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Odoteres Ricardo de Ozias (Eugenópolis, MG, 1940 – Rio de Janeiro, RJ, 2011), mais conhecido como Ozias, foi um artista plástico brasileiro. Autodidata, Ozias ficou conhecido por sua abordagem intuitiva e inovadora na pintura. Começou sua trajetória artística aos 46 anos, sem formação acadêmica, utilizando materiais alternativos como palitos de fósforo e as próprias unhas para criar suas composições vibrantes e expressivas. Suas obras exploram temas da cultura popular brasileira, destacando o Carnaval carioca e rituais do Candomblé, com cores intensas e padrões rítmicos marcantes. Seu trabalho se insere na tradição da arte naïf e foi reconhecido por instituições como o Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), no Rio de Janeiro. Após sua morte, suas pinturas ganharam maior projeção internacional, sendo exibidas em galerias como a David Zwirner, em Londres. Sua arte desafia os padrões acadêmicos e ressalta a importância da expressão espontânea, consolidando-se como uma referência na arte popular brasileira.
Odoteres Ricardo de Ozias | Arremate Arte
Odoteres Ricardo de Ozias foi um artista naif brasileiro. Nascido em 1940, na cidade de Eugenópolis, Minas Gerais, Ozias veio de uma família numerosa, começou a trabalhar nos campos desde cedo, o que influenciou profundamente sua visão artística. Na década de 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou como assistente administrativo na companhia ferroviária federal. Neste período, descobriu sua paixão pela pintura, utilizando materiais improvisados como palitos de fósforo mastigados, dedos e unhas para criar suas obras. Aos 46 anos, autodidata, Ozias começou a pintar de forma mais consistente, buscando expressar suas vivências e observações cotidianas.
Suas obras são conhecidas por retratar cenas vibrantes do Carnaval carioca, destacando desfiles de escolas de samba e a energia contagiante dos participantes. Além disso, explorou temas religiosos afro-brasileiros, como o Candomblé, capturando rituais e cerimônias com riqueza de detalhes. Seu estilo é marcado por composições dinâmicas, uso de cores intensas e padrões repetitivos, refletindo a cultura e as tradições brasileiras.
Utilizava materiais como Eucatex e Fórmica, muitas vezes reaproveitados de descartes de seu ambiente de trabalho, demonstrando sua criatividade e adaptabilidade. Sua abordagem única e autêntica rendeu-lhe reconhecimento no cenário artístico, culminando em exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.
Faleceu em 2011.
Em 2023, uma exposição póstuma de suas obras foi realizada na galeria David Zwirner, em Londres, apresentando pinturas produzidas entre 1996 e 2004, anteriormente pertencentes ao acervo do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN) no Rio de Janeiro. Essa mostra marcou uma das primeiras apresentações individuais de seu trabalho fora do Brasil, evidenciando a relevância e o impacto de sua arte no contexto internacional.
Odoteres Ricardo de Ozias deixou um legado significativo, celebrando a cultura e as tradições brasileiras através de sua arte singular, que continua a inspirar e encantar apreciadores e críticos ao redor do mundo.
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Pinturas naïf protagonizam exposição no parque Lage, no Rio | Folha de São Paulo
Fechadas ao público há mais de dois anos, 300 obras do Mian (Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil) estão em exposição na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Com 6.000 peças em acervo — o maior de arte naïf no mundo — o Mian fechou as portas de seu casarão no bairro do Cosme Velho em dezembro de 2016, por falta de recursos.
A mostra exibe peças de artistas como Dalton Paula, Heitor dos Prazeres, e Amadeo Luciano Lorenzato. “São nomes considerados naïf por preconceito, porque eles já figuram em outras coleções e são mais complexos do que isso”, afirma o curador Ulisses Carrilho. “Antes de fazerem sucesso, são considerados naïf e depois se reinventa um nome para chamá-los.” Naïf (ingênuo, em francês) é o gênero guiado pelo autodidatismo de artistas. “Eu não acredito que esses pintores sejam mais emotivos, ou mais ingênuos do que outros”, afirma Carrilho. Na exposição, obras ditas naïf dialogam com
outras de arte contemporânea de mais de 40 artistas, sem delimitação de
gêneros. “Não há artistas naïf ou não naïf. Há artistas”.
A curadoria toca na hipótese de que o autodidatismo artístico no Brasil seja
menos uma escolha do que uma imposição. Para Carrilho, a questão precisa ser
considerada a partir da realidade social brasileira. “A questão aqui está muito
mais ligada à falta de acesso ao ensino público”, diz.
A mostra é aberta com seis telas a óleo, pintadas com dedos e escovas de dente, do mineiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011). É uma sequência nunca antes exposta, que conta uma série narrativa histórica — da captura de negros em solo africano à sua chegada e escravização no Brasil.
Negro e pobre, Ozias veio do interior de Minas para o Rio, foi pedreiro e ferroviário, virou pastor evangélico e pintou aspectos da negritude e do candomblé. “A discussão sobre o acesso à educação pública está intimamente colocada dentro de uma discussão antirracista”, diz o curador.
Com o subtítulo-manifesto “Nenhum Museu a Menos”, a mostra faz alerta sobre o deterioramento e o fechamento de museus no país. Além do próprio Mian, Carrilho lembra no Rio os casos do Museu Nacional, incendiado em 2018, e do Museu Casa do Pontal, fechado após inundação.
Fonte: Folha de São Paulo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Parque Lage destaca a produção de Ozias, que começou a pintar com sobras de eucatex | O Globo
Quase um terço das obras selecionadas no Museu Internacional de Arte Naïf são de um pintor, que ganha destaque na exposição. Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), ou simplesmente Ozias, como assinava seus trabalhos, nasceu em Eugenópolis (MG) e veio para o Rio nos anos 1960, onde inicialmente trabalhou como pedreiro. Empregado na Rede Ferroviária, após ser transferido para uma função no escritório começou a explorar materiais disponíveis para a prática artística.
Das caricaturas feitas para passar o tempo, Ozias passou a utilizar sobras de eucatex da repartição como suporte para as pinturas, em temas religiosos, históricos e sociais. Das 83 obras de sua autoria, estão seis telas nunca exibidas, que abordam a captura e escravização da população africana e seu trajeto até a costa brasileira.
— O Ozias cruza vários campos, era um homem negro com uma vivência de terreiro, que depois virou pastor neopentecostal — comenta Ulisses Carrilho. — O sincretismo foi historicamente representado por artistas brancos, a partir de matrizes das vanguardas europeias. O Ozias fez isso de forma única, sem diferenciar se a pintura era numa tela ou numa parede. É uma possibilidade ímpar de se olhar para esta narrativa a partir de alguém que a vivenciou de fato.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | Sophie Su Art Advisory
Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) foi um artista autodidata que começou a pintar com seriedade enquanto vivia em uma área rural de Minas Gerais. Suas criações artísticas apresentavam uma fusão de motivos espirituais e festividades, caracterizadas por cores vibrantes e padrões recorrentes. Ele escolheu a pintura como um meio de escapar de suas responsabilidades administrativas rotineiras na Companhia Ferroviária Federal. Em seguida, tornou-se ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas.
As obras em exposição foram realizadas entre 1996 e 2004. Várias pinturas em exibição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras. Composições como Aparição (2002) apresentam temas de êxtase e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia (2000) retratam rituais de oferenda, sacrifício e oração do Candomblé.
Outro grupo de pinturas ilustra o Carnaval do Rio de Janeiro. Um terceiro conjunto de trabalhos retrata cenas de trabalho agrícola e recreação rural. Ele frequentemente pintava em painéis de eucatex ou fórmica, que pegava de pilhas de lixo em seu escritório. Usando materiais encontrados, como escovas de dente e pincéis feitos à mão, o artista aplicava tinta a óleo ou acrílica para criar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco.
As obras faziam parte da coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o mais importante colecionador da obra de Ozias. É a primeira vez que o trabalho de Ozias será exibido no Reino Unido e está entre suas primeiras exposições individuais fora do Brasil.
Ozias trabalhou primeiramente como condutor e como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de realizar trabalhos manuais. Em seu novo escritório, ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas. Foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies, publicado em 1981.
Mais tarde, tornou-se ministro evangélico da Assembleia de Deus Pentecostal. Em meados da década de 1980, Ozias morava em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus filhos. A primeira exposição individual de Ozias foi organizada na Sala do Artista Popular - Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro. Seguiram-se várias exposições individuais e coletivas em todo o Brasil. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris e, em 1994, em Frankfurt, como parte de uma exposição de artistas ingênuos brasileiros.
No final da década de 1980 e início da década de 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis "José Nazareno Mimessi", em São Paulo, e o Museu do Folclore, no Rio de Janeiro.
Em 2019, ele participou da exposição coletiva "Arte Naïf - Nenhum museu a menos" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição "Arte nas Estações", no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Sophie Su fez uma entrevista com Jacqueline Finkelstein, filha do renomado colecionador de arte Lucien Finkelstein, que reuniu uma extensa coleção de obras de Ozias.
Sophie Su - Lucien Finkelstein (1931-2008) já colecionava obras de Ozias há quase uma década quando fundou o MIAN em 1995. Você poderia nos contar quando e como Lucien descobriu as obras de Ozias?
Jacqueline Finkelstein - Não sei precisar quando e como meu pai, Lucien Finkelstein, conheceu Ozias, porque houve inúmeros encontros e buscas pelos naifs durante a maior parte de sua vida. Em 1985, Lucien transformou sua joalheria no escritório e no depósito da futura MIAN. Naquele ano, ele estabeleceu a Lucien Finkelstein Foundation e se dedicou a criar um museu exclusivamente para a arte naïf. Sua meta era criar a maior e mais completa coleção do gênero no mundo, bem como abrir o museu. Ele conseguiu concretizar sua intenção.
Como ele conheceu o artista?
Lucien era um patrono de muitos bons artistas ingênuos para incentivá-los a melhorar e pintar mais, e também para poder ter paz de espírito ao fazer isso. Durante anos, ele comprou semanalmente ou quinzenalmente toda a produção de talvez 10 a 12 pintores, entre eles Ozias. Era sempre uma alegria recebê-los no museu e meu pai sempre os aguardava com grande ansiedade para ver o que haviam criado. Ozias sempre chegava com um belo e grande sorriso, não era muito falante, mas sempre trazia alegria e serenidade em seu semblante. Usava camisas sociais de cores fortes, vermelho, azul, laranja, que contrastavam lindamente com sua pele muito morena e seus dentes muito brancos. Ele sempre usava um colete combinando com suas calças escuras e quase sempre tinha uma Bíblia nas mãos.
Você pode nos contar sobre a relação entre Lucien Finkelstein e Odoteres Ricardo de Ozias? Que viagens eles fizeram juntos?
Em 2005, por meio do Ministério das Relações Exteriores, convidei Ozias para ir comigo, junto com outras duas naifs (Aparecida Azedo e Ermelinda), a Porto Príncipe, no Haiti, para fazer um grande painel em praça pública, em comemoração ao Dia da Amizade entre Brasil e Haiti. Ficamos hospedados junto com outros três grandes pintores haitianos, Prefete Duffault, Etienne Chavannes e Franz Zephirin, durante uma semana para fazer esse painel de 9m de comprimento. Foi uma experiência única e inesquecível para todos. Os artistas delimitaram seus espaços e pintaram, sem falar a mesma língua, por 7 dias ininterruptos até chegarem a um resultado magnífico que hoje está na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe.
Qual foi a primeira obra do artista a entrar na coleção Lucien Finkelstein?
A primeira obra de Ozias a entrar na coleção do MIAN foi "O Forasteiro", de 1987.
Odoteres Ricardo de Ozias foi um dos primeiros artistas a fazer parte da coleção?
Ozias não foi o primeiro artista a entrar para a coleção. A paixão de Lucien por naifs vem de longa data, o primeiro quadro que ele comprou ainda jovem foi de Heitor dos Prazeres, "Autorretrato do Artista Pintor", em uma livraria francesa que ele frequentava muito.
O que chamou a atenção de Lucien para o trabalho de Ozias? Como o trabalho de Ozias foi percebido na coleção MIAN como um todo?
Lucien ficou fascinado não apenas pela ingenuidade e pureza, mas também pela originalidade e expressividade da pintura de Ozias. Nenhum outro artista tinha um domínio tão bom da cor preta, tão difícil de usar. Ozias sempre se destacou na coleção por seus temas instigantes, extremamente tocantes e até muitas vezes assustadores. Suas diversas fases lembram os seus tempos de infância, onde retrata o campo, os bois, os trens cortando o milharal, teve a fase do candomblé, a espiritual com mensagens do Evangelho, pintou bastante também o carnaval carioca e os desfiles de escolas de samba.
Quantas obras de Ozias existem hoje na Coleção Lucien Finkelstein?
Hoje, na coleção da L.F., devemos ter cerca de 150 obras.
Fonte: Artigo e entrevista de Sophie Su divulgado na newsletter Sophie Su Art Advisory, sobre arte e negócios. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Revista FÓRUM: NAÏF, a arte intuitiva que encanta e surpreende | Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro
A naïf é a arte internacionalmente conhecida como da espontaneidade, do instinto, em que o autor, por não ter cursado escolas de belas artes, age de modo autodidata. É a expressão, geralmente pictórica, da pessoa que não passou pelo aprendizado da arte clássica ou popular. Não à toa a palavra naïf significa ingênuo, na língua francesa.
Apresentados os rótulos costumeiros da arte naïf, deixemos claro: seus trabalhos são de qualidade ímpar, seus artistas encantam pelo talento. E o Brasil é um de seus principais polos mundiais.
No Rio de Janeiro, funcionou por 21 anos o Museu Internacional da Arte Naïf (Mian), com o raro acervo de 6.000 peças de artistas de 120 países, o mais importante do planeta dedicado à chamada arte primitiva. O museu fechou, mas o acervo continua no casarão histórico do Cosme Velho, bairro na Zona Sul carioca.
O motivo do encerramento, em 23 de dezembro de 2016, foi a crise financeira, que dificultou a captação de patrocínios, conforme anunciou à época a diretora Jacqueline Finkelstein, filha do fundador do Mian, o colecionador francês Lucien Finkelstein (1931-2008).
Para não deixar longe do público os trabalhos de qualidade guardados há quase três anos, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage abriu em maio a exposição “Arte Naïf – Nenhum museu a menos”, que reúne 325 obras do acervo e trabalhos de 38 artistas contemporâneos, como Nelson Leirner e Barrão.
“É a maior coleção de arte naïf do mundo. A ideia da exposição surgiu da necessidade de mostrarmos a importância da coleção. São obras de artistas geniais, que pouco conhecemos”, relata o economista Fabio Szwarcwald, diretor-presidente da EAV.
Mais do que anunciar a exposição, que é gratuita e se encerra em 7 de julho, a proposta deste texto é informar o leitor sobre a existência de um museu reconhecido internacionalmente e que se encontra vedado à visitação por falta de dinheiro.
A mostra no Parque Laje tem, também, o objetivo de alertar os brasileiros para a situação crítica do Mian e de grande parte dos museus do país – 261 fecharam por falta de verba e problemas de manutenção. A receptividade do público é grande. Em cada fim de semana, cerca de 2.500 pessoas compareceram aos três salões do Parque Laje em que as obras naïf estão expostas.
Para o curador Ulisses Carrilho, a arte naïf não é praticada por artistas primitivos ou ingênuos, como induz a tradução da palavra para o português.
“É certo que essas pessoas não usaram técnicas clássicas, mas soluções próprias. Odoteres Ricardo de Ozias, por exemplo, veio de Minas Gerais, era negro, pastor evangélico. Suas obras nesta exposição são maravilhosas. Mostram festas populares, o cotidiano laboral, práticas religiosas”, afirmou Carrilho.
Szwarcwald acrescenta: “É preciso mostrar às pessoas a potência do acervo. Que elas percebam que um trabalho naïf pode integrar uma coleção contemporânea”.
À frente da EAV desde março de 2017, o diretor-presidente tem enfrentado com sucesso os percalços financeiros do Estado do Rio.
“Conseguimos entrar na Lei Rouanet pela primeira vez, com duas captações que somam R$ 50 milhões, para o plano anual e restauros. Criamos uma escolinha que em 2018 trouxe à EAV 3.000 crianças, das quais 2.000 com gratuidade. A EAV tem 500 alunos por semestre, 50 professores, 45 funcionários. Reativamos o programa de bolsas. É preciso ter projetos sérios, com bons resultados”, disse ele.
Fonte: AMAERJ – Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, escrito por Sérgio Torres. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias: Um espaço entre o altar e o alterado | M-A a space between
Enquanto os londrinos deixavam a cidade em busca de sol neste verão, uma massa de pinturas, brilhantes com a luz do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) chegou. Vistas pela primeira vez no Reino Unido - na galeria de David Zwirner na Grafton Street, aguardando exposição a partir de 1º de setembro.
Convidado para uma prévia em julho, entrei em uma sala, branca como uma folha de papel nova, enquanto um unboxing de pinturas estava em processo de ser apoiado contra as paredes antes da instalação. Post-its codificavam por cores três temas, agricultura, religião e carnaval. Enquanto ouvia o curador James Green apresentando as obras, logo comecei a apreciar o quão extraordinárias e contraditórias são as pinturas em exposição.
O que parece ser uma série de paisagens pintadas em um estilo infantil e ingênuo assume um contexto totalmente diferente quando você percebe que as obras em exposição foram pintadas por alguém na faixa dos cinquenta e sessenta anos, que só começou a desenhar aos 40 anos. A decisão de apresentar este trabalho, nesta galeria, neste momento, é conceitualmente fascinante.
Ozias apresenta uma visão tecnicolor de uma vida em revisão - como se libertada da possessão. Suas paletas primárias entram em choque em celebração saturada e contemplação de estado intensificada - tanto que assistir em silêncio deixa o espectador surdo, apenas para ouvir seu batimento cardíaco - há uma cor perceptível de compreensão que não é dita, mas implícita - tons de alegria, violência, repressão e histeria.
A mente zumbe em busca de referências, de pistas visuais e de razão, mas o gênio de Ozias parece repelir a reinterpretação de outros - as obras existem fora dos capítulos estudados da história da arte - suas manifestações codificadas são uma liberação não feita de fontes externas, mas de processamento interno - a intensidade e o ritmo de suas pinturas - concentradas em um foco hipnótico e abundante, sugerem uma abordagem meditativa e investigativa da criação que proporcionou catarse a um indivíduo que, durante a maior parte de sua vida, trabalhou duro dentro dos sistemas mecanizados de outros.
