José Damasceno Telles Camilo (1957, Belo Horizonte, Brasil), mais conhecido como Damasceno, é um pintor naif brasileiro. Autodidata, iniciou sua trajetória artística ainda jovem, com forte influência da tapeceira Marlene Trindade e do convívio com nomes importantes da arte popular mineira, como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio e Irma Renault. Estreou em exposições aos 24 anos, após convite para a Semana do Folclore, e desde então participou de mostras e salões em diversas cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Sua obra é marcada pela representação vibrante do cotidiano urbano, especialmente das favelas, festas e personagens populares de Belo Horizonte. Com traço detalhista e sensível, Damasceno dá protagonismo às pessoas em suas cenas, utilizando uma paleta alegre e espontânea. Seu estilo primitivista valoriza o coletivo e resgata, com lirismo, a memória afetiva das paisagens e vivências urbanas. Em 2008, venceu o concurso nacional Talentos da Maturidade com a obra Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba, reconhecida por seu olhar autêntico sobre a cultura popular. Participou da exposição Mestres da Capital no Centro de Arte Popular da Cemig, e teve sua trajetória destacada por críticos como Mari’Stella Tristão. Suas obras fazem parte de acervos públicos e particulares e seguem sendo referência na arte popular contemporânea brasileira.
José Damasceno | Arremate Arte
José Damasceno Telles Camilo, conhecido artisticamente como Damasceno, foi um pintor autodidata brasileiro nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu trabalho se insere na tradição da pintura naif ou primitivista, com uma linguagem plástica vibrante e profundamente enraizada na cultura popular urbana da capital mineira. Por mais de quatro décadas, Damasceno se dedicou à arte com uma produção marcada pela sensibilidade, pela observação do cotidiano e pela valorização das relações humanas e dos espaços sociais.
Desde jovem, demonstrou interesse pela arte e pela observação do ambiente ao seu redor. Cresceu no bairro Cidade Jardim e teve seu primeiro contato formativo com a arte ao conviver com a tapeceira Marlene Trindade, cuja orientação inicial e vivência no ateliê despertaram seu interesse pela pintura. Autodidata, Damasceno começou a pintar por conta própria, misturando tintas e criando composições espontâneas. Sua primeira exposição aconteceu aos 24 anos, quando foi convidado a participar da Semana do Folclore — e a partir desse marco, nunca mais parou.
A partir dos anos 1970, passou a frequentar a Feira de Arte e Artesanato da Praça da Liberdade, onde conheceu nomes fundamentais da arte mineira como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico e Irma Renault. Era o mais jovem do grupo e, como ele mesmo recordava, foi acolhido por essa geração de artistas populares, ganhando incentivo da crítica de arte Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio de Oliveira. Esse convívio foi essencial para sua formação e consolidação como um dos grandes nomes da arte ingênua brasileira.
O traço marcante de sua obra é o retrato do cotidiano das periferias e morros de Belo Horizonte, suas festas populares, ruas, prédios e aglomerados urbanos — uma escolha temática que diferencia seu trabalho do de outros artistas populares mais voltados ao universo rural. Em suas telas, Damasceno capturava com lirismo e alegria o forró de Belô, o carnaval de rua, as feiras, os encontros, os vizinhos e as vivências coletivas, sempre com um olhar afetuoso e positivo sobre o povo e a cidade.
O artista destacava que as pessoas eram o elemento mais importante em sua pintura. Era comum ver em suas obras dezenas ou centenas de figuras humanas, representadas com cuidado e individualidade, compondo cenas animadas e cheias de vida. Sua linguagem visual envolvia cores intensas, composições dinâmicas e uma perspectiva emocional que transcendia a representação literal, oferecendo ao público uma visão calorosa e crítica da realidade urbana brasileira.
Em 2008, Damasceno foi premiado no concurso nacional Talentos da Maturidade, com a obra “Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba”, consolidando ainda mais seu reconhecimento no cenário das artes visuais. Essa conquista refletia o amadurecimento técnico e estético de sua trajetória, sempre fiel à sua identidade e à sua vivência como artista do povo.
Apesar de já ter se aventurado na cerâmica, abandonou a prática para se dedicar exclusivamente à pintura, destacando a necessidade de manter a delicadeza das mãos, essencial para o nível de detalhamento presente em seus quadros. Sua produção conquistou espaço em museus e instituições dedicadas à arte popular, como o Centro de Arte Popular da Cemig, em Belo Horizonte, que abriga uma de suas obras no acervo.
Participou também de diversas exposições coletivas e salões de arte em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sendo o único pintor entre os artistas convidados para a importante mostra “Mestres da Capital”, o que reforça seu papel singular na cena artística mineira e brasileira.
José Damasceno | Itaú Cultural
Exposições
1922 - 1ª Bienal Naïfs do Brasil
1944 - 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1987 - Festas Juninas
1987 - Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1998 - Bienal Naifs do Brasil 1998
2001 - Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro
Fonte: DAMASCENO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 05 de agosto de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura | UAI
“Sou urbano”, afirma José Damasceno, de 67 anos, 40 deles dedicados à pintura. A observação se refere ao motivo das imagens que produz, diferentes das de outros artistas populares mais voltados ao mundo rural. “Belo Horizonte é festiva, alegre. Mesmo com todos os problemas, você encontra coisas boas, como o forró de Belô, que existe há muito tempo”, exemplifica. “Ou subir o morro, qualquer um deles –, e retratar lá de cima a favela. Fiz isso muito, mas hoje o dono do morro não deixa. Por isso tenho de pintar os aglomerados de memória”, conta. O artista gosta ainda de observar prédios, casas, ruas e avenidas. Mas faz questão de destacar que as pessoas são o mais importante em suas pinturas.
Nem adianta provocar, para Damasceno não tem tempo ruim. “Tenho visão positiva da vida, gosto de gente. Vejo as pessoas sempre com alegria, mesmo não tendo motivo para isso. Acho que o Brasil sempre tem um lado bom”, afirma o pintor, traduzindo com palavras o tom que é percebido em suas pinturas. Está em paz com a vida que tem: desde 1999, só pinta, já que, devido a um problema de saúde, teve de deixar o trabalho. Às vezes se preocupa com o futuro. “Tenho uma filha de 17 anos que está grávida. Fico pensando como vão ser as coisas daqui há 20 anos. Dificilmente, no futuro, alguém vai conseguir escapar de questões como a falta d’água e a insegurança”, diz.
O artista é integrante de grupo ilustre das artes em Minas, formado pelos pintores Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico, Irma Renault, nomes que ele mesmo evoca como companheiros. Grupo, pode-se acrescentar, que, ainda hoje, está para ser melhor estudado e inserido na história das artes visuais de Minas Gerais. “Eu era o menino do grupo”, recorda o artista, lembrando que a turma era, em média, 15 anos mais velha do que ele. O encontro com os colegas se deu no início dos anos 1970, quando, aos 27 anos, ele começou a participar de feira de arte e artesanato da Praça da Liberdade, apresentado à turma pela crítica de artes Mari’Stella Tristão. “E, desde então, não parei mais”, conta com satisfação.
Damasceno até já fez cerâmica, mas parou. “Escultura deixa a mão bruta. Quem faz pintura, que tem detalhe, precisa de mão mais delicada”, justifica. “Já me perguntaram como tenho paciência para fazer tantas pessoas num quadro. Se faço só meia dúzia, acho que fica incompleto”, conta, lembrando-se de aspecto – o indivíduo inserido no coletivo – que chama atenção nas obras dele. O artista foi o único pintor entre os 13 autores que estiveram na exposição Mestres da Capital, do Centro de Arte Popular da Cemig. “Nunca imaginei ver museu tão bonito dedicado à arte popular e ainda mais com um quadro meu no acervo. Quem não conhece o local não sabe o que está perdendo”, avisa.
“Há 40 anos, quem fazia arte popular era reticente em chegar à galeria de arte importante. Foram Rodelnégio e José Luiz Soares que abriram caminho para nós, incentivando que fôssemos às exposições, a conhecer gente do meio da arte”, recorda. Damasceno defende que, pela qualidade da arte do que fizeram, os pintores citados mereciam uma retrospectiva como a que foi feita para Zizi Sapateiro. Ele lembra que o amigo Rodelnégio, em 2015, completaria 100 anos. “Porta aberta para nós era só o Estado de Minas”, afirma, lembrando-se de apoio dos jornalistas Geraldo Magalhães e Wilson Frade, da crítica Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio Oliveira, que às vezes a substituía.
José Damasceno é cauteloso quanto a conselhos para jovens artistas. Faz apenas uma observação: “Hoje o mercado não é tão bom quanto antes. Quem quer ser artista tem que gostar muito do que faz. O que a gente vê, agora, são pessoas que fazem arte se tornando professores”. Suspeita, inclusive, que vivem-se tempos com menos sensibilidade para a arte e a cultura do que em outras épocas. Se não fosse pintor, gostaria de ser violonista. “Quem toca violão bem é divino”, afirma o admirador de Emílio Santiago e Paulinho da Viola. Ele até já tentou aprender a tocar o instrumento, mas desistiu.
Na escola da vida
José Damasceno Telles Camilo é o segundo dos quatro filhos de Maria de Lourdes e Alcebíades Camilo Filho. Nasceu no Bairro Cidade Jardim e estudou no Colégio Dom José Gaspar. Diversão, quando jovem, era jogar futebol e curtir as redondezas da casa. “Tempos que em Belo Horizonte chovia na época certa. Cheguei a beber água e a pegar bagre com peneira no Córrego do Leitão, onde é o São Bento. Hoje, lá é esgoto puro”, lamenta. Um curso de artes industriais, depois de concluir o ensino fundamental, trouxe contato com marcenaria e cestaria. Adolescente, foi trabalhar na casa da família da tapeceira Marlene Trindade, tornando-se protegido da artista, quando trabalhava como eletricista na fábrica do pai dela.
