Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (20 de abril de 1958, Recife, PE), mais conhecido como Gil Vicente, é um desenhista, gravador, escultor e artista multimídia brasileiro. Autodidata, iniciou sua formação na Escolinha de Arte do Recife e, posteriormente, estudou nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Destacou-se ainda jovem ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda em 1975. Em 1978, realizou sua primeira exposição individual e co-fundou a Oficina Guaianases de Gravura, um marco para a arte gráfica no Nordeste. Sua obra é marcada pelo traço preciso, linguagem visual incisiva e forte crítica política e social. Trabalha com desenho, gravura, escultura, pintura e fotografia, abordando temas como violência, opressão, desigualdade e poder. Entre suas influências estão o barroco, a cultura popular nordestina, o expressionismo e o pensamento crítico contemporâneo. Ganhou notoriedade internacional com a série "Inimigos" (2005), em que aparece armado diante de figuras emblemáticas do poder, como líderes religiosos, políticos e juízes, provocando debates sobre ética, arte e liberdade de expressão. Recebeu prêmios em salões de arte nacionais e internacionais, e sua obra integra acervos como os do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Fundação Joaquim Nabuco e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente | Arremate Arte
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira nasceu em 20 de abril de 1958, no Recife, Pernambuco, e consolidou-se como um dos artistas visuais mais provocativos e consistentes da cena contemporânea brasileira. Desde a infância, demonstrou vocação para o desenho, ingressando aos 14 anos na Escolinha de Arte do Recife, onde teve o primeiro contato com técnicas artísticas. Em 1974, aprofundou sua formação nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desenvolvendo habilidades em pintura, gravura e escultura. Já em 1975, recebeu seu primeiro reconhecimento público, ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, iniciando uma trajetória marcada por premiações e presença constante em exposições de relevância nacional e internacional.
Gil Vicente estreou individualmente em 1978, com a exposição “Pinturas, Desenhos e Gravuras”, na Galeria Abelardo Rodrigues, no Recife. Naquele mesmo ano, fundou a Oficina Guaianases de Gravura, ao lado de outros artistas pernambucanos, criando um espaço de produção e circulação da gravura contemporânea no Nordeste brasileiro. A partir da década de 1980, sua produção amadureceu para uma linguagem própria, caracterizada pela potência gráfica, o domínio do desenho e uma crítica contundente a estruturas de poder e desigualdade social.
Em sua obra, Vicente articula traço preciso com forte carga simbólica e discurso político. Ficou especialmente conhecido pela polêmica série “Inimigos”, iniciada em 2005, na qual retrata a si mesmo apontando armas para figuras emblemáticas do poder político, jurídico e religioso — como George W. Bush, Bento XVI e Fernando Henrique Cardoso — gerando intenso debate na mídia e no meio artístico. A série reafirma sua postura crítica e reafirma a arte como espaço de confronto simbólico e liberdade de expressão.
Gil Vicente é um artista múltiplo: além de desenhista, é também gravador, escultor, cenógrafo e fotógrafo. Suas criações transitam por diferentes suportes e linguagens, mantendo sempre uma conexão visceral com a realidade brasileira. As referências ao barroco, à cultura popular nordestina, à violência urbana e à opressão institucional convivem com uma visualidade densa e refinada.
Participou de exposições em museus e instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Instituto Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte do Rio (MAR). Suas obras também integram acervos importantes, como os da Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Bienal de São Paulo e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente segue ativo, produzindo de maneira intensa e inquieta, e é considerado uma das vozes mais incisivas do Brasil na crítica artística contemporânea. Sua trajetória é um testemunho da arte como resistência, ferramenta de denúncia e reflexão sobre o mundo que habitamos.
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Gil Vicente | Itaú Cultural
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (Recife, Pernambuco, 1958). Pintor, desenhista, gravador, fotógrafo e escultor. Inicia os estudos na Escolinha de Artes do Recife em 1972 e, a partir de 1974, frequenta os ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe). Em 1975, recebe prêmio do Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Pernambuco. Dedica-se às artes plásticas depois de terminar o ensino médio. Em 1978, faz a primeira individual, Pinturas, Desenhos e Gravuras, na Galeria Abelardo Rodrigues, Recife. Nesse ano, participa da fundação da Oficina Guaianases de Gravura. Ganha uma bolsa do governo francês e estuda em Paris, de 1980 a 1981. Em 1984, expõe no 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). Em 1989, em Recife, participa do Ateliê Coletivo, onde faz xilogravuras sob orientação de Gilvan Samico (1928-2013). O documentário Gil Vicente – Ofício e Silêncio é lançado juntamente com a exposição Figuras/Pinturas, em 1996, na Galeria Futuro 25, Recife. Desde então, suas individuais circulam por várias cidades do Brasil. Em 2001, participa da 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre e, no ano seguinte, da 25ª Bienal Internacional de São Paulo.
Análise
A obra de Gil Vicente atém-se a materiais como papel, lápis, carvão, nanquim, guache, óleo e tela e a técnicas tradicionais como gravura, foto ou escultura. Não busca inovar ou misturar materiais e suportes, apesar de reconhecer que na arte contemporânea é possível trabalhar com qualquer coisa1. À simplicidade de meios corresponde a tentativa de diminuir ao máximo o estilo pessoal, que associa a maneirismo2. Na exposição Sessenta Cabeças e Outros Desenhos (1997), utiliza nanquim e carvão sobre papel branco, o que permite jogo de contrastes. Nos desenhos, o fundo preto instaura uma profunda solidão que envolve as figuras. Nas cabeças, ressalta traços angustiados, que desfiguram os rostos, nos quais sempre falta alguma coisa. Na mostra Guaches Recentes (2002), trabalha a cor e a consistência da tinta. Aproveita sobreposições com pinceladas largas e rápidas e explora amplas áreas de cor, embora adote tons contidos. A temática permanece próxima: corpos e objetos que remetem à solidão humana. Na Suíte Safada (2005), o artista cobre de nanquim páginas de livros, desenha sobre elas conteúdo erótico e deixa descobertas palavras que revelam o erotismo oculto nesses veios.
O respeito às características do material é uma faceta do rigor do artista. Melancólico3, segundo diz, não deixa de expressar politicamente suas opiniões. Um exemplo é a série Inimigos (2007), em que se retrata matando líderes políticos como o ex-presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva (1945), o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (1946), o papa Bento XVI (1927) e a rainha do Reino Unido Elizabeth II (1926).
Críticas
"Esta qualidade, que podemos chamar de comunicabilidade, é a característica primordial da produção pictórica desse pernambucano irrequieto, que não se prende ao intelecto, a um estilo ou a uma técnica determinada. Em suas pinturas, o desenho é perfeito, a matéria é trabalhada com capricho, em camadas finas e texturas lisas, que conferem às suas composições um requinte estético que nada tem a ver com o exotismo ou com as formas rebuscadas que povoam a pintura moderna. (...) Frutas, legumes e cenários tropicais são uma constante temática do artista, mas são os retratos e os nus que têm ocupado as suas telas mais recentes. (...) A princípio, sóbrio e contido, Gil agora parece ter amadurecido em seu jeito de viver o cotidiano, soltando-se, rompendo com uma introspecção que sombreava as suas composições". — Luiz Fernando Freire (GIL Vicente. Ventura, Rio de Janeiro: Spala, n.4, p.100-110, jun./ago.1988).
Exposições Individuais
1978 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, desenhos e gravuras, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1980 - Olinda PE - Gil Vicente: pinturas e desenhos, no MAC/PE
1982 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1983 - Belém PA - Gil Vicente: guaches, na Elf Galeria de Arte
1984 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1986 - Recife PE - Gil Vicente: paisagens, na Galeria Futuro 25
1987 - Fortaleza CE - Individual, na Duailibe Galeria
1988 - Recife PE - Gil Vicente: guaches recentes, na Officina Galeria
1990 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Vicente do Rego Monteiro
1993 - Recife PE - Gil Vicente: naturezas mortas, na Galeria Futuro 25
1996 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1997 - Salvador BA - Pinturas Com Modelo, na Paulo Darzé Galeria de Arte
1997 - São Paulo SP - Sessenta Cabeças, na Galeria Nara Roesler
1998 - João Pessoa PB - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no Núcleo de Arte Contemporânea
1998 - Salvador BA - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no MAM/BA
1999 - Recife PE - Gil Vicente: desenhos, no MAMAM
1999 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente: desenhos, no MAM/RJ
2000 - Porto Alegre RS - Gil Vicente: desenhos, no MAC/RS
2003 - Curitiba PR - Individual, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba
2004 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Nara Roesler
Exposições Coletivas
1975 - Olinda PE - Salão dos Novos, no MAC/PE - primeiro prêmio
1976 - Recife PE - 29º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Olinda PE - Gil Vicente, Aprígio e Frederico, na Galeria Corredor
1977 - Recife PE - 30º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco - primeiro prêmio pintura
1977 - Recife PE - Novos Artistas Pernambucanos, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Recife PE - O Desenho e a Gravura, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1978 - Curitiba PR - 1ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1978 - Recife PE - 31º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1979 - Belo Horizonte MG - Litografia Brasileira, na Fundação Palácio das Artes
1979 - Curitiba PR - 2ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1979 - Recife PE - 7 Artistas em Foco, na Galeria de Arte
1979 - Rio de Janeiro RJ - Oficina Guaianases, na Galeria Gravura Brasileira
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1980 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente, Maria Tomaselli e Luciano Pinheiro, no Centro Cultural Candido Mendes
1981 - Piracicaba SP - 14º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, na Casa das Artes Plásticas
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco - prêmio Funarte
1981 - Recife PE - Panorama da Arte Atual em Pernambuco, na Galeria Lula Cardoso Ayres
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Rio de Janeiro RJ - 6º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1984 - São Paulo SP - 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Pintura ao Ar Livre, no Centro Cultural Candido Mendes. Grande Galeria
1986 - Belém PA - 5º Salão Arte Pará, na Fundação Romulo Maiorana
1986 - Brasília DF - Pernambucanos em Brasília, na ECT Galeria de Arte
1986 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria Ibeu Copacabana
1987 - Recife PE - Imaginário e Sexualidade, na Galeria Massangana
1987 - Recife PE - José Cláudio e Gil Vicente, no Museu do Estado de Pernambuco
1988 - Curitiba PR - 8ª Grupo Guaianases, no Museu Municipal de Arte
1988 - Recife PE - Gil Vicente, Gilvan Samico e José Barbosa, na Estudio A Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria de Arte Ibeu Copacabana
1988 - Rio de Janeiro RJ - O Mundo Fascinante dos Pintores Naifes, no Paço Imperial
1989 - Olinda PE - Viva Olinda Viva, no Atelier Coletivo
1989 - Recife PE - Natureza da Pintura, no Centro Cultural Adalgisa Falcão
1989 - São Paulo SP - Cor de Pernambuco, na Ranulpho Galeria de Arte
1990 - Olinda PE - Permanência da Pintura, no Atelier Coletivo
1992 - Rio de Janeiro RJ - Ateliê Coletivo, no Centro Cultural Candido Mendes
1993 - Hamburgo (Alemanha) - Atelier Coletivo, no Km Wolff
1994 - Recife PE - Batalha dos Guararapes: um olhar contemporâneo, no Museu do Estado de Pernambuco
1996 - Recife PE - Arte e Religião, na Galeria Futuro 25
1997 - Recife PE - O Papel da Arte, no Espaço Cultural Bandepe
1997 - Recife PE - Ver o Verso, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães
1997 - São Paulo SP - O Rosto do Outro, na Galeria Nara Roesler
1998 - Fortaleza CE - Ceará e Pernambuco: dragões e leões, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
1998 - Nova York (Estados Unidos) - Art International New Cork, na Neuhoff Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - Vista Assim do Alto Mais Parece um Céu no Chão, no MAM/RJ
1999 - São Paulo SP - Nordestes, no Sesc Pompéia
2000 - Recife PE - Ateliê Pernambuco: homenagem a Bajado e acervo do Mamam, no MAMAM
2001 - Porto Alegre RS - 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Recife PE - Em Sete Tempos, na Amparo Sessenta Galeria de Arte
2002 - São Paulo SP - 25ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
2002 - São Paulo SP - Seis Artistas na 25ª Bienal de São Paulo, na Galeria Nara Roesler
2003 - Madri (Espanha) - Arco/2003, no Parque Ferial Juan Carlos I
2003 - Recife PE - Ver de Novo/Ver o Novo, no MAMAM
2003 - São Paulo SP - Arco 2003, na Galeria Nara Roesler
Fonte: GIL Vicente. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 04 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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No ateliê de Gil Vicente | Revista Continente
Talvez no Recife seja mais habitual – dizem por aqui – este contato próximo de jovens estudantes de arte ou artistas em início de carreira com os artistas já consagrados, os ditos “grandes mestres”, do que em outros circuitos de arte, não sei. Mas sei que, quando cheguei do sul das Minas Gerais para estudar artes visuais em São Paulo, e me desvairei a ver exposições de arte contemporânea para me atualizar do que não havia – nem há – em minha pequena cidade interiorana, eu não podia imaginar que viria a conhecer pessoalmente muitos dos artistas cujas obras estava vendo em museus, centros culturais, instituições e galerias de arte.
Algumas obras me atingiam, outras, nem tanto. Umas, por gostar, outras, pela estranheza ou secura asséptica para meus primeiros passos. Muitos nomes novos para lembrar, muita arte para apreender tudo. Cerca de meia dúzia de artistas, talvez, me impactou mais. Ou se destacou, de um jeito ou de outro, do todo ainda confuso e disforme daquelas informações todas. Não poderia, então, imaginar a vivência próxima que eu teria, por tantos anos, com ao menos dois daqueles artistas.
“Lama escura interior” é um termo usado por Gil Vicente para dizer do cerne de muitos dos seus trabalhos. E era algo próximo desse conteúdo pesado, dramático e expressivo que, naquela época, eu entendia como a arte que queria fazer, que falaria do inominável dos sentimentos humanos.
Quando, em 2002, entrei na sala do artista na 25a Bienal Internacional de São Paulo, a lama escura me tomou, de forma que voltei à sala umas três ou quatro vezes antes de deixar o Pavilhão de Niemeyer. Ecoavam em mim aquela imensidão turva, aquelas águas escuras com figuras, solitárias ou acompanhadas, flutuando à deriva no espaço profundo.
A imensidão dos desenhos, a profundidade dos pretos opacos do nanquim, as luzes pontuais e dramáticas, as manchas como feridas escuras nas figuras, os traços como amarras nos corpos, clausuras, veias. Em palavras, eu não sabia o que diziam os desenhos; sabia o sentido que faziam em meu âmago. Foi quando me ocorreu que eu precisava conhecer o nome do artista: Gil Vicente, dizia a placa na parede. Um sorriso interno amarelo de estudante recém-saída do vestibular: “Ok, será fácil lembrar, O auto da Barca do Inferno, A farsa de Inês Pereira…” Na época, a internet não era tão óbvia ou (oni)presente para pesquisas, lembrar as placas era uma tarefa precisa. Mais alguns momentos e percebo o que poderia ser outra coincidência: o inferno e a farsa talvez fossem alguma direção na interpretação dessas trevas a nanquim.“O nanquim não tem retorno, quando escurece demais, é um trabalho de pensar”, declara o artista.
Ainda assim, sua intimidade com essa tinta e com os pincéis não o impede de, não tão poucas vezes – presenciei –, realizar o que ele chama de “trabalho de um golpe só”, quando resolve a imagem da pintura numa única sessão rápida – ou embate – com os materiais.
Mais de uma década de arte depois, experimento um período de convivência diária – não planejada – no ateliê de Gil Vicente. Tardes, vez em quando adentrando noites, de trabalho, burocracias, cafés e açaís, projetos (dele e meus, que sua abertura frutífera permite), muita prosa (da vida e da arte), muita “greia” (sempre) e muita muriçoca (sempre também).
A elegância da austeridade monástica da mobília de sua casa-ateliê, como já bem definiu Márcio Doctors, me parece combinar com as linhas modernistas da sua arquitetura ampla e geométrica. No entanto, talvez, à primeira vista, contrastem com o requinte de ter um jardim de plantas tão tropicais sempre tão aprumado (Salve, Jones!). Mas esse aparente dissenso, creio, é o que bem explica a figura complexa e receptiva do artista, cuja força carismática e humor ímpar sobrepõem camadas tênues e porosas entre o Gil pessoal e o Gil social. É preciso atenção e delicadeza para conhecer. Aos amigos que convivem de perto, nos momentos reflexivos, ele frequentemente relembra e dá a letra: “Eu até pareço uma figura divertida e leve, mas sinto tudo com uma dificuldade muito grande, eu tenho uma vida interior muito atormentada e tumultuada. A minha lama interior é muito lamacenta (risos), as minhas partes sombreadas… a área de sombra é muita”. Ouvindo isso de um pernambucano da cidade que gerou o Manguebeat, nome advindo dessa urbanização permeada por manguezais, quase impossível não relacionar uma lama ambígua e fértil com a outra.
O Gil Vicente brasileiro que não abre mão do calor do Recife solar, sua cidade-casa de nascença e convicção, não demonstra efusivamente, mas não gosta muito de ser cobrado sobre “matar” mais políticos, continuando a série de autorretratos matando figuras políticas (Inimigos). Apesar do seu descontentamento com a política, como ele constantemente afirma, com o inferno e a farsa social que é a política com todos os escândalos de corrupção e o povo à míngua, sofrendo com doenças facilmente tratáveis e outras mais graves, amargando a ignorância da falta de seus direitos atendidos, com escolas fracas e professores malremunerados, sempre mergulhados no ópio televisivo… “Eu já fiz a minha parte. Se não, eu não faço mais nada, que a lista não tem fim. Cabe a quem achar que deve, continuar… Ou querem que eu só faça isso toda a vida?” E a cada tanto é um e-mail que chega, sugerindo ou pedindo a continuidade dessa lista.
“A Escolinha (de Arte do Recife) não formava artistas, formava gente”, é o que Gil Vicente sempre diz quando relembra, prazeroso, à época em que estudou na instituição. “Eu fiquei muitos anos estudando desenho e pintura na Escolinha, até que já estava expondo, vendendo e ganhando prêmios e fui saindo. Aí, depois teve a (Oficina) Guaianases (de Gravura), onde também aprendi muito e era muito divertido, eu estava sempre com artistas que foram mestres e amigos, a gente estava sempre junto e se retratando nas paisagens em que estávamos ou em retratos mesmo.” Pode-se entender que Gil busca contribuir nesse sentido de formação com todos os que o procuram para trocas intelectuais artísticas, quando observamos a legião de fãs que ele tem entre os jovens artistas e estudantes de artes em quaisquer cidades por onde passa com suas exposições.
A escolha do papel como suporte frequente de muitas obras também indica a direção de contato com o outro: “O papel é mais íntimo de qualquer um, de toda pessoa, todo mundo já viu, tocou, manuseou papel muitas vezes na vida, toda gente sabe o que é papel”.
E prossegue, na insistência da planaridade de sua arte: “O papel é plano. E eu sou totalmente plano, minha arte é plana, acho que eu nasci destituído da terceira dimensão. Até na minha fotografia, tudo que vi e registrei era plano, gráfico”. De fato, o artista tem grande capacidade de achatamento do campo visual, como se pode notar em suas fotografias, nas quais seu olhar funde planos e cria silhuetas e vultos, figuras inexistentes, mas que estão lá, à disposição do olhar atento. “Eu não procuro nada, mas encontro tudo”, é o que Gil Vicente – que não perde um jogo de palavras – declara sobre quando sai para fotografar, atividade assídua para ele há mais de uma década.
Assim como viver a experiência da arquitetura em fotógrafos arquitetos de formação (vide Cristiano Mascaro, para ficar em apenas um exemplo) se traduz em maior contundência e força na construção de imagens fotográficas de arquiteturas e espaços urbanos, experienciar a prática da matéria da pintura e do desenho, em suas diversas técnicas das artes plásticas bidimensionais, como o faz Gil Vicente, reflete-se na sua fotografia. Aqui falo de experienciar considerando as nuances de sentidos diversos típicas de suas origens linguísticas culturais, da experiência entendida como viver, ser atravessado, tocado, atingido, “co-movido”, conforme Jorge Larrosa, quando define a experiência e o saber da experiência. Portanto, a experiência da pintura e do desenho resulta nas fotografias de Gil, que seriam o saber dessa experiência. Basta conferir em cada fotografia a maestria das luzes, cores, texturas, reflexos e atmosferas tão pictóricas ou em cada achatamento de espaços em planos cromáticos justapostos.
Apesar da enfática negação da escultura ou do tridimensional, observo que, além da experimentação escultórica que Gil fez com “esqueletos” de cadeiras, numa grande estrutura de ferro e a numerosa quantidade de objetos encontrados que seleciona, apropria-se e expõe nas paredes e bancadas do ateliê, ele fez os Inimigos em tamanho real, escala 1:1 e que isso indica um pensamento espacial tridimensional no todo do projeto dessa série de autorretratos. Afinal, seriam autorretratos em quaisquer dimensões, mas o impacto na realidade do espectador é outro, pela recriação da espacialidade em tamanho real. Ele concorda com a observação, mas meio displicente e sem crer que sua planaridade – tão almejada e cultivada – seja afetada por isso.
E, para um artista que tanto fez de sua vida seu trabalho, numa autobiografia que se apresentou de diversas formas em sua obra, sem receios de encarar o que “é interior, subjetivo e está da melancolia mais para baixo”, o interesse pelo teste de Rorschach não só fica justificado, como se transforma em obra. Seja na operação visual de mapear cenas nos desenhos dos “rios” brancos entre textos de páginas de livros que originaram a Suíte safada, seja em Espelho meu. Essa, uma longa série de pequenas monotipias em nanquim sobre papel que Gil Vicente iniciou em 2009, e que consiste em desenhos espelhados (duas folhas de papel duplicadas), compostos pelas marcas estampadas por linhas de espessuras variadas embebidas em nanquim com várias gradações de preto e cinza.
A partir dessas monotipias, o artista desenvolveu, por quase dois anos, encerrando há pouco, em meados de 2017, um projeto de pesquisa em monotipias em grande formato, com apoio do Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco, e que terminou com um retorno ao guache. Foi nesse projeto que meu contato com Gil dentro do ateliê se estreitou e pude acompanhar de perto o desenrolar dos processos e operações artísticas.
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Tanto nas atividades pedagógicas para convidados que preparamos no ateliê quanto no processo de organização e documentação do material produzido, foram dias de observação atenta e muito manuseio das obras realizadas – o que exigia demasiadas manobras corporais pela escala dos desenhos e pela orientação mutável das combinações das imagens. Foram dias de muitas conversas e conjecturas, revendo o conjunto de imagens criadas, agrupando e reagrupando, jogando com a diversidade de simetrias.
Nesse processo, foi se tornando muito forte a relação das composições dos Espelhos meus criados com o verso de cartas de baralhos, com cédulas (de dinheiro), com azulejos e papel de parede. Essa percepção nos levou a conceber conjuntamente um grande cartaz lambe-lambe (técnica que utilizo bastante em meu trabalho artístico, combinada com a monotipia recorrente no trabalho de Gil) para a exposição Caleidoscópio, montada em Garanhuns (PE), onde revestimos cerca de 14 metros lineares de paredes com imagens reduzidas e multiplicadas (xerox) da nova série de Espelho meu (2017).
Sobre a primeira parte da pesquisa dessa nova série, realizada em nanquim, tomei nota de vários apontamentos feitos por Gil Vicente:
“A simetria vertical não interessava no momento de projeto, mas foi uma coisa na criação, na execução que levou a essa percepção.”
“Gosto quando linhas finas e delicadas sustentam pesos escuros e densos.”
“Acho fascinante esse negócio de você trocar e modificar múltiplas imagens sem ser um quebra-cabeça. É uma metamorfose.”
“O processo atrai muito, porque você vai mexendo e são muitas opções. Você coloca um e vem com o outro e muda as orientações e encaixes.”
“Quando você tem uma imagem que já é uma duplicação da outra, e você sai mudando, de cada dupla você faz 16 composições espaciais, ou configurações espaciais. Tudo isso se ficar no espelho, na simetria. Se você sair do espelho fiel, você ainda tem as falsas simetrias.”
Sobre a segunda parte da pesquisa para Espelho meu, realizada em guache, e que se constitui uma Homenagem a Lauro de Oliveira, pai do artista, falecido em 2017, tomei as seguintes notas:
“Em A cidade retomada, o vermelho está mandando nas coisas todas, está muito forte. Aí apareceu uma ponte... silhuetas de prédios ou igrejas... dando início ao enredo e formando a história toda. Essa ponte, nesta vista noturna, esta atmosfera…”
O coletor de impostos é a ideia de uma coisa necessária, mas que, ao mesmo tempo, se usa para extorquir a população… tem uma mancha meio isolada na esquerda que vira uma figura que é um vigia de algo muito maior do que o que está sendo coletado, tirado, arrancado… e isso é muito maior do que os impostos. Essa figura de costas, crescendo ou avançando. E as outras duas figuras, a preta e a maior, na parte central, bem mais definidas e que existem dentro dessa maior. Há uma metamorfose, um processo de transformação e formação contínuas.
“Em Uma curva no Oriente, eu pensava na representação da sujeira, da chatice depois de uma felicidade, dessa bagunça dos impostos, das sacanagens dos gestores, mas isso tudo veio nas pinceladas, foi se formando. Tem esses ambientes, essa profundidade de paisagem, de construções… o anteparo azul, que é muro e vira uma água onde flutua essa figura-ilha, que está longe e está perto. Nesse plano verde tem essa barata sebosa, que surgiu porque quis e eu vi que ela tinha que ficar, porque contava essa história toda.”
“As raras rosas é o mais gracioso, o mais festivo. Tinham coisas que precisavam ser abertas, aí eu vim com esse cinza, que é muito delicado e decidido. Como o laranja e também as pinceladas azuladas sobre ele… É tudo muito leve, mas muito decidido. É o mais luminoso. Tudo ia pro alto. Mas resolvi fazer um corte, mas não reto; tem figuras, eu vejo um meio perfil, uma mulher sorrindo… essa figura-mancha magenta, as camadas transparentes próximas.
“A figura verde encoberta – Encontro – tem essa ambiguidade, porque está lá e não está. Tinha o título com a palavra pai, e essas figuras de deus e pai, eu nem sei por quê, mas eu só pensava nessas palavras. Esfinge. É uma figura do oráculo, de deus. E eu fiquei chateado porque a ideia me perseguia e já tinha 20 dias do trabalho, da pintura pronta, e veio um título de Jesus na cabeça e eu perdi… Mas essas são coisas que acontecem neste mergulho. Estas conjecturas deliciosas que vão parecendo, desvanecendo e voltando.”
“Gosto de brincar com o título, e sei que pra uma porção de gente… ninguém vai entender nada. Mas eu não me incomodo de não entender tudo o que faço.”
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Fazer essa versão em grande escala da série Espelho meu trouxe novas situações de desenho, com maior variedade de linhas. Nos pequenos, realizados em anos anteriores, as manchas eram criadas principalmente por duas operações: as gradações de tons das aguadas de nanquim e a soma de linhas sobrepostas de espessuras diferentes, mas de natureza semelhante.
A experiência de novas espessuras, texturas e materialidades de linhas ou até faixas de tecido de algodão tramado, criando linhas desenhadas paralelas, algo similar com o resultado de um buril raiado na gravura, trouxe outras possibilidades gráficas às monotipias. Apesar de parecer mais fácil ou natural que as monotipias pequenas (21 x 15cm + 21 x 15cm) anteriores fossem mutáveis e móveis, como cartas de baralho, essa situação só veio a acontecer agora nos formatos maiores (100 x 70cm + 100 x 70cm).
Na primeira versão dessas monotipias, prevaleceu a atitude do teste de Rorschach, de abrir o papel e obter uma mancha espelhada fixa por um eixo central preestabelecido. A vontade de transformar a composição definida e única, estática – antes executada fixando ambos os papéis com a monotipia espelhada em outro papel maior –, em um desenho mutável, que pode ser manuseado e unido por quaisquer dos lados através da simetria, veio no processo de fazer, pela própria mobilidade do ato mais corporal de manusear e transportar as folhas durante a execução das imagens.
Parecia fazer sentido que cada página se transformasse numa peça cambiante a cada vez que o trabalho era mostrado a algum visitante no ateliê. A orientação espacial fixa, convencional (superior, inferior, direita, esquerda), deixou de fazer sentido; e abriu-se o leque para o jogo das composições mutáveis.
Além disso, algo na própria dimensão das novas composições levou a diferentes ocupações espaciais e relações de linhas. Ainda assim, num dado momento, veio uma sensação de que o trabalho não fosse suficiente na caminhada do desenho como passo posterior aos primeiros espelhos, os pequenos.
A operação de trabalhar com um controle programado na definição das posições e orientações de linhas, mas parcialmente às cegas quanto ao resultado final, até que se retirasse um papel de sobre o outro na construção do desenho pelo espelhamento nas monotipias, talvez tenha levado a um desejo oposto de controle/descontrole ou de fluidez e ritmo na construção da imagem.
Iniciou-se, então, um segundo momento na pesquisa, a pintura com guache. Outro retorno a uma técnica com a qual Gil Vicente sempre teve muita familiaridade e desenvoltura. A maneira como Gil se dispôs a ver as manchas de tinta produzidas pelas pinceladas iniciais e ir aceitando o que cada cor, mancha ou linha ia reivindicando como acontecimento autônomo na pintura, e como elemento integrante e formador de uma narrativa imaginária, foi o acréscimo ou o desvio necessário à liberdade criativa no processo técnico-construtivo da criação de imagens. Interessava essa escuta das imagens. E da escuta pelo olhar formou-se a Homenagem a Lauro de Oliveira.
Fonte: Revista Continente. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Os políticos na mira de Gil Vicente | Público
Artista pernambucano expõe desenhos em que se auto-retrata a executar vários políticos brasileiros e mundiais. A Ordem dos Advogados não gostou e exigiu a retirada das obras da Bienal, que começa hoje em São Paulo.
O que é que há de comum entre a Rainha de Inglaterra, o Papa Bento XVI, os ex-presidentes do Brasil e dos Estados Unidos Fernando Henrique Cardoso e George W. Bush, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan e os actuais presidentes do Irão e do Brasil, respectivamente Mahmoud Ahmadinejad e Lula da Silva? Estão todos na mira de Gil Vicente, o pintor pernambucano que agora também está na mira da Secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e, por via disso, se tornou o principal alvo mediático da 29.ª edição da Bienal de São Paulo, que começa hoje.
