Maria Martins
A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras
Em uma entrevista com ares de papo entre amigas, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e a escultora Maria Martins (1894-1973) trocaram experiências sobre a “carreira” de mulher de diplomata. Ambas se casaram com embaixadores da era Getúlio Vargas, no começo dos anos 40, e passaram anos fora do Brasil. O ambiente social rigoroso exigia que as embaixatrizes ostentassem decoro e simpatia. Clarice e Maria, porém, optaram pela fama de “diferentes”. “Como você, eu me refugiei na arte”, disse a artista mineira à autora. Das 7 da manhã às 6 da tarde, Maria se trancafiava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos — antes de alugar um espaço só dela em Nova York. À noite, dedicava-se aos compromissos sociais do marido, o embaixador Carlos Martins Pereira e Sousa. A vida dividida em duas partes, com a obrigação das aparências de um lado e seu “excesso de personalidade” (como viria a ser criticada) do outro, fez de Maria uma figura que, assim como suas esculturas de formas monstruosas e sensuais, hipnotizava e repelia com a mesma intensidade.
Fonte: Revista Veja, por Raquel Carneiro Atualizado em 27 ago 2021, Publicado em 27 ago 2021. Consultado pela última vez em 8 de setembro de 2022.
Crédito fotográfico: Revista Veja, foto por Elisa Gomes, de Maria Martins, escultora dos trópicos.
3 artistas relacionados
Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 7 de agosto de 1894 — Rio de Janeiro, 27 de março de 1973) foi uma escultora, desenhista, gravurista, pintora, escritora e musicista brasileira. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira, por vezes chamada de vezes chamada de Frida Kahlo brasileira, sendo aclamada no exterior e abraçada por surrealistas. Maria colaborou para a realização das primeiras Bienais Internacionais de São Paulo e é figura importante no processo de criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras.
Biografia - Itaú Cultural
Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.
Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins (1884-1965). Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se com o escultor belga Oscar Jespers (1887-1970). Em 1939, muda-se para os Estados Unidos; inicialmente para Washington e, depois, para Nova York, onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York, onde apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, produzidos em materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano, estabelece ateliê em Nova York. Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas ao seu trabalho.
A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Por causa dessa mostra, conhece expoentes do surrealismo, como o crítico e escritor francês André Breton (1896-1966), o pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968) e o artista alemão Max Ernst (1891-1976). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazônia, é um verdadeiro sucesso. A artista continua a trabalhar com temas advindos de tradições e mitos brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, procedimento característico de outros artistas surrealistas.
Na obra Impossível (1944), que ganha várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, sugerindo os limites da união plena entre os seres3. Nesse sentido, certos animais, como a cobra e a aranha, saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista.
Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery. A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que escreve: "Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. [...] Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente"4. A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês.
Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Ajuda na organização da I Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não é bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata.
Sua última exposição individual transcorre em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa se dá em clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista5. No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900-1981) e Murilo Mendes (1901-1975). Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica, entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China.
Com uma carreira nacional e internacional sólida, Maria Martins se inscreve como um nome de referência da arte brasileira.
Críticas
"As esculturas que Maria expõe atualmente em Nova York acusam ainda mais a preocupação de despojamento e não deixam de situá-la nos antípodas de uma arte que - ao lado de Brancusi, Arp e Giacometti - não cessou nestes trinta anos de ressecar o intelectualismo. Em Hasard Hagard, Sur Doute, a despedida dada ao anedótico é tal que não se poderia de modo algum interpretar como uma mudança de orientação sua. E sim que (o importante é que) a démarche de Maria a trouxe do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazê-la percorrer o caminho inverso, o qual, sabe-se, só possui emboscadas e engodos. É, nunca se repetirá o suficiente, o universo que deve ser interrogado em primeiro lugar e a partir do homem e não o homem a partir do universo. O que prenuncia os grandes acordes acrobáticos de Maria, o tour de force dessa maleabilidade total no rígido, não é a 'cera perdida', SÃO AS SEIVAS" — André Breton (Maria Martins. A Phala - Revista do Movimento Surrealismo. v. 1, p. 112-113.)
"As expansões e contrações orgânicas da escultura de Maria Martins - ela, de fato, a única a ter tido ligação com o movimento surrealista - apontam para outra área de interesse do fantástico. Importa, antes de tudo, reconhecer a obstinação dessa obra marcada pelo excesso, pela profusão incontrolável de uma figuração discursiva num contexto - o do Brasil dos anos 50 - que se esforça por impor uma visualidade regida por princípios abstratos, racionais e generalizantes, que devem dar conta da desordem originária da realidade brasileira.
A obra de Maria faz o trabalho inverso: expressa ingenuamente essa desordem em dois tipos de figuração. A primeira, apresentando-se como inconsciente mítico da própria alma brasileira, surgida do esforço tortuoso de materialização de uma natureza generosa e exuberante, mas ao mesmo tempo inculta e indomável. É significativo observar aqui a série de obras que a artista dedicou à Amazônia. A segunda, irrompendo como o desrepresamento do inconsciente psicológico, entregue despudoradamente à transcrição quase retórica de suas imagens. Em ambas, a crença de poder materializar imediatamente o inconsciente transbordante, uma natureza primordial que se vai instalar como viscosidade insondável num mundo ordenado e controlado. Por essa falta de comedimento, essa quase deselegância, Mário Pedrosa apontou a ausência de monumentalidade em sua escultura. Aspira a algo grande, majestoso, mas se dilacera na impossibilidade da própria grandeza de seu discurso. Por isso, vive nesse limiar, sempre a um passo além ou aquém da escultura: vive nessa dúvida, desejando incessantemente ostentar uma potência que a ultrapasse até o infinito" — Sônia Salzstein e Ivo Mesquita (Imaginários singulares. In: IMAGINÁRIOS singulares. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987. p. 18.)
"Os volumes na sua escultura, em bronze, metal polido ou madeira, não têm consistência, articulação ou hierarquia de planos. Tendem a igualar-se uns aos outros, tratados como se fossem apenas uma superfície escorrida ou uma superfície porosa. (...) Em fases posteriores, os volumes maciços esvaziam-se, abrem-se brechas neles e o espaço circundante tende a penetrá-los. É quando a escultora melhor se realiza. Dá-nos, então, uma trama feita de galhos, de lianas, de troncos em que a sensualidade do material escolhido, poroso, verdoengo, numa consistência de pau podre, exprime, com menos derrames sentimentais e mais plasticamente, seu espírito torturado" — Mário Pedrosa (Maria a escultora. In: BIENAL BRASIL SÉCULO XX. Catálogo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994. p. 145-146.)
Depoimentos
"Pouco importa essa ou aquela forma de expressão desde que o artista transmita a mensagem que é sua e em seu idioma próprio, e não use essa espécie de 'modismo', muitas vezes responsável pela grande pobreza de artistas de real valor. Para melhor me explicar diria que, para mim, quando em uma pintura ou escultura ressalta à primeira vista a escola ou movimento a que pretende filiar o seu autor, sem que tal escultura ou tal pintura desperte maior interesse de admiração ou mesmo de repulsa, essa obra não passa de 'modismo' e morrerá, ainda que conheça sucesso momentâneo." — Maria Martins (Rio de Janeiro: MAM, 1956)
Exposições Individuais
1941 - Washington (Estados Unidos) - Individual, na Corcoram Art Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1944 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1946 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Julien Lery Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Maria: recent sculptures, na Julien Lery Gallery
1949 - Paris (França) - Individual, na Galerie René Drouin
1950 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na ABI/RJ
1950 - São Paulo SP - Individual, no MAM/SP
1956 - Rio de Janeiro RJ - Maria, no MAM/RJ
Exposições Coletivas
1940 - Filadélfia (Estados Unidos) - Coletiva, na International Philadelphia
1941 - Nova York (Estados Unidos) - 3ª Latin America Exhibition of Fine Arts
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Hommage Fait à Rodin, na Buchhlz Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1944 - Ohio (Estados Unidos) - Religious Art of Today, na Dayton Ohio
1946 - Saint Louis (Estados Unidos) - Origins of Modern Sculpture, na City Art of St. Louis
1947 - Paris (França) - Exposition International e Surréaliste, na Galerie Maeght
1949 - Paris (França) - De Rodin à Nos Jours, na Maison de la Culture Française
1949 - Salzburgo (Áustria) - A Música e as Artes Plásticas
1951 - São Paulo SP - 1ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão do Trianon - artista convidada
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - 2º prêmio escultura
1954 - São Paulo SP - Arte Contemporânea: exposição do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1955 - São Paulo SP - 3ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - prêmio melhor escultor nacional
1959 - Leverkusen (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1959 - Munique (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa, no Kunsthaus
1959 - Viena (Áustria) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Hamburgo (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Lisboa (Portugal) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Madri (Espanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Paris (França) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Utrecht (Holanda) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1967 - São Paulo SP - 1ª Exposição Surrealista, no Teatro Itália
Exposições Póstumas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1978 - Rio de Janeiro RJ - Escultura Brasileira no Espaço Urbano: 50 anos
1979 - São Paulo SP - 15ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1982 - São Paulo SP - Um Século de Escultura no Brasil, no Masp
1984 - Petrópolis RJ - Individual, no Palácio de Cristal
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1985 - Belo Horizonte MG - Rio: vertente construtiva, no MAP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Rio: vertente surrealista, na Galeria de Arte Banerj
1985 - São Paulo SP - A Arte do Imaginário, na Galeria Encontro das Artes
1985 - São Paulo SP - Rio: vertente construtiva, no MAC/USP
1987 - São Paulo SP - 19ª Bienal Internacional de São Paulo - Sala Imaginários Singulares, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - As Bienais no Acervo do MAC: 1951 a 1985, no MAC/USP
1987 - Paris (França) - Modernidade: arte brasileira do século XX, no Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
1988 - Nova York (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no The Bronx Museum of the Arts
1988 - São Paulo SP - MAC 25 anos: destaques da coleção inicial, no MAC/USP
1988 - São Paulo SP - Modernidade: arte brasileira do século XX, no MAM/SP
1989 - El Paso (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no El Paso Museum of Art
1989 - San Diego (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no San Diego Museum of Art
1989 - San Juan (Porto Rico) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Instituto de Cultura Puertorriqueña
1990 - Miami (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Center for the Fine Arts Miami Art Museum of Date
1992 - Poços de Caldas MG - Arte Moderna Brasileira: acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, na Casa da Cultura de Poços de Caldas
1992 - São Paulo SP - A Sedução dos Volumes: os tridimensionais do MAC, no MAC/USP
1992 - Zurique (Suíça) - Brasilien: entdeckung und selbstentdeckung, no Kunsthaus
1993 - Rio de Janeiro RJ - Brasil 100 Anos de Arte Moderna, no MNBA
1994 - São Paulo SP - Arte Moderna Brasileira: uma seleção da Coleção Roberto Marinho, no Masp
1994 - São Paulo SP - Bienal Brasil Século XX, na Fundação Bienal
1996 - São Paulo SP - Arte Brasileira: 50 anos de história no acervo MAC/USP: 1920-1970, no MAC/USP
1996 - São Paulo SP - Mulheres Artistas no Acervo do MAC, no MAC/USP
1997 - Florianópolis SC - 5º Salão Nacional Victor Meirelles, no Masc
1997 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: retrospectiva, na Galeria Jean Boghici
1997 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Espaço Cultural Safra
1997 - São Paulo SP - Maria Martins, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1997 - São Paulo SP - O Mistério das Formas, no MAC/USP
1997 - São Paulo SP - Tridimensionalidade na Arte Brasileira do Século XX, no Itaú Cultural
1997 - Washington D. C. (Estados Unidos) - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Centro Cultural do BID
1998 - Nova York (Estados Unidos) - The Surrealist Sculpture of Maria Martins, na André Emmerich Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no MAM/RJ
1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - Lima (Peru) - Mostra Brasil 500 Anos, no Museu Pedro de Osma
1999 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: Les sculptures surréalistes des annés 40, na Galeria Jean Boghici
2000 - Brasília DF - Exposição Brasil Europa: encontros no século XX, no Conjunto Cultural da Caixa
2000 - Lisboa (Portugal) - Século 20: arte do Brasil, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Arte Moderna, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: da pinacoteca ao Jardim da Luz, na Pinacoteca do Estado
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Guggenheim Museum
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum
2001 - Rio de Janeiro RJ - Surrealismo, no CCBB
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2004 - Rio de Janeiro RJ - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial
2004 - São Paulo SP - O Preço da Sedução: do espartilho ao silicone, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no MAM/SP
Fonte: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: Itaú Cultural. Acesso em: 10 de setembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Biografia - Wikipédia
Nasceu em Campanha (Minas Gerais) em 07 de agosto de 1894, filha de Cosmo, Senador, Ministro da Justiça da Velha República e membro da Academia Brasileira de Letras, e Fernandina de Faria Alves, sendo avós paternos João Luís Alves e Bárbara Luísa Barbosa Alves e avós maternos Fernando Antônio de Faria e Maria Vitória Pereira de Faria tendo sido declarante o Pai e testemunha Dr. Euclides da Cunha e Otávio Barbosa Carneiro.