O jovem observava os ensinamentos sobre cor que Marlene Trindade passava aos alunos. E fazia, por conta própria, misturas de tintas e alguns quadros. Uma pessoa viu os trabalhos e recomendou que Damasceno se matriculasse em curso de extensão na UFMG. “Marlene não deixou. Disse que ia me influenciar negativamente”, recorda. E ele considera que foi decisão acertada: “Ninguém deve forçar a barra para um artista ser o que ele não é. Se você não tem característica para uma coisa, não vai ter capacidade de fazer”, argumenta. O artista tem boas lembranças das perambulações, com a tapeceira, pelo mundo das exposições, conhecendo a Galeria Guignard, o Palácio das Artes e a Associação Mineira de Imprensa, entre outros espaços.
“Vi e achei lindíssima a exposição de José Luiz Soares no Minas”, afirma Damasceno, recordando de artista cuja obra teve impacto sobre ele. “Ele era detalhista, o que fazia o trabalho ficar muito interessante”, acrescenta. Também tem na memória as mostras de Yara Tupinambá, pelo bom desenho, e de Rodelnégio, pela força das figuras. Considera que Rodelnégio foi o último líder do grupo, por ser o mais velho, ter mais experiência e conhecer jornalistas importantes. Damasceno já participou de diversas coletivas e salões de arte, além de mostrar suas obras em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Fonte: UAI, “Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura”, publicado por Walter Sebastião, em 30 de julho de 2014. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
A beleza da arte ingênua | Banzeiros
Três artistas plásticos que têm em comum o estilo de pintura “naïf” – um termo francês usado para designar artistas autodidatas que retratam geralmente cenas do cotidiano com cores vivas e alegres – se uniram para homenagear um amigo deles que morreu em 2019 e que também era artista autodidata.
Ângela Rosa, o irmão dela Alexandre Rosalino, mais o paraibano Joílson Pontes, expõe seus trabalhos na Galeria do Centro Cultural de Contagem em homenagem a José Damasceno Telles Camilo.
Damasceno se tornou pintor aos 14 anos. Entre outras, participou de exposição coletiva com o tema Festas Juninas, São Paulo – SP, 1987; duas Bienais de Arte Naïf, Piracicaba – SP, 1994 e 1998; Primitivos e Naïfs, Belo Horizonte – MG, 2001. Recebeu o Prêmio Nacional de Talentos da Maturidade do Banco Real e o Prêmio Mestres e Mestras pela Fundação Cultural de Contagem em 2014.
A característica das obras de Damasceno é a alegria, que ele expressava “nas cores e no traço simples”, segundo o catálogo da mostra que visitei dia 22 de novembro e que faz parte das comemorações do Mês da Consciência Negra.
Fonte: Banzeiros, “A beleza da arte ingênua”, publicado por José Carlos Sá, publicado em 29 de novembro de 2021. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira | BH Eventos
A Errol Flynn Galeria de Arte abre nesta segunda-feira, 8 de agosto, exposição coletiva dos artistas Damasceno e Dionísio-Tio Tonho. No total, 24 pinturas de Damasceno e 20 de Dionísio poderão ser apreciadas até 25 de agosto, de segundas às sextas-feiras, de 9 às 18 hs e aos sábados das 9 às 14 hs. Os dois artistas são mineiros e apresentam uma linguagem focada na valorização da cultura popular brasileira e construíram trajetórias vitoriosas.
Damasceno nasceu em Belo Horizonte em 1947 e faleceu em 2019. Sua descoberta para arte se deu na adolescência, após conhecer e trabalhar com a artista Marlene Trindade. Embora Marlene o incentivasse somente em 1974 Damasceno criou coragem de expor seus trabalhos, estimulado por Palhano Júnior, Diretor Social e Cultural do Minas Tênis Clube em Belo Horizonte. Damasceno participou de várias exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, inúmeros salões de arte, incluindo participação em bienais naifs, além de ter sido agraciado com vários prêmios como por exemplo o "Prêmio Talentos da Maturidade", categoria Artes Plásticas, do Banco Real. Suas obras podem ser encontradas em inúmeras coleções particulares e embaixadas e consulados de países como Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Alemanha, entre outros.
Antônio Dionísio da Cruz, nome artístico Dionísio Tio-Tonho, nasceu em Pitangui/MG, em 1937 mas veio morar em Belo Horizonte dois anos mais tarde. Infelizmente o artista veio a falecer na véspera desta exposição no dia 6 de agosto de 2022. Nos anos 70, Dionísio Tio-Tonho resolve dedicar-se à pintura, sem, no entanto, abandonar a profissão de marceneiro. Completou o curso primário, casando-se por volta dos 40 anos com uma professora bem mais jovem do que ele, com a qual teve duas filhas. A temática de Dionísio abrange o folclore, a vida rural, procissões e a rotina dos bares. O artista manifesta um verdadeiro gosto pelo boteco, pelo freguês no balcão e nas mesas, pelos casais dançando de rosto colado. Entretanto, essa afeição pela boemia não decorre de alguma afinidade pessoal, mas de sua postura de observador arguto: "Nunca bebi, nunca pus uma gota de álcool na boca, e adoro pintar bares, aquela gente caindo; mas esou sempre do lado de fora. Não sei se você já reparou meu trabalho mas eu enxergo tudo de cima. Não enxergo nada nem no próprio plano, nem no plano de baixo". O artista também contempla participação em diversos salões, exposições individuais e coletivas, além de premiações por todo Brasil.
No texto de apresentação "Breve divagação sobre a arte moderna brasileira" publicado no convite da exposição, o jornalista Walter Sebastião acentua que "a expressividade e arrojo das obras dos artistas são tão explícitos que sugere mais: eles seriam os fundadores de um modernismo popular, matricial para toda cultura brasileira. Que não pode e nem deve ser capturado por consideração "caridosa" e paternalista absolutamente imprópria à compreensão do que estes autores realizaram e significam. A exposição da galeria Errol Flynn, que reúne trabalhos de Dionísio Tio Tonho (Antonio Dionísio da Cruz) e Damasceno (José Damasceno Telles Camilo), convida ao conhecimento de dois artistas que, mais uma vez, reafirmam a potência radical da arte popular do Brasil". Por fim, Walter Sebastião releva alguns dos motivos da importância destes artistas: "Às vezes, encantado com o que pude ver dos autores, desconfiado com cronologias (regionais?) mais afeitas a marcos de pioneirismo do que a obras realmente realizadas, penso que só hoje temos um acervo realmente moderno em suas diferentes estéticas. Um "alto" modernismo que se iniciaria por volta dos primeiros anos da segunda metade do século XX e vai até os anos 1990, quando as novas tecnologias trazem transformações para a arte. E, importante, ainda devemos aos artistas populares o reconhecimento de que são eles que ostentam, sem timidez, as muitas liberdades, a contundência e as conquistas trazidas pela modernidade".
Fonte: BH Eventos, “Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira”. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
O Brasil nas Telas | Revista Encontro
A brasilidade emoldurada. É assim que podemos definir a obra do artista plástico belo-horizontino José Damasceno Telles Camilo, de 65 anos, ou simplesmente Damasceno. Foi traduzindo as festas e os costumes do país que o artista que mora em Contagem, na região metropolitana, conquistou inúmeros admiradores pelo mundo afora. “Eu gosto é disso. De pintar o cotidiano e as belas coisas do meu país”, diz.
E foi pintando o carnaval, a maior festa popular do planeta, que o artista tornou-se conhecido. São mais de 30 anos de carreira, que começou a ser construída na adolescência. O gosto pela arte veio enquanto ajudava uma amiga da família, a artista Marlene Trindade, que trabalhava com tapeçaria. “Certo dia, depois do expediente, comecei a desenhar e foi aí que ela teve a ideia de ajudar a expor o meu trabalho”, diz. Em 1978, Damasceno inaugurou no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, a mostra que o colocou de vez na cena artística mineira.
Na época, vieram as comparações, e seus desenhos, sempre muito coloridos e povoados, foram definidos como Arte Naïf, ausente de elaborações complexas e rica em espontaneidade. Para se ter ideia, os artistas relacionados a esse tipo de arte são, geralmente, pessoas que já nasceram com o dom do desenho. “Nunca frequentei cursos ou escolas de desenho com receio de perder as minhas características. É só inspiração”, diz o autodidata. Com o tempo, Damasceno foi aprimorando o seu trabalho, sempre utilizando tinta acrílica, o que exigia dele uma habilidade ainda maior devido ao rápido tempo de secagem.
Entretanto, pincéis e paleta não foram os únicos instrumentos que lhe davam o sustento, pois durante muito tempo exerceu também a atividade de eletricista. “Contudo, tive um problema de saúde em 1999 e escolhi dedicar-me inteiramente à pintura, coisa que faço por puro prazer”, afirma. Olhando para o quadro Roda de Samba, sua obra predileta, Damasceno revela que a inspiração pode vir a qualquer hora do dia e da noite. “Às vezes, acordo durante a madrugada com uma ideia de desenho, aí tenho de levantar e anotar; do contrário, tudo se perde”, diz o artista, que é admirador das pinturas de Yara Tupynambá e Fernando Pacheco. Além do samba e do carnaval, ele gosta de retratar missas, bares e até a malandragem carioca.
Seus desenhos, que já lhe renderam incontáveis prêmios, alcançaram países como França, Alemanha, Estados Unidos e México. E é também de longe que chegam pedidos para retratar o futebol, por causa da Copa do Mundo que será realizada no Brasil. Ele reconhece a dificuldade de produzir tal obra, que deve ficar para outra oportunidade; porém, revela um audacioso projeto que sairá do forno em breve: “Vou pintar a reforma do estádio do Mineirão, com direito a operários e máquinas. Vai dar muito trabalho, mas vai valer a pena”, diz.