Numa série de desenhos a carvão sobre papel intitulada Inimigos, que integra a selecção da bienal, Gil Vicente, artista nascido no Recife, em 1958, auto-retrata-se a executar sumariamente aqueles (e outros) responsáveis políticos, na maioria dos casos apontando-lhes uma pistola à cabeça. A Lula da Silva e Ahmadinejad corta-lhes o pescoço.
A inclusão desta exposição na bienal não agradou à OAB/SP, que emitiu um comunicado a exigir a retirada dos trabalhos de Gil Vicente por considerar que "essas obras, mais do que revelar o desprezo do autor pelas figuras humanas que retrata como suas vítimas, demonstra um desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando à violência". Citado pela imprensa brasileira, o presidente da OAB, Luiz Flávio Borges d"Urso, fala do caso concreto da representação de Lula a ser degolado: "A execução do Presidente nos parece uma incitação ao crime."
Os responsáveis da bienal não acataram a exigência da OAB e reafirmaram a manutenção de Inimigos. Falaram de censura, e o curador Agnaldo Farias classificou a posição da Ordem como "um exagero, um absurdo e um retrocesso", tanto mais por ter partido daquela instituição. Farias, citado pela Gazetadigital de Mato Grosso, lembrou que dizer que os desenhos de Gil Vicente são "uma apologia à violência é o mesmo que dizer que Édipo Rei, a tragédia grega escrita por Sófocles, incentiva o parricídio e o incesto".
Não satisfeita com a posição da bienal, a OAB encaminhou uma denúncia para o Ministério Público de São Paulo.
Pop star
Já o principal visado na polémica, a pop star do momento, como Gil Vicente já é referido, mostrou também a sua surpresa e lembrou que os seus trabalhos foram realizados em 2005-06 e já tinham sido expostos no Recife, Natal e Porto Alegre, sem qualquer alarido de maior.
"Sei que Inimigos tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reacção assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", disse o pintor nordestino, citado pelo site Pernambuco.com. E justificou os seus trabalhos pela "decepção", e mesmo "raiva", que tem sentido perante a governação de todos esses políticos, que - diz - "desprezam as pessoas necessitadas e não se mexem para acabar com a miséria".
A polémica em volta dos seus Inimigos deixou para segundo plano aquela que outra série sua, também presente na bienal, Suite Safada (2007), poderá igualmente provocar, já que se trata de outro conjunto de desenhos com um conteúdo passível de suscitar forte discussão em volta da fronteira entre erotismo e pornografia.
A Bienal de Arte de São Paulo deste ano tem como tema as relações da arte com a política, a partir de um mote tirado de um verso do poeta Jorge de Lima, Há sempre um copo de mar para um homem navegar. Vai decorrer até 12 de Dezembro, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, e reúne 850 obras de 159 artistas. E promete muita polêmica.
Fonte: Público. Consultado pela última vez em 3 de abril de 2025.
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Gil Vicente dá seu veredicto | Tribuna do Norte
Em tempo de eleição a arte dá o seu veredicto: é hora de assassinar o inimigo. Desesperançado na política, o artista plástico pernambucano Gil Vicente, 48 anos, decidiu passar para o papel a raiva acumulada pelas frustrações dos últimos anos. Em nove gravuras criadas através da técnica de carvão sobre papel, o próprio autor se transforma em serial killer e vai matando um a um as personalidades nefastas do seu universo, a maioria políticos. O público terá a oportunidade de conferir o extermínio promovido por Gil Vicente na exposição “Inimigos” de hoje até o dia 1o de outubro no salão de arte contemporânea do Centro Cultural da Casa da Ribeira.
O primeiro a morrer na mão de Vicente é o atual presidente dos EUA, George W Bush. Mas nem o papa Bento 16 escapou da sanha do artista. “Comecei a pensar a fazer uma série a partir do Bush. Primeiro desenhei ele com um tiro no rosto e fui evoluindo até achar que o deveria aparecer de corpo inteiro. Depois achei que eu mesmo deveria matar o Bush. Decidi não dar esse prazer para ninguém”, brincou.
Na lista negra de Gil Vicente, além de Bush e do Papa constam os políticos pernambucanos Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. A frustração do governo Lula, inclusive, lhe custou a perda de um eleitor. “Nunca mais voto na minha vida. Não é uma promessa, é uma decisão! Cansei dessa palhaçada toda, meu voto não muda nada. Pensei até em me movimentar para fazer campanha contra o voto, mas não acredito que isso vá mudar alguma coisa. Não tem mais volta. A partir dessa eleição não vou às urnas. Depois paga uma taxa de uns três reais no TRE e pronto”, afirmou.
Indagado se a “exposição” poderá influir nos próximos trabalhos como que marcando uma nova fase na carreira, ele disse que não. “Mudou meu modo de ver o mundo, refleti mais. Mas não acho que meu trabalho será dividido em antes e depois dessa minha descrença nos políticos. É engraçado porque quando mostrei para o meu pai, perguntei à ele: `o senhor acompanha a política desde a revolução de 1930. Sempre foi assim?´ Ele me olhou no olho e disse que sim, na maior simplicidade. Então, desisti”, conta, lembrando que o pai, aos 82, gostou da obra.
Fonte: Tribuna do Norte. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Gil Vicente celebra 40 anos de carreira com exposição no Museu Murillo La Greca | Prefeitura de Recife
O Museu Murillo La Greca foi o destino de muita gente no fim da tarde deste domingo. O motivo de quem compareceu ao equipamento cultural era conferir a exposição “Gil Vicente: Estudos e Rabiscos”. Além da arte de Gil, que celebra 40 anos de carreira, o público foi brindado também com um show da bandavoou.
Dois dos três salões do Museu foram ocupados pelos trabalhos do artista consagrado e admirado pelos colegas de profissão como José Cláudio e Dayse Pontes, que foram prestigiar a mostra. “Já tinha visto muita coisa que está exposta aqui, mas também há ensaios e obras que eram inéditas pra mim. Considero Gil um exímio desenhista e uma referência. É sempre um prazer ver seus trabalhos”, elogiou Dayse.
Com curadoria da gestora do La Greca, Bruna Pedrosa, a exposição apresenta as inspirações, técnicas e trajetória de Gil Vicente desde a época em que começou a desenvolver seus traços na Escolinha de Arte do Recife, proporcionando um maior entendimento do processo criativo ao mesmo tempo em que realiza um desejo do autor.
“Na década de 80, a Fundaj realizou uma mostra chamada ‘Rabiscos’ com os trabalhos de José Cláudio, depois João Câmara e alguns outros artistas. Eu achei uma maravilha e fiquei por muitos anos com isso na cabeça, pois tinha vontade de mostrar meus riscos, meus ensaios. Quando Bruna me fez o convite, aceitei desde que chamasse Rabiscos!”, contou Vicente, entre risos.
Atendida a “exigência”, depois de seis meses - tempo que durou a escolha das peças, o resultado é cerca de 150 trabalhos que expressam desde o esforço para atingir a perfeição da obra finalizada até o humor de Gil Vicente. “É uma honra encerrar o ano com essa mostra que já na abertura atrai tantos olhares e que traz à cena coisas as quais muitos profissionais têm receio de mostrar que é o início de tudo. Mas a parte mais bonita disso é enxergar que com vontade e esforço, se chega à perfeição, ao êxito”, afirmou Bruna. A exposição pode ser vista até 10 de março de 2013, de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados e domingos, das 13h 17h.
Portal – A exposição integra a programação do lançamento do Portal Artes Visuais Recife, criado pela Gerência de Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife, que acontece no próximo dia 12 de dezembro. “O site foi pensado para reunir informações que possam reconstruir a memória de eventos das artes visuais desenvolvidos pela Prefeitura do Recife. É um carinho com o SPA das Artes pelos seus 10 anos de existência e, claro, com outras atividades como a Semana de Fotografia, Revela Design e Diálogos entre Arte e Público.”, ressaltou a editora do portal, Eva Duarte.
Fonte: Prefeitura de Recife. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Artista 'mata' Lula, FH e outros políticos na obra mais polêmica da Bienal de SP | O Globo
Ninguém foi mais assediado na segunda-feira do que o pernambucano Gil Vicente, por enquanto a grande estrela da 29ª Bienal de São Paulo. Na última sexta-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo fez uma nota de repúdio e ameaçou processar a Fundação Bienal por expor a série de desenhos em carvão "Inimigos", em que Vicente se autorretrata matando personalidades como o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a rainha da Inglaterra Elizabeth II e o papa Bento XVI. A Bienal já afirmou que não vai retirar a obra, exposta anteriormente em quatro outras cidades.
- Parece que voltamos à ditadura. A OAB alegou que a obra incita o crime. Qual é o crime maior, criar essa ficção ou o roubo de dinheiro público dos nossos políticos? - questionou Gil Vicente.
O curador Agnaldo Farias criticou a ação como "tacanha e mesquinha":
- Dizer que a obra incentiva a violência é o mesmo que dizer que "Édipo rei" incentiva o incesto. Só chamará mais atenção para o artista, cujo trabalho tem muito mais qualidade do que essa polêmica.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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"Usei o trabalho de modo terapêutico" | Revista Continente
Conheço Gil Vicente desde os anos 1980, participando dos famosos Festivais de Inverno da UFMG (juntamente com Marcelo Silveira, Alexandre Nóbrega e Rinaldo), a partir daí, sempre que nos encontramos tecemos boas conversas sobre arte, mercado e nossas agonias. Mas uma de nossas conversas mais marcantes se deu em 2001, em uma residência artística ocorrida no Paraná, denominada Faxinal das Artes. Esse evento, patrocinado pelo governo de Jaime Lerner, envolveu curadores como Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos, Daniela Bousso, Cristiana Tejo, entre outros, e reuniu cerca de 100 artistas de todo o Brasil e alguns estrangeiros, no pequeno vilarejo de Faxinal do Céu, uma reserva florestal perto de Curitiba, para uma convivência de 15 dias, com o propósito de propiciar um diálogo maior entre os artistas brasileiros, troca de experiências e desenvolvimento de projetos possíveis naquele tempo e lugar.
Embebido pela riqueza do encontro, resolvi entrevistar artistas com os quais já tinha algum contato a fim de conhecer melhor suas poéticas, procedimentos e aflições. A ideia deu certo, assim, acabei tecendo longas entrevistas com artistas como Shirley Paes Leme, Emanuel Nassar, Francisco Farias, Eduardo Frota, Elida Tessler, Marepe, Marcelo Solá, Karin Lambrecht, Dulce Ozinsky e, claro, Gil Vicente. Essas entrevistas eram abertas; dado o primeiro passo, que era o próprio fato de nos encontrarmos ali disponíveis para uma convivência de duas semanas e participar de bate-papos, de palestras e também de trabalho de ateliê, a conversa tinha um direcionamento claro: mostrar a poética do artista e seus procedimentos, provocá-lo a falar sobre sua formação e produção, tecendo desse modo um olhar reflexivo sobre seu processo criativo e os trabalhos realizados.
Passado o encontro do Faxinal das Artes, essas entrevistas foram guardadas em gavetas e caíram no sono. Gil Vicente, contudo, tem a capacidade de acordar fantasmas. Outrora, já havia lhe enviado o texto digitado para pensarmos a possibilidade de publicação, mas foi por ocasião da sua participação na 27ª Bienal de São Paulo e de uma viagem minha ao Recife, que retomamos nossa conversa de Faxinal, passados mais de 10 anos, para vermos o que havia sido dito, o que não fora dito ainda e o que se poderia dizer.
A conversa fluiu com naturalidade e interesse e chegamos ao texto que se segue. Gil Vicente, além de grande desenhista, é um bom contador de histórias, é divertido e enriquecedor ouvi-lo e saber como, em seu trabalho, ele sempre buscou o encontro com o outro. Seu exercício artístico tem algo do que fala Louise Bourgeois, ao definir a arte como “uma garantia de sanidade”. Poucos artistas têm a coragem de trilhar essa senda, a de aproximar sua arte das deambulações psíquicas e de ver nela uma promessa de sanidade ou, como queria Stendhal, “uma promessa de felicidade”. É este encontro, marcado pela convivência fraterna e espichado no tempo, que trazemos a público agora.
CONTINENTE Você é um artista plástico que vem de uma família de escritores, de um convívio com a literatura. Fale um pouco sobre essa convivência.
GIL VICENTE Meu avô materno, João Vasconcelos, era escritor e critico literário. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e publicou dois livros de contos ambientados no interior do estado. Quando eu nasci, ele estudava a obra de Gil Vicente e sugeriu o nome à minha mãe. Vovô morreu quando eu tinha seis anos. Lamento, pois já éramos bons amigos e, com certeza, teríamos trocado muitas figuras quando me interessei por arte. Depois de criar os filhos, minha mãe estudou Sociologia e Antropologia, com dissertação sobre a relação homem/mulher, na qual propunha redefinições nos papéis da convivência. Ela escreveu ensaios e tem vários livros publicados e premiados, principalmente de poesia, dos quais já ilustrei dois. Meu irmão mais velho é músico e sempre está envolvido com pesquisas ligadas à música pernambucana. Por outro lado, meu pai era muito amigo do escritor Osman Lins e de muitas pessoas da área cultural, como Jomard Muniz de Brito e outros. Nossa casa sempre abrigou boas discussões sobre arte e cultura.
CONTINENTE Há um quadro trágico de sua autoria cujo título é Minha mãe morta. Como é a presença da morte em sua família e para você?
GIL VICENTE Acho que a presença dos pais vivos é muito maior que a presença da morte, essa preocupação nunca foi um problema na família. Sempre tivemos canal aberto para dialogar sobre tudo. Meus pais respeitaram e incentivaram a personalidade de cada filho e também suas opções profissionais. O desenho Minha mãe morta mostra um cachorro lambendo o corpo nu de uma mulher. Não aparece o rosto. É um corpo caído no chão, e eu não compreendo o que representa. A imagem e o título apareceram prontos e até hoje não sei o que significam. Muitos dos meus desenhos, principalmente os nanquins, são tentativas de acessar imagens das camadas mais internas, escuras e enlameadas, porém, desconheço interpretações para eles. Até prefiro trabalhar assim, pois, se estou muito consciente do que cada coisa representa, termino fazendo uma mera ilustração. Muitas pessoas acham esse desenho agressivo, mas outras o veem como uma coisa afetiva e muito carinhosa. Nessa mesma série, fiz outros desenhos pesados, nos quais a morte também é evocada.
CONTINENTE Certa vez você me mostrou uma pintura sua, uma natureza-morta com um cacho de bananas e uma flor sobre uma toalha de mesa em desalinho, e me disse que, psicologicamente, aquele trabalho representava bem uma situação que você passara. Esse fato me fez pensar na relação entre arte e psicanálise, como é essa questão para você?
GIL VICENTE Trabalho com desenho e pintura usando técnicas convencionais, nanquim sobre papel, óleo sobre tela, e temas também convencionais, como a figura, o retrato, a paisagem. Mas o que me interessa é estar mexendo comigo mesmo, estar me investigando, porque, no fim das contas, sempre usei o trabalho de modo terapêutico, para sobreviver como pessoa. Mesmo fazendo uma paisagem ou uma natureza-morta, como eu trabalho intuitivamente, os significados me escapam, há sempre certa narrativa que não consigo acessar racionalmente, mas que está na imagem. Certo dia, olhando distraidamente para uma natureza-morta, me dei conta, assustado, de que ela falava sobre uma namorada recente e me dizia muita coisa. Pouco depois, fui convidado para a mostra Imaginário e sexualidade, na Fundação Joaquim Nabuco, e enviei essa pintura.
CONTINENTE Você estudou arte em diversos lugares, mas, como já disse, uma das figuras importantes nos seus estudos foi o artista José Cláudio. Como foi esse aprendizado?
GIL VICENTE Comecei a estudar bem cedo, e logo fui participando de coletivas, salões, e a vender trabalhos. Estudei seis anos na Escolinha de Arte do Recife e três nos ateliês livres de extensão da UFPE, nos quais fiz desenho e pintura de observação. Depois estudei em Paris, com uma bolsa do governo francês, onde também vi muitas exposições bacanas. Mas as minhas referências estavam sempre nos artistas daqui. Os artistas pernambucanos que mais me atraíam eram Reynaldo Fonseca, Cícero Dias, João Câmara, Ismael Caldas, Adão Pinheiro, Francisco Brennand, Vicente do Rego Monteiro, Zé Cláudio, Samico, Rodolfo Mesquita e outros. Em Zé Cláudio, me encantava o prazer dele com a pintura e o vivo caminho que escolhia para captar o popular. Além do respeitável exemplo profissional, ele escreveu textos sobre meu trabalho, que me abriram caminhos para a compreensão do que faço. Quando minha exposição Desenhos esteve no Mamam, em 1999, acompanhada de um debate com Marcos Lontra e Moacir dos Anjos, antes das falas dos curadores, Zé Cláudio, que estava na plateia, levantou-se e pediu para falar primeiro. Seu depoimento de improviso é um dos textos mais bacanas sobre meu trabalho. Por sorte, um jornalista gravou esse depoimento, que depois foi publicado na primeira edição da Continente. O então editor da revista, Mário Hélio, achou um ótimo título para o texto: Uma descida aos infernos. Ali, Zé Cláudio dá algumas chaves com as quais eu compreendo melhor o que faço. Não o significado das coisas, mas questões da minha relação com a expressão. Sou muito grato a ele e me comovo sempre que falo disso. Eu sempre quis pintar como ele, como Brennand, como Reynaldo Fonseca, e foi assim, perseguindo, correndo atrás de um e de outro, que fui construindo o meu trabalho.
CONTINENTE O retrato é um gênero de pintura, de certa forma, obrigatório para todo pintor na história da arte, mas perdeu seu lugar na arte moderna e contemporânea. No entanto você assume esse desafio, nos anos 1980, ao fazer uma série de retratos de artistas do Recife. Como que foi esse projeto?
GIL VICENTE Aconteceu por acaso. Minha produção da década de 1980 foi quase toda a partir do real, quer dizer, feita de observação. Pintei figuras, paisagens e naturezas-mortas. Meu círculo de amizades era pequeno, era mais familiar. Aos 23 anos, passei um período de grande melancolia. Meus relacionamentos eram muito atormentados, de todos eles eu saía me sentindo muito culpado. Tudo era para mim um tormento e a pintura ficava escura. A partir de 1982, fiz um esforço para sair dessa melancolia e também já tinha começado a fazer terapia. Assim, fui construindo lentamente um equilíbrio e o trabalho foi imprescindível para eu sobreviver. Usei-o para me salvar. Passei a convidar outras pessoas para posarem pra mim. E também comecei a jogar futebol, um esporte coletivo (pois até então o esporte que eu praticava era natação, à noite, que é você sozinho com a cabeça dentro da água, uma coisa muito escura e uterina). Enfim, procurei ter mais contato com o mundo, porque era um desgaste muito grande estar com as pessoas. Acho que a necessidade que eu tinha de desenhar a figura e de aprender a retratar era, desde cedo, um caminho para me aproximar do outro.
CONTINENTE Mas a série mostra também várias pessoas da cultura pernambucana. Como foi feita?
GIL VICENTE Quando consegui clarear, esquentar as cores e dar mais contraste à minha pintura, fiz 10 retratos de artistas amigos. Cada um foi realizado em dois dias, no ateliê do retratado. Chegava sem nenhuma ideia definida e a pose era escolhida naturalmente, numa dinâmica descontraída entre mim, o artista e o espaço. Como de costume, começava desenhando na tela com a tinta mais rala, para acertar as proporções da figura. Se esse desenho estrutural saísse rápido, eu já começava a pintar no primeiro dia. Iniciava pelo rosto, pois sendo a parte mais difícil, preferia enfrentar logo e me livrar dela. No resto do quadro, ia me divertindo, me soltando. Dessa série, acho que no retrato de Samico foi onde me saí melhor.
CONTINENTE E o seu interesse pela fotografia, como surgiu?
GIL VICENTE Fotografo desde os 17 anos. Comecei registrando meus trabalhos para divulgação e arquivo, mas também clicava coisas de rua que me atraíam plasticamente. Em meados de 1998, voltei a fotografar buscando algo diferente do desenho e da pintura. Mas me dei conta, muito claramente, de que todas essas fotos eram de coisas bidimensionais com interesse gráfico e pictórico: portões, paredes, portas... Enfim, compreendi que só me interesso por coisas bidimensionais, pelo plano, e que nasci faltando a dimensão da profundidade. Essas fotos são, na maioria, registros de intervenções populares. Comecei pelas portas metálicas de estabelecimentos populares, que no Recife são pintadas de maneira precária, com restos de tinta de cores quentes. Foi também uma forma de paquerar um pouco com a geometria. Depois de Portas, vieram as séries Passagens (paredes com aberturas que foram fechadas) e Desenhos, todas de origem popular.
CONTINENTE Você fala do desenho e da sua pintura enfatizando o lado íntimo e pessoal, mas o que dizer do lado público desse trabalho? Quero dizer, como, em seu trabalho, você pensa o Brasil, a sociedade brasileira?
GIL VICENTE Como falei, o meu trabalho sempre foi muito autorreferente, feito mais pra me salvar. Por isso nunca me ative à temática social. Não fiz universidade, não estudei história da arte, estética, filosofia, nada disso. Sempre me abasteço mais pelo olho. Então, não sei discutir nenhuma questão social e política brasileira. Eu sou um ser social e participo da vida social do Brasil. Para minha formação como artista, dependi de outros artistas que foram generosos comigo. Da mesma forma, acompanho o trabalho de outros que estão começando. Isso é uma atuação social. Não vejo necessidade de trazer essa preocupação como tema do trabalho. Mas, na medida do possível, participo de projetos e oficinas junto a grupos da comunidade. Comecei a me interessar por música em 1998. É uma coisa diferente do que eu sempre fiz, com outro sistema cognitivo que mexe com a minha cabeça de forma muito lúdica. Mas música é matemática também, e é outra forma de eu dar vazão à minha paquera com a geometria. Assim, acabei ingressando com outras pessoas no Maracatu Leão Coroado, em Águas Compridas, Olinda, e lá procuramos ajudar a comunidade. O grupo no qual entrei fez um site com a história do Leão, levou para a sede uma unidade do projeto CDI (Comitê de Democratização da Informática) e pedimos colaborações de outros profissionais, como o arquiteto Albérico Paes Barreto, que fez gratuitamente um projeto para a nova sede do Leão. Mas não tenho capacidade de dar uma opinião sobre o quadro social e político brasileiro. Muito menos que caminho o Brasil deve tomar, qual a importância das ONGs etc. Tenho feito a minha parte, na medida do possível.
CONTINENTE Há 11 anos, no Faxinal das Artes, você disse que não entendia nada de política e que não vinculava seu trabalho a ela. No entanto, a sua série de desenhos Inimigos, de 2005-2010, é nitidamente ligada à política. Como você iniciou essa série? O que mudou nesse meio tempo?
GIL VICENTE Continuo sem entender nada de política. O que mudou é que perdi a ingenuidade. Desde 1976, quando completei 18 anos, votava com muita esperança em mudanças sociais para o país. Seguidamente tive decepções, e seguidamente renovei as esperanças. Até compreender que a política é um ótimo negócio que faz milionários com o dinheiro público. Além disso, o sistema eleitoral é pífio e nulo. O voto, em si, não tem a menor importância, pois qualquer elemento que for eleito fará obrigatoriamente o mesmo que seus antecessores: roubará para si e para o seu grupo. Um dirigente rouba cerca de dois terços da verba que passa por sua administração, e o resto é aplicado em projetos que beneficiam a classe média e a classe alta. Os pobres e miseráveis seguem sem estudo, sem saúde, sem direitos, sem oportunidades. E sabemos que os problemas sociais de cada estado do Brasil poderiam ser resolvidos apenas com o dinheiro público roubado naquele mesmo estado. Nunca votei esperando mais verbas para a arte e a cultura, mas desejando que, finalmente, o país caminhasse para a justiça social. Como eu era ingênuo! Em 2005, caiu a ficha e compreendi que nada vai mudar, que sempre foi assim e a tendência é piorar. Movido por essa clareza decepcionante, fiz a série Inimigos, e nunca mais compareci em cabines eleitorais para votar. Se a classe política não cumpre o seu dever social, não me sinto obrigado a cumprir o meu “dever cívico” de escolher um entre vários ladrões. Votar é assinar um papel em que está escrito: “Autorizo Fulano de Tal a roubar dinheiro público durante quatro anos sob total proteção da lei”. Estou fora. Não farei mais isso. O descaso com as questões sociais não ocorre apenas no Brasil. Os meus alvos na série Inimigos são governos ou instituições do Brasil e do mundo, representados por seus dirigentes. Eu quis mostrar que na minha região é assim, no meu país é assim e no resto do mundo também é assim. Em certo aspecto, a série Inimigos se parece com trabalhos anteriores, pois foi motivada por incômodos que eu não identificava com clareza. Foi um expurgo. Em julho de 2005, eu havia desenhado uma mão enfiando violentamente um revólver na boca de George Bush. No mês seguinte, fiz o primeiro desenho da série, Autorretrato matando George Bush, que foi exposto em Campinas-SP junto dos desenhos de Lula e Bento XVI. Ainda em dezembro de 2005, expus a série completa na Galeria Mariana Moura, no Recife. Em 2006, mostramos na Casa da Ribeira, em Natal, e, em 2008, no Atelier Subterrânea, em Porto Alegre. Na Bienal de São Paulo, em 2010, incluí o desenho matando Ahmadinejad. A série fala da minha raiva por ter sido enganado durante tanto tempo, e da minha descrença em qualquer alteração ética no quadro político brasileiro.
Fonte: Revista Continente, escrito por Fernando Augusto S. Neto, publicado em 01 de Outubro de 2013. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Biografia do artista pernambucano José Cláudio destaca simplicidade e erudição | Diário de Pernambuco
Os passarinhos, o cotidiano da população rural, as festas populares eas frutas dos engenhos da Zona da Mata de Pernambuco que recortam a infância do artista plástico José Cláudio se tornaram marcas de suas pinturas. Entender a obra é voltar à casa dele em Ipojuca, conhecer a loja do pai, onde aproveitava os embrulhos das mercadorias para desenvolver os primeiros desenhos. A mudança para o Recife, onde estudou e atuou como no Atelier Coletivo, virou o ápice de sua produção artística.
Em Aventuras à mão livre, biografia do artista, o jornalista Júlio Cavani resgata as memórias e constrói a narrativa de vida de um dos maiores nomes da arte de Pernambuco, que experimentou diferentes fases estéticas e múltiplas temáticas, passando pelo desenho, pintura, gravura, escultura, história em quadrinho, murais e literatura. Lançada no último semestre, a obra terá evento com sessão de autógrafo nesta quinta (23), às 19h, na Garrido Galeria (Rua Samuel de Farias, 245, Casa Forte). O livro, editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), integra a coleção Perfis, sobre 15 homens e mulheres que construíram importantes carreiras no estado. O exemplar custa R$ 40.
“Eu já admirava José Cláudio como artista, conhecia parte da obra dele, mas não o conhecia pessoalmente. No primeiro contato, a conversa fluiu bem. Tive sorte de biografar um personagem que estava disposto a falar. Ele conta bem as histórias e reúne bem as memórias de todas as fases de vida. Foi legal fazê-lo revisitar suas histórias. E ele achou interessante alguém disposto a reunir os seus relatos”, conta Júlio Cavani.
“Eu me propus a começar do zero. Encontrei José pela primeira vez sem ter feito muitas pesquisas. Cheguei lá para ouvir a vida dele, usando o próprio como fonte principal. E a partir daí fui seguindo uma ordem cronológica, da infância, adolescência, trabalho, amadurecimento. Após o primeiro contato, passei a ler, entre uma entrevista e outra, um artigo ou livro autobiográfico dele. Esse material servia tanto para me sugerir perguntas quanto me guiar para investigar alguns detalhes”, explica.
Conhecido pelos trabalhos coloridos e figurativos, José Cláudio teve a juventude mergulhada em aprendizados com Abelardo da Hora, Carybé, Mário Cravo, Arnaldo Pedroso d’Horta e Di Cavalcanti, e se consagrou como artista no circuito da arte contemporânea, nas décadas de 1950 a 1970, quando desenvolvia desenhos e gravuras considerados mais experimentais. Durante o período, o Atelier Coletivo foi o grande espaço de experimentação do artista. A fase é abordada em várias passagens no livro, como no capítulo Dos carimbinhos aos quadrinhos, onde o autor descreve a formação e experiência do artista com xilogravuras e a estreia nas tirinhas de HQ.
“Entre as décadas de 1950 e 1970, José Cláudio recebeu prêmios como melhor desenhista do Brasil. Eu queria ter mais contato com as obras produzidas por ele nesse período. Muitas foram vendidas e estão espalhadas pelo país, mas seria importante um estudo com todos os trabalhos que ele produziu nesse período. É de uma riqueza artística muito grande”, salienta Cavani. As narrativas de vida de José Cláudio foram colhidas por Cavani em15 conversas presenciais na casa do artista, com duração média de duas horas, sempre no início da noite. O horário, escolhido por Cláudio, tinha por objetivo livrar a claridade do dia e da tarde, que o artista usa para pintar telas em seu ateliê, que funciona no térreo da casa onde mora, no bairro do Monte, em Olinda.
“Eu procurei transmitir a espontaneidade de José, a forma como ele trabalha e idealiza tudo com naturalidade e calma. Quem conversa com José Cláudio percebe que ele é simples, mas por dentro é profundo e erudito. Ele anda com naturalidade por feiras públicas, da mesma forma que circula em eventos intelectuais. Ele nunca perdeu a simplicidade, apesar de toda riqueza imaterial”, destaca. Para pesquisas estéticas, José Cláudio viajou pelos EUA, Europa, África e diversos estados brasileiros, como Amazonas, Bahia, Rio e São Paulo.
O autor do livro destaca ainda a grande paixão do artista: o carnaval do Recife, a festa que guiou a temática de obras por mais de duas décadas. “Sofri muitas mudanças na minha vida, mas uma coisa não mudou: a idolatria pelo carnaval do Recife. Não tenho mais pernas para acompanhá-lo, mas me sinto inteiro e novo quando ouço um frevo de Zumba, de Capiba e por ai vai...”, escreveu José Cláudio, em crônica publicada na Revista Continente, em novembro de 2017. Em 2012, o pintor foi escolhido como homenageado da folia recifense. Nada mais justo.