O antigo dono das obras Lucien Finkelstein (1931–2008), acumulou uma coleção de arte de seis mil peças em sua vida, mantendo uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Há paralelos intrigantes entre o estilo visual dos dois homens, ambos parecem focados em um senso de antecipação dentro de suas obras, com os tigres planos e nus reclinados de Rousseau propondo um recorte de papelão de terror sensacionalista, Ozias vai além ao retratar uma piscina fechada de crocodilos decapitando um observador tomando sol. Assim como acontece com ambos os artistas e uma observação generalizada da arte naïf, é o subconsciente que é priorizado sobre o contínuo.
O ímpeto em torno da exposição aumenta à medida que você anda pela sala, observando cada retângulo como se fossem imagens estáticas de uma animação silenciosa. Suas cores fortes e planas imediatamente entretêm e, então, quando seu olhar recai sobre os detalhes em miniatura, eles indicam de forma intrincada que nem tudo é o que parece.
Crescendo no interior do Brasil, uma pequena cidade chamada Eugenópolis em Minas Gerais, ele trabalhou com sua família como um trabalhador agrícola aos cinco anos, deixando o campo e se mudando para o Rio de Janeiro aos vinte anos para ser um pedreiro, antes de trabalhar como um agente de estação na Rede Ferroviária Federal. Algumas décadas depois, ele está preso ao escritório, trabalhando como um administrador devido a problemas de saúde. É aqui, exposto a materiais de papelaria pela primeira vez que ele começa a desenhar, empapelando as paredes de seu escritório com caricaturas de seus colegas. Ele é então contratado por seus empregadores para ilustrar um livro de espécies de madeira da Amazônia, publicado em 1981 - e pela primeira vez, Ozias é apresentado como um artista. As origens de um estilo diagramático criado com as ferramentas de um pensador conceitual continuam a ser empregadas ao longo de sua carreira. Implementos encontrados e forrageados são favorecidos em relação aos materiais de arte tradicionais, sobras de fórmica formam suas telas e brilho industrial sua paleta. Embora as técnicas empregadas como trabalhador agrícola e pedreiro industrial possivelmente tenham influenciado a construção de suas pinturas, uma cena é formulada como um cenário de camadas, cenários e atores perfeitamente posicionados para o olhar do melhor lugar da casa.
As pinturas em exposição (1996-2004) são do período em que o artista também foi ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal - um contexto que parece irresistível para conectar a uma prolífica efusão de obras que muitas vezes enquadram uma figura central, uma estrutura composicional como as peças alteradas de um retábulo.
A busca e questionamento introspectivo do artista é palpavelmente forte quando se considera o pensamento de que parte de sua comunidade evangélica rejeitou sua prática artística com uma religião marcada por rigoroso tradicionalismo e fundamentalismo - opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. Saber disso torna a vida de Ozias ainda mais fascinante. - A criação de 400 obras de arte conhecidas antes da morte e iterar sem repetir nem editar - todas consistentes e autogerenciadas como se respondessem a um briefing privado removido de vendas, conceito ou fama, em vez de um estado meditativo de oração.
Fonte: M-A, a space between, escrito por Joe Richards. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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O pintor mineiro Odoteres Ricardo de Ozias | O jornal de todos os Brasis
São difíceis mesmo de encontrar… Conheci um pintor, Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), com uma história de vida fantástica (colocarei parte dela abaixo) que expôs sua arte em inúmeros museus importantes do mundo e não consegui pratiamente nada de sua obra na internet, infelizmente…quando estive com ele, em princípios de 2011, já trazia uma saúde debilitada em consequência de um AVC, mas estava ainda produtivo; faleceu alguns meses depois do nosso encontro. Conheço pessoas ligadas a ele que têm muitas fotografias de sua obra e um dia espero apresentá-las aqui no blog.
Odoteres Ricardo de Ozias nasceu em 15 de julho de 1940 em Eugenópolis, cidade próxima a Muriaé, em Minas Gerais, filho de agricultores empregados em uma fazenda. Iniciou o curso primário e alfabetizou-se, passando logo em seguida a trabalhar no campo e, mais tarde, como ajudante de padeiro, na cidade de Eugenópolis. Em 1960, seu pai veio para o Rio de Janeiro, começando aqui a trabalhar como vigia da construção civil. Aos poucos conseguiu trazer toda a família – esposa, quatro filhas e cinco filhos – para esta cidade, onde Ricardo de Ozias exerceu de início a profissão de pedreiro. Mais tarde, na Rede Ferroviária Federal, foi manobrador e auxiliar de agente especial de estação, trabalhando nos torniquetes de venda de bilhetes. Problemas de saúde fizeram com que, há cinco anos, fosse readaptado em novas funções na mesma empresa, passando a trabalhar em escritório como auxiliar de expediente.
Assim, tendo largado o ‘serviço pesado’ e diante das circunstâncias que o colocaram em uma mesa de escritório, Ricardo de Ozias vislumbrou, no desenho, uma brincadeira que preenchia o tempo livre entre suas tarefas. Fazia caricaturas dos colegas. Mais tarde, quando uma engenheira procurava um desenhista para executar as ilustrações do livro ‘Madeiras da Amazônia – identificação de 100 Espécies’, editado pela empresa, recorreu a Ricardo de Ozias indagando se ele seria capaz de executá-las. Mesmo sem nenhuma experiência anterior, Ricardo aventurou-se entre giz de cera, canetas hidrocor e papéis que lhe foram fornecidos juntamente com pequenas amostras de madeiras. Devia reproduzir a cor e os veios típicos de cada uma, tarefa a que se devotou com interesse, mesmo quando parecia difícil encontrar as cores exatas. Foi obrigado a experimentar, pela primeira vez, diversas misturas de cores, ou até mesmo poeira adicionada ao desenho e fixada com giz de cera, para alcançar as tonalidades exatas.
Depois desta primeira – e única, até o momento – experiência profissional como desenhista, Ricardo de Ozias começou a pintar (…)”. (TRAVASSOS, Elizabeth. Ricardo de Ozias: pinturas)”.
A Biblioteca de São Paulo abrigou a exposição itinerante Com Açúcar & Com Afeto –Arte Naïf, do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil – 2011.
Fonte: O jornal de todos os Brasis, publicado por Luis Nassif. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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“Ozias” de Odoteres Ricardo de Ozias na Danielian Galeria São Paulo | Arte que Acontece
Das pinturas que retratam a realidade do campo e as devoções religiosas que permeiam significativamente a vida dos trabalhadores rurais aos devaneios da arte de tendência popular, “Ozias” ocupa a Danielian Galeria-SP a partir de outubro com obras que reafirmam as origens biográficas de Odoteres Ricardo de Ozias. O artista autodidata debutou no mundo da pintura sob o olhar do cotidiano na área rural do pequeno município da Zona da Mata de Minas. Ganhou visibilidade com seu viés de ‘artista do povo’ e se consagrou no cenário cultural internacional com uma mostra individual no templo da arte contemporânea, a David Zwirner, em Londres, em setembro de 2023.
Fez da pintura seu principal motivo para retratar o ser humano em seu espaço, suas escolhas e crenças, e sua forma de entender o mundo ao seu redor.
Como bem define o curador Jacopo Crivelli Visconti “a maneira como Ozias representa as grandes massas (em cerimônias religiosas ou festividades populares) confirma, de certa forma, essa interpretação: cada corpo parece fundir-se aos que estão aos seus lados e dar, num primeiro momento, a impressão de uma massa homogênea e imóvel. Mas todas as pessoas que compõem essa massa, sem exceção, estão de olhos bem abertos. É um olhar a que nada escapa, um olhar coletivo e atento, capaz de entender, com acuidade e precisão, os jogos e as disputas de poder que se desenrolam à sua frente”.
Ao mesmo tempo visto como artista que executa seu trabalho de forma singela, por meio de representações instintivas da natureza e elementos simples, sem conhecimento de técnicas usuais e, em paralelo, profundamente crítico, Ozias pode ser considerado um artista que representa um conjunto de tendências e estilos. Está entre os legítimos difusores da democratização da produção, difusão e reflexão sobre a ressignificação do simbólico como arte valorada, e que sugere um novo conceito ideológico das concepções de cultura.
Na mostra, estarão obras executadas desde 1962, passando pela produção dos anos 1990, com destaque para “Fogo Nisto!” e “Cortando a Mata”, representações do ambiente rural; e dos anos 2000, destacando-se “Anjos no Céu” e “Rostos”, que denotam as relações do homem e a religiosidade.
O evento antecede o lançamento da publicação sobre as obras do artista, previsto para 9 de novembro de 2024. A organização do livro é de Jacopo Crivelli Visconti, que também assina a autoria, juntamente com Moacir dos Anjos, Claudinei Roberto, Simon Grant e Gabriela Gotoda, com design de Raul Loureiro.
Fonte: Arte que acontece. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | David Zwirner
David Zwirner tem o prazer de apresentar uma exposição de pinturas do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940–2011) que será inaugurada neste outono na galeria em Londres. As obras em exposição, todas concluídas entre 1996 e 2004, estavam anteriormente na coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o principal colecionador da obra de Ozias. Esta é a primeira vez que a obra de Ozias será exibida no Reino Unido e está entre as primeiras apresentações solo de sua arte fora do Brasil.
Um artista autodidata e imaginativo, Ozias nasceu e foi criado em uma área rural do estado de Minas Gerais, Brasil. Ele começou a pintar seriamente quando tinha quarenta e poucos anos, adotando a prática como uma fuga de seu trabalho administrativo diário para a empresa ferroviária federal. Mais tarde, ele se tornou um ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas. Muitas de suas pinturas retratam a vida rural e os rituais religiosos afro-brasileiros na paisagem campestre onde ele passou sua infância, enquanto outro conjunto de trabalhos retrata os famosos desfiles comunitários do Carnaval anual do Rio de Janeiro. Apresentando o estilo característico de Ozias — composições simplificadas, porém dinâmicas, caracterizadas por cores fortes e padrões repetidos — as pinturas nesta exposição capturam o interesse do artista em temas espirituais de piedade e arrebatamento, juntamente com cenas de celebração festeira, ilustrando juntos a interpretação distinta de Ozias das tradições de seu Brasil natal.
Ozias frequentemente pintava em painéis de Eucatex — uma chapa de fibra de madeira de alta densidade usada para fabricação e móveis — ou fórmica, que ele tirava de pilhas de descarte em seu escritório. Usando uma variedade de ferramentas, incluindo escovas de dente, palitos de dente, seus dedos e um pincel áspero feito mastigando a ponta de um pedaço de madeira, o artista aplicou tinta a óleo ou acrílica para renderizar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco. Engenhoso e trabalhador, ele logo se comprometeu a pintar o máximo possível, relembrando mais tarde: “Como eu não sabia pintar, trabalhei em muitas pinturas ao mesmo tempo, tentando não esquecer todas as ideias que me vinham à mente.”
Várias pinturas em exposição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras, incluindo algumas cenas surrealistas que sugerem visões oníricas e manifestações de sabedoria espiritual. Um brasileiro negro, Ozias era especialmente afinado com as práticas do Candomblé — uma fé desenvolvida por africanos escravizados e seus descendentes, combinando elementos de várias religiões da África Ocidental e influências do catolicismo. Ela reconhece um panteão de divindades conhecidas como orixás , muitas associadas a santos católicos. Composições como A aparição ( A aparição) (2002) apresentam temas devocionais de arrebatamento e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia ( 2000) retratam rituais de candomblé de oferenda, sacrifício e oração. Outro grupo de pinturas ilustra os famosos desfiles de carnaval no Rio de Janeiro, realizados anualmente antes da Quaresma, incorporando as filas de dança de escolas de samba fantasiadas, as figuras icônicas de baianas em turbantes e saias rodadas, e as multidões de espectadores que se reúnem para assistir e celebrar. Nessas obras, grupos de foliões fantasiados lotam a rua, seus rostos simplificados e de olhos arregalados formando uma multidão homogênea em forma de grade que preenche a imagem e transmite a festividade abundante do icônico feriado brasileiro. Um terceiro corpo de trabalho compreende cenas de trabalho agrícola e recreação rural, situadas na paisagem agrícola da infância do artista.
A maioria das pinturas é executada em um formato de paisagem com uma linha do horizonte visível, enquanto algumas imagens renunciam totalmente a quaisquer marcadores de perspectiva, com figuras aparecendo suspensas contra um campo de cor. Em muitas cenas agrícolas e espirituais, Ozias anima a atmosfera ao redor com pinceladas impressionistas em camadas. Formas claramente definidas emergem de fundos pontuados por pinceladas secas, frequentemente usadas por Ozias para representar a luz que emana do sol, da lua ou das estrelas, bem como para dar profundidade a corpos d'água e céus nublados. Passagens semi-abstratas de padrões geométricos repetidos e tons sutilmente variados contrastam com os tons opacos de joias que definem as figuras. Com um vocabulário formal característico, Ozias enfatiza a bidimensionalidade de suas pinturas por meio da cor e da perspectiva achatada. Imbuídos da alegria das tradições regionais e do misticismo dos rituais religiosos, as obras em exibição se fundem em um retrato vibrante do Brasil de Ozias e revelam a visão extraordinária do artista sobre os costumes e a cultura de seu país.
Lucien Finkelstein (1931–2008) colecionava o trabalho de Ozias há pelo menos uma década quando fundou o MIAN em 1995 (o museu fechou definitivamente em 2016). Um joalheiro de sucesso, Finkelstein nasceu na França e emigrou para o Brasil em 1948, logo desenvolvendo uma paixão pela arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do artista modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Reunindo aproximadamente seis mil obras de um grupo internacional de artistas, Finkelstein passou a deter uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf do mundo e foi o colecionador preeminente do trabalho de Ozias.
Por ocasião da exposição, uma nova bolsa de estudos foi encomendada, com ensaios futuros do historiador de arte britânico Simon Grant e do curador brasileiro Moacir dos Anjos que serão publicados exclusivamente em davidzwirner.com.
Odoteres Ricardo de Ozias(1940–2011) nasceu e foi criado em Eugenópolis, Brasil, uma pequena cidade em Minas Gerais, um estado rural conhecido por suas cidades coloniais com igrejas barrocas. Ozias aprendeu a ler e escrever enquanto trabalhava nos campos de sua família, eventualmente encontrando trabalho como assistente de um padeiro local. Em 1960, seu pai se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar na construção civil, logo realocando sua esposa e seus vários filhos. Ao se estabelecer na metrópole costeira, Ozias, de 20 anos, trabalhou como pedreiro antes de encontrar trabalho na Rede Ferroviária Federal, a rede ferroviária federal.
Lá, ele primeiro trabalhou como manobrador e, posteriormente, como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de fazer trabalho manual. Trabalhando em um escritório pela primeira vez, Ozias encontrou novidades cotidianas como artigos de papelaria e material de escritório. Ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas, ganhando atenção por suas obras de arte e cobrindo as paredes de seu escritório com esboços. Ele foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies , publicado em 1981 pela empresa ferroviária. Essas ilustrações compreendiam cubos repetidos mostrando variações de cor, textura e grãos de madeira, e Ozias experimentou novas técnicas, incluindo adicionar pó e areia aos seus pigmentos e fixar desenhos com giz de cera para obter tons precisos. Ele começou a perseguir a arte inflexivelmente durante seu tempo livre, usando materiais encontrados e pincéis artesanais para criar pinturas coloridas inspiradas nas terras e tradições de seu país.
Ozias mais tarde se tornou um ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal. Alguns de sua comunidade evangélica rejeitaram sua prática artística: com uma religião marcada por um tradicionalismo rigoroso e fundamentalismo, alguns seguidores da igreja Assembleia de Deus aderiram ao aniconismo, opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. O tema de Ozias se concentrou nos rituais das tradições religiosas afro-brasileiras, ilustrando divindades religiosas e adoradores devotos na paisagem campestre onde ele passou sua infância.
Em meados da década de 1980, Ozias morava no bairro de Gramacho, em Duque de Caxias, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus seis filhos (incluindo três do casamento anterior de sua esposa). Ele foi apresentado à acadêmica Elizabeth Travassos, que trabalhava para a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e organizou a primeira exposição individual de Ozias no Rio de Janeiro, na Sala do Artista Popular – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Várias exposições individuais e coletivas por todo o Brasil se seguiram, e Ozias manteve sua prática artística com o apoio de seu empregador. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris, e em 1994 seu trabalho foi exibido em Frankfurt, Alemanha, como parte de uma exposição de artistas naïf brasileiros. As atividades artísticas de Ozias e as notícias de suas exposições apareciam frequentemente em edições do Expresso Refer , um periódico mensal publicado pela empresa ferroviária. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis “José Nazareno Mimessi”, São Paulo, e o Museu do Folclore no Rio de Janeiro, bem como por colecionadores no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 1994, a assembleia legislativa do Brasil concedeu a Ozias o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. Ozias continuou a fazer e exibir arte por todo o Brasil até o início dos anos 2000, até sofrer um derrame em 2010. Ele foi hospitalizado no Rio de Janeiro antes de retornar à sua cidade natal, Eugenópolis, de acordo com seus desejos, onde morreu um ano depois.
O reconhecimento do trabalho de Ozias aumentou nos últimos anos, principalmente no Brasil. Em 2019, ele foi um artista de destaque na exposição coletiva Arte Naïf – Nenhum museu a menos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro, e em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição Arte nas Estações , que foi apresentada em exposições temáticas simultâneas em três locais nas cidades de Ouro Preto, Congonhas e Conselheiro Lafaiete, todas no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e compreenderam obras anteriormente na coleção do MIAN. Era de particular importância para Carrilho trazer o trabalho de Ozias de volta ao local de nascimento do artista: o curador focou a narrativa de cada exposição em torno de Ozias, destacando o significado das raízes do artista na área rural fora dos centros urbanos do Brasil .