Casou-se, a primeira vez com o jurista e historiador Otávio Tarquínio de Sousa, de quem se separou, casando a segunda vez com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, gaúcho que era colega de infância de Getúlio Vargas - de quem a artista se tornaria amiga - e que, tal qual ela, gostava de festas e da vida mundana. Carlos Martins foi embaixador do Brasil, no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial, tendo servido no Japão e também na Europa. Carlos e Maria tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro. Mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos.
Inicialmente, interessou-se pela música. Depois, estudou pintura em Paris; mas, aos trinta anos, se interessou pela escultura. Ainda na França, começou a trabalhar a madeira e, no Japão, aprendeu a modelar terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, realizou estudos de escultura com Oscar Jesper, em Bruxelas, passando a utilizar o bronze, que tornou, daí em diante, a ser o principal suporte à sua obra. No Brasil, sua presença maior se deu na Bienal de São Paulo, da qual participou desde o primeiro evento, em 1951. Na Bienal de 1955, chegou o reconhecimento, ao ser premiada com o título de melhor escultor nacional, com a obra om “A soma dos nossos dias”. Contudo, foi no exterior que se destacou. Em 1941 teve sua primeira mostra, em Washington, e, no mesmo ano, expôs em Paris e no Rio de Janeiro. Fixou seu ateliê em Nova Iorque e foi destaque na Corcoran Gallery of Art, em Washington, sendo que um dos trabalhos expostos foi adquirido pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Estava aberto o caminho. Nomes influentes passaram a se interessar por ela e, em breve, suas esculturas começaram a fazer parte do acervo de importantes colecionadores, como Max Jimenez, da Costa Rica, Federico Cantu, do México e Mário Carreño, de Cuba.
Em 1968, numa entrevista dada a Clarice Lispector, declarou: "Um dia me deu vontade de talhar madeira e saiu um objeto que eu amei. E depois desse dia me entreguei de corpo e alma à escultura. Primeiro, em terracota, depois mármore, depois cera perdida que não tem limitações". Suas esculturas apresentam formas orgânicas, contorcidas, sensuais, que evocam culturas arcaicas, inspiradas em lendas e na natureza amazônica, com o que atraíram a atenção de surrealistas como André Breton, o autor do Manifesto surrealista, que escreve apresentação de exposição e convida a mineira a integrar-se ao grupo, Max Ernest, Roberto Matta, Yves Tanguy, Chagall, entre outros. Marcel Duchamp lhe dedicou duas obras, como testemunho do impacto da beleza e da sensibilidade vibrante da artista. Artista influenciada pelo surrealismo, as suas obras foram reconhecidas internacionalmente, possuindo obras na seção de Arte Moderna do Museu de Arte da Filadélfia e também no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), Museu de Arte Moderna Do Rio de Janeiro (MAM) , Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Paço das Artes da USP; também encontram-se trabalhos no Rio de Janeiro, Palácio do Planalto em Brasília e ainda em países como a França e a Bélgica. No Palácio Itamaraty, em Brasília, há duas esculturas de sua autoria: "A mulher e sua sombra" e "O canto da noite".
No Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) está exposto "O Impossível", escultura de sua autoria datada de 1945.
Foi amante do pintor e escultor franco-estadunidense Marcel Duchamp e de Benito Mussolini, amiga de Picasso e Mondrian, entrevistou Mao Tsé Tung e fez, no início do século XX, coisas que eram impensáveis para uma mulher.
Tal dualidade é tangível na belíssima mostra Maria Martins: Desejo Imaginante, em cartaz no Masp, em São Paulo, até janeiro de 2022 — e, a partir de março seguinte, na Casa Roberto Marinho, no Rio. Em vez de domar os opostos dentro de si, Maria os alimentou e fez deles personagens. Inicialmente inspirada por lendas amazônicas, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, ela talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios e vulvas aparentes, ou serpentes lhes atando o corpo, num vislumbre da repressão que acaba vertida em tentação. “O trabalho da Maria é de um erotismo visceral. Ela lidou com questões do inconsciente e do desejo pela óptica da mulher, tema ainda caro à sociedade”, diz a curadora da mostra, Isabella Rjeille.
Chamada por apelidos descabidos, como “Frida Kahlo brasileira” ou “surrealista dos trópicos”, ou ainda reduzida ao posto de “amante de Duchamp” (manteve um caso por dez anos com o iconoclástico francês que transformou mictórios em arte), Maria foi uma artista singular e original. Com o perdão do clichê, estava à frente de seu tempo nos costumes e na arte — ela própria dizia não querer ser rotulada com “ismos”, em resposta à sua classificação compulsória entre os surrealistas após ser abraçada pelo pai do movimento, André Breton (1896-1966). A estética criada por ela era inédita para a época, mas compartilhava com amigos surrealistas como o espanhol Salvador Dalí e o francês Yves Tanguy a representação onírica de sonhos e pesadelos, que espelhavam os horrores da II Guerra Mundial. Décadas mais tarde, curiosamente, o terror pop de produções como o filme
O Labirinto do Fauno e a série Stranger Things exibiria uma notável correspondência com o visual de suas deusas e monstros.
Aluna do escultor belga Oscar Jespers e do lituano Jacques Lipchitz, Maria flertou no início da carreira no exterior com o desejo de reafirmar sua nacionalidade. Esculpiu lendas folclóricas e criou seres inspirados em lianas — os cipós tão comuns em florestas tropicais. Era arte para gringo ver. Ao se desprender do estereótipo de estrangeira no Primeiro Mundo, ela enfim mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico. É sua melhor fase.
Nasce então uma marcante série de peças chamada O Impossível (1944 a 1949) — duas das quais integram a exposição do Masp. As esculturas consistem em uma criatura feminina e outra masculina lançando tentáculos de suas cabeças em busca de conexão. O encaixe não acontece. A alegoria de uma relação insaciável, mas proibida, é associada ao romance com Marcel Duchamp (1887-1968), com quem ela teve uma prolífica relação profissional de apoio e influência mútuos. Ao voltar para o Brasil, na década de 50, já consagrada nos Estados Unidos, Maria se impôs como um nome incontornável da produção artística mundial. Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais inicialmente torceram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel que Maria viria a exercer como mediadora entre artistas europeus e museus brasileiros: ela viabilizou a vinda de quadros de Picasso para a II Bienal de Arte, de 1953.
Foi só no século XXI que Maria alcançou um lugar de deferência no Brasil. “Há um resgate das obras dela pelo olhar de mulheres, que hoje ocupam o lugar da crítica masculina da época”, diz a curadora. Uma das peças mais impressionantes da mostra é a imponente
However!!, figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura. Um monstro sagrado que exige respeito — assim como sua criadora.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Biografia - E-biografia
Maria Martins (1894-1973) foi uma escultora brasileira que chocou o país com suas figuras sensuais e perturbadoras. Foi apelidada de “surrealista dos trópicos” e “Frida Kahlo brasileira”.
Maria de Lourdes Alves Martins nasceu em Campanha, Minas Gerais, no dia 7 de agosto de 1894. Seu pai, Cosmo, foi senador, Ministro da Justiça da Velha República e Membro da Academia Brasileira de Letras. Sua mãe, Fernandina de Faria Alves era pianista.
Maria Martins foi aluna do Colégio Sion em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde aprendeu francês. Estudou também música e pintura.
Em 1915, casou-se com o historiador Otávio Tarquino de Souza, autor de obras sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. O casal teve duas filhas, mas apenas uma delas sobreviveu. A relação do casal terminou em 1925.
Carreira no exterior
Em 1926, Maria Martins perdeu o pai, iniciou-se na escultura e casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza a quem acompanhou em seus deslocamentos profissionais. No governo de Getúlio Vargas, o diplomata foi nomeado embaixador em Compenhague e depois em Tóquio, onde Maria se apaixonou pela cerâmica japonesa.
Em 1936, morando na Bélgica, Maria Martins aperfeiçoou-se na escultura estudando com o escultor belga Oscar Jespers.
Entre 1939 e 1948 o casal viveu em Washington, onde Maria decidiu se dedicar totalmente à escultura. Das 7 da manhã às seis da tarde, se instalava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira.
Maria Martins fez trabalhos de grandes dimensões em madeira, além de prosseguir com a cerâmica. Suas primeiras exposições foram realizadas em instituições públicas na Filadélfia e em Nova Iorque em 1940.
Em 1941, Maria Martins fez sua primeira exposição individual, intitulada “Maria”, na Corcoran Gallery of Art, em Washington. Na mostra, apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos usando diversos materiais, como gesso, madeira, terracota e bronze.
Em 1942, Maria alugou um estúdio na Park Avenue em Nova Iorque. Expôs na Valentine Gallery na qual apresentou formas oníricas de inspiração surrealista em bronze. Sua obra “São Francisco” foi adquirida pelo Museum of Art e “Yara” foi adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
No ano seguinte, a Valentine Gallery fez outra exposição da artista intitulada “Maria: News Sculptures”, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela escultora também chamado Amazônia. Entre elas destaca-se Uirapuru:
Nessa época, a artista conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova Iorque, durante os anos de guerra, que se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim, entre eles estavam Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian
Entre 1944, Maria deu início a uma série de peças chamada “O Impossível”, entre elas, destaca-se Amor Proibido, uma figura masculina e outra feminina que lançam tentáculos de suas cabeças em busca de conexão.