Fonte: Diário de Pernambuco. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: UOL. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (20 de abril de 1958, Recife, PE), mais conhecido como Gil Vicente, é um desenhista, gravador, escultor e artista multimídia brasileiro. Autodidata, iniciou sua formação na Escolinha de Arte do Recife e, posteriormente, estudou nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Destacou-se ainda jovem ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda em 1975. Em 1978, realizou sua primeira exposição individual e co-fundou a Oficina Guaianases de Gravura, um marco para a arte gráfica no Nordeste. Sua obra é marcada pelo traço preciso, linguagem visual incisiva e forte crítica política e social. Trabalha com desenho, gravura, escultura, pintura e fotografia, abordando temas como violência, opressão, desigualdade e poder. Entre suas influências estão o barroco, a cultura popular nordestina, o expressionismo e o pensamento crítico contemporâneo. Ganhou notoriedade internacional com a série "Inimigos" (2005), em que aparece armado diante de figuras emblemáticas do poder, como líderes religiosos, políticos e juízes, provocando debates sobre ética, arte e liberdade de expressão. Recebeu prêmios em salões de arte nacionais e internacionais, e sua obra integra acervos como os do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Fundação Joaquim Nabuco e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente | Arremate Arte
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira nasceu em 20 de abril de 1958, no Recife, Pernambuco, e consolidou-se como um dos artistas visuais mais provocativos e consistentes da cena contemporânea brasileira. Desde a infância, demonstrou vocação para o desenho, ingressando aos 14 anos na Escolinha de Arte do Recife, onde teve o primeiro contato com técnicas artísticas. Em 1974, aprofundou sua formação nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desenvolvendo habilidades em pintura, gravura e escultura. Já em 1975, recebeu seu primeiro reconhecimento público, ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, iniciando uma trajetória marcada por premiações e presença constante em exposições de relevância nacional e internacional.
Gil Vicente estreou individualmente em 1978, com a exposição “Pinturas, Desenhos e Gravuras”, na Galeria Abelardo Rodrigues, no Recife. Naquele mesmo ano, fundou a Oficina Guaianases de Gravura, ao lado de outros artistas pernambucanos, criando um espaço de produção e circulação da gravura contemporânea no Nordeste brasileiro. A partir da década de 1980, sua produção amadureceu para uma linguagem própria, caracterizada pela potência gráfica, o domínio do desenho e uma crítica contundente a estruturas de poder e desigualdade social.
Em sua obra, Vicente articula traço preciso com forte carga simbólica e discurso político. Ficou especialmente conhecido pela polêmica série “Inimigos”, iniciada em 2005, na qual retrata a si mesmo apontando armas para figuras emblemáticas do poder político, jurídico e religioso — como George W. Bush, Bento XVI e Fernando Henrique Cardoso — gerando intenso debate na mídia e no meio artístico. A série reafirma sua postura crítica e reafirma a arte como espaço de confronto simbólico e liberdade de expressão.
Gil Vicente é um artista múltiplo: além de desenhista, é também gravador, escultor, cenógrafo e fotógrafo. Suas criações transitam por diferentes suportes e linguagens, mantendo sempre uma conexão visceral com a realidade brasileira. As referências ao barroco, à cultura popular nordestina, à violência urbana e à opressão institucional convivem com uma visualidade densa e refinada.
Participou de exposições em museus e instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Instituto Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte do Rio (MAR). Suas obras também integram acervos importantes, como os da Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Bienal de São Paulo e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente segue ativo, produzindo de maneira intensa e inquieta, e é considerado uma das vozes mais incisivas do Brasil na crítica artística contemporânea. Sua trajetória é um testemunho da arte como resistência, ferramenta de denúncia e reflexão sobre o mundo que habitamos.
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Gil Vicente | Itaú Cultural
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (Recife, Pernambuco, 1958). Pintor, desenhista, gravador, fotógrafo e escultor. Inicia os estudos na Escolinha de Artes do Recife em 1972 e, a partir de 1974, frequenta os ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe). Em 1975, recebe prêmio do Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Pernambuco. Dedica-se às artes plásticas depois de terminar o ensino médio. Em 1978, faz a primeira individual, Pinturas, Desenhos e Gravuras, na Galeria Abelardo Rodrigues, Recife. Nesse ano, participa da fundação da Oficina Guaianases de Gravura. Ganha uma bolsa do governo francês e estuda em Paris, de 1980 a 1981. Em 1984, expõe no 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). Em 1989, em Recife, participa do Ateliê Coletivo, onde faz xilogravuras sob orientação de Gilvan Samico (1928-2013). O documentário Gil Vicente – Ofício e Silêncio é lançado juntamente com a exposição Figuras/Pinturas, em 1996, na Galeria Futuro 25, Recife. Desde então, suas individuais circulam por várias cidades do Brasil. Em 2001, participa da 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre e, no ano seguinte, da 25ª Bienal Internacional de São Paulo.
Análise
A obra de Gil Vicente atém-se a materiais como papel, lápis, carvão, nanquim, guache, óleo e tela e a técnicas tradicionais como gravura, foto ou escultura. Não busca inovar ou misturar materiais e suportes, apesar de reconhecer que na arte contemporânea é possível trabalhar com qualquer coisa1. À simplicidade de meios corresponde a tentativa de diminuir ao máximo o estilo pessoal, que associa a maneirismo2. Na exposição Sessenta Cabeças e Outros Desenhos (1997), utiliza nanquim e carvão sobre papel branco, o que permite jogo de contrastes. Nos desenhos, o fundo preto instaura uma profunda solidão que envolve as figuras. Nas cabeças, ressalta traços angustiados, que desfiguram os rostos, nos quais sempre falta alguma coisa. Na mostra Guaches Recentes (2002), trabalha a cor e a consistência da tinta. Aproveita sobreposições com pinceladas largas e rápidas e explora amplas áreas de cor, embora adote tons contidos. A temática permanece próxima: corpos e objetos que remetem à solidão humana. Na Suíte Safada (2005), o artista cobre de nanquim páginas de livros, desenha sobre elas conteúdo erótico e deixa descobertas palavras que revelam o erotismo oculto nesses veios.
O respeito às características do material é uma faceta do rigor do artista. Melancólico3, segundo diz, não deixa de expressar politicamente suas opiniões. Um exemplo é a série Inimigos (2007), em que se retrata matando líderes políticos como o ex-presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva (1945), o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (1946), o papa Bento XVI (1927) e a rainha do Reino Unido Elizabeth II (1926).
Críticas
"Esta qualidade, que podemos chamar de comunicabilidade, é a característica primordial da produção pictórica desse pernambucano irrequieto, que não se prende ao intelecto, a um estilo ou a uma técnica determinada. Em suas pinturas, o desenho é perfeito, a matéria é trabalhada com capricho, em camadas finas e texturas lisas, que conferem às suas composições um requinte estético que nada tem a ver com o exotismo ou com as formas rebuscadas que povoam a pintura moderna. (...) Frutas, legumes e cenários tropicais são uma constante temática do artista, mas são os retratos e os nus que têm ocupado as suas telas mais recentes. (...) A princípio, sóbrio e contido, Gil agora parece ter amadurecido em seu jeito de viver o cotidiano, soltando-se, rompendo com uma introspecção que sombreava as suas composições". — Luiz Fernando Freire (GIL Vicente. Ventura, Rio de Janeiro: Spala, n.4, p.100-110, jun./ago.1988).
Exposições Individuais
1978 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, desenhos e gravuras, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1980 - Olinda PE - Gil Vicente: pinturas e desenhos, no MAC/PE
1982 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1983 - Belém PA - Gil Vicente: guaches, na Elf Galeria de Arte
1984 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1986 - Recife PE - Gil Vicente: paisagens, na Galeria Futuro 25
1987 - Fortaleza CE - Individual, na Duailibe Galeria
1988 - Recife PE - Gil Vicente: guaches recentes, na Officina Galeria
1990 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Vicente do Rego Monteiro
1993 - Recife PE - Gil Vicente: naturezas mortas, na Galeria Futuro 25
1996 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1997 - Salvador BA - Pinturas Com Modelo, na Paulo Darzé Galeria de Arte
1997 - São Paulo SP - Sessenta Cabeças, na Galeria Nara Roesler
1998 - João Pessoa PB - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no Núcleo de Arte Contemporânea
1998 - Salvador BA - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no MAM/BA
1999 - Recife PE - Gil Vicente: desenhos, no MAMAM
1999 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente: desenhos, no MAM/RJ
2000 - Porto Alegre RS - Gil Vicente: desenhos, no MAC/RS
2003 - Curitiba PR - Individual, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba
2004 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Nara Roesler
Exposições Coletivas
1975 - Olinda PE - Salão dos Novos, no MAC/PE - primeiro prêmio
1976 - Recife PE - 29º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Olinda PE - Gil Vicente, Aprígio e Frederico, na Galeria Corredor
1977 - Recife PE - 30º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco - primeiro prêmio pintura
1977 - Recife PE - Novos Artistas Pernambucanos, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Recife PE - O Desenho e a Gravura, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1978 - Curitiba PR - 1ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1978 - Recife PE - 31º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1979 - Belo Horizonte MG - Litografia Brasileira, na Fundação Palácio das Artes
1979 - Curitiba PR - 2ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1979 - Recife PE - 7 Artistas em Foco, na Galeria de Arte
1979 - Rio de Janeiro RJ - Oficina Guaianases, na Galeria Gravura Brasileira
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1980 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente, Maria Tomaselli e Luciano Pinheiro, no Centro Cultural Candido Mendes
1981 - Piracicaba SP - 14º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, na Casa das Artes Plásticas
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco - prêmio Funarte
1981 - Recife PE - Panorama da Arte Atual em Pernambuco, na Galeria Lula Cardoso Ayres
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Rio de Janeiro RJ - 6º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1984 - São Paulo SP - 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Pintura ao Ar Livre, no Centro Cultural Candido Mendes. Grande Galeria
1986 - Belém PA - 5º Salão Arte Pará, na Fundação Romulo Maiorana
1986 - Brasília DF - Pernambucanos em Brasília, na ECT Galeria de Arte
1986 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria Ibeu Copacabana
1987 - Recife PE - Imaginário e Sexualidade, na Galeria Massangana
1987 - Recife PE - José Cláudio e Gil Vicente, no Museu do Estado de Pernambuco
1988 - Curitiba PR - 8ª Grupo Guaianases, no Museu Municipal de Arte
1988 - Recife PE - Gil Vicente, Gilvan Samico e José Barbosa, na Estudio A Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria de Arte Ibeu Copacabana
1988 - Rio de Janeiro RJ - O Mundo Fascinante dos Pintores Naifes, no Paço Imperial
1989 - Olinda PE - Viva Olinda Viva, no Atelier Coletivo
1989 - Recife PE - Natureza da Pintura, no Centro Cultural Adalgisa Falcão
1989 - São Paulo SP - Cor de Pernambuco, na Ranulpho Galeria de Arte
1990 - Olinda PE - Permanência da Pintura, no Atelier Coletivo
1992 - Rio de Janeiro RJ - Ateliê Coletivo, no Centro Cultural Candido Mendes
1993 - Hamburgo (Alemanha) - Atelier Coletivo, no Km Wolff
1994 - Recife PE - Batalha dos Guararapes: um olhar contemporâneo, no Museu do Estado de Pernambuco
1996 - Recife PE - Arte e Religião, na Galeria Futuro 25
1997 - Recife PE - O Papel da Arte, no Espaço Cultural Bandepe
1997 - Recife PE - Ver o Verso, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães
1997 - São Paulo SP - O Rosto do Outro, na Galeria Nara Roesler
1998 - Fortaleza CE - Ceará e Pernambuco: dragões e leões, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
1998 - Nova York (Estados Unidos) - Art International New Cork, na Neuhoff Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - Vista Assim do Alto Mais Parece um Céu no Chão, no MAM/RJ
1999 - São Paulo SP - Nordestes, no Sesc Pompéia
2000 - Recife PE - Ateliê Pernambuco: homenagem a Bajado e acervo do Mamam, no MAMAM
2001 - Porto Alegre RS - 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Recife PE - Em Sete Tempos, na Amparo Sessenta Galeria de Arte
2002 - São Paulo SP - 25ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
2002 - São Paulo SP - Seis Artistas na 25ª Bienal de São Paulo, na Galeria Nara Roesler
2003 - Madri (Espanha) - Arco/2003, no Parque Ferial Juan Carlos I
2003 - Recife PE - Ver de Novo/Ver o Novo, no MAMAM
2003 - São Paulo SP - Arco 2003, na Galeria Nara Roesler
Fonte: GIL Vicente. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 04 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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No ateliê de Gil Vicente | Revista Continente
Talvez no Recife seja mais habitual – dizem por aqui – este contato próximo de jovens estudantes de arte ou artistas em início de carreira com os artistas já consagrados, os ditos “grandes mestres”, do que em outros circuitos de arte, não sei. Mas sei que, quando cheguei do sul das Minas Gerais para estudar artes visuais em São Paulo, e me desvairei a ver exposições de arte contemporânea para me atualizar do que não havia – nem há – em minha pequena cidade interiorana, eu não podia imaginar que viria a conhecer pessoalmente muitos dos artistas cujas obras estava vendo em museus, centros culturais, instituições e galerias de arte.
Algumas obras me atingiam, outras, nem tanto. Umas, por gostar, outras, pela estranheza ou secura asséptica para meus primeiros passos. Muitos nomes novos para lembrar, muita arte para apreender tudo. Cerca de meia dúzia de artistas, talvez, me impactou mais. Ou se destacou, de um jeito ou de outro, do todo ainda confuso e disforme daquelas informações todas. Não poderia, então, imaginar a vivência próxima que eu teria, por tantos anos, com ao menos dois daqueles artistas.
“Lama escura interior” é um termo usado por Gil Vicente para dizer do cerne de muitos dos seus trabalhos. E era algo próximo desse conteúdo pesado, dramático e expressivo que, naquela época, eu entendia como a arte que queria fazer, que falaria do inominável dos sentimentos humanos.
Quando, em 2002, entrei na sala do artista na 25a Bienal Internacional de São Paulo, a lama escura me tomou, de forma que voltei à sala umas três ou quatro vezes antes de deixar o Pavilhão de Niemeyer. Ecoavam em mim aquela imensidão turva, aquelas águas escuras com figuras, solitárias ou acompanhadas, flutuando à deriva no espaço profundo.
A imensidão dos desenhos, a profundidade dos pretos opacos do nanquim, as luzes pontuais e dramáticas, as manchas como feridas escuras nas figuras, os traços como amarras nos corpos, clausuras, veias. Em palavras, eu não sabia o que diziam os desenhos; sabia o sentido que faziam em meu âmago. Foi quando me ocorreu que eu precisava conhecer o nome do artista: Gil Vicente, dizia a placa na parede. Um sorriso interno amarelo de estudante recém-saída do vestibular: “Ok, será fácil lembrar, O auto da Barca do Inferno, A farsa de Inês Pereira…” Na época, a internet não era tão óbvia ou (oni)presente para pesquisas, lembrar as placas era uma tarefa precisa. Mais alguns momentos e percebo o que poderia ser outra coincidência: o inferno e a farsa talvez fossem alguma direção na interpretação dessas trevas a nanquim.“O nanquim não tem retorno, quando escurece demais, é um trabalho de pensar”, declara o artista.
Ainda assim, sua intimidade com essa tinta e com os pincéis não o impede de, não tão poucas vezes – presenciei –, realizar o que ele chama de “trabalho de um golpe só”, quando resolve a imagem da pintura numa única sessão rápida – ou embate – com os materiais.
Mais de uma década de arte depois, experimento um período de convivência diária – não planejada – no ateliê de Gil Vicente. Tardes, vez em quando adentrando noites, de trabalho, burocracias, cafés e açaís, projetos (dele e meus, que sua abertura frutífera permite), muita prosa (da vida e da arte), muita “greia” (sempre) e muita muriçoca (sempre também).
A elegância da austeridade monástica da mobília de sua casa-ateliê, como já bem definiu Márcio Doctors, me parece combinar com as linhas modernistas da sua arquitetura ampla e geométrica. No entanto, talvez, à primeira vista, contrastem com o requinte de ter um jardim de plantas tão tropicais sempre tão aprumado (Salve, Jones!). Mas esse aparente dissenso, creio, é o que bem explica a figura complexa e receptiva do artista, cuja força carismática e humor ímpar sobrepõem camadas tênues e porosas entre o Gil pessoal e o Gil social. É preciso atenção e delicadeza para conhecer. Aos amigos que convivem de perto, nos momentos reflexivos, ele frequentemente relembra e dá a letra: “Eu até pareço uma figura divertida e leve, mas sinto tudo com uma dificuldade muito grande, eu tenho uma vida interior muito atormentada e tumultuada. A minha lama interior é muito lamacenta (risos), as minhas partes sombreadas… a área de sombra é muita”. Ouvindo isso de um pernambucano da cidade que gerou o Manguebeat, nome advindo dessa urbanização permeada por manguezais, quase impossível não relacionar uma lama ambígua e fértil com a outra.
O Gil Vicente brasileiro que não abre mão do calor do Recife solar, sua cidade-casa de nascença e convicção, não demonstra efusivamente, mas não gosta muito de ser cobrado sobre “matar” mais políticos, continuando a série de autorretratos matando figuras políticas (Inimigos). Apesar do seu descontentamento com a política, como ele constantemente afirma, com o inferno e a farsa social que é a política com todos os escândalos de corrupção e o povo à míngua, sofrendo com doenças facilmente tratáveis e outras mais graves, amargando a ignorância da falta de seus direitos atendidos, com escolas fracas e professores malremunerados, sempre mergulhados no ópio televisivo… “Eu já fiz a minha parte. Se não, eu não faço mais nada, que a lista não tem fim. Cabe a quem achar que deve, continuar… Ou querem que eu só faça isso toda a vida?” E a cada tanto é um e-mail que chega, sugerindo ou pedindo a continuidade dessa lista.
“A Escolinha (de Arte do Recife) não formava artistas, formava gente”, é o que Gil Vicente sempre diz quando relembra, prazeroso, à época em que estudou na instituição. “Eu fiquei muitos anos estudando desenho e pintura na Escolinha, até que já estava expondo, vendendo e ganhando prêmios e fui saindo. Aí, depois teve a (Oficina) Guaianases (de Gravura), onde também aprendi muito e era muito divertido, eu estava sempre com artistas que foram mestres e amigos, a gente estava sempre junto e se retratando nas paisagens em que estávamos ou em retratos mesmo.” Pode-se entender que Gil busca contribuir nesse sentido de formação com todos os que o procuram para trocas intelectuais artísticas, quando observamos a legião de fãs que ele tem entre os jovens artistas e estudantes de artes em quaisquer cidades por onde passa com suas exposições.
A escolha do papel como suporte frequente de muitas obras também indica a direção de contato com o outro: “O papel é mais íntimo de qualquer um, de toda pessoa, todo mundo já viu, tocou, manuseou papel muitas vezes na vida, toda gente sabe o que é papel”.
E prossegue, na insistência da planaridade de sua arte: “O papel é plano. E eu sou totalmente plano, minha arte é plana, acho que eu nasci destituído da terceira dimensão. Até na minha fotografia, tudo que vi e registrei era plano, gráfico”. De fato, o artista tem grande capacidade de achatamento do campo visual, como se pode notar em suas fotografias, nas quais seu olhar funde planos e cria silhuetas e vultos, figuras inexistentes, mas que estão lá, à disposição do olhar atento. “Eu não procuro nada, mas encontro tudo”, é o que Gil Vicente – que não perde um jogo de palavras – declara sobre quando sai para fotografar, atividade assídua para ele há mais de uma década.
Assim como viver a experiência da arquitetura em fotógrafos arquitetos de formação (vide Cristiano Mascaro, para ficar em apenas um exemplo) se traduz em maior contundência e força na construção de imagens fotográficas de arquiteturas e espaços urbanos, experienciar a prática da matéria da pintura e do desenho, em suas diversas técnicas das artes plásticas bidimensionais, como o faz Gil Vicente, reflete-se na sua fotografia. Aqui falo de experienciar considerando as nuances de sentidos diversos típicas de suas origens linguísticas culturais, da experiência entendida como viver, ser atravessado, tocado, atingido, “co-movido”, conforme Jorge Larrosa, quando define a experiência e o saber da experiência. Portanto, a experiência da pintura e do desenho resulta nas fotografias de Gil, que seriam o saber dessa experiência. Basta conferir em cada fotografia a maestria das luzes, cores, texturas, reflexos e atmosferas tão pictóricas ou em cada achatamento de espaços em planos cromáticos justapostos.
Apesar da enfática negação da escultura ou do tridimensional, observo que, além da experimentação escultórica que Gil fez com “esqueletos” de cadeiras, numa grande estrutura de ferro e a numerosa quantidade de objetos encontrados que seleciona, apropria-se e expõe nas paredes e bancadas do ateliê, ele fez os Inimigos em tamanho real, escala 1:1 e que isso indica um pensamento espacial tridimensional no todo do projeto dessa série de autorretratos. Afinal, seriam autorretratos em quaisquer dimensões, mas o impacto na realidade do espectador é outro, pela recriação da espacialidade em tamanho real. Ele concorda com a observação, mas meio displicente e sem crer que sua planaridade – tão almejada e cultivada – seja afetada por isso.
E, para um artista que tanto fez de sua vida seu trabalho, numa autobiografia que se apresentou de diversas formas em sua obra, sem receios de encarar o que “é interior, subjetivo e está da melancolia mais para baixo”, o interesse pelo teste de Rorschach não só fica justificado, como se transforma em obra. Seja na operação visual de mapear cenas nos desenhos dos “rios” brancos entre textos de páginas de livros que originaram a Suíte safada, seja em Espelho meu. Essa, uma longa série de pequenas monotipias em nanquim sobre papel que Gil Vicente iniciou em 2009, e que consiste em desenhos espelhados (duas folhas de papel duplicadas), compostos pelas marcas estampadas por linhas de espessuras variadas embebidas em nanquim com várias gradações de preto e cinza.
A partir dessas monotipias, o artista desenvolveu, por quase dois anos, encerrando há pouco, em meados de 2017, um projeto de pesquisa em monotipias em grande formato, com apoio do Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco, e que terminou com um retorno ao guache. Foi nesse projeto que meu contato com Gil dentro do ateliê se estreitou e pude acompanhar de perto o desenrolar dos processos e operações artísticas.
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Tanto nas atividades pedagógicas para convidados que preparamos no ateliê quanto no processo de organização e documentação do material produzido, foram dias de observação atenta e muito manuseio das obras realizadas – o que exigia demasiadas manobras corporais pela escala dos desenhos e pela orientação mutável das combinações das imagens. Foram dias de muitas conversas e conjecturas, revendo o conjunto de imagens criadas, agrupando e reagrupando, jogando com a diversidade de simetrias.
Nesse processo, foi se tornando muito forte a relação das composições dos Espelhos meus criados com o verso de cartas de baralhos, com cédulas (de dinheiro), com azulejos e papel de parede. Essa percepção nos levou a conceber conjuntamente um grande cartaz lambe-lambe (técnica que utilizo bastante em meu trabalho artístico, combinada com a monotipia recorrente no trabalho de Gil) para a exposição Caleidoscópio, montada em Garanhuns (PE), onde revestimos cerca de 14 metros lineares de paredes com imagens reduzidas e multiplicadas (xerox) da nova série de Espelho meu (2017).
Sobre a primeira parte da pesquisa dessa nova série, realizada em nanquim, tomei nota de vários apontamentos feitos por Gil Vicente:
“A simetria vertical não interessava no momento de projeto, mas foi uma coisa na criação, na execução que levou a essa percepção.”
“Gosto quando linhas finas e delicadas sustentam pesos escuros e densos.”
“Acho fascinante esse negócio de você trocar e modificar múltiplas imagens sem ser um quebra-cabeça. É uma metamorfose.”
“O processo atrai muito, porque você vai mexendo e são muitas opções. Você coloca um e vem com o outro e muda as orientações e encaixes.”
“Quando você tem uma imagem que já é uma duplicação da outra, e você sai mudando, de cada dupla você faz 16 composições espaciais, ou configurações espaciais. Tudo isso se ficar no espelho, na simetria. Se você sair do espelho fiel, você ainda tem as falsas simetrias.”
Sobre a segunda parte da pesquisa para Espelho meu, realizada em guache, e que se constitui uma Homenagem a Lauro de Oliveira, pai do artista, falecido em 2017, tomei as seguintes notas:
“Em A cidade retomada, o vermelho está mandando nas coisas todas, está muito forte. Aí apareceu uma ponte... silhuetas de prédios ou igrejas... dando início ao enredo e formando a história toda. Essa ponte, nesta vista noturna, esta atmosfera…”
O coletor de impostos é a ideia de uma coisa necessária, mas que, ao mesmo tempo, se usa para extorquir a população… tem uma mancha meio isolada na esquerda que vira uma figura que é um vigia de algo muito maior do que o que está sendo coletado, tirado, arrancado… e isso é muito maior do que os impostos. Essa figura de costas, crescendo ou avançando. E as outras duas figuras, a preta e a maior, na parte central, bem mais definidas e que existem dentro dessa maior. Há uma metamorfose, um processo de transformação e formação contínuas.
“Em Uma curva no Oriente, eu pensava na representação da sujeira, da chatice depois de uma felicidade, dessa bagunça dos impostos, das sacanagens dos gestores, mas isso tudo veio nas pinceladas, foi se formando. Tem esses ambientes, essa profundidade de paisagem, de construções… o anteparo azul, que é muro e vira uma água onde flutua essa figura-ilha, que está longe e está perto. Nesse plano verde tem essa barata sebosa, que surgiu porque quis e eu vi que ela tinha que ficar, porque contava essa história toda.”
“As raras rosas é o mais gracioso, o mais festivo. Tinham coisas que precisavam ser abertas, aí eu vim com esse cinza, que é muito delicado e decidido. Como o laranja e também as pinceladas azuladas sobre ele… É tudo muito leve, mas muito decidido. É o mais luminoso. Tudo ia pro alto. Mas resolvi fazer um corte, mas não reto; tem figuras, eu vejo um meio perfil, uma mulher sorrindo… essa figura-mancha magenta, as camadas transparentes próximas.
“A figura verde encoberta – Encontro – tem essa ambiguidade, porque está lá e não está. Tinha o título com a palavra pai, e essas figuras de deus e pai, eu nem sei por quê, mas eu só pensava nessas palavras. Esfinge. É uma figura do oráculo, de deus. E eu fiquei chateado porque a ideia me perseguia e já tinha 20 dias do trabalho, da pintura pronta, e veio um título de Jesus na cabeça e eu perdi… Mas essas são coisas que acontecem neste mergulho. Estas conjecturas deliciosas que vão parecendo, desvanecendo e voltando.”
“Gosto de brincar com o título, e sei que pra uma porção de gente… ninguém vai entender nada. Mas eu não me incomodo de não entender tudo o que faço.”
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Fazer essa versão em grande escala da série Espelho meu trouxe novas situações de desenho, com maior variedade de linhas. Nos pequenos, realizados em anos anteriores, as manchas eram criadas principalmente por duas operações: as gradações de tons das aguadas de nanquim e a soma de linhas sobrepostas de espessuras diferentes, mas de natureza semelhante.
A experiência de novas espessuras, texturas e materialidades de linhas ou até faixas de tecido de algodão tramado, criando linhas desenhadas paralelas, algo similar com o resultado de um buril raiado na gravura, trouxe outras possibilidades gráficas às monotipias. Apesar de parecer mais fácil ou natural que as monotipias pequenas (21 x 15cm + 21 x 15cm) anteriores fossem mutáveis e móveis, como cartas de baralho, essa situação só veio a acontecer agora nos formatos maiores (100 x 70cm + 100 x 70cm).
Na primeira versão dessas monotipias, prevaleceu a atitude do teste de Rorschach, de abrir o papel e obter uma mancha espelhada fixa por um eixo central preestabelecido. A vontade de transformar a composição definida e única, estática – antes executada fixando ambos os papéis com a monotipia espelhada em outro papel maior –, em um desenho mutável, que pode ser manuseado e unido por quaisquer dos lados através da simetria, veio no processo de fazer, pela própria mobilidade do ato mais corporal de manusear e transportar as folhas durante a execução das imagens.
Parecia fazer sentido que cada página se transformasse numa peça cambiante a cada vez que o trabalho era mostrado a algum visitante no ateliê. A orientação espacial fixa, convencional (superior, inferior, direita, esquerda), deixou de fazer sentido; e abriu-se o leque para o jogo das composições mutáveis.
Além disso, algo na própria dimensão das novas composições levou a diferentes ocupações espaciais e relações de linhas. Ainda assim, num dado momento, veio uma sensação de que o trabalho não fosse suficiente na caminhada do desenho como passo posterior aos primeiros espelhos, os pequenos.
A operação de trabalhar com um controle programado na definição das posições e orientações de linhas, mas parcialmente às cegas quanto ao resultado final, até que se retirasse um papel de sobre o outro na construção do desenho pelo espelhamento nas monotipias, talvez tenha levado a um desejo oposto de controle/descontrole ou de fluidez e ritmo na construção da imagem.
Iniciou-se, então, um segundo momento na pesquisa, a pintura com guache. Outro retorno a uma técnica com a qual Gil Vicente sempre teve muita familiaridade e desenvoltura. A maneira como Gil se dispôs a ver as manchas de tinta produzidas pelas pinceladas iniciais e ir aceitando o que cada cor, mancha ou linha ia reivindicando como acontecimento autônomo na pintura, e como elemento integrante e formador de uma narrativa imaginária, foi o acréscimo ou o desvio necessário à liberdade criativa no processo técnico-construtivo da criação de imagens. Interessava essa escuta das imagens. E da escuta pelo olhar formou-se a Homenagem a Lauro de Oliveira.
Fonte: Revista Continente. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Os políticos na mira de Gil Vicente | Público
Artista pernambucano expõe desenhos em que se auto-retrata a executar vários políticos brasileiros e mundiais. A Ordem dos Advogados não gostou e exigiu a retirada das obras da Bienal, que começa hoje em São Paulo.
O que é que há de comum entre a Rainha de Inglaterra, o Papa Bento XVI, os ex-presidentes do Brasil e dos Estados Unidos Fernando Henrique Cardoso e George W. Bush, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan e os actuais presidentes do Irão e do Brasil, respectivamente Mahmoud Ahmadinejad e Lula da Silva? Estão todos na mira de Gil Vicente, o pintor pernambucano que agora também está na mira da Secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e, por via disso, se tornou o principal alvo mediático da 29.ª edição da Bienal de São Paulo, que começa hoje.
Numa série de desenhos a carvão sobre papel intitulada Inimigos, que integra a selecção da bienal, Gil Vicente, artista nascido no Recife, em 1958, auto-retrata-se a executar sumariamente aqueles (e outros) responsáveis políticos, na maioria dos casos apontando-lhes uma pistola à cabeça. A Lula da Silva e Ahmadinejad corta-lhes o pescoço.