Fonte: David Zwirner. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Crédito fotográfico: Mapa das Artes. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Odoteres Ricardo de Ozias (Eugenópolis, MG, 1940 – Rio de Janeiro, RJ, 2011), mais conhecido como Ozias, foi um artista plástico brasileiro. Autodidata, Ozias ficou conhecido por sua abordagem intuitiva e inovadora na pintura. Começou sua trajetória artística aos 46 anos, sem formação acadêmica, utilizando materiais alternativos como palitos de fósforo e as próprias unhas para criar suas composições vibrantes e expressivas. Suas obras exploram temas da cultura popular brasileira, destacando o Carnaval carioca e rituais do Candomblé, com cores intensas e padrões rítmicos marcantes. Seu trabalho se insere na tradição da arte naïf e foi reconhecido por instituições como o Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), no Rio de Janeiro. Após sua morte, suas pinturas ganharam maior projeção internacional, sendo exibidas em galerias como a David Zwirner, em Londres. Sua arte desafia os padrões acadêmicos e ressalta a importância da expressão espontânea, consolidando-se como uma referência na arte popular brasileira.
Odoteres Ricardo de Ozias | Arremate Arte
Odoteres Ricardo de Ozias foi um artista naif brasileiro. Nascido em 1940, na cidade de Eugenópolis, Minas Gerais, Ozias veio de uma família numerosa, começou a trabalhar nos campos desde cedo, o que influenciou profundamente sua visão artística. Na década de 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou como assistente administrativo na companhia ferroviária federal. Neste período, descobriu sua paixão pela pintura, utilizando materiais improvisados como palitos de fósforo mastigados, dedos e unhas para criar suas obras. Aos 46 anos, autodidata, Ozias começou a pintar de forma mais consistente, buscando expressar suas vivências e observações cotidianas.
Suas obras são conhecidas por retratar cenas vibrantes do Carnaval carioca, destacando desfiles de escolas de samba e a energia contagiante dos participantes. Além disso, explorou temas religiosos afro-brasileiros, como o Candomblé, capturando rituais e cerimônias com riqueza de detalhes. Seu estilo é marcado por composições dinâmicas, uso de cores intensas e padrões repetitivos, refletindo a cultura e as tradições brasileiras.
Utilizava materiais como Eucatex e Fórmica, muitas vezes reaproveitados de descartes de seu ambiente de trabalho, demonstrando sua criatividade e adaptabilidade. Sua abordagem única e autêntica rendeu-lhe reconhecimento no cenário artístico, culminando em exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.
Faleceu em 2011.
Em 2023, uma exposição póstuma de suas obras foi realizada na galeria David Zwirner, em Londres, apresentando pinturas produzidas entre 1996 e 2004, anteriormente pertencentes ao acervo do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN) no Rio de Janeiro. Essa mostra marcou uma das primeiras apresentações individuais de seu trabalho fora do Brasil, evidenciando a relevância e o impacto de sua arte no contexto internacional.
Odoteres Ricardo de Ozias deixou um legado significativo, celebrando a cultura e as tradições brasileiras através de sua arte singular, que continua a inspirar e encantar apreciadores e críticos ao redor do mundo.
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Pinturas naïf protagonizam exposição no parque Lage, no Rio | Folha de São Paulo
Fechadas ao público há mais de dois anos, 300 obras do Mian (Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil) estão em exposição na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Com 6.000 peças em acervo — o maior de arte naïf no mundo — o Mian fechou as portas de seu casarão no bairro do Cosme Velho em dezembro de 2016, por falta de recursos.
A mostra exibe peças de artistas como Dalton Paula, Heitor dos Prazeres, e Amadeo Luciano Lorenzato. “São nomes considerados naïf por preconceito, porque eles já figuram em outras coleções e são mais complexos do que isso”, afirma o curador Ulisses Carrilho. “Antes de fazerem sucesso, são considerados naïf e depois se reinventa um nome para chamá-los.” Naïf (ingênuo, em francês) é o gênero guiado pelo autodidatismo de artistas. “Eu não acredito que esses pintores sejam mais emotivos, ou mais ingênuos do que outros”, afirma Carrilho. Na exposição, obras ditas naïf dialogam com
outras de arte contemporânea de mais de 40 artistas, sem delimitação de
gêneros. “Não há artistas naïf ou não naïf. Há artistas”.
A curadoria toca na hipótese de que o autodidatismo artístico no Brasil seja
menos uma escolha do que uma imposição. Para Carrilho, a questão precisa ser
considerada a partir da realidade social brasileira. “A questão aqui está muito
mais ligada à falta de acesso ao ensino público”, diz.
A mostra é aberta com seis telas a óleo, pintadas com dedos e escovas de dente, do mineiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011). É uma sequência nunca antes exposta, que conta uma série narrativa histórica — da captura de negros em solo africano à sua chegada e escravização no Brasil.
Negro e pobre, Ozias veio do interior de Minas para o Rio, foi pedreiro e ferroviário, virou pastor evangélico e pintou aspectos da negritude e do candomblé. “A discussão sobre o acesso à educação pública está intimamente colocada dentro de uma discussão antirracista”, diz o curador.
Com o subtítulo-manifesto “Nenhum Museu a Menos”, a mostra faz alerta sobre o deterioramento e o fechamento de museus no país. Além do próprio Mian, Carrilho lembra no Rio os casos do Museu Nacional, incendiado em 2018, e do Museu Casa do Pontal, fechado após inundação.
Fonte: Folha de São Paulo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Parque Lage destaca a produção de Ozias, que começou a pintar com sobras de eucatex | O Globo
Quase um terço das obras selecionadas no Museu Internacional de Arte Naïf são de um pintor, que ganha destaque na exposição. Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), ou simplesmente Ozias, como assinava seus trabalhos, nasceu em Eugenópolis (MG) e veio para o Rio nos anos 1960, onde inicialmente trabalhou como pedreiro. Empregado na Rede Ferroviária, após ser transferido para uma função no escritório começou a explorar materiais disponíveis para a prática artística.
Das caricaturas feitas para passar o tempo, Ozias passou a utilizar sobras de eucatex da repartição como suporte para as pinturas, em temas religiosos, históricos e sociais. Das 83 obras de sua autoria, estão seis telas nunca exibidas, que abordam a captura e escravização da população africana e seu trajeto até a costa brasileira.
— O Ozias cruza vários campos, era um homem negro com uma vivência de terreiro, que depois virou pastor neopentecostal — comenta Ulisses Carrilho. — O sincretismo foi historicamente representado por artistas brancos, a partir de matrizes das vanguardas europeias. O Ozias fez isso de forma única, sem diferenciar se a pintura era numa tela ou numa parede. É uma possibilidade ímpar de se olhar para esta narrativa a partir de alguém que a vivenciou de fato.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | Sophie Su Art Advisory
Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) foi um artista autodidata que começou a pintar com seriedade enquanto vivia em uma área rural de Minas Gerais. Suas criações artísticas apresentavam uma fusão de motivos espirituais e festividades, caracterizadas por cores vibrantes e padrões recorrentes. Ele escolheu a pintura como um meio de escapar de suas responsabilidades administrativas rotineiras na Companhia Ferroviária Federal. Em seguida, tornou-se ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas.
As obras em exposição foram realizadas entre 1996 e 2004. Várias pinturas em exibição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras. Composições como Aparição (2002) apresentam temas de êxtase e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia (2000) retratam rituais de oferenda, sacrifício e oração do Candomblé.
Outro grupo de pinturas ilustra o Carnaval do Rio de Janeiro. Um terceiro conjunto de trabalhos retrata cenas de trabalho agrícola e recreação rural. Ele frequentemente pintava em painéis de eucatex ou fórmica, que pegava de pilhas de lixo em seu escritório. Usando materiais encontrados, como escovas de dente e pincéis feitos à mão, o artista aplicava tinta a óleo ou acrílica para criar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco.
As obras faziam parte da coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o mais importante colecionador da obra de Ozias. É a primeira vez que o trabalho de Ozias será exibido no Reino Unido e está entre suas primeiras exposições individuais fora do Brasil.
Ozias trabalhou primeiramente como condutor e como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de realizar trabalhos manuais. Em seu novo escritório, ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas. Foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies, publicado em 1981.
Mais tarde, tornou-se ministro evangélico da Assembleia de Deus Pentecostal. Em meados da década de 1980, Ozias morava em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus filhos. A primeira exposição individual de Ozias foi organizada na Sala do Artista Popular - Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro. Seguiram-se várias exposições individuais e coletivas em todo o Brasil. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris e, em 1994, em Frankfurt, como parte de uma exposição de artistas ingênuos brasileiros.
No final da década de 1980 e início da década de 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis "José Nazareno Mimessi", em São Paulo, e o Museu do Folclore, no Rio de Janeiro.
Em 2019, ele participou da exposição coletiva "Arte Naïf - Nenhum museu a menos" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição "Arte nas Estações", no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Sophie Su fez uma entrevista com Jacqueline Finkelstein, filha do renomado colecionador de arte Lucien Finkelstein, que reuniu uma extensa coleção de obras de Ozias.
Sophie Su - Lucien Finkelstein (1931-2008) já colecionava obras de Ozias há quase uma década quando fundou o MIAN em 1995. Você poderia nos contar quando e como Lucien descobriu as obras de Ozias?
Jacqueline Finkelstein - Não sei precisar quando e como meu pai, Lucien Finkelstein, conheceu Ozias, porque houve inúmeros encontros e buscas pelos naifs durante a maior parte de sua vida. Em 1985, Lucien transformou sua joalheria no escritório e no depósito da futura MIAN. Naquele ano, ele estabeleceu a Lucien Finkelstein Foundation e se dedicou a criar um museu exclusivamente para a arte naïf. Sua meta era criar a maior e mais completa coleção do gênero no mundo, bem como abrir o museu. Ele conseguiu concretizar sua intenção.
Como ele conheceu o artista?
Lucien era um patrono de muitos bons artistas ingênuos para incentivá-los a melhorar e pintar mais, e também para poder ter paz de espírito ao fazer isso. Durante anos, ele comprou semanalmente ou quinzenalmente toda a produção de talvez 10 a 12 pintores, entre eles Ozias. Era sempre uma alegria recebê-los no museu e meu pai sempre os aguardava com grande ansiedade para ver o que haviam criado. Ozias sempre chegava com um belo e grande sorriso, não era muito falante, mas sempre trazia alegria e serenidade em seu semblante. Usava camisas sociais de cores fortes, vermelho, azul, laranja, que contrastavam lindamente com sua pele muito morena e seus dentes muito brancos. Ele sempre usava um colete combinando com suas calças escuras e quase sempre tinha uma Bíblia nas mãos.
Você pode nos contar sobre a relação entre Lucien Finkelstein e Odoteres Ricardo de Ozias? Que viagens eles fizeram juntos?
Em 2005, por meio do Ministério das Relações Exteriores, convidei Ozias para ir comigo, junto com outras duas naifs (Aparecida Azedo e Ermelinda), a Porto Príncipe, no Haiti, para fazer um grande painel em praça pública, em comemoração ao Dia da Amizade entre Brasil e Haiti. Ficamos hospedados junto com outros três grandes pintores haitianos, Prefete Duffault, Etienne Chavannes e Franz Zephirin, durante uma semana para fazer esse painel de 9m de comprimento. Foi uma experiência única e inesquecível para todos. Os artistas delimitaram seus espaços e pintaram, sem falar a mesma língua, por 7 dias ininterruptos até chegarem a um resultado magnífico que hoje está na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe.
Qual foi a primeira obra do artista a entrar na coleção Lucien Finkelstein?
A primeira obra de Ozias a entrar na coleção do MIAN foi "O Forasteiro", de 1987.
Odoteres Ricardo de Ozias foi um dos primeiros artistas a fazer parte da coleção?
Ozias não foi o primeiro artista a entrar para a coleção. A paixão de Lucien por naifs vem de longa data, o primeiro quadro que ele comprou ainda jovem foi de Heitor dos Prazeres, "Autorretrato do Artista Pintor", em uma livraria francesa que ele frequentava muito.
O que chamou a atenção de Lucien para o trabalho de Ozias? Como o trabalho de Ozias foi percebido na coleção MIAN como um todo?
Lucien ficou fascinado não apenas pela ingenuidade e pureza, mas também pela originalidade e expressividade da pintura de Ozias. Nenhum outro artista tinha um domínio tão bom da cor preta, tão difícil de usar. Ozias sempre se destacou na coleção por seus temas instigantes, extremamente tocantes e até muitas vezes assustadores. Suas diversas fases lembram os seus tempos de infância, onde retrata o campo, os bois, os trens cortando o milharal, teve a fase do candomblé, a espiritual com mensagens do Evangelho, pintou bastante também o carnaval carioca e os desfiles de escolas de samba.
Quantas obras de Ozias existem hoje na Coleção Lucien Finkelstein?
Hoje, na coleção da L.F., devemos ter cerca de 150 obras.
Fonte: Artigo e entrevista de Sophie Su divulgado na newsletter Sophie Su Art Advisory, sobre arte e negócios. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Revista FÓRUM: NAÏF, a arte intuitiva que encanta e surpreende | Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro
A naïf é a arte internacionalmente conhecida como da espontaneidade, do instinto, em que o autor, por não ter cursado escolas de belas artes, age de modo autodidata. É a expressão, geralmente pictórica, da pessoa que não passou pelo aprendizado da arte clássica ou popular. Não à toa a palavra naïf significa ingênuo, na língua francesa.
Apresentados os rótulos costumeiros da arte naïf, deixemos claro: seus trabalhos são de qualidade ímpar, seus artistas encantam pelo talento. E o Brasil é um de seus principais polos mundiais.
No Rio de Janeiro, funcionou por 21 anos o Museu Internacional da Arte Naïf (Mian), com o raro acervo de 6.000 peças de artistas de 120 países, o mais importante do planeta dedicado à chamada arte primitiva. O museu fechou, mas o acervo continua no casarão histórico do Cosme Velho, bairro na Zona Sul carioca.
O motivo do encerramento, em 23 de dezembro de 2016, foi a crise financeira, que dificultou a captação de patrocínios, conforme anunciou à época a diretora Jacqueline Finkelstein, filha do fundador do Mian, o colecionador francês Lucien Finkelstein (1931-2008).
Para não deixar longe do público os trabalhos de qualidade guardados há quase três anos, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage abriu em maio a exposição “Arte Naïf – Nenhum museu a menos”, que reúne 325 obras do acervo e trabalhos de 38 artistas contemporâneos, como Nelson Leirner e Barrão.
“É a maior coleção de arte naïf do mundo. A ideia da exposição surgiu da necessidade de mostrarmos a importância da coleção. São obras de artistas geniais, que pouco conhecemos”, relata o economista Fabio Szwarcwald, diretor-presidente da EAV.
Mais do que anunciar a exposição, que é gratuita e se encerra em 7 de julho, a proposta deste texto é informar o leitor sobre a existência de um museu reconhecido internacionalmente e que se encontra vedado à visitação por falta de dinheiro.
A mostra no Parque Laje tem, também, o objetivo de alertar os brasileiros para a situação crítica do Mian e de grande parte dos museus do país – 261 fecharam por falta de verba e problemas de manutenção. A receptividade do público é grande. Em cada fim de semana, cerca de 2.500 pessoas compareceram aos três salões do Parque Laje em que as obras naïf estão expostas.
Para o curador Ulisses Carrilho, a arte naïf não é praticada por artistas primitivos ou ingênuos, como induz a tradução da palavra para o português.
“É certo que essas pessoas não usaram técnicas clássicas, mas soluções próprias. Odoteres Ricardo de Ozias, por exemplo, veio de Minas Gerais, era negro, pastor evangélico. Suas obras nesta exposição são maravilhosas. Mostram festas populares, o cotidiano laboral, práticas religiosas”, afirmou Carrilho.
Szwarcwald acrescenta: “É preciso mostrar às pessoas a potência do acervo. Que elas percebam que um trabalho naïf pode integrar uma coleção contemporânea”.
À frente da EAV desde março de 2017, o diretor-presidente tem enfrentado com sucesso os percalços financeiros do Estado do Rio.
“Conseguimos entrar na Lei Rouanet pela primeira vez, com duas captações que somam R$ 50 milhões, para o plano anual e restauros. Criamos uma escolinha que em 2018 trouxe à EAV 3.000 crianças, das quais 2.000 com gratuidade. A EAV tem 500 alunos por semestre, 50 professores, 45 funcionários. Reativamos o programa de bolsas. É preciso ter projetos sérios, com bons resultados”, disse ele.
Fonte: AMAERJ – Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, escrito por Sérgio Torres. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias: Um espaço entre o altar e o alterado | M-A a space between
Enquanto os londrinos deixavam a cidade em busca de sol neste verão, uma massa de pinturas, brilhantes com a luz do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) chegou. Vistas pela primeira vez no Reino Unido - na galeria de David Zwirner na Grafton Street, aguardando exposição a partir de 1º de setembro.
Convidado para uma prévia em julho, entrei em uma sala, branca como uma folha de papel nova, enquanto um unboxing de pinturas estava em processo de ser apoiado contra as paredes antes da instalação. Post-its codificavam por cores três temas, agricultura, religião e carnaval. Enquanto ouvia o curador James Green apresentando as obras, logo comecei a apreciar o quão extraordinárias e contraditórias são as pinturas em exposição.
O que parece ser uma série de paisagens pintadas em um estilo infantil e ingênuo assume um contexto totalmente diferente quando você percebe que as obras em exposição foram pintadas por alguém na faixa dos cinquenta e sessenta anos, que só começou a desenhar aos 40 anos. A decisão de apresentar este trabalho, nesta galeria, neste momento, é conceitualmente fascinante.
Ozias apresenta uma visão tecnicolor de uma vida em revisão - como se libertada da possessão. Suas paletas primárias entram em choque em celebração saturada e contemplação de estado intensificada - tanto que assistir em silêncio deixa o espectador surdo, apenas para ouvir seu batimento cardíaco - há uma cor perceptível de compreensão que não é dita, mas implícita - tons de alegria, violência, repressão e histeria.
A mente zumbe em busca de referências, de pistas visuais e de razão, mas o gênio de Ozias parece repelir a reinterpretação de outros - as obras existem fora dos capítulos estudados da história da arte - suas manifestações codificadas são uma liberação não feita de fontes externas, mas de processamento interno - a intensidade e o ritmo de suas pinturas - concentradas em um foco hipnótico e abundante, sugerem uma abordagem meditativa e investigativa da criação que proporcionou catarse a um indivíduo que, durante a maior parte de sua vida, trabalhou duro dentro dos sistemas mecanizados de outros.