A relação de Maria com Duchamp se intensificou e ela se tornou modelo de diversas obra, entre elas, Étant Donnés. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme, na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
A inspiração vinda das lendas amazônicas evoluiu para uma mitologia própria e composições imponentes, como However, uma figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura.
Em 1948, Carlos Martins foi nomeado embaixador em Paris. Maria alugou um ateliê na Villa d’Alesia, que se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Sua primeira exposição individual em Paris foi acompanhada da publicação do livro “Les Statues Magiques de Marie, com ensaios de André Breton e Michel Tapié. Na França, Maria teve mais duas filhas.
Retorno ao Brasil
Em 1949, Carlos Martins se aposentou e o casal retornou para o Brasil. No ano seguinte, Maria preparou sua primeira grande exposição no país, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com 36 esculturas.
Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais viraram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel de mediadora que exerceu entre os artistas europeus e os museus brasileiros.
Sua última individual foi realizada em 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), instituição que ajudou a fundar.
Em 1959, ela concluiu a grande escultura O Rito do Ritmo, que foi instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Outras de suas obras estão instaladas nos jardins do Palácio do Itamaraty.
Em 1960 começou a escrever uma coluna para o jornal Correio da Manhã, chamada “Poeiras da Vida”, quando entrevistava figuras notáveis da sociedade. Em 1964 ficou viúva. Em 1970 foi convidada para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília, mas não chegou a concluir a obra
Características da obra de Maria Martins
Inicialmente Maria Martins esculpiu lendas amazônicas e criou seres inspirados nos cipós tão comuns em florestas tropicais, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, quando talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios aparentes ou serpentes lhe atando o corpo.
Ao de desprender das características, Maria mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico, atingindo sua melhor fase e a série “O Impossível”. Foi só no século XXI que Maria alcançou seu lugar de destaque no Brasil. Maria Martins faleceu no Rio de Janeiro, no dia 27 de março de 1973.
Fonte: Ebiografia, Por Dilva Frazão, bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental. Última atualização em 23 de maio de 2022. Consultado pela última vez em 9 de setembro de 2022.
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Revista Cult - Primeira escultora a explorar sexualidade no Brasil, Maria Martins é tema de documentário
“Maria é um exemplo bem sucedido do que foi um processo de libertação, autorrealização e emancipação de uma mulher na primeira metade do século 20, é uma pré-feminista”. Assim o diretor e roteirista Francisco Martins define a escultora Maria Martins (1894-1973). Ao lado da produtora e co-diretora Elisa Gomes, ele é responsável pelo documentário Maria, não esqueça que eu venho dos trópicos, que chegou neste mês aos cinemas brasileiros.
“Não existia um debate de afirmação de gênero, como existe hoje. Quando ela se divorciou a mulher nem votava no Brasil”, diz o diretor. “Maria teve uma força impressionante porque conseguiu romper esses cercos de opressão praticamente sozinha, com seus próprios meios, e colocou-se de igual para igual com outros artistas homens.”
A qualidade e radicalidade de sua obra são motivos que a tornam a maior escultora brasileira da primeira metade do século 20, diz o crítico Paulo Herkenhof. Maria foi uma das primeiras artistas brasieleiras a experimentar o caminho da sexualidade nas artes plásticas.
Suas esculturas são pouco convencionais, há figuras antropomórficas com tentáculos, deformações, membros alongados, genitálias desproporcionais, corpos tentando se fundir. Também são recorrentes as figuras de mitos, deuses e monstros das mitologias amazonenses e yorubás.
Elas são vistas por Herkenhoff como expressões da procura pela essência do desejo: “Ela aponta o vazio do qual somos feitos, a incompletude, a impossibilidade de nos completarmos e sempre tentarmos entender o mistério da sexualidade, da devoração mútua”, afirma o crítico durante o filme.
Essa busca pela essência erótica não pode ser separada da sua trajetória de vida, afirma a co-diretora e produtora Elisa Gomes. “Maria foi uma mulher que brigou pelo espaço dela porque era livre. O desejo que ela trabalha tem a ver não com o desejo relacionado ao sexo, mas como pulsão da vida. Ela vivia o desejo como essência.” O documentário caminha entre uma apresentação da sua biografia e de suas obras. A intenção foi apresentar Maria Martins a um público que, fora do meio especializado, a desconhece.
As duas vidas de Maria
Na França, a artista aprendeu a modelar na madeira; no Japão, em terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, em Bruxelas, passou a usar o bronze, principal matéria-prima adotada em suas obras posteriores. Casada com o embaixador Carlos Martins, estava acostumada a viajar o mundo, e ainda no início dos anos 1940 organizou suas primeiras exposições, montou um ateliê em Nova York e teve aulas com o escultor lituano Jacques Lipchitz.
Foi nessa época, inclusive, que conheceu Marcel Duchamp, com quem manteve um relacionamento amoroso e trocas artísticas. Maria Martins serviu, inclusive, de modelo para sua última obra, Étant donnés, e para a capa do catálogo Prière de toucher.
Apesar da vida em países estrangeiros, a artista nunca se esqueceu de onde veio, na opinião de Francisco Martins – daí o subtítulo do filme. “Desde 1922, havia essa proposta de descobrir o que seria uma cultura brasileira. Mas isso era feito dentro do estereótipo, no fundo de uma matriz colonizada europeia. Maria vai além e realmente registra essa exuberância de formas e de sexualidade num nível mais original, afirma o diretor Francisco Martins.
Quando retornou ao Brasil, na década de 1950, sua obra foi tratada com certa hostilidade pela crítica, que a considerava muito próxima do surrealismo e chegou a classificá-la como obscena. Em sua última individual, em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, teve inclusive que publicar um texto defendendo a liberdade de expressão do artista.
“Maria era uma mulher esclarecida e ficaria escandalizada com o que está acontecendo hoje no Brasil, pois mesmo que suas obras em certo momento fossem chamadas de obscenas, não eram censuradas e havia o espaço para o debate”, afirma Elisa Gomes.
Maria Martins também tem obras expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York e de São Francisco; no Museu de Arte da Filadélfia, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Fonte: Revista Cult, por Paulo Henrique Pompermaier em 24 de novembro de 2017. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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MAM - Maria Martins, A escultora dos trópicos e do surrealismo
A escultora Maria Martins (1894-1973) é uma artista importante do modernismo internacional. Começou sua carreira tardiamente, mas sua presença no cenário artístico foi marcante principalmente nos anos 1940 e 1950, quando viveu entre os EUA e a França e manteve colaboração com figuras como André Breton, Marcel Duchamp e Piet Mondrian. O crítico e historiador da arte Michel Seuphor se referiu a Maria Martins em livro de 1959 como “a grande escultora do surrealismo”. Seu trabalho, que inclui temática indígena brasileira, foi descrito como “poesia tropical”.
Ela nasceu em Campanha (MG), filha de mãe pianista e um advogado autodidata que se tornou senador e ministro da Justiça. Estudou em escola católica em Petrópolis (RJ), o Colégio Sion, com aulas em francês. Casou-se em 1915 com o historiador Otavio Tarquinio de Souza, autor de volumes sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. Teve duas filhas, Lucia Maria e Maísa, que morreu criança com meningite. Separou-se do marido em 1925.
No ano seguinte, perdeu o pai e casou-se com Carlos Martins Pereira e Souza, um diplomata brasileiro de carreira, a quem acompanha em seus deslocamentos profissionais. Tem uma terceira filha com ele, Theresa, que morre ao nascer. Nora Yolanda e Anna Maria Pia são as filhas que o casal tem nos anos seguintes, quando já morava na França.
No Governo Vargas, Carlos Martins se torna embaixador em Copenhagen e depois em Tóquio, onde Maria se apaixona pela cerâmica japonesa e estuda Zen Budismo. Em 1936, morando na Bélgica, Maria estuda escultura com Oscar Jespers e começa a trabalhar com terracota e fazer retratos.
Em 1939, Carlos é nomeado embaixador nos Estados Unidos, onde serve até 1948. Em Washington D.C., Maria decide se dedicar seriamente à escultura. Faz trabalhos de grandes dimensões em jacarandá e outras madeiras nativas do Brasil, além de prosseguir com a cerâmica. Em 1940, começa a expor em instituições públicas, na Filadélfia e em Nova York.
No ano seguinte, faz sua primeira exposição individual importante, intitulada apenas Maria, na Corcoran Gallery of Art, em Washington, recebendo críticas positivas. Nelson Rockefeller compra a escultura Christ para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Foi sua primeira obra a entrar na coleção de um museu norte-americano. Começa a aprender a esculpir em bronze com Jacques Lipchitz, recém-chegado de Paris, e quem ela conheceu numa viagem.
Em 1942, Maria aluga um estúdio na Park Avenue em Nova York. Torna-se amiga da escultora Mary Callery, através de quem conhece os arquitetos Mies van der Rohe e Philip Johnson. Faz sua primeira individual na cidade, na Valentine Gallery. Sua obra St. Francis é comprada pelo Metropolitan Museum of Art e outra, Yara, é adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
Em 1943, a Valentine Gallery faz duas exposições simultâneas: uma de Mondrian, intitulada Mondrian: New Paintings, e outra de Maria Martins, chamada Maria: News Sculptures, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela artista também chamado Amazônia. A maioria das esculturas foram vendidas e ela mesma adquiriu Broadway Boogie Woogie, de Mondrian, por US$ 800, que no mesmo ano doou para a coleção do MoMA.
Nessa época, conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova York que, durante os anos de guerra, se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim. Entre eles estavam Yves Tanguy, Max Ernst, Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian. Fernand Léger tornou-se um amigo próximo e desenhou esculturas dela numa visita a Maria em Washington.
Entre novas exposições individuais e estudos de impressão, a relação de Maria com Duchamp se intensifica e ela se torna modelo da obra Étant donnés, entre outras. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
Em 1948, Carlos passa a ser o embaixador do Brasil na França e o casal se muda para Paris. Maria aluga um estúdio na Villa d’Alesia, em frente ao estúdio de Brancusi, de quem se torna amiga próxima. Sua primeira exposição individual em Paris mereceu a publicação de um livro, Les Statues Magiques de Maria, com ensaios de André Breton e Michel Tapié.
Em 1949, Carlos se aposenta, o casal volta ao Brasil e Maria se prepara para sua primeira grande exposição no país, que acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1950, com 36 esculturas. Naqueles anos ela ajuda a organizar a primeira Bienal Internacional de São Paulo. Ganharia o primeiro prêmio na terceira Bienal.
Em 1952 Maria foi sócia benemérita e fez parte do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, exercendo um papel chave na formação de seu acervo. Uma retrospectiva de sua obra acontece no MAM Rio em 1956. Em 1959, ela conclui a grande escultura O Rito do ritmo, instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Uma miniatura dessa escultura foi distribuída como lembrança na inauguração da nova capital federal.