Fonte: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Crédito fotográfico: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
José Damasceno Telles Camilo (1957, Belo Horizonte, Brasil), mais conhecido como Damasceno, é um pintor naif brasileiro. Autodidata, iniciou sua trajetória artística ainda jovem, com forte influência da tapeceira Marlene Trindade e do convívio com nomes importantes da arte popular mineira, como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio e Irma Renault. Estreou em exposições aos 24 anos, após convite para a Semana do Folclore, e desde então participou de mostras e salões em diversas cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Sua obra é marcada pela representação vibrante do cotidiano urbano, especialmente das favelas, festas e personagens populares de Belo Horizonte. Com traço detalhista e sensível, Damasceno dá protagonismo às pessoas em suas cenas, utilizando uma paleta alegre e espontânea. Seu estilo primitivista valoriza o coletivo e resgata, com lirismo, a memória afetiva das paisagens e vivências urbanas. Em 2008, venceu o concurso nacional Talentos da Maturidade com a obra Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba, reconhecida por seu olhar autêntico sobre a cultura popular. Participou da exposição Mestres da Capital no Centro de Arte Popular da Cemig, e teve sua trajetória destacada por críticos como Mari’Stella Tristão. Suas obras fazem parte de acervos públicos e particulares e seguem sendo referência na arte popular contemporânea brasileira.
José Damasceno | Arremate Arte
José Damasceno Telles Camilo, conhecido artisticamente como Damasceno, foi um pintor autodidata brasileiro nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu trabalho se insere na tradição da pintura naif ou primitivista, com uma linguagem plástica vibrante e profundamente enraizada na cultura popular urbana da capital mineira. Por mais de quatro décadas, Damasceno se dedicou à arte com uma produção marcada pela sensibilidade, pela observação do cotidiano e pela valorização das relações humanas e dos espaços sociais.
Desde jovem, demonstrou interesse pela arte e pela observação do ambiente ao seu redor. Cresceu no bairro Cidade Jardim e teve seu primeiro contato formativo com a arte ao conviver com a tapeceira Marlene Trindade, cuja orientação inicial e vivência no ateliê despertaram seu interesse pela pintura. Autodidata, Damasceno começou a pintar por conta própria, misturando tintas e criando composições espontâneas. Sua primeira exposição aconteceu aos 24 anos, quando foi convidado a participar da Semana do Folclore — e a partir desse marco, nunca mais parou.
A partir dos anos 1970, passou a frequentar a Feira de Arte e Artesanato da Praça da Liberdade, onde conheceu nomes fundamentais da arte mineira como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico e Irma Renault. Era o mais jovem do grupo e, como ele mesmo recordava, foi acolhido por essa geração de artistas populares, ganhando incentivo da crítica de arte Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio de Oliveira. Esse convívio foi essencial para sua formação e consolidação como um dos grandes nomes da arte ingênua brasileira.
O traço marcante de sua obra é o retrato do cotidiano das periferias e morros de Belo Horizonte, suas festas populares, ruas, prédios e aglomerados urbanos — uma escolha temática que diferencia seu trabalho do de outros artistas populares mais voltados ao universo rural. Em suas telas, Damasceno capturava com lirismo e alegria o forró de Belô, o carnaval de rua, as feiras, os encontros, os vizinhos e as vivências coletivas, sempre com um olhar afetuoso e positivo sobre o povo e a cidade.
O artista destacava que as pessoas eram o elemento mais importante em sua pintura. Era comum ver em suas obras dezenas ou centenas de figuras humanas, representadas com cuidado e individualidade, compondo cenas animadas e cheias de vida. Sua linguagem visual envolvia cores intensas, composições dinâmicas e uma perspectiva emocional que transcendia a representação literal, oferecendo ao público uma visão calorosa e crítica da realidade urbana brasileira.
Em 2008, Damasceno foi premiado no concurso nacional Talentos da Maturidade, com a obra “Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba”, consolidando ainda mais seu reconhecimento no cenário das artes visuais. Essa conquista refletia o amadurecimento técnico e estético de sua trajetória, sempre fiel à sua identidade e à sua vivência como artista do povo.
Apesar de já ter se aventurado na cerâmica, abandonou a prática para se dedicar exclusivamente à pintura, destacando a necessidade de manter a delicadeza das mãos, essencial para o nível de detalhamento presente em seus quadros. Sua produção conquistou espaço em museus e instituições dedicadas à arte popular, como o Centro de Arte Popular da Cemig, em Belo Horizonte, que abriga uma de suas obras no acervo.
Participou também de diversas exposições coletivas e salões de arte em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sendo o único pintor entre os artistas convidados para a importante mostra “Mestres da Capital”, o que reforça seu papel singular na cena artística mineira e brasileira.
José Damasceno | Itaú Cultural
Exposições
1922 - 1ª Bienal Naïfs do Brasil
1944 - 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1987 - Festas Juninas
1987 - Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1998 - Bienal Naifs do Brasil 1998
2001 - Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro
Fonte: DAMASCENO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 05 de agosto de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura | UAI
“Sou urbano”, afirma José Damasceno, de 67 anos, 40 deles dedicados à pintura. A observação se refere ao motivo das imagens que produz, diferentes das de outros artistas populares mais voltados ao mundo rural. “Belo Horizonte é festiva, alegre. Mesmo com todos os problemas, você encontra coisas boas, como o forró de Belô, que existe há muito tempo”, exemplifica. “Ou subir o morro, qualquer um deles –, e retratar lá de cima a favela. Fiz isso muito, mas hoje o dono do morro não deixa. Por isso tenho de pintar os aglomerados de memória”, conta. O artista gosta ainda de observar prédios, casas, ruas e avenidas. Mas faz questão de destacar que as pessoas são o mais importante em suas pinturas.
Nem adianta provocar, para Damasceno não tem tempo ruim. “Tenho visão positiva da vida, gosto de gente. Vejo as pessoas sempre com alegria, mesmo não tendo motivo para isso. Acho que o Brasil sempre tem um lado bom”, afirma o pintor, traduzindo com palavras o tom que é percebido em suas pinturas. Está em paz com a vida que tem: desde 1999, só pinta, já que, devido a um problema de saúde, teve de deixar o trabalho. Às vezes se preocupa com o futuro. “Tenho uma filha de 17 anos que está grávida. Fico pensando como vão ser as coisas daqui há 20 anos. Dificilmente, no futuro, alguém vai conseguir escapar de questões como a falta d’água e a insegurança”, diz.
O artista é integrante de grupo ilustre das artes em Minas, formado pelos pintores Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico, Irma Renault, nomes que ele mesmo evoca como companheiros. Grupo, pode-se acrescentar, que, ainda hoje, está para ser melhor estudado e inserido na história das artes visuais de Minas Gerais. “Eu era o menino do grupo”, recorda o artista, lembrando que a turma era, em média, 15 anos mais velha do que ele. O encontro com os colegas se deu no início dos anos 1970, quando, aos 27 anos, ele começou a participar de feira de arte e artesanato da Praça da Liberdade, apresentado à turma pela crítica de artes Mari’Stella Tristão. “E, desde então, não parei mais”, conta com satisfação.
Damasceno até já fez cerâmica, mas parou. “Escultura deixa a mão bruta. Quem faz pintura, que tem detalhe, precisa de mão mais delicada”, justifica. “Já me perguntaram como tenho paciência para fazer tantas pessoas num quadro. Se faço só meia dúzia, acho que fica incompleto”, conta, lembrando-se de aspecto – o indivíduo inserido no coletivo – que chama atenção nas obras dele. O artista foi o único pintor entre os 13 autores que estiveram na exposição Mestres da Capital, do Centro de Arte Popular da Cemig. “Nunca imaginei ver museu tão bonito dedicado à arte popular e ainda mais com um quadro meu no acervo. Quem não conhece o local não sabe o que está perdendo”, avisa.
“Há 40 anos, quem fazia arte popular era reticente em chegar à galeria de arte importante. Foram Rodelnégio e José Luiz Soares que abriram caminho para nós, incentivando que fôssemos às exposições, a conhecer gente do meio da arte”, recorda. Damasceno defende que, pela qualidade da arte do que fizeram, os pintores citados mereciam uma retrospectiva como a que foi feita para Zizi Sapateiro. Ele lembra que o amigo Rodelnégio, em 2015, completaria 100 anos. “Porta aberta para nós era só o Estado de Minas”, afirma, lembrando-se de apoio dos jornalistas Geraldo Magalhães e Wilson Frade, da crítica Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio Oliveira, que às vezes a substituía.
José Damasceno é cauteloso quanto a conselhos para jovens artistas. Faz apenas uma observação: “Hoje o mercado não é tão bom quanto antes. Quem quer ser artista tem que gostar muito do que faz. O que a gente vê, agora, são pessoas que fazem arte se tornando professores”. Suspeita, inclusive, que vivem-se tempos com menos sensibilidade para a arte e a cultura do que em outras épocas. Se não fosse pintor, gostaria de ser violonista. “Quem toca violão bem é divino”, afirma o admirador de Emílio Santiago e Paulinho da Viola. Ele até já tentou aprender a tocar o instrumento, mas desistiu.
Na escola da vida
José Damasceno Telles Camilo é o segundo dos quatro filhos de Maria de Lourdes e Alcebíades Camilo Filho. Nasceu no Bairro Cidade Jardim e estudou no Colégio Dom José Gaspar. Diversão, quando jovem, era jogar futebol e curtir as redondezas da casa. “Tempos que em Belo Horizonte chovia na época certa. Cheguei a beber água e a pegar bagre com peneira no Córrego do Leitão, onde é o São Bento. Hoje, lá é esgoto puro”, lamenta. Um curso de artes industriais, depois de concluir o ensino fundamental, trouxe contato com marcenaria e cestaria. Adolescente, foi trabalhar na casa da família da tapeceira Marlene Trindade, tornando-se protegido da artista, quando trabalhava como eletricista na fábrica do pai dela.