O antigo dono das obras Lucien Finkelstein (1931–2008), acumulou uma coleção de arte de seis mil peças em sua vida, mantendo uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Há paralelos intrigantes entre o estilo visual dos dois homens, ambos parecem focados em um senso de antecipação dentro de suas obras, com os tigres planos e nus reclinados de Rousseau propondo um recorte de papelão de terror sensacionalista, Ozias vai além ao retratar uma piscina fechada de crocodilos decapitando um observador tomando sol. Assim como acontece com ambos os artistas e uma observação generalizada da arte naïf, é o subconsciente que é priorizado sobre o contínuo.
O ímpeto em torno da exposição aumenta à medida que você anda pela sala, observando cada retângulo como se fossem imagens estáticas de uma animação silenciosa. Suas cores fortes e planas imediatamente entretêm e, então, quando seu olhar recai sobre os detalhes em miniatura, eles indicam de forma intrincada que nem tudo é o que parece.
Crescendo no interior do Brasil, uma pequena cidade chamada Eugenópolis em Minas Gerais, ele trabalhou com sua família como um trabalhador agrícola aos cinco anos, deixando o campo e se mudando para o Rio de Janeiro aos vinte anos para ser um pedreiro, antes de trabalhar como um agente de estação na Rede Ferroviária Federal. Algumas décadas depois, ele está preso ao escritório, trabalhando como um administrador devido a problemas de saúde. É aqui, exposto a materiais de papelaria pela primeira vez que ele começa a desenhar, empapelando as paredes de seu escritório com caricaturas de seus colegas. Ele é então contratado por seus empregadores para ilustrar um livro de espécies de madeira da Amazônia, publicado em 1981 - e pela primeira vez, Ozias é apresentado como um artista. As origens de um estilo diagramático criado com as ferramentas de um pensador conceitual continuam a ser empregadas ao longo de sua carreira. Implementos encontrados e forrageados são favorecidos em relação aos materiais de arte tradicionais, sobras de fórmica formam suas telas e brilho industrial sua paleta. Embora as técnicas empregadas como trabalhador agrícola e pedreiro industrial possivelmente tenham influenciado a construção de suas pinturas, uma cena é formulada como um cenário de camadas, cenários e atores perfeitamente posicionados para o olhar do melhor lugar da casa.
As pinturas em exposição (1996-2004) são do período em que o artista também foi ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal - um contexto que parece irresistível para conectar a uma prolífica efusão de obras que muitas vezes enquadram uma figura central, uma estrutura composicional como as peças alteradas de um retábulo.
A busca e questionamento introspectivo do artista é palpavelmente forte quando se considera o pensamento de que parte de sua comunidade evangélica rejeitou sua prática artística com uma religião marcada por rigoroso tradicionalismo e fundamentalismo - opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. Saber disso torna a vida de Ozias ainda mais fascinante. - A criação de 400 obras de arte conhecidas antes da morte e iterar sem repetir nem editar - todas consistentes e autogerenciadas como se respondessem a um briefing privado removido de vendas, conceito ou fama, em vez de um estado meditativo de oração.
Fonte: M-A, a space between, escrito por Joe Richards. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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O pintor mineiro Odoteres Ricardo de Ozias | O jornal de todos os Brasis
São difíceis mesmo de encontrar… Conheci um pintor, Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), com uma história de vida fantástica (colocarei parte dela abaixo) que expôs sua arte em inúmeros museus importantes do mundo e não consegui pratiamente nada de sua obra na internet, infelizmente…quando estive com ele, em princípios de 2011, já trazia uma saúde debilitada em consequência de um AVC, mas estava ainda produtivo; faleceu alguns meses depois do nosso encontro. Conheço pessoas ligadas a ele que têm muitas fotografias de sua obra e um dia espero apresentá-las aqui no blog.
Odoteres Ricardo de Ozias nasceu em 15 de julho de 1940 em Eugenópolis, cidade próxima a Muriaé, em Minas Gerais, filho de agricultores empregados em uma fazenda. Iniciou o curso primário e alfabetizou-se, passando logo em seguida a trabalhar no campo e, mais tarde, como ajudante de padeiro, na cidade de Eugenópolis. Em 1960, seu pai veio para o Rio de Janeiro, começando aqui a trabalhar como vigia da construção civil. Aos poucos conseguiu trazer toda a família – esposa, quatro filhas e cinco filhos – para esta cidade, onde Ricardo de Ozias exerceu de início a profissão de pedreiro. Mais tarde, na Rede Ferroviária Federal, foi manobrador e auxiliar de agente especial de estação, trabalhando nos torniquetes de venda de bilhetes. Problemas de saúde fizeram com que, há cinco anos, fosse readaptado em novas funções na mesma empresa, passando a trabalhar em escritório como auxiliar de expediente.
Assim, tendo largado o ‘serviço pesado’ e diante das circunstâncias que o colocaram em uma mesa de escritório, Ricardo de Ozias vislumbrou, no desenho, uma brincadeira que preenchia o tempo livre entre suas tarefas. Fazia caricaturas dos colegas. Mais tarde, quando uma engenheira procurava um desenhista para executar as ilustrações do livro ‘Madeiras da Amazônia – identificação de 100 Espécies’, editado pela empresa, recorreu a Ricardo de Ozias indagando se ele seria capaz de executá-las. Mesmo sem nenhuma experiência anterior, Ricardo aventurou-se entre giz de cera, canetas hidrocor e papéis que lhe foram fornecidos juntamente com pequenas amostras de madeiras. Devia reproduzir a cor e os veios típicos de cada uma, tarefa a que se devotou com interesse, mesmo quando parecia difícil encontrar as cores exatas. Foi obrigado a experimentar, pela primeira vez, diversas misturas de cores, ou até mesmo poeira adicionada ao desenho e fixada com giz de cera, para alcançar as tonalidades exatas.
Depois desta primeira – e única, até o momento – experiência profissional como desenhista, Ricardo de Ozias começou a pintar (…)”. (TRAVASSOS, Elizabeth. Ricardo de Ozias: pinturas)”.
A Biblioteca de São Paulo abrigou a exposição itinerante Com Açúcar & Com Afeto –Arte Naïf, do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil – 2011.
Fonte: O jornal de todos os Brasis, publicado por Luis Nassif. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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“Ozias” de Odoteres Ricardo de Ozias na Danielian Galeria São Paulo | Arte que Acontece
Das pinturas que retratam a realidade do campo e as devoções religiosas que permeiam significativamente a vida dos trabalhadores rurais aos devaneios da arte de tendência popular, “Ozias” ocupa a Danielian Galeria-SP a partir de outubro com obras que reafirmam as origens biográficas de Odoteres Ricardo de Ozias. O artista autodidata debutou no mundo da pintura sob o olhar do cotidiano na área rural do pequeno município da Zona da Mata de Minas. Ganhou visibilidade com seu viés de ‘artista do povo’ e se consagrou no cenário cultural internacional com uma mostra individual no templo da arte contemporânea, a David Zwirner, em Londres, em setembro de 2023.
Fez da pintura seu principal motivo para retratar o ser humano em seu espaço, suas escolhas e crenças, e sua forma de entender o mundo ao seu redor.
Como bem define o curador Jacopo Crivelli Visconti “a maneira como Ozias representa as grandes massas (em cerimônias religiosas ou festividades populares) confirma, de certa forma, essa interpretação: cada corpo parece fundir-se aos que estão aos seus lados e dar, num primeiro momento, a impressão de uma massa homogênea e imóvel. Mas todas as pessoas que compõem essa massa, sem exceção, estão de olhos bem abertos. É um olhar a que nada escapa, um olhar coletivo e atento, capaz de entender, com acuidade e precisão, os jogos e as disputas de poder que se desenrolam à sua frente”.
Ao mesmo tempo visto como artista que executa seu trabalho de forma singela, por meio de representações instintivas da natureza e elementos simples, sem conhecimento de técnicas usuais e, em paralelo, profundamente crítico, Ozias pode ser considerado um artista que representa um conjunto de tendências e estilos. Está entre os legítimos difusores da democratização da produção, difusão e reflexão sobre a ressignificação do simbólico como arte valorada, e que sugere um novo conceito ideológico das concepções de cultura.
Na mostra, estarão obras executadas desde 1962, passando pela produção dos anos 1990, com destaque para “Fogo Nisto!” e “Cortando a Mata”, representações do ambiente rural; e dos anos 2000, destacando-se “Anjos no Céu” e “Rostos”, que denotam as relações do homem e a religiosidade.
O evento antecede o lançamento da publicação sobre as obras do artista, previsto para 9 de novembro de 2024. A organização do livro é de Jacopo Crivelli Visconti, que também assina a autoria, juntamente com Moacir dos Anjos, Claudinei Roberto, Simon Grant e Gabriela Gotoda, com design de Raul Loureiro.
Fonte: Arte que acontece. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | David Zwirner
David Zwirner tem o prazer de apresentar uma exposição de pinturas do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940–2011) que será inaugurada neste outono na galeria em Londres. As obras em exposição, todas concluídas entre 1996 e 2004, estavam anteriormente na coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o principal colecionador da obra de Ozias. Esta é a primeira vez que a obra de Ozias será exibida no Reino Unido e está entre as primeiras apresentações solo de sua arte fora do Brasil.
Um artista autodidata e imaginativo, Ozias nasceu e foi criado em uma área rural do estado de Minas Gerais, Brasil. Ele começou a pintar seriamente quando tinha quarenta e poucos anos, adotando a prática como uma fuga de seu trabalho administrativo diário para a empresa ferroviária federal. Mais tarde, ele se tornou um ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas. Muitas de suas pinturas retratam a vida rural e os rituais religiosos afro-brasileiros na paisagem campestre onde ele passou sua infância, enquanto outro conjunto de trabalhos retrata os famosos desfiles comunitários do Carnaval anual do Rio de Janeiro. Apresentando o estilo característico de Ozias — composições simplificadas, porém dinâmicas, caracterizadas por cores fortes e padrões repetidos — as pinturas nesta exposição capturam o interesse do artista em temas espirituais de piedade e arrebatamento, juntamente com cenas de celebração festeira, ilustrando juntos a interpretação distinta de Ozias das tradições de seu Brasil natal.
Ozias frequentemente pintava em painéis de Eucatex — uma chapa de fibra de madeira de alta densidade usada para fabricação e móveis — ou fórmica, que ele tirava de pilhas de descarte em seu escritório. Usando uma variedade de ferramentas, incluindo escovas de dente, palitos de dente, seus dedos e um pincel áspero feito mastigando a ponta de um pedaço de madeira, o artista aplicou tinta a óleo ou acrílica para renderizar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco. Engenhoso e trabalhador, ele logo se comprometeu a pintar o máximo possível, relembrando mais tarde: “Como eu não sabia pintar, trabalhei em muitas pinturas ao mesmo tempo, tentando não esquecer todas as ideias que me vinham à mente.”
Várias pinturas em exposição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras, incluindo algumas cenas surrealistas que sugerem visões oníricas e manifestações de sabedoria espiritual. Um brasileiro negro, Ozias era especialmente afinado com as práticas do Candomblé — uma fé desenvolvida por africanos escravizados e seus descendentes, combinando elementos de várias religiões da África Ocidental e influências do catolicismo. Ela reconhece um panteão de divindades conhecidas como orixás , muitas associadas a santos católicos. Composições como A aparição ( A aparição) (2002) apresentam temas devocionais de arrebatamento e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia ( 2000) retratam rituais de candomblé de oferenda, sacrifício e oração. Outro grupo de pinturas ilustra os famosos desfiles de carnaval no Rio de Janeiro, realizados anualmente antes da Quaresma, incorporando as filas de dança de escolas de samba fantasiadas, as figuras icônicas de baianas em turbantes e saias rodadas, e as multidões de espectadores que se reúnem para assistir e celebrar. Nessas obras, grupos de foliões fantasiados lotam a rua, seus rostos simplificados e de olhos arregalados formando uma multidão homogênea em forma de grade que preenche a imagem e transmite a festividade abundante do icônico feriado brasileiro. Um terceiro corpo de trabalho compreende cenas de trabalho agrícola e recreação rural, situadas na paisagem agrícola da infância do artista.
A maioria das pinturas é executada em um formato de paisagem com uma linha do horizonte visível, enquanto algumas imagens renunciam totalmente a quaisquer marcadores de perspectiva, com figuras aparecendo suspensas contra um campo de cor. Em muitas cenas agrícolas e espirituais, Ozias anima a atmosfera ao redor com pinceladas impressionistas em camadas. Formas claramente definidas emergem de fundos pontuados por pinceladas secas, frequentemente usadas por Ozias para representar a luz que emana do sol, da lua ou das estrelas, bem como para dar profundidade a corpos d'água e céus nublados. Passagens semi-abstratas de padrões geométricos repetidos e tons sutilmente variados contrastam com os tons opacos de joias que definem as figuras. Com um vocabulário formal característico, Ozias enfatiza a bidimensionalidade de suas pinturas por meio da cor e da perspectiva achatada. Imbuídos da alegria das tradições regionais e do misticismo dos rituais religiosos, as obras em exibição se fundem em um retrato vibrante do Brasil de Ozias e revelam a visão extraordinária do artista sobre os costumes e a cultura de seu país.
Lucien Finkelstein (1931–2008) colecionava o trabalho de Ozias há pelo menos uma década quando fundou o MIAN em 1995 (o museu fechou definitivamente em 2016). Um joalheiro de sucesso, Finkelstein nasceu na França e emigrou para o Brasil em 1948, logo desenvolvendo uma paixão pela arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do artista modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Reunindo aproximadamente seis mil obras de um grupo internacional de artistas, Finkelstein passou a deter uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf do mundo e foi o colecionador preeminente do trabalho de Ozias.
Por ocasião da exposição, uma nova bolsa de estudos foi encomendada, com ensaios futuros do historiador de arte britânico Simon Grant e do curador brasileiro Moacir dos Anjos que serão publicados exclusivamente em davidzwirner.com.
Odoteres Ricardo de Ozias(1940–2011) nasceu e foi criado em Eugenópolis, Brasil, uma pequena cidade em Minas Gerais, um estado rural conhecido por suas cidades coloniais com igrejas barrocas. Ozias aprendeu a ler e escrever enquanto trabalhava nos campos de sua família, eventualmente encontrando trabalho como assistente de um padeiro local. Em 1960, seu pai se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar na construção civil, logo realocando sua esposa e seus vários filhos. Ao se estabelecer na metrópole costeira, Ozias, de 20 anos, trabalhou como pedreiro antes de encontrar trabalho na Rede Ferroviária Federal, a rede ferroviária federal.
Lá, ele primeiro trabalhou como manobrador e, posteriormente, como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de fazer trabalho manual. Trabalhando em um escritório pela primeira vez, Ozias encontrou novidades cotidianas como artigos de papelaria e material de escritório. Ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas, ganhando atenção por suas obras de arte e cobrindo as paredes de seu escritório com esboços. Ele foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies , publicado em 1981 pela empresa ferroviária. Essas ilustrações compreendiam cubos repetidos mostrando variações de cor, textura e grãos de madeira, e Ozias experimentou novas técnicas, incluindo adicionar pó e areia aos seus pigmentos e fixar desenhos com giz de cera para obter tons precisos. Ele começou a perseguir a arte inflexivelmente durante seu tempo livre, usando materiais encontrados e pincéis artesanais para criar pinturas coloridas inspiradas nas terras e tradições de seu país.
Ozias mais tarde se tornou um ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal. Alguns de sua comunidade evangélica rejeitaram sua prática artística: com uma religião marcada por um tradicionalismo rigoroso e fundamentalismo, alguns seguidores da igreja Assembleia de Deus aderiram ao aniconismo, opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. O tema de Ozias se concentrou nos rituais das tradições religiosas afro-brasileiras, ilustrando divindades religiosas e adoradores devotos na paisagem campestre onde ele passou sua infância.
Em meados da década de 1980, Ozias morava no bairro de Gramacho, em Duque de Caxias, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus seis filhos (incluindo três do casamento anterior de sua esposa). Ele foi apresentado à acadêmica Elizabeth Travassos, que trabalhava para a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e organizou a primeira exposição individual de Ozias no Rio de Janeiro, na Sala do Artista Popular – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Várias exposições individuais e coletivas por todo o Brasil se seguiram, e Ozias manteve sua prática artística com o apoio de seu empregador. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris, e em 1994 seu trabalho foi exibido em Frankfurt, Alemanha, como parte de uma exposição de artistas naïf brasileiros. As atividades artísticas de Ozias e as notícias de suas exposições apareciam frequentemente em edições do Expresso Refer , um periódico mensal publicado pela empresa ferroviária. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis “José Nazareno Mimessi”, São Paulo, e o Museu do Folclore no Rio de Janeiro, bem como por colecionadores no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 1994, a assembleia legislativa do Brasil concedeu a Ozias o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. Ozias continuou a fazer e exibir arte por todo o Brasil até o início dos anos 2000, até sofrer um derrame em 2010. Ele foi hospitalizado no Rio de Janeiro antes de retornar à sua cidade natal, Eugenópolis, de acordo com seus desejos, onde morreu um ano depois.
O reconhecimento do trabalho de Ozias aumentou nos últimos anos, principalmente no Brasil. Em 2019, ele foi um artista de destaque na exposição coletiva Arte Naïf – Nenhum museu a menos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro, e em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição Arte nas Estações , que foi apresentada em exposições temáticas simultâneas em três locais nas cidades de Ouro Preto, Congonhas e Conselheiro Lafaiete, todas no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e compreenderam obras anteriormente na coleção do MIAN. Era de particular importância para Carrilho trazer o trabalho de Ozias de volta ao local de nascimento do artista: o curador focou a narrativa de cada exposição em torno de Ozias, destacando o significado das raízes do artista na área rural fora dos centros urbanos do Brasil .
Fonte: David Zwirner. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Crédito fotográfico: Mapa das Artes. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Odoteres Ricardo de Ozias (Eugenópolis, MG, 1940 – Rio de Janeiro, RJ, 2011), mais conhecido como Ozias, foi um artista plástico brasileiro. Autodidata, Ozias ficou conhecido por sua abordagem intuitiva e inovadora na pintura. Começou sua trajetória artística aos 46 anos, sem formação acadêmica, utilizando materiais alternativos como palitos de fósforo e as próprias unhas para criar suas composições vibrantes e expressivas. Suas obras exploram temas da cultura popular brasileira, destacando o Carnaval carioca e rituais do Candomblé, com cores intensas e padrões rítmicos marcantes. Seu trabalho se insere na tradição da arte naïf e foi reconhecido por instituições como o Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), no Rio de Janeiro. Após sua morte, suas pinturas ganharam maior projeção internacional, sendo exibidas em galerias como a David Zwirner, em Londres. Sua arte desafia os padrões acadêmicos e ressalta a importância da expressão espontânea, consolidando-se como uma referência na arte popular brasileira.