Outras obras suas estão nos jardins do Palácio Itamaraty. Nos anos 1960, Maria escreve uma coluna chamada “Poeiras da vida”, entrevistando figuras notáveis para o jornal “Correio da Manhã”. Fica viúva em 1964. Em 1970, é comissionada por Oscar Niemeyer para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília. Realiza os esboços, mas não chega a concluir a escultura. Morre aos 78 anos em sua casa no Rio de Janeiro.
De Maria Martins o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro possui uma obra-prima, a escultura em bronze O impossível (1945), em que duas figuras femininas de abraçam por tentáculos pontiagudos. Entre 1944 e 1949, ela criou diversas versões dessa escultura, em vários tamanhos e materiais. O exemplar que está no Museu de Arte Moderna de Nova York é O impossível, III, de 1946. Outra obra de Maria também está em comodato de longa duração no MAM. É uma escultura sem título, de bronze e mármore, de cerca de 1940, que faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio.
Em 22 de março de 1943, Maria Martins inaugurou sua terceira exposição individual, na Valentine Gallery, em Nova York. Maria: New Sculptures dividia o espaço da galeria com Mondrian: New Paintings. Às límpidas linhas verticais e horizontais, então coloridas e fragmentadas de Mondrian, Maria contrapunha suas escuras formas enredadas. Era a Amazônia que ela buscava figurar nesta mostra, não apenas em imagens, mas também em palavras: para acompanhar a exibição das peças, preparou um catálogo, em inglês, no qual narrava brevemente os mitos que envolviam as oito personagens apresentadas: Amazônia, Cobra Grande, Boiúna, Yara, Yemenjá, Aiokâ, Iacy e Boto.
Este conjunto de esculturas demarca uma mudança decisiva na concepção formal dos trabalhos de Maria Martins. Se antes suas peças tendiam a uma representação mais tradicional da figura humana, com contornos definidos, agora suas personagens, embora ainda reconhecíveis, se fundem a um emaranhado de folhas e galhos que fazem as vezes da floresta tropical. A figura humana começa, a partir de então, a se integrar à natureza, confundindo-se com esta e, em última instância, metamorfoseando-se nela.
Esta exposição busca flagrar as contínuas transformações da forma ao longo do desenvolvimento artístico de Maria Martins, não apenas nas esculturas, mas também nas pinturas, nos desenhos, nas gravuras que com aquelas dialogam. A ideia é mostrar como a desfiguração do humano, nesta obra, é sempre já o início da figuração de outra forma, que se aproxima ora do vegetal, ora do animal. Para tal, dividiu-se a exposição em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos, Esqueletos − determinados a partir de uma comunicação formal antes que cronológica. Os núcleos não se pretendem estanques, mas, pelo contrário, fluidos (a metamorfose não tem fim). Há obras que se encontram nas passagens de um a outro, que oscilam entre cá e lá.
Pontuam a exposição citações de Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Mário de Andrade, Raul Bopp, Flávio de Carvalho e Clarice Lispector. Quer-se, com elas, mostrar como a obra de Maria Martins estava em sintonia com todo um pensamento brasileiro moderno (não só modernista) da forma como formação incessante.
Completando a exibição das esculturas, das pinturas, dos desenhos e das gravuras, apresentam-se uma joia desenhada por Maria Martins e uma série de 17 cerâmicas, que pertenciam à sua casa de Petrópolis. A atividade da artista como escritora também está aqui contemplada, com seus três livros e os artigos publicados por ela no Correio da Manhã, estes últimos praticamente desconhecidos atualmente.
Trópicos
Antes da exposição de 1943, Maria Martins já vinha voltando sua atenção para temas brasileiros, mas ainda moldava seus Samba, Negra, Yara em formas convencionais. Obras como Yemenjá e Iacy, aqui exibidas, já sinalizam o entrelaçamento do elemento humano ao vegetal, embora as figuras representadas sejam ainda claramente discerníveis. Na passagem para o núcleo seguinte, N’oublies pas que je viens des tropiques e Glèbe-ailes, muito parecidas entre si, são variações de um corpo em plena transformação.
Lianas
Neste segundo conjunto de esculturas, há certa concentração nos elementos que eram secundários no primeiro: as formas enredadas que circundavam as figuras principais. Em Comme une liane, é a própria figura feminina que tem seus membros convertidos em algo semelhante a galhos flexíveis ou cipós. Prometheus e Orpheus – que fogem ao tema da floresta, mas não à forma ali ensaiada – se confundem com o entorno emaranhado do qual fazem parte. Na passagem, Hasard hagard e Sûr doute apontam para o estranhamento das formas do núcleo seguinte.
Deusas e Monstros
“Sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros / sempre te parecerão sensuais e bárbaros”, escreve Maria Martins no poema Explication, que integra a tiragem especial do catálogo da mostra de 1946, aqui exibido. Ao longo de sua carreira, Maria produziu uma série de deusas e monstros, nos quais a figura humana aparece transformada. Em Impossible, a escultura mais célebre deste núcleo, o caráter erótico da metamorfose se explicita: dois corpos, um feminino e um masculino, são impedidos de se aproximar totalmente em função das estranhas formas pontiagudas de suas cabeças, ao mesmo tempo em que parecem magneticamente – amorosamente – ligados para sempre. Na passagem, as bocas abertas de A tue-tête, O galo e Chanson en suspens antecipam os cantos mudos do próximo núcleo.
Cantos
Em seu livro sobre Nietzsche, Maria Martins demonstra especial admiração pelos cantos de Zaratustra. Em O canto da noite (título que ela toma emprestado para uma de suas esculturas), Nietzsche escreve: “Uma sede está em mim, insaciada e insaciável, que busca erguer a voz”. Em O canto do mar e na escultura sem título, as formas se tornam mais arredondadas, mais indefinidas, mais abstratas, numa possível tentativa de dar forma ao que não é palpável, como a voz. Calendário da eternidade e Très avide, por sua vez, sugerem as aberturas do corpo, pontos de dissolução da forma nos mistérios da profundeza informe: talvez bocas, talvez vulvas.
Esqueletos
De uma maneira geral, a obra de Maria Martins se voltou sobretudo para as formas orgânicas. No entanto, há um conjunto de trabalhos que tendem à forma do esqueleto, ou seja, que se concentram naquilo que, no organismo, bordeja o inorgânico. Brouillard noir e Tamba-tajá perdem corporalidade, se comparadas com outras esculturas suas, e se reduzem a ossaturas. Pourquoi toujours, que pode lembrar a forma de uma planta, é toda pontuada por pequenas caveiras. É como se Maria, barrocamente (e ironicamente), nos recordasse que o que resta do humano, ao fim das metamorfoses, são os ossos. Somente a eles corresponde talvez a utopia de uma forma final.
Fontes: MAM e MAM Rio, texto de Márion Strecker, curadoria Veronica Stigger, publicado em 10 de julho de 2013, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Revista Quem: Uma mulher de talentos
Maria Martins é mais lembrada por seus casos com Marcel Duchamp e Benito Mussolini e amizades com artistas como Picasso, André Breton e Mondrian. Uma biografia resgata a imagem da maior escultora brasileira
Alguns artistas acabam mais famosos por suas peripécias públicas e privadas do que por sua obra. A escultora Maria Martins (1895-1973) é um desses casos. Grã-fina e meio hippie, foi embaixatriz, amante do artista plástico francês Marcel Duchamp e do ditador italiano Benito Mussolini, amiga de artistas como Picasso, Fernand Léger, André Breton, Constantin Brancusi, Mondrian e do milionário Nelson Rockefeller. Ela entrevistou o chinês Mao Tsé-tung em Pequim, foi amiga dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Doou obras ao MAM do Rio e intermediou para o museu a aquisição de obras de Picasso, Alberto Giacometti e Léger. E em 1925 teve a coragem de se separar do primeiro marido, Octavio Tarquinio de Sousa.
Agora o livro Maria Martins - Uma Biografia, da jornalista Ana Arruda Callado, quer resgatar no Brasil a figura de Maria Martins como uma artista genial. Mesmo sendo a escultora brasileira mais conhecida no exterior, aqui ela ainda não é vista como deveria.
Em 2001, ao visitar uma mostra sobre surrealismo no Rio, Ana viu 18 esculturas de Maria Martins. "Depois de ver, mirar, admirar, saborear cada uma daquelas peças, uma indagação me ocorre e me dá uma sensação de revolta: por que até aquele momento mágico só ouvira falar de Maria Martins como embaixatriz ou amante de Marcel Duchamp?", escreve a autora na biografia.
Após iniciar suas pesquisas, Ana descobriu não ser a primeira a se encantar pelas obras da artista. O colecionador Gilberto Chateaubriand disse: 'As esculturas de Maria Martins são perfeitos retratos de sua autora: belas, exuberantes, sofisticadas e misteriosas.' Nada como o tempo para fazer justiça.
Fonte: Revista Época, por Guilherme Ravache. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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VEJA - A deusa e seus monstros: mostra no Masp resgata obra de Maria Martins
A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras
Em uma entrevista com ares de papo entre amigas, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e a escultora Maria Martins (1894-1973) trocaram experiências sobre a “carreira” de mulher de diplomata. Ambas se casaram com embaixadores da era Getúlio Vargas, no começo dos anos 40, e passaram anos fora do Brasil. O ambiente social rigoroso exigia que as embaixatrizes ostentassem decoro e simpatia. Clarice e Maria, porém, optaram pela fama de “diferentes”. “Como você, eu me refugiei na arte”, disse a artista mineira à autora. Das 7 da manhã às 6 da tarde, Maria se trancafiava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos — antes de alugar um espaço só dela em Nova York. À noite, dedicava-se aos compromissos sociais do marido, o embaixador Carlos Martins Pereira e Sousa. A vida dividida em duas partes, com a obrigação das aparências de um lado e seu “excesso de personalidade” (como viria a ser criticada) do outro, fez de Maria uma figura que, assim como suas esculturas de formas monstruosas e sensuais, hipnotizava e repelia com a mesma intensidade.
Fonte: Revista Veja, por Raquel Carneiro Atualizado em 27 ago 2021, Publicado em 27 ago 2021. Consultado pela última vez em 8 de setembro de 2022.
Crédito fotográfico: Revista Veja, foto por Elisa Gomes, de Maria Martins, escultora dos trópicos.
Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 7 de agosto de 1894 — Rio de Janeiro, 27 de março de 1973) foi uma escultora, desenhista, gravurista, pintora, escritora e musicista brasileira. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira, por vezes chamada de vezes chamada de Frida Kahlo brasileira, sendo aclamada no exterior e abraçada por surrealistas. Maria colaborou para a realização das primeiras Bienais Internacionais de São Paulo e é figura importante no processo de criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras.
Biografia - Itaú Cultural
Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.
Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins (1884-1965). Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se com o escultor belga Oscar Jespers (1887-1970). Em 1939, muda-se para os Estados Unidos; inicialmente para Washington e, depois, para Nova York, onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York, onde apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, produzidos em materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano, estabelece ateliê em Nova York. Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas ao seu trabalho.