A inclusão desta exposição na bienal não agradou à OAB/SP, que emitiu um comunicado a exigir a retirada dos trabalhos de Gil Vicente por considerar que "essas obras, mais do que revelar o desprezo do autor pelas figuras humanas que retrata como suas vítimas, demonstra um desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando à violência". Citado pela imprensa brasileira, o presidente da OAB, Luiz Flávio Borges d"Urso, fala do caso concreto da representação de Lula a ser degolado: "A execução do Presidente nos parece uma incitação ao crime."
Os responsáveis da bienal não acataram a exigência da OAB e reafirmaram a manutenção de Inimigos. Falaram de censura, e o curador Agnaldo Farias classificou a posição da Ordem como "um exagero, um absurdo e um retrocesso", tanto mais por ter partido daquela instituição. Farias, citado pela Gazetadigital de Mato Grosso, lembrou que dizer que os desenhos de Gil Vicente são "uma apologia à violência é o mesmo que dizer que Édipo Rei, a tragédia grega escrita por Sófocles, incentiva o parricídio e o incesto".
Não satisfeita com a posição da bienal, a OAB encaminhou uma denúncia para o Ministério Público de São Paulo.
Pop star
Já o principal visado na polémica, a pop star do momento, como Gil Vicente já é referido, mostrou também a sua surpresa e lembrou que os seus trabalhos foram realizados em 2005-06 e já tinham sido expostos no Recife, Natal e Porto Alegre, sem qualquer alarido de maior.
"Sei que Inimigos tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reacção assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", disse o pintor nordestino, citado pelo site Pernambuco.com. E justificou os seus trabalhos pela "decepção", e mesmo "raiva", que tem sentido perante a governação de todos esses políticos, que - diz - "desprezam as pessoas necessitadas e não se mexem para acabar com a miséria".
A polémica em volta dos seus Inimigos deixou para segundo plano aquela que outra série sua, também presente na bienal, Suite Safada (2007), poderá igualmente provocar, já que se trata de outro conjunto de desenhos com um conteúdo passível de suscitar forte discussão em volta da fronteira entre erotismo e pornografia.
A Bienal de Arte de São Paulo deste ano tem como tema as relações da arte com a política, a partir de um mote tirado de um verso do poeta Jorge de Lima, Há sempre um copo de mar para um homem navegar. Vai decorrer até 12 de Dezembro, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, e reúne 850 obras de 159 artistas. E promete muita polêmica.
Fonte: Público. Consultado pela última vez em 3 de abril de 2025.
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Gil Vicente dá seu veredicto | Tribuna do Norte
Em tempo de eleição a arte dá o seu veredicto: é hora de assassinar o inimigo. Desesperançado na política, o artista plástico pernambucano Gil Vicente, 48 anos, decidiu passar para o papel a raiva acumulada pelas frustrações dos últimos anos. Em nove gravuras criadas através da técnica de carvão sobre papel, o próprio autor se transforma em serial killer e vai matando um a um as personalidades nefastas do seu universo, a maioria políticos. O público terá a oportunidade de conferir o extermínio promovido por Gil Vicente na exposição “Inimigos” de hoje até o dia 1o de outubro no salão de arte contemporânea do Centro Cultural da Casa da Ribeira.
O primeiro a morrer na mão de Vicente é o atual presidente dos EUA, George W Bush. Mas nem o papa Bento 16 escapou da sanha do artista. “Comecei a pensar a fazer uma série a partir do Bush. Primeiro desenhei ele com um tiro no rosto e fui evoluindo até achar que o deveria aparecer de corpo inteiro. Depois achei que eu mesmo deveria matar o Bush. Decidi não dar esse prazer para ninguém”, brincou.
Na lista negra de Gil Vicente, além de Bush e do Papa constam os políticos pernambucanos Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. A frustração do governo Lula, inclusive, lhe custou a perda de um eleitor. “Nunca mais voto na minha vida. Não é uma promessa, é uma decisão! Cansei dessa palhaçada toda, meu voto não muda nada. Pensei até em me movimentar para fazer campanha contra o voto, mas não acredito que isso vá mudar alguma coisa. Não tem mais volta. A partir dessa eleição não vou às urnas. Depois paga uma taxa de uns três reais no TRE e pronto”, afirmou.
Indagado se a “exposição” poderá influir nos próximos trabalhos como que marcando uma nova fase na carreira, ele disse que não. “Mudou meu modo de ver o mundo, refleti mais. Mas não acho que meu trabalho será dividido em antes e depois dessa minha descrença nos políticos. É engraçado porque quando mostrei para o meu pai, perguntei à ele: `o senhor acompanha a política desde a revolução de 1930. Sempre foi assim?´ Ele me olhou no olho e disse que sim, na maior simplicidade. Então, desisti”, conta, lembrando que o pai, aos 82, gostou da obra.
Fonte: Tribuna do Norte. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Gil Vicente celebra 40 anos de carreira com exposição no Museu Murillo La Greca | Prefeitura de Recife
O Museu Murillo La Greca foi o destino de muita gente no fim da tarde deste domingo. O motivo de quem compareceu ao equipamento cultural era conferir a exposição “Gil Vicente: Estudos e Rabiscos”. Além da arte de Gil, que celebra 40 anos de carreira, o público foi brindado também com um show da bandavoou.
Dois dos três salões do Museu foram ocupados pelos trabalhos do artista consagrado e admirado pelos colegas de profissão como José Cláudio e Dayse Pontes, que foram prestigiar a mostra. “Já tinha visto muita coisa que está exposta aqui, mas também há ensaios e obras que eram inéditas pra mim. Considero Gil um exímio desenhista e uma referência. É sempre um prazer ver seus trabalhos”, elogiou Dayse.
Com curadoria da gestora do La Greca, Bruna Pedrosa, a exposição apresenta as inspirações, técnicas e trajetória de Gil Vicente desde a época em que começou a desenvolver seus traços na Escolinha de Arte do Recife, proporcionando um maior entendimento do processo criativo ao mesmo tempo em que realiza um desejo do autor.
“Na década de 80, a Fundaj realizou uma mostra chamada ‘Rabiscos’ com os trabalhos de José Cláudio, depois João Câmara e alguns outros artistas. Eu achei uma maravilha e fiquei por muitos anos com isso na cabeça, pois tinha vontade de mostrar meus riscos, meus ensaios. Quando Bruna me fez o convite, aceitei desde que chamasse Rabiscos!”, contou Vicente, entre risos.
Atendida a “exigência”, depois de seis meses - tempo que durou a escolha das peças, o resultado é cerca de 150 trabalhos que expressam desde o esforço para atingir a perfeição da obra finalizada até o humor de Gil Vicente. “É uma honra encerrar o ano com essa mostra que já na abertura atrai tantos olhares e que traz à cena coisas as quais muitos profissionais têm receio de mostrar que é o início de tudo. Mas a parte mais bonita disso é enxergar que com vontade e esforço, se chega à perfeição, ao êxito”, afirmou Bruna. A exposição pode ser vista até 10 de março de 2013, de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados e domingos, das 13h 17h.
Portal – A exposição integra a programação do lançamento do Portal Artes Visuais Recife, criado pela Gerência de Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife, que acontece no próximo dia 12 de dezembro. “O site foi pensado para reunir informações que possam reconstruir a memória de eventos das artes visuais desenvolvidos pela Prefeitura do Recife. É um carinho com o SPA das Artes pelos seus 10 anos de existência e, claro, com outras atividades como a Semana de Fotografia, Revela Design e Diálogos entre Arte e Público.”, ressaltou a editora do portal, Eva Duarte.
Fonte: Prefeitura de Recife. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Artista 'mata' Lula, FH e outros políticos na obra mais polêmica da Bienal de SP | O Globo
Ninguém foi mais assediado na segunda-feira do que o pernambucano Gil Vicente, por enquanto a grande estrela da 29ª Bienal de São Paulo. Na última sexta-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo fez uma nota de repúdio e ameaçou processar a Fundação Bienal por expor a série de desenhos em carvão "Inimigos", em que Vicente se autorretrata matando personalidades como o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a rainha da Inglaterra Elizabeth II e o papa Bento XVI. A Bienal já afirmou que não vai retirar a obra, exposta anteriormente em quatro outras cidades.
- Parece que voltamos à ditadura. A OAB alegou que a obra incita o crime. Qual é o crime maior, criar essa ficção ou o roubo de dinheiro público dos nossos políticos? - questionou Gil Vicente.
O curador Agnaldo Farias criticou a ação como "tacanha e mesquinha":
- Dizer que a obra incentiva a violência é o mesmo que dizer que "Édipo rei" incentiva o incesto. Só chamará mais atenção para o artista, cujo trabalho tem muito mais qualidade do que essa polêmica.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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"Usei o trabalho de modo terapêutico" | Revista Continente
Conheço Gil Vicente desde os anos 1980, participando dos famosos Festivais de Inverno da UFMG (juntamente com Marcelo Silveira, Alexandre Nóbrega e Rinaldo), a partir daí, sempre que nos encontramos tecemos boas conversas sobre arte, mercado e nossas agonias. Mas uma de nossas conversas mais marcantes se deu em 2001, em uma residência artística ocorrida no Paraná, denominada Faxinal das Artes. Esse evento, patrocinado pelo governo de Jaime Lerner, envolveu curadores como Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos, Daniela Bousso, Cristiana Tejo, entre outros, e reuniu cerca de 100 artistas de todo o Brasil e alguns estrangeiros, no pequeno vilarejo de Faxinal do Céu, uma reserva florestal perto de Curitiba, para uma convivência de 15 dias, com o propósito de propiciar um diálogo maior entre os artistas brasileiros, troca de experiências e desenvolvimento de projetos possíveis naquele tempo e lugar.
Embebido pela riqueza do encontro, resolvi entrevistar artistas com os quais já tinha algum contato a fim de conhecer melhor suas poéticas, procedimentos e aflições. A ideia deu certo, assim, acabei tecendo longas entrevistas com artistas como Shirley Paes Leme, Emanuel Nassar, Francisco Farias, Eduardo Frota, Elida Tessler, Marepe, Marcelo Solá, Karin Lambrecht, Dulce Ozinsky e, claro, Gil Vicente. Essas entrevistas eram abertas; dado o primeiro passo, que era o próprio fato de nos encontrarmos ali disponíveis para uma convivência de duas semanas e participar de bate-papos, de palestras e também de trabalho de ateliê, a conversa tinha um direcionamento claro: mostrar a poética do artista e seus procedimentos, provocá-lo a falar sobre sua formação e produção, tecendo desse modo um olhar reflexivo sobre seu processo criativo e os trabalhos realizados.
Passado o encontro do Faxinal das Artes, essas entrevistas foram guardadas em gavetas e caíram no sono. Gil Vicente, contudo, tem a capacidade de acordar fantasmas. Outrora, já havia lhe enviado o texto digitado para pensarmos a possibilidade de publicação, mas foi por ocasião da sua participação na 27ª Bienal de São Paulo e de uma viagem minha ao Recife, que retomamos nossa conversa de Faxinal, passados mais de 10 anos, para vermos o que havia sido dito, o que não fora dito ainda e o que se poderia dizer.
A conversa fluiu com naturalidade e interesse e chegamos ao texto que se segue. Gil Vicente, além de grande desenhista, é um bom contador de histórias, é divertido e enriquecedor ouvi-lo e saber como, em seu trabalho, ele sempre buscou o encontro com o outro. Seu exercício artístico tem algo do que fala Louise Bourgeois, ao definir a arte como “uma garantia de sanidade”. Poucos artistas têm a coragem de trilhar essa senda, a de aproximar sua arte das deambulações psíquicas e de ver nela uma promessa de sanidade ou, como queria Stendhal, “uma promessa de felicidade”. É este encontro, marcado pela convivência fraterna e espichado no tempo, que trazemos a público agora.
CONTINENTE Você é um artista plástico que vem de uma família de escritores, de um convívio com a literatura. Fale um pouco sobre essa convivência.
GIL VICENTE Meu avô materno, João Vasconcelos, era escritor e critico literário. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e publicou dois livros de contos ambientados no interior do estado. Quando eu nasci, ele estudava a obra de Gil Vicente e sugeriu o nome à minha mãe. Vovô morreu quando eu tinha seis anos. Lamento, pois já éramos bons amigos e, com certeza, teríamos trocado muitas figuras quando me interessei por arte. Depois de criar os filhos, minha mãe estudou Sociologia e Antropologia, com dissertação sobre a relação homem/mulher, na qual propunha redefinições nos papéis da convivência. Ela escreveu ensaios e tem vários livros publicados e premiados, principalmente de poesia, dos quais já ilustrei dois. Meu irmão mais velho é músico e sempre está envolvido com pesquisas ligadas à música pernambucana. Por outro lado, meu pai era muito amigo do escritor Osman Lins e de muitas pessoas da área cultural, como Jomard Muniz de Brito e outros. Nossa casa sempre abrigou boas discussões sobre arte e cultura.
CONTINENTE Há um quadro trágico de sua autoria cujo título é Minha mãe morta. Como é a presença da morte em sua família e para você?
GIL VICENTE Acho que a presença dos pais vivos é muito maior que a presença da morte, essa preocupação nunca foi um problema na família. Sempre tivemos canal aberto para dialogar sobre tudo. Meus pais respeitaram e incentivaram a personalidade de cada filho e também suas opções profissionais. O desenho Minha mãe morta mostra um cachorro lambendo o corpo nu de uma mulher. Não aparece o rosto. É um corpo caído no chão, e eu não compreendo o que representa. A imagem e o título apareceram prontos e até hoje não sei o que significam. Muitos dos meus desenhos, principalmente os nanquins, são tentativas de acessar imagens das camadas mais internas, escuras e enlameadas, porém, desconheço interpretações para eles. Até prefiro trabalhar assim, pois, se estou muito consciente do que cada coisa representa, termino fazendo uma mera ilustração. Muitas pessoas acham esse desenho agressivo, mas outras o veem como uma coisa afetiva e muito carinhosa. Nessa mesma série, fiz outros desenhos pesados, nos quais a morte também é evocada.
CONTINENTE Certa vez você me mostrou uma pintura sua, uma natureza-morta com um cacho de bananas e uma flor sobre uma toalha de mesa em desalinho, e me disse que, psicologicamente, aquele trabalho representava bem uma situação que você passara. Esse fato me fez pensar na relação entre arte e psicanálise, como é essa questão para você?
GIL VICENTE Trabalho com desenho e pintura usando técnicas convencionais, nanquim sobre papel, óleo sobre tela, e temas também convencionais, como a figura, o retrato, a paisagem. Mas o que me interessa é estar mexendo comigo mesmo, estar me investigando, porque, no fim das contas, sempre usei o trabalho de modo terapêutico, para sobreviver como pessoa. Mesmo fazendo uma paisagem ou uma natureza-morta, como eu trabalho intuitivamente, os significados me escapam, há sempre certa narrativa que não consigo acessar racionalmente, mas que está na imagem. Certo dia, olhando distraidamente para uma natureza-morta, me dei conta, assustado, de que ela falava sobre uma namorada recente e me dizia muita coisa. Pouco depois, fui convidado para a mostra Imaginário e sexualidade, na Fundação Joaquim Nabuco, e enviei essa pintura.
CONTINENTE Você estudou arte em diversos lugares, mas, como já disse, uma das figuras importantes nos seus estudos foi o artista José Cláudio. Como foi esse aprendizado?
GIL VICENTE Comecei a estudar bem cedo, e logo fui participando de coletivas, salões, e a vender trabalhos. Estudei seis anos na Escolinha de Arte do Recife e três nos ateliês livres de extensão da UFPE, nos quais fiz desenho e pintura de observação. Depois estudei em Paris, com uma bolsa do governo francês, onde também vi muitas exposições bacanas. Mas as minhas referências estavam sempre nos artistas daqui. Os artistas pernambucanos que mais me atraíam eram Reynaldo Fonseca, Cícero Dias, João Câmara, Ismael Caldas, Adão Pinheiro, Francisco Brennand, Vicente do Rego Monteiro, Zé Cláudio, Samico, Rodolfo Mesquita e outros. Em Zé Cláudio, me encantava o prazer dele com a pintura e o vivo caminho que escolhia para captar o popular. Além do respeitável exemplo profissional, ele escreveu textos sobre meu trabalho, que me abriram caminhos para a compreensão do que faço. Quando minha exposição Desenhos esteve no Mamam, em 1999, acompanhada de um debate com Marcos Lontra e Moacir dos Anjos, antes das falas dos curadores, Zé Cláudio, que estava na plateia, levantou-se e pediu para falar primeiro. Seu depoimento de improviso é um dos textos mais bacanas sobre meu trabalho. Por sorte, um jornalista gravou esse depoimento, que depois foi publicado na primeira edição da Continente. O então editor da revista, Mário Hélio, achou um ótimo título para o texto: Uma descida aos infernos. Ali, Zé Cláudio dá algumas chaves com as quais eu compreendo melhor o que faço. Não o significado das coisas, mas questões da minha relação com a expressão. Sou muito grato a ele e me comovo sempre que falo disso. Eu sempre quis pintar como ele, como Brennand, como Reynaldo Fonseca, e foi assim, perseguindo, correndo atrás de um e de outro, que fui construindo o meu trabalho.
CONTINENTE O retrato é um gênero de pintura, de certa forma, obrigatório para todo pintor na história da arte, mas perdeu seu lugar na arte moderna e contemporânea. No entanto você assume esse desafio, nos anos 1980, ao fazer uma série de retratos de artistas do Recife. Como que foi esse projeto?
GIL VICENTE Aconteceu por acaso. Minha produção da década de 1980 foi quase toda a partir do real, quer dizer, feita de observação. Pintei figuras, paisagens e naturezas-mortas. Meu círculo de amizades era pequeno, era mais familiar. Aos 23 anos, passei um período de grande melancolia. Meus relacionamentos eram muito atormentados, de todos eles eu saía me sentindo muito culpado. Tudo era para mim um tormento e a pintura ficava escura. A partir de 1982, fiz um esforço para sair dessa melancolia e também já tinha começado a fazer terapia. Assim, fui construindo lentamente um equilíbrio e o trabalho foi imprescindível para eu sobreviver. Usei-o para me salvar. Passei a convidar outras pessoas para posarem pra mim. E também comecei a jogar futebol, um esporte coletivo (pois até então o esporte que eu praticava era natação, à noite, que é você sozinho com a cabeça dentro da água, uma coisa muito escura e uterina). Enfim, procurei ter mais contato com o mundo, porque era um desgaste muito grande estar com as pessoas. Acho que a necessidade que eu tinha de desenhar a figura e de aprender a retratar era, desde cedo, um caminho para me aproximar do outro.
CONTINENTE Mas a série mostra também várias pessoas da cultura pernambucana. Como foi feita?
GIL VICENTE Quando consegui clarear, esquentar as cores e dar mais contraste à minha pintura, fiz 10 retratos de artistas amigos. Cada um foi realizado em dois dias, no ateliê do retratado. Chegava sem nenhuma ideia definida e a pose era escolhida naturalmente, numa dinâmica descontraída entre mim, o artista e o espaço. Como de costume, começava desenhando na tela com a tinta mais rala, para acertar as proporções da figura. Se esse desenho estrutural saísse rápido, eu já começava a pintar no primeiro dia. Iniciava pelo rosto, pois sendo a parte mais difícil, preferia enfrentar logo e me livrar dela. No resto do quadro, ia me divertindo, me soltando. Dessa série, acho que no retrato de Samico foi onde me saí melhor.
CONTINENTE E o seu interesse pela fotografia, como surgiu?
GIL VICENTE Fotografo desde os 17 anos. Comecei registrando meus trabalhos para divulgação e arquivo, mas também clicava coisas de rua que me atraíam plasticamente. Em meados de 1998, voltei a fotografar buscando algo diferente do desenho e da pintura. Mas me dei conta, muito claramente, de que todas essas fotos eram de coisas bidimensionais com interesse gráfico e pictórico: portões, paredes, portas... Enfim, compreendi que só me interesso por coisas bidimensionais, pelo plano, e que nasci faltando a dimensão da profundidade. Essas fotos são, na maioria, registros de intervenções populares. Comecei pelas portas metálicas de estabelecimentos populares, que no Recife são pintadas de maneira precária, com restos de tinta de cores quentes. Foi também uma forma de paquerar um pouco com a geometria. Depois de Portas, vieram as séries Passagens (paredes com aberturas que foram fechadas) e Desenhos, todas de origem popular.
CONTINENTE Você fala do desenho e da sua pintura enfatizando o lado íntimo e pessoal, mas o que dizer do lado público desse trabalho? Quero dizer, como, em seu trabalho, você pensa o Brasil, a sociedade brasileira?
GIL VICENTE Como falei, o meu trabalho sempre foi muito autorreferente, feito mais pra me salvar. Por isso nunca me ative à temática social. Não fiz universidade, não estudei história da arte, estética, filosofia, nada disso. Sempre me abasteço mais pelo olho. Então, não sei discutir nenhuma questão social e política brasileira. Eu sou um ser social e participo da vida social do Brasil. Para minha formação como artista, dependi de outros artistas que foram generosos comigo. Da mesma forma, acompanho o trabalho de outros que estão começando. Isso é uma atuação social. Não vejo necessidade de trazer essa preocupação como tema do trabalho. Mas, na medida do possível, participo de projetos e oficinas junto a grupos da comunidade. Comecei a me interessar por música em 1998. É uma coisa diferente do que eu sempre fiz, com outro sistema cognitivo que mexe com a minha cabeça de forma muito lúdica. Mas música é matemática também, e é outra forma de eu dar vazão à minha paquera com a geometria. Assim, acabei ingressando com outras pessoas no Maracatu Leão Coroado, em Águas Compridas, Olinda, e lá procuramos ajudar a comunidade. O grupo no qual entrei fez um site com a história do Leão, levou para a sede uma unidade do projeto CDI (Comitê de Democratização da Informática) e pedimos colaborações de outros profissionais, como o arquiteto Albérico Paes Barreto, que fez gratuitamente um projeto para a nova sede do Leão. Mas não tenho capacidade de dar uma opinião sobre o quadro social e político brasileiro. Muito menos que caminho o Brasil deve tomar, qual a importância das ONGs etc. Tenho feito a minha parte, na medida do possível.
CONTINENTE Há 11 anos, no Faxinal das Artes, você disse que não entendia nada de política e que não vinculava seu trabalho a ela. No entanto, a sua série de desenhos Inimigos, de 2005-2010, é nitidamente ligada à política. Como você iniciou essa série? O que mudou nesse meio tempo?
GIL VICENTE Continuo sem entender nada de política. O que mudou é que perdi a ingenuidade. Desde 1976, quando completei 18 anos, votava com muita esperança em mudanças sociais para o país. Seguidamente tive decepções, e seguidamente renovei as esperanças. Até compreender que a política é um ótimo negócio que faz milionários com o dinheiro público. Além disso, o sistema eleitoral é pífio e nulo. O voto, em si, não tem a menor importância, pois qualquer elemento que for eleito fará obrigatoriamente o mesmo que seus antecessores: roubará para si e para o seu grupo. Um dirigente rouba cerca de dois terços da verba que passa por sua administração, e o resto é aplicado em projetos que beneficiam a classe média e a classe alta. Os pobres e miseráveis seguem sem estudo, sem saúde, sem direitos, sem oportunidades. E sabemos que os problemas sociais de cada estado do Brasil poderiam ser resolvidos apenas com o dinheiro público roubado naquele mesmo estado. Nunca votei esperando mais verbas para a arte e a cultura, mas desejando que, finalmente, o país caminhasse para a justiça social. Como eu era ingênuo! Em 2005, caiu a ficha e compreendi que nada vai mudar, que sempre foi assim e a tendência é piorar. Movido por essa clareza decepcionante, fiz a série Inimigos, e nunca mais compareci em cabines eleitorais para votar. Se a classe política não cumpre o seu dever social, não me sinto obrigado a cumprir o meu “dever cívico” de escolher um entre vários ladrões. Votar é assinar um papel em que está escrito: “Autorizo Fulano de Tal a roubar dinheiro público durante quatro anos sob total proteção da lei”. Estou fora. Não farei mais isso. O descaso com as questões sociais não ocorre apenas no Brasil. Os meus alvos na série Inimigos são governos ou instituições do Brasil e do mundo, representados por seus dirigentes. Eu quis mostrar que na minha região é assim, no meu país é assim e no resto do mundo também é assim. Em certo aspecto, a série Inimigos se parece com trabalhos anteriores, pois foi motivada por incômodos que eu não identificava com clareza. Foi um expurgo. Em julho de 2005, eu havia desenhado uma mão enfiando violentamente um revólver na boca de George Bush. No mês seguinte, fiz o primeiro desenho da série, Autorretrato matando George Bush, que foi exposto em Campinas-SP junto dos desenhos de Lula e Bento XVI. Ainda em dezembro de 2005, expus a série completa na Galeria Mariana Moura, no Recife. Em 2006, mostramos na Casa da Ribeira, em Natal, e, em 2008, no Atelier Subterrânea, em Porto Alegre. Na Bienal de São Paulo, em 2010, incluí o desenho matando Ahmadinejad. A série fala da minha raiva por ter sido enganado durante tanto tempo, e da minha descrença em qualquer alteração ética no quadro político brasileiro.
Fonte: Revista Continente, escrito por Fernando Augusto S. Neto, publicado em 01 de Outubro de 2013. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Biografia do artista pernambucano José Cláudio destaca simplicidade e erudição | Diário de Pernambuco
Os passarinhos, o cotidiano da população rural, as festas populares eas frutas dos engenhos da Zona da Mata de Pernambuco que recortam a infância do artista plástico José Cláudio se tornaram marcas de suas pinturas. Entender a obra é voltar à casa dele em Ipojuca, conhecer a loja do pai, onde aproveitava os embrulhos das mercadorias para desenvolver os primeiros desenhos. A mudança para o Recife, onde estudou e atuou como no Atelier Coletivo, virou o ápice de sua produção artística.
Em Aventuras à mão livre, biografia do artista, o jornalista Júlio Cavani resgata as memórias e constrói a narrativa de vida de um dos maiores nomes da arte de Pernambuco, que experimentou diferentes fases estéticas e múltiplas temáticas, passando pelo desenho, pintura, gravura, escultura, história em quadrinho, murais e literatura. Lançada no último semestre, a obra terá evento com sessão de autógrafo nesta quinta (23), às 19h, na Garrido Galeria (Rua Samuel de Farias, 245, Casa Forte). O livro, editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), integra a coleção Perfis, sobre 15 homens e mulheres que construíram importantes carreiras no estado. O exemplar custa R$ 40.
“Eu já admirava José Cláudio como artista, conhecia parte da obra dele, mas não o conhecia pessoalmente. No primeiro contato, a conversa fluiu bem. Tive sorte de biografar um personagem que estava disposto a falar. Ele conta bem as histórias e reúne bem as memórias de todas as fases de vida. Foi legal fazê-lo revisitar suas histórias. E ele achou interessante alguém disposto a reunir os seus relatos”, conta Júlio Cavani.
“Eu me propus a começar do zero. Encontrei José pela primeira vez sem ter feito muitas pesquisas. Cheguei lá para ouvir a vida dele, usando o próprio como fonte principal. E a partir daí fui seguindo uma ordem cronológica, da infância, adolescência, trabalho, amadurecimento. Após o primeiro contato, passei a ler, entre uma entrevista e outra, um artigo ou livro autobiográfico dele. Esse material servia tanto para me sugerir perguntas quanto me guiar para investigar alguns detalhes”, explica.
Conhecido pelos trabalhos coloridos e figurativos, José Cláudio teve a juventude mergulhada em aprendizados com Abelardo da Hora, Carybé, Mário Cravo, Arnaldo Pedroso d’Horta e Di Cavalcanti, e se consagrou como artista no circuito da arte contemporânea, nas décadas de 1950 a 1970, quando desenvolvia desenhos e gravuras considerados mais experimentais. Durante o período, o Atelier Coletivo foi o grande espaço de experimentação do artista. A fase é abordada em várias passagens no livro, como no capítulo Dos carimbinhos aos quadrinhos, onde o autor descreve a formação e experiência do artista com xilogravuras e a estreia nas tirinhas de HQ.
“Entre as décadas de 1950 e 1970, José Cláudio recebeu prêmios como melhor desenhista do Brasil. Eu queria ter mais contato com as obras produzidas por ele nesse período. Muitas foram vendidas e estão espalhadas pelo país, mas seria importante um estudo com todos os trabalhos que ele produziu nesse período. É de uma riqueza artística muito grande”, salienta Cavani. As narrativas de vida de José Cláudio foram colhidas por Cavani em15 conversas presenciais na casa do artista, com duração média de duas horas, sempre no início da noite. O horário, escolhido por Cláudio, tinha por objetivo livrar a claridade do dia e da tarde, que o artista usa para pintar telas em seu ateliê, que funciona no térreo da casa onde mora, no bairro do Monte, em Olinda.
“Eu procurei transmitir a espontaneidade de José, a forma como ele trabalha e idealiza tudo com naturalidade e calma. Quem conversa com José Cláudio percebe que ele é simples, mas por dentro é profundo e erudito. Ele anda com naturalidade por feiras públicas, da mesma forma que circula em eventos intelectuais. Ele nunca perdeu a simplicidade, apesar de toda riqueza imaterial”, destaca. Para pesquisas estéticas, José Cláudio viajou pelos EUA, Europa, África e diversos estados brasileiros, como Amazonas, Bahia, Rio e São Paulo.
O autor do livro destaca ainda a grande paixão do artista: o carnaval do Recife, a festa que guiou a temática de obras por mais de duas décadas. “Sofri muitas mudanças na minha vida, mas uma coisa não mudou: a idolatria pelo carnaval do Recife. Não tenho mais pernas para acompanhá-lo, mas me sinto inteiro e novo quando ouço um frevo de Zumba, de Capiba e por ai vai...”, escreveu José Cláudio, em crônica publicada na Revista Continente, em novembro de 2017. Em 2012, o pintor foi escolhido como homenageado da folia recifense. Nada mais justo.