Odoteres Ricardo de Ozias | Arremate Arte
Odoteres Ricardo de Ozias foi um artista naif brasileiro. Nascido em 1940, na cidade de Eugenópolis, Minas Gerais, Ozias veio de uma família numerosa, começou a trabalhar nos campos desde cedo, o que influenciou profundamente sua visão artística. Na década de 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou como assistente administrativo na companhia ferroviária federal. Neste período, descobriu sua paixão pela pintura, utilizando materiais improvisados como palitos de fósforo mastigados, dedos e unhas para criar suas obras. Aos 46 anos, autodidata, Ozias começou a pintar de forma mais consistente, buscando expressar suas vivências e observações cotidianas.
Suas obras são conhecidas por retratar cenas vibrantes do Carnaval carioca, destacando desfiles de escolas de samba e a energia contagiante dos participantes. Além disso, explorou temas religiosos afro-brasileiros, como o Candomblé, capturando rituais e cerimônias com riqueza de detalhes. Seu estilo é marcado por composições dinâmicas, uso de cores intensas e padrões repetitivos, refletindo a cultura e as tradições brasileiras.
Utilizava materiais como Eucatex e Fórmica, muitas vezes reaproveitados de descartes de seu ambiente de trabalho, demonstrando sua criatividade e adaptabilidade. Sua abordagem única e autêntica rendeu-lhe reconhecimento no cenário artístico, culminando em exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.
Faleceu em 2011.
Em 2023, uma exposição póstuma de suas obras foi realizada na galeria David Zwirner, em Londres, apresentando pinturas produzidas entre 1996 e 2004, anteriormente pertencentes ao acervo do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN) no Rio de Janeiro. Essa mostra marcou uma das primeiras apresentações individuais de seu trabalho fora do Brasil, evidenciando a relevância e o impacto de sua arte no contexto internacional.
Odoteres Ricardo de Ozias deixou um legado significativo, celebrando a cultura e as tradições brasileiras através de sua arte singular, que continua a inspirar e encantar apreciadores e críticos ao redor do mundo.
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Pinturas naïf protagonizam exposição no parque Lage, no Rio | Folha de São Paulo
Fechadas ao público há mais de dois anos, 300 obras do Mian (Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil) estão em exposição na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Com 6.000 peças em acervo — o maior de arte naïf no mundo — o Mian fechou as portas de seu casarão no bairro do Cosme Velho em dezembro de 2016, por falta de recursos.
A mostra exibe peças de artistas como Dalton Paula, Heitor dos Prazeres, e Amadeo Luciano Lorenzato. “São nomes considerados naïf por preconceito, porque eles já figuram em outras coleções e são mais complexos do que isso”, afirma o curador Ulisses Carrilho. “Antes de fazerem sucesso, são considerados naïf e depois se reinventa um nome para chamá-los.” Naïf (ingênuo, em francês) é o gênero guiado pelo autodidatismo de artistas. “Eu não acredito que esses pintores sejam mais emotivos, ou mais ingênuos do que outros”, afirma Carrilho. Na exposição, obras ditas naïf dialogam com
outras de arte contemporânea de mais de 40 artistas, sem delimitação de
gêneros. “Não há artistas naïf ou não naïf. Há artistas”.
A curadoria toca na hipótese de que o autodidatismo artístico no Brasil seja
menos uma escolha do que uma imposição. Para Carrilho, a questão precisa ser
considerada a partir da realidade social brasileira. “A questão aqui está muito
mais ligada à falta de acesso ao ensino público”, diz.
A mostra é aberta com seis telas a óleo, pintadas com dedos e escovas de dente, do mineiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011). É uma sequência nunca antes exposta, que conta uma série narrativa histórica — da captura de negros em solo africano à sua chegada e escravização no Brasil.
Negro e pobre, Ozias veio do interior de Minas para o Rio, foi pedreiro e ferroviário, virou pastor evangélico e pintou aspectos da negritude e do candomblé. “A discussão sobre o acesso à educação pública está intimamente colocada dentro de uma discussão antirracista”, diz o curador.
Com o subtítulo-manifesto “Nenhum Museu a Menos”, a mostra faz alerta sobre o deterioramento e o fechamento de museus no país. Além do próprio Mian, Carrilho lembra no Rio os casos do Museu Nacional, incendiado em 2018, e do Museu Casa do Pontal, fechado após inundação.
Fonte: Folha de São Paulo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Parque Lage destaca a produção de Ozias, que começou a pintar com sobras de eucatex | O Globo
Quase um terço das obras selecionadas no Museu Internacional de Arte Naïf são de um pintor, que ganha destaque na exposição. Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), ou simplesmente Ozias, como assinava seus trabalhos, nasceu em Eugenópolis (MG) e veio para o Rio nos anos 1960, onde inicialmente trabalhou como pedreiro. Empregado na Rede Ferroviária, após ser transferido para uma função no escritório começou a explorar materiais disponíveis para a prática artística.
Das caricaturas feitas para passar o tempo, Ozias passou a utilizar sobras de eucatex da repartição como suporte para as pinturas, em temas religiosos, históricos e sociais. Das 83 obras de sua autoria, estão seis telas nunca exibidas, que abordam a captura e escravização da população africana e seu trajeto até a costa brasileira.
— O Ozias cruza vários campos, era um homem negro com uma vivência de terreiro, que depois virou pastor neopentecostal — comenta Ulisses Carrilho. — O sincretismo foi historicamente representado por artistas brancos, a partir de matrizes das vanguardas europeias. O Ozias fez isso de forma única, sem diferenciar se a pintura era numa tela ou numa parede. É uma possibilidade ímpar de se olhar para esta narrativa a partir de alguém que a vivenciou de fato.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | Sophie Su Art Advisory
Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) foi um artista autodidata que começou a pintar com seriedade enquanto vivia em uma área rural de Minas Gerais. Suas criações artísticas apresentavam uma fusão de motivos espirituais e festividades, caracterizadas por cores vibrantes e padrões recorrentes. Ele escolheu a pintura como um meio de escapar de suas responsabilidades administrativas rotineiras na Companhia Ferroviária Federal. Em seguida, tornou-se ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas.
As obras em exposição foram realizadas entre 1996 e 2004. Várias pinturas em exibição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras. Composições como Aparição (2002) apresentam temas de êxtase e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia (2000) retratam rituais de oferenda, sacrifício e oração do Candomblé.
Outro grupo de pinturas ilustra o Carnaval do Rio de Janeiro. Um terceiro conjunto de trabalhos retrata cenas de trabalho agrícola e recreação rural. Ele frequentemente pintava em painéis de eucatex ou fórmica, que pegava de pilhas de lixo em seu escritório. Usando materiais encontrados, como escovas de dente e pincéis feitos à mão, o artista aplicava tinta a óleo ou acrílica para criar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco.
As obras faziam parte da coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o mais importante colecionador da obra de Ozias. É a primeira vez que o trabalho de Ozias será exibido no Reino Unido e está entre suas primeiras exposições individuais fora do Brasil.
Ozias trabalhou primeiramente como condutor e como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de realizar trabalhos manuais. Em seu novo escritório, ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas. Foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies, publicado em 1981.
Mais tarde, tornou-se ministro evangélico da Assembleia de Deus Pentecostal. Em meados da década de 1980, Ozias morava em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus filhos. A primeira exposição individual de Ozias foi organizada na Sala do Artista Popular - Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro. Seguiram-se várias exposições individuais e coletivas em todo o Brasil. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris e, em 1994, em Frankfurt, como parte de uma exposição de artistas ingênuos brasileiros.
No final da década de 1980 e início da década de 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis "José Nazareno Mimessi", em São Paulo, e o Museu do Folclore, no Rio de Janeiro.
Em 2019, ele participou da exposição coletiva "Arte Naïf - Nenhum museu a menos" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição "Arte nas Estações", no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Sophie Su fez uma entrevista com Jacqueline Finkelstein, filha do renomado colecionador de arte Lucien Finkelstein, que reuniu uma extensa coleção de obras de Ozias.
Sophie Su - Lucien Finkelstein (1931-2008) já colecionava obras de Ozias há quase uma década quando fundou o MIAN em 1995. Você poderia nos contar quando e como Lucien descobriu as obras de Ozias?
Jacqueline Finkelstein - Não sei precisar quando e como meu pai, Lucien Finkelstein, conheceu Ozias, porque houve inúmeros encontros e buscas pelos naifs durante a maior parte de sua vida. Em 1985, Lucien transformou sua joalheria no escritório e no depósito da futura MIAN. Naquele ano, ele estabeleceu a Lucien Finkelstein Foundation e se dedicou a criar um museu exclusivamente para a arte naïf. Sua meta era criar a maior e mais completa coleção do gênero no mundo, bem como abrir o museu. Ele conseguiu concretizar sua intenção.
Como ele conheceu o artista?
Lucien era um patrono de muitos bons artistas ingênuos para incentivá-los a melhorar e pintar mais, e também para poder ter paz de espírito ao fazer isso. Durante anos, ele comprou semanalmente ou quinzenalmente toda a produção de talvez 10 a 12 pintores, entre eles Ozias. Era sempre uma alegria recebê-los no museu e meu pai sempre os aguardava com grande ansiedade para ver o que haviam criado. Ozias sempre chegava com um belo e grande sorriso, não era muito falante, mas sempre trazia alegria e serenidade em seu semblante. Usava camisas sociais de cores fortes, vermelho, azul, laranja, que contrastavam lindamente com sua pele muito morena e seus dentes muito brancos. Ele sempre usava um colete combinando com suas calças escuras e quase sempre tinha uma Bíblia nas mãos.
Você pode nos contar sobre a relação entre Lucien Finkelstein e Odoteres Ricardo de Ozias? Que viagens eles fizeram juntos?
Em 2005, por meio do Ministério das Relações Exteriores, convidei Ozias para ir comigo, junto com outras duas naifs (Aparecida Azedo e Ermelinda), a Porto Príncipe, no Haiti, para fazer um grande painel em praça pública, em comemoração ao Dia da Amizade entre Brasil e Haiti. Ficamos hospedados junto com outros três grandes pintores haitianos, Prefete Duffault, Etienne Chavannes e Franz Zephirin, durante uma semana para fazer esse painel de 9m de comprimento. Foi uma experiência única e inesquecível para todos. Os artistas delimitaram seus espaços e pintaram, sem falar a mesma língua, por 7 dias ininterruptos até chegarem a um resultado magnífico que hoje está na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe.
Qual foi a primeira obra do artista a entrar na coleção Lucien Finkelstein?
A primeira obra de Ozias a entrar na coleção do MIAN foi "O Forasteiro", de 1987.
Odoteres Ricardo de Ozias foi um dos primeiros artistas a fazer parte da coleção?
Ozias não foi o primeiro artista a entrar para a coleção. A paixão de Lucien por naifs vem de longa data, o primeiro quadro que ele comprou ainda jovem foi de Heitor dos Prazeres, "Autorretrato do Artista Pintor", em uma livraria francesa que ele frequentava muito.
O que chamou a atenção de Lucien para o trabalho de Ozias? Como o trabalho de Ozias foi percebido na coleção MIAN como um todo?
Lucien ficou fascinado não apenas pela ingenuidade e pureza, mas também pela originalidade e expressividade da pintura de Ozias. Nenhum outro artista tinha um domínio tão bom da cor preta, tão difícil de usar. Ozias sempre se destacou na coleção por seus temas instigantes, extremamente tocantes e até muitas vezes assustadores. Suas diversas fases lembram os seus tempos de infância, onde retrata o campo, os bois, os trens cortando o milharal, teve a fase do candomblé, a espiritual com mensagens do Evangelho, pintou bastante também o carnaval carioca e os desfiles de escolas de samba.
Quantas obras de Ozias existem hoje na Coleção Lucien Finkelstein?
Hoje, na coleção da L.F., devemos ter cerca de 150 obras.
Fonte: Artigo e entrevista de Sophie Su divulgado na newsletter Sophie Su Art Advisory, sobre arte e negócios. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Revista FÓRUM: NAÏF, a arte intuitiva que encanta e surpreende | Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro
A naïf é a arte internacionalmente conhecida como da espontaneidade, do instinto, em que o autor, por não ter cursado escolas de belas artes, age de modo autodidata. É a expressão, geralmente pictórica, da pessoa que não passou pelo aprendizado da arte clássica ou popular. Não à toa a palavra naïf significa ingênuo, na língua francesa.
Apresentados os rótulos costumeiros da arte naïf, deixemos claro: seus trabalhos são de qualidade ímpar, seus artistas encantam pelo talento. E o Brasil é um de seus principais polos mundiais.
No Rio de Janeiro, funcionou por 21 anos o Museu Internacional da Arte Naïf (Mian), com o raro acervo de 6.000 peças de artistas de 120 países, o mais importante do planeta dedicado à chamada arte primitiva. O museu fechou, mas o acervo continua no casarão histórico do Cosme Velho, bairro na Zona Sul carioca.
O motivo do encerramento, em 23 de dezembro de 2016, foi a crise financeira, que dificultou a captação de patrocínios, conforme anunciou à época a diretora Jacqueline Finkelstein, filha do fundador do Mian, o colecionador francês Lucien Finkelstein (1931-2008).
Para não deixar longe do público os trabalhos de qualidade guardados há quase três anos, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage abriu em maio a exposição “Arte Naïf – Nenhum museu a menos”, que reúne 325 obras do acervo e trabalhos de 38 artistas contemporâneos, como Nelson Leirner e Barrão.
“É a maior coleção de arte naïf do mundo. A ideia da exposição surgiu da necessidade de mostrarmos a importância da coleção. São obras de artistas geniais, que pouco conhecemos”, relata o economista Fabio Szwarcwald, diretor-presidente da EAV.
Mais do que anunciar a exposição, que é gratuita e se encerra em 7 de julho, a proposta deste texto é informar o leitor sobre a existência de um museu reconhecido internacionalmente e que se encontra vedado à visitação por falta de dinheiro.
A mostra no Parque Laje tem, também, o objetivo de alertar os brasileiros para a situação crítica do Mian e de grande parte dos museus do país – 261 fecharam por falta de verba e problemas de manutenção. A receptividade do público é grande. Em cada fim de semana, cerca de 2.500 pessoas compareceram aos três salões do Parque Laje em que as obras naïf estão expostas.
Para o curador Ulisses Carrilho, a arte naïf não é praticada por artistas primitivos ou ingênuos, como induz a tradução da palavra para o português.
“É certo que essas pessoas não usaram técnicas clássicas, mas soluções próprias. Odoteres Ricardo de Ozias, por exemplo, veio de Minas Gerais, era negro, pastor evangélico. Suas obras nesta exposição são maravilhosas. Mostram festas populares, o cotidiano laboral, práticas religiosas”, afirmou Carrilho.
Szwarcwald acrescenta: “É preciso mostrar às pessoas a potência do acervo. Que elas percebam que um trabalho naïf pode integrar uma coleção contemporânea”.
À frente da EAV desde março de 2017, o diretor-presidente tem enfrentado com sucesso os percalços financeiros do Estado do Rio.
“Conseguimos entrar na Lei Rouanet pela primeira vez, com duas captações que somam R$ 50 milhões, para o plano anual e restauros. Criamos uma escolinha que em 2018 trouxe à EAV 3.000 crianças, das quais 2.000 com gratuidade. A EAV tem 500 alunos por semestre, 50 professores, 45 funcionários. Reativamos o programa de bolsas. É preciso ter projetos sérios, com bons resultados”, disse ele.
Fonte: AMAERJ – Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, escrito por Sérgio Torres. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias: Um espaço entre o altar e o alterado | M-A a space between
Enquanto os londrinos deixavam a cidade em busca de sol neste verão, uma massa de pinturas, brilhantes com a luz do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) chegou. Vistas pela primeira vez no Reino Unido - na galeria de David Zwirner na Grafton Street, aguardando exposição a partir de 1º de setembro.
Convidado para uma prévia em julho, entrei em uma sala, branca como uma folha de papel nova, enquanto um unboxing de pinturas estava em processo de ser apoiado contra as paredes antes da instalação. Post-its codificavam por cores três temas, agricultura, religião e carnaval. Enquanto ouvia o curador James Green apresentando as obras, logo comecei a apreciar o quão extraordinárias e contraditórias são as pinturas em exposição.
O que parece ser uma série de paisagens pintadas em um estilo infantil e ingênuo assume um contexto totalmente diferente quando você percebe que as obras em exposição foram pintadas por alguém na faixa dos cinquenta e sessenta anos, que só começou a desenhar aos 40 anos. A decisão de apresentar este trabalho, nesta galeria, neste momento, é conceitualmente fascinante.
Ozias apresenta uma visão tecnicolor de uma vida em revisão - como se libertada da possessão. Suas paletas primárias entram em choque em celebração saturada e contemplação de estado intensificada - tanto que assistir em silêncio deixa o espectador surdo, apenas para ouvir seu batimento cardíaco - há uma cor perceptível de compreensão que não é dita, mas implícita - tons de alegria, violência, repressão e histeria.
A mente zumbe em busca de referências, de pistas visuais e de razão, mas o gênio de Ozias parece repelir a reinterpretação de outros - as obras existem fora dos capítulos estudados da história da arte - suas manifestações codificadas são uma liberação não feita de fontes externas, mas de processamento interno - a intensidade e o ritmo de suas pinturas - concentradas em um foco hipnótico e abundante, sugerem uma abordagem meditativa e investigativa da criação que proporcionou catarse a um indivíduo que, durante a maior parte de sua vida, trabalhou duro dentro dos sistemas mecanizados de outros.
O antigo dono das obras Lucien Finkelstein (1931–2008), acumulou uma coleção de arte de seis mil peças em sua vida, mantendo uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Há paralelos intrigantes entre o estilo visual dos dois homens, ambos parecem focados em um senso de antecipação dentro de suas obras, com os tigres planos e nus reclinados de Rousseau propondo um recorte de papelão de terror sensacionalista, Ozias vai além ao retratar uma piscina fechada de crocodilos decapitando um observador tomando sol. Assim como acontece com ambos os artistas e uma observação generalizada da arte naïf, é o subconsciente que é priorizado sobre o contínuo.