A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Por causa dessa mostra, conhece expoentes do surrealismo, como o crítico e escritor francês André Breton (1896-1966), o pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968) e o artista alemão Max Ernst (1891-1976). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazônia, é um verdadeiro sucesso. A artista continua a trabalhar com temas advindos de tradições e mitos brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, procedimento característico de outros artistas surrealistas.
Na obra Impossível (1944), que ganha várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, sugerindo os limites da união plena entre os seres3. Nesse sentido, certos animais, como a cobra e a aranha, saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista.
Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery. A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que escreve: "Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. [...] Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente"4. A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês.
Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Ajuda na organização da I Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não é bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata.
Sua última exposição individual transcorre em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa se dá em clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista5. No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900-1981) e Murilo Mendes (1901-1975). Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica, entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China.
Com uma carreira nacional e internacional sólida, Maria Martins se inscreve como um nome de referência da arte brasileira.
Críticas
"As esculturas que Maria expõe atualmente em Nova York acusam ainda mais a preocupação de despojamento e não deixam de situá-la nos antípodas de uma arte que - ao lado de Brancusi, Arp e Giacometti - não cessou nestes trinta anos de ressecar o intelectualismo. Em Hasard Hagard, Sur Doute, a despedida dada ao anedótico é tal que não se poderia de modo algum interpretar como uma mudança de orientação sua. E sim que (o importante é que) a démarche de Maria a trouxe do macrocosmo ao microcosmo, em vez de fazê-la percorrer o caminho inverso, o qual, sabe-se, só possui emboscadas e engodos. É, nunca se repetirá o suficiente, o universo que deve ser interrogado em primeiro lugar e a partir do homem e não o homem a partir do universo. O que prenuncia os grandes acordes acrobáticos de Maria, o tour de force dessa maleabilidade total no rígido, não é a 'cera perdida', SÃO AS SEIVAS" — André Breton (Maria Martins. A Phala - Revista do Movimento Surrealismo. v. 1, p. 112-113.)
"As expansões e contrações orgânicas da escultura de Maria Martins - ela, de fato, a única a ter tido ligação com o movimento surrealista - apontam para outra área de interesse do fantástico. Importa, antes de tudo, reconhecer a obstinação dessa obra marcada pelo excesso, pela profusão incontrolável de uma figuração discursiva num contexto - o do Brasil dos anos 50 - que se esforça por impor uma visualidade regida por princípios abstratos, racionais e generalizantes, que devem dar conta da desordem originária da realidade brasileira.
A obra de Maria faz o trabalho inverso: expressa ingenuamente essa desordem em dois tipos de figuração. A primeira, apresentando-se como inconsciente mítico da própria alma brasileira, surgida do esforço tortuoso de materialização de uma natureza generosa e exuberante, mas ao mesmo tempo inculta e indomável. É significativo observar aqui a série de obras que a artista dedicou à Amazônia. A segunda, irrompendo como o desrepresamento do inconsciente psicológico, entregue despudoradamente à transcrição quase retórica de suas imagens. Em ambas, a crença de poder materializar imediatamente o inconsciente transbordante, uma natureza primordial que se vai instalar como viscosidade insondável num mundo ordenado e controlado. Por essa falta de comedimento, essa quase deselegância, Mário Pedrosa apontou a ausência de monumentalidade em sua escultura. Aspira a algo grande, majestoso, mas se dilacera na impossibilidade da própria grandeza de seu discurso. Por isso, vive nesse limiar, sempre a um passo além ou aquém da escultura: vive nessa dúvida, desejando incessantemente ostentar uma potência que a ultrapasse até o infinito" — Sônia Salzstein e Ivo Mesquita (Imaginários singulares. In: IMAGINÁRIOS singulares. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987. p. 18.)
"Os volumes na sua escultura, em bronze, metal polido ou madeira, não têm consistência, articulação ou hierarquia de planos. Tendem a igualar-se uns aos outros, tratados como se fossem apenas uma superfície escorrida ou uma superfície porosa. (...) Em fases posteriores, os volumes maciços esvaziam-se, abrem-se brechas neles e o espaço circundante tende a penetrá-los. É quando a escultora melhor se realiza. Dá-nos, então, uma trama feita de galhos, de lianas, de troncos em que a sensualidade do material escolhido, poroso, verdoengo, numa consistência de pau podre, exprime, com menos derrames sentimentais e mais plasticamente, seu espírito torturado" — Mário Pedrosa (Maria a escultora. In: BIENAL BRASIL SÉCULO XX. Catálogo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994. p. 145-146.)
Depoimentos
"Pouco importa essa ou aquela forma de expressão desde que o artista transmita a mensagem que é sua e em seu idioma próprio, e não use essa espécie de 'modismo', muitas vezes responsável pela grande pobreza de artistas de real valor. Para melhor me explicar diria que, para mim, quando em uma pintura ou escultura ressalta à primeira vista a escola ou movimento a que pretende filiar o seu autor, sem que tal escultura ou tal pintura desperte maior interesse de admiração ou mesmo de repulsa, essa obra não passa de 'modismo' e morrerá, ainda que conheça sucesso momentâneo." — Maria Martins (Rio de Janeiro: MAM, 1956)
Exposições Individuais
1941 - Washington (Estados Unidos) - Individual, na Corcoram Art Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1944 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1946 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Valentine Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Julien Lery Gallery
1947 - Nova York (Estados Unidos) - Maria: recent sculptures, na Julien Lery Gallery
1949 - Paris (França) - Individual, na Galerie René Drouin
1950 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na ABI/RJ
1950 - São Paulo SP - Individual, no MAM/SP
1956 - Rio de Janeiro RJ - Maria, no MAM/RJ
Exposições Coletivas
1940 - Filadélfia (Estados Unidos) - Coletiva, na International Philadelphia
1941 - Nova York (Estados Unidos) - 3ª Latin America Exhibition of Fine Arts
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Hommage Fait à Rodin, na Buchhlz Gallery
1942 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1943 - Nova York (Estados Unidos) - Maria Martins, na Valentine Gallery
1944 - Ohio (Estados Unidos) - Religious Art of Today, na Dayton Ohio
1946 - Saint Louis (Estados Unidos) - Origins of Modern Sculpture, na City Art of St. Louis
1947 - Paris (França) - Exposition International e Surréaliste, na Galerie Maeght
1949 - Paris (França) - De Rodin à Nos Jours, na Maison de la Culture Française
1949 - Salzburgo (Áustria) - A Música e as Artes Plásticas
1951 - São Paulo SP - 1ª Bienal Internacional de São Paulo, no Pavilhão do Trianon - artista convidada
1953 - São Paulo SP - 2ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - 2º prêmio escultura
1954 - São Paulo SP - Arte Contemporânea: exposição do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1955 - São Paulo SP - 3ª Bienal Internacional de São Paulo, no MAM/SP - prêmio melhor escultor nacional
1959 - Leverkusen (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1959 - Munique (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa, no Kunsthaus
1959 - Viena (Áustria) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Hamburgo (Alemanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Lisboa (Portugal) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Madri (Espanha) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Paris (França) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1960 - Utrecht (Holanda) - Primeira Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa
1967 - São Paulo SP - 1ª Exposição Surrealista, no Teatro Itália
Exposições Póstumas
1973 - São Paulo SP - 12ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1978 - Rio de Janeiro RJ - Escultura Brasileira no Espaço Urbano: 50 anos
1979 - São Paulo SP - 15ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1982 - São Paulo SP - Um Século de Escultura no Brasil, no Masp
1984 - Petrópolis RJ - Individual, no Palácio de Cristal
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1985 - Belo Horizonte MG - Rio: vertente construtiva, no MAP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Rio: vertente surrealista, na Galeria de Arte Banerj
1985 - São Paulo SP - A Arte do Imaginário, na Galeria Encontro das Artes
1985 - São Paulo SP - Rio: vertente construtiva, no MAC/USP
1987 - São Paulo SP - 19ª Bienal Internacional de São Paulo - Sala Imaginários Singulares, na Fundação Bienal
1987 - São Paulo SP - As Bienais no Acervo do MAC: 1951 a 1985, no MAC/USP
1987 - Paris (França) - Modernidade: arte brasileira do século XX, no Musée d'Art Moderne de la Ville de Paris
1988 - Nova York (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no The Bronx Museum of the Arts
1988 - São Paulo SP - MAC 25 anos: destaques da coleção inicial, no MAC/USP
1988 - São Paulo SP - Modernidade: arte brasileira do século XX, no MAM/SP
1989 - El Paso (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no El Paso Museum of Art
1989 - San Diego (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no San Diego Museum of Art
1989 - San Juan (Porto Rico) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Instituto de Cultura Puertorriqueña
1990 - Miami (Estados Unidos) - The Latin American Spirit: art and artists in the United States: 1920-1970, no Center for the Fine Arts Miami Art Museum of Date
1992 - Poços de Caldas MG - Arte Moderna Brasileira: acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, na Casa da Cultura de Poços de Caldas
1992 - São Paulo SP - A Sedução dos Volumes: os tridimensionais do MAC, no MAC/USP
1992 - Zurique (Suíça) - Brasilien: entdeckung und selbstentdeckung, no Kunsthaus
1993 - Rio de Janeiro RJ - Brasil 100 Anos de Arte Moderna, no MNBA
1994 - São Paulo SP - Arte Moderna Brasileira: uma seleção da Coleção Roberto Marinho, no Masp
1994 - São Paulo SP - Bienal Brasil Século XX, na Fundação Bienal
1996 - São Paulo SP - Arte Brasileira: 50 anos de história no acervo MAC/USP: 1920-1970, no MAC/USP
1996 - São Paulo SP - Mulheres Artistas no Acervo do MAC, no MAC/USP
1997 - Florianópolis SC - 5º Salão Nacional Victor Meirelles, no Masc
1997 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: retrospectiva, na Galeria Jean Boghici
1997 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Espaço Cultural Safra
1997 - São Paulo SP - Maria Martins, na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
1997 - São Paulo SP - O Mistério das Formas, no MAC/USP
1997 - São Paulo SP - Tridimensionalidade na Arte Brasileira do Século XX, no Itaú Cultural
1997 - Washington D. C. (Estados Unidos) - Escultura Brasileira: perfil de uma identidade, no Centro Cultural do BID
1998 - Nova York (Estados Unidos) - The Surrealist Sculpture of Maria Martins, na André Emmerich Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no MAM/RJ
1998 - São Paulo SP - 24ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1998 - São Paulo SP - A Coleção Constantini no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no MAM/SP
1999 - Lima (Peru) - Mostra Brasil 500 Anos, no Museu Pedro de Osma
1999 - Rio de Janeiro RJ - Maria Martins: Les sculptures surréalistes des annés 40, na Galeria Jean Boghici
2000 - Brasília DF - Exposição Brasil Europa: encontros no século XX, no Conjunto Cultural da Caixa
2000 - Lisboa (Portugal) - Século 20: arte do Brasil, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
2000 - São Paulo SP - Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento. Arte Moderna, na Fundação Bienal
2000 - São Paulo SP - Escultura Brasileira: da pinacoteca ao Jardim da Luz, na Pinacoteca do Estado
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Guggenheim Museum
2001 - Nova York (Estados Unidos) - Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum
2001 - Rio de Janeiro RJ - Surrealismo, no CCBB
2002 - Rio de Janeiro RJ - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2002 - São Paulo SP - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2003 - Brasília DF - Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB
2004 - Rio de Janeiro RJ - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial
2004 - São Paulo SP - O Preço da Sedução: do espartilho ao silicone, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira, no Itaú Cultural
2005 - São Paulo SP - O Século de um Brasileiro: Coleção Roberto Marinho, no MAM/SP
Fonte: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2022. Disponível em: Itaú Cultural. Acesso em: 10 de setembro de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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Biografia - Wikipédia
Nasceu em Campanha (Minas Gerais) em 07 de agosto de 1894, filha de Cosmo, Senador, Ministro da Justiça da Velha República e membro da Academia Brasileira de Letras, e Fernandina de Faria Alves, sendo avós paternos João Luís Alves e Bárbara Luísa Barbosa Alves e avós maternos Fernando Antônio de Faria e Maria Vitória Pereira de Faria tendo sido declarante o Pai e testemunha Dr. Euclides da Cunha e Otávio Barbosa Carneiro.