Fonte: Diário de Pernambuco. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: UOL. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (20 de abril de 1958, Recife, PE), mais conhecido como Gil Vicente, é um desenhista, gravador, escultor e artista multimídia brasileiro. Autodidata, iniciou sua formação na Escolinha de Arte do Recife e, posteriormente, estudou nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Destacou-se ainda jovem ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda em 1975. Em 1978, realizou sua primeira exposição individual e co-fundou a Oficina Guaianases de Gravura, um marco para a arte gráfica no Nordeste. Sua obra é marcada pelo traço preciso, linguagem visual incisiva e forte crítica política e social. Trabalha com desenho, gravura, escultura, pintura e fotografia, abordando temas como violência, opressão, desigualdade e poder. Entre suas influências estão o barroco, a cultura popular nordestina, o expressionismo e o pensamento crítico contemporâneo. Ganhou notoriedade internacional com a série "Inimigos" (2005), em que aparece armado diante de figuras emblemáticas do poder, como líderes religiosos, políticos e juízes, provocando debates sobre ética, arte e liberdade de expressão. Recebeu prêmios em salões de arte nacionais e internacionais, e sua obra integra acervos como os do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Fundação Joaquim Nabuco e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente | Arremate Arte
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira nasceu em 20 de abril de 1958, no Recife, Pernambuco, e consolidou-se como um dos artistas visuais mais provocativos e consistentes da cena contemporânea brasileira. Desde a infância, demonstrou vocação para o desenho, ingressando aos 14 anos na Escolinha de Arte do Recife, onde teve o primeiro contato com técnicas artísticas. Em 1974, aprofundou sua formação nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desenvolvendo habilidades em pintura, gravura e escultura. Já em 1975, recebeu seu primeiro reconhecimento público, ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, iniciando uma trajetória marcada por premiações e presença constante em exposições de relevância nacional e internacional.
Gil Vicente estreou individualmente em 1978, com a exposição “Pinturas, Desenhos e Gravuras”, na Galeria Abelardo Rodrigues, no Recife. Naquele mesmo ano, fundou a Oficina Guaianases de Gravura, ao lado de outros artistas pernambucanos, criando um espaço de produção e circulação da gravura contemporânea no Nordeste brasileiro. A partir da década de 1980, sua produção amadureceu para uma linguagem própria, caracterizada pela potência gráfica, o domínio do desenho e uma crítica contundente a estruturas de poder e desigualdade social.
Em sua obra, Vicente articula traço preciso com forte carga simbólica e discurso político. Ficou especialmente conhecido pela polêmica série “Inimigos”, iniciada em 2005, na qual retrata a si mesmo apontando armas para figuras emblemáticas do poder político, jurídico e religioso — como George W. Bush, Bento XVI e Fernando Henrique Cardoso — gerando intenso debate na mídia e no meio artístico. A série reafirma sua postura crítica e reafirma a arte como espaço de confronto simbólico e liberdade de expressão.
Gil Vicente é um artista múltiplo: além de desenhista, é também gravador, escultor, cenógrafo e fotógrafo. Suas criações transitam por diferentes suportes e linguagens, mantendo sempre uma conexão visceral com a realidade brasileira. As referências ao barroco, à cultura popular nordestina, à violência urbana e à opressão institucional convivem com uma visualidade densa e refinada.
Participou de exposições em museus e instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Instituto Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte do Rio (MAR). Suas obras também integram acervos importantes, como os da Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Bienal de São Paulo e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente segue ativo, produzindo de maneira intensa e inquieta, e é considerado uma das vozes mais incisivas do Brasil na crítica artística contemporânea. Sua trajetória é um testemunho da arte como resistência, ferramenta de denúncia e reflexão sobre o mundo que habitamos.
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Gil Vicente | Itaú Cultural
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (Recife, Pernambuco, 1958). Pintor, desenhista, gravador, fotógrafo e escultor. Inicia os estudos na Escolinha de Artes do Recife em 1972 e, a partir de 1974, frequenta os ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe). Em 1975, recebe prêmio do Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Pernambuco. Dedica-se às artes plásticas depois de terminar o ensino médio. Em 1978, faz a primeira individual, Pinturas, Desenhos e Gravuras, na Galeria Abelardo Rodrigues, Recife. Nesse ano, participa da fundação da Oficina Guaianases de Gravura. Ganha uma bolsa do governo francês e estuda em Paris, de 1980 a 1981. Em 1984, expõe no 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). Em 1989, em Recife, participa do Ateliê Coletivo, onde faz xilogravuras sob orientação de Gilvan Samico (1928-2013). O documentário Gil Vicente – Ofício e Silêncio é lançado juntamente com a exposição Figuras/Pinturas, em 1996, na Galeria Futuro 25, Recife. Desde então, suas individuais circulam por várias cidades do Brasil. Em 2001, participa da 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre e, no ano seguinte, da 25ª Bienal Internacional de São Paulo.
Análise
A obra de Gil Vicente atém-se a materiais como papel, lápis, carvão, nanquim, guache, óleo e tela e a técnicas tradicionais como gravura, foto ou escultura. Não busca inovar ou misturar materiais e suportes, apesar de reconhecer que na arte contemporânea é possível trabalhar com qualquer coisa1. À simplicidade de meios corresponde a tentativa de diminuir ao máximo o estilo pessoal, que associa a maneirismo2. Na exposição Sessenta Cabeças e Outros Desenhos (1997), utiliza nanquim e carvão sobre papel branco, o que permite jogo de contrastes. Nos desenhos, o fundo preto instaura uma profunda solidão que envolve as figuras. Nas cabeças, ressalta traços angustiados, que desfiguram os rostos, nos quais sempre falta alguma coisa. Na mostra Guaches Recentes (2002), trabalha a cor e a consistência da tinta. Aproveita sobreposições com pinceladas largas e rápidas e explora amplas áreas de cor, embora adote tons contidos. A temática permanece próxima: corpos e objetos que remetem à solidão humana. Na Suíte Safada (2005), o artista cobre de nanquim páginas de livros, desenha sobre elas conteúdo erótico e deixa descobertas palavras que revelam o erotismo oculto nesses veios.
O respeito às características do material é uma faceta do rigor do artista. Melancólico3, segundo diz, não deixa de expressar politicamente suas opiniões. Um exemplo é a série Inimigos (2007), em que se retrata matando líderes políticos como o ex-presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva (1945), o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (1946), o papa Bento XVI (1927) e a rainha do Reino Unido Elizabeth II (1926).
Críticas
"Esta qualidade, que podemos chamar de comunicabilidade, é a característica primordial da produção pictórica desse pernambucano irrequieto, que não se prende ao intelecto, a um estilo ou a uma técnica determinada. Em suas pinturas, o desenho é perfeito, a matéria é trabalhada com capricho, em camadas finas e texturas lisas, que conferem às suas composições um requinte estético que nada tem a ver com o exotismo ou com as formas rebuscadas que povoam a pintura moderna. (...) Frutas, legumes e cenários tropicais são uma constante temática do artista, mas são os retratos e os nus que têm ocupado as suas telas mais recentes. (...) A princípio, sóbrio e contido, Gil agora parece ter amadurecido em seu jeito de viver o cotidiano, soltando-se, rompendo com uma introspecção que sombreava as suas composições". — Luiz Fernando Freire (GIL Vicente. Ventura, Rio de Janeiro: Spala, n.4, p.100-110, jun./ago.1988).
Exposições Individuais
1978 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, desenhos e gravuras, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1980 - Olinda PE - Gil Vicente: pinturas e desenhos, no MAC/PE
1982 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1983 - Belém PA - Gil Vicente: guaches, na Elf Galeria de Arte
1984 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1986 - Recife PE - Gil Vicente: paisagens, na Galeria Futuro 25
1987 - Fortaleza CE - Individual, na Duailibe Galeria
1988 - Recife PE - Gil Vicente: guaches recentes, na Officina Galeria
1990 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Vicente do Rego Monteiro
1993 - Recife PE - Gil Vicente: naturezas mortas, na Galeria Futuro 25
1996 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1997 - Salvador BA - Pinturas Com Modelo, na Paulo Darzé Galeria de Arte
1997 - São Paulo SP - Sessenta Cabeças, na Galeria Nara Roesler
1998 - João Pessoa PB - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no Núcleo de Arte Contemporânea
1998 - Salvador BA - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no MAM/BA
1999 - Recife PE - Gil Vicente: desenhos, no MAMAM
1999 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente: desenhos, no MAM/RJ
2000 - Porto Alegre RS - Gil Vicente: desenhos, no MAC/RS
2003 - Curitiba PR - Individual, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba
2004 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Nara Roesler
Exposições Coletivas
1975 - Olinda PE - Salão dos Novos, no MAC/PE - primeiro prêmio
1976 - Recife PE - 29º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Olinda PE - Gil Vicente, Aprígio e Frederico, na Galeria Corredor
1977 - Recife PE - 30º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco - primeiro prêmio pintura
1977 - Recife PE - Novos Artistas Pernambucanos, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Recife PE - O Desenho e a Gravura, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1978 - Curitiba PR - 1ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1978 - Recife PE - 31º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1979 - Belo Horizonte MG - Litografia Brasileira, na Fundação Palácio das Artes
1979 - Curitiba PR - 2ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1979 - Recife PE - 7 Artistas em Foco, na Galeria de Arte
1979 - Rio de Janeiro RJ - Oficina Guaianases, na Galeria Gravura Brasileira
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1980 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente, Maria Tomaselli e Luciano Pinheiro, no Centro Cultural Candido Mendes
1981 - Piracicaba SP - 14º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, na Casa das Artes Plásticas
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco - prêmio Funarte
1981 - Recife PE - Panorama da Arte Atual em Pernambuco, na Galeria Lula Cardoso Ayres
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Rio de Janeiro RJ - 6º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1984 - São Paulo SP - 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Pintura ao Ar Livre, no Centro Cultural Candido Mendes. Grande Galeria
1986 - Belém PA - 5º Salão Arte Pará, na Fundação Romulo Maiorana
1986 - Brasília DF - Pernambucanos em Brasília, na ECT Galeria de Arte
1986 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria Ibeu Copacabana
1987 - Recife PE - Imaginário e Sexualidade, na Galeria Massangana
1987 - Recife PE - José Cláudio e Gil Vicente, no Museu do Estado de Pernambuco
1988 - Curitiba PR - 8ª Grupo Guaianases, no Museu Municipal de Arte
1988 - Recife PE - Gil Vicente, Gilvan Samico e José Barbosa, na Estudio A Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria de Arte Ibeu Copacabana
1988 - Rio de Janeiro RJ - O Mundo Fascinante dos Pintores Naifes, no Paço Imperial
1989 - Olinda PE - Viva Olinda Viva, no Atelier Coletivo
1989 - Recife PE - Natureza da Pintura, no Centro Cultural Adalgisa Falcão
1989 - São Paulo SP - Cor de Pernambuco, na Ranulpho Galeria de Arte
1990 - Olinda PE - Permanência da Pintura, no Atelier Coletivo
1992 - Rio de Janeiro RJ - Ateliê Coletivo, no Centro Cultural Candido Mendes
1993 - Hamburgo (Alemanha) - Atelier Coletivo, no Km Wolff
1994 - Recife PE - Batalha dos Guararapes: um olhar contemporâneo, no Museu do Estado de Pernambuco
1996 - Recife PE - Arte e Religião, na Galeria Futuro 25
1997 - Recife PE - O Papel da Arte, no Espaço Cultural Bandepe
1997 - Recife PE - Ver o Verso, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães
1997 - São Paulo SP - O Rosto do Outro, na Galeria Nara Roesler
1998 - Fortaleza CE - Ceará e Pernambuco: dragões e leões, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
1998 - Nova York (Estados Unidos) - Art International New Cork, na Neuhoff Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - Vista Assim do Alto Mais Parece um Céu no Chão, no MAM/RJ
1999 - São Paulo SP - Nordestes, no Sesc Pompéia
2000 - Recife PE - Ateliê Pernambuco: homenagem a Bajado e acervo do Mamam, no MAMAM
2001 - Porto Alegre RS - 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Recife PE - Em Sete Tempos, na Amparo Sessenta Galeria de Arte
2002 - São Paulo SP - 25ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
2002 - São Paulo SP - Seis Artistas na 25ª Bienal de São Paulo, na Galeria Nara Roesler
2003 - Madri (Espanha) - Arco/2003, no Parque Ferial Juan Carlos I
2003 - Recife PE - Ver de Novo/Ver o Novo, no MAMAM
2003 - São Paulo SP - Arco 2003, na Galeria Nara Roesler
Fonte: GIL Vicente. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 04 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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No ateliê de Gil Vicente | Revista Continente
Talvez no Recife seja mais habitual – dizem por aqui – este contato próximo de jovens estudantes de arte ou artistas em início de carreira com os artistas já consagrados, os ditos “grandes mestres”, do que em outros circuitos de arte, não sei. Mas sei que, quando cheguei do sul das Minas Gerais para estudar artes visuais em São Paulo, e me desvairei a ver exposições de arte contemporânea para me atualizar do que não havia – nem há – em minha pequena cidade interiorana, eu não podia imaginar que viria a conhecer pessoalmente muitos dos artistas cujas obras estava vendo em museus, centros culturais, instituições e galerias de arte.
Algumas obras me atingiam, outras, nem tanto. Umas, por gostar, outras, pela estranheza ou secura asséptica para meus primeiros passos. Muitos nomes novos para lembrar, muita arte para apreender tudo. Cerca de meia dúzia de artistas, talvez, me impactou mais. Ou se destacou, de um jeito ou de outro, do todo ainda confuso e disforme daquelas informações todas. Não poderia, então, imaginar a vivência próxima que eu teria, por tantos anos, com ao menos dois daqueles artistas.
“Lama escura interior” é um termo usado por Gil Vicente para dizer do cerne de muitos dos seus trabalhos. E era algo próximo desse conteúdo pesado, dramático e expressivo que, naquela época, eu entendia como a arte que queria fazer, que falaria do inominável dos sentimentos humanos.
Quando, em 2002, entrei na sala do artista na 25a Bienal Internacional de São Paulo, a lama escura me tomou, de forma que voltei à sala umas três ou quatro vezes antes de deixar o Pavilhão de Niemeyer. Ecoavam em mim aquela imensidão turva, aquelas águas escuras com figuras, solitárias ou acompanhadas, flutuando à deriva no espaço profundo.
A imensidão dos desenhos, a profundidade dos pretos opacos do nanquim, as luzes pontuais e dramáticas, as manchas como feridas escuras nas figuras, os traços como amarras nos corpos, clausuras, veias. Em palavras, eu não sabia o que diziam os desenhos; sabia o sentido que faziam em meu âmago. Foi quando me ocorreu que eu precisava conhecer o nome do artista: Gil Vicente, dizia a placa na parede. Um sorriso interno amarelo de estudante recém-saída do vestibular: “Ok, será fácil lembrar, O auto da Barca do Inferno, A farsa de Inês Pereira…” Na época, a internet não era tão óbvia ou (oni)presente para pesquisas, lembrar as placas era uma tarefa precisa. Mais alguns momentos e percebo o que poderia ser outra coincidência: o inferno e a farsa talvez fossem alguma direção na interpretação dessas trevas a nanquim.“O nanquim não tem retorno, quando escurece demais, é um trabalho de pensar”, declara o artista.
Ainda assim, sua intimidade com essa tinta e com os pincéis não o impede de, não tão poucas vezes – presenciei –, realizar o que ele chama de “trabalho de um golpe só”, quando resolve a imagem da pintura numa única sessão rápida – ou embate – com os materiais.
Mais de uma década de arte depois, experimento um período de convivência diária – não planejada – no ateliê de Gil Vicente. Tardes, vez em quando adentrando noites, de trabalho, burocracias, cafés e açaís, projetos (dele e meus, que sua abertura frutífera permite), muita prosa (da vida e da arte), muita “greia” (sempre) e muita muriçoca (sempre também).
A elegância da austeridade monástica da mobília de sua casa-ateliê, como já bem definiu Márcio Doctors, me parece combinar com as linhas modernistas da sua arquitetura ampla e geométrica. No entanto, talvez, à primeira vista, contrastem com o requinte de ter um jardim de plantas tão tropicais sempre tão aprumado (Salve, Jones!). Mas esse aparente dissenso, creio, é o que bem explica a figura complexa e receptiva do artista, cuja força carismática e humor ímpar sobrepõem camadas tênues e porosas entre o Gil pessoal e o Gil social. É preciso atenção e delicadeza para conhecer. Aos amigos que convivem de perto, nos momentos reflexivos, ele frequentemente relembra e dá a letra: “Eu até pareço uma figura divertida e leve, mas sinto tudo com uma dificuldade muito grande, eu tenho uma vida interior muito atormentada e tumultuada. A minha lama interior é muito lamacenta (risos), as minhas partes sombreadas… a área de sombra é muita”. Ouvindo isso de um pernambucano da cidade que gerou o Manguebeat, nome advindo dessa urbanização permeada por manguezais, quase impossível não relacionar uma lama ambígua e fértil com a outra.
O Gil Vicente brasileiro que não abre mão do calor do Recife solar, sua cidade-casa de nascença e convicção, não demonstra efusivamente, mas não gosta muito de ser cobrado sobre “matar” mais políticos, continuando a série de autorretratos matando figuras políticas (Inimigos). Apesar do seu descontentamento com a política, como ele constantemente afirma, com o inferno e a farsa social que é a política com todos os escândalos de corrupção e o povo à míngua, sofrendo com doenças facilmente tratáveis e outras mais graves, amargando a ignorância da falta de seus direitos atendidos, com escolas fracas e professores malremunerados, sempre mergulhados no ópio televisivo… “Eu já fiz a minha parte. Se não, eu não faço mais nada, que a lista não tem fim. Cabe a quem achar que deve, continuar… Ou querem que eu só faça isso toda a vida?” E a cada tanto é um e-mail que chega, sugerindo ou pedindo a continuidade dessa lista.
“A Escolinha (de Arte do Recife) não formava artistas, formava gente”, é o que Gil Vicente sempre diz quando relembra, prazeroso, à época em que estudou na instituição. “Eu fiquei muitos anos estudando desenho e pintura na Escolinha, até que já estava expondo, vendendo e ganhando prêmios e fui saindo. Aí, depois teve a (Oficina) Guaianases (de Gravura), onde também aprendi muito e era muito divertido, eu estava sempre com artistas que foram mestres e amigos, a gente estava sempre junto e se retratando nas paisagens em que estávamos ou em retratos mesmo.” Pode-se entender que Gil busca contribuir nesse sentido de formação com todos os que o procuram para trocas intelectuais artísticas, quando observamos a legião de fãs que ele tem entre os jovens artistas e estudantes de artes em quaisquer cidades por onde passa com suas exposições.
A escolha do papel como suporte frequente de muitas obras também indica a direção de contato com o outro: “O papel é mais íntimo de qualquer um, de toda pessoa, todo mundo já viu, tocou, manuseou papel muitas vezes na vida, toda gente sabe o que é papel”.
E prossegue, na insistência da planaridade de sua arte: “O papel é plano. E eu sou totalmente plano, minha arte é plana, acho que eu nasci destituído da terceira dimensão. Até na minha fotografia, tudo que vi e registrei era plano, gráfico”. De fato, o artista tem grande capacidade de achatamento do campo visual, como se pode notar em suas fotografias, nas quais seu olhar funde planos e cria silhuetas e vultos, figuras inexistentes, mas que estão lá, à disposição do olhar atento. “Eu não procuro nada, mas encontro tudo”, é o que Gil Vicente – que não perde um jogo de palavras – declara sobre quando sai para fotografar, atividade assídua para ele há mais de uma década.
Assim como viver a experiência da arquitetura em fotógrafos arquitetos de formação (vide Cristiano Mascaro, para ficar em apenas um exemplo) se traduz em maior contundência e força na construção de imagens fotográficas de arquiteturas e espaços urbanos, experienciar a prática da matéria da pintura e do desenho, em suas diversas técnicas das artes plásticas bidimensionais, como o faz Gil Vicente, reflete-se na sua fotografia. Aqui falo de experienciar considerando as nuances de sentidos diversos típicas de suas origens linguísticas culturais, da experiência entendida como viver, ser atravessado, tocado, atingido, “co-movido”, conforme Jorge Larrosa, quando define a experiência e o saber da experiência. Portanto, a experiência da pintura e do desenho resulta nas fotografias de Gil, que seriam o saber dessa experiência. Basta conferir em cada fotografia a maestria das luzes, cores, texturas, reflexos e atmosferas tão pictóricas ou em cada achatamento de espaços em planos cromáticos justapostos.
Apesar da enfática negação da escultura ou do tridimensional, observo que, além da experimentação escultórica que Gil fez com “esqueletos” de cadeiras, numa grande estrutura de ferro e a numerosa quantidade de objetos encontrados que seleciona, apropria-se e expõe nas paredes e bancadas do ateliê, ele fez os Inimigos em tamanho real, escala 1:1 e que isso indica um pensamento espacial tridimensional no todo do projeto dessa série de autorretratos. Afinal, seriam autorretratos em quaisquer dimensões, mas o impacto na realidade do espectador é outro, pela recriação da espacialidade em tamanho real. Ele concorda com a observação, mas meio displicente e sem crer que sua planaridade – tão almejada e cultivada – seja afetada por isso.
E, para um artista que tanto fez de sua vida seu trabalho, numa autobiografia que se apresentou de diversas formas em sua obra, sem receios de encarar o que “é interior, subjetivo e está da melancolia mais para baixo”, o interesse pelo teste de Rorschach não só fica justificado, como se transforma em obra. Seja na operação visual de mapear cenas nos desenhos dos “rios” brancos entre textos de páginas de livros que originaram a Suíte safada, seja em Espelho meu. Essa, uma longa série de pequenas monotipias em nanquim sobre papel que Gil Vicente iniciou em 2009, e que consiste em desenhos espelhados (duas folhas de papel duplicadas), compostos pelas marcas estampadas por linhas de espessuras variadas embebidas em nanquim com várias gradações de preto e cinza.
A partir dessas monotipias, o artista desenvolveu, por quase dois anos, encerrando há pouco, em meados de 2017, um projeto de pesquisa em monotipias em grande formato, com apoio do Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco, e que terminou com um retorno ao guache. Foi nesse projeto que meu contato com Gil dentro do ateliê se estreitou e pude acompanhar de perto o desenrolar dos processos e operações artísticas.
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Tanto nas atividades pedagógicas para convidados que preparamos no ateliê quanto no processo de organização e documentação do material produzido, foram dias de observação atenta e muito manuseio das obras realizadas – o que exigia demasiadas manobras corporais pela escala dos desenhos e pela orientação mutável das combinações das imagens. Foram dias de muitas conversas e conjecturas, revendo o conjunto de imagens criadas, agrupando e reagrupando, jogando com a diversidade de simetrias.
Nesse processo, foi se tornando muito forte a relação das composições dos Espelhos meus criados com o verso de cartas de baralhos, com cédulas (de dinheiro), com azulejos e papel de parede. Essa percepção nos levou a conceber conjuntamente um grande cartaz lambe-lambe (técnica que utilizo bastante em meu trabalho artístico, combinada com a monotipia recorrente no trabalho de Gil) para a exposição Caleidoscópio, montada em Garanhuns (PE), onde revestimos cerca de 14 metros lineares de paredes com imagens reduzidas e multiplicadas (xerox) da nova série de Espelho meu (2017).
Sobre a primeira parte da pesquisa dessa nova série, realizada em nanquim, tomei nota de vários apontamentos feitos por Gil Vicente:
“A simetria vertical não interessava no momento de projeto, mas foi uma coisa na criação, na execução que levou a essa percepção.”
“Gosto quando linhas finas e delicadas sustentam pesos escuros e densos.”
“Acho fascinante esse negócio de você trocar e modificar múltiplas imagens sem ser um quebra-cabeça. É uma metamorfose.”
“O processo atrai muito, porque você vai mexendo e são muitas opções. Você coloca um e vem com o outro e muda as orientações e encaixes.”
“Quando você tem uma imagem que já é uma duplicação da outra, e você sai mudando, de cada dupla você faz 16 composições espaciais, ou configurações espaciais. Tudo isso se ficar no espelho, na simetria. Se você sair do espelho fiel, você ainda tem as falsas simetrias.”
Sobre a segunda parte da pesquisa para Espelho meu, realizada em guache, e que se constitui uma Homenagem a Lauro de Oliveira, pai do artista, falecido em 2017, tomei as seguintes notas:
“Em A cidade retomada, o vermelho está mandando nas coisas todas, está muito forte. Aí apareceu uma ponte... silhuetas de prédios ou igrejas... dando início ao enredo e formando a história toda. Essa ponte, nesta vista noturna, esta atmosfera…”
O coletor de impostos é a ideia de uma coisa necessária, mas que, ao mesmo tempo, se usa para extorquir a população… tem uma mancha meio isolada na esquerda que vira uma figura que é um vigia de algo muito maior do que o que está sendo coletado, tirado, arrancado… e isso é muito maior do que os impostos. Essa figura de costas, crescendo ou avançando. E as outras duas figuras, a preta e a maior, na parte central, bem mais definidas e que existem dentro dessa maior. Há uma metamorfose, um processo de transformação e formação contínuas.
“Em Uma curva no Oriente, eu pensava na representação da sujeira, da chatice depois de uma felicidade, dessa bagunça dos impostos, das sacanagens dos gestores, mas isso tudo veio nas pinceladas, foi se formando. Tem esses ambientes, essa profundidade de paisagem, de construções… o anteparo azul, que é muro e vira uma água onde flutua essa figura-ilha, que está longe e está perto. Nesse plano verde tem essa barata sebosa, que surgiu porque quis e eu vi que ela tinha que ficar, porque contava essa história toda.”
“As raras rosas é o mais gracioso, o mais festivo. Tinham coisas que precisavam ser abertas, aí eu vim com esse cinza, que é muito delicado e decidido. Como o laranja e também as pinceladas azuladas sobre ele… É tudo muito leve, mas muito decidido. É o mais luminoso. Tudo ia pro alto. Mas resolvi fazer um corte, mas não reto; tem figuras, eu vejo um meio perfil, uma mulher sorrindo… essa figura-mancha magenta, as camadas transparentes próximas.
“A figura verde encoberta – Encontro – tem essa ambiguidade, porque está lá e não está. Tinha o título com a palavra pai, e essas figuras de deus e pai, eu nem sei por quê, mas eu só pensava nessas palavras. Esfinge. É uma figura do oráculo, de deus. E eu fiquei chateado porque a ideia me perseguia e já tinha 20 dias do trabalho, da pintura pronta, e veio um título de Jesus na cabeça e eu perdi… Mas essas são coisas que acontecem neste mergulho. Estas conjecturas deliciosas que vão parecendo, desvanecendo e voltando.”
“Gosto de brincar com o título, e sei que pra uma porção de gente… ninguém vai entender nada. Mas eu não me incomodo de não entender tudo o que faço.”
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Fazer essa versão em grande escala da série Espelho meu trouxe novas situações de desenho, com maior variedade de linhas. Nos pequenos, realizados em anos anteriores, as manchas eram criadas principalmente por duas operações: as gradações de tons das aguadas de nanquim e a soma de linhas sobrepostas de espessuras diferentes, mas de natureza semelhante.
A experiência de novas espessuras, texturas e materialidades de linhas ou até faixas de tecido de algodão tramado, criando linhas desenhadas paralelas, algo similar com o resultado de um buril raiado na gravura, trouxe outras possibilidades gráficas às monotipias. Apesar de parecer mais fácil ou natural que as monotipias pequenas (21 x 15cm + 21 x 15cm) anteriores fossem mutáveis e móveis, como cartas de baralho, essa situação só veio a acontecer agora nos formatos maiores (100 x 70cm + 100 x 70cm).
Na primeira versão dessas monotipias, prevaleceu a atitude do teste de Rorschach, de abrir o papel e obter uma mancha espelhada fixa por um eixo central preestabelecido. A vontade de transformar a composição definida e única, estática – antes executada fixando ambos os papéis com a monotipia espelhada em outro papel maior –, em um desenho mutável, que pode ser manuseado e unido por quaisquer dos lados através da simetria, veio no processo de fazer, pela própria mobilidade do ato mais corporal de manusear e transportar as folhas durante a execução das imagens.
Parecia fazer sentido que cada página se transformasse numa peça cambiante a cada vez que o trabalho era mostrado a algum visitante no ateliê. A orientação espacial fixa, convencional (superior, inferior, direita, esquerda), deixou de fazer sentido; e abriu-se o leque para o jogo das composições mutáveis.
Além disso, algo na própria dimensão das novas composições levou a diferentes ocupações espaciais e relações de linhas. Ainda assim, num dado momento, veio uma sensação de que o trabalho não fosse suficiente na caminhada do desenho como passo posterior aos primeiros espelhos, os pequenos.
A operação de trabalhar com um controle programado na definição das posições e orientações de linhas, mas parcialmente às cegas quanto ao resultado final, até que se retirasse um papel de sobre o outro na construção do desenho pelo espelhamento nas monotipias, talvez tenha levado a um desejo oposto de controle/descontrole ou de fluidez e ritmo na construção da imagem.
Iniciou-se, então, um segundo momento na pesquisa, a pintura com guache. Outro retorno a uma técnica com a qual Gil Vicente sempre teve muita familiaridade e desenvoltura. A maneira como Gil se dispôs a ver as manchas de tinta produzidas pelas pinceladas iniciais e ir aceitando o que cada cor, mancha ou linha ia reivindicando como acontecimento autônomo na pintura, e como elemento integrante e formador de uma narrativa imaginária, foi o acréscimo ou o desvio necessário à liberdade criativa no processo técnico-construtivo da criação de imagens. Interessava essa escuta das imagens. E da escuta pelo olhar formou-se a Homenagem a Lauro de Oliveira.
Fonte: Revista Continente. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Os políticos na mira de Gil Vicente | Público
Artista pernambucano expõe desenhos em que se auto-retrata a executar vários políticos brasileiros e mundiais. A Ordem dos Advogados não gostou e exigiu a retirada das obras da Bienal, que começa hoje em São Paulo.
O que é que há de comum entre a Rainha de Inglaterra, o Papa Bento XVI, os ex-presidentes do Brasil e dos Estados Unidos Fernando Henrique Cardoso e George W. Bush, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan e os actuais presidentes do Irão e do Brasil, respectivamente Mahmoud Ahmadinejad e Lula da Silva? Estão todos na mira de Gil Vicente, o pintor pernambucano que agora também está na mira da Secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e, por via disso, se tornou o principal alvo mediático da 29.ª edição da Bienal de São Paulo, que começa hoje.
Numa série de desenhos a carvão sobre papel intitulada Inimigos, que integra a selecção da bienal, Gil Vicente, artista nascido no Recife, em 1958, auto-retrata-se a executar sumariamente aqueles (e outros) responsáveis políticos, na maioria dos casos apontando-lhes uma pistola à cabeça. A Lula da Silva e Ahmadinejad corta-lhes o pescoço.
A inclusão desta exposição na bienal não agradou à OAB/SP, que emitiu um comunicado a exigir a retirada dos trabalhos de Gil Vicente por considerar que "essas obras, mais do que revelar o desprezo do autor pelas figuras humanas que retrata como suas vítimas, demonstra um desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando à violência". Citado pela imprensa brasileira, o presidente da OAB, Luiz Flávio Borges d"Urso, fala do caso concreto da representação de Lula a ser degolado: "A execução do Presidente nos parece uma incitação ao crime."