O ímpeto em torno da exposição aumenta à medida que você anda pela sala, observando cada retângulo como se fossem imagens estáticas de uma animação silenciosa. Suas cores fortes e planas imediatamente entretêm e, então, quando seu olhar recai sobre os detalhes em miniatura, eles indicam de forma intrincada que nem tudo é o que parece.
Crescendo no interior do Brasil, uma pequena cidade chamada Eugenópolis em Minas Gerais, ele trabalhou com sua família como um trabalhador agrícola aos cinco anos, deixando o campo e se mudando para o Rio de Janeiro aos vinte anos para ser um pedreiro, antes de trabalhar como um agente de estação na Rede Ferroviária Federal. Algumas décadas depois, ele está preso ao escritório, trabalhando como um administrador devido a problemas de saúde. É aqui, exposto a materiais de papelaria pela primeira vez que ele começa a desenhar, empapelando as paredes de seu escritório com caricaturas de seus colegas. Ele é então contratado por seus empregadores para ilustrar um livro de espécies de madeira da Amazônia, publicado em 1981 - e pela primeira vez, Ozias é apresentado como um artista. As origens de um estilo diagramático criado com as ferramentas de um pensador conceitual continuam a ser empregadas ao longo de sua carreira. Implementos encontrados e forrageados são favorecidos em relação aos materiais de arte tradicionais, sobras de fórmica formam suas telas e brilho industrial sua paleta. Embora as técnicas empregadas como trabalhador agrícola e pedreiro industrial possivelmente tenham influenciado a construção de suas pinturas, uma cena é formulada como um cenário de camadas, cenários e atores perfeitamente posicionados para o olhar do melhor lugar da casa.
As pinturas em exposição (1996-2004) são do período em que o artista também foi ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal - um contexto que parece irresistível para conectar a uma prolífica efusão de obras que muitas vezes enquadram uma figura central, uma estrutura composicional como as peças alteradas de um retábulo.
A busca e questionamento introspectivo do artista é palpavelmente forte quando se considera o pensamento de que parte de sua comunidade evangélica rejeitou sua prática artística com uma religião marcada por rigoroso tradicionalismo e fundamentalismo - opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. Saber disso torna a vida de Ozias ainda mais fascinante. - A criação de 400 obras de arte conhecidas antes da morte e iterar sem repetir nem editar - todas consistentes e autogerenciadas como se respondessem a um briefing privado removido de vendas, conceito ou fama, em vez de um estado meditativo de oração.
Fonte: M-A, a space between, escrito por Joe Richards. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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O pintor mineiro Odoteres Ricardo de Ozias | O jornal de todos os Brasis
São difíceis mesmo de encontrar… Conheci um pintor, Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), com uma história de vida fantástica (colocarei parte dela abaixo) que expôs sua arte em inúmeros museus importantes do mundo e não consegui pratiamente nada de sua obra na internet, infelizmente…quando estive com ele, em princípios de 2011, já trazia uma saúde debilitada em consequência de um AVC, mas estava ainda produtivo; faleceu alguns meses depois do nosso encontro. Conheço pessoas ligadas a ele que têm muitas fotografias de sua obra e um dia espero apresentá-las aqui no blog.
Odoteres Ricardo de Ozias nasceu em 15 de julho de 1940 em Eugenópolis, cidade próxima a Muriaé, em Minas Gerais, filho de agricultores empregados em uma fazenda. Iniciou o curso primário e alfabetizou-se, passando logo em seguida a trabalhar no campo e, mais tarde, como ajudante de padeiro, na cidade de Eugenópolis. Em 1960, seu pai veio para o Rio de Janeiro, começando aqui a trabalhar como vigia da construção civil. Aos poucos conseguiu trazer toda a família – esposa, quatro filhas e cinco filhos – para esta cidade, onde Ricardo de Ozias exerceu de início a profissão de pedreiro. Mais tarde, na Rede Ferroviária Federal, foi manobrador e auxiliar de agente especial de estação, trabalhando nos torniquetes de venda de bilhetes. Problemas de saúde fizeram com que, há cinco anos, fosse readaptado em novas funções na mesma empresa, passando a trabalhar em escritório como auxiliar de expediente.
Assim, tendo largado o ‘serviço pesado’ e diante das circunstâncias que o colocaram em uma mesa de escritório, Ricardo de Ozias vislumbrou, no desenho, uma brincadeira que preenchia o tempo livre entre suas tarefas. Fazia caricaturas dos colegas. Mais tarde, quando uma engenheira procurava um desenhista para executar as ilustrações do livro ‘Madeiras da Amazônia – identificação de 100 Espécies’, editado pela empresa, recorreu a Ricardo de Ozias indagando se ele seria capaz de executá-las. Mesmo sem nenhuma experiência anterior, Ricardo aventurou-se entre giz de cera, canetas hidrocor e papéis que lhe foram fornecidos juntamente com pequenas amostras de madeiras. Devia reproduzir a cor e os veios típicos de cada uma, tarefa a que se devotou com interesse, mesmo quando parecia difícil encontrar as cores exatas. Foi obrigado a experimentar, pela primeira vez, diversas misturas de cores, ou até mesmo poeira adicionada ao desenho e fixada com giz de cera, para alcançar as tonalidades exatas.
Depois desta primeira – e única, até o momento – experiência profissional como desenhista, Ricardo de Ozias começou a pintar (…)”. (TRAVASSOS, Elizabeth. Ricardo de Ozias: pinturas)”.
A Biblioteca de São Paulo abrigou a exposição itinerante Com Açúcar & Com Afeto –Arte Naïf, do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil – 2011.
Fonte: O jornal de todos os Brasis, publicado por Luis Nassif. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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“Ozias” de Odoteres Ricardo de Ozias na Danielian Galeria São Paulo | Arte que Acontece
Das pinturas que retratam a realidade do campo e as devoções religiosas que permeiam significativamente a vida dos trabalhadores rurais aos devaneios da arte de tendência popular, “Ozias” ocupa a Danielian Galeria-SP a partir de outubro com obras que reafirmam as origens biográficas de Odoteres Ricardo de Ozias. O artista autodidata debutou no mundo da pintura sob o olhar do cotidiano na área rural do pequeno município da Zona da Mata de Minas. Ganhou visibilidade com seu viés de ‘artista do povo’ e se consagrou no cenário cultural internacional com uma mostra individual no templo da arte contemporânea, a David Zwirner, em Londres, em setembro de 2023.
Fez da pintura seu principal motivo para retratar o ser humano em seu espaço, suas escolhas e crenças, e sua forma de entender o mundo ao seu redor.
Como bem define o curador Jacopo Crivelli Visconti “a maneira como Ozias representa as grandes massas (em cerimônias religiosas ou festividades populares) confirma, de certa forma, essa interpretação: cada corpo parece fundir-se aos que estão aos seus lados e dar, num primeiro momento, a impressão de uma massa homogênea e imóvel. Mas todas as pessoas que compõem essa massa, sem exceção, estão de olhos bem abertos. É um olhar a que nada escapa, um olhar coletivo e atento, capaz de entender, com acuidade e precisão, os jogos e as disputas de poder que se desenrolam à sua frente”.
Ao mesmo tempo visto como artista que executa seu trabalho de forma singela, por meio de representações instintivas da natureza e elementos simples, sem conhecimento de técnicas usuais e, em paralelo, profundamente crítico, Ozias pode ser considerado um artista que representa um conjunto de tendências e estilos. Está entre os legítimos difusores da democratização da produção, difusão e reflexão sobre a ressignificação do simbólico como arte valorada, e que sugere um novo conceito ideológico das concepções de cultura.
Na mostra, estarão obras executadas desde 1962, passando pela produção dos anos 1990, com destaque para “Fogo Nisto!” e “Cortando a Mata”, representações do ambiente rural; e dos anos 2000, destacando-se “Anjos no Céu” e “Rostos”, que denotam as relações do homem e a religiosidade.
O evento antecede o lançamento da publicação sobre as obras do artista, previsto para 9 de novembro de 2024. A organização do livro é de Jacopo Crivelli Visconti, que também assina a autoria, juntamente com Moacir dos Anjos, Claudinei Roberto, Simon Grant e Gabriela Gotoda, com design de Raul Loureiro.
Fonte: Arte que acontece. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | David Zwirner
David Zwirner tem o prazer de apresentar uma exposição de pinturas do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940–2011) que será inaugurada neste outono na galeria em Londres. As obras em exposição, todas concluídas entre 1996 e 2004, estavam anteriormente na coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o principal colecionador da obra de Ozias. Esta é a primeira vez que a obra de Ozias será exibida no Reino Unido e está entre as primeiras apresentações solo de sua arte fora do Brasil.
Um artista autodidata e imaginativo, Ozias nasceu e foi criado em uma área rural do estado de Minas Gerais, Brasil. Ele começou a pintar seriamente quando tinha quarenta e poucos anos, adotando a prática como uma fuga de seu trabalho administrativo diário para a empresa ferroviária federal. Mais tarde, ele se tornou um ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas. Muitas de suas pinturas retratam a vida rural e os rituais religiosos afro-brasileiros na paisagem campestre onde ele passou sua infância, enquanto outro conjunto de trabalhos retrata os famosos desfiles comunitários do Carnaval anual do Rio de Janeiro. Apresentando o estilo característico de Ozias — composições simplificadas, porém dinâmicas, caracterizadas por cores fortes e padrões repetidos — as pinturas nesta exposição capturam o interesse do artista em temas espirituais de piedade e arrebatamento, juntamente com cenas de celebração festeira, ilustrando juntos a interpretação distinta de Ozias das tradições de seu Brasil natal.
Ozias frequentemente pintava em painéis de Eucatex — uma chapa de fibra de madeira de alta densidade usada para fabricação e móveis — ou fórmica, que ele tirava de pilhas de descarte em seu escritório. Usando uma variedade de ferramentas, incluindo escovas de dente, palitos de dente, seus dedos e um pincel áspero feito mastigando a ponta de um pedaço de madeira, o artista aplicou tinta a óleo ou acrílica para renderizar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco. Engenhoso e trabalhador, ele logo se comprometeu a pintar o máximo possível, relembrando mais tarde: “Como eu não sabia pintar, trabalhei em muitas pinturas ao mesmo tempo, tentando não esquecer todas as ideias que me vinham à mente.”
Várias pinturas em exposição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras, incluindo algumas cenas surrealistas que sugerem visões oníricas e manifestações de sabedoria espiritual. Um brasileiro negro, Ozias era especialmente afinado com as práticas do Candomblé — uma fé desenvolvida por africanos escravizados e seus descendentes, combinando elementos de várias religiões da África Ocidental e influências do catolicismo. Ela reconhece um panteão de divindades conhecidas como orixás , muitas associadas a santos católicos. Composições como A aparição ( A aparição) (2002) apresentam temas devocionais de arrebatamento e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia ( 2000) retratam rituais de candomblé de oferenda, sacrifício e oração. Outro grupo de pinturas ilustra os famosos desfiles de carnaval no Rio de Janeiro, realizados anualmente antes da Quaresma, incorporando as filas de dança de escolas de samba fantasiadas, as figuras icônicas de baianas em turbantes e saias rodadas, e as multidões de espectadores que se reúnem para assistir e celebrar. Nessas obras, grupos de foliões fantasiados lotam a rua, seus rostos simplificados e de olhos arregalados formando uma multidão homogênea em forma de grade que preenche a imagem e transmite a festividade abundante do icônico feriado brasileiro. Um terceiro corpo de trabalho compreende cenas de trabalho agrícola e recreação rural, situadas na paisagem agrícola da infância do artista.
A maioria das pinturas é executada em um formato de paisagem com uma linha do horizonte visível, enquanto algumas imagens renunciam totalmente a quaisquer marcadores de perspectiva, com figuras aparecendo suspensas contra um campo de cor. Em muitas cenas agrícolas e espirituais, Ozias anima a atmosfera ao redor com pinceladas impressionistas em camadas. Formas claramente definidas emergem de fundos pontuados por pinceladas secas, frequentemente usadas por Ozias para representar a luz que emana do sol, da lua ou das estrelas, bem como para dar profundidade a corpos d'água e céus nublados. Passagens semi-abstratas de padrões geométricos repetidos e tons sutilmente variados contrastam com os tons opacos de joias que definem as figuras. Com um vocabulário formal característico, Ozias enfatiza a bidimensionalidade de suas pinturas por meio da cor e da perspectiva achatada. Imbuídos da alegria das tradições regionais e do misticismo dos rituais religiosos, as obras em exibição se fundem em um retrato vibrante do Brasil de Ozias e revelam a visão extraordinária do artista sobre os costumes e a cultura de seu país.
Lucien Finkelstein (1931–2008) colecionava o trabalho de Ozias há pelo menos uma década quando fundou o MIAN em 1995 (o museu fechou definitivamente em 2016). Um joalheiro de sucesso, Finkelstein nasceu na França e emigrou para o Brasil em 1948, logo desenvolvendo uma paixão pela arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do artista modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Reunindo aproximadamente seis mil obras de um grupo internacional de artistas, Finkelstein passou a deter uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf do mundo e foi o colecionador preeminente do trabalho de Ozias.
Por ocasião da exposição, uma nova bolsa de estudos foi encomendada, com ensaios futuros do historiador de arte britânico Simon Grant e do curador brasileiro Moacir dos Anjos que serão publicados exclusivamente em davidzwirner.com.
Odoteres Ricardo de Ozias(1940–2011) nasceu e foi criado em Eugenópolis, Brasil, uma pequena cidade em Minas Gerais, um estado rural conhecido por suas cidades coloniais com igrejas barrocas. Ozias aprendeu a ler e escrever enquanto trabalhava nos campos de sua família, eventualmente encontrando trabalho como assistente de um padeiro local. Em 1960, seu pai se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar na construção civil, logo realocando sua esposa e seus vários filhos. Ao se estabelecer na metrópole costeira, Ozias, de 20 anos, trabalhou como pedreiro antes de encontrar trabalho na Rede Ferroviária Federal, a rede ferroviária federal.
Lá, ele primeiro trabalhou como manobrador e, posteriormente, como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de fazer trabalho manual. Trabalhando em um escritório pela primeira vez, Ozias encontrou novidades cotidianas como artigos de papelaria e material de escritório. Ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas, ganhando atenção por suas obras de arte e cobrindo as paredes de seu escritório com esboços. Ele foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies , publicado em 1981 pela empresa ferroviária. Essas ilustrações compreendiam cubos repetidos mostrando variações de cor, textura e grãos de madeira, e Ozias experimentou novas técnicas, incluindo adicionar pó e areia aos seus pigmentos e fixar desenhos com giz de cera para obter tons precisos. Ele começou a perseguir a arte inflexivelmente durante seu tempo livre, usando materiais encontrados e pincéis artesanais para criar pinturas coloridas inspiradas nas terras e tradições de seu país.
Ozias mais tarde se tornou um ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal. Alguns de sua comunidade evangélica rejeitaram sua prática artística: com uma religião marcada por um tradicionalismo rigoroso e fundamentalismo, alguns seguidores da igreja Assembleia de Deus aderiram ao aniconismo, opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. O tema de Ozias se concentrou nos rituais das tradições religiosas afro-brasileiras, ilustrando divindades religiosas e adoradores devotos na paisagem campestre onde ele passou sua infância.
Em meados da década de 1980, Ozias morava no bairro de Gramacho, em Duque de Caxias, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus seis filhos (incluindo três do casamento anterior de sua esposa). Ele foi apresentado à acadêmica Elizabeth Travassos, que trabalhava para a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e organizou a primeira exposição individual de Ozias no Rio de Janeiro, na Sala do Artista Popular – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Várias exposições individuais e coletivas por todo o Brasil se seguiram, e Ozias manteve sua prática artística com o apoio de seu empregador. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris, e em 1994 seu trabalho foi exibido em Frankfurt, Alemanha, como parte de uma exposição de artistas naïf brasileiros. As atividades artísticas de Ozias e as notícias de suas exposições apareciam frequentemente em edições do Expresso Refer , um periódico mensal publicado pela empresa ferroviária. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis “José Nazareno Mimessi”, São Paulo, e o Museu do Folclore no Rio de Janeiro, bem como por colecionadores no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 1994, a assembleia legislativa do Brasil concedeu a Ozias o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. Ozias continuou a fazer e exibir arte por todo o Brasil até o início dos anos 2000, até sofrer um derrame em 2010. Ele foi hospitalizado no Rio de Janeiro antes de retornar à sua cidade natal, Eugenópolis, de acordo com seus desejos, onde morreu um ano depois.
O reconhecimento do trabalho de Ozias aumentou nos últimos anos, principalmente no Brasil. Em 2019, ele foi um artista de destaque na exposição coletiva Arte Naïf – Nenhum museu a menos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro, e em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição Arte nas Estações , que foi apresentada em exposições temáticas simultâneas em três locais nas cidades de Ouro Preto, Congonhas e Conselheiro Lafaiete, todas no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e compreenderam obras anteriormente na coleção do MIAN. Era de particular importância para Carrilho trazer o trabalho de Ozias de volta ao local de nascimento do artista: o curador focou a narrativa de cada exposição em torno de Ozias, destacando o significado das raízes do artista na área rural fora dos centros urbanos do Brasil .
Fonte: David Zwirner. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Crédito fotográfico: Mapa das Artes. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Odoteres Ricardo de Ozias (Eugenópolis, MG, 1940 – Rio de Janeiro, RJ, 2011), mais conhecido como Ozias, foi um artista plástico brasileiro. Autodidata, Ozias ficou conhecido por sua abordagem intuitiva e inovadora na pintura. Começou sua trajetória artística aos 46 anos, sem formação acadêmica, utilizando materiais alternativos como palitos de fósforo e as próprias unhas para criar suas composições vibrantes e expressivas. Suas obras exploram temas da cultura popular brasileira, destacando o Carnaval carioca e rituais do Candomblé, com cores intensas e padrões rítmicos marcantes. Seu trabalho se insere na tradição da arte naïf e foi reconhecido por instituições como o Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), no Rio de Janeiro. Após sua morte, suas pinturas ganharam maior projeção internacional, sendo exibidas em galerias como a David Zwirner, em Londres. Sua arte desafia os padrões acadêmicos e ressalta a importância da expressão espontânea, consolidando-se como uma referência na arte popular brasileira.