O jovem observava os ensinamentos sobre cor que Marlene Trindade passava aos alunos. E fazia, por conta própria, misturas de tintas e alguns quadros. Uma pessoa viu os trabalhos e recomendou que Damasceno se matriculasse em curso de extensão na UFMG. “Marlene não deixou. Disse que ia me influenciar negativamente”, recorda. E ele considera que foi decisão acertada: “Ninguém deve forçar a barra para um artista ser o que ele não é. Se você não tem característica para uma coisa, não vai ter capacidade de fazer”, argumenta. O artista tem boas lembranças das perambulações, com a tapeceira, pelo mundo das exposições, conhecendo a Galeria Guignard, o Palácio das Artes e a Associação Mineira de Imprensa, entre outros espaços.
“Vi e achei lindíssima a exposição de José Luiz Soares no Minas”, afirma Damasceno, recordando de artista cuja obra teve impacto sobre ele. “Ele era detalhista, o que fazia o trabalho ficar muito interessante”, acrescenta. Também tem na memória as mostras de Yara Tupinambá, pelo bom desenho, e de Rodelnégio, pela força das figuras. Considera que Rodelnégio foi o último líder do grupo, por ser o mais velho, ter mais experiência e conhecer jornalistas importantes. Damasceno já participou de diversas coletivas e salões de arte, além de mostrar suas obras em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Fonte: UAI, “Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura”, publicado por Walter Sebastião, em 30 de julho de 2014. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
A beleza da arte ingênua | Banzeiros
Três artistas plásticos que têm em comum o estilo de pintura “naïf” – um termo francês usado para designar artistas autodidatas que retratam geralmente cenas do cotidiano com cores vivas e alegres – se uniram para homenagear um amigo deles que morreu em 2019 e que também era artista autodidata.
Ângela Rosa, o irmão dela Alexandre Rosalino, mais o paraibano Joílson Pontes, expõe seus trabalhos na Galeria do Centro Cultural de Contagem em homenagem a José Damasceno Telles Camilo.
Damasceno se tornou pintor aos 14 anos. Entre outras, participou de exposição coletiva com o tema Festas Juninas, São Paulo – SP, 1987; duas Bienais de Arte Naïf, Piracicaba – SP, 1994 e 1998; Primitivos e Naïfs, Belo Horizonte – MG, 2001. Recebeu o Prêmio Nacional de Talentos da Maturidade do Banco Real e o Prêmio Mestres e Mestras pela Fundação Cultural de Contagem em 2014.
A característica das obras de Damasceno é a alegria, que ele expressava “nas cores e no traço simples”, segundo o catálogo da mostra que visitei dia 22 de novembro e que faz parte das comemorações do Mês da Consciência Negra.
Fonte: Banzeiros, “A beleza da arte ingênua”, publicado por José Carlos Sá, publicado em 29 de novembro de 2021. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira | BH Eventos
A Errol Flynn Galeria de Arte abre nesta segunda-feira, 8 de agosto, exposição coletiva dos artistas Damasceno e Dionísio-Tio Tonho. No total, 24 pinturas de Damasceno e 20 de Dionísio poderão ser apreciadas até 25 de agosto, de segundas às sextas-feiras, de 9 às 18 hs e aos sábados das 9 às 14 hs. Os dois artistas são mineiros e apresentam uma linguagem focada na valorização da cultura popular brasileira e construíram trajetórias vitoriosas.
Damasceno nasceu em Belo Horizonte em 1947 e faleceu em 2019. Sua descoberta para arte se deu na adolescência, após conhecer e trabalhar com a artista Marlene Trindade. Embora Marlene o incentivasse somente em 1974 Damasceno criou coragem de expor seus trabalhos, estimulado por Palhano Júnior, Diretor Social e Cultural do Minas Tênis Clube em Belo Horizonte. Damasceno participou de várias exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, inúmeros salões de arte, incluindo participação em bienais naifs, além de ter sido agraciado com vários prêmios como por exemplo o "Prêmio Talentos da Maturidade", categoria Artes Plásticas, do Banco Real. Suas obras podem ser encontradas em inúmeras coleções particulares e embaixadas e consulados de países como Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Alemanha, entre outros.
Antônio Dionísio da Cruz, nome artístico Dionísio Tio-Tonho, nasceu em Pitangui/MG, em 1937 mas veio morar em Belo Horizonte dois anos mais tarde. Infelizmente o artista veio a falecer na véspera desta exposição no dia 6 de agosto de 2022. Nos anos 70, Dionísio Tio-Tonho resolve dedicar-se à pintura, sem, no entanto, abandonar a profissão de marceneiro. Completou o curso primário, casando-se por volta dos 40 anos com uma professora bem mais jovem do que ele, com a qual teve duas filhas. A temática de Dionísio abrange o folclore, a vida rural, procissões e a rotina dos bares. O artista manifesta um verdadeiro gosto pelo boteco, pelo freguês no balcão e nas mesas, pelos casais dançando de rosto colado. Entretanto, essa afeição pela boemia não decorre de alguma afinidade pessoal, mas de sua postura de observador arguto: "Nunca bebi, nunca pus uma gota de álcool na boca, e adoro pintar bares, aquela gente caindo; mas esou sempre do lado de fora. Não sei se você já reparou meu trabalho mas eu enxergo tudo de cima. Não enxergo nada nem no próprio plano, nem no plano de baixo". O artista também contempla participação em diversos salões, exposições individuais e coletivas, além de premiações por todo Brasil.
No texto de apresentação "Breve divagação sobre a arte moderna brasileira" publicado no convite da exposição, o jornalista Walter Sebastião acentua que "a expressividade e arrojo das obras dos artistas são tão explícitos que sugere mais: eles seriam os fundadores de um modernismo popular, matricial para toda cultura brasileira. Que não pode e nem deve ser capturado por consideração "caridosa" e paternalista absolutamente imprópria à compreensão do que estes autores realizaram e significam. A exposição da galeria Errol Flynn, que reúne trabalhos de Dionísio Tio Tonho (Antonio Dionísio da Cruz) e Damasceno (José Damasceno Telles Camilo), convida ao conhecimento de dois artistas que, mais uma vez, reafirmam a potência radical da arte popular do Brasil". Por fim, Walter Sebastião releva alguns dos motivos da importância destes artistas: "Às vezes, encantado com o que pude ver dos autores, desconfiado com cronologias (regionais?) mais afeitas a marcos de pioneirismo do que a obras realmente realizadas, penso que só hoje temos um acervo realmente moderno em suas diferentes estéticas. Um "alto" modernismo que se iniciaria por volta dos primeiros anos da segunda metade do século XX e vai até os anos 1990, quando as novas tecnologias trazem transformações para a arte. E, importante, ainda devemos aos artistas populares o reconhecimento de que são eles que ostentam, sem timidez, as muitas liberdades, a contundência e as conquistas trazidas pela modernidade".
Fonte: BH Eventos, “Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira”. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
O Brasil nas Telas | Revista Encontro
A brasilidade emoldurada. É assim que podemos definir a obra do artista plástico belo-horizontino José Damasceno Telles Camilo, de 65 anos, ou simplesmente Damasceno. Foi traduzindo as festas e os costumes do país que o artista que mora em Contagem, na região metropolitana, conquistou inúmeros admiradores pelo mundo afora. “Eu gosto é disso. De pintar o cotidiano e as belas coisas do meu país”, diz.
E foi pintando o carnaval, a maior festa popular do planeta, que o artista tornou-se conhecido. São mais de 30 anos de carreira, que começou a ser construída na adolescência. O gosto pela arte veio enquanto ajudava uma amiga da família, a artista Marlene Trindade, que trabalhava com tapeçaria. “Certo dia, depois do expediente, comecei a desenhar e foi aí que ela teve a ideia de ajudar a expor o meu trabalho”, diz. Em 1978, Damasceno inaugurou no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, a mostra que o colocou de vez na cena artística mineira.
Na época, vieram as comparações, e seus desenhos, sempre muito coloridos e povoados, foram definidos como Arte Naïf, ausente de elaborações complexas e rica em espontaneidade. Para se ter ideia, os artistas relacionados a esse tipo de arte são, geralmente, pessoas que já nasceram com o dom do desenho. “Nunca frequentei cursos ou escolas de desenho com receio de perder as minhas características. É só inspiração”, diz o autodidata. Com o tempo, Damasceno foi aprimorando o seu trabalho, sempre utilizando tinta acrílica, o que exigia dele uma habilidade ainda maior devido ao rápido tempo de secagem.
Entretanto, pincéis e paleta não foram os únicos instrumentos que lhe davam o sustento, pois durante muito tempo exerceu também a atividade de eletricista. “Contudo, tive um problema de saúde em 1999 e escolhi dedicar-me inteiramente à pintura, coisa que faço por puro prazer”, afirma. Olhando para o quadro Roda de Samba, sua obra predileta, Damasceno revela que a inspiração pode vir a qualquer hora do dia e da noite. “Às vezes, acordo durante a madrugada com uma ideia de desenho, aí tenho de levantar e anotar; do contrário, tudo se perde”, diz o artista, que é admirador das pinturas de Yara Tupynambá e Fernando Pacheco. Além do samba e do carnaval, ele gosta de retratar missas, bares e até a malandragem carioca.
Seus desenhos, que já lhe renderam incontáveis prêmios, alcançaram países como França, Alemanha, Estados Unidos e México. E é também de longe que chegam pedidos para retratar o futebol, por causa da Copa do Mundo que será realizada no Brasil. Ele reconhece a dificuldade de produzir tal obra, que deve ficar para outra oportunidade; porém, revela um audacioso projeto que sairá do forno em breve: “Vou pintar a reforma do estádio do Mineirão, com direito a operários e máquinas. Vai dar muito trabalho, mas vai valer a pena”, diz.