Casou-se, a primeira vez com o jurista e historiador Otávio Tarquínio de Sousa, de quem se separou, casando a segunda vez com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, gaúcho que era colega de infância de Getúlio Vargas - de quem a artista se tornaria amiga - e que, tal qual ela, gostava de festas e da vida mundana. Carlos Martins foi embaixador do Brasil, no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial, tendo servido no Japão e também na Europa. Carlos e Maria tinham uma relação aberta, um tendo conhecimento de casos do outro. Mas também tinham uma solidariedade completa e se ajudaram muito em seus objetivos.
Inicialmente, interessou-se pela música. Depois, estudou pintura em Paris; mas, aos trinta anos, se interessou pela escultura. Ainda na França, começou a trabalhar a madeira e, no Japão, aprendeu a modelar terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, realizou estudos de escultura com Oscar Jesper, em Bruxelas, passando a utilizar o bronze, que tornou, daí em diante, a ser o principal suporte à sua obra. No Brasil, sua presença maior se deu na Bienal de São Paulo, da qual participou desde o primeiro evento, em 1951. Na Bienal de 1955, chegou o reconhecimento, ao ser premiada com o título de melhor escultor nacional, com a obra om “A soma dos nossos dias”. Contudo, foi no exterior que se destacou. Em 1941 teve sua primeira mostra, em Washington, e, no mesmo ano, expôs em Paris e no Rio de Janeiro. Fixou seu ateliê em Nova Iorque e foi destaque na Corcoran Gallery of Art, em Washington, sendo que um dos trabalhos expostos foi adquirido pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Estava aberto o caminho. Nomes influentes passaram a se interessar por ela e, em breve, suas esculturas começaram a fazer parte do acervo de importantes colecionadores, como Max Jimenez, da Costa Rica, Federico Cantu, do México e Mário Carreño, de Cuba.
Em 1968, numa entrevista dada a Clarice Lispector, declarou: "Um dia me deu vontade de talhar madeira e saiu um objeto que eu amei. E depois desse dia me entreguei de corpo e alma à escultura. Primeiro, em terracota, depois mármore, depois cera perdida que não tem limitações". Suas esculturas apresentam formas orgânicas, contorcidas, sensuais, que evocam culturas arcaicas, inspiradas em lendas e na natureza amazônica, com o que atraíram a atenção de surrealistas como André Breton, o autor do Manifesto surrealista, que escreve apresentação de exposição e convida a mineira a integrar-se ao grupo, Max Ernest, Roberto Matta, Yves Tanguy, Chagall, entre outros. Marcel Duchamp lhe dedicou duas obras, como testemunho do impacto da beleza e da sensibilidade vibrante da artista. Artista influenciada pelo surrealismo, as suas obras foram reconhecidas internacionalmente, possuindo obras na seção de Arte Moderna do Museu de Arte da Filadélfia e também no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), Museu de Arte Moderna Do Rio de Janeiro (MAM) , Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Paço das Artes da USP; também encontram-se trabalhos no Rio de Janeiro, Palácio do Planalto em Brasília e ainda em países como a França e a Bélgica. No Palácio Itamaraty, em Brasília, há duas esculturas de sua autoria: "A mulher e sua sombra" e "O canto da noite".
No Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA) está exposto "O Impossível", escultura de sua autoria datada de 1945.
Foi amante do pintor e escultor franco-estadunidense Marcel Duchamp e de Benito Mussolini, amiga de Picasso e Mondrian, entrevistou Mao Tsé Tung e fez, no início do século XX, coisas que eram impensáveis para uma mulher.
Tal dualidade é tangível na belíssima mostra Maria Martins: Desejo Imaginante, em cartaz no Masp, em São Paulo, até janeiro de 2022 — e, a partir de março seguinte, na Casa Roberto Marinho, no Rio. Em vez de domar os opostos dentro de si, Maria os alimentou e fez deles personagens. Inicialmente inspirada por lendas amazônicas, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, ela talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios e vulvas aparentes, ou serpentes lhes atando o corpo, num vislumbre da repressão que acaba vertida em tentação. “O trabalho da Maria é de um erotismo visceral. Ela lidou com questões do inconsciente e do desejo pela óptica da mulher, tema ainda caro à sociedade”, diz a curadora da mostra, Isabella Rjeille.
Chamada por apelidos descabidos, como “Frida Kahlo brasileira” ou “surrealista dos trópicos”, ou ainda reduzida ao posto de “amante de Duchamp” (manteve um caso por dez anos com o iconoclástico francês que transformou mictórios em arte), Maria foi uma artista singular e original. Com o perdão do clichê, estava à frente de seu tempo nos costumes e na arte — ela própria dizia não querer ser rotulada com “ismos”, em resposta à sua classificação compulsória entre os surrealistas após ser abraçada pelo pai do movimento, André Breton (1896-1966). A estética criada por ela era inédita para a época, mas compartilhava com amigos surrealistas como o espanhol Salvador Dalí e o francês Yves Tanguy a representação onírica de sonhos e pesadelos, que espelhavam os horrores da II Guerra Mundial. Décadas mais tarde, curiosamente, o terror pop de produções como o filme
O Labirinto do Fauno e a série Stranger Things exibiria uma notável correspondência com o visual de suas deusas e monstros.
Aluna do escultor belga Oscar Jespers e do lituano Jacques Lipchitz, Maria flertou no início da carreira no exterior com o desejo de reafirmar sua nacionalidade. Esculpiu lendas folclóricas e criou seres inspirados em lianas — os cipós tão comuns em florestas tropicais. Era arte para gringo ver. Ao se desprender do estereótipo de estrangeira no Primeiro Mundo, ela enfim mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico. É sua melhor fase.
Nasce então uma marcante série de peças chamada O Impossível (1944 a 1949) — duas das quais integram a exposição do Masp. As esculturas consistem em uma criatura feminina e outra masculina lançando tentáculos de suas cabeças em busca de conexão. O encaixe não acontece. A alegoria de uma relação insaciável, mas proibida, é associada ao romance com Marcel Duchamp (1887-1968), com quem ela teve uma prolífica relação profissional de apoio e influência mútuos. Ao voltar para o Brasil, na década de 50, já consagrada nos Estados Unidos, Maria se impôs como um nome incontornável da produção artística mundial. Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais inicialmente torceram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel que Maria viria a exercer como mediadora entre artistas europeus e museus brasileiros: ela viabilizou a vinda de quadros de Picasso para a II Bienal de Arte, de 1953.
Foi só no século XXI que Maria alcançou um lugar de deferência no Brasil. “Há um resgate das obras dela pelo olhar de mulheres, que hoje ocupam o lugar da crítica masculina da época”, diz a curadora. Uma das peças mais impressionantes da mostra é a imponente
However!!, figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura. Um monstro sagrado que exige respeito — assim como sua criadora.
Fonte: Wikipédia, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Biografia - E-biografia
Maria Martins (1894-1973) foi uma escultora brasileira que chocou o país com suas figuras sensuais e perturbadoras. Foi apelidada de “surrealista dos trópicos” e “Frida Kahlo brasileira”.
Maria de Lourdes Alves Martins nasceu em Campanha, Minas Gerais, no dia 7 de agosto de 1894. Seu pai, Cosmo, foi senador, Ministro da Justiça da Velha República e Membro da Academia Brasileira de Letras. Sua mãe, Fernandina de Faria Alves era pianista.
Maria Martins foi aluna do Colégio Sion em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde aprendeu francês. Estudou também música e pintura.
Em 1915, casou-se com o historiador Otávio Tarquino de Souza, autor de obras sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. O casal teve duas filhas, mas apenas uma delas sobreviveu. A relação do casal terminou em 1925.
Carreira no exterior
Em 1926, Maria Martins perdeu o pai, iniciou-se na escultura e casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza a quem acompanhou em seus deslocamentos profissionais. No governo de Getúlio Vargas, o diplomata foi nomeado embaixador em Compenhague e depois em Tóquio, onde Maria se apaixonou pela cerâmica japonesa.
Em 1936, morando na Bélgica, Maria Martins aperfeiçoou-se na escultura estudando com o escultor belga Oscar Jespers.
Entre 1939 e 1948 o casal viveu em Washington, onde Maria decidiu se dedicar totalmente à escultura. Das 7 da manhã às seis da tarde, se instalava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira.
Maria Martins fez trabalhos de grandes dimensões em madeira, além de prosseguir com a cerâmica. Suas primeiras exposições foram realizadas em instituições públicas na Filadélfia e em Nova Iorque em 1940.
Em 1941, Maria Martins fez sua primeira exposição individual, intitulada “Maria”, na Corcoran Gallery of Art, em Washington. Na mostra, apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos usando diversos materiais, como gesso, madeira, terracota e bronze.
Em 1942, Maria alugou um estúdio na Park Avenue em Nova Iorque. Expôs na Valentine Gallery na qual apresentou formas oníricas de inspiração surrealista em bronze. Sua obra “São Francisco” foi adquirida pelo Museum of Art e “Yara” foi adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
No ano seguinte, a Valentine Gallery fez outra exposição da artista intitulada “Maria: News Sculptures”, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela escultora também chamado Amazônia. Entre elas destaca-se Uirapuru:
Nessa época, a artista conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova Iorque, durante os anos de guerra, que se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim, entre eles estavam Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian
Entre 1944, Maria deu início a uma série de peças chamada “O Impossível”, entre elas, destaca-se Amor Proibido, uma figura masculina e outra feminina que lançam tentáculos de suas cabeças em busca de conexão.
A relação de Maria com Duchamp se intensificou e ela se tornou modelo de diversas obra, entre elas, Étant Donnés. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme, na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
A inspiração vinda das lendas amazônicas evoluiu para uma mitologia própria e composições imponentes, como However, uma figura feminina de bronze, de quase 3 metros de altura.