Odoteres Ricardo de Ozias | Arremate Arte
Odoteres Ricardo de Ozias foi um artista naif brasileiro. Nascido em 1940, na cidade de Eugenópolis, Minas Gerais, Ozias veio de uma família numerosa, começou a trabalhar nos campos desde cedo, o que influenciou profundamente sua visão artística. Na década de 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou como assistente administrativo na companhia ferroviária federal. Neste período, descobriu sua paixão pela pintura, utilizando materiais improvisados como palitos de fósforo mastigados, dedos e unhas para criar suas obras. Aos 46 anos, autodidata, Ozias começou a pintar de forma mais consistente, buscando expressar suas vivências e observações cotidianas.
Suas obras são conhecidas por retratar cenas vibrantes do Carnaval carioca, destacando desfiles de escolas de samba e a energia contagiante dos participantes. Além disso, explorou temas religiosos afro-brasileiros, como o Candomblé, capturando rituais e cerimônias com riqueza de detalhes. Seu estilo é marcado por composições dinâmicas, uso de cores intensas e padrões repetitivos, refletindo a cultura e as tradições brasileiras.
Utilizava materiais como Eucatex e Fórmica, muitas vezes reaproveitados de descartes de seu ambiente de trabalho, demonstrando sua criatividade e adaptabilidade. Sua abordagem única e autêntica rendeu-lhe reconhecimento no cenário artístico, culminando em exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior.
Faleceu em 2011.
Em 2023, uma exposição póstuma de suas obras foi realizada na galeria David Zwirner, em Londres, apresentando pinturas produzidas entre 1996 e 2004, anteriormente pertencentes ao acervo do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN) no Rio de Janeiro. Essa mostra marcou uma das primeiras apresentações individuais de seu trabalho fora do Brasil, evidenciando a relevância e o impacto de sua arte no contexto internacional.
Odoteres Ricardo de Ozias deixou um legado significativo, celebrando a cultura e as tradições brasileiras através de sua arte singular, que continua a inspirar e encantar apreciadores e críticos ao redor do mundo.
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Pinturas naïf protagonizam exposição no parque Lage, no Rio | Folha de São Paulo
Fechadas ao público há mais de dois anos, 300 obras do Mian (Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil) estão em exposição na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Com 6.000 peças em acervo — o maior de arte naïf no mundo — o Mian fechou as portas de seu casarão no bairro do Cosme Velho em dezembro de 2016, por falta de recursos.
A mostra exibe peças de artistas como Dalton Paula, Heitor dos Prazeres, e Amadeo Luciano Lorenzato. “São nomes considerados naïf por preconceito, porque eles já figuram em outras coleções e são mais complexos do que isso”, afirma o curador Ulisses Carrilho. “Antes de fazerem sucesso, são considerados naïf e depois se reinventa um nome para chamá-los.” Naïf (ingênuo, em francês) é o gênero guiado pelo autodidatismo de artistas. “Eu não acredito que esses pintores sejam mais emotivos, ou mais ingênuos do que outros”, afirma Carrilho. Na exposição, obras ditas naïf dialogam com
outras de arte contemporânea de mais de 40 artistas, sem delimitação de
gêneros. “Não há artistas naïf ou não naïf. Há artistas”.
A curadoria toca na hipótese de que o autodidatismo artístico no Brasil seja
menos uma escolha do que uma imposição. Para Carrilho, a questão precisa ser
considerada a partir da realidade social brasileira. “A questão aqui está muito
mais ligada à falta de acesso ao ensino público”, diz.
A mostra é aberta com seis telas a óleo, pintadas com dedos e escovas de dente, do mineiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011). É uma sequência nunca antes exposta, que conta uma série narrativa histórica — da captura de negros em solo africano à sua chegada e escravização no Brasil.
Negro e pobre, Ozias veio do interior de Minas para o Rio, foi pedreiro e ferroviário, virou pastor evangélico e pintou aspectos da negritude e do candomblé. “A discussão sobre o acesso à educação pública está intimamente colocada dentro de uma discussão antirracista”, diz o curador.
Com o subtítulo-manifesto “Nenhum Museu a Menos”, a mostra faz alerta sobre o deterioramento e o fechamento de museus no país. Além do próprio Mian, Carrilho lembra no Rio os casos do Museu Nacional, incendiado em 2018, e do Museu Casa do Pontal, fechado após inundação.
Fonte: Folha de São Paulo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Parque Lage destaca a produção de Ozias, que começou a pintar com sobras de eucatex | O Globo
Quase um terço das obras selecionadas no Museu Internacional de Arte Naïf são de um pintor, que ganha destaque na exposição. Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), ou simplesmente Ozias, como assinava seus trabalhos, nasceu em Eugenópolis (MG) e veio para o Rio nos anos 1960, onde inicialmente trabalhou como pedreiro. Empregado na Rede Ferroviária, após ser transferido para uma função no escritório começou a explorar materiais disponíveis para a prática artística.
Das caricaturas feitas para passar o tempo, Ozias passou a utilizar sobras de eucatex da repartição como suporte para as pinturas, em temas religiosos, históricos e sociais. Das 83 obras de sua autoria, estão seis telas nunca exibidas, que abordam a captura e escravização da população africana e seu trajeto até a costa brasileira.
— O Ozias cruza vários campos, era um homem negro com uma vivência de terreiro, que depois virou pastor neopentecostal — comenta Ulisses Carrilho. — O sincretismo foi historicamente representado por artistas brancos, a partir de matrizes das vanguardas europeias. O Ozias fez isso de forma única, sem diferenciar se a pintura era numa tela ou numa parede. É uma possibilidade ímpar de se olhar para esta narrativa a partir de alguém que a vivenciou de fato.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | Sophie Su Art Advisory
Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) foi um artista autodidata que começou a pintar com seriedade enquanto vivia em uma área rural de Minas Gerais. Suas criações artísticas apresentavam uma fusão de motivos espirituais e festividades, caracterizadas por cores vibrantes e padrões recorrentes. Ele escolheu a pintura como um meio de escapar de suas responsabilidades administrativas rotineiras na Companhia Ferroviária Federal. Em seguida, tornou-se ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas.
As obras em exposição foram realizadas entre 1996 e 2004. Várias pinturas em exibição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras. Composições como Aparição (2002) apresentam temas de êxtase e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia (2000) retratam rituais de oferenda, sacrifício e oração do Candomblé.
Outro grupo de pinturas ilustra o Carnaval do Rio de Janeiro. Um terceiro conjunto de trabalhos retrata cenas de trabalho agrícola e recreação rural. Ele frequentemente pintava em painéis de eucatex ou fórmica, que pegava de pilhas de lixo em seu escritório. Usando materiais encontrados, como escovas de dente e pincéis feitos à mão, o artista aplicava tinta a óleo ou acrílica para criar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco.
As obras faziam parte da coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o mais importante colecionador da obra de Ozias. É a primeira vez que o trabalho de Ozias será exibido no Reino Unido e está entre suas primeiras exposições individuais fora do Brasil.
Ozias trabalhou primeiramente como condutor e como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de realizar trabalhos manuais. Em seu novo escritório, ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas. Foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies, publicado em 1981.
Mais tarde, tornou-se ministro evangélico da Assembleia de Deus Pentecostal. Em meados da década de 1980, Ozias morava em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus filhos. A primeira exposição individual de Ozias foi organizada na Sala do Artista Popular - Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro. Seguiram-se várias exposições individuais e coletivas em todo o Brasil. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris e, em 1994, em Frankfurt, como parte de uma exposição de artistas ingênuos brasileiros.
No final da década de 1980 e início da década de 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis "José Nazareno Mimessi", em São Paulo, e o Museu do Folclore, no Rio de Janeiro.
Em 2019, ele participou da exposição coletiva "Arte Naïf - Nenhum museu a menos" na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição "Arte nas Estações", no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Sophie Su fez uma entrevista com Jacqueline Finkelstein, filha do renomado colecionador de arte Lucien Finkelstein, que reuniu uma extensa coleção de obras de Ozias.
Sophie Su - Lucien Finkelstein (1931-2008) já colecionava obras de Ozias há quase uma década quando fundou o MIAN em 1995. Você poderia nos contar quando e como Lucien descobriu as obras de Ozias?
Jacqueline Finkelstein - Não sei precisar quando e como meu pai, Lucien Finkelstein, conheceu Ozias, porque houve inúmeros encontros e buscas pelos naifs durante a maior parte de sua vida. Em 1985, Lucien transformou sua joalheria no escritório e no depósito da futura MIAN. Naquele ano, ele estabeleceu a Lucien Finkelstein Foundation e se dedicou a criar um museu exclusivamente para a arte naïf. Sua meta era criar a maior e mais completa coleção do gênero no mundo, bem como abrir o museu. Ele conseguiu concretizar sua intenção.
Como ele conheceu o artista?
Lucien era um patrono de muitos bons artistas ingênuos para incentivá-los a melhorar e pintar mais, e também para poder ter paz de espírito ao fazer isso. Durante anos, ele comprou semanalmente ou quinzenalmente toda a produção de talvez 10 a 12 pintores, entre eles Ozias. Era sempre uma alegria recebê-los no museu e meu pai sempre os aguardava com grande ansiedade para ver o que haviam criado. Ozias sempre chegava com um belo e grande sorriso, não era muito falante, mas sempre trazia alegria e serenidade em seu semblante. Usava camisas sociais de cores fortes, vermelho, azul, laranja, que contrastavam lindamente com sua pele muito morena e seus dentes muito brancos. Ele sempre usava um colete combinando com suas calças escuras e quase sempre tinha uma Bíblia nas mãos.
Você pode nos contar sobre a relação entre Lucien Finkelstein e Odoteres Ricardo de Ozias? Que viagens eles fizeram juntos?
Em 2005, por meio do Ministério das Relações Exteriores, convidei Ozias para ir comigo, junto com outras duas naifs (Aparecida Azedo e Ermelinda), a Porto Príncipe, no Haiti, para fazer um grande painel em praça pública, em comemoração ao Dia da Amizade entre Brasil e Haiti. Ficamos hospedados junto com outros três grandes pintores haitianos, Prefete Duffault, Etienne Chavannes e Franz Zephirin, durante uma semana para fazer esse painel de 9m de comprimento. Foi uma experiência única e inesquecível para todos. Os artistas delimitaram seus espaços e pintaram, sem falar a mesma língua, por 7 dias ininterruptos até chegarem a um resultado magnífico que hoje está na Embaixada do Brasil em Porto Príncipe.
Qual foi a primeira obra do artista a entrar na coleção Lucien Finkelstein?
A primeira obra de Ozias a entrar na coleção do MIAN foi "O Forasteiro", de 1987.
Odoteres Ricardo de Ozias foi um dos primeiros artistas a fazer parte da coleção?
Ozias não foi o primeiro artista a entrar para a coleção. A paixão de Lucien por naifs vem de longa data, o primeiro quadro que ele comprou ainda jovem foi de Heitor dos Prazeres, "Autorretrato do Artista Pintor", em uma livraria francesa que ele frequentava muito.
O que chamou a atenção de Lucien para o trabalho de Ozias? Como o trabalho de Ozias foi percebido na coleção MIAN como um todo?
Lucien ficou fascinado não apenas pela ingenuidade e pureza, mas também pela originalidade e expressividade da pintura de Ozias. Nenhum outro artista tinha um domínio tão bom da cor preta, tão difícil de usar. Ozias sempre se destacou na coleção por seus temas instigantes, extremamente tocantes e até muitas vezes assustadores. Suas diversas fases lembram os seus tempos de infância, onde retrata o campo, os bois, os trens cortando o milharal, teve a fase do candomblé, a espiritual com mensagens do Evangelho, pintou bastante também o carnaval carioca e os desfiles de escolas de samba.
Quantas obras de Ozias existem hoje na Coleção Lucien Finkelstein?
Hoje, na coleção da L.F., devemos ter cerca de 150 obras.
Fonte: Artigo e entrevista de Sophie Su divulgado na newsletter Sophie Su Art Advisory, sobre arte e negócios. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Revista FÓRUM: NAÏF, a arte intuitiva que encanta e surpreende | Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro
A naïf é a arte internacionalmente conhecida como da espontaneidade, do instinto, em que o autor, por não ter cursado escolas de belas artes, age de modo autodidata. É a expressão, geralmente pictórica, da pessoa que não passou pelo aprendizado da arte clássica ou popular. Não à toa a palavra naïf significa ingênuo, na língua francesa.
Apresentados os rótulos costumeiros da arte naïf, deixemos claro: seus trabalhos são de qualidade ímpar, seus artistas encantam pelo talento. E o Brasil é um de seus principais polos mundiais.
No Rio de Janeiro, funcionou por 21 anos o Museu Internacional da Arte Naïf (Mian), com o raro acervo de 6.000 peças de artistas de 120 países, o mais importante do planeta dedicado à chamada arte primitiva. O museu fechou, mas o acervo continua no casarão histórico do Cosme Velho, bairro na Zona Sul carioca.
O motivo do encerramento, em 23 de dezembro de 2016, foi a crise financeira, que dificultou a captação de patrocínios, conforme anunciou à época a diretora Jacqueline Finkelstein, filha do fundador do Mian, o colecionador francês Lucien Finkelstein (1931-2008).
Para não deixar longe do público os trabalhos de qualidade guardados há quase três anos, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage abriu em maio a exposição “Arte Naïf – Nenhum museu a menos”, que reúne 325 obras do acervo e trabalhos de 38 artistas contemporâneos, como Nelson Leirner e Barrão.
“É a maior coleção de arte naïf do mundo. A ideia da exposição surgiu da necessidade de mostrarmos a importância da coleção. São obras de artistas geniais, que pouco conhecemos”, relata o economista Fabio Szwarcwald, diretor-presidente da EAV.
Mais do que anunciar a exposição, que é gratuita e se encerra em 7 de julho, a proposta deste texto é informar o leitor sobre a existência de um museu reconhecido internacionalmente e que se encontra vedado à visitação por falta de dinheiro.
A mostra no Parque Laje tem, também, o objetivo de alertar os brasileiros para a situação crítica do Mian e de grande parte dos museus do país – 261 fecharam por falta de verba e problemas de manutenção. A receptividade do público é grande. Em cada fim de semana, cerca de 2.500 pessoas compareceram aos três salões do Parque Laje em que as obras naïf estão expostas.
Para o curador Ulisses Carrilho, a arte naïf não é praticada por artistas primitivos ou ingênuos, como induz a tradução da palavra para o português.
“É certo que essas pessoas não usaram técnicas clássicas, mas soluções próprias. Odoteres Ricardo de Ozias, por exemplo, veio de Minas Gerais, era negro, pastor evangélico. Suas obras nesta exposição são maravilhosas. Mostram festas populares, o cotidiano laboral, práticas religiosas”, afirmou Carrilho.
Szwarcwald acrescenta: “É preciso mostrar às pessoas a potência do acervo. Que elas percebam que um trabalho naïf pode integrar uma coleção contemporânea”.
À frente da EAV desde março de 2017, o diretor-presidente tem enfrentado com sucesso os percalços financeiros do Estado do Rio.
“Conseguimos entrar na Lei Rouanet pela primeira vez, com duas captações que somam R$ 50 milhões, para o plano anual e restauros. Criamos uma escolinha que em 2018 trouxe à EAV 3.000 crianças, das quais 2.000 com gratuidade. A EAV tem 500 alunos por semestre, 50 professores, 45 funcionários. Reativamos o programa de bolsas. É preciso ter projetos sérios, com bons resultados”, disse ele.
Fonte: AMAERJ – Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, escrito por Sérgio Torres. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias: Um espaço entre o altar e o alterado | M-A a space between
Enquanto os londrinos deixavam a cidade em busca de sol neste verão, uma massa de pinturas, brilhantes com a luz do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011) chegou. Vistas pela primeira vez no Reino Unido - na galeria de David Zwirner na Grafton Street, aguardando exposição a partir de 1º de setembro.
Convidado para uma prévia em julho, entrei em uma sala, branca como uma folha de papel nova, enquanto um unboxing de pinturas estava em processo de ser apoiado contra as paredes antes da instalação. Post-its codificavam por cores três temas, agricultura, religião e carnaval. Enquanto ouvia o curador James Green apresentando as obras, logo comecei a apreciar o quão extraordinárias e contraditórias são as pinturas em exposição.
O que parece ser uma série de paisagens pintadas em um estilo infantil e ingênuo assume um contexto totalmente diferente quando você percebe que as obras em exposição foram pintadas por alguém na faixa dos cinquenta e sessenta anos, que só começou a desenhar aos 40 anos. A decisão de apresentar este trabalho, nesta galeria, neste momento, é conceitualmente fascinante.
Ozias apresenta uma visão tecnicolor de uma vida em revisão - como se libertada da possessão. Suas paletas primárias entram em choque em celebração saturada e contemplação de estado intensificada - tanto que assistir em silêncio deixa o espectador surdo, apenas para ouvir seu batimento cardíaco - há uma cor perceptível de compreensão que não é dita, mas implícita - tons de alegria, violência, repressão e histeria.
A mente zumbe em busca de referências, de pistas visuais e de razão, mas o gênio de Ozias parece repelir a reinterpretação de outros - as obras existem fora dos capítulos estudados da história da arte - suas manifestações codificadas são uma liberação não feita de fontes externas, mas de processamento interno - a intensidade e o ritmo de suas pinturas - concentradas em um foco hipnótico e abundante, sugerem uma abordagem meditativa e investigativa da criação que proporcionou catarse a um indivíduo que, durante a maior parte de sua vida, trabalhou duro dentro dos sistemas mecanizados de outros.
O antigo dono das obras Lucien Finkelstein (1931–2008), acumulou uma coleção de arte de seis mil peças em sua vida, mantendo uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Há paralelos intrigantes entre o estilo visual dos dois homens, ambos parecem focados em um senso de antecipação dentro de suas obras, com os tigres planos e nus reclinados de Rousseau propondo um recorte de papelão de terror sensacionalista, Ozias vai além ao retratar uma piscina fechada de crocodilos decapitando um observador tomando sol. Assim como acontece com ambos os artistas e uma observação generalizada da arte naïf, é o subconsciente que é priorizado sobre o contínuo.
O ímpeto em torno da exposição aumenta à medida que você anda pela sala, observando cada retângulo como se fossem imagens estáticas de uma animação silenciosa. Suas cores fortes e planas imediatamente entretêm e, então, quando seu olhar recai sobre os detalhes em miniatura, eles indicam de forma intrincada que nem tudo é o que parece.