Fonte: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Crédito fotográfico: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
21 artistas relacionados
José Damasceno Telles Camilo (1957, Belo Horizonte, Brasil), mais conhecido como Damasceno, é um pintor naif brasileiro. Autodidata, iniciou sua trajetória artística ainda jovem, com forte influência da tapeceira Marlene Trindade e do convívio com nomes importantes da arte popular mineira, como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio e Irma Renault. Estreou em exposições aos 24 anos, após convite para a Semana do Folclore, e desde então participou de mostras e salões em diversas cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Sua obra é marcada pela representação vibrante do cotidiano urbano, especialmente das favelas, festas e personagens populares de Belo Horizonte. Com traço detalhista e sensível, Damasceno dá protagonismo às pessoas em suas cenas, utilizando uma paleta alegre e espontânea. Seu estilo primitivista valoriza o coletivo e resgata, com lirismo, a memória afetiva das paisagens e vivências urbanas. Em 2008, venceu o concurso nacional Talentos da Maturidade com a obra Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba, reconhecida por seu olhar autêntico sobre a cultura popular. Participou da exposição Mestres da Capital no Centro de Arte Popular da Cemig, e teve sua trajetória destacada por críticos como Mari’Stella Tristão. Suas obras fazem parte de acervos públicos e particulares e seguem sendo referência na arte popular contemporânea brasileira.
José Damasceno | Arremate Arte
José Damasceno Telles Camilo, conhecido artisticamente como Damasceno, foi um pintor autodidata brasileiro nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu trabalho se insere na tradição da pintura naif ou primitivista, com uma linguagem plástica vibrante e profundamente enraizada na cultura popular urbana da capital mineira. Por mais de quatro décadas, Damasceno se dedicou à arte com uma produção marcada pela sensibilidade, pela observação do cotidiano e pela valorização das relações humanas e dos espaços sociais.
Desde jovem, demonstrou interesse pela arte e pela observação do ambiente ao seu redor. Cresceu no bairro Cidade Jardim e teve seu primeiro contato formativo com a arte ao conviver com a tapeceira Marlene Trindade, cuja orientação inicial e vivência no ateliê despertaram seu interesse pela pintura. Autodidata, Damasceno começou a pintar por conta própria, misturando tintas e criando composições espontâneas. Sua primeira exposição aconteceu aos 24 anos, quando foi convidado a participar da Semana do Folclore — e a partir desse marco, nunca mais parou.
A partir dos anos 1970, passou a frequentar a Feira de Arte e Artesanato da Praça da Liberdade, onde conheceu nomes fundamentais da arte mineira como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico e Irma Renault. Era o mais jovem do grupo e, como ele mesmo recordava, foi acolhido por essa geração de artistas populares, ganhando incentivo da crítica de arte Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio de Oliveira. Esse convívio foi essencial para sua formação e consolidação como um dos grandes nomes da arte ingênua brasileira.
O traço marcante de sua obra é o retrato do cotidiano das periferias e morros de Belo Horizonte, suas festas populares, ruas, prédios e aglomerados urbanos — uma escolha temática que diferencia seu trabalho do de outros artistas populares mais voltados ao universo rural. Em suas telas, Damasceno capturava com lirismo e alegria o forró de Belô, o carnaval de rua, as feiras, os encontros, os vizinhos e as vivências coletivas, sempre com um olhar afetuoso e positivo sobre o povo e a cidade.
O artista destacava que as pessoas eram o elemento mais importante em sua pintura. Era comum ver em suas obras dezenas ou centenas de figuras humanas, representadas com cuidado e individualidade, compondo cenas animadas e cheias de vida. Sua linguagem visual envolvia cores intensas, composições dinâmicas e uma perspectiva emocional que transcendia a representação literal, oferecendo ao público uma visão calorosa e crítica da realidade urbana brasileira.
Em 2008, Damasceno foi premiado no concurso nacional Talentos da Maturidade, com a obra “Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba”, consolidando ainda mais seu reconhecimento no cenário das artes visuais. Essa conquista refletia o amadurecimento técnico e estético de sua trajetória, sempre fiel à sua identidade e à sua vivência como artista do povo.
Apesar de já ter se aventurado na cerâmica, abandonou a prática para se dedicar exclusivamente à pintura, destacando a necessidade de manter a delicadeza das mãos, essencial para o nível de detalhamento presente em seus quadros. Sua produção conquistou espaço em museus e instituições dedicadas à arte popular, como o Centro de Arte Popular da Cemig, em Belo Horizonte, que abriga uma de suas obras no acervo.
Participou também de diversas exposições coletivas e salões de arte em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sendo o único pintor entre os artistas convidados para a importante mostra “Mestres da Capital”, o que reforça seu papel singular na cena artística mineira e brasileira.
José Damasceno | Itaú Cultural
Exposições
1922 - 1ª Bienal Naïfs do Brasil
1944 - 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1987 - Festas Juninas
1987 - Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1998 - Bienal Naifs do Brasil 1998
2001 - Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro
Fonte: DAMASCENO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 05 de agosto de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura | UAI
“Sou urbano”, afirma José Damasceno, de 67 anos, 40 deles dedicados à pintura. A observação se refere ao motivo das imagens que produz, diferentes das de outros artistas populares mais voltados ao mundo rural. “Belo Horizonte é festiva, alegre. Mesmo com todos os problemas, você encontra coisas boas, como o forró de Belô, que existe há muito tempo”, exemplifica. “Ou subir o morro, qualquer um deles –, e retratar lá de cima a favela. Fiz isso muito, mas hoje o dono do morro não deixa. Por isso tenho de pintar os aglomerados de memória”, conta. O artista gosta ainda de observar prédios, casas, ruas e avenidas. Mas faz questão de destacar que as pessoas são o mais importante em suas pinturas.
Nem adianta provocar, para Damasceno não tem tempo ruim. “Tenho visão positiva da vida, gosto de gente. Vejo as pessoas sempre com alegria, mesmo não tendo motivo para isso. Acho que o Brasil sempre tem um lado bom”, afirma o pintor, traduzindo com palavras o tom que é percebido em suas pinturas. Está em paz com a vida que tem: desde 1999, só pinta, já que, devido a um problema de saúde, teve de deixar o trabalho. Às vezes se preocupa com o futuro. “Tenho uma filha de 17 anos que está grávida. Fico pensando como vão ser as coisas daqui há 20 anos. Dificilmente, no futuro, alguém vai conseguir escapar de questões como a falta d’água e a insegurança”, diz.
O artista é integrante de grupo ilustre das artes em Minas, formado pelos pintores Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico, Irma Renault, nomes que ele mesmo evoca como companheiros. Grupo, pode-se acrescentar, que, ainda hoje, está para ser melhor estudado e inserido na história das artes visuais de Minas Gerais. “Eu era o menino do grupo”, recorda o artista, lembrando que a turma era, em média, 15 anos mais velha do que ele. O encontro com os colegas se deu no início dos anos 1970, quando, aos 27 anos, ele começou a participar de feira de arte e artesanato da Praça da Liberdade, apresentado à turma pela crítica de artes Mari’Stella Tristão. “E, desde então, não parei mais”, conta com satisfação.
Damasceno até já fez cerâmica, mas parou. “Escultura deixa a mão bruta. Quem faz pintura, que tem detalhe, precisa de mão mais delicada”, justifica. “Já me perguntaram como tenho paciência para fazer tantas pessoas num quadro. Se faço só meia dúzia, acho que fica incompleto”, conta, lembrando-se de aspecto – o indivíduo inserido no coletivo – que chama atenção nas obras dele. O artista foi o único pintor entre os 13 autores que estiveram na exposição Mestres da Capital, do Centro de Arte Popular da Cemig. “Nunca imaginei ver museu tão bonito dedicado à arte popular e ainda mais com um quadro meu no acervo. Quem não conhece o local não sabe o que está perdendo”, avisa.
“Há 40 anos, quem fazia arte popular era reticente em chegar à galeria de arte importante. Foram Rodelnégio e José Luiz Soares que abriram caminho para nós, incentivando que fôssemos às exposições, a conhecer gente do meio da arte”, recorda. Damasceno defende que, pela qualidade da arte do que fizeram, os pintores citados mereciam uma retrospectiva como a que foi feita para Zizi Sapateiro. Ele lembra que o amigo Rodelnégio, em 2015, completaria 100 anos. “Porta aberta para nós era só o Estado de Minas”, afirma, lembrando-se de apoio dos jornalistas Geraldo Magalhães e Wilson Frade, da crítica Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio Oliveira, que às vezes a substituía.
José Damasceno é cauteloso quanto a conselhos para jovens artistas. Faz apenas uma observação: “Hoje o mercado não é tão bom quanto antes. Quem quer ser artista tem que gostar muito do que faz. O que a gente vê, agora, são pessoas que fazem arte se tornando professores”. Suspeita, inclusive, que vivem-se tempos com menos sensibilidade para a arte e a cultura do que em outras épocas. Se não fosse pintor, gostaria de ser violonista. “Quem toca violão bem é divino”, afirma o admirador de Emílio Santiago e Paulinho da Viola. Ele até já tentou aprender a tocar o instrumento, mas desistiu.
Na escola da vida
José Damasceno Telles Camilo é o segundo dos quatro filhos de Maria de Lourdes e Alcebíades Camilo Filho. Nasceu no Bairro Cidade Jardim e estudou no Colégio Dom José Gaspar. Diversão, quando jovem, era jogar futebol e curtir as redondezas da casa. “Tempos que em Belo Horizonte chovia na época certa. Cheguei a beber água e a pegar bagre com peneira no Córrego do Leitão, onde é o São Bento. Hoje, lá é esgoto puro”, lamenta. Um curso de artes industriais, depois de concluir o ensino fundamental, trouxe contato com marcenaria e cestaria. Adolescente, foi trabalhar na casa da família da tapeceira Marlene Trindade, tornando-se protegido da artista, quando trabalhava como eletricista na fábrica do pai dela.
O jovem observava os ensinamentos sobre cor que Marlene Trindade passava aos alunos. E fazia, por conta própria, misturas de tintas e alguns quadros. Uma pessoa viu os trabalhos e recomendou que Damasceno se matriculasse em curso de extensão na UFMG. “Marlene não deixou. Disse que ia me influenciar negativamente”, recorda. E ele considera que foi decisão acertada: “Ninguém deve forçar a barra para um artista ser o que ele não é. Se você não tem característica para uma coisa, não vai ter capacidade de fazer”, argumenta. O artista tem boas lembranças das perambulações, com a tapeceira, pelo mundo das exposições, conhecendo a Galeria Guignard, o Palácio das Artes e a Associação Mineira de Imprensa, entre outros espaços.