Em 1948, Carlos Martins foi nomeado embaixador em Paris. Maria alugou um ateliê na Villa d’Alesia, que se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Sua primeira exposição individual em Paris foi acompanhada da publicação do livro “Les Statues Magiques de Marie, com ensaios de André Breton e Michel Tapié. Na França, Maria teve mais duas filhas.
Retorno ao Brasil
Em 1949, Carlos Martins se aposentou e o casal retornou para o Brasil. No ano seguinte, Maria preparou sua primeira grande exposição no país, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com 36 esculturas.
Ainda à sombra do modernismo caipira, os críticos e artistas locais viraram o nariz para a filha pródiga que chocou com suas obras “obscenas”. Mais tarde, renderam-se a ela, especialmente pelo papel de mediadora que exerceu entre os artistas europeus e os museus brasileiros.
Sua última individual foi realizada em 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), instituição que ajudou a fundar.
Em 1959, ela concluiu a grande escultura O Rito do Ritmo, que foi instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Outras de suas obras estão instaladas nos jardins do Palácio do Itamaraty.
Em 1960 começou a escrever uma coluna para o jornal Correio da Manhã, chamada “Poeiras da Vida”, quando entrevistava figuras notáveis da sociedade. Em 1964 ficou viúva. Em 1970 foi convidada para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília, mas não chegou a concluir a obra
Características da obra de Maria Martins
Inicialmente Maria Martins esculpiu lendas amazônicas e criou seres inspirados nos cipós tão comuns em florestas tropicais, até evoluir para uma mitologia particular de híbridos, com elementos da natureza mesclados a corpos humanos, quando talhava de forma explícita a sexualidade feminina, com seios aparentes ou serpentes lhe atando o corpo.
Ao de desprender das características, Maria mergulhou em si mesma, incorporando às obras um caráter autobiográfico, atingindo sua melhor fase e a série “O Impossível”. Foi só no século XXI que Maria alcançou seu lugar de destaque no Brasil. Maria Martins faleceu no Rio de Janeiro, no dia 27 de março de 1973.
Fonte: Ebiografia, Por Dilva Frazão, bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental. Última atualização em 23 de maio de 2022. Consultado pela última vez em 9 de setembro de 2022.
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Revista Cult - Primeira escultora a explorar sexualidade no Brasil, Maria Martins é tema de documentário
“Maria é um exemplo bem sucedido do que foi um processo de libertação, autorrealização e emancipação de uma mulher na primeira metade do século 20, é uma pré-feminista”. Assim o diretor e roteirista Francisco Martins define a escultora Maria Martins (1894-1973). Ao lado da produtora e co-diretora Elisa Gomes, ele é responsável pelo documentário Maria, não esqueça que eu venho dos trópicos, que chegou neste mês aos cinemas brasileiros.
“Não existia um debate de afirmação de gênero, como existe hoje. Quando ela se divorciou a mulher nem votava no Brasil”, diz o diretor. “Maria teve uma força impressionante porque conseguiu romper esses cercos de opressão praticamente sozinha, com seus próprios meios, e colocou-se de igual para igual com outros artistas homens.”
A qualidade e radicalidade de sua obra são motivos que a tornam a maior escultora brasileira da primeira metade do século 20, diz o crítico Paulo Herkenhof. Maria foi uma das primeiras artistas brasieleiras a experimentar o caminho da sexualidade nas artes plásticas.
Suas esculturas são pouco convencionais, há figuras antropomórficas com tentáculos, deformações, membros alongados, genitálias desproporcionais, corpos tentando se fundir. Também são recorrentes as figuras de mitos, deuses e monstros das mitologias amazonenses e yorubás.
Elas são vistas por Herkenhoff como expressões da procura pela essência do desejo: “Ela aponta o vazio do qual somos feitos, a incompletude, a impossibilidade de nos completarmos e sempre tentarmos entender o mistério da sexualidade, da devoração mútua”, afirma o crítico durante o filme.
Essa busca pela essência erótica não pode ser separada da sua trajetória de vida, afirma a co-diretora e produtora Elisa Gomes. “Maria foi uma mulher que brigou pelo espaço dela porque era livre. O desejo que ela trabalha tem a ver não com o desejo relacionado ao sexo, mas como pulsão da vida. Ela vivia o desejo como essência.” O documentário caminha entre uma apresentação da sua biografia e de suas obras. A intenção foi apresentar Maria Martins a um público que, fora do meio especializado, a desconhece.
As duas vidas de Maria
Na França, a artista aprendeu a modelar na madeira; no Japão, em terracota, mármore e cera perdida. Em 1939, em Bruxelas, passou a usar o bronze, principal matéria-prima adotada em suas obras posteriores. Casada com o embaixador Carlos Martins, estava acostumada a viajar o mundo, e ainda no início dos anos 1940 organizou suas primeiras exposições, montou um ateliê em Nova York e teve aulas com o escultor lituano Jacques Lipchitz.
Foi nessa época, inclusive, que conheceu Marcel Duchamp, com quem manteve um relacionamento amoroso e trocas artísticas. Maria Martins serviu, inclusive, de modelo para sua última obra, Étant donnés, e para a capa do catálogo Prière de toucher.
Apesar da vida em países estrangeiros, a artista nunca se esqueceu de onde veio, na opinião de Francisco Martins – daí o subtítulo do filme. “Desde 1922, havia essa proposta de descobrir o que seria uma cultura brasileira. Mas isso era feito dentro do estereótipo, no fundo de uma matriz colonizada europeia. Maria vai além e realmente registra essa exuberância de formas e de sexualidade num nível mais original, afirma o diretor Francisco Martins.
Quando retornou ao Brasil, na década de 1950, sua obra foi tratada com certa hostilidade pela crítica, que a considerava muito próxima do surrealismo e chegou a classificá-la como obscena. Em sua última individual, em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, teve inclusive que publicar um texto defendendo a liberdade de expressão do artista.
“Maria era uma mulher esclarecida e ficaria escandalizada com o que está acontecendo hoje no Brasil, pois mesmo que suas obras em certo momento fossem chamadas de obscenas, não eram censuradas e havia o espaço para o debate”, afirma Elisa Gomes.
Maria Martins também tem obras expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York e de São Francisco; no Museu de Arte da Filadélfia, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da USP.
Fonte: Revista Cult, por Paulo Henrique Pompermaier em 24 de novembro de 2017. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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MAM - Maria Martins, A escultora dos trópicos e do surrealismo
A escultora Maria Martins (1894-1973) é uma artista importante do modernismo internacional. Começou sua carreira tardiamente, mas sua presença no cenário artístico foi marcante principalmente nos anos 1940 e 1950, quando viveu entre os EUA e a França e manteve colaboração com figuras como André Breton, Marcel Duchamp e Piet Mondrian. O crítico e historiador da arte Michel Seuphor se referiu a Maria Martins em livro de 1959 como “a grande escultora do surrealismo”. Seu trabalho, que inclui temática indígena brasileira, foi descrito como “poesia tropical”.
Ela nasceu em Campanha (MG), filha de mãe pianista e um advogado autodidata que se tornou senador e ministro da Justiça. Estudou em escola católica em Petrópolis (RJ), o Colégio Sion, com aulas em francês. Casou-se em 1915 com o historiador Otavio Tarquinio de Souza, autor de volumes sobre a fundação do Brasil Império e biógrafo de Dom Pedro I. Teve duas filhas, Lucia Maria e Maísa, que morreu criança com meningite. Separou-se do marido em 1925.
No ano seguinte, perdeu o pai e casou-se com Carlos Martins Pereira e Souza, um diplomata brasileiro de carreira, a quem acompanha em seus deslocamentos profissionais. Tem uma terceira filha com ele, Theresa, que morre ao nascer. Nora Yolanda e Anna Maria Pia são as filhas que o casal tem nos anos seguintes, quando já morava na França.
No Governo Vargas, Carlos Martins se torna embaixador em Copenhagen e depois em Tóquio, onde Maria se apaixona pela cerâmica japonesa e estuda Zen Budismo. Em 1936, morando na Bélgica, Maria estuda escultura com Oscar Jespers e começa a trabalhar com terracota e fazer retratos.
Em 1939, Carlos é nomeado embaixador nos Estados Unidos, onde serve até 1948. Em Washington D.C., Maria decide se dedicar seriamente à escultura. Faz trabalhos de grandes dimensões em jacarandá e outras madeiras nativas do Brasil, além de prosseguir com a cerâmica. Em 1940, começa a expor em instituições públicas, na Filadélfia e em Nova York.
No ano seguinte, faz sua primeira exposição individual importante, intitulada apenas Maria, na Corcoran Gallery of Art, em Washington, recebendo críticas positivas. Nelson Rockefeller compra a escultura Christ para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Foi sua primeira obra a entrar na coleção de um museu norte-americano. Começa a aprender a esculpir em bronze com Jacques Lipchitz, recém-chegado de Paris, e quem ela conheceu numa viagem.
Em 1942, Maria aluga um estúdio na Park Avenue em Nova York. Torna-se amiga da escultora Mary Callery, através de quem conhece os arquitetos Mies van der Rohe e Philip Johnson. Faz sua primeira individual na cidade, na Valentine Gallery. Sua obra St. Francis é comprada pelo Metropolitan Museum of Art e outra, Yara, é adquirida pelo Philadelphia Museum of Art.
Em 1943, a Valentine Gallery faz duas exposições simultâneas: uma de Mondrian, intitulada Mondrian: New Paintings, e outra de Maria Martins, chamada Maria: News Sculptures, com oito figuras da Amazônia e acompanhada por um livro escrito pela artista também chamado Amazônia. A maioria das esculturas foram vendidas e ela mesma adquiriu Broadway Boogie Woogie, de Mondrian, por US$ 800, que no mesmo ano doou para a coleção do MoMA.
Nessa época, conheceu André Breton e Rufino Tamayo, e se tornou parte do círculo de artistas refugiados em Nova York que, durante os anos de guerra, se encontravam no apartamento de Peggy Guggenheim. Entre eles estavam Yves Tanguy, Max Ernst, Marcel Duchamp, Marc Chagall e Piet Mondrian. Fernand Léger tornou-se um amigo próximo e desenhou esculturas dela numa visita a Maria em Washington.
Entre novas exposições individuais e estudos de impressão, a relação de Maria com Duchamp se intensifica e ela se torna modelo da obra Étant donnés, entre outras. Duas obras de Maria são incluídas na Exposition Internationale du Surréalisme na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
Em 1948, Carlos passa a ser o embaixador do Brasil na França e o casal se muda para Paris. Maria aluga um estúdio na Villa d’Alesia, em frente ao estúdio de Brancusi, de quem se torna amiga próxima. Sua primeira exposição individual em Paris mereceu a publicação de um livro, Les Statues Magiques de Maria, com ensaios de André Breton e Michel Tapié.
Em 1949, Carlos se aposenta, o casal volta ao Brasil e Maria se prepara para sua primeira grande exposição no país, que acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1950, com 36 esculturas. Naqueles anos ela ajuda a organizar a primeira Bienal Internacional de São Paulo. Ganharia o primeiro prêmio na terceira Bienal.