Os responsáveis da bienal não acataram a exigência da OAB e reafirmaram a manutenção de Inimigos. Falaram de censura, e o curador Agnaldo Farias classificou a posição da Ordem como "um exagero, um absurdo e um retrocesso", tanto mais por ter partido daquela instituição. Farias, citado pela Gazetadigital de Mato Grosso, lembrou que dizer que os desenhos de Gil Vicente são "uma apologia à violência é o mesmo que dizer que Édipo Rei, a tragédia grega escrita por Sófocles, incentiva o parricídio e o incesto".
Não satisfeita com a posição da bienal, a OAB encaminhou uma denúncia para o Ministério Público de São Paulo.
Pop star
Já o principal visado na polémica, a pop star do momento, como Gil Vicente já é referido, mostrou também a sua surpresa e lembrou que os seus trabalhos foram realizados em 2005-06 e já tinham sido expostos no Recife, Natal e Porto Alegre, sem qualquer alarido de maior.
"Sei que Inimigos tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reacção assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", disse o pintor nordestino, citado pelo site Pernambuco.com. E justificou os seus trabalhos pela "decepção", e mesmo "raiva", que tem sentido perante a governação de todos esses políticos, que - diz - "desprezam as pessoas necessitadas e não se mexem para acabar com a miséria".
A polémica em volta dos seus Inimigos deixou para segundo plano aquela que outra série sua, também presente na bienal, Suite Safada (2007), poderá igualmente provocar, já que se trata de outro conjunto de desenhos com um conteúdo passível de suscitar forte discussão em volta da fronteira entre erotismo e pornografia.
A Bienal de Arte de São Paulo deste ano tem como tema as relações da arte com a política, a partir de um mote tirado de um verso do poeta Jorge de Lima, Há sempre um copo de mar para um homem navegar. Vai decorrer até 12 de Dezembro, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, e reúne 850 obras de 159 artistas. E promete muita polêmica.
Fonte: Público. Consultado pela última vez em 3 de abril de 2025.
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Gil Vicente dá seu veredicto | Tribuna do Norte
Em tempo de eleição a arte dá o seu veredicto: é hora de assassinar o inimigo. Desesperançado na política, o artista plástico pernambucano Gil Vicente, 48 anos, decidiu passar para o papel a raiva acumulada pelas frustrações dos últimos anos. Em nove gravuras criadas através da técnica de carvão sobre papel, o próprio autor se transforma em serial killer e vai matando um a um as personalidades nefastas do seu universo, a maioria políticos. O público terá a oportunidade de conferir o extermínio promovido por Gil Vicente na exposição “Inimigos” de hoje até o dia 1o de outubro no salão de arte contemporânea do Centro Cultural da Casa da Ribeira.
O primeiro a morrer na mão de Vicente é o atual presidente dos EUA, George W Bush. Mas nem o papa Bento 16 escapou da sanha do artista. “Comecei a pensar a fazer uma série a partir do Bush. Primeiro desenhei ele com um tiro no rosto e fui evoluindo até achar que o deveria aparecer de corpo inteiro. Depois achei que eu mesmo deveria matar o Bush. Decidi não dar esse prazer para ninguém”, brincou.
Na lista negra de Gil Vicente, além de Bush e do Papa constam os políticos pernambucanos Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. A frustração do governo Lula, inclusive, lhe custou a perda de um eleitor. “Nunca mais voto na minha vida. Não é uma promessa, é uma decisão! Cansei dessa palhaçada toda, meu voto não muda nada. Pensei até em me movimentar para fazer campanha contra o voto, mas não acredito que isso vá mudar alguma coisa. Não tem mais volta. A partir dessa eleição não vou às urnas. Depois paga uma taxa de uns três reais no TRE e pronto”, afirmou.
Indagado se a “exposição” poderá influir nos próximos trabalhos como que marcando uma nova fase na carreira, ele disse que não. “Mudou meu modo de ver o mundo, refleti mais. Mas não acho que meu trabalho será dividido em antes e depois dessa minha descrença nos políticos. É engraçado porque quando mostrei para o meu pai, perguntei à ele: `o senhor acompanha a política desde a revolução de 1930. Sempre foi assim?´ Ele me olhou no olho e disse que sim, na maior simplicidade. Então, desisti”, conta, lembrando que o pai, aos 82, gostou da obra.
Fonte: Tribuna do Norte. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Gil Vicente celebra 40 anos de carreira com exposição no Museu Murillo La Greca | Prefeitura de Recife
O Museu Murillo La Greca foi o destino de muita gente no fim da tarde deste domingo. O motivo de quem compareceu ao equipamento cultural era conferir a exposição “Gil Vicente: Estudos e Rabiscos”. Além da arte de Gil, que celebra 40 anos de carreira, o público foi brindado também com um show da bandavoou.
Dois dos três salões do Museu foram ocupados pelos trabalhos do artista consagrado e admirado pelos colegas de profissão como José Cláudio e Dayse Pontes, que foram prestigiar a mostra. “Já tinha visto muita coisa que está exposta aqui, mas também há ensaios e obras que eram inéditas pra mim. Considero Gil um exímio desenhista e uma referência. É sempre um prazer ver seus trabalhos”, elogiou Dayse.
Com curadoria da gestora do La Greca, Bruna Pedrosa, a exposição apresenta as inspirações, técnicas e trajetória de Gil Vicente desde a época em que começou a desenvolver seus traços na Escolinha de Arte do Recife, proporcionando um maior entendimento do processo criativo ao mesmo tempo em que realiza um desejo do autor.
“Na década de 80, a Fundaj realizou uma mostra chamada ‘Rabiscos’ com os trabalhos de José Cláudio, depois João Câmara e alguns outros artistas. Eu achei uma maravilha e fiquei por muitos anos com isso na cabeça, pois tinha vontade de mostrar meus riscos, meus ensaios. Quando Bruna me fez o convite, aceitei desde que chamasse Rabiscos!”, contou Vicente, entre risos.
Atendida a “exigência”, depois de seis meses - tempo que durou a escolha das peças, o resultado é cerca de 150 trabalhos que expressam desde o esforço para atingir a perfeição da obra finalizada até o humor de Gil Vicente. “É uma honra encerrar o ano com essa mostra que já na abertura atrai tantos olhares e que traz à cena coisas as quais muitos profissionais têm receio de mostrar que é o início de tudo. Mas a parte mais bonita disso é enxergar que com vontade e esforço, se chega à perfeição, ao êxito”, afirmou Bruna. A exposição pode ser vista até 10 de março de 2013, de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados e domingos, das 13h 17h.
Portal – A exposição integra a programação do lançamento do Portal Artes Visuais Recife, criado pela Gerência de Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife, que acontece no próximo dia 12 de dezembro. “O site foi pensado para reunir informações que possam reconstruir a memória de eventos das artes visuais desenvolvidos pela Prefeitura do Recife. É um carinho com o SPA das Artes pelos seus 10 anos de existência e, claro, com outras atividades como a Semana de Fotografia, Revela Design e Diálogos entre Arte e Público.”, ressaltou a editora do portal, Eva Duarte.
Fonte: Prefeitura de Recife. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Artista 'mata' Lula, FH e outros políticos na obra mais polêmica da Bienal de SP | O Globo
Ninguém foi mais assediado na segunda-feira do que o pernambucano Gil Vicente, por enquanto a grande estrela da 29ª Bienal de São Paulo. Na última sexta-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo fez uma nota de repúdio e ameaçou processar a Fundação Bienal por expor a série de desenhos em carvão "Inimigos", em que Vicente se autorretrata matando personalidades como o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a rainha da Inglaterra Elizabeth II e o papa Bento XVI. A Bienal já afirmou que não vai retirar a obra, exposta anteriormente em quatro outras cidades.
- Parece que voltamos à ditadura. A OAB alegou que a obra incita o crime. Qual é o crime maior, criar essa ficção ou o roubo de dinheiro público dos nossos políticos? - questionou Gil Vicente.
O curador Agnaldo Farias criticou a ação como "tacanha e mesquinha":
- Dizer que a obra incentiva a violência é o mesmo que dizer que "Édipo rei" incentiva o incesto. Só chamará mais atenção para o artista, cujo trabalho tem muito mais qualidade do que essa polêmica.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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"Usei o trabalho de modo terapêutico" | Revista Continente
Conheço Gil Vicente desde os anos 1980, participando dos famosos Festivais de Inverno da UFMG (juntamente com Marcelo Silveira, Alexandre Nóbrega e Rinaldo), a partir daí, sempre que nos encontramos tecemos boas conversas sobre arte, mercado e nossas agonias. Mas uma de nossas conversas mais marcantes se deu em 2001, em uma residência artística ocorrida no Paraná, denominada Faxinal das Artes. Esse evento, patrocinado pelo governo de Jaime Lerner, envolveu curadores como Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos, Daniela Bousso, Cristiana Tejo, entre outros, e reuniu cerca de 100 artistas de todo o Brasil e alguns estrangeiros, no pequeno vilarejo de Faxinal do Céu, uma reserva florestal perto de Curitiba, para uma convivência de 15 dias, com o propósito de propiciar um diálogo maior entre os artistas brasileiros, troca de experiências e desenvolvimento de projetos possíveis naquele tempo e lugar.
Embebido pela riqueza do encontro, resolvi entrevistar artistas com os quais já tinha algum contato a fim de conhecer melhor suas poéticas, procedimentos e aflições. A ideia deu certo, assim, acabei tecendo longas entrevistas com artistas como Shirley Paes Leme, Emanuel Nassar, Francisco Farias, Eduardo Frota, Elida Tessler, Marepe, Marcelo Solá, Karin Lambrecht, Dulce Ozinsky e, claro, Gil Vicente. Essas entrevistas eram abertas; dado o primeiro passo, que era o próprio fato de nos encontrarmos ali disponíveis para uma convivência de duas semanas e participar de bate-papos, de palestras e também de trabalho de ateliê, a conversa tinha um direcionamento claro: mostrar a poética do artista e seus procedimentos, provocá-lo a falar sobre sua formação e produção, tecendo desse modo um olhar reflexivo sobre seu processo criativo e os trabalhos realizados.
Passado o encontro do Faxinal das Artes, essas entrevistas foram guardadas em gavetas e caíram no sono. Gil Vicente, contudo, tem a capacidade de acordar fantasmas. Outrora, já havia lhe enviado o texto digitado para pensarmos a possibilidade de publicação, mas foi por ocasião da sua participação na 27ª Bienal de São Paulo e de uma viagem minha ao Recife, que retomamos nossa conversa de Faxinal, passados mais de 10 anos, para vermos o que havia sido dito, o que não fora dito ainda e o que se poderia dizer.
A conversa fluiu com naturalidade e interesse e chegamos ao texto que se segue. Gil Vicente, além de grande desenhista, é um bom contador de histórias, é divertido e enriquecedor ouvi-lo e saber como, em seu trabalho, ele sempre buscou o encontro com o outro. Seu exercício artístico tem algo do que fala Louise Bourgeois, ao definir a arte como “uma garantia de sanidade”. Poucos artistas têm a coragem de trilhar essa senda, a de aproximar sua arte das deambulações psíquicas e de ver nela uma promessa de sanidade ou, como queria Stendhal, “uma promessa de felicidade”. É este encontro, marcado pela convivência fraterna e espichado no tempo, que trazemos a público agora.
CONTINENTE Você é um artista plástico que vem de uma família de escritores, de um convívio com a literatura. Fale um pouco sobre essa convivência.
GIL VICENTE Meu avô materno, João Vasconcelos, era escritor e critico literário. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e publicou dois livros de contos ambientados no interior do estado. Quando eu nasci, ele estudava a obra de Gil Vicente e sugeriu o nome à minha mãe. Vovô morreu quando eu tinha seis anos. Lamento, pois já éramos bons amigos e, com certeza, teríamos trocado muitas figuras quando me interessei por arte. Depois de criar os filhos, minha mãe estudou Sociologia e Antropologia, com dissertação sobre a relação homem/mulher, na qual propunha redefinições nos papéis da convivência. Ela escreveu ensaios e tem vários livros publicados e premiados, principalmente de poesia, dos quais já ilustrei dois. Meu irmão mais velho é músico e sempre está envolvido com pesquisas ligadas à música pernambucana. Por outro lado, meu pai era muito amigo do escritor Osman Lins e de muitas pessoas da área cultural, como Jomard Muniz de Brito e outros. Nossa casa sempre abrigou boas discussões sobre arte e cultura.
CONTINENTE Há um quadro trágico de sua autoria cujo título é Minha mãe morta. Como é a presença da morte em sua família e para você?
GIL VICENTE Acho que a presença dos pais vivos é muito maior que a presença da morte, essa preocupação nunca foi um problema na família. Sempre tivemos canal aberto para dialogar sobre tudo. Meus pais respeitaram e incentivaram a personalidade de cada filho e também suas opções profissionais. O desenho Minha mãe morta mostra um cachorro lambendo o corpo nu de uma mulher. Não aparece o rosto. É um corpo caído no chão, e eu não compreendo o que representa. A imagem e o título apareceram prontos e até hoje não sei o que significam. Muitos dos meus desenhos, principalmente os nanquins, são tentativas de acessar imagens das camadas mais internas, escuras e enlameadas, porém, desconheço interpretações para eles. Até prefiro trabalhar assim, pois, se estou muito consciente do que cada coisa representa, termino fazendo uma mera ilustração. Muitas pessoas acham esse desenho agressivo, mas outras o veem como uma coisa afetiva e muito carinhosa. Nessa mesma série, fiz outros desenhos pesados, nos quais a morte também é evocada.
CONTINENTE Certa vez você me mostrou uma pintura sua, uma natureza-morta com um cacho de bananas e uma flor sobre uma toalha de mesa em desalinho, e me disse que, psicologicamente, aquele trabalho representava bem uma situação que você passara. Esse fato me fez pensar na relação entre arte e psicanálise, como é essa questão para você?
GIL VICENTE Trabalho com desenho e pintura usando técnicas convencionais, nanquim sobre papel, óleo sobre tela, e temas também convencionais, como a figura, o retrato, a paisagem. Mas o que me interessa é estar mexendo comigo mesmo, estar me investigando, porque, no fim das contas, sempre usei o trabalho de modo terapêutico, para sobreviver como pessoa. Mesmo fazendo uma paisagem ou uma natureza-morta, como eu trabalho intuitivamente, os significados me escapam, há sempre certa narrativa que não consigo acessar racionalmente, mas que está na imagem. Certo dia, olhando distraidamente para uma natureza-morta, me dei conta, assustado, de que ela falava sobre uma namorada recente e me dizia muita coisa. Pouco depois, fui convidado para a mostra Imaginário e sexualidade, na Fundação Joaquim Nabuco, e enviei essa pintura.
CONTINENTE Você estudou arte em diversos lugares, mas, como já disse, uma das figuras importantes nos seus estudos foi o artista José Cláudio. Como foi esse aprendizado?
GIL VICENTE Comecei a estudar bem cedo, e logo fui participando de coletivas, salões, e a vender trabalhos. Estudei seis anos na Escolinha de Arte do Recife e três nos ateliês livres de extensão da UFPE, nos quais fiz desenho e pintura de observação. Depois estudei em Paris, com uma bolsa do governo francês, onde também vi muitas exposições bacanas. Mas as minhas referências estavam sempre nos artistas daqui. Os artistas pernambucanos que mais me atraíam eram Reynaldo Fonseca, Cícero Dias, João Câmara, Ismael Caldas, Adão Pinheiro, Francisco Brennand, Vicente do Rego Monteiro, Zé Cláudio, Samico, Rodolfo Mesquita e outros. Em Zé Cláudio, me encantava o prazer dele com a pintura e o vivo caminho que escolhia para captar o popular. Além do respeitável exemplo profissional, ele escreveu textos sobre meu trabalho, que me abriram caminhos para a compreensão do que faço. Quando minha exposição Desenhos esteve no Mamam, em 1999, acompanhada de um debate com Marcos Lontra e Moacir dos Anjos, antes das falas dos curadores, Zé Cláudio, que estava na plateia, levantou-se e pediu para falar primeiro. Seu depoimento de improviso é um dos textos mais bacanas sobre meu trabalho. Por sorte, um jornalista gravou esse depoimento, que depois foi publicado na primeira edição da Continente. O então editor da revista, Mário Hélio, achou um ótimo título para o texto: Uma descida aos infernos. Ali, Zé Cláudio dá algumas chaves com as quais eu compreendo melhor o que faço. Não o significado das coisas, mas questões da minha relação com a expressão. Sou muito grato a ele e me comovo sempre que falo disso. Eu sempre quis pintar como ele, como Brennand, como Reynaldo Fonseca, e foi assim, perseguindo, correndo atrás de um e de outro, que fui construindo o meu trabalho.
CONTINENTE O retrato é um gênero de pintura, de certa forma, obrigatório para todo pintor na história da arte, mas perdeu seu lugar na arte moderna e contemporânea. No entanto você assume esse desafio, nos anos 1980, ao fazer uma série de retratos de artistas do Recife. Como que foi esse projeto?
GIL VICENTE Aconteceu por acaso. Minha produção da década de 1980 foi quase toda a partir do real, quer dizer, feita de observação. Pintei figuras, paisagens e naturezas-mortas. Meu círculo de amizades era pequeno, era mais familiar. Aos 23 anos, passei um período de grande melancolia. Meus relacionamentos eram muito atormentados, de todos eles eu saía me sentindo muito culpado. Tudo era para mim um tormento e a pintura ficava escura. A partir de 1982, fiz um esforço para sair dessa melancolia e também já tinha começado a fazer terapia. Assim, fui construindo lentamente um equilíbrio e o trabalho foi imprescindível para eu sobreviver. Usei-o para me salvar. Passei a convidar outras pessoas para posarem pra mim. E também comecei a jogar futebol, um esporte coletivo (pois até então o esporte que eu praticava era natação, à noite, que é você sozinho com a cabeça dentro da água, uma coisa muito escura e uterina). Enfim, procurei ter mais contato com o mundo, porque era um desgaste muito grande estar com as pessoas. Acho que a necessidade que eu tinha de desenhar a figura e de aprender a retratar era, desde cedo, um caminho para me aproximar do outro.
CONTINENTE Mas a série mostra também várias pessoas da cultura pernambucana. Como foi feita?
GIL VICENTE Quando consegui clarear, esquentar as cores e dar mais contraste à minha pintura, fiz 10 retratos de artistas amigos. Cada um foi realizado em dois dias, no ateliê do retratado. Chegava sem nenhuma ideia definida e a pose era escolhida naturalmente, numa dinâmica descontraída entre mim, o artista e o espaço. Como de costume, começava desenhando na tela com a tinta mais rala, para acertar as proporções da figura. Se esse desenho estrutural saísse rápido, eu já começava a pintar no primeiro dia. Iniciava pelo rosto, pois sendo a parte mais difícil, preferia enfrentar logo e me livrar dela. No resto do quadro, ia me divertindo, me soltando. Dessa série, acho que no retrato de Samico foi onde me saí melhor.
CONTINENTE E o seu interesse pela fotografia, como surgiu?
GIL VICENTE Fotografo desde os 17 anos. Comecei registrando meus trabalhos para divulgação e arquivo, mas também clicava coisas de rua que me atraíam plasticamente. Em meados de 1998, voltei a fotografar buscando algo diferente do desenho e da pintura. Mas me dei conta, muito claramente, de que todas essas fotos eram de coisas bidimensionais com interesse gráfico e pictórico: portões, paredes, portas... Enfim, compreendi que só me interesso por coisas bidimensionais, pelo plano, e que nasci faltando a dimensão da profundidade. Essas fotos são, na maioria, registros de intervenções populares. Comecei pelas portas metálicas de estabelecimentos populares, que no Recife são pintadas de maneira precária, com restos de tinta de cores quentes. Foi também uma forma de paquerar um pouco com a geometria. Depois de Portas, vieram as séries Passagens (paredes com aberturas que foram fechadas) e Desenhos, todas de origem popular.
CONTINENTE Você fala do desenho e da sua pintura enfatizando o lado íntimo e pessoal, mas o que dizer do lado público desse trabalho? Quero dizer, como, em seu trabalho, você pensa o Brasil, a sociedade brasileira?
GIL VICENTE Como falei, o meu trabalho sempre foi muito autorreferente, feito mais pra me salvar. Por isso nunca me ative à temática social. Não fiz universidade, não estudei história da arte, estética, filosofia, nada disso. Sempre me abasteço mais pelo olho. Então, não sei discutir nenhuma questão social e política brasileira. Eu sou um ser social e participo da vida social do Brasil. Para minha formação como artista, dependi de outros artistas que foram generosos comigo. Da mesma forma, acompanho o trabalho de outros que estão começando. Isso é uma atuação social. Não vejo necessidade de trazer essa preocupação como tema do trabalho. Mas, na medida do possível, participo de projetos e oficinas junto a grupos da comunidade. Comecei a me interessar por música em 1998. É uma coisa diferente do que eu sempre fiz, com outro sistema cognitivo que mexe com a minha cabeça de forma muito lúdica. Mas música é matemática também, e é outra forma de eu dar vazão à minha paquera com a geometria. Assim, acabei ingressando com outras pessoas no Maracatu Leão Coroado, em Águas Compridas, Olinda, e lá procuramos ajudar a comunidade. O grupo no qual entrei fez um site com a história do Leão, levou para a sede uma unidade do projeto CDI (Comitê de Democratização da Informática) e pedimos colaborações de outros profissionais, como o arquiteto Albérico Paes Barreto, que fez gratuitamente um projeto para a nova sede do Leão. Mas não tenho capacidade de dar uma opinião sobre o quadro social e político brasileiro. Muito menos que caminho o Brasil deve tomar, qual a importância das ONGs etc. Tenho feito a minha parte, na medida do possível.
CONTINENTE Há 11 anos, no Faxinal das Artes, você disse que não entendia nada de política e que não vinculava seu trabalho a ela. No entanto, a sua série de desenhos Inimigos, de 2005-2010, é nitidamente ligada à política. Como você iniciou essa série? O que mudou nesse meio tempo?
GIL VICENTE Continuo sem entender nada de política. O que mudou é que perdi a ingenuidade. Desde 1976, quando completei 18 anos, votava com muita esperança em mudanças sociais para o país. Seguidamente tive decepções, e seguidamente renovei as esperanças. Até compreender que a política é um ótimo negócio que faz milionários com o dinheiro público. Além disso, o sistema eleitoral é pífio e nulo. O voto, em si, não tem a menor importância, pois qualquer elemento que for eleito fará obrigatoriamente o mesmo que seus antecessores: roubará para si e para o seu grupo. Um dirigente rouba cerca de dois terços da verba que passa por sua administração, e o resto é aplicado em projetos que beneficiam a classe média e a classe alta. Os pobres e miseráveis seguem sem estudo, sem saúde, sem direitos, sem oportunidades. E sabemos que os problemas sociais de cada estado do Brasil poderiam ser resolvidos apenas com o dinheiro público roubado naquele mesmo estado. Nunca votei esperando mais verbas para a arte e a cultura, mas desejando que, finalmente, o país caminhasse para a justiça social. Como eu era ingênuo! Em 2005, caiu a ficha e compreendi que nada vai mudar, que sempre foi assim e a tendência é piorar. Movido por essa clareza decepcionante, fiz a série Inimigos, e nunca mais compareci em cabines eleitorais para votar. Se a classe política não cumpre o seu dever social, não me sinto obrigado a cumprir o meu “dever cívico” de escolher um entre vários ladrões. Votar é assinar um papel em que está escrito: “Autorizo Fulano de Tal a roubar dinheiro público durante quatro anos sob total proteção da lei”. Estou fora. Não farei mais isso. O descaso com as questões sociais não ocorre apenas no Brasil. Os meus alvos na série Inimigos são governos ou instituições do Brasil e do mundo, representados por seus dirigentes. Eu quis mostrar que na minha região é assim, no meu país é assim e no resto do mundo também é assim. Em certo aspecto, a série Inimigos se parece com trabalhos anteriores, pois foi motivada por incômodos que eu não identificava com clareza. Foi um expurgo. Em julho de 2005, eu havia desenhado uma mão enfiando violentamente um revólver na boca de George Bush. No mês seguinte, fiz o primeiro desenho da série, Autorretrato matando George Bush, que foi exposto em Campinas-SP junto dos desenhos de Lula e Bento XVI. Ainda em dezembro de 2005, expus a série completa na Galeria Mariana Moura, no Recife. Em 2006, mostramos na Casa da Ribeira, em Natal, e, em 2008, no Atelier Subterrânea, em Porto Alegre. Na Bienal de São Paulo, em 2010, incluí o desenho matando Ahmadinejad. A série fala da minha raiva por ter sido enganado durante tanto tempo, e da minha descrença em qualquer alteração ética no quadro político brasileiro.
Fonte: Revista Continente, escrito por Fernando Augusto S. Neto, publicado em 01 de Outubro de 2013. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Biografia do artista pernambucano José Cláudio destaca simplicidade e erudição | Diário de Pernambuco
Os passarinhos, o cotidiano da população rural, as festas populares eas frutas dos engenhos da Zona da Mata de Pernambuco que recortam a infância do artista plástico José Cláudio se tornaram marcas de suas pinturas. Entender a obra é voltar à casa dele em Ipojuca, conhecer a loja do pai, onde aproveitava os embrulhos das mercadorias para desenvolver os primeiros desenhos. A mudança para o Recife, onde estudou e atuou como no Atelier Coletivo, virou o ápice de sua produção artística.
Em Aventuras à mão livre, biografia do artista, o jornalista Júlio Cavani resgata as memórias e constrói a narrativa de vida de um dos maiores nomes da arte de Pernambuco, que experimentou diferentes fases estéticas e múltiplas temáticas, passando pelo desenho, pintura, gravura, escultura, história em quadrinho, murais e literatura. Lançada no último semestre, a obra terá evento com sessão de autógrafo nesta quinta (23), às 19h, na Garrido Galeria (Rua Samuel de Farias, 245, Casa Forte). O livro, editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), integra a coleção Perfis, sobre 15 homens e mulheres que construíram importantes carreiras no estado. O exemplar custa R$ 40.
“Eu já admirava José Cláudio como artista, conhecia parte da obra dele, mas não o conhecia pessoalmente. No primeiro contato, a conversa fluiu bem. Tive sorte de biografar um personagem que estava disposto a falar. Ele conta bem as histórias e reúne bem as memórias de todas as fases de vida. Foi legal fazê-lo revisitar suas histórias. E ele achou interessante alguém disposto a reunir os seus relatos”, conta Júlio Cavani.
“Eu me propus a começar do zero. Encontrei José pela primeira vez sem ter feito muitas pesquisas. Cheguei lá para ouvir a vida dele, usando o próprio como fonte principal. E a partir daí fui seguindo uma ordem cronológica, da infância, adolescência, trabalho, amadurecimento. Após o primeiro contato, passei a ler, entre uma entrevista e outra, um artigo ou livro autobiográfico dele. Esse material servia tanto para me sugerir perguntas quanto me guiar para investigar alguns detalhes”, explica.
Conhecido pelos trabalhos coloridos e figurativos, José Cláudio teve a juventude mergulhada em aprendizados com Abelardo da Hora, Carybé, Mário Cravo, Arnaldo Pedroso d’Horta e Di Cavalcanti, e se consagrou como artista no circuito da arte contemporânea, nas décadas de 1950 a 1970, quando desenvolvia desenhos e gravuras considerados mais experimentais. Durante o período, o Atelier Coletivo foi o grande espaço de experimentação do artista. A fase é abordada em várias passagens no livro, como no capítulo Dos carimbinhos aos quadrinhos, onde o autor descreve a formação e experiência do artista com xilogravuras e a estreia nas tirinhas de HQ.
“Entre as décadas de 1950 e 1970, José Cláudio recebeu prêmios como melhor desenhista do Brasil. Eu queria ter mais contato com as obras produzidas por ele nesse período. Muitas foram vendidas e estão espalhadas pelo país, mas seria importante um estudo com todos os trabalhos que ele produziu nesse período. É de uma riqueza artística muito grande”, salienta Cavani. As narrativas de vida de José Cláudio foram colhidas por Cavani em15 conversas presenciais na casa do artista, com duração média de duas horas, sempre no início da noite. O horário, escolhido por Cláudio, tinha por objetivo livrar a claridade do dia e da tarde, que o artista usa para pintar telas em seu ateliê, que funciona no térreo da casa onde mora, no bairro do Monte, em Olinda.
“Eu procurei transmitir a espontaneidade de José, a forma como ele trabalha e idealiza tudo com naturalidade e calma. Quem conversa com José Cláudio percebe que ele é simples, mas por dentro é profundo e erudito. Ele anda com naturalidade por feiras públicas, da mesma forma que circula em eventos intelectuais. Ele nunca perdeu a simplicidade, apesar de toda riqueza imaterial”, destaca. Para pesquisas estéticas, José Cláudio viajou pelos EUA, Europa, África e diversos estados brasileiros, como Amazonas, Bahia, Rio e São Paulo.
O autor do livro destaca ainda a grande paixão do artista: o carnaval do Recife, a festa que guiou a temática de obras por mais de duas décadas. “Sofri muitas mudanças na minha vida, mas uma coisa não mudou: a idolatria pelo carnaval do Recife. Não tenho mais pernas para acompanhá-lo, mas me sinto inteiro e novo quando ouço um frevo de Zumba, de Capiba e por ai vai...”, escreveu José Cláudio, em crônica publicada na Revista Continente, em novembro de 2017. Em 2012, o pintor foi escolhido como homenageado da folia recifense. Nada mais justo.
Fonte: Diário de Pernambuco. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: UOL. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (20 de abril de 1958, Recife, PE), mais conhecido como Gil Vicente, é um desenhista, gravador, escultor e artista multimídia brasileiro. Autodidata, iniciou sua formação na Escolinha de Arte do Recife e, posteriormente, estudou nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Destacou-se ainda jovem ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda em 1975. Em 1978, realizou sua primeira exposição individual e co-fundou a Oficina Guaianases de Gravura, um marco para a arte gráfica no Nordeste. Sua obra é marcada pelo traço preciso, linguagem visual incisiva e forte crítica política e social. Trabalha com desenho, gravura, escultura, pintura e fotografia, abordando temas como violência, opressão, desigualdade e poder. Entre suas influências estão o barroco, a cultura popular nordestina, o expressionismo e o pensamento crítico contemporâneo. Ganhou notoriedade internacional com a série "Inimigos" (2005), em que aparece armado diante de figuras emblemáticas do poder, como líderes religiosos, políticos e juízes, provocando debates sobre ética, arte e liberdade de expressão. Recebeu prêmios em salões de arte nacionais e internacionais, e sua obra integra acervos como os do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural, Fundação Joaquim Nabuco e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente | Arremate Arte
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira nasceu em 20 de abril de 1958, no Recife, Pernambuco, e consolidou-se como um dos artistas visuais mais provocativos e consistentes da cena contemporânea brasileira. Desde a infância, demonstrou vocação para o desenho, ingressando aos 14 anos na Escolinha de Arte do Recife, onde teve o primeiro contato com técnicas artísticas. Em 1974, aprofundou sua formação nos ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desenvolvendo habilidades em pintura, gravura e escultura. Já em 1975, recebeu seu primeiro reconhecimento público, ao vencer o Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, iniciando uma trajetória marcada por premiações e presença constante em exposições de relevância nacional e internacional.