“Vi e achei lindíssima a exposição de José Luiz Soares no Minas”, afirma Damasceno, recordando de artista cuja obra teve impacto sobre ele. “Ele era detalhista, o que fazia o trabalho ficar muito interessante”, acrescenta. Também tem na memória as mostras de Yara Tupinambá, pelo bom desenho, e de Rodelnégio, pela força das figuras. Considera que Rodelnégio foi o último líder do grupo, por ser o mais velho, ter mais experiência e conhecer jornalistas importantes. Damasceno já participou de diversas coletivas e salões de arte, além de mostrar suas obras em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Fonte: UAI, “Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura”, publicado por Walter Sebastião, em 30 de julho de 2014. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
A beleza da arte ingênua | Banzeiros
Três artistas plásticos que têm em comum o estilo de pintura “naïf” – um termo francês usado para designar artistas autodidatas que retratam geralmente cenas do cotidiano com cores vivas e alegres – se uniram para homenagear um amigo deles que morreu em 2019 e que também era artista autodidata.
Ângela Rosa, o irmão dela Alexandre Rosalino, mais o paraibano Joílson Pontes, expõe seus trabalhos na Galeria do Centro Cultural de Contagem em homenagem a José Damasceno Telles Camilo.
Damasceno se tornou pintor aos 14 anos. Entre outras, participou de exposição coletiva com o tema Festas Juninas, São Paulo – SP, 1987; duas Bienais de Arte Naïf, Piracicaba – SP, 1994 e 1998; Primitivos e Naïfs, Belo Horizonte – MG, 2001. Recebeu o Prêmio Nacional de Talentos da Maturidade do Banco Real e o Prêmio Mestres e Mestras pela Fundação Cultural de Contagem em 2014.
A característica das obras de Damasceno é a alegria, que ele expressava “nas cores e no traço simples”, segundo o catálogo da mostra que visitei dia 22 de novembro e que faz parte das comemorações do Mês da Consciência Negra.
Fonte: Banzeiros, “A beleza da arte ingênua”, publicado por José Carlos Sá, publicado em 29 de novembro de 2021. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira | BH Eventos
A Errol Flynn Galeria de Arte abre nesta segunda-feira, 8 de agosto, exposição coletiva dos artistas Damasceno e Dionísio-Tio Tonho. No total, 24 pinturas de Damasceno e 20 de Dionísio poderão ser apreciadas até 25 de agosto, de segundas às sextas-feiras, de 9 às 18 hs e aos sábados das 9 às 14 hs. Os dois artistas são mineiros e apresentam uma linguagem focada na valorização da cultura popular brasileira e construíram trajetórias vitoriosas.
Damasceno nasceu em Belo Horizonte em 1947 e faleceu em 2019. Sua descoberta para arte se deu na adolescência, após conhecer e trabalhar com a artista Marlene Trindade. Embora Marlene o incentivasse somente em 1974 Damasceno criou coragem de expor seus trabalhos, estimulado por Palhano Júnior, Diretor Social e Cultural do Minas Tênis Clube em Belo Horizonte. Damasceno participou de várias exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, inúmeros salões de arte, incluindo participação em bienais naifs, além de ter sido agraciado com vários prêmios como por exemplo o "Prêmio Talentos da Maturidade", categoria Artes Plásticas, do Banco Real. Suas obras podem ser encontradas em inúmeras coleções particulares e embaixadas e consulados de países como Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Alemanha, entre outros.
Antônio Dionísio da Cruz, nome artístico Dionísio Tio-Tonho, nasceu em Pitangui/MG, em 1937 mas veio morar em Belo Horizonte dois anos mais tarde. Infelizmente o artista veio a falecer na véspera desta exposição no dia 6 de agosto de 2022. Nos anos 70, Dionísio Tio-Tonho resolve dedicar-se à pintura, sem, no entanto, abandonar a profissão de marceneiro. Completou o curso primário, casando-se por volta dos 40 anos com uma professora bem mais jovem do que ele, com a qual teve duas filhas. A temática de Dionísio abrange o folclore, a vida rural, procissões e a rotina dos bares. O artista manifesta um verdadeiro gosto pelo boteco, pelo freguês no balcão e nas mesas, pelos casais dançando de rosto colado. Entretanto, essa afeição pela boemia não decorre de alguma afinidade pessoal, mas de sua postura de observador arguto: "Nunca bebi, nunca pus uma gota de álcool na boca, e adoro pintar bares, aquela gente caindo; mas esou sempre do lado de fora. Não sei se você já reparou meu trabalho mas eu enxergo tudo de cima. Não enxergo nada nem no próprio plano, nem no plano de baixo". O artista também contempla participação em diversos salões, exposições individuais e coletivas, além de premiações por todo Brasil.
No texto de apresentação "Breve divagação sobre a arte moderna brasileira" publicado no convite da exposição, o jornalista Walter Sebastião acentua que "a expressividade e arrojo das obras dos artistas são tão explícitos que sugere mais: eles seriam os fundadores de um modernismo popular, matricial para toda cultura brasileira. Que não pode e nem deve ser capturado por consideração "caridosa" e paternalista absolutamente imprópria à compreensão do que estes autores realizaram e significam. A exposição da galeria Errol Flynn, que reúne trabalhos de Dionísio Tio Tonho (Antonio Dionísio da Cruz) e Damasceno (José Damasceno Telles Camilo), convida ao conhecimento de dois artistas que, mais uma vez, reafirmam a potência radical da arte popular do Brasil". Por fim, Walter Sebastião releva alguns dos motivos da importância destes artistas: "Às vezes, encantado com o que pude ver dos autores, desconfiado com cronologias (regionais?) mais afeitas a marcos de pioneirismo do que a obras realmente realizadas, penso que só hoje temos um acervo realmente moderno em suas diferentes estéticas. Um "alto" modernismo que se iniciaria por volta dos primeiros anos da segunda metade do século XX e vai até os anos 1990, quando as novas tecnologias trazem transformações para a arte. E, importante, ainda devemos aos artistas populares o reconhecimento de que são eles que ostentam, sem timidez, as muitas liberdades, a contundência e as conquistas trazidas pela modernidade".
Fonte: BH Eventos, “Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira”. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
O Brasil nas Telas | Revista Encontro
A brasilidade emoldurada. É assim que podemos definir a obra do artista plástico belo-horizontino José Damasceno Telles Camilo, de 65 anos, ou simplesmente Damasceno. Foi traduzindo as festas e os costumes do país que o artista que mora em Contagem, na região metropolitana, conquistou inúmeros admiradores pelo mundo afora. “Eu gosto é disso. De pintar o cotidiano e as belas coisas do meu país”, diz.
E foi pintando o carnaval, a maior festa popular do planeta, que o artista tornou-se conhecido. São mais de 30 anos de carreira, que começou a ser construída na adolescência. O gosto pela arte veio enquanto ajudava uma amiga da família, a artista Marlene Trindade, que trabalhava com tapeçaria. “Certo dia, depois do expediente, comecei a desenhar e foi aí que ela teve a ideia de ajudar a expor o meu trabalho”, diz. Em 1978, Damasceno inaugurou no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, a mostra que o colocou de vez na cena artística mineira.
Na época, vieram as comparações, e seus desenhos, sempre muito coloridos e povoados, foram definidos como Arte Naïf, ausente de elaborações complexas e rica em espontaneidade. Para se ter ideia, os artistas relacionados a esse tipo de arte são, geralmente, pessoas que já nasceram com o dom do desenho. “Nunca frequentei cursos ou escolas de desenho com receio de perder as minhas características. É só inspiração”, diz o autodidata. Com o tempo, Damasceno foi aprimorando o seu trabalho, sempre utilizando tinta acrílica, o que exigia dele uma habilidade ainda maior devido ao rápido tempo de secagem.
Entretanto, pincéis e paleta não foram os únicos instrumentos que lhe davam o sustento, pois durante muito tempo exerceu também a atividade de eletricista. “Contudo, tive um problema de saúde em 1999 e escolhi dedicar-me inteiramente à pintura, coisa que faço por puro prazer”, afirma. Olhando para o quadro Roda de Samba, sua obra predileta, Damasceno revela que a inspiração pode vir a qualquer hora do dia e da noite. “Às vezes, acordo durante a madrugada com uma ideia de desenho, aí tenho de levantar e anotar; do contrário, tudo se perde”, diz o artista, que é admirador das pinturas de Yara Tupynambá e Fernando Pacheco. Além do samba e do carnaval, ele gosta de retratar missas, bares e até a malandragem carioca.
Seus desenhos, que já lhe renderam incontáveis prêmios, alcançaram países como França, Alemanha, Estados Unidos e México. E é também de longe que chegam pedidos para retratar o futebol, por causa da Copa do Mundo que será realizada no Brasil. Ele reconhece a dificuldade de produzir tal obra, que deve ficar para outra oportunidade; porém, revela um audacioso projeto que sairá do forno em breve: “Vou pintar a reforma do estádio do Mineirão, com direito a operários e máquinas. Vai dar muito trabalho, mas vai valer a pena”, diz.