Em 1952 Maria foi sócia benemérita e fez parte do Conselho Deliberativo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, exercendo um papel chave na formação de seu acervo. Uma retrospectiva de sua obra acontece no MAM Rio em 1956. Em 1959, ela conclui a grande escultura O Rito do ritmo, instalada em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília. Uma miniatura dessa escultura foi distribuída como lembrança na inauguração da nova capital federal.
Outras obras suas estão nos jardins do Palácio Itamaraty. Nos anos 1960, Maria escreve uma coluna chamada “Poeiras da vida”, entrevistando figuras notáveis para o jornal “Correio da Manhã”. Fica viúva em 1964. Em 1970, é comissionada por Oscar Niemeyer para fazer uma escultura para a Catedral de Brasília. Realiza os esboços, mas não chega a concluir a escultura. Morre aos 78 anos em sua casa no Rio de Janeiro.
De Maria Martins o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro possui uma obra-prima, a escultura em bronze O impossível (1945), em que duas figuras femininas de abraçam por tentáculos pontiagudos. Entre 1944 e 1949, ela criou diversas versões dessa escultura, em vários tamanhos e materiais. O exemplar que está no Museu de Arte Moderna de Nova York é O impossível, III, de 1946. Outra obra de Maria também está em comodato de longa duração no MAM. É uma escultura sem título, de bronze e mármore, de cerca de 1940, que faz parte da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio.
Em 22 de março de 1943, Maria Martins inaugurou sua terceira exposição individual, na Valentine Gallery, em Nova York. Maria: New Sculptures dividia o espaço da galeria com Mondrian: New Paintings. Às límpidas linhas verticais e horizontais, então coloridas e fragmentadas de Mondrian, Maria contrapunha suas escuras formas enredadas. Era a Amazônia que ela buscava figurar nesta mostra, não apenas em imagens, mas também em palavras: para acompanhar a exibição das peças, preparou um catálogo, em inglês, no qual narrava brevemente os mitos que envolviam as oito personagens apresentadas: Amazônia, Cobra Grande, Boiúna, Yara, Yemenjá, Aiokâ, Iacy e Boto.
Este conjunto de esculturas demarca uma mudança decisiva na concepção formal dos trabalhos de Maria Martins. Se antes suas peças tendiam a uma representação mais tradicional da figura humana, com contornos definidos, agora suas personagens, embora ainda reconhecíveis, se fundem a um emaranhado de folhas e galhos que fazem as vezes da floresta tropical. A figura humana começa, a partir de então, a se integrar à natureza, confundindo-se com esta e, em última instância, metamorfoseando-se nela.
Esta exposição busca flagrar as contínuas transformações da forma ao longo do desenvolvimento artístico de Maria Martins, não apenas nas esculturas, mas também nas pinturas, nos desenhos, nas gravuras que com aquelas dialogam. A ideia é mostrar como a desfiguração do humano, nesta obra, é sempre já o início da figuração de outra forma, que se aproxima ora do vegetal, ora do animal. Para tal, dividiu-se a exposição em cinco núcleos – Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos, Esqueletos − determinados a partir de uma comunicação formal antes que cronológica. Os núcleos não se pretendem estanques, mas, pelo contrário, fluidos (a metamorfose não tem fim). Há obras que se encontram nas passagens de um a outro, que oscilam entre cá e lá.
Pontuam a exposição citações de Euclides da Cunha, Alberto Rangel, Mário de Andrade, Raul Bopp, Flávio de Carvalho e Clarice Lispector. Quer-se, com elas, mostrar como a obra de Maria Martins estava em sintonia com todo um pensamento brasileiro moderno (não só modernista) da forma como formação incessante.
Completando a exibição das esculturas, das pinturas, dos desenhos e das gravuras, apresentam-se uma joia desenhada por Maria Martins e uma série de 17 cerâmicas, que pertenciam à sua casa de Petrópolis. A atividade da artista como escritora também está aqui contemplada, com seus três livros e os artigos publicados por ela no Correio da Manhã, estes últimos praticamente desconhecidos atualmente.
Trópicos
Antes da exposição de 1943, Maria Martins já vinha voltando sua atenção para temas brasileiros, mas ainda moldava seus Samba, Negra, Yara em formas convencionais. Obras como Yemenjá e Iacy, aqui exibidas, já sinalizam o entrelaçamento do elemento humano ao vegetal, embora as figuras representadas sejam ainda claramente discerníveis. Na passagem para o núcleo seguinte, N’oublies pas que je viens des tropiques e Glèbe-ailes, muito parecidas entre si, são variações de um corpo em plena transformação.
Lianas
Neste segundo conjunto de esculturas, há certa concentração nos elementos que eram secundários no primeiro: as formas enredadas que circundavam as figuras principais. Em Comme une liane, é a própria figura feminina que tem seus membros convertidos em algo semelhante a galhos flexíveis ou cipós. Prometheus e Orpheus – que fogem ao tema da floresta, mas não à forma ali ensaiada – se confundem com o entorno emaranhado do qual fazem parte. Na passagem, Hasard hagard e Sûr doute apontam para o estranhamento das formas do núcleo seguinte.
Deusas e Monstros
“Sei que minhas Deusas e sei que meus Monstros / sempre te parecerão sensuais e bárbaros”, escreve Maria Martins no poema Explication, que integra a tiragem especial do catálogo da mostra de 1946, aqui exibido. Ao longo de sua carreira, Maria produziu uma série de deusas e monstros, nos quais a figura humana aparece transformada. Em Impossible, a escultura mais célebre deste núcleo, o caráter erótico da metamorfose se explicita: dois corpos, um feminino e um masculino, são impedidos de se aproximar totalmente em função das estranhas formas pontiagudas de suas cabeças, ao mesmo tempo em que parecem magneticamente – amorosamente – ligados para sempre. Na passagem, as bocas abertas de A tue-tête, O galo e Chanson en suspens antecipam os cantos mudos do próximo núcleo.
Cantos
Em seu livro sobre Nietzsche, Maria Martins demonstra especial admiração pelos cantos de Zaratustra. Em O canto da noite (título que ela toma emprestado para uma de suas esculturas), Nietzsche escreve: “Uma sede está em mim, insaciada e insaciável, que busca erguer a voz”. Em O canto do mar e na escultura sem título, as formas se tornam mais arredondadas, mais indefinidas, mais abstratas, numa possível tentativa de dar forma ao que não é palpável, como a voz. Calendário da eternidade e Très avide, por sua vez, sugerem as aberturas do corpo, pontos de dissolução da forma nos mistérios da profundeza informe: talvez bocas, talvez vulvas.
Esqueletos
De uma maneira geral, a obra de Maria Martins se voltou sobretudo para as formas orgânicas. No entanto, há um conjunto de trabalhos que tendem à forma do esqueleto, ou seja, que se concentram naquilo que, no organismo, bordeja o inorgânico. Brouillard noir e Tamba-tajá perdem corporalidade, se comparadas com outras esculturas suas, e se reduzem a ossaturas. Pourquoi toujours, que pode lembrar a forma de uma planta, é toda pontuada por pequenas caveiras. É como se Maria, barrocamente (e ironicamente), nos recordasse que o que resta do humano, ao fim das metamorfoses, são os ossos. Somente a eles corresponde talvez a utopia de uma forma final.
Fontes: MAM e MAM Rio, texto de Márion Strecker, curadoria Veronica Stigger, publicado em 10 de julho de 2013, consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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Revista Quem: Uma mulher de talentos
Maria Martins é mais lembrada por seus casos com Marcel Duchamp e Benito Mussolini e amizades com artistas como Picasso, André Breton e Mondrian. Uma biografia resgata a imagem da maior escultora brasileira
Alguns artistas acabam mais famosos por suas peripécias públicas e privadas do que por sua obra. A escultora Maria Martins (1895-1973) é um desses casos. Grã-fina e meio hippie, foi embaixatriz, amante do artista plástico francês Marcel Duchamp e do ditador italiano Benito Mussolini, amiga de artistas como Picasso, Fernand Léger, André Breton, Constantin Brancusi, Mondrian e do milionário Nelson Rockefeller. Ela entrevistou o chinês Mao Tsé-tung em Pequim, foi amiga dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Doou obras ao MAM do Rio e intermediou para o museu a aquisição de obras de Picasso, Alberto Giacometti e Léger. E em 1925 teve a coragem de se separar do primeiro marido, Octavio Tarquinio de Sousa.
Agora o livro Maria Martins - Uma Biografia, da jornalista Ana Arruda Callado, quer resgatar no Brasil a figura de Maria Martins como uma artista genial. Mesmo sendo a escultora brasileira mais conhecida no exterior, aqui ela ainda não é vista como deveria.
Em 2001, ao visitar uma mostra sobre surrealismo no Rio, Ana viu 18 esculturas de Maria Martins. "Depois de ver, mirar, admirar, saborear cada uma daquelas peças, uma indagação me ocorre e me dá uma sensação de revolta: por que até aquele momento mágico só ouvira falar de Maria Martins como embaixatriz ou amante de Marcel Duchamp?", escreve a autora na biografia.
Após iniciar suas pesquisas, Ana descobriu não ser a primeira a se encantar pelas obras da artista. O colecionador Gilberto Chateaubriand disse: 'As esculturas de Maria Martins são perfeitos retratos de sua autora: belas, exuberantes, sofisticadas e misteriosas.' Nada como o tempo para fazer justiça.
Fonte: Revista Época, por Guilherme Ravache. Consultado pela última vez em 08 de setembro de 2022.
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VEJA - A deusa e seus monstros: mostra no Masp resgata obra de Maria Martins
A escultora chocou o país nos anos 50 com peças que retratavam figuras sensuais e perturbadoras
Em uma entrevista com ares de papo entre amigas, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e a escultora Maria Martins (1894-1973) trocaram experiências sobre a “carreira” de mulher de diplomata. Ambas se casaram com embaixadores da era Getúlio Vargas, no começo dos anos 40, e passaram anos fora do Brasil. O ambiente social rigoroso exigia que as embaixatrizes ostentassem decoro e simpatia. Clarice e Maria, porém, optaram pela fama de “diferentes”. “Como você, eu me refugiei na arte”, disse a artista mineira à autora. Das 7 da manhã às 6 da tarde, Maria se trancafiava em seu ateliê no sótão da embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos — antes de alugar um espaço só dela em Nova York. À noite, dedicava-se aos compromissos sociais do marido, o embaixador Carlos Martins Pereira e Sousa. A vida dividida em duas partes, com a obrigação das aparências de um lado e seu “excesso de personalidade” (como viria a ser criticada) do outro, fez de Maria uma figura que, assim como suas esculturas de formas monstruosas e sensuais, hipnotizava e repelia com a mesma intensidade.
Fonte: Revista Veja, por Raquel Carneiro Atualizado em 27 ago 2021, Publicado em 27 ago 2021. Consultado pela última vez em 8 de setembro de 2022.
Crédito fotográfico: Revista Veja, foto por Elisa Gomes, de Maria Martins, escultora dos trópicos.