Gil Vicente estreou individualmente em 1978, com a exposição “Pinturas, Desenhos e Gravuras”, na Galeria Abelardo Rodrigues, no Recife. Naquele mesmo ano, fundou a Oficina Guaianases de Gravura, ao lado de outros artistas pernambucanos, criando um espaço de produção e circulação da gravura contemporânea no Nordeste brasileiro. A partir da década de 1980, sua produção amadureceu para uma linguagem própria, caracterizada pela potência gráfica, o domínio do desenho e uma crítica contundente a estruturas de poder e desigualdade social.
Em sua obra, Vicente articula traço preciso com forte carga simbólica e discurso político. Ficou especialmente conhecido pela polêmica série “Inimigos”, iniciada em 2005, na qual retrata a si mesmo apontando armas para figuras emblemáticas do poder político, jurídico e religioso — como George W. Bush, Bento XVI e Fernando Henrique Cardoso — gerando intenso debate na mídia e no meio artístico. A série reafirma sua postura crítica e reafirma a arte como espaço de confronto simbólico e liberdade de expressão.
Gil Vicente é um artista múltiplo: além de desenhista, é também gravador, escultor, cenógrafo e fotógrafo. Suas criações transitam por diferentes suportes e linguagens, mantendo sempre uma conexão visceral com a realidade brasileira. As referências ao barroco, à cultura popular nordestina, à violência urbana e à opressão institucional convivem com uma visualidade densa e refinada.
Participou de exposições em museus e instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Museu de Arte de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Instituto Itaú Cultural, Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte do Rio (MAR). Suas obras também integram acervos importantes, como os da Fundação Joaquim Nabuco, Fundação Bienal de São Paulo e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife.
Gil Vicente segue ativo, produzindo de maneira intensa e inquieta, e é considerado uma das vozes mais incisivas do Brasil na crítica artística contemporânea. Sua trajetória é um testemunho da arte como resistência, ferramenta de denúncia e reflexão sobre o mundo que habitamos.
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Gil Vicente | Itaú Cultural
Gil Vicente Vasconcelos de Oliveira (Recife, Pernambuco, 1958). Pintor, desenhista, gravador, fotógrafo e escultor. Inicia os estudos na Escolinha de Artes do Recife em 1972 e, a partir de 1974, frequenta os ateliês da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe). Em 1975, recebe prêmio do Salão dos Novos do Museu de Arte Contemporânea de Olinda, Pernambuco. Dedica-se às artes plásticas depois de terminar o ensino médio. Em 1978, faz a primeira individual, Pinturas, Desenhos e Gravuras, na Galeria Abelardo Rodrigues, Recife. Nesse ano, participa da fundação da Oficina Guaianases de Gravura. Ganha uma bolsa do governo francês e estuda em Paris, de 1980 a 1981. Em 1984, expõe no 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). Em 1989, em Recife, participa do Ateliê Coletivo, onde faz xilogravuras sob orientação de Gilvan Samico (1928-2013). O documentário Gil Vicente – Ofício e Silêncio é lançado juntamente com a exposição Figuras/Pinturas, em 1996, na Galeria Futuro 25, Recife. Desde então, suas individuais circulam por várias cidades do Brasil. Em 2001, participa da 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre e, no ano seguinte, da 25ª Bienal Internacional de São Paulo.
Análise
A obra de Gil Vicente atém-se a materiais como papel, lápis, carvão, nanquim, guache, óleo e tela e a técnicas tradicionais como gravura, foto ou escultura. Não busca inovar ou misturar materiais e suportes, apesar de reconhecer que na arte contemporânea é possível trabalhar com qualquer coisa1. À simplicidade de meios corresponde a tentativa de diminuir ao máximo o estilo pessoal, que associa a maneirismo2. Na exposição Sessenta Cabeças e Outros Desenhos (1997), utiliza nanquim e carvão sobre papel branco, o que permite jogo de contrastes. Nos desenhos, o fundo preto instaura uma profunda solidão que envolve as figuras. Nas cabeças, ressalta traços angustiados, que desfiguram os rostos, nos quais sempre falta alguma coisa. Na mostra Guaches Recentes (2002), trabalha a cor e a consistência da tinta. Aproveita sobreposições com pinceladas largas e rápidas e explora amplas áreas de cor, embora adote tons contidos. A temática permanece próxima: corpos e objetos que remetem à solidão humana. Na Suíte Safada (2005), o artista cobre de nanquim páginas de livros, desenha sobre elas conteúdo erótico e deixa descobertas palavras que revelam o erotismo oculto nesses veios.
O respeito às características do material é uma faceta do rigor do artista. Melancólico3, segundo diz, não deixa de expressar politicamente suas opiniões. Um exemplo é a série Inimigos (2007), em que se retrata matando líderes políticos como o ex-presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva (1945), o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush (1946), o papa Bento XVI (1927) e a rainha do Reino Unido Elizabeth II (1926).
Críticas
"Esta qualidade, que podemos chamar de comunicabilidade, é a característica primordial da produção pictórica desse pernambucano irrequieto, que não se prende ao intelecto, a um estilo ou a uma técnica determinada. Em suas pinturas, o desenho é perfeito, a matéria é trabalhada com capricho, em camadas finas e texturas lisas, que conferem às suas composições um requinte estético que nada tem a ver com o exotismo ou com as formas rebuscadas que povoam a pintura moderna. (...) Frutas, legumes e cenários tropicais são uma constante temática do artista, mas são os retratos e os nus que têm ocupado as suas telas mais recentes. (...) A princípio, sóbrio e contido, Gil agora parece ter amadurecido em seu jeito de viver o cotidiano, soltando-se, rompendo com uma introspecção que sombreava as suas composições". — Luiz Fernando Freire (GIL Vicente. Ventura, Rio de Janeiro: Spala, n.4, p.100-110, jun./ago.1988).
Exposições Individuais
1978 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, desenhos e gravuras, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1980 - Olinda PE - Gil Vicente: pinturas e desenhos, no MAC/PE
1982 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1983 - Belém PA - Gil Vicente: guaches, na Elf Galeria de Arte
1984 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1986 - Recife PE - Gil Vicente: paisagens, na Galeria Futuro 25
1987 - Fortaleza CE - Individual, na Duailibe Galeria
1988 - Recife PE - Gil Vicente: guaches recentes, na Officina Galeria
1990 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Vicente do Rego Monteiro
1993 - Recife PE - Gil Vicente: naturezas mortas, na Galeria Futuro 25
1996 - Recife PE - Gil Vicente: pinturas, na Galeria Futuro 25
1997 - Salvador BA - Pinturas Com Modelo, na Paulo Darzé Galeria de Arte
1997 - São Paulo SP - Sessenta Cabeças, na Galeria Nara Roesler
1998 - João Pessoa PB - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no Núcleo de Arte Contemporânea
1998 - Salvador BA - Sessenta Cabeças e Outros Desenhos, no MAM/BA
1999 - Recife PE - Gil Vicente: desenhos, no MAMAM
1999 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente: desenhos, no MAM/RJ
2000 - Porto Alegre RS - Gil Vicente: desenhos, no MAC/RS
2003 - Curitiba PR - Individual, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba
2004 - São Paulo SP - Individual, na Galeria Nara Roesler
Exposições Coletivas
1975 - Olinda PE - Salão dos Novos, no MAC/PE - primeiro prêmio
1976 - Recife PE - 29º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Olinda PE - Gil Vicente, Aprígio e Frederico, na Galeria Corredor
1977 - Recife PE - 30º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco - primeiro prêmio pintura
1977 - Recife PE - Novos Artistas Pernambucanos, no Museu do Estado de Pernambuco
1977 - Recife PE - O Desenho e a Gravura, na Abelardo Rodrigues Galeria de Artes
1978 - Curitiba PR - 1ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1978 - Recife PE - 31º Salão Oficial de Arte, no Museu do Estado de Pernambuco
1979 - Belo Horizonte MG - Litografia Brasileira, na Fundação Palácio das Artes
1979 - Curitiba PR - 2ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, no Centro de Criatividade
1979 - Recife PE - 7 Artistas em Foco, na Galeria de Arte
1979 - Rio de Janeiro RJ - Oficina Guaianases, na Galeria Gravura Brasileira
1980 - Curitiba PR - 37º Salão Paranaense, no Teatro Guaíra
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas
1980 - Rio de Janeiro RJ - 3º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MNBA
1980 - Rio de Janeiro RJ - Gil Vicente, Maria Tomaselli e Luciano Pinheiro, no Centro Cultural Candido Mendes
1981 - Piracicaba SP - 14º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, na Casa das Artes Plásticas
1981 - Recife PE - 34º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no Museu do Estado de Pernambuco - prêmio Funarte
1981 - Recife PE - Panorama da Arte Atual em Pernambuco, na Galeria Lula Cardoso Ayres
1982 - Rio de Janeiro RJ - 5º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1983 - Rio de Janeiro RJ - 6º Salão Nacional de Artes Plásticas, no MAM/RJ
1984 - São Paulo SP - 15º Panorama da Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1985 - Rio de Janeiro RJ - Pintura ao Ar Livre, no Centro Cultural Candido Mendes. Grande Galeria
1986 - Belém PA - 5º Salão Arte Pará, na Fundação Romulo Maiorana
1986 - Brasília DF - Pernambucanos em Brasília, na ECT Galeria de Arte
1986 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria Ibeu Copacabana
1987 - Recife PE - Imaginário e Sexualidade, na Galeria Massangana
1987 - Recife PE - José Cláudio e Gil Vicente, no Museu do Estado de Pernambuco
1988 - Curitiba PR - 8ª Grupo Guaianases, no Museu Municipal de Arte
1988 - Recife PE - Gil Vicente, Gilvan Samico e José Barbosa, na Estudio A Galeria de Arte
1988 - Rio de Janeiro RJ - Cinco Pernambucanos, na Galeria de Arte Ibeu Copacabana
1988 - Rio de Janeiro RJ - O Mundo Fascinante dos Pintores Naifes, no Paço Imperial
1989 - Olinda PE - Viva Olinda Viva, no Atelier Coletivo
1989 - Recife PE - Natureza da Pintura, no Centro Cultural Adalgisa Falcão
1989 - São Paulo SP - Cor de Pernambuco, na Ranulpho Galeria de Arte
1990 - Olinda PE - Permanência da Pintura, no Atelier Coletivo
1992 - Rio de Janeiro RJ - Ateliê Coletivo, no Centro Cultural Candido Mendes
1993 - Hamburgo (Alemanha) - Atelier Coletivo, no Km Wolff
1994 - Recife PE - Batalha dos Guararapes: um olhar contemporâneo, no Museu do Estado de Pernambuco
1996 - Recife PE - Arte e Religião, na Galeria Futuro 25
1997 - Recife PE - O Papel da Arte, no Espaço Cultural Bandepe
1997 - Recife PE - Ver o Verso, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães
1997 - São Paulo SP - O Rosto do Outro, na Galeria Nara Roesler
1998 - Fortaleza CE - Ceará e Pernambuco: dragões e leões, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
1998 - Nova York (Estados Unidos) - Art International New Cork, na Neuhoff Gallery
1998 - Rio de Janeiro RJ - Vista Assim do Alto Mais Parece um Céu no Chão, no MAM/RJ
1999 - São Paulo SP - Nordestes, no Sesc Pompéia
2000 - Recife PE - Ateliê Pernambuco: homenagem a Bajado e acervo do Mamam, no MAMAM
2001 - Porto Alegre RS - 3ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul
2002 - Curitiba PR - Obras do Faxinal das Artes, no MAC/PR
2002 - Recife PE - Em Sete Tempos, na Amparo Sessenta Galeria de Arte
2002 - São Paulo SP - 25ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
2002 - São Paulo SP - Seis Artistas na 25ª Bienal de São Paulo, na Galeria Nara Roesler
2003 - Madri (Espanha) - Arco/2003, no Parque Ferial Juan Carlos I
2003 - Recife PE - Ver de Novo/Ver o Novo, no MAMAM
2003 - São Paulo SP - Arco 2003, na Galeria Nara Roesler
Fonte: GIL Vicente. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Acesso em: 04 de abril de 2025. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
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No ateliê de Gil Vicente | Revista Continente
Talvez no Recife seja mais habitual – dizem por aqui – este contato próximo de jovens estudantes de arte ou artistas em início de carreira com os artistas já consagrados, os ditos “grandes mestres”, do que em outros circuitos de arte, não sei. Mas sei que, quando cheguei do sul das Minas Gerais para estudar artes visuais em São Paulo, e me desvairei a ver exposições de arte contemporânea para me atualizar do que não havia – nem há – em minha pequena cidade interiorana, eu não podia imaginar que viria a conhecer pessoalmente muitos dos artistas cujas obras estava vendo em museus, centros culturais, instituições e galerias de arte.
Algumas obras me atingiam, outras, nem tanto. Umas, por gostar, outras, pela estranheza ou secura asséptica para meus primeiros passos. Muitos nomes novos para lembrar, muita arte para apreender tudo. Cerca de meia dúzia de artistas, talvez, me impactou mais. Ou se destacou, de um jeito ou de outro, do todo ainda confuso e disforme daquelas informações todas. Não poderia, então, imaginar a vivência próxima que eu teria, por tantos anos, com ao menos dois daqueles artistas.
“Lama escura interior” é um termo usado por Gil Vicente para dizer do cerne de muitos dos seus trabalhos. E era algo próximo desse conteúdo pesado, dramático e expressivo que, naquela época, eu entendia como a arte que queria fazer, que falaria do inominável dos sentimentos humanos.
Quando, em 2002, entrei na sala do artista na 25a Bienal Internacional de São Paulo, a lama escura me tomou, de forma que voltei à sala umas três ou quatro vezes antes de deixar o Pavilhão de Niemeyer. Ecoavam em mim aquela imensidão turva, aquelas águas escuras com figuras, solitárias ou acompanhadas, flutuando à deriva no espaço profundo.
A imensidão dos desenhos, a profundidade dos pretos opacos do nanquim, as luzes pontuais e dramáticas, as manchas como feridas escuras nas figuras, os traços como amarras nos corpos, clausuras, veias. Em palavras, eu não sabia o que diziam os desenhos; sabia o sentido que faziam em meu âmago. Foi quando me ocorreu que eu precisava conhecer o nome do artista: Gil Vicente, dizia a placa na parede. Um sorriso interno amarelo de estudante recém-saída do vestibular: “Ok, será fácil lembrar, O auto da Barca do Inferno, A farsa de Inês Pereira…” Na época, a internet não era tão óbvia ou (oni)presente para pesquisas, lembrar as placas era uma tarefa precisa. Mais alguns momentos e percebo o que poderia ser outra coincidência: o inferno e a farsa talvez fossem alguma direção na interpretação dessas trevas a nanquim.“O nanquim não tem retorno, quando escurece demais, é um trabalho de pensar”, declara o artista.
Ainda assim, sua intimidade com essa tinta e com os pincéis não o impede de, não tão poucas vezes – presenciei –, realizar o que ele chama de “trabalho de um golpe só”, quando resolve a imagem da pintura numa única sessão rápida – ou embate – com os materiais.
Mais de uma década de arte depois, experimento um período de convivência diária – não planejada – no ateliê de Gil Vicente. Tardes, vez em quando adentrando noites, de trabalho, burocracias, cafés e açaís, projetos (dele e meus, que sua abertura frutífera permite), muita prosa (da vida e da arte), muita “greia” (sempre) e muita muriçoca (sempre também).
A elegância da austeridade monástica da mobília de sua casa-ateliê, como já bem definiu Márcio Doctors, me parece combinar com as linhas modernistas da sua arquitetura ampla e geométrica. No entanto, talvez, à primeira vista, contrastem com o requinte de ter um jardim de plantas tão tropicais sempre tão aprumado (Salve, Jones!). Mas esse aparente dissenso, creio, é o que bem explica a figura complexa e receptiva do artista, cuja força carismática e humor ímpar sobrepõem camadas tênues e porosas entre o Gil pessoal e o Gil social. É preciso atenção e delicadeza para conhecer. Aos amigos que convivem de perto, nos momentos reflexivos, ele frequentemente relembra e dá a letra: “Eu até pareço uma figura divertida e leve, mas sinto tudo com uma dificuldade muito grande, eu tenho uma vida interior muito atormentada e tumultuada. A minha lama interior é muito lamacenta (risos), as minhas partes sombreadas… a área de sombra é muita”. Ouvindo isso de um pernambucano da cidade que gerou o Manguebeat, nome advindo dessa urbanização permeada por manguezais, quase impossível não relacionar uma lama ambígua e fértil com a outra.
O Gil Vicente brasileiro que não abre mão do calor do Recife solar, sua cidade-casa de nascença e convicção, não demonstra efusivamente, mas não gosta muito de ser cobrado sobre “matar” mais políticos, continuando a série de autorretratos matando figuras políticas (Inimigos). Apesar do seu descontentamento com a política, como ele constantemente afirma, com o inferno e a farsa social que é a política com todos os escândalos de corrupção e o povo à míngua, sofrendo com doenças facilmente tratáveis e outras mais graves, amargando a ignorância da falta de seus direitos atendidos, com escolas fracas e professores malremunerados, sempre mergulhados no ópio televisivo… “Eu já fiz a minha parte. Se não, eu não faço mais nada, que a lista não tem fim. Cabe a quem achar que deve, continuar… Ou querem que eu só faça isso toda a vida?” E a cada tanto é um e-mail que chega, sugerindo ou pedindo a continuidade dessa lista.
“A Escolinha (de Arte do Recife) não formava artistas, formava gente”, é o que Gil Vicente sempre diz quando relembra, prazeroso, à época em que estudou na instituição. “Eu fiquei muitos anos estudando desenho e pintura na Escolinha, até que já estava expondo, vendendo e ganhando prêmios e fui saindo. Aí, depois teve a (Oficina) Guaianases (de Gravura), onde também aprendi muito e era muito divertido, eu estava sempre com artistas que foram mestres e amigos, a gente estava sempre junto e se retratando nas paisagens em que estávamos ou em retratos mesmo.” Pode-se entender que Gil busca contribuir nesse sentido de formação com todos os que o procuram para trocas intelectuais artísticas, quando observamos a legião de fãs que ele tem entre os jovens artistas e estudantes de artes em quaisquer cidades por onde passa com suas exposições.
A escolha do papel como suporte frequente de muitas obras também indica a direção de contato com o outro: “O papel é mais íntimo de qualquer um, de toda pessoa, todo mundo já viu, tocou, manuseou papel muitas vezes na vida, toda gente sabe o que é papel”.
E prossegue, na insistência da planaridade de sua arte: “O papel é plano. E eu sou totalmente plano, minha arte é plana, acho que eu nasci destituído da terceira dimensão. Até na minha fotografia, tudo que vi e registrei era plano, gráfico”. De fato, o artista tem grande capacidade de achatamento do campo visual, como se pode notar em suas fotografias, nas quais seu olhar funde planos e cria silhuetas e vultos, figuras inexistentes, mas que estão lá, à disposição do olhar atento. “Eu não procuro nada, mas encontro tudo”, é o que Gil Vicente – que não perde um jogo de palavras – declara sobre quando sai para fotografar, atividade assídua para ele há mais de uma década.
Assim como viver a experiência da arquitetura em fotógrafos arquitetos de formação (vide Cristiano Mascaro, para ficar em apenas um exemplo) se traduz em maior contundência e força na construção de imagens fotográficas de arquiteturas e espaços urbanos, experienciar a prática da matéria da pintura e do desenho, em suas diversas técnicas das artes plásticas bidimensionais, como o faz Gil Vicente, reflete-se na sua fotografia. Aqui falo de experienciar considerando as nuances de sentidos diversos típicas de suas origens linguísticas culturais, da experiência entendida como viver, ser atravessado, tocado, atingido, “co-movido”, conforme Jorge Larrosa, quando define a experiência e o saber da experiência. Portanto, a experiência da pintura e do desenho resulta nas fotografias de Gil, que seriam o saber dessa experiência. Basta conferir em cada fotografia a maestria das luzes, cores, texturas, reflexos e atmosferas tão pictóricas ou em cada achatamento de espaços em planos cromáticos justapostos.
Apesar da enfática negação da escultura ou do tridimensional, observo que, além da experimentação escultórica que Gil fez com “esqueletos” de cadeiras, numa grande estrutura de ferro e a numerosa quantidade de objetos encontrados que seleciona, apropria-se e expõe nas paredes e bancadas do ateliê, ele fez os Inimigos em tamanho real, escala 1:1 e que isso indica um pensamento espacial tridimensional no todo do projeto dessa série de autorretratos. Afinal, seriam autorretratos em quaisquer dimensões, mas o impacto na realidade do espectador é outro, pela recriação da espacialidade em tamanho real. Ele concorda com a observação, mas meio displicente e sem crer que sua planaridade – tão almejada e cultivada – seja afetada por isso.
E, para um artista que tanto fez de sua vida seu trabalho, numa autobiografia que se apresentou de diversas formas em sua obra, sem receios de encarar o que “é interior, subjetivo e está da melancolia mais para baixo”, o interesse pelo teste de Rorschach não só fica justificado, como se transforma em obra. Seja na operação visual de mapear cenas nos desenhos dos “rios” brancos entre textos de páginas de livros que originaram a Suíte safada, seja em Espelho meu. Essa, uma longa série de pequenas monotipias em nanquim sobre papel que Gil Vicente iniciou em 2009, e que consiste em desenhos espelhados (duas folhas de papel duplicadas), compostos pelas marcas estampadas por linhas de espessuras variadas embebidas em nanquim com várias gradações de preto e cinza.
A partir dessas monotipias, o artista desenvolveu, por quase dois anos, encerrando há pouco, em meados de 2017, um projeto de pesquisa em monotipias em grande formato, com apoio do Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco, e que terminou com um retorno ao guache. Foi nesse projeto que meu contato com Gil dentro do ateliê se estreitou e pude acompanhar de perto o desenrolar dos processos e operações artísticas.
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Tanto nas atividades pedagógicas para convidados que preparamos no ateliê quanto no processo de organização e documentação do material produzido, foram dias de observação atenta e muito manuseio das obras realizadas – o que exigia demasiadas manobras corporais pela escala dos desenhos e pela orientação mutável das combinações das imagens. Foram dias de muitas conversas e conjecturas, revendo o conjunto de imagens criadas, agrupando e reagrupando, jogando com a diversidade de simetrias.
Nesse processo, foi se tornando muito forte a relação das composições dos Espelhos meus criados com o verso de cartas de baralhos, com cédulas (de dinheiro), com azulejos e papel de parede. Essa percepção nos levou a conceber conjuntamente um grande cartaz lambe-lambe (técnica que utilizo bastante em meu trabalho artístico, combinada com a monotipia recorrente no trabalho de Gil) para a exposição Caleidoscópio, montada em Garanhuns (PE), onde revestimos cerca de 14 metros lineares de paredes com imagens reduzidas e multiplicadas (xerox) da nova série de Espelho meu (2017).
Sobre a primeira parte da pesquisa dessa nova série, realizada em nanquim, tomei nota de vários apontamentos feitos por Gil Vicente:
“A simetria vertical não interessava no momento de projeto, mas foi uma coisa na criação, na execução que levou a essa percepção.”
“Gosto quando linhas finas e delicadas sustentam pesos escuros e densos.”
“Acho fascinante esse negócio de você trocar e modificar múltiplas imagens sem ser um quebra-cabeça. É uma metamorfose.”
“O processo atrai muito, porque você vai mexendo e são muitas opções. Você coloca um e vem com o outro e muda as orientações e encaixes.”
“Quando você tem uma imagem que já é uma duplicação da outra, e você sai mudando, de cada dupla você faz 16 composições espaciais, ou configurações espaciais. Tudo isso se ficar no espelho, na simetria. Se você sair do espelho fiel, você ainda tem as falsas simetrias.”
Sobre a segunda parte da pesquisa para Espelho meu, realizada em guache, e que se constitui uma Homenagem a Lauro de Oliveira, pai do artista, falecido em 2017, tomei as seguintes notas:
“Em A cidade retomada, o vermelho está mandando nas coisas todas, está muito forte. Aí apareceu uma ponte... silhuetas de prédios ou igrejas... dando início ao enredo e formando a história toda. Essa ponte, nesta vista noturna, esta atmosfera…”
O coletor de impostos é a ideia de uma coisa necessária, mas que, ao mesmo tempo, se usa para extorquir a população… tem uma mancha meio isolada na esquerda que vira uma figura que é um vigia de algo muito maior do que o que está sendo coletado, tirado, arrancado… e isso é muito maior do que os impostos. Essa figura de costas, crescendo ou avançando. E as outras duas figuras, a preta e a maior, na parte central, bem mais definidas e que existem dentro dessa maior. Há uma metamorfose, um processo de transformação e formação contínuas.
“Em Uma curva no Oriente, eu pensava na representação da sujeira, da chatice depois de uma felicidade, dessa bagunça dos impostos, das sacanagens dos gestores, mas isso tudo veio nas pinceladas, foi se formando. Tem esses ambientes, essa profundidade de paisagem, de construções… o anteparo azul, que é muro e vira uma água onde flutua essa figura-ilha, que está longe e está perto. Nesse plano verde tem essa barata sebosa, que surgiu porque quis e eu vi que ela tinha que ficar, porque contava essa história toda.”
“As raras rosas é o mais gracioso, o mais festivo. Tinham coisas que precisavam ser abertas, aí eu vim com esse cinza, que é muito delicado e decidido. Como o laranja e também as pinceladas azuladas sobre ele… É tudo muito leve, mas muito decidido. É o mais luminoso. Tudo ia pro alto. Mas resolvi fazer um corte, mas não reto; tem figuras, eu vejo um meio perfil, uma mulher sorrindo… essa figura-mancha magenta, as camadas transparentes próximas.
“A figura verde encoberta – Encontro – tem essa ambiguidade, porque está lá e não está. Tinha o título com a palavra pai, e essas figuras de deus e pai, eu nem sei por quê, mas eu só pensava nessas palavras. Esfinge. É uma figura do oráculo, de deus. E eu fiquei chateado porque a ideia me perseguia e já tinha 20 dias do trabalho, da pintura pronta, e veio um título de Jesus na cabeça e eu perdi… Mas essas são coisas que acontecem neste mergulho. Estas conjecturas deliciosas que vão parecendo, desvanecendo e voltando.”
“Gosto de brincar com o título, e sei que pra uma porção de gente… ninguém vai entender nada. Mas eu não me incomodo de não entender tudo o que faço.”
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Fazer essa versão em grande escala da série Espelho meu trouxe novas situações de desenho, com maior variedade de linhas. Nos pequenos, realizados em anos anteriores, as manchas eram criadas principalmente por duas operações: as gradações de tons das aguadas de nanquim e a soma de linhas sobrepostas de espessuras diferentes, mas de natureza semelhante.
A experiência de novas espessuras, texturas e materialidades de linhas ou até faixas de tecido de algodão tramado, criando linhas desenhadas paralelas, algo similar com o resultado de um buril raiado na gravura, trouxe outras possibilidades gráficas às monotipias. Apesar de parecer mais fácil ou natural que as monotipias pequenas (21 x 15cm + 21 x 15cm) anteriores fossem mutáveis e móveis, como cartas de baralho, essa situação só veio a acontecer agora nos formatos maiores (100 x 70cm + 100 x 70cm).
Na primeira versão dessas monotipias, prevaleceu a atitude do teste de Rorschach, de abrir o papel e obter uma mancha espelhada fixa por um eixo central preestabelecido. A vontade de transformar a composição definida e única, estática – antes executada fixando ambos os papéis com a monotipia espelhada em outro papel maior –, em um desenho mutável, que pode ser manuseado e unido por quaisquer dos lados através da simetria, veio no processo de fazer, pela própria mobilidade do ato mais corporal de manusear e transportar as folhas durante a execução das imagens.
Parecia fazer sentido que cada página se transformasse numa peça cambiante a cada vez que o trabalho era mostrado a algum visitante no ateliê. A orientação espacial fixa, convencional (superior, inferior, direita, esquerda), deixou de fazer sentido; e abriu-se o leque para o jogo das composições mutáveis.
Além disso, algo na própria dimensão das novas composições levou a diferentes ocupações espaciais e relações de linhas. Ainda assim, num dado momento, veio uma sensação de que o trabalho não fosse suficiente na caminhada do desenho como passo posterior aos primeiros espelhos, os pequenos.
A operação de trabalhar com um controle programado na definição das posições e orientações de linhas, mas parcialmente às cegas quanto ao resultado final, até que se retirasse um papel de sobre o outro na construção do desenho pelo espelhamento nas monotipias, talvez tenha levado a um desejo oposto de controle/descontrole ou de fluidez e ritmo na construção da imagem.
Iniciou-se, então, um segundo momento na pesquisa, a pintura com guache. Outro retorno a uma técnica com a qual Gil Vicente sempre teve muita familiaridade e desenvoltura. A maneira como Gil se dispôs a ver as manchas de tinta produzidas pelas pinceladas iniciais e ir aceitando o que cada cor, mancha ou linha ia reivindicando como acontecimento autônomo na pintura, e como elemento integrante e formador de uma narrativa imaginária, foi o acréscimo ou o desvio necessário à liberdade criativa no processo técnico-construtivo da criação de imagens. Interessava essa escuta das imagens. E da escuta pelo olhar formou-se a Homenagem a Lauro de Oliveira.
Fonte: Revista Continente. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Os políticos na mira de Gil Vicente | Público
Artista pernambucano expõe desenhos em que se auto-retrata a executar vários políticos brasileiros e mundiais. A Ordem dos Advogados não gostou e exigiu a retirada das obras da Bienal, que começa hoje em São Paulo.
O que é que há de comum entre a Rainha de Inglaterra, o Papa Bento XVI, os ex-presidentes do Brasil e dos Estados Unidos Fernando Henrique Cardoso e George W. Bush, o ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan e os actuais presidentes do Irão e do Brasil, respectivamente Mahmoud Ahmadinejad e Lula da Silva? Estão todos na mira de Gil Vicente, o pintor pernambucano que agora também está na mira da Secção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e, por via disso, se tornou o principal alvo mediático da 29.ª edição da Bienal de São Paulo, que começa hoje.