Fonte: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Crédito fotográfico: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
José Damasceno Telles Camilo (1957, Belo Horizonte, Brasil), mais conhecido como Damasceno, é um pintor naif brasileiro. Autodidata, iniciou sua trajetória artística ainda jovem, com forte influência da tapeceira Marlene Trindade e do convívio com nomes importantes da arte popular mineira, como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio e Irma Renault. Estreou em exposições aos 24 anos, após convite para a Semana do Folclore, e desde então participou de mostras e salões em diversas cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Sua obra é marcada pela representação vibrante do cotidiano urbano, especialmente das favelas, festas e personagens populares de Belo Horizonte. Com traço detalhista e sensível, Damasceno dá protagonismo às pessoas em suas cenas, utilizando uma paleta alegre e espontânea. Seu estilo primitivista valoriza o coletivo e resgata, com lirismo, a memória afetiva das paisagens e vivências urbanas. Em 2008, venceu o concurso nacional Talentos da Maturidade com a obra Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba, reconhecida por seu olhar autêntico sobre a cultura popular. Participou da exposição Mestres da Capital no Centro de Arte Popular da Cemig, e teve sua trajetória destacada por críticos como Mari’Stella Tristão. Suas obras fazem parte de acervos públicos e particulares e seguem sendo referência na arte popular contemporânea brasileira.
José Damasceno | Arremate Arte
José Damasceno Telles Camilo, conhecido artisticamente como Damasceno, foi um pintor autodidata brasileiro nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu trabalho se insere na tradição da pintura naif ou primitivista, com uma linguagem plástica vibrante e profundamente enraizada na cultura popular urbana da capital mineira. Por mais de quatro décadas, Damasceno se dedicou à arte com uma produção marcada pela sensibilidade, pela observação do cotidiano e pela valorização das relações humanas e dos espaços sociais.
Desde jovem, demonstrou interesse pela arte e pela observação do ambiente ao seu redor. Cresceu no bairro Cidade Jardim e teve seu primeiro contato formativo com a arte ao conviver com a tapeceira Marlene Trindade, cuja orientação inicial e vivência no ateliê despertaram seu interesse pela pintura. Autodidata, Damasceno começou a pintar por conta própria, misturando tintas e criando composições espontâneas. Sua primeira exposição aconteceu aos 24 anos, quando foi convidado a participar da Semana do Folclore — e a partir desse marco, nunca mais parou.
A partir dos anos 1970, passou a frequentar a Feira de Arte e Artesanato da Praça da Liberdade, onde conheceu nomes fundamentais da arte mineira como Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico e Irma Renault. Era o mais jovem do grupo e, como ele mesmo recordava, foi acolhido por essa geração de artistas populares, ganhando incentivo da crítica de arte Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio de Oliveira. Esse convívio foi essencial para sua formação e consolidação como um dos grandes nomes da arte ingênua brasileira.
O traço marcante de sua obra é o retrato do cotidiano das periferias e morros de Belo Horizonte, suas festas populares, ruas, prédios e aglomerados urbanos — uma escolha temática que diferencia seu trabalho do de outros artistas populares mais voltados ao universo rural. Em suas telas, Damasceno capturava com lirismo e alegria o forró de Belô, o carnaval de rua, as feiras, os encontros, os vizinhos e as vivências coletivas, sempre com um olhar afetuoso e positivo sobre o povo e a cidade.
O artista destacava que as pessoas eram o elemento mais importante em sua pintura. Era comum ver em suas obras dezenas ou centenas de figuras humanas, representadas com cuidado e individualidade, compondo cenas animadas e cheias de vida. Sua linguagem visual envolvia cores intensas, composições dinâmicas e uma perspectiva emocional que transcendia a representação literal, oferecendo ao público uma visão calorosa e crítica da realidade urbana brasileira.
Em 2008, Damasceno foi premiado no concurso nacional Talentos da Maturidade, com a obra “Unidos do Morro – Alto Desfile de Escola de Samba”, consolidando ainda mais seu reconhecimento no cenário das artes visuais. Essa conquista refletia o amadurecimento técnico e estético de sua trajetória, sempre fiel à sua identidade e à sua vivência como artista do povo.
Apesar de já ter se aventurado na cerâmica, abandonou a prática para se dedicar exclusivamente à pintura, destacando a necessidade de manter a delicadeza das mãos, essencial para o nível de detalhamento presente em seus quadros. Sua produção conquistou espaço em museus e instituições dedicadas à arte popular, como o Centro de Arte Popular da Cemig, em Belo Horizonte, que abriga uma de suas obras no acervo.
Participou também de diversas exposições coletivas e salões de arte em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, sendo o único pintor entre os artistas convidados para a importante mostra “Mestres da Capital”, o que reforça seu papel singular na cena artística mineira e brasileira.
José Damasceno | Itaú Cultural
Exposições
1922 - 1ª Bienal Naïfs do Brasil
1944 - 2ª Bienal Brasileira de Arte Naif
1987 - Festas Juninas
1987 - Mostra Nacional de Arte Ingênua e Primitiva
1998 - Bienal Naifs do Brasil 1998
2001 - Primitivos e Naifs: homenagem à Zizi Sapateiro
Fonte: DAMASCENO. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 05 de agosto de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura | UAI
“Sou urbano”, afirma José Damasceno, de 67 anos, 40 deles dedicados à pintura. A observação se refere ao motivo das imagens que produz, diferentes das de outros artistas populares mais voltados ao mundo rural. “Belo Horizonte é festiva, alegre. Mesmo com todos os problemas, você encontra coisas boas, como o forró de Belô, que existe há muito tempo”, exemplifica. “Ou subir o morro, qualquer um deles –, e retratar lá de cima a favela. Fiz isso muito, mas hoje o dono do morro não deixa. Por isso tenho de pintar os aglomerados de memória”, conta. O artista gosta ainda de observar prédios, casas, ruas e avenidas. Mas faz questão de destacar que as pessoas são o mais importante em suas pinturas.
Nem adianta provocar, para Damasceno não tem tempo ruim. “Tenho visão positiva da vida, gosto de gente. Vejo as pessoas sempre com alegria, mesmo não tendo motivo para isso. Acho que o Brasil sempre tem um lado bom”, afirma o pintor, traduzindo com palavras o tom que é percebido em suas pinturas. Está em paz com a vida que tem: desde 1999, só pinta, já que, devido a um problema de saúde, teve de deixar o trabalho. Às vezes se preocupa com o futuro. “Tenho uma filha de 17 anos que está grávida. Fico pensando como vão ser as coisas daqui há 20 anos. Dificilmente, no futuro, alguém vai conseguir escapar de questões como a falta d’água e a insegurança”, diz.
O artista é integrante de grupo ilustre das artes em Minas, formado pelos pintores Lorenzato, Rodelnégio, José Luiz Soares, Dionísio, Lindorico, Irma Renault, nomes que ele mesmo evoca como companheiros. Grupo, pode-se acrescentar, que, ainda hoje, está para ser melhor estudado e inserido na história das artes visuais de Minas Gerais. “Eu era o menino do grupo”, recorda o artista, lembrando que a turma era, em média, 15 anos mais velha do que ele. O encontro com os colegas se deu no início dos anos 1970, quando, aos 27 anos, ele começou a participar de feira de arte e artesanato da Praça da Liberdade, apresentado à turma pela crítica de artes Mari’Stella Tristão. “E, desde então, não parei mais”, conta com satisfação.
Damasceno até já fez cerâmica, mas parou. “Escultura deixa a mão bruta. Quem faz pintura, que tem detalhe, precisa de mão mais delicada”, justifica. “Já me perguntaram como tenho paciência para fazer tantas pessoas num quadro. Se faço só meia dúzia, acho que fica incompleto”, conta, lembrando-se de aspecto – o indivíduo inserido no coletivo – que chama atenção nas obras dele. O artista foi o único pintor entre os 13 autores que estiveram na exposição Mestres da Capital, do Centro de Arte Popular da Cemig. “Nunca imaginei ver museu tão bonito dedicado à arte popular e ainda mais com um quadro meu no acervo. Quem não conhece o local não sabe o que está perdendo”, avisa.
“Há 40 anos, quem fazia arte popular era reticente em chegar à galeria de arte importante. Foram Rodelnégio e José Luiz Soares que abriram caminho para nós, incentivando que fôssemos às exposições, a conhecer gente do meio da arte”, recorda. Damasceno defende que, pela qualidade da arte do que fizeram, os pintores citados mereciam uma retrospectiva como a que foi feita para Zizi Sapateiro. Ele lembra que o amigo Rodelnégio, em 2015, completaria 100 anos. “Porta aberta para nós era só o Estado de Minas”, afirma, lembrando-se de apoio dos jornalistas Geraldo Magalhães e Wilson Frade, da crítica Mari’Stella Tristão e do galerista Sálvio Oliveira, que às vezes a substituía.
José Damasceno é cauteloso quanto a conselhos para jovens artistas. Faz apenas uma observação: “Hoje o mercado não é tão bom quanto antes. Quem quer ser artista tem que gostar muito do que faz. O que a gente vê, agora, são pessoas que fazem arte se tornando professores”. Suspeita, inclusive, que vivem-se tempos com menos sensibilidade para a arte e a cultura do que em outras épocas. Se não fosse pintor, gostaria de ser violonista. “Quem toca violão bem é divino”, afirma o admirador de Emílio Santiago e Paulinho da Viola. Ele até já tentou aprender a tocar o instrumento, mas desistiu.
Na escola da vida
José Damasceno Telles Camilo é o segundo dos quatro filhos de Maria de Lourdes e Alcebíades Camilo Filho. Nasceu no Bairro Cidade Jardim e estudou no Colégio Dom José Gaspar. Diversão, quando jovem, era jogar futebol e curtir as redondezas da casa. “Tempos que em Belo Horizonte chovia na época certa. Cheguei a beber água e a pegar bagre com peneira no Córrego do Leitão, onde é o São Bento. Hoje, lá é esgoto puro”, lamenta. Um curso de artes industriais, depois de concluir o ensino fundamental, trouxe contato com marcenaria e cestaria. Adolescente, foi trabalhar na casa da família da tapeceira Marlene Trindade, tornando-se protegido da artista, quando trabalhava como eletricista na fábrica do pai dela.