Crescendo no interior do Brasil, uma pequena cidade chamada Eugenópolis em Minas Gerais, ele trabalhou com sua família como um trabalhador agrícola aos cinco anos, deixando o campo e se mudando para o Rio de Janeiro aos vinte anos para ser um pedreiro, antes de trabalhar como um agente de estação na Rede Ferroviária Federal. Algumas décadas depois, ele está preso ao escritório, trabalhando como um administrador devido a problemas de saúde. É aqui, exposto a materiais de papelaria pela primeira vez que ele começa a desenhar, empapelando as paredes de seu escritório com caricaturas de seus colegas. Ele é então contratado por seus empregadores para ilustrar um livro de espécies de madeira da Amazônia, publicado em 1981 - e pela primeira vez, Ozias é apresentado como um artista. As origens de um estilo diagramático criado com as ferramentas de um pensador conceitual continuam a ser empregadas ao longo de sua carreira. Implementos encontrados e forrageados são favorecidos em relação aos materiais de arte tradicionais, sobras de fórmica formam suas telas e brilho industrial sua paleta. Embora as técnicas empregadas como trabalhador agrícola e pedreiro industrial possivelmente tenham influenciado a construção de suas pinturas, uma cena é formulada como um cenário de camadas, cenários e atores perfeitamente posicionados para o olhar do melhor lugar da casa.
As pinturas em exposição (1996-2004) são do período em que o artista também foi ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal - um contexto que parece irresistível para conectar a uma prolífica efusão de obras que muitas vezes enquadram uma figura central, uma estrutura composicional como as peças alteradas de um retábulo.
A busca e questionamento introspectivo do artista é palpavelmente forte quando se considera o pensamento de que parte de sua comunidade evangélica rejeitou sua prática artística com uma religião marcada por rigoroso tradicionalismo e fundamentalismo - opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. Saber disso torna a vida de Ozias ainda mais fascinante. - A criação de 400 obras de arte conhecidas antes da morte e iterar sem repetir nem editar - todas consistentes e autogerenciadas como se respondessem a um briefing privado removido de vendas, conceito ou fama, em vez de um estado meditativo de oração.
Fonte: M-A, a space between, escrito por Joe Richards. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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O pintor mineiro Odoteres Ricardo de Ozias | O jornal de todos os Brasis
São difíceis mesmo de encontrar… Conheci um pintor, Odoteres Ricardo de Ozias (1940-2011), com uma história de vida fantástica (colocarei parte dela abaixo) que expôs sua arte em inúmeros museus importantes do mundo e não consegui pratiamente nada de sua obra na internet, infelizmente…quando estive com ele, em princípios de 2011, já trazia uma saúde debilitada em consequência de um AVC, mas estava ainda produtivo; faleceu alguns meses depois do nosso encontro. Conheço pessoas ligadas a ele que têm muitas fotografias de sua obra e um dia espero apresentá-las aqui no blog.
Odoteres Ricardo de Ozias nasceu em 15 de julho de 1940 em Eugenópolis, cidade próxima a Muriaé, em Minas Gerais, filho de agricultores empregados em uma fazenda. Iniciou o curso primário e alfabetizou-se, passando logo em seguida a trabalhar no campo e, mais tarde, como ajudante de padeiro, na cidade de Eugenópolis. Em 1960, seu pai veio para o Rio de Janeiro, começando aqui a trabalhar como vigia da construção civil. Aos poucos conseguiu trazer toda a família – esposa, quatro filhas e cinco filhos – para esta cidade, onde Ricardo de Ozias exerceu de início a profissão de pedreiro. Mais tarde, na Rede Ferroviária Federal, foi manobrador e auxiliar de agente especial de estação, trabalhando nos torniquetes de venda de bilhetes. Problemas de saúde fizeram com que, há cinco anos, fosse readaptado em novas funções na mesma empresa, passando a trabalhar em escritório como auxiliar de expediente.
Assim, tendo largado o ‘serviço pesado’ e diante das circunstâncias que o colocaram em uma mesa de escritório, Ricardo de Ozias vislumbrou, no desenho, uma brincadeira que preenchia o tempo livre entre suas tarefas. Fazia caricaturas dos colegas. Mais tarde, quando uma engenheira procurava um desenhista para executar as ilustrações do livro ‘Madeiras da Amazônia – identificação de 100 Espécies’, editado pela empresa, recorreu a Ricardo de Ozias indagando se ele seria capaz de executá-las. Mesmo sem nenhuma experiência anterior, Ricardo aventurou-se entre giz de cera, canetas hidrocor e papéis que lhe foram fornecidos juntamente com pequenas amostras de madeiras. Devia reproduzir a cor e os veios típicos de cada uma, tarefa a que se devotou com interesse, mesmo quando parecia difícil encontrar as cores exatas. Foi obrigado a experimentar, pela primeira vez, diversas misturas de cores, ou até mesmo poeira adicionada ao desenho e fixada com giz de cera, para alcançar as tonalidades exatas.
Depois desta primeira – e única, até o momento – experiência profissional como desenhista, Ricardo de Ozias começou a pintar (…)”. (TRAVASSOS, Elizabeth. Ricardo de Ozias: pinturas)”.
A Biblioteca de São Paulo abrigou a exposição itinerante Com Açúcar & Com Afeto –Arte Naïf, do Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil – 2011.
Fonte: O jornal de todos os Brasis, publicado por Luis Nassif. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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“Ozias” de Odoteres Ricardo de Ozias na Danielian Galeria São Paulo | Arte que Acontece
Das pinturas que retratam a realidade do campo e as devoções religiosas que permeiam significativamente a vida dos trabalhadores rurais aos devaneios da arte de tendência popular, “Ozias” ocupa a Danielian Galeria-SP a partir de outubro com obras que reafirmam as origens biográficas de Odoteres Ricardo de Ozias. O artista autodidata debutou no mundo da pintura sob o olhar do cotidiano na área rural do pequeno município da Zona da Mata de Minas. Ganhou visibilidade com seu viés de ‘artista do povo’ e se consagrou no cenário cultural internacional com uma mostra individual no templo da arte contemporânea, a David Zwirner, em Londres, em setembro de 2023.
Fez da pintura seu principal motivo para retratar o ser humano em seu espaço, suas escolhas e crenças, e sua forma de entender o mundo ao seu redor.
Como bem define o curador Jacopo Crivelli Visconti “a maneira como Ozias representa as grandes massas (em cerimônias religiosas ou festividades populares) confirma, de certa forma, essa interpretação: cada corpo parece fundir-se aos que estão aos seus lados e dar, num primeiro momento, a impressão de uma massa homogênea e imóvel. Mas todas as pessoas que compõem essa massa, sem exceção, estão de olhos bem abertos. É um olhar a que nada escapa, um olhar coletivo e atento, capaz de entender, com acuidade e precisão, os jogos e as disputas de poder que se desenrolam à sua frente”.
Ao mesmo tempo visto como artista que executa seu trabalho de forma singela, por meio de representações instintivas da natureza e elementos simples, sem conhecimento de técnicas usuais e, em paralelo, profundamente crítico, Ozias pode ser considerado um artista que representa um conjunto de tendências e estilos. Está entre os legítimos difusores da democratização da produção, difusão e reflexão sobre a ressignificação do simbólico como arte valorada, e que sugere um novo conceito ideológico das concepções de cultura.
Na mostra, estarão obras executadas desde 1962, passando pela produção dos anos 1990, com destaque para “Fogo Nisto!” e “Cortando a Mata”, representações do ambiente rural; e dos anos 2000, destacando-se “Anjos no Céu” e “Rostos”, que denotam as relações do homem e a religiosidade.
O evento antecede o lançamento da publicação sobre as obras do artista, previsto para 9 de novembro de 2024. A organização do livro é de Jacopo Crivelli Visconti, que também assina a autoria, juntamente com Moacir dos Anjos, Claudinei Roberto, Simon Grant e Gabriela Gotoda, com design de Raul Loureiro.
Fonte: Arte que acontece. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
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Odoteres Ricardo de Ozias | David Zwirner
David Zwirner tem o prazer de apresentar uma exposição de pinturas do artista brasileiro Odoteres Ricardo de Ozias (1940–2011) que será inaugurada neste outono na galeria em Londres. As obras em exposição, todas concluídas entre 1996 e 2004, estavam anteriormente na coleção do Museu Internacional de Arte Naïf (MIAN), Rio de Janeiro, que foi fundado por Lucien Finkelstein, o principal colecionador da obra de Ozias. Esta é a primeira vez que a obra de Ozias será exibida no Reino Unido e está entre as primeiras apresentações solo de sua arte fora do Brasil.
Um artista autodidata e imaginativo, Ozias nasceu e foi criado em uma área rural do estado de Minas Gerais, Brasil. Ele começou a pintar seriamente quando tinha quarenta e poucos anos, adotando a prática como uma fuga de seu trabalho administrativo diário para a empresa ferroviária federal. Mais tarde, ele se tornou um ministro evangélico e começou a se concentrar na pintura de narrativas brasileiras e bíblicas. Muitas de suas pinturas retratam a vida rural e os rituais religiosos afro-brasileiros na paisagem campestre onde ele passou sua infância, enquanto outro conjunto de trabalhos retrata os famosos desfiles comunitários do Carnaval anual do Rio de Janeiro. Apresentando o estilo característico de Ozias — composições simplificadas, porém dinâmicas, caracterizadas por cores fortes e padrões repetidos — as pinturas nesta exposição capturam o interesse do artista em temas espirituais de piedade e arrebatamento, juntamente com cenas de celebração festeira, ilustrando juntos a interpretação distinta de Ozias das tradições de seu Brasil natal.
Ozias frequentemente pintava em painéis de Eucatex — uma chapa de fibra de madeira de alta densidade usada para fabricação e móveis — ou fórmica, que ele tirava de pilhas de descarte em seu escritório. Usando uma variedade de ferramentas, incluindo escovas de dente, palitos de dente, seus dedos e um pincel áspero feito mastigando a ponta de um pedaço de madeira, o artista aplicou tinta a óleo ou acrílica para renderizar composições em cores fortes e planas, muitas vezes acentuadas com preto e branco. Engenhoso e trabalhador, ele logo se comprometeu a pintar o máximo possível, relembrando mais tarde: “Como eu não sabia pintar, trabalhei em muitas pinturas ao mesmo tempo, tentando não esquecer todas as ideias que me vinham à mente.”
Várias pinturas em exposição retratam rituais de tradições religiosas afro-brasileiras, incluindo algumas cenas surrealistas que sugerem visões oníricas e manifestações de sabedoria espiritual. Um brasileiro negro, Ozias era especialmente afinado com as práticas do Candomblé — uma fé desenvolvida por africanos escravizados e seus descendentes, combinando elementos de várias religiões da África Ocidental e influências do catolicismo. Ela reconhece um panteão de divindades conhecidas como orixás , muitas associadas a santos católicos. Composições como A aparição ( A aparição) (2002) apresentam temas devocionais de arrebatamento e exaltação, enquanto cenas como A cerimônia ( 2000) retratam rituais de candomblé de oferenda, sacrifício e oração. Outro grupo de pinturas ilustra os famosos desfiles de carnaval no Rio de Janeiro, realizados anualmente antes da Quaresma, incorporando as filas de dança de escolas de samba fantasiadas, as figuras icônicas de baianas em turbantes e saias rodadas, e as multidões de espectadores que se reúnem para assistir e celebrar. Nessas obras, grupos de foliões fantasiados lotam a rua, seus rostos simplificados e de olhos arregalados formando uma multidão homogênea em forma de grade que preenche a imagem e transmite a festividade abundante do icônico feriado brasileiro. Um terceiro corpo de trabalho compreende cenas de trabalho agrícola e recreação rural, situadas na paisagem agrícola da infância do artista.
A maioria das pinturas é executada em um formato de paisagem com uma linha do horizonte visível, enquanto algumas imagens renunciam totalmente a quaisquer marcadores de perspectiva, com figuras aparecendo suspensas contra um campo de cor. Em muitas cenas agrícolas e espirituais, Ozias anima a atmosfera ao redor com pinceladas impressionistas em camadas. Formas claramente definidas emergem de fundos pontuados por pinceladas secas, frequentemente usadas por Ozias para representar a luz que emana do sol, da lua ou das estrelas, bem como para dar profundidade a corpos d'água e céus nublados. Passagens semi-abstratas de padrões geométricos repetidos e tons sutilmente variados contrastam com os tons opacos de joias que definem as figuras. Com um vocabulário formal característico, Ozias enfatiza a bidimensionalidade de suas pinturas por meio da cor e da perspectiva achatada. Imbuídos da alegria das tradições regionais e do misticismo dos rituais religiosos, as obras em exibição se fundem em um retrato vibrante do Brasil de Ozias e revelam a visão extraordinária do artista sobre os costumes e a cultura de seu país.
Lucien Finkelstein (1931–2008) colecionava o trabalho de Ozias há pelo menos uma década quando fundou o MIAN em 1995 (o museu fechou definitivamente em 2016). Um joalheiro de sucesso, Finkelstein nasceu na França e emigrou para o Brasil em 1948, logo desenvolvendo uma paixão pela arte naïf, um termo usado inicialmente para descrever o trabalho do artista modernista autodidata francês Henri Rousseau (1844–1910). Reunindo aproximadamente seis mil obras de um grupo internacional de artistas, Finkelstein passou a deter uma das mais importantes coleções independentes de arte naïf do mundo e foi o colecionador preeminente do trabalho de Ozias.
Por ocasião da exposição, uma nova bolsa de estudos foi encomendada, com ensaios futuros do historiador de arte britânico Simon Grant e do curador brasileiro Moacir dos Anjos que serão publicados exclusivamente em davidzwirner.com.
Odoteres Ricardo de Ozias(1940–2011) nasceu e foi criado em Eugenópolis, Brasil, uma pequena cidade em Minas Gerais, um estado rural conhecido por suas cidades coloniais com igrejas barrocas. Ozias aprendeu a ler e escrever enquanto trabalhava nos campos de sua família, eventualmente encontrando trabalho como assistente de um padeiro local. Em 1960, seu pai se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar na construção civil, logo realocando sua esposa e seus vários filhos. Ao se estabelecer na metrópole costeira, Ozias, de 20 anos, trabalhou como pedreiro antes de encontrar trabalho na Rede Ferroviária Federal, a rede ferroviária federal.
Lá, ele primeiro trabalhou como manobrador e, posteriormente, como agente de estação, antes de fazer a transição para uma função administrativa quando problemas de saúde afetaram sua capacidade de fazer trabalho manual. Trabalhando em um escritório pela primeira vez, Ozias encontrou novidades cotidianas como artigos de papelaria e material de escritório. Ele começou a desenhar caricaturas de seus colegas, ganhando atenção por suas obras de arte e cobrindo as paredes de seu escritório com esboços. Ele foi convidado por um engenheiro para ilustrar um livro sobre espécies de madeira da Amazônia, Madeiras da Amazônia: Identificação de 100 Espécies , publicado em 1981 pela empresa ferroviária. Essas ilustrações compreendiam cubos repetidos mostrando variações de cor, textura e grãos de madeira, e Ozias experimentou novas técnicas, incluindo adicionar pó e areia aos seus pigmentos e fixar desenhos com giz de cera para obter tons precisos. Ele começou a perseguir a arte inflexivelmente durante seu tempo livre, usando materiais encontrados e pincéis artesanais para criar pinturas coloridas inspiradas nas terras e tradições de seu país.
Ozias mais tarde se tornou um ministro evangélico na Assembleia de Deus Pentecostal. Alguns de sua comunidade evangélica rejeitaram sua prática artística: com uma religião marcada por um tradicionalismo rigoroso e fundamentalismo, alguns seguidores da igreja Assembleia de Deus aderiram ao aniconismo, opondo-se à representação visual de quaisquer seres vivos ou figuras religiosas. O tema de Ozias se concentrou nos rituais das tradições religiosas afro-brasileiras, ilustrando divindades religiosas e adoradores devotos na paisagem campestre onde ele passou sua infância.
Em meados da década de 1980, Ozias morava no bairro de Gramacho, em Duque de Caxias, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, com sua esposa e seus seis filhos (incluindo três do casamento anterior de sua esposa). Ele foi apresentado à acadêmica Elizabeth Travassos, que trabalhava para a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e organizou a primeira exposição individual de Ozias no Rio de Janeiro, na Sala do Artista Popular – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Várias exposições individuais e coletivas por todo o Brasil se seguiram, e Ozias manteve sua prática artística com o apoio de seu empregador. Em 1993, seu trabalho foi exibido na Embaixada do Brasil em Paris, e em 1994 seu trabalho foi exibido em Frankfurt, Alemanha, como parte de uma exposição de artistas naïf brasileiros. As atividades artísticas de Ozias e as notícias de suas exposições apareciam frequentemente em edições do Expresso Refer , um periódico mensal publicado pela empresa ferroviária. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, suas obras foram adquiridas por museus brasileiros, incluindo o Museu de Arte Primitiva de Assis “José Nazareno Mimessi”, São Paulo, e o Museu do Folclore no Rio de Janeiro, bem como por colecionadores no Brasil, Estados Unidos e Europa. Em 1994, a assembleia legislativa do Brasil concedeu a Ozias o título de Cidadão do Estado do Rio de Janeiro. Ozias continuou a fazer e exibir arte por todo o Brasil até o início dos anos 2000, até sofrer um derrame em 2010. Ele foi hospitalizado no Rio de Janeiro antes de retornar à sua cidade natal, Eugenópolis, de acordo com seus desejos, onde morreu um ano depois.
O reconhecimento do trabalho de Ozias aumentou nos últimos anos, principalmente no Brasil. Em 2019, ele foi um artista de destaque na exposição coletiva Arte Naïf – Nenhum museu a menos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro, e em fevereiro de 2023, seu trabalho foi incluído na exposição Arte nas Estações , que foi apresentada em exposições temáticas simultâneas em três locais nas cidades de Ouro Preto, Congonhas e Conselheiro Lafaiete, todas no estado de Minas Gerais, onde Ozias passou sua infância. Ambas as exposições foram organizadas por Ulisses Carrilho, curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e compreenderam obras anteriormente na coleção do MIAN. Era de particular importância para Carrilho trazer o trabalho de Ozias de volta ao local de nascimento do artista: o curador focou a narrativa de cada exposição em torno de Ozias, destacando o significado das raízes do artista na área rural fora dos centros urbanos do Brasil .
Fonte: David Zwirner. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.
Crédito fotográfico: Mapa das Artes. Consultado pela última vez em 17 de março de 2025.