Numa série de desenhos a carvão sobre papel intitulada Inimigos, que integra a selecção da bienal, Gil Vicente, artista nascido no Recife, em 1958, auto-retrata-se a executar sumariamente aqueles (e outros) responsáveis políticos, na maioria dos casos apontando-lhes uma pistola à cabeça. A Lula da Silva e Ahmadinejad corta-lhes o pescoço.
A inclusão desta exposição na bienal não agradou à OAB/SP, que emitiu um comunicado a exigir a retirada dos trabalhos de Gil Vicente por considerar que "essas obras, mais do que revelar o desprezo do autor pelas figuras humanas que retrata como suas vítimas, demonstra um desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando à violência". Citado pela imprensa brasileira, o presidente da OAB, Luiz Flávio Borges d"Urso, fala do caso concreto da representação de Lula a ser degolado: "A execução do Presidente nos parece uma incitação ao crime."
Os responsáveis da bienal não acataram a exigência da OAB e reafirmaram a manutenção de Inimigos. Falaram de censura, e o curador Agnaldo Farias classificou a posição da Ordem como "um exagero, um absurdo e um retrocesso", tanto mais por ter partido daquela instituição. Farias, citado pela Gazetadigital de Mato Grosso, lembrou que dizer que os desenhos de Gil Vicente são "uma apologia à violência é o mesmo que dizer que Édipo Rei, a tragédia grega escrita por Sófocles, incentiva o parricídio e o incesto".
Não satisfeita com a posição da bienal, a OAB encaminhou uma denúncia para o Ministério Público de São Paulo.
Pop star
Já o principal visado na polémica, a pop star do momento, como Gil Vicente já é referido, mostrou também a sua surpresa e lembrou que os seus trabalhos foram realizados em 2005-06 e já tinham sido expostos no Recife, Natal e Porto Alegre, sem qualquer alarido de maior.
"Sei que Inimigos tem um teor crítico forte, mas não esperava uma reacção assim. Principalmente vinda de uma instituição com a história da OAB, com tanta tradição de luta contra a censura", disse o pintor nordestino, citado pelo site Pernambuco.com. E justificou os seus trabalhos pela "decepção", e mesmo "raiva", que tem sentido perante a governação de todos esses políticos, que - diz - "desprezam as pessoas necessitadas e não se mexem para acabar com a miséria".
A polémica em volta dos seus Inimigos deixou para segundo plano aquela que outra série sua, também presente na bienal, Suite Safada (2007), poderá igualmente provocar, já que se trata de outro conjunto de desenhos com um conteúdo passível de suscitar forte discussão em volta da fronteira entre erotismo e pornografia.
A Bienal de Arte de São Paulo deste ano tem como tema as relações da arte com a política, a partir de um mote tirado de um verso do poeta Jorge de Lima, Há sempre um copo de mar para um homem navegar. Vai decorrer até 12 de Dezembro, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, e reúne 850 obras de 159 artistas. E promete muita polêmica.
Fonte: Público. Consultado pela última vez em 3 de abril de 2025.
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Gil Vicente dá seu veredicto | Tribuna do Norte
Em tempo de eleição a arte dá o seu veredicto: é hora de assassinar o inimigo. Desesperançado na política, o artista plástico pernambucano Gil Vicente, 48 anos, decidiu passar para o papel a raiva acumulada pelas frustrações dos últimos anos. Em nove gravuras criadas através da técnica de carvão sobre papel, o próprio autor se transforma em serial killer e vai matando um a um as personalidades nefastas do seu universo, a maioria políticos. O público terá a oportunidade de conferir o extermínio promovido por Gil Vicente na exposição “Inimigos” de hoje até o dia 1o de outubro no salão de arte contemporânea do Centro Cultural da Casa da Ribeira.
O primeiro a morrer na mão de Vicente é o atual presidente dos EUA, George W Bush. Mas nem o papa Bento 16 escapou da sanha do artista. “Comecei a pensar a fazer uma série a partir do Bush. Primeiro desenhei ele com um tiro no rosto e fui evoluindo até achar que o deveria aparecer de corpo inteiro. Depois achei que eu mesmo deveria matar o Bush. Decidi não dar esse prazer para ninguém”, brincou.
Na lista negra de Gil Vicente, além de Bush e do Papa constam os políticos pernambucanos Jarbas Vasconcelos e Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. A frustração do governo Lula, inclusive, lhe custou a perda de um eleitor. “Nunca mais voto na minha vida. Não é uma promessa, é uma decisão! Cansei dessa palhaçada toda, meu voto não muda nada. Pensei até em me movimentar para fazer campanha contra o voto, mas não acredito que isso vá mudar alguma coisa. Não tem mais volta. A partir dessa eleição não vou às urnas. Depois paga uma taxa de uns três reais no TRE e pronto”, afirmou.
Indagado se a “exposição” poderá influir nos próximos trabalhos como que marcando uma nova fase na carreira, ele disse que não. “Mudou meu modo de ver o mundo, refleti mais. Mas não acho que meu trabalho será dividido em antes e depois dessa minha descrença nos políticos. É engraçado porque quando mostrei para o meu pai, perguntei à ele: `o senhor acompanha a política desde a revolução de 1930. Sempre foi assim?´ Ele me olhou no olho e disse que sim, na maior simplicidade. Então, desisti”, conta, lembrando que o pai, aos 82, gostou da obra.
Fonte: Tribuna do Norte. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Gil Vicente celebra 40 anos de carreira com exposição no Museu Murillo La Greca | Prefeitura de Recife
O Museu Murillo La Greca foi o destino de muita gente no fim da tarde deste domingo. O motivo de quem compareceu ao equipamento cultural era conferir a exposição “Gil Vicente: Estudos e Rabiscos”. Além da arte de Gil, que celebra 40 anos de carreira, o público foi brindado também com um show da bandavoou.
Dois dos três salões do Museu foram ocupados pelos trabalhos do artista consagrado e admirado pelos colegas de profissão como José Cláudio e Dayse Pontes, que foram prestigiar a mostra. “Já tinha visto muita coisa que está exposta aqui, mas também há ensaios e obras que eram inéditas pra mim. Considero Gil um exímio desenhista e uma referência. É sempre um prazer ver seus trabalhos”, elogiou Dayse.
Com curadoria da gestora do La Greca, Bruna Pedrosa, a exposição apresenta as inspirações, técnicas e trajetória de Gil Vicente desde a época em que começou a desenvolver seus traços na Escolinha de Arte do Recife, proporcionando um maior entendimento do processo criativo ao mesmo tempo em que realiza um desejo do autor.
“Na década de 80, a Fundaj realizou uma mostra chamada ‘Rabiscos’ com os trabalhos de José Cláudio, depois João Câmara e alguns outros artistas. Eu achei uma maravilha e fiquei por muitos anos com isso na cabeça, pois tinha vontade de mostrar meus riscos, meus ensaios. Quando Bruna me fez o convite, aceitei desde que chamasse Rabiscos!”, contou Vicente, entre risos.
Atendida a “exigência”, depois de seis meses - tempo que durou a escolha das peças, o resultado é cerca de 150 trabalhos que expressam desde o esforço para atingir a perfeição da obra finalizada até o humor de Gil Vicente. “É uma honra encerrar o ano com essa mostra que já na abertura atrai tantos olhares e que traz à cena coisas as quais muitos profissionais têm receio de mostrar que é o início de tudo. Mas a parte mais bonita disso é enxergar que com vontade e esforço, se chega à perfeição, ao êxito”, afirmou Bruna. A exposição pode ser vista até 10 de março de 2013, de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados e domingos, das 13h 17h.
Portal – A exposição integra a programação do lançamento do Portal Artes Visuais Recife, criado pela Gerência de Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife, que acontece no próximo dia 12 de dezembro. “O site foi pensado para reunir informações que possam reconstruir a memória de eventos das artes visuais desenvolvidos pela Prefeitura do Recife. É um carinho com o SPA das Artes pelos seus 10 anos de existência e, claro, com outras atividades como a Semana de Fotografia, Revela Design e Diálogos entre Arte e Público.”, ressaltou a editora do portal, Eva Duarte.
Fonte: Prefeitura de Recife. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Artista 'mata' Lula, FH e outros políticos na obra mais polêmica da Bienal de SP | O Globo
Ninguém foi mais assediado na segunda-feira do que o pernambucano Gil Vicente, por enquanto a grande estrela da 29ª Bienal de São Paulo. Na última sexta-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo fez uma nota de repúdio e ameaçou processar a Fundação Bienal por expor a série de desenhos em carvão "Inimigos", em que Vicente se autorretrata matando personalidades como o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a rainha da Inglaterra Elizabeth II e o papa Bento XVI. A Bienal já afirmou que não vai retirar a obra, exposta anteriormente em quatro outras cidades.
- Parece que voltamos à ditadura. A OAB alegou que a obra incita o crime. Qual é o crime maior, criar essa ficção ou o roubo de dinheiro público dos nossos políticos? - questionou Gil Vicente.
O curador Agnaldo Farias criticou a ação como "tacanha e mesquinha":
- Dizer que a obra incentiva a violência é o mesmo que dizer que "Édipo rei" incentiva o incesto. Só chamará mais atenção para o artista, cujo trabalho tem muito mais qualidade do que essa polêmica.
Fonte: O Globo. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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"Usei o trabalho de modo terapêutico" | Revista Continente
Conheço Gil Vicente desde os anos 1980, participando dos famosos Festivais de Inverno da UFMG (juntamente com Marcelo Silveira, Alexandre Nóbrega e Rinaldo), a partir daí, sempre que nos encontramos tecemos boas conversas sobre arte, mercado e nossas agonias. Mas uma de nossas conversas mais marcantes se deu em 2001, em uma residência artística ocorrida no Paraná, denominada Faxinal das Artes. Esse evento, patrocinado pelo governo de Jaime Lerner, envolveu curadores como Agnaldo Farias, Moacir dos Anjos, Daniela Bousso, Cristiana Tejo, entre outros, e reuniu cerca de 100 artistas de todo o Brasil e alguns estrangeiros, no pequeno vilarejo de Faxinal do Céu, uma reserva florestal perto de Curitiba, para uma convivência de 15 dias, com o propósito de propiciar um diálogo maior entre os artistas brasileiros, troca de experiências e desenvolvimento de projetos possíveis naquele tempo e lugar.
Embebido pela riqueza do encontro, resolvi entrevistar artistas com os quais já tinha algum contato a fim de conhecer melhor suas poéticas, procedimentos e aflições. A ideia deu certo, assim, acabei tecendo longas entrevistas com artistas como Shirley Paes Leme, Emanuel Nassar, Francisco Farias, Eduardo Frota, Elida Tessler, Marepe, Marcelo Solá, Karin Lambrecht, Dulce Ozinsky e, claro, Gil Vicente. Essas entrevistas eram abertas; dado o primeiro passo, que era o próprio fato de nos encontrarmos ali disponíveis para uma convivência de duas semanas e participar de bate-papos, de palestras e também de trabalho de ateliê, a conversa tinha um direcionamento claro: mostrar a poética do artista e seus procedimentos, provocá-lo a falar sobre sua formação e produção, tecendo desse modo um olhar reflexivo sobre seu processo criativo e os trabalhos realizados.
Passado o encontro do Faxinal das Artes, essas entrevistas foram guardadas em gavetas e caíram no sono. Gil Vicente, contudo, tem a capacidade de acordar fantasmas. Outrora, já havia lhe enviado o texto digitado para pensarmos a possibilidade de publicação, mas foi por ocasião da sua participação na 27ª Bienal de São Paulo e de uma viagem minha ao Recife, que retomamos nossa conversa de Faxinal, passados mais de 10 anos, para vermos o que havia sido dito, o que não fora dito ainda e o que se poderia dizer.
A conversa fluiu com naturalidade e interesse e chegamos ao texto que se segue. Gil Vicente, além de grande desenhista, é um bom contador de histórias, é divertido e enriquecedor ouvi-lo e saber como, em seu trabalho, ele sempre buscou o encontro com o outro. Seu exercício artístico tem algo do que fala Louise Bourgeois, ao definir a arte como “uma garantia de sanidade”. Poucos artistas têm a coragem de trilhar essa senda, a de aproximar sua arte das deambulações psíquicas e de ver nela uma promessa de sanidade ou, como queria Stendhal, “uma promessa de felicidade”. É este encontro, marcado pela convivência fraterna e espichado no tempo, que trazemos a público agora.
CONTINENTE Você é um artista plástico que vem de uma família de escritores, de um convívio com a literatura. Fale um pouco sobre essa convivência.
GIL VICENTE Meu avô materno, João Vasconcelos, era escritor e critico literário. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e publicou dois livros de contos ambientados no interior do estado. Quando eu nasci, ele estudava a obra de Gil Vicente e sugeriu o nome à minha mãe. Vovô morreu quando eu tinha seis anos. Lamento, pois já éramos bons amigos e, com certeza, teríamos trocado muitas figuras quando me interessei por arte. Depois de criar os filhos, minha mãe estudou Sociologia e Antropologia, com dissertação sobre a relação homem/mulher, na qual propunha redefinições nos papéis da convivência. Ela escreveu ensaios e tem vários livros publicados e premiados, principalmente de poesia, dos quais já ilustrei dois. Meu irmão mais velho é músico e sempre está envolvido com pesquisas ligadas à música pernambucana. Por outro lado, meu pai era muito amigo do escritor Osman Lins e de muitas pessoas da área cultural, como Jomard Muniz de Brito e outros. Nossa casa sempre abrigou boas discussões sobre arte e cultura.
CONTINENTE Há um quadro trágico de sua autoria cujo título é Minha mãe morta. Como é a presença da morte em sua família e para você?
GIL VICENTE Acho que a presença dos pais vivos é muito maior que a presença da morte, essa preocupação nunca foi um problema na família. Sempre tivemos canal aberto para dialogar sobre tudo. Meus pais respeitaram e incentivaram a personalidade de cada filho e também suas opções profissionais. O desenho Minha mãe morta mostra um cachorro lambendo o corpo nu de uma mulher. Não aparece o rosto. É um corpo caído no chão, e eu não compreendo o que representa. A imagem e o título apareceram prontos e até hoje não sei o que significam. Muitos dos meus desenhos, principalmente os nanquins, são tentativas de acessar imagens das camadas mais internas, escuras e enlameadas, porém, desconheço interpretações para eles. Até prefiro trabalhar assim, pois, se estou muito consciente do que cada coisa representa, termino fazendo uma mera ilustração. Muitas pessoas acham esse desenho agressivo, mas outras o veem como uma coisa afetiva e muito carinhosa. Nessa mesma série, fiz outros desenhos pesados, nos quais a morte também é evocada.
CONTINENTE Certa vez você me mostrou uma pintura sua, uma natureza-morta com um cacho de bananas e uma flor sobre uma toalha de mesa em desalinho, e me disse que, psicologicamente, aquele trabalho representava bem uma situação que você passara. Esse fato me fez pensar na relação entre arte e psicanálise, como é essa questão para você?
GIL VICENTE Trabalho com desenho e pintura usando técnicas convencionais, nanquim sobre papel, óleo sobre tela, e temas também convencionais, como a figura, o retrato, a paisagem. Mas o que me interessa é estar mexendo comigo mesmo, estar me investigando, porque, no fim das contas, sempre usei o trabalho de modo terapêutico, para sobreviver como pessoa. Mesmo fazendo uma paisagem ou uma natureza-morta, como eu trabalho intuitivamente, os significados me escapam, há sempre certa narrativa que não consigo acessar racionalmente, mas que está na imagem. Certo dia, olhando distraidamente para uma natureza-morta, me dei conta, assustado, de que ela falava sobre uma namorada recente e me dizia muita coisa. Pouco depois, fui convidado para a mostra Imaginário e sexualidade, na Fundação Joaquim Nabuco, e enviei essa pintura.
CONTINENTE Você estudou arte em diversos lugares, mas, como já disse, uma das figuras importantes nos seus estudos foi o artista José Cláudio. Como foi esse aprendizado?
GIL VICENTE Comecei a estudar bem cedo, e logo fui participando de coletivas, salões, e a vender trabalhos. Estudei seis anos na Escolinha de Arte do Recife e três nos ateliês livres de extensão da UFPE, nos quais fiz desenho e pintura de observação. Depois estudei em Paris, com uma bolsa do governo francês, onde também vi muitas exposições bacanas. Mas as minhas referências estavam sempre nos artistas daqui. Os artistas pernambucanos que mais me atraíam eram Reynaldo Fonseca, Cícero Dias, João Câmara, Ismael Caldas, Adão Pinheiro, Francisco Brennand, Vicente do Rego Monteiro, Zé Cláudio, Samico, Rodolfo Mesquita e outros. Em Zé Cláudio, me encantava o prazer dele com a pintura e o vivo caminho que escolhia para captar o popular. Além do respeitável exemplo profissional, ele escreveu textos sobre meu trabalho, que me abriram caminhos para a compreensão do que faço. Quando minha exposição Desenhos esteve no Mamam, em 1999, acompanhada de um debate com Marcos Lontra e Moacir dos Anjos, antes das falas dos curadores, Zé Cláudio, que estava na plateia, levantou-se e pediu para falar primeiro. Seu depoimento de improviso é um dos textos mais bacanas sobre meu trabalho. Por sorte, um jornalista gravou esse depoimento, que depois foi publicado na primeira edição da Continente. O então editor da revista, Mário Hélio, achou um ótimo título para o texto: Uma descida aos infernos. Ali, Zé Cláudio dá algumas chaves com as quais eu compreendo melhor o que faço. Não o significado das coisas, mas questões da minha relação com a expressão. Sou muito grato a ele e me comovo sempre que falo disso. Eu sempre quis pintar como ele, como Brennand, como Reynaldo Fonseca, e foi assim, perseguindo, correndo atrás de um e de outro, que fui construindo o meu trabalho.
CONTINENTE O retrato é um gênero de pintura, de certa forma, obrigatório para todo pintor na história da arte, mas perdeu seu lugar na arte moderna e contemporânea. No entanto você assume esse desafio, nos anos 1980, ao fazer uma série de retratos de artistas do Recife. Como que foi esse projeto?
GIL VICENTE Aconteceu por acaso. Minha produção da década de 1980 foi quase toda a partir do real, quer dizer, feita de observação. Pintei figuras, paisagens e naturezas-mortas. Meu círculo de amizades era pequeno, era mais familiar. Aos 23 anos, passei um período de grande melancolia. Meus relacionamentos eram muito atormentados, de todos eles eu saía me sentindo muito culpado. Tudo era para mim um tormento e a pintura ficava escura. A partir de 1982, fiz um esforço para sair dessa melancolia e também já tinha começado a fazer terapia. Assim, fui construindo lentamente um equilíbrio e o trabalho foi imprescindível para eu sobreviver. Usei-o para me salvar. Passei a convidar outras pessoas para posarem pra mim. E também comecei a jogar futebol, um esporte coletivo (pois até então o esporte que eu praticava era natação, à noite, que é você sozinho com a cabeça dentro da água, uma coisa muito escura e uterina). Enfim, procurei ter mais contato com o mundo, porque era um desgaste muito grande estar com as pessoas. Acho que a necessidade que eu tinha de desenhar a figura e de aprender a retratar era, desde cedo, um caminho para me aproximar do outro.
CONTINENTE Mas a série mostra também várias pessoas da cultura pernambucana. Como foi feita?
GIL VICENTE Quando consegui clarear, esquentar as cores e dar mais contraste à minha pintura, fiz 10 retratos de artistas amigos. Cada um foi realizado em dois dias, no ateliê do retratado. Chegava sem nenhuma ideia definida e a pose era escolhida naturalmente, numa dinâmica descontraída entre mim, o artista e o espaço. Como de costume, começava desenhando na tela com a tinta mais rala, para acertar as proporções da figura. Se esse desenho estrutural saísse rápido, eu já começava a pintar no primeiro dia. Iniciava pelo rosto, pois sendo a parte mais difícil, preferia enfrentar logo e me livrar dela. No resto do quadro, ia me divertindo, me soltando. Dessa série, acho que no retrato de Samico foi onde me saí melhor.
CONTINENTE E o seu interesse pela fotografia, como surgiu?
GIL VICENTE Fotografo desde os 17 anos. Comecei registrando meus trabalhos para divulgação e arquivo, mas também clicava coisas de rua que me atraíam plasticamente. Em meados de 1998, voltei a fotografar buscando algo diferente do desenho e da pintura. Mas me dei conta, muito claramente, de que todas essas fotos eram de coisas bidimensionais com interesse gráfico e pictórico: portões, paredes, portas... Enfim, compreendi que só me interesso por coisas bidimensionais, pelo plano, e que nasci faltando a dimensão da profundidade. Essas fotos são, na maioria, registros de intervenções populares. Comecei pelas portas metálicas de estabelecimentos populares, que no Recife são pintadas de maneira precária, com restos de tinta de cores quentes. Foi também uma forma de paquerar um pouco com a geometria. Depois de Portas, vieram as séries Passagens (paredes com aberturas que foram fechadas) e Desenhos, todas de origem popular.
CONTINENTE Você fala do desenho e da sua pintura enfatizando o lado íntimo e pessoal, mas o que dizer do lado público desse trabalho? Quero dizer, como, em seu trabalho, você pensa o Brasil, a sociedade brasileira?
GIL VICENTE Como falei, o meu trabalho sempre foi muito autorreferente, feito mais pra me salvar. Por isso nunca me ative à temática social. Não fiz universidade, não estudei história da arte, estética, filosofia, nada disso. Sempre me abasteço mais pelo olho. Então, não sei discutir nenhuma questão social e política brasileira. Eu sou um ser social e participo da vida social do Brasil. Para minha formação como artista, dependi de outros artistas que foram generosos comigo. Da mesma forma, acompanho o trabalho de outros que estão começando. Isso é uma atuação social. Não vejo necessidade de trazer essa preocupação como tema do trabalho. Mas, na medida do possível, participo de projetos e oficinas junto a grupos da comunidade. Comecei a me interessar por música em 1998. É uma coisa diferente do que eu sempre fiz, com outro sistema cognitivo que mexe com a minha cabeça de forma muito lúdica. Mas música é matemática também, e é outra forma de eu dar vazão à minha paquera com a geometria. Assim, acabei ingressando com outras pessoas no Maracatu Leão Coroado, em Águas Compridas, Olinda, e lá procuramos ajudar a comunidade. O grupo no qual entrei fez um site com a história do Leão, levou para a sede uma unidade do projeto CDI (Comitê de Democratização da Informática) e pedimos colaborações de outros profissionais, como o arquiteto Albérico Paes Barreto, que fez gratuitamente um projeto para a nova sede do Leão. Mas não tenho capacidade de dar uma opinião sobre o quadro social e político brasileiro. Muito menos que caminho o Brasil deve tomar, qual a importância das ONGs etc. Tenho feito a minha parte, na medida do possível.
CONTINENTE Há 11 anos, no Faxinal das Artes, você disse que não entendia nada de política e que não vinculava seu trabalho a ela. No entanto, a sua série de desenhos Inimigos, de 2005-2010, é nitidamente ligada à política. Como você iniciou essa série? O que mudou nesse meio tempo?
GIL VICENTE Continuo sem entender nada de política. O que mudou é que perdi a ingenuidade. Desde 1976, quando completei 18 anos, votava com muita esperança em mudanças sociais para o país. Seguidamente tive decepções, e seguidamente renovei as esperanças. Até compreender que a política é um ótimo negócio que faz milionários com o dinheiro público. Além disso, o sistema eleitoral é pífio e nulo. O voto, em si, não tem a menor importância, pois qualquer elemento que for eleito fará obrigatoriamente o mesmo que seus antecessores: roubará para si e para o seu grupo. Um dirigente rouba cerca de dois terços da verba que passa por sua administração, e o resto é aplicado em projetos que beneficiam a classe média e a classe alta. Os pobres e miseráveis seguem sem estudo, sem saúde, sem direitos, sem oportunidades. E sabemos que os problemas sociais de cada estado do Brasil poderiam ser resolvidos apenas com o dinheiro público roubado naquele mesmo estado. Nunca votei esperando mais verbas para a arte e a cultura, mas desejando que, finalmente, o país caminhasse para a justiça social. Como eu era ingênuo! Em 2005, caiu a ficha e compreendi que nada vai mudar, que sempre foi assim e a tendência é piorar. Movido por essa clareza decepcionante, fiz a série Inimigos, e nunca mais compareci em cabines eleitorais para votar. Se a classe política não cumpre o seu dever social, não me sinto obrigado a cumprir o meu “dever cívico” de escolher um entre vários ladrões. Votar é assinar um papel em que está escrito: “Autorizo Fulano de Tal a roubar dinheiro público durante quatro anos sob total proteção da lei”. Estou fora. Não farei mais isso. O descaso com as questões sociais não ocorre apenas no Brasil. Os meus alvos na série Inimigos são governos ou instituições do Brasil e do mundo, representados por seus dirigentes. Eu quis mostrar que na minha região é assim, no meu país é assim e no resto do mundo também é assim. Em certo aspecto, a série Inimigos se parece com trabalhos anteriores, pois foi motivada por incômodos que eu não identificava com clareza. Foi um expurgo. Em julho de 2005, eu havia desenhado uma mão enfiando violentamente um revólver na boca de George Bush. No mês seguinte, fiz o primeiro desenho da série, Autorretrato matando George Bush, que foi exposto em Campinas-SP junto dos desenhos de Lula e Bento XVI. Ainda em dezembro de 2005, expus a série completa na Galeria Mariana Moura, no Recife. Em 2006, mostramos na Casa da Ribeira, em Natal, e, em 2008, no Atelier Subterrânea, em Porto Alegre. Na Bienal de São Paulo, em 2010, incluí o desenho matando Ahmadinejad. A série fala da minha raiva por ter sido enganado durante tanto tempo, e da minha descrença em qualquer alteração ética no quadro político brasileiro.
Fonte: Revista Continente, escrito por Fernando Augusto S. Neto, publicado em 01 de Outubro de 2013. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
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Biografia do artista pernambucano José Cláudio destaca simplicidade e erudição | Diário de Pernambuco
Os passarinhos, o cotidiano da população rural, as festas populares eas frutas dos engenhos da Zona da Mata de Pernambuco que recortam a infância do artista plástico José Cláudio se tornaram marcas de suas pinturas. Entender a obra é voltar à casa dele em Ipojuca, conhecer a loja do pai, onde aproveitava os embrulhos das mercadorias para desenvolver os primeiros desenhos. A mudança para o Recife, onde estudou e atuou como no Atelier Coletivo, virou o ápice de sua produção artística.
Em Aventuras à mão livre, biografia do artista, o jornalista Júlio Cavani resgata as memórias e constrói a narrativa de vida de um dos maiores nomes da arte de Pernambuco, que experimentou diferentes fases estéticas e múltiplas temáticas, passando pelo desenho, pintura, gravura, escultura, história em quadrinho, murais e literatura. Lançada no último semestre, a obra terá evento com sessão de autógrafo nesta quinta (23), às 19h, na Garrido Galeria (Rua Samuel de Farias, 245, Casa Forte). O livro, editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), integra a coleção Perfis, sobre 15 homens e mulheres que construíram importantes carreiras no estado. O exemplar custa R$ 40.
“Eu já admirava José Cláudio como artista, conhecia parte da obra dele, mas não o conhecia pessoalmente. No primeiro contato, a conversa fluiu bem. Tive sorte de biografar um personagem que estava disposto a falar. Ele conta bem as histórias e reúne bem as memórias de todas as fases de vida. Foi legal fazê-lo revisitar suas histórias. E ele achou interessante alguém disposto a reunir os seus relatos”, conta Júlio Cavani.
“Eu me propus a começar do zero. Encontrei José pela primeira vez sem ter feito muitas pesquisas. Cheguei lá para ouvir a vida dele, usando o próprio como fonte principal. E a partir daí fui seguindo uma ordem cronológica, da infância, adolescência, trabalho, amadurecimento. Após o primeiro contato, passei a ler, entre uma entrevista e outra, um artigo ou livro autobiográfico dele. Esse material servia tanto para me sugerir perguntas quanto me guiar para investigar alguns detalhes”, explica.
Conhecido pelos trabalhos coloridos e figurativos, José Cláudio teve a juventude mergulhada em aprendizados com Abelardo da Hora, Carybé, Mário Cravo, Arnaldo Pedroso d’Horta e Di Cavalcanti, e se consagrou como artista no circuito da arte contemporânea, nas décadas de 1950 a 1970, quando desenvolvia desenhos e gravuras considerados mais experimentais. Durante o período, o Atelier Coletivo foi o grande espaço de experimentação do artista. A fase é abordada em várias passagens no livro, como no capítulo Dos carimbinhos aos quadrinhos, onde o autor descreve a formação e experiência do artista com xilogravuras e a estreia nas tirinhas de HQ.
“Entre as décadas de 1950 e 1970, José Cláudio recebeu prêmios como melhor desenhista do Brasil. Eu queria ter mais contato com as obras produzidas por ele nesse período. Muitas foram vendidas e estão espalhadas pelo país, mas seria importante um estudo com todos os trabalhos que ele produziu nesse período. É de uma riqueza artística muito grande”, salienta Cavani. As narrativas de vida de José Cláudio foram colhidas por Cavani em15 conversas presenciais na casa do artista, com duração média de duas horas, sempre no início da noite. O horário, escolhido por Cláudio, tinha por objetivo livrar a claridade do dia e da tarde, que o artista usa para pintar telas em seu ateliê, que funciona no térreo da casa onde mora, no bairro do Monte, em Olinda.
“Eu procurei transmitir a espontaneidade de José, a forma como ele trabalha e idealiza tudo com naturalidade e calma. Quem conversa com José Cláudio percebe que ele é simples, mas por dentro é profundo e erudito. Ele anda com naturalidade por feiras públicas, da mesma forma que circula em eventos intelectuais. Ele nunca perdeu a simplicidade, apesar de toda riqueza imaterial”, destaca. Para pesquisas estéticas, José Cláudio viajou pelos EUA, Europa, África e diversos estados brasileiros, como Amazonas, Bahia, Rio e São Paulo.
O autor do livro destaca ainda a grande paixão do artista: o carnaval do Recife, a festa que guiou a temática de obras por mais de duas décadas. “Sofri muitas mudanças na minha vida, mas uma coisa não mudou: a idolatria pelo carnaval do Recife. Não tenho mais pernas para acompanhá-lo, mas me sinto inteiro e novo quando ouço um frevo de Zumba, de Capiba e por ai vai...”, escreveu José Cláudio, em crônica publicada na Revista Continente, em novembro de 2017. Em 2012, o pintor foi escolhido como homenageado da folia recifense. Nada mais justo.
Fonte: Diário de Pernambuco. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.
Crédito fotográfico: UOL. Consultado pela última vez em 4 de abril de 2025.