O jovem observava os ensinamentos sobre cor que Marlene Trindade passava aos alunos. E fazia, por conta própria, misturas de tintas e alguns quadros. Uma pessoa viu os trabalhos e recomendou que Damasceno se matriculasse em curso de extensão na UFMG. “Marlene não deixou. Disse que ia me influenciar negativamente”, recorda. E ele considera que foi decisão acertada: “Ninguém deve forçar a barra para um artista ser o que ele não é. Se você não tem característica para uma coisa, não vai ter capacidade de fazer”, argumenta. O artista tem boas lembranças das perambulações, com a tapeceira, pelo mundo das exposições, conhecendo a Galeria Guignard, o Palácio das Artes e a Associação Mineira de Imprensa, entre outros espaços.
“Vi e achei lindíssima a exposição de José Luiz Soares no Minas”, afirma Damasceno, recordando de artista cuja obra teve impacto sobre ele. “Ele era detalhista, o que fazia o trabalho ficar muito interessante”, acrescenta. Também tem na memória as mostras de Yara Tupinambá, pelo bom desenho, e de Rodelnégio, pela força das figuras. Considera que Rodelnégio foi o último líder do grupo, por ser o mais velho, ter mais experiência e conhecer jornalistas importantes. Damasceno já participou de diversas coletivas e salões de arte, além de mostrar suas obras em Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Fonte: UAI, “Aos 67 anos, José Damasceno completa quatro décadas de dedicação à pintura”, publicado por Walter Sebastião, em 30 de julho de 2014. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
A beleza da arte ingênua | Banzeiros
Três artistas plásticos que têm em comum o estilo de pintura “naïf” – um termo francês usado para designar artistas autodidatas que retratam geralmente cenas do cotidiano com cores vivas e alegres – se uniram para homenagear um amigo deles que morreu em 2019 e que também era artista autodidata.
Ângela Rosa, o irmão dela Alexandre Rosalino, mais o paraibano Joílson Pontes, expõe seus trabalhos na Galeria do Centro Cultural de Contagem em homenagem a José Damasceno Telles Camilo.
Damasceno se tornou pintor aos 14 anos. Entre outras, participou de exposição coletiva com o tema Festas Juninas, São Paulo – SP, 1987; duas Bienais de Arte Naïf, Piracicaba – SP, 1994 e 1998; Primitivos e Naïfs, Belo Horizonte – MG, 2001. Recebeu o Prêmio Nacional de Talentos da Maturidade do Banco Real e o Prêmio Mestres e Mestras pela Fundação Cultural de Contagem em 2014.
A característica das obras de Damasceno é a alegria, que ele expressava “nas cores e no traço simples”, segundo o catálogo da mostra que visitei dia 22 de novembro e que faz parte das comemorações do Mês da Consciência Negra.
Fonte: Banzeiros, “A beleza da arte ingênua”, publicado por José Carlos Sá, publicado em 29 de novembro de 2021. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira | BH Eventos
A Errol Flynn Galeria de Arte abre nesta segunda-feira, 8 de agosto, exposição coletiva dos artistas Damasceno e Dionísio-Tio Tonho. No total, 24 pinturas de Damasceno e 20 de Dionísio poderão ser apreciadas até 25 de agosto, de segundas às sextas-feiras, de 9 às 18 hs e aos sábados das 9 às 14 hs. Os dois artistas são mineiros e apresentam uma linguagem focada na valorização da cultura popular brasileira e construíram trajetórias vitoriosas.
Damasceno nasceu em Belo Horizonte em 1947 e faleceu em 2019. Sua descoberta para arte se deu na adolescência, após conhecer e trabalhar com a artista Marlene Trindade. Embora Marlene o incentivasse somente em 1974 Damasceno criou coragem de expor seus trabalhos, estimulado por Palhano Júnior, Diretor Social e Cultural do Minas Tênis Clube em Belo Horizonte. Damasceno participou de várias exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior, inúmeros salões de arte, incluindo participação em bienais naifs, além de ter sido agraciado com vários prêmios como por exemplo o "Prêmio Talentos da Maturidade", categoria Artes Plásticas, do Banco Real. Suas obras podem ser encontradas em inúmeras coleções particulares e embaixadas e consulados de países como Canadá, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Alemanha, entre outros.
Antônio Dionísio da Cruz, nome artístico Dionísio Tio-Tonho, nasceu em Pitangui/MG, em 1937 mas veio morar em Belo Horizonte dois anos mais tarde. Infelizmente o artista veio a falecer na véspera desta exposição no dia 6 de agosto de 2022. Nos anos 70, Dionísio Tio-Tonho resolve dedicar-se à pintura, sem, no entanto, abandonar a profissão de marceneiro. Completou o curso primário, casando-se por volta dos 40 anos com uma professora bem mais jovem do que ele, com a qual teve duas filhas. A temática de Dionísio abrange o folclore, a vida rural, procissões e a rotina dos bares. O artista manifesta um verdadeiro gosto pelo boteco, pelo freguês no balcão e nas mesas, pelos casais dançando de rosto colado. Entretanto, essa afeição pela boemia não decorre de alguma afinidade pessoal, mas de sua postura de observador arguto: "Nunca bebi, nunca pus uma gota de álcool na boca, e adoro pintar bares, aquela gente caindo; mas esou sempre do lado de fora. Não sei se você já reparou meu trabalho mas eu enxergo tudo de cima. Não enxergo nada nem no próprio plano, nem no plano de baixo". O artista também contempla participação em diversos salões, exposições individuais e coletivas, além de premiações por todo Brasil.
No texto de apresentação "Breve divagação sobre a arte moderna brasileira" publicado no convite da exposição, o jornalista Walter Sebastião acentua que "a expressividade e arrojo das obras dos artistas são tão explícitos que sugere mais: eles seriam os fundadores de um modernismo popular, matricial para toda cultura brasileira. Que não pode e nem deve ser capturado por consideração "caridosa" e paternalista absolutamente imprópria à compreensão do que estes autores realizaram e significam. A exposição da galeria Errol Flynn, que reúne trabalhos de Dionísio Tio Tonho (Antonio Dionísio da Cruz) e Damasceno (José Damasceno Telles Camilo), convida ao conhecimento de dois artistas que, mais uma vez, reafirmam a potência radical da arte popular do Brasil". Por fim, Walter Sebastião releva alguns dos motivos da importância destes artistas: "Às vezes, encantado com o que pude ver dos autores, desconfiado com cronologias (regionais?) mais afeitas a marcos de pioneirismo do que a obras realmente realizadas, penso que só hoje temos um acervo realmente moderno em suas diferentes estéticas. Um "alto" modernismo que se iniciaria por volta dos primeiros anos da segunda metade do século XX e vai até os anos 1990, quando as novas tecnologias trazem transformações para a arte. E, importante, ainda devemos aos artistas populares o reconhecimento de que são eles que ostentam, sem timidez, as muitas liberdades, a contundência e as conquistas trazidas pela modernidade".
Fonte: BH Eventos, “Errol Flynn Galeria de Arte abre exposição "Damasceno & Dionísio Tio Tonho", dois grandes expoentes da Arte Moderna Popular Brasileira”. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
O Brasil nas Telas | Revista Encontro
A brasilidade emoldurada. É assim que podemos definir a obra do artista plástico belo-horizontino José Damasceno Telles Camilo, de 65 anos, ou simplesmente Damasceno. Foi traduzindo as festas e os costumes do país que o artista que mora em Contagem, na região metropolitana, conquistou inúmeros admiradores pelo mundo afora. “Eu gosto é disso. De pintar o cotidiano e as belas coisas do meu país”, diz.
E foi pintando o carnaval, a maior festa popular do planeta, que o artista tornou-se conhecido. São mais de 30 anos de carreira, que começou a ser construída na adolescência. O gosto pela arte veio enquanto ajudava uma amiga da família, a artista Marlene Trindade, que trabalhava com tapeçaria. “Certo dia, depois do expediente, comecei a desenhar e foi aí que ela teve a ideia de ajudar a expor o meu trabalho”, diz. Em 1978, Damasceno inaugurou no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, a mostra que o colocou de vez na cena artística mineira.
Na época, vieram as comparações, e seus desenhos, sempre muito coloridos e povoados, foram definidos como Arte Naïf, ausente de elaborações complexas e rica em espontaneidade. Para se ter ideia, os artistas relacionados a esse tipo de arte são, geralmente, pessoas que já nasceram com o dom do desenho. “Nunca frequentei cursos ou escolas de desenho com receio de perder as minhas características. É só inspiração”, diz o autodidata. Com o tempo, Damasceno foi aprimorando o seu trabalho, sempre utilizando tinta acrílica, o que exigia dele uma habilidade ainda maior devido ao rápido tempo de secagem.
Entretanto, pincéis e paleta não foram os únicos instrumentos que lhe davam o sustento, pois durante muito tempo exerceu também a atividade de eletricista. “Contudo, tive um problema de saúde em 1999 e escolhi dedicar-me inteiramente à pintura, coisa que faço por puro prazer”, afirma. Olhando para o quadro Roda de Samba, sua obra predileta, Damasceno revela que a inspiração pode vir a qualquer hora do dia e da noite. “Às vezes, acordo durante a madrugada com uma ideia de desenho, aí tenho de levantar e anotar; do contrário, tudo se perde”, diz o artista, que é admirador das pinturas de Yara Tupynambá e Fernando Pacheco. Além do samba e do carnaval, ele gosta de retratar missas, bares e até a malandragem carioca.
Seus desenhos, que já lhe renderam incontáveis prêmios, alcançaram países como França, Alemanha, Estados Unidos e México. E é também de longe que chegam pedidos para retratar o futebol, por causa da Copa do Mundo que será realizada no Brasil. Ele reconhece a dificuldade de produzir tal obra, que deve ficar para outra oportunidade; porém, revela um audacioso projeto que sairá do forno em breve: “Vou pintar a reforma do estádio do Mineirão, com direito a operários e máquinas. Vai dar muito trabalho, mas vai valer a pena”, diz.
Fonte: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.
Crédito fotográfico: Revista Encontro, "O Brasil nas telas", foto de Júnia Garrido. Consultado pela última vez em 5 de agosto de 